sábado, 10 de fevereiro de 2018

LIÇÃO


Eu não tenho vergonha, nem tenho qualquer problema em ser quem sou. — É desta forma simples que Adolfo Mesquita Nunes, 40 anos, deputado e vice-presidente do CDS, esclarece tudo. Já o havia feito num comício na Covilhã, durante as últimas autárquicas, a pretexto de um cartaz grafitado, mas o assunto morreu.

Hoje, no Expresso, vem tudo em letra de forma numa entrevista de vida. Nada disto é novidade para os duzentos happy few do costume, mas Adolfo Mesquita Nunes deu uma lição a dezenas dos seus pares no Parlamento e nos partidos, incluindo os da esquerda dura, que têm os armários a rebentar pelas dobradiças. É bom saber que há gente com a fibra de Graça Fonseca (PS) e Adolfo Mesquita Nunes. Porque, ao contrário do que defendem alguns, a inscrição pública é um dever para legisladores, governantes, intelectuais, artistas e, grosso modo, formadores de opinião.

Clique na imagem do Expresso.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

HOWARD & KLOUGART


Hoje na Sábado escrevo sobre o primeiro volume do quinteto Os Anos da Inocência, de Elizabeth Jane Howard (1923-2014), uma grata surpresa. Já era altura dos portugueses conhecerem esta romancista inglesa, até agora inédita em Portugal. Autora de romances, ensaios e uma autobiografia corrosiva, Elizabeth Jane Howard foi durante muitos anos vista como ‘a mulher’ de Kingsley Amis, que foi seu terceiro marido. Porém, o enteado, Martin Amis, nunca subestimou a importância da obra da madrasta. E não está sozinho nos encómios. A autora foi vítima do preconceito que menorizava a escrita de mulheres, sobretudo se, como é o caso, os temas centrais não fossem fracturantes (como à época eram os de Simone de Beauvoir). Pelo contrário, Elizabeth Jane Howard preocupou-se em descrever pessoas, hábitos, costumes e situações comuns. E nem por isso deixou de ser uma mulher emancipada. A par de vários casamentos e affairs episódicos, teve ligações amorosas com o poeta Cecil Day-Lewis e Arthur Koestler. A história da família Cazalet, nos anos que vão de 1937 a 1956, preenche os cinco volumes desta saga familiar de classe alta. Por enquanto estamos em 1937-38. O Verão na casa do Sussex foi atribulado. Cada um dos quatro filhos de Kitty e William Cazalet (Hugh, Edward, Rachel e Rupert) tem idiossincrasias muito próprias, e a única rapariga, que é solteira, até tem um segredo. O negócio das madeiras está em declínio, mas, naquele Verão, ninguém quer pensar em desgraças. Nem a sombra da guerra iminente matiza a despreocupação do clã. Um espírito cínico dirá que se trata de um microcosmo à Downton Abbey, actualizado, mas isso não constitui óbice, porque Elizabeth Jane Howard consegue ser, ao mesmo tempo, subtil e penetrante no modo como efabula a intriga e dispõe as personagens. Fazer votos para que sejam rapidamente traduzidos e publicados os restantes volumes: Marking Time (1991), Confusion (1993), Casting Off (1995) e All Change (2013). Entretanto, se lermos com atenção, não será despiciendo encontrar pontos de contacrto entre Elizabeth Jane Howard e Jane Austen. Quatro estrelas. Publicou a Asa.

Escrevo ainda sobre Um de Nós Dorme, da dinamarquesa Josefine Klougart (n. 1985). Este terceiro romance da autora suscitou o entusiasmo da crítica escandinava quando foi publicado. Então com 27 anos, foi saudada como uma nova Virginia Woolf, o tipo de rótulo que tende a defraudar expectativas. Afinal, lá onde Ms Woolf sempre foi subtil, mas exacta, Josefine é aleatória no modo como usa o fluxo da consciência. Não refeita de um desaire amoroso, a narradora sem nome erra pelas neves da Jutlândia. Vai a caminho da casa da infância onde a mãe morre lentamente de cancro. Sincopada, umas vezes na primeira pessoa, outras na terceira, a narrativa é fragmentada pelos efeitos da depressão e o transtorno de personalidade limítrofe da narradora. O monólogo interior ajuda: «Não resta muita realidade no teu corpo. É como se as tuas representações do mundo tivessem assumido o controlo.» Avanços e recuos no tempo compõem o récit. A história vem da fundação dos tempos: mulher encontra homem («Mas ele não percebeu que me sirvo dele para adiar a morte»), vivem dias vibrantes e, de repente, tudo acaba. Tão prosaico como isto. Três estrelas. Publicou a Elsinore.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

