quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ACTO SIMBÓLICO


O juiz Pablo Llarena, do Supremo Tribunal de Espanha, deu um prazo de sete dias a Carme Forcadell para pagar uma fiança de 150 mil euros e, assim, sair da prisão de Alcalá Meco para onde seguiu esta noite. A ex-Presidenta do Parlamento catalão afirmou durante a inquirição que «a declaração unilateral de independência da Catalunha foi um acto simbólico sem efeitos jurídicos». Quando sair da prisão está proibida de sair de Espanha.

Os outros membros da Mesa, Lluís Maria Corominas, Anna Simó, Lluis Guinó e Ramona Barrufet, aguardam o julgamento em liberdade, tendo sete dias para pagarem, cada um deles, uma fiança de 25 mil euros.

Joan Josep Nuet, que votou contra a DUI, saiu em liberdade, sem fiança, mas com termo de identidade e residência.

A HORA DO SUPREMO


Acusados de rebelião, sedição, desvio de fundos públicos, prevaricação e desobediência, Carme Forcadell, ex-Presidenta do Parlamento catalão, bem como Lluís Maria Corominas, Anna Simó, Lluis Guinó, Ramona Barrufet e Joan Josep Nuet, membros da Mesa, começaram hoje a ser ouvidos no Supremo. O MP pede prisão incondicional para todos, excepto Joan Josep Nuet, que votou contra a DUI. À chegada ao tribunal foram recebidos com insultos e um mar de bandeiras de Espanha. Recordar que o Supremo avocou todos os processos referentes ao referendo e à DUI que corriam nos tribunais catalães.

Na imagem, Carme Forcadell, hoje. Foto de El País. Clique.

SAGAN & KENZABURO


Hoje na Sábado escrevo sobre Bom Dia, Tristeza de Françoise Sagan (1935-2004). Em Março de 1954, a vida literária francesa foi abalada por um escândalo não previsto: uma adolescente de 18 anos acabava de publicar o seu primeiro romance, Bonjour Tristesse. Nunca uma menor de idade ousara desafiar as convenções. Sagan não vinha do bas-fond nem estava por conta de um editor oportunista. Pelo contrário, era filha da grande burguesia industrial francesa e frequentava o beau monde mais exclusivo. A sua passagem por um convento tinha sido uma vénia à tradição de libertinagem do século XVIII. As ondas de choque não impediram que o livro tivesse vencido o Prémio dos Críticos, por decisão de um júri que incluía gente como Bataille, Caillois e Blanchot. O filósofo existencialista Gabriel Marcel foi um dos seus defensores. Bom Dia, Tristeza regressa agora às livrarias portuguesas, na tradução de Isabel St. Aubyn, a mais recente das três que o livro teve em Portugal. Sagan fala sem eufemismos das exigências do corpo, de consumo de álcool e drogas, de relações livres: «Anne acariciava-me o cabelo, a nuca, muito terna. […] Nunca experimentara uma fraqueza tão usurpadora, tão violenta. Fechei os olhos. Parecia-me que o meu coração cessara de pulsar.» Era o início de uma Obra desigual mas prolífica: vinte romances e vários volumes de diário e memórias. Muitos dos seus livros foram adaptados ao cinema (a começar por este) e ao teatro, porque Sagan se tornou uma figura planetária e, sem que ainda se soubesse, a última escritora mundana. A imprensa nunca mais a largou: militância política contra a Guerra da Argélia e no Maio de 68, casos amorosos com homens e mulheres (a jornalista Annick Geille foi sua companheira durante muitos anos), dois casamentos e um filho, cocaína, orgias, noites de roleta em Monte Carlo, o traumático acidente quando conduzia o Aston Martin, o envolvimento com Mitterrand no caso do petróleo do Uzbequistão, acusações por fraude fiscal, doença e morte. Esta reedição em capa dura inclui ilustrações de Mily Possoz, o fac-símile do despacho da PIDE — que classificou o livro como «francamente amoral» —, e posfácio de Jorge Reis-Sá. Quatro estrelas. Publicou a Casa dos Ceifeiros.

Escrevo ainda sobre Morte pela Água, do japonês Kenzaburo Oe (n. 1935), Prémio Nobel da Literatura em 1994. Com meia dúzia de livros traduzidos no nosso país, o autor regressa às livrarias portuguesas com o seu romance mais recente, em tradução de Helder Moura Pereira feita a partir a edição de língua inglesa. O título é ‘roubado’ a The Waste Land, de T. S. Eliot. O narrador é Kogito Choko, alter-ego do autor que os leitores conhecem de obras anteriores. Pode-se dizer que Morte pela Água é um livro-testamento, a obra de um escritor que chega a um ponto da sua vida em que se vê coagido a mergulhar em lembranças remotas: a infância no campo e o tempo em que acalentava o sonho de ser escritor. Por outro lado, o conflito com as ambiguidades do Japão ‘imperial’ é um tema obsessivo. Além de Eliot e A Terra Devastada, Kenzaburo põe em pauta outras obras e autores, sendo Edward Said, que foi seu amigo, um deles. Iconoclasta, controverso, Kanzaburo Oe recusou a Ordem da Cultura por não reconhecer autoridade ao Imperador. Quatro estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

O MURO


Com o derrube do Muro de Berlim, na noite de 9 de Novembro de 1989, a História mudou. Faz hoje 28 anos. Nessa noite, milhares de alemães da RDA atravessaram a fronteira que separava as duas Alemanhas. Nunca até então a utopia fora um facto. Em menos de um ano (ao fim de 339 dias), Helmut Kohl acabou com a RDA e fez a reunificação alemã. Em Dezembro de 1991, a URSS implodiu.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

UM SÉCULO

Faz hoje cem anos triunfou em Petrogrado, actual São Petersburgo, a primeira revolução comunista da História. Pelo calendário Juliano, era 25 de Outubro na Rússia, 7 de Novembro no Ocidente. Oito meses após a Revolução de Fevereiro que levou à abdicação de Nicolau II (o czar tinha contra si o povo, os militares, a intelligentsia, a grande nobreza, a nobreza boiarda, a classe política, os exilados e as Potências) e à tomada de posse de dois governos provisórios, o primeiro chefiado pelo príncipe Georgy Lvov, o segundo por Kerensky, a Revolução de Outubro derrubou a Monarquia e impôs o regime que durou até 26 de Dezembro de 1991. Deixou um saldo de mais de 50 milhões de mortos, número que inclui as vítimas do Holodomor, a grande fome da Ucrânia imposta por Estaline entre 1932 e 33. Até morrer em 1924, Lenine foi quase sempre o homem forte.

A URSS nasceu em 1922, agregando quinze países dentro das suas fronteiras, ao mesmo tempo que mantinha um controlo férreo sobre outros sete, teoricamente independentes: RDA, Polónia, Hungria, Checoslováquia, Bulgária, Roménia e Albânia. A entrada dos tanques do Pacto de Varsóvia em Budapeste (1956) e Praga (1968) acabou com as últimas ilusões. Tudo visto, a Revolução de Outubro acabaria por influenciar o rumo do século XX.

Hoje, em Moscovo e São Petersburgo, não está agendada nenhuma cerimónia oficial ou oficiosa para celebrar a data.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

LILI


Grande mulher. Vem a propósito citar Adília Lopes:

«Eu quero foder foder / achadamente / se esta revolução / não me deixa / foder até morrer / é porque / não é revolução / nenhuma [...]» — in Florbela Espanca Espanca, 1999.

WEB SUMMIT

Repito o que escrevi o ano passado. Faz-me confusão que um Governo do PS, apoiado pelo BE, PCP e PEV, patrocine a Web Summit. Eu sei que o evento coloca Lisboa no radar dos hot spots internacionais, enche hotéis, restaurantes, bares e discotecas, mas é o tipo que coisa que faria sentido ser apoiada pelo CDS. Os promotores da Web Summit sabem que o seu público-alvo são os jovens empreendedores que querem acabar com a Segurança Social, a Saúde e o Ensino público. A Web Summit é o triunfo do individualismo, cada um por si, sem deveres nem obrigações para com terceiros. Isto parece agit-prop. Se pensarem um bocadinho, vêem que não é.

