sábado, 21 de outubro de 2017

ESPANHA

O Governo espanhol accionou hoje o art.º 155 da Constituição, que será votado pelo Senado no próximo dia 27. O PP detém maioria absoluta no Senado, mas o PSOE faz questão de votar ao lado do PP. Em resumo, as medidas aprovadas são as seguintes:

Carles Puigdemont e Oriol Junqueras são destituídos dos cargos de Presidente e vice-presidente da Generalitat.

O Governo catalão cessa todas as suas funções.

O Parlamento catalão mantém-se em funções, mas inibido de fazer nomeações ou de legislar contra o art.º 155. Carme Forcadell, a presidenta, mantém o cargo.

Madrid assume o controlo directo das Finanças, Economia, Autoridade Fiscal, Segurança, Polícias, Telecomunicações, Serviços Digitais e Informação (a direcção da TV3 será substituída).

Estão previstas eleições gerais na Catalunha entre Janeiro, como quer o PSOE, e Maio, como prefere o PP.

AXIMAGE


Sondagem Aximage, efectuada depois dos incêndios de domingo passado, divulgada hoje pelo Correio da Manhã. Clique nas imagens.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A VER VAMOS

Realiza-se amanhã, sábado, o Conselho de Ministros extraordinário que vai tirar consequências do Relatório da Comissão Técnica Independente nomeada pelo Parlamento. Antes (09:30), o Presidente da República dá posse a dois ministros e quatro secretários de Estado. Não sei o que vai sair do CM extraordinário. No momento em que metade do país colapsou, a nossa expectativa e a nossa exigência não podem deixar de ser muito altas. A ver vamos.

COISAS SÉRIAS

As armas furtadas em Tancos no passado 27 de Junho apareceram anteontem, 18 de Outubro, na Chamusca. Entre as duas datas, chefias do Exército e outros militares (um deles foi Vasco Lourenço) alertaram para a possibilidade de não ter havido furto. As armas ‘desaparecidas’ fariam parte de um lote abatido ao stock mas não registado como tal. Acontece muito, repetiu gente insuspeita. Fui dos que aceitaram a tese como boa. Mas eis que as armas surgem do nada após denúncia anónima. Dando de barato o facto de o seu desaparecimento e ulterior aparecimento terem ocorrido no pós-Pedrógão Grande e no pós-Domingo Negro, respectivamente, curiosa coincidência, o factor Chamusca muda tudo. Ou não?

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

KNOPFLI & JOUMANA


Hoje na Sábado escrevo sobre Nada Tem Já Encanto, antologia da poesia de Rui Knopfli (1932-1997) publicada nos vinte anos da morte do poeta. Um acontecimento. Pedro Mexia, que seleccionou os poemas a partir da obra completa do autor, tomou a decisão acertada de incluir dois livros na íntegra, Máquina de Areia (1964) e O Escriba Acocorado (1978), ambos «considerados um poema único dividido em várias secções». No tocante aos outros seis livros, a escolha privilegia os poemas que põem em pauta a identidade nacional (moçambicano ou português?) e a borrasca imperial: «Servidor incorruptível da verdade e da memória, / escrevo sentado e obscuro palavras terríveis / de ignomínia e acusação. […] A História que há-de ler-se é por mim escrita. / Anonimato igual nos cobrirá. A estas palavras não.» A obra de Knopfli, uma das grandes vozes da poesia de língua portuguesa, divide-se em duas fases distintas: a moçambicana (1959-72) e a do exílio (1978-97). Os seis anos de intervalo fizeram a catarse mnemónica que culminaria no livro derradeiro, O Monhé das Cobras (1997). Mas convém recuar meio século e ler os versos premonitórios de Reino Submarino (1962) ou, em registo oposto aos solavancos da História, verificar como Knopfli antecipou a poesia do real — vejam-se poemas como Fim de Tarde no Café, À Paris ou Guns in the Afternoon —, género, se assim lhe podemos chamar, que entre nós apenas seria consagrado na segunda metade dos anos 1970. Filho da burguesia fundadora e daquela Polana «mansa e boa» onde cresceu, Knopfli não receou fazer, antes do início da luta armada, o epitáfio da colonização. Sirvam de exemplo poemas como Certidão de Óbito («Um tempo de lanças nuas / espera por nós…») ou, sobre todos, O Preto no Branco, cujo último verso é o proémio da luta independentista: «Tudo quanto há-de gravar o meu nome / numa das balas da tua cartucheira. / Nessa bala hipotética, nessa bala possível / que se vier (ela há-de vir) // melhor dirá o que aqui fica por dizer.» Poeta déraciné, Knopfli logrou escapar ao inferno da «voz traída». O volume é prefaciado por Eugénio Lisboa. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre Eu matei Xerazade. Confissões de uma mulher árabe em fúria, da libanesa Joumana Haddad (n. 1970), primeiro título de uma nova editora, Sibila, que chega às livrarias com uma colecção dedicada à palavra das mulheres. Joumana escreve poesia, literatura erótica e livros infantis. Este livro oscila entre o ensaio e memórias da autora. A ironia do título teria o seu equivalente português em ‘Eu matei Nossa Senhora’. Joumana desconstrói o mito da mulher árabe subserviente, temente a Alá e às exigências do corpo: «sou definitivamente aquilo a que se costuma chamar uma mulher de tomates, mas não sofro de nenhuma inveja do pénis». A autora confessa estar farta de «metáforas fálicas» (sabres, mangueiras, pilares, etc.) e, nessa medida, chama as coisas pelo nome. A tradução de Inês Pedrosa ajuda. Numa linguagem irreverente, defende a revista que fundou em 2008, com o intuito de falar de literatura e do corpo: «Mas o objectivo central da JASAD não é o de ajudar os homens a ejacular…» O livro fecha com uma «tentativa de autobiografia» em forma de poema. Quatro estrelas. Publicou a Sibila.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