CRASH


As 500 pessoas mais ricas do mundo tiveram uma noite negra, e as que conseguiram dormir acordaram um bocadinho mais pobres. Taditas! Tudo porque Wall Street entrou em colapso após o trambolhão do Dow Jones. Nas bolsas asiáticas o pânico é generalizado.

Motivo? Especula-se muito. Hipóteses: o discurso dos «três olhos fechados» teria sido transmitido em directo na CNN; ou, aposto nesta, leram o prognóstico da Economist sobre uma guerra nuclear antes do fim do ano.

Clique na imagem da Bloomberg.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

A VIDA COMO ELA É


Isto foi sexta-feira, mas só agora tive acesso à gravação. Miguel Sousa Tavares sem papas na língua no Expresso da Meia Noite, a propósito do famigerado Caso Centeno. Não fica pedra sobre pedra do MP.

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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O GOLPE


O golpe não colou: «Realizado o inquérito, recolhida a prova documental e pessoal necessária ao apuramento dos factos, o MP concluiu pela não verificação do crime de obtenção de vantagem indevida ou qualquer outro, uma vez que as circunstâncias concretas eram suscetíveis de configurar a adequação social e política própria da previsão legal

Alega o MP que não podia ignorar as notícias dos jornais. Portugal está a tornar-se um país perigoso.

A imagem é do Expresso. Clique.

STENDHAL


Hoje na Sábado escrevo sobre O Vermelho e o Negro, a obra-prima de Stendhal (1783-1842). Se as minhas contas estão certas, a presente edição corresponde à sexta tradução feita no nosso país. Iniciada por Rui Santana Brito, entretanto falecido, foi concluída por Helder Guégués. Um trabalho que honra a edição portuguesa. Nascido Henri Beyle numa família burguesa com pretensões aristocráticas, o futuro escritor adoptaria o pseudónimo de Stendhal. Antes disso fez parte dos exércitos de Napoleão (assistiu ao incêndio de Moscovo), foi plenipotenciário do ministério da Guerra e agente duplo. Negado o credenciamento como cônsul em Trieste, o Papa não se opôs que fosse para Civitavecchia. Publicado em Novembro de 1830, O Vermelho e o Negro foi o primeiro dos três romances que fariam dele um nome maior da literatura universal, sendo os outros A Cartuxa de Parma (1839) e Lucien Leuwen, escrito a par dos anteriores, mas só publicado postumamente em 1894. Dividido em duas partes, O Vermelho e o Negro é a história da ascensão e queda de Julien Sorel, um deserdado da sociedade que tentará, por todos os meios, aproveitar-se da Restauração para triunfar. O título é inspirado nas cores da carreira militar (vermelho) e eclesiástica (negro), os dois pólos da intriga. Tudo começa quando Julien, então com 19 anos, é admitido como preceptor dos filhos da família Rênal, notáveis de Verrières. Julien torna-se amante da ‘patroa’, mas o affaire acaba mal. Mais tarde, após uma passagem pelo seminário de Besançon, Julien vai para Paris e seduz a filha do marquês de La Mole, membro da mais alta aristocracia, que o contratara como secretário. A subida na hierarquia social não abafa o profundo rancor de Julien, dando azo ao trágico desfecho. A trama é praticamente decalcada do caso Antoine Berthet, uma cause célèbre de 1828. Nesta edição, o subtítulo original, ‘Crónica do século XIX’, passou para Crónica de 1830. Quando O Vermelho e o Negro saiu, já Stendhal publicara várias obras, tais como estudos sobre Racine e Shakespeare, além do romance de estreia, Armance, (1827), relato da vida nos salões parisienses. Cinco estrelas. Publicou a Guerra & Paz.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

OPERA BUFFA


Ironia suprema: dois foragidos da justiça a invocarem o Estado de Direito.
Clique nas imagens.

NÓ CEGO


Através da rede Signal, parceira da WhatsApp, Puigdemont desabafou com Antoni Comín, um dos acantonados em Bruxelas:

«Estamos viviendo los últimos días de la Catalunya Republicana. Los nuestros nos han sacrificado, al menos a mí. Vosotros seréis consellers (espero y deseo), pero yo ya estoy sacrificado tal como sugería Tardà. [...] El plan de Moncloa triunfa. Solo espero que sea verdad y que gracias a esto puedan salir todos de la cárcel porque si no, el ridículo es histórico. [...] No sé que me queda de vida (¡espero que mucha!), pero la dedicaré a poner en orden estos dos años y a proteger mi reputación. Me han hecho mucho daño, con calumnias, rumores, mentiras, que he aguantado por un objetivo en común. Esto ha caducado y me tocará dedicar mi vida en defensa propia

O advogado de Comín confirmou a recepção das mensagens, às quais o seu constituinte não deu resposta.

A rede Signal é suposta ser mais segura que o WhatsApp mas, como demonstrado neste episódio, só um tolo pode permitir-se a ilusão de driblar a intelligence.

Clique na imagem do jornal catalão La Vanguardia.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

BARCELONA SINE DIE


Em Barcelona, centenas de manifestantes romperam o cordão policial que defendia o Parque de la Ciutadella, em protesto contra o adiamento, sine die, da investidura do próximo Presidente da Generalitat. A intenção é acamparem ali.

Roger Torrent, o Presidente do Parlamento, propôs Puigdemont como candidato único. Mas Puigdemont é um foragido da justiça. E uma investidura à distância (via teleconferência), como o próprio pretendia, seria declarada de efeito nulo nos termos de um acórdão unânime proferido no sábado, dia 27, pelos juízes do Tribunal Constitucional de Espanha. O acto seria considerado nulo e os seus responsáveis incriminados.

Hoje, sem dar conhecimento prévio aos deputados, incluindo os do seu partido, a ERC, Roger Torrent adiou a sessão sine die.

A facção mais exaltada dos independentistas não gostou.

Clique na foto de El País.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

GONÇALO M. TAVARES


Hoje na Sábado também escrevo sobre O Reino, de Gonçalo M. Tavares (n. 1970). Entre os novos, ou seja, entre autores com menos de 50 anos, o autor distingue-se pela produção torrencial: somando romance, poesia, teatro e outro tipo de narrativas, algumas de natureza ensaísta, são 36 títulos em 16 anos. Agora, para assinalar o 10.º aniversário do fim da tetralogia O Reino, foram publicados em volume único os denominados romances: Um Homem: Klaus Klump / A Máquina de Joseph Walser / Jerusalém / Aprender a rezar na Era da Técnica. O mais recente, Aprender a rezar na Era da Técnica, foi o que suscitou maior empatia junto da crítica e do público. Dispensar preliminares e abrir com uma cena de sexo é um teaser infalível: «E o adolescente Lenz, determinado, avançou sobre a criadita.» Em adulto terá outra desenvoltura, como ilustrado na cena de sodomia (ou será apenas na posição de cachorro?). Como da primeira vez, o acto é presenciado: ali pelo pai, aqui por um vagabundo. Continuamos a falar de sexo. O resto é metafísica, mais ou menos germânica, área em que Tavares encontrou o seu nicho de eleição. Isso também o destaca da produção dominante. Quatro estrelas. Publicou a Caminho.

CESARINY


Hoje na Sábado escrevo sobre Poesia, volume de quase oitocentas páginas que colige a obra poética de Mário Cesariny (1923-2006). Coube a Perfecto E. Cuadrado o árduo trabalho de edição, conhecendo-se, como os leitores conheciam, as constantes rearrumações de poemas, mudanças de títulos e outros acertos caros aos poetas. Por exemplo, ficaram de fora, entre outros, Titânia (1953) e Um Auto para Jerusalém (1964), obras que terão edição autónoma. Num extenso prefácio, Cuadrado sublinha quanto «a sua obra poética é uma das mais ricas e complexas aportações para a história da poesia portuguesa contemporânea», que o mesmo é dizer, a súmula perfeita dos vários modos que o século XX fixou, sem esquecer o realismo ainda audível em Nobilíssima Visão, publicado em 1959, porém escrito entre 1945 e 46. Vigiado pela polícia do Estado Novo nos anos 1950 (a condição homossexual era tipificada como vagabundagem), avesso a toda a sorte de maneirismos, Cesariny foi sempre um outsider — «Sou um homem / um poeta / uma máquina de passar vidro colorido» —, alguém que teve de esperar pelos 82 anos para receber o seu primeiro e único prémio literário, meses antes de morrer, não tendo publicado nenhum livro desde O Virgem Negra, de 1989: «O Álvaro gosta muito de levar no cu / O Alberto nem por isso / O Ricardo dá-lhe mais para ir / O Fernando emociona-se e não consegue acabar.» Ou seja, Fernando Pessoa explicado às criancinhas. As várias secções de Pena Capital (1957) reúnem alguns dos poemas-fétiche do autor, tais como You Are Welcome to Elsinore, De Profundis Amamus, Autografia I, Outra Coisa, Being Beauteous e Exquisite Poem. Poemas da fase londrina que são hoje património da língua. Por não caber nas baias do surrealismo, Cesariny desmontou-o com alto grau de corrosão: «Este passo encontrado que nos guia entre as mesas / este chegar tão tarde às pontes levadiças / para uma exposição de rosas no nevoeiro / este eterno trabalho de dadores de sangue / é o que mais nos defende do massacre». O volume inclui a bibliografia do autor, cronologia biográfica e notas aos poemas. Cinco estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

GERMANA TÂNGER 1920-2018


Com 98 anos, morreu ontem à noite Germana Tânger, epítome da diseuse passional. Professora do Conservatório Nacional durante 25 anos, titular da cátedra de Estudos Camonianos na Sorbonne, actriz bissexta, encenadora, mas, sobretudo, diseuse, Germana Tânger tornou-se célebre quando, em 1959, declamou na íntegra, e de cor, a Ode Marítima de Álvaro de Campos. (No Teatro da Trindade, em Lisboa, uma placa assinala os 40 anos desse espectáculo.) Viveu vários anos no Brasil, país onde o marido exerceu o cargo de adido cultural. Tendo toda a vida privado com os nomes mais destacados da cultura portuguesa, publicou em 2016 a sua autobiografia, Vidas Numa Vida. Figura mítica do Ancien Régime, a democracia não lhe regateou homenagens e comendas. Jorge Sampaio fez dela Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, as Câmaras de Lisboa e de Sintra atribuiram-lhe as respectivas medalhas de Mérito Cultural Grau Ouro, e a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género distinguiu-a com o Prémio Maria Isabel Barreno, destinado a mulheres criadoras de Cultura. E a editora Assírio & Alvim, ainda no tempo de Manuel Hermínio Monteiro, dedicou-lhe um número especial d'A Phala.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

CANDIDATURA


Passou despercebida a notícia de que a Academia Sueca pediu formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura: «Em nome da Academia Sueca [...] temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018.» O primeiro subscritor da carta, datada de Novembro, é Per Wästerberg, chairman do Comité Nobel.

Assim, no passado dia 11, os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram os nomes de Manuel Alegre, o mais votado, e Agustina Bessa-Luís. Tirando o Expresso e a revista Sábado, não vi a notícia em mais lado nenhum.

Os candidatos ao Nobel não são propostos pela opinião pública, nem pelas redes sociais, nem pelos media, nem por associações e lobbies corporativos, nem por campanhas agressivas de marketing. São propostos por antigos laureados, por Academias nacionais ou instituições de prestígio irrefutável. E até pode não existir proposta e o Comité Nobel saber exactamente o que quer. O resto é ruído.

A VIDA COMO ELA É

O respeitinho é muito bonito. Começou hoje o julgamento da Operação Fizz, mas a sessão foi interrompida a pedido do MP, que queria, e conseguiu, dividir em dois o processo que alegadamente envolve o procurador Orlando Figueira e o antigo vice-Presidente de Angola, Manuel Vicente. Figueira responde já pelo alegado recebimento de 763 mil euros. Vicente mantém imunidade diplomática. Se era para chegar aqui, mais valia terem evitado o braço de ferro.

EM QUE FICAMOS?


Puigdemont chegou esta manhã (08:20 locais) a Copenhaga, onde vai proferir uma conferência. O Ministério Público espanhol pediu a reactivação da ordem europeia de detenção. Se isso acontecer, Puigdemont poderá ser preso a qualquer momento, na medida em que a legislação dinamarquesa, ao contrário da belga, não tem empecilhos processuais em matéria de extradição.

Entretanto, em Barcelona, Roger Torrent acaba de propor Puigdemont como candidato único à presidência da Generalitat. Dando de barato a aritmética (65 independentistas vs 65 constitucionalistas) e o exílio do candidato, a decisão de Torrent terá como provável consequência prolongar o estado de sítio na Catalunha.

domingo, 21 de janeiro de 2018

GROKO AVANÇA


Merkel pode respirar de alívio. Por 362 contra 279 votos (e uma abstenção), os delegados ao congresso do SPD realizado hoje em Bona mandataram Schulz para negociar formalmente a constituição do próximo Governo alemão. A menos que a votação directa dos 440 mil militantes do partido desautorizem o Congresso.

A Alemanha está sem Governo desde as eleições do passado 24 de Setembro, porquanto os 33% e 246 lugares da CDU/CSU são insuficientes para governar. O SPD teve o seu pior resultado (20%) desde 1945 justamente por ter governado coligado com Merkel. Mas, face a novas eleições que provavelmente fariam subir o score da extrema-direita, Schulz convenceu o partido. Se tudo correr bem, no fim de Março haverá Governo em Berlim.

Clique na imagem do Spiegel.

sábado, 20 de janeiro de 2018

CALL ME BY YOUR NAME


Sim, fui ver. Não, não é uma obra-prima. Mas devia ser visto por todos os papás e mamãs com filhos menores. E talvez exibido em escolas do ensino secundário. Adaptado do romance homónimo de André Aciman, o escritor judeu sefardita, nascido em Alexandria, que ensina teoria literária em Nova Iorque, o filme sinaliza todas as idiossincrasias do autor: tradição hebraica, cultura árabe e homossexualidade. O romance é de 2007, o filme é de 2017. James Ivory escreveu o argumento e co-produziu. A realização é de Luca Guadagnino, que passou a infância na Etiópia e é filho de mãe argelina. Sublinho intencionalmente o melting pot.

Timothée Chalamet, 22 anos, e Armie Hammer, 31, são os protagonistas desta história de amor vivida em 1983, em Crema, na Lombardia. Plot: arqueólogo italiano de origem judaica contrata assistente judeu-americano para o ajudar nos meses de férias, filho do arqueólogo (dezassete anos) apaixona-se pelo assistente do papá (vinte e muitos anos), o qual retribui com o dobro da convicção, os pais do adolescente percebem e apoiam, as férias acabam, os dois passam uma semana sozinhos nas montanhas, o americano regressa a casa e, na tarde do Hanukkah, telefona a dizer que vai casar por imperativo social. Seguir com atenção a conversa do pai com o filho depois da separação. As cenas entre os dois rapazes são persuasivas e estão filmadas com elegância, mesmo a do pêssego besuntado com esperma. Não esquecer que tudo isto se passa na Itália de 1983, entre gente culta, com desafogo económico e respeito pelas tradições hebraicas. Ecos de Visconti e vagas reminiscências de Il giardino dei Finzi-Contini (Vittorio de Sica, 1970) vêm-me à memória. Por último, a música de Sufjan Stevens não me parece nada adequada ao ambiente encantatório do filme, mas se calhar sou eu que sou cota.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 56,7%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 14,4% (e a PAF em 7,4%). A popularidade de António Costa e a aceitação do Governo continuam a subir. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CRUZ & TCHERNICHÉVSKI


Hoje na Sábado escrevo sobre Jalan Jalan, de Afonso Cruz (n. 1971). Cada novo livro do autor costuma ser sinal de boa surpresa. Nessa medida, Jalan Jalan não desilude. Antes pelo contrário. Para a maioria dos leitores o título soará estranho, mas o autor explica: «Jalan significa rua em indonésio […] Jalan jalan, a repetição da palavra, que muitas vezes forma o plural, significa, neste caso, passear.» Passear vai bem com o autor, flâneur multidisciplinar da vida cultural portuguesa. Jalan Jalan é um livro sobre experiências de viagem, narradas numa sucessão de textos de tamanho variável, conectados entre si por remissões temáticas. No fim de cada, uma janela sinaliza os envios. Não são crónicas, no sentido canónico, mas textos abertos que compõem um macrotexto. Já uma vez escrevi que o autor é um dos mais cultos da sua geração, e este livro, na sua prosa fluída, no modo inteligente como nos dá a ler o mundo, é prova bastante. Este juízo não ignora o diálogo hábil com obras e autores de todos os tempos (Marco Aurélio, Schrödinger, etc.), o contrário de um name-dropping fútil. Afonso Cruz usa as viagens como ferramentas do conhecimento, em aspectos centrais da vida dos povos, como sejam a cultura, a organização política, a religião, os hábitos e costumes de civilizações milenares. As experiências de viagem aqui vertidas ora nos surpreendem na Bolívia ou na Estónia, fugindo quase sempre ao clichê. Não diria o mesmo do ‘retrato’ de Berlim: sendo exacto, encaixa na caracterização de Londres ou Nova Iorque. Ironia suprema: a cidade tornou-se «uma capital tão homogénea […] como tantas outras»… no preciso momento da reunificação, porquanto o inventário de ‘diferenças’ constitui o máximo denominador comum. Dito de outro modo, o autor deixou-se envolver pela heterodoxa onda de cosmopolitismo da capital alemã, afinal replicável noutras metrópoles. Fique registado porque não é despiciendo: ao contrário da maioria dos autores ‘novos’, Afonso Cruz não se inibe de dizer o que pensa da contemporaneidade. Sirva de exemplo o texto Eles vêm todas as madrugadas. Sim, estamos a falar da oligarquia dos banqueiros e do colapso da Europa. Com excepção de duas, todas as fotografias são do autor. Cinco estrelas. Publicou a Companhia das Letras.

Escrevo ainda sobre O Que Fazer?, de Nikolai Tchernichévski (1828-1889). Pode um romance mudar o rumo História? Tendo em vista as repercussões do único romance escrito pelo autor, diremos que sim. Joseph Frank, o biógrafo de Dostoiévski, sublinha: «O romance de Tchernichévski, mais que O Capital de Marx, forneceu a dinâmica emocional que eventualmente desembocou na Revolução Russa.» Líder dos democratas revolucionários russos, Tchernichévski foi preso em São Petersburgo e exilado para a Sibéria, onde permaneceu vinte anos. Ali escreveu O Que Fazer?, obra que inspirou vários políticos, entre eles Rosa Luxemburgo e Lenine, que até escreveu um livro com o mesmo título, mas também escritores da craveira de Strindberg e Nabokov. Escrito e publicado em pleno czarismo, O Que Fazer? viria a tornar-se um clássico da literatura soviética. Traduzido directamente do russo, o livro chegou finalmente à edição portuguesa. Lido hoje, o plot parece trivial. Mas na sociedade russa de 1863 não era comum os escritores fazerem a defesa da emancipação das mulheres. Nem os personagens de romance serem cidadãos que abdicam dos seus privilégios em favor do ideal socialista. Se lhe acrescentarmos transgressão moral, percebemos melhor o sucesso da obra. Quatro estrelas. Publicou a Guerra & Paz.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

PARLAMENTO CATALÃO


O novo Parlamento catalão foi hoje investido. Roger Torrent, 38 anos, da ERC, é o novo Presidente. À segunda volta, foi eleito por 65 votos, contra os 56 obtidos por José María Espejo-Saavedra, do CIUDADANOS. Os votos em branco foram 9.

Os vice-presidentes da Mesa são Josep Costa, de JUNTSxCAT, e José María Espejo-Saavedra, de CIUDADANOS.

Aguardar os próximos capítulos.