sexta-feira, 8 de setembro de 2017

IRMA


Sempre que via a série CSI MIAMI ficava fascinado com o waterline da cidade mas, acto contínuo, lembrava-me do tsunami que no Natal de 2004 atingiu a ilha tailandesa de Phi Phi antes das réplicas em catorze países do Índico provocarem mais de duzentos mil mortos, grande parte deles no Sul da Índia e nas Maldivas. A imagem mostra um detalhe da zona de Miami-Dade de onde, neste momento, estão a ser evacuadas cerca de 700 mil pessoas. Não quero imaginar as imagens que veremos este fim-de-semana. Clique na imagem.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

NGUYEN & AGUSTINA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Simpatizante, o primeiro livro de Viet Thanh Nguyen (n. 1971), vencedor do Pulitzer de Ficção 2016. Nguyen tem origem vietnamita, mas radicou-se com a família nos Estados Unidos quando se deu a queda de Saigão. Depois deste romance publicou um ensaio sobre o Vietname. Antes havia publicado contos na imprensa. Sem surpresa, a intriga é um melting pot da actualidade, de histórias com referentes biográficos que Nguyen terá ouvido aos pais (ele era uma criança de quatro anos quando deixou o país onde nasceu), e de metaficção. Um compósito de livro de espionagem apimentado por reminiscências da guerra, e de busca de identidade num país novo. O narrador anónimo é um oficial vietnamita refugiado em Los Angeles, doublé de espião e proprietário de uma loja de bebidas, um intelectual (autor de uma tese sobre Graham Greene), enfim, um homem cheio de contradições, filho ilegítimo de um padre francês. A primeira frase diz tudo: «Sou um espião, um infiltrado, um malsim, um homem de duas faces. Não será porventura uma surpresa que também seja um homem de duas mentes.» O segundo parágrafo abre com a famosa citação de Eliot: «abril, o mês mais cruel.» Saigão, a terra devastada, implodia com fragor. Na precipitação da retirada de Saigão veio tudo: gente comum, militares de alta patente sul-vietnamitas, agentes duplos, informadores de Thang, os pais de Nguyen, uma das centenas de famílias que foram instaladas em Fort Indiantown Gap, um campo de refugiados na Pensilvânia. Não admira que Nguyen utilize o livro para, ao mesmo tempo que exorciza os fantasmas do narrador (que volta ao Vietname para defender os seus ideais), revisita a América profunda dos anos 1970 e 80: cinema, música, tiques geracionais. Tudo sem ignorar as previsíveis comparações com o Vietname, personalidade das mulheres incluída. A actualidade está presente ao longo da narrativa: «Recostado na sua cadeira de junco, com uma t-shirt branca e umas calças de caqui, e os tornozelos perfeitos à mostra porque não usava peúgas com os sapatos de vela, era tão cool como um gelado…» Em suma, a escrita de Nguyen prende o leitor em velocidade cruzeiro. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

Escrevo ainda sobre A Sibila, de Agustina Bessa-Luís (n. 1922). A reedição planificada da obra ficcional da autora é um acontecimento. Ainda que não publique nenhum romance inédito desde 2006, Agustina continua sendo a maior escritora portuguesa viva. Razão de sobra para saudar a 31.ª reedição de A Sibila, obra-prima que em 1954 provocou ondas de choque no meio literário, tendo recebido de imediato os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz. Não esquecer que Agustina foi, antes da queda da ditadura, a única autora de Direita respeitada por críticos de todos os quadrantes ideológicos, posição que mantém mesmo em democracia, sem ter abdicado das suas convicções e nunca se esquivando a militância activa. Com A Sibila, a literatura nacional ganhou uma personagem carismática, essa Quina que nos perturba «desde o alvorecer da razão», mulher indómita adoptada por sucessivas gerações de leitores. A acção do romance decorre na região de Amarante, na casa da Vessada (arrasada pelo fogo em 1870, mas reconstruída), entre meados dos séculos XIX e XX. A narrativa encontra-se pontuada, aqui e ali, por factos reais: a Revolução da Patuleia, o advento da República, etc. Se não leu, tem agora oportunidade. Os clássicos são sempre actuais. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

JOHN ASHBERY 1927-2017


Morreu ontem John Ashbery, um dos mais importantes poetas americanos do século XX. A notícia foi dada por David Kermani, seu companheiro de longos anos. Nas décadas de 1950-60, Ashbery foi um dos ícones da denominada Escola de Nova Iorque. Self-Portrait in a Convex Mirror, de 1975, o seu livro mais conhecido (a tradução portuguesa é de António M. Feijó, mas o volume da Relógio d'Água inclui, sob esse título, poemas de vários livros), recebeu no mesmo ano o Pulitzer, o National Book Award e o National Book Critics Circle Award, facto sem precedentes. Em 2012, Obama atribuiu-lhe a Medalha Nacional de Humanidades. De uma obra com mais de trinta títulos, dois estão traduzidos em Portugal. Tinha 90 anos.