NOVO MAI


Eduardo Cabrita, actual ministro Adjunto, vai ser o próximo ministro da Administração Interna. A posse é no sábado, dia 21, antes do conselho de ministros extraordinário marcado para esse dia. O lugar de ministro Adjunto será ocupado por Pedro Siza Vieira.

CENSURA


O CDS vai apresentar amanhã uma moção de censura ao Governo. Em princípio, a moção será debatida e votada na próxima terça-feira, dia 24. O PSD já declarou ir votar a favor. Até aqui, nada de especial. As moções de censura fazem parte da vida parlamentar no mundo civilizado. Mas não deixa de ser irónico que seja o CDS (e não o PSD) a avançar com a iniciativa. O país não esquece que a Lei do Eucalipto, o Decreto-Lei n.º 96/2013, de 19 de Julho, saiu das mãos de Assunção Cristas, a actual líder do partido. E também não esquece as palavras de Paulo Portas.

DEMISSÃO


Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna, demitiu-se. Foi um erro político ter esperado pela comunicação do Presidente da República para o fazer, embora a ministra diga que já o tinha tentado logo após a tragédia de Pedrógão Grande.

Excerto da carta de demissão:

«Exmo Senhor Primeiro-Ministro,

Logo a seguir à tragédia de Pedrógão pedi, insistentemente, que me libertasse das minhas funções e dei-lhe tempo para encontrar quem me substituísse, razão pela qual não pedi, formal e publicamente, a minha demissão. Fi-lo por uma questão de lealdade. [...] Durante a tragédia deste fim de semana, voltei a solicitar que, logo após o seu período crítico, aceitasse a minha cessação de funções, pois apesar de esta tragédia ser fruto de múltiplos fatores, considerei que não tinha condições políticas e pessoais para continuar no exercício deste cargo, muito embora contasse com a sua confiança. Tendo terminado o período crítico desta tragédia e estando já preparadas as propostas de medidas a discutir no Conselho de Ministros Extraordinário de 21 de outubro, considero que estão esgotadas todas as condições para me manter em funções, pelo que lhe apresento agora, formalmente, o meu pedido de demissão, que tem de aceitar, até para preservar a minha dignidade pessoal

terça-feira, 17 de outubro de 2017

SEDIÇÃO


Acusados de sedição, Jordi Sànchez, presidente da Assembleia Nacional Catalã, e Jordi Cuixart, presidente de Òmnium Cultural, cabecilhas do processo independentista, foram presos em Barcelona e transferidos para uma prisão de Madrid. A detenção de ambos reveste a forma de ‘prisão incondicional’, sem possibilidade de fiança. Os dois são acusados de desrespeito à Coroa e ao Estado espanhol, patrocínio do referendo do passado dia 1 e incitamento à violência.

A imagem é do jornal catalão La Vanguardia. Clique.

CALAMIDADE PÚBLICA

Em dois dias, o país foi assolado por 722 incêndios: 523 no domingo e 199 na segunda-feira. Morreram 36 pessoas, estando feridas 51 e desaparecidas 7. Animais mortos são às centenas. A Norte do Tejo, dezenas de povoações evacuadas e casas reduzidas a cinzas. Por junto, cerca de 60 mil hectares consumidos pelo fogo, incluindo 80% do pinhal de Leiria. Foi gravemente atingida e danificada a central de biomassa da EDP em Mortágua. Mais de 20 fábricas são agora um monte de escombros. Catorze estradas e duas autoestradas tiveram que ser cortadas. Sejamos claros: Portugal não tem, nunca teve, efectivos e meios suficientes para fazer face a uma tragédia desta dimensão.

Mas, no lugar do primeiro-ministro, eu anteciparia para hoje o conselho de ministros extraordinário agendado para o próximo sábado.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

ESTRADAS INTERDITAS


A quem puder interessar, o quadro da GNR com indicação das 16 estradas cortadas por força dos incêndios que assolam o país. Clique na imagem.

ORGULHOSAMENTE SÓS?


Quem responde pela destruição da economia catalã?
Clique na imagem.

NEM SIM NEM SOPAS


Depois de arrastar a Catalunha para um referendo inconstitucional, e de encenar o espectáculo do passado dia 10, Puigdemont não é capaz de assumir os seus actos. À pergunta de Rajoy sobre se declarou ou não a independência unilateral, responde com um pedido de reunião urgente. Devia tê-lo feito há dois meses. A carta que enviou a Madrid é o retrato de alguém que deu um passo maior que a perna.

Clique nas imagens para ler as duas páginas.

FOGOS

A situação dos fogos é muito grave, com 27 mortos confirmados até ao momento, cerca de 60 feridos em estado grave, pessoas desaparecidas, aldeias evacuadas, estradas cortadas e centrais da EDP atingidas.

domingo, 15 de outubro de 2017

MOGADÍSCIO

O atentado que hoje teve lugar na capital da Somália provocou mais de 300 mortos e cerca de 500 feridos, números que devem aumentar pois os escombros ainda estão a ser removidos. O ataque foi reivindicado pelo grupo islamista al-Shabaab. Modus operandi: um camião com cem quilos de explosivos fez-se detonar junto a um hotel que desabou.

sábado, 14 de outubro de 2017

HAPPY VALLEY?

Como vi a entrevista de Sócrates em diferido, julguei que o aparecimento inopinado da série policial Happy Valley fosse defeito da gravação.

Só hoje soube, pelo Observador, ter-se tratado de ‘erro técnico’ da RTP. Há coincidências tramadas! Logo no meio de uma das respostas mais esperadas do antigo primeiro-ministro. Paulo Dentinho, o director de informação, desculpa-se com o prolongamento da entrevista. A série teria sido activada automaticamente no momento previsto.

Tudo isto pode ser verdade, mas o público tem direito a um esclarecimento formal da RTP e a um pedido de desculpas do senhor Dentinho.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

SÓCRATES NA RTP

Acabo de ver em diferido a entrevista que Vítor Gonçalves fez hoje à noite, na RTP, a José Sócrates. O antigo primeiro-ministro rebateu, ponto por ponto, as perguntas do jornalista. Sabemos que Sócrates é um orador imbatível, mas hoje não se limitou a dar asas à retórica. Pelo contrário, mostrou documentação oficial que contradiz as alegações do MP nos assuntos em pauta. Vítor Gonçalves é suposto ser o melhor entrevistador da RTP, sendo de admitir que fez o trabalho de casa. Então, convinha, para a próxima, que a RTP arranjasse alguém com outra estaleca. Infelizmente, a entrevista terminou com a pergunta abominável: «Como é que o senhor vive, como é que o senhor paga as suas despesas?» Sócrates foi liminar: «Vivo daquilo que é a minha pensão como deputado. Essa pergunta é indigna e não o dignifica.» Assim não vamos lá.

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 57,5%. A diferença entre o PS e o PSD é agora de 13%. Sozinho, o PS ultrapassa a PAF em 7%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

ROTH & TELLER


Hoje na Sábado escrevo sobre O Escritor Fantasma, de Philip Roth (n. 1933), um dos mais importantes autores americanos contemporâneos. O Escritor Fantasma inaugurou a série de Nathan Zuckerman, composta por nove romances publicados entre 1979 e 2007. Zuckerman, alter-ego do autor, começa a compor aqui o seu sulfuroso retrato da América. Diz-se muitas vezes que um livro vale pela primeira frase, e este corrobora a lenda: «Era a última hora de luz de uma tarde de dezembro, há mais de vinte anos…» Foi a tarde em que Zuckerman encontrou Lonoff. Nathan Zuckerman, o narrador, é um escritor em início de carreira apostado em pedir o «patrocínio moral» de Emanuel Isidore Lonoff, um par consagrado. O encontro de ambos suscita uma digressão pelas origens de Roth (a comunidade judaica de Newark), vários aspectos das obras respectivas, alfinetadas no meio literário, a moda dos questionários e, como sempre, muito sexo. O virtuosismo é de regra: «trocar insultos em pleno cio não era o meu afrodidíaco preferido…» Tudo se passa em Nova Iorque, nos fifties, e ambos são judeus. Tratando-se de um microcosmo tão peculiar, a paleta de temas é dominada pelos avatares da literatura e as idiossincrasias identitárias dos judeus. O Holocausto não é esquecido. A saga de Anne Frank vem à baila, a partir da encenação do Diário na Broadway, mas o imaginário de Roth causou atrito com os judeus novaiorquinos, enfurecidos com a licença poética de fazer de Amy Bellett, uma protégé de Lonoff, a verdadeira Anne Frank. Dito de outro modo: Anne Frank teria sobrevivido ao tifo contraído no campo de Bergen-Belsen, vivendo com um nome falso nos Estados Unidos (o Diário perderia todo o interesse se soubessem que estava viva). Com essa convicção, Zuckerman prolonga e acrescenta a odisseia de Anne Frank, numa longa narrativa pontuada de detalhes heterodoxos. A heresia não foi esquecida, e o anunciado Pulitzer foi parar às mãos de Norman Mailer. De nada lhe valeu insistir na dicotomia entre autor e narrador. O prémio chegaria dezoito anos mais tarde, por Pastoral Americana, o sexto romance de Zuckerman. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Nada, da dinamarquesa Janne Teller (n. 1964). Publicado em 2001 e destinado a adolescentes, gerou controvérsia na Escandinávia, tendo sido retirado das bibliotecas das escolas do ensino secundário. Mas o ministério da Cultura atribuiu-lhe o prémio de Literatura Infantil, e a situação foi sendo revertida. Porquê a controvérsia? Porque o livro faz luz sobre a imensa crueldade das crianças. Pierre Anthon, filho de hippies retardados, é o herói deste Satyricon para menores. Nada vale a pena é o seu lema e, nessa medida, cada um deve desfazer-se de algo que tenha significado para si. A purga existencial começa com tralha doméstica, mas depressa atinge o paroxismo. Se uma aluna quer cortar o dedo indicador de um colega, corta-se o dedo ao colega. Se outra quer exumar um bebé, faz-se a exumação do cadáver. Se outra quer decapitar uma cadela, serra-se a cabeça do animal. E assim sucessivamente, com envios a Nietzsche para caucionar a “criatividade”. Os rapazes colaboram. Janne Teller é uma economista que trabalhou nas Nações Unidas e na Comissão europeia e viveu em vários países. Escreve romances e ensaios. Três estrelas. Publicou a Bertrand.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

SÓCRATES ACUSADO

O Ministério Público concluiu a acusação da Operação Marquês. Os arguidos são 28. Segundo uma nota da Procuradoria-Geral da República, o antigo primeiro-ministro é acusado de 31 crimes: dezasseis de branqueamento de capitais, nove de falsificação de documentos, três de corrupção passiva de titular de cargo político, e mais três de fraude fiscal qualificada. Os crimes teriam sido cometidos entre 2006 e 2015.

Lembrar que uma acusação não é uma sentença judicial transitada em julgado, e que todos os acusados se presumem inocentes até prova em contrário.