TERROR


O terror voltou a abater-se sobre gente inocente. Até ao momento estão confirmados 26 mortos vítimas da matança da missa do meio-dia de domingo, na Primeira Igreja Baptista de Sutherland Springs (Texas). O atirador foi abatido. Tinha 26 anos e era um antigo soldado, expulso do Exército americano, com cadastro de violência doméstica sobre a mulher e o filho.

À esquerda da imagem o rosto do matador. Clique.

domingo, 5 de novembro de 2017

ESPERAR PARA VER

Os arautos catalanistas não têm motivo de satisfação. O MP belga limita-se a cumprir o protocolo, as démarches e os prazos estabelecidos na Lei. Tal como em Espanha, a Bélgica respeita a separação de poderes. Não havia razão para impor prisão preventiva a quem se apresentou voluntariamente e tem todo o interesse em estar na capital belga (até ao momento foram goradas as tentativas de um encontro com Jean-Claude Juncker), quanto mais não seja para desestabilizar o Governo, que depende do apoio de três partidos flamengos, um deles o independentista N-VA / Nieuw-Vlaamse Alliantie. Calma que a procissão ainda vai no adro.

CONDICIONAL


O juiz belga que os esteve a interrogar até às 20:40h acaba de conceder liberdade condicional a Puigdemont, Antoni Comín, Clara Ponsatí, Lluís Puig e Meritxell Serret. Enquanto prosseguir a instrução do processo de extradição, os cinco são obrigados a permanecer na Bélgica, sob vigilância policial e sem possibilidade de alterarem o domicílio declarado.

ARÁBIA SAUDITA


O mundo já não é o que era. Onze príncipes, um dos quais o todo-poderoso Al-Walid bin Talal, e ‘dezenas’ de antigos e actuais ministros, foram presos ontem em Riade. Em simultâneo, foram demitidos os dirigentes máximos da Marinha e da Guarda Nacional da Arábia Saudita (uma força interna de elite). O príncipe Miteb bin Abdullah, filho do antigo rei, foi afastado compulsivamente da guarda pretoriana da Casa Real.

Tudo aconteceu horas depois depois da publicação do decreto real que nomeou o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, 32 anos, para chefiar a comissão anticorrupção do reino que tem por função «preservar o dinheiro público, punir pessoas corruptas e todos os que lucram com sua posição...» Que isto tenha acontecido no dia em um míssil, alegadamente do Iémen, caiu perto do aeroporto de Riade, inspira teorias de conspiração.

Clique na imagem do príncipe Mohammad bin Salman.

sábado, 4 de novembro de 2017

ASSÉDIO


Se a espiral de insinuações, revelações e acusações prosseguir, a próxima entrega de Óscares será assim. Clique na fotomontagem.

O FOLHETIM


A bola passou para a Bélgica.
Clique na imagem do jornal Le Soir.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

OS CINCO


A juíza Carmen Lamela já enviou para Bruxelas a ordem de captura, prisão e extradição de Carles Puigdemont, Antoni Comín, Clara Ponsatí, Meritxell Serret e Lluís Puig, acusados de rebelião, sedição, desvio de fundos públicos e crimes conexos, prevaricação e desobediência. As autoridades belgas tencionam cumprir o mandado com celeridade.

Imagem do jornal belga Le Soir. Clique.

OE 2018

Com os votos a favor do PS, BE, PCP e PEV, foi há pouco aprovado na generalidade o OE 2018. O PAN absteve-se. PSD e CDS votaram contra. A votação final global, na especialidade, está agendada para o próximo dia 27.

E vão três Orçamentos de Estado aprovados pela maioria de Esquerda.

SER OU NÃO SER

Visto a partir do Facebook ou do Twitter, o problema catalão tem sido uma espécie de ressonância magnética da forma como entre nós se pensa a democracia. E sobretudo do descaso que muita gente faz da separação de poderes. A democracia tem regras. O Estado de direito tem obrigações. Avaliar uma democracia pelo perfil de actuação da Justiça é um equívoco e, nalguns casos, um exercício de má-fé

Vejamos: Sócrates estava em Paris e veio a Portugal prestar contas ao MP. Isso não impediu a sua detenção à chegada ao aeroporto e onze meses de prisão preventiva. Temos de concluir que Portugal não é uma democracia?

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS


Em 1975, um grupo de autonomistas de extrema-direita fundou a Frente de Libertação dos Açores, que contou com apoio declarado da grande burguesia local e, de forma ambígua, do Departamento de Estado americano. Durante cerca de catorze meses, a FLA intimidou, ameaçou e fez tábua rasa da soberania portuguesa. A bandeira da FLA mantinha-se içada nos edifícios públicos. Sedes do PCP e do MDP/CDE foram destruídas em Ponta Delgada e Angra do Heroísmo. Foi criado um Exército de Libertação dos Açores. O Rádio Clube de Angra estava por conta dos insurrectos. O general Altino Pinto de Magalhães, Governador Militar e Comandante-em-Chefe das Forças Armadas açoreanas, nada podia fazer. António Borges Coutinho, o Governador Civil, demitiu-se no dia da grande manifestação pró-independência.

Vamos imaginar que o episódio se repetia. Mas que, desta vez, além da independência, os separatistas eram monárquicos apostados em restaurar a Monarquia. Presumo que, nos termos da democracia praticada pelos românticos defensores de uma Catalunha independente, tudo se deve admitir, à revelia das Leis e da Constituição.

Ou haverá dois pesos e duas medidas?

Clique na imagem.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

CONSUMOU-SE

Por decisão da juíza Carmen Lamela Díaz, foi decretada prisão efectiva, com carácter incondicional, dos membros do extinto Governo catalão: Oriol Junqueras, Jordi Turull, Meritxell Borrás, Josep Rull, Raül Romeva, Carles Mundó, Dolors Bassa e Joaquim Forn.

Eram 17:40 em Portugal quando, com grande aparato de segurança, oito furgões da polícia transportaram os implicados do tribunal para as cinco prisões de Madrid onde vão ficar detidos.

PRISÃO

O juiz da Audiência Nacional pediu a prisão imediata e incondicional de Oriol Junqueras, Jordi Turull, Meritxell Borrás, Josep Rull, Raül Romeva, Carles Mundó, Dolors Bassa e Joaquim Forn. O único que aguardará em liberdade o julgamento é o ex-conseller Santi Vila, que se demitiu na véspera da DUI.

A HORA DE MADRID


Catorze dos vinte independentistas acusados pelo MP espanhol de rebelião, sedição, desvio de fundos públicos e crimes conexos, portaram-se como gente, respeitando a dignidade dos cargos que detinham e o povo que os elegeu.

Carme Forcadell, ex-presidenta do Parlamento catalão, mais Lluís Corominas, Anna Simó, Ramona Barrufet e Joan Josep Nuet compareceram perante o Supremo Tribunal. Em simultâneo, Oriol Junqueras, ex-vice-presidente do Governo catalão, mais Carmen Lamela, Jordi Turull, Joaquín Forn, Josep Rull, Dolors Bassa, Raül Romeva, Carles Mundó e Santi Vila, compareceram perante a Audiência Nacional. A pedido dos advogados, as sessões do Supremo foram adiadas para o próximo dia 9. Prosseguem as da Audiência Nacional. Até lá, ficam todos sob vigilância policial.

Entretanto, em Bruxelas, assessorado por Paul Bekaert, advogado dos terroristas da ETA, empanturrado de moules-frites, Puigdemont goza o panorama. Não está sozinho. Com ele estão os ex-consellers Clara Ponsatí, Antoni Comín, Lluís Puig e Meritxell Serret. Um rebate de consciência fez regressar Meritxell Borràs, que começou por integrar o bando, mas desistiu para apresentar-se à Justiça.

Como disse José Montilla, antigo Presidente da Generalitat, «foram as astúcias e os truques de Puigdemont que nos trouxeram aqui

Na imagem, Carme Forcadell à chegada ao Supremo. Clique.