domingo, 3 de setembro de 2017

BOMBA H


A contagem acelera. Desta vez não foi um teste de míssil, foi mesmo uma explosão nuclear. Eram 08:29 em Portugal quando a Coreia do Norte fez explodir uma bomba de hidrogénio. O abalo sísmico (6.3 na escala de Richter) decorrente da explosão subterrânea fez-se sentir nos países vizinhos e numa larga área do Pacífico. Esta bomba pode ser acoplada a um míssil intercontinental. Washington ainda não reagiu, o que pode prenunciar o pior. A Rússia, a China, o Japão e a Austrália já condenaram o acto. Seul garantiu esta manhã que os Estados Unidos vão fixar na Coreia do Sul os seus «activos tácticos mais poderosos». Enquanto isto, a Europa goza o domingo.

A imagem é do Guardian. Clique.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

AXIMAGE


Sondagem Aximage para o Correio da Manhã e o Negócios. Maioria de Esquerda = 59,9%. A diferença entre o PS e o PSD é superior a vinte pontos (20,1%). Sozinho, o PS ultrapassa a PAF, que continua a descer e soma agora 28,1%. Clique na imagem para ler melhor.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

BANVILLE & REIS


Hoje na Sábado escrevo sobre Retalhos do Tempo, do irlandês John Banville (n. 1945). Infelizmente tenho de me repetir: cada novo livro seu coloca o leitor no patamar do virtuosismo. Acabado de traduzir, não se esgota na categoria de livro de viagens, como aquele que em 2003 dedicou a Praga. Este volume de memórias de Dublin é um longo e fascinante ensaio ilustrado com fotografias de Paul Joyce. Sabíamos que Banville é sempre exemplar na forma como recorta as personagens, ficcionais ou reais (exemplos ao acaso: Newton e Anthony Blunt), mas, doravante, sabemos que estamos mesmo nos lugares que evoca. Desde Luz Antiga (2012), o admirável romance sobre a erosão do tempo que, num hábil jogo de mnemónica, mete Paul de Man na intriga, não me recordo de páginas tão certeiras como estas em que revisita a Dublin dos anos 1950, uma cidade flagelada «pela pobreza, um lugar cinzento e feio» que, mesmo assim, «não maculava os sonhos» do rapazito que o autor então era. Banville nasceu em Wexford e, como o próprio recorda, Dublin era para ele «o que Moscovo era para a Irina em Três Irmãs, de Tchékhov, um lugar mágico…» Apesar da aventura que a viagem representava (ia lá no dia de aniversário, coincidente com um feriado católico), as anotações são o exacto contrário da primeira vez que viu Paris, aos dezoito anos: passeando no Jardim do Luxemburgo, sentiu «que penetrara numa tela de Renoir ou de Raoul Dufy, ou até numa das fêtes galantes de Watteau.» As evocações têm enfoque em locais e pessoas concretas, como ruas, jardins (muitos), bibliotecas, lojas, bares, edifícios, monumentos e, sem surpresa, Yeats. Não são bilhetes postais. Banville envolve tudo num fio condutor, onde História, experiências pessoais, envios literários, tradição e anedotário compõem um quadro vivo. A história de Phoenix Park dá azo a um impressivo retrato de James Butler (1610-1688), 1.º duque de Ormonde e criador daquele que é o maior parque público da Irlanda. Não falta sequer o furto do volume da poesia completa de Dylan Thomas: «enfiei-o debaixo do casaco e saí à socapa, com as mãos a tremer…» Em suma, leitura obrigatória. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Poemas Quotidianos, de António Reis (1927-1991). Quando passam 50 anos da sua publicação, eis que o livro volta às livrarias, resgatando o autor do silêncio injusto a que estava votado. Salvo para as gerações nascidas antes de 1940, a que se juntam alguns happy few mais jovens, o nome de António Reis era sobretudo associado ao cinema: assistente de Manoel de Oliveira, guionista, realizador de, entre outros, Jaime (1974) e Trás-os-Montes (1976), filmes míticos. Malgrado ter colaborado na imprensa cultural, foi assim que as coisas se passaram: a poesia ficou para coevos. Estamos portanto perante uma edição histórica. Poeta oriundo da segunda fase do neo-realismo, António Reis escolheu a elipse, lá onde outros ecoavam o derrame operático, para dizer a condição dos desapossados: «Também eu trago a saudade / nos sentidos // se dissesse que não / era mentira // também eu perdi um cão / casas / rios // Mas hoje / tenho mulher / amigos / e uma saudade mais real / é que me inspira.» Por último mas não em último, sublinhar a pertinência do esclarecedor prefácio de J.B. Martinho e do posfácio de Joaquim Sapinho. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

DIANA


Diana, princesa de Gales, morreu faz hoje 20 anos. Tudo aconteceu em Paris, na companhia de Dodi al-Fayed, seu amante. Estando grávida, é de supor que Dodi fosse o pai. Depois do jantarem no Ritz, propriedade dos al-Fayed, os dois abandonaram o hotel e foram vítimas de um acidente no viaduto subterrâneo Pont de l’Alma. Eram 04:44 da madrugada quando a BBC confirmou o óbito de Diana. Dodi e o motorista também morreram. Apenas sobreviveu Trevor Rees-Jones, guarda-costas do casal. Ainda há muita coisa por explicar, desde logo por que razão o dossier da polícia francesa, relativo ao caso, desapareceu num ápice. Lembrar que Diana foi casada com Carlos, o herdeiro do trono britânico, entre Julho de 1981 e Agosto de 1996, embora a separação de facto fosse anterior. A opinião pública reteve a frase famosa: Éramos três no nosso casamento. Diana referia-se a Camilla (ex-Parker Bowles), actual duquesa da Cornualha.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

UM HOMEM SENSATO


O escritor britânico Terry Pratchett (1948-2015), que terá uma dúzia de livros publicados em Portugal, dos mais de cem que escreveu, viu agora satisfeito um desejo testamentário: o disco rígido do seu computador deveria se destruído num rolo compressor, para evitar a divulgação de obras inacabadas, rascunhos, notas pessoais, etc. O desejo foi agora cumprido. Pratchett está publicado em 70 países e 40 línguas, tendo vendido, enquanto vivo, mais de 85 milhões de exemplares dos seus livros. Nos anos 1990 foi mesmo o autor mais vendido no Reino Unido. O canibalismo post mortem tem feito muitos estragos na história literária.

sábado, 26 de agosto de 2017

MACAU


Imagens do rescaldo do tufão Hato, anteontem. Nove mortos e cerca de duzentos feridos, centenas de desalojados e de lojas destruídas, prejuízos no valor de milhões de milhões. Até ontem, só havia água e electricidade nos organismos do Governo e da polícia, hospitais, embaixadas, casinos e hotéis de luxo. O aeroporto cancelou mais de 500 voos. As pessoas comuns, que vivem em prédios de 40 e mais andares, tiveram de safar-se sem elevadores. Mas tudo isto passou entre os pingos da chuva da imprensa portuguesa. Amanhã vai haver outro, quando forem 5 da madrugada em Portugal.

Mas até do ponto de vista sensacionalista, que faz vender jornais, o tufão Hato tem pontas por onde vale a pena pegar. Uma delas diz respeito à demissão do director dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau. O homem foi obrigado a demitir-se por ter mandado hastear o sinal de tempestade às 9 da manhã de quarta-feira (duas da madrugada em Lisboa), quando devia tê-lo feito duas horas mais cedo. E porquê só às 9? Porque às 8 da manhã ocorre a mudança de turno nos casinos, que funcionam ininterruptamente durante 24 horas. Macau tem mais casinos que Las Vegas, sabia? Com o sinal de tempestade hasteado antes das 8, ou mesmo às 8, ninguém poderia sair nem entrar. Às 9 permitiu isso tudo, e pior: centenas de milhares de pessoas vieram para a rua fazer a sua vida e caiu-lhes o inferno em cima.

Entretanto, já sabemos quase tudo sobre o tufão Harvey que ontem começou a fustigar o Texas.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A ESTUPIDEZ NÃO TEM IDEOLOGIA


Face ao destrambelho homofóbico, só me apetece citar o manifesto de 1971 do Front Homosexuel d’Action Révolutionnaire, publicado no jornal Tout!, então dirigido por Sartre.

«Nesta questão do puritanismo repressivo no interior da força revolucionária, é um teste capital a atitude frente à homossexualidade

Foi isto há 48 anos! O manifesto da FHAR foi publicado em Portugal pela Assírio & Alvim (quem diria), em 1974, e eu comprei-o ainda em Lourenço Marques. Além do manifesto, o volume inclui testemunhos de vária ordem, glossário de jargão homossexual, um breve historial dos movimentos gay europeus e americanos, iconografia de Tom of Finland e caricaturas de recorte Charlie.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

SAUNDERS & ZADIE


Hoje na Sábado escrevo sobre Lincoln no Bardo, o primeiro romance de George Saunders (n. 1958), contista laureado praticamente desconhecido no nosso país, embora duas das suas colectâneas de contos, entre elas a incontornável Pastoralia, estejam traduzidas. Lincoln no Bardo é a sua obra mais recente. Saunders pegou num episódio delicado, a depressão que tomou conta de Abraham Lincoln após a morte do seu terceiro filho, Willie, vítima de tifóide aos onze anos. Eram comentadas as visitas nocturnas do Presidente à cripta da criança, em Oak Hill, facto peculiar na medida em que não fora caso único: três dos seus quatro filhos morreram antes de atingirem a idade adulta (sobreviveu apenas o primeiro). Curiosidade adicional: o livro levou quatro anos a escrever mas o plot decorre todo ao longo de uma única noite. Saunders terá tido acesso a detalhes da reacção post mortem, e do excruciante sofrimento de Lincoln, servindo-se deles para pôr de pé o romance. Como sempre, o discurso não é linear. Dito de outro modo, Lincoln no Bardo não é um romance que siga o padrão canónico. O leitor comum talvez seja surpreendido por alguns tiques de escrita: nomes próprios grafados em letra minúscula, monólogos desconexos por via de certa filiação à literatura do absurdo, excertos de jornais da época (estava-se no auge da Guerra de Secessão), trechos de mnemónica, vozes fantasmáticas, citações e outro material avulso com que compõe um patchwork tendo como denominador comum a morte. Em suma, não é um livro fácil. No Tibete chama-se bardo ao “trânsito” entre morte e reencarnação. Isso explica o sentido do título do livro, ou seja, o karma que Saunders atribui a Lincoln. Não admira portanto que a sociedade americana seja vista pela intermediação mediúnica de fantasmas: caçadores, soldados, funcionários, assassinos, etc. Quem quiser encaixar Saunders numa genealogia, pode socorrer-se de Edgar Lee Masters e, em particular, na famosa Spoon River Anthology (1915) e as suas vozes do Além. Na realidade, Saunders pretendeu fazer a biografia de uma fase dolorosa da vida de Lincoln. E faz isso muito bem, ressalvado o excesso de pirotecnia semântica. Mas não é fácil escrever sobre os efeitos da depressão. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Swing Time, de Zadie Smith (n. 1975). Os idiossincráticos códigos de classe e as regras sociais atinentes continuam a ser o território de eleição da autora, que escreve a partir de um ponto de vista étnico, ou seja, sem ignorar a sua origem jamaicana: Sonho com a Jamaica, sonho com a minha avó. Recuo no tempo… Tal como em NW, uma história de Londres, Swing Time ilustra o lugar dos deserdados da sociedade de consumo. Escrito na primeira pessoa, pode ser lido como um compósito de memórias. A narrativa começa em 1982, ano em que tanto a narradora como a autora têm sete anos de idade. Como em obras anteriores, o tempo da acção é longo. Durante vinte e tal anos acompanhamos as vidas de duas amigas, ambas mestiças. Dois destinos, duas formas de encarar o mundo. A escrita de Smith é vertiginosa, rica de subtilezas, atenta aos detalhes mais prosaicos. Há quem veja na figura de Aimee, a estrela planetária com ambições filantrópicas, um ‘retrato’ de Madona. África não surge por acaso. Temas como a ajuda ocidental, a moda da adopção de crianças por estrangeiros ricos, mas também o turismo sexual, são desmontados pela autora. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

COMING OUT

Quando leio intelectuais (sim, intelectuais) a gozarem com o coming out de forma leviana, penso sempre nos filhos que têm e naquilo que o futuro lhes pode reservar. Cuspir para o tecto dá sempre mau resultado.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A VIDA COMO ELA É

Não sei se as pessoas deram por isso (os media nacionais não ajudam), mas a administração Trump de Agosto não tem nada a ver com a de Janeiro. Quem deu atenção ao discurso à Nação proferido anteontem, confirmou os sinais em crescendo nas últimas semanas. Quem não deu pelo discurso, é natural que não perceba do que falo. Resumindo: o Poder militar tomou conta da Casa Branca a partir do momento em que o general John F. Kelly assumiu o cargo de Chief of Staff, o que aconteceu no passado 31 de Julho. A razia operada desde então transformou a West Wing trumpiana numa West Wing praticamente institucional. Continuam por limar algumas arestas, mas a coisa mudou. A “América primeiro” foi pelo cano, como ficou claro no discurso: o Afeganistão volta a ser uma prioridade absoluta. Ao fim de sete meses de mandato, Trump é obrigado a cair na realidade. Continuará a dizer disparates no Twitter, claro que sim, mas as chancelarias internacionais já mudaram as linhas com que andaram a coser-se desde 20 de Janeiro.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

HONRA A GRAÇA FONSECA


Nem sempre leio o DN e hoje só o fiz agora, alertado por terceiros. Numa longa e excelente entrevista concedida a Fernanda Câncio, a secretária de Estado da Modernização Administrativa, Graça Fonseca, assumiu publicamente ser homossexual:

«Como é óbvio isto foi uma questão muito pensada. E na verdade não é uma questão da privacidade, é uma questão de identidade. [...] E acho que se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o meu caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia

O statement de Graça Fonseca enche-me de orgulho. Enquanto não houver mais pessoas como ela, Portugal não muda. Hoje é um dia muito importante para a comunidade LGBT. O jornal e a jornalista estão de parabéns. Mas Graça Fonseca tem o mérito a dobrar. Obrigado.

domingo, 20 de agosto de 2017

JERRY LEWIS 1926-2017


Com 91 anos, morreu hoje Jerry Lewis, um dos maiores comediantes de Hollywood. Celebrizou-se com a parceria que durante sete anos o ligou a Dean Martin: nada menos que dezassete filmes entre 1949 e 1956. A natureza da relação de ambos ainda hoje é motivo de controvérsia. Quando a dupla se desfez, impôs-se a solo como actor, realizador, guionista e produtor de cinema e televisão. Entre dezenas de outros, filmes como The Bellboy (1960) e The Nutty Professor (1963) ficaram na memória de todos. Kennedy, de quem era amigo, aconselhou-o a nunca tomar posições públicas sobre política. Distrofia muscular, diabetes e cancro da próstata foram algumas das suas doenças. Nos anos 1950 e 60 foi, de facto, o rei da comédia.

sábado, 19 de agosto de 2017

SILLY SEASON


A sério? Na ciência? Na política? (Concedo que as oligarquias autoritárias são muito criativas a gerir a fome e a mordaça das populações.) Confira no Diário de Notícias. Eu vou ali tomar escitalopram. Clique na imagem para ler melhor.

WEST WING

A demissão de Steve Bannon do influente cargo de Chief Strategist da Casa Branca, ocorrida ontem, é mais um sinal do poder efectivo do general John F. Kelly, o actual Chief of Staff. Logo no dia da posse, Kelly provocou a demissão de Anthony Scaramucci, o controverso director de comunicações. Ao fim de sete meses de mandato, Trump vê reduzida a ala populista da West Wing. A ver no que isto dá.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Um segundo atentado, desta vez na estância turística de Cambrils, a 120 quilómetros de Barcelona, provocou um morto e dez feridos. Tudo se passou no Paseo Marítimo, perto do Clube Náutico, cerca da uma hora da madrugada. A polícia abateu cinco terroristas. Os dois atentados, Barcelona e Cambrils, provocaram catorze mortos e mais de cem feridos, uma dúzia dos quais ainda em estado muito crítico. As vítimas são de 20 nacionalidades diferentes, incluindo uma mulher portuguesa de 74 anos.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

TERROR EM BARCELONA


Eram quatro da tarde em Lisboa quando uma carrinha atropelou deliberadamente, ao longo de cerca de 700 metros, várias pessoas que circulavam nas Ramblas de Barcelona. Estão confirmados, até ao momento, treze mortos e mais de 50 feridos, dez dos quais em estado muito grave. O terrorista é um indivíduo de origem marroquina. Noutro ponto da cidade, um provável cúmplice atropelou um polícia num auto-stop, mas foi prontamente abatido.

Clique na imagem de El País para ler melhor.

NAIPAUL & DONOGHUE


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição, com nova tradução, de Para Além da Crença, de V. S. Naipaul (n. 1932). Uma reedição deveras oportuna. Em 1998, quando o livro foi publicado, ainda o tema do Islamismo não fazia manchetes. Oriundo de uma família indiana radicada em Trindade, Naipaul, autor britânico, tornou-se célebre por uma obra consistente que faz da denúncia da corrupção política o item central. Quando em 2001 recebeu o Nobel da Literatura, foi isso mesmo que a Academia Sueca sublinhou. Em Para Além da Crença, o foco é a religião. O livro resulta de uma viagem de Naipaul a quatro países muçulmanos não-árabes (a Indonésia, o Irão, o Paquistão e a Malásia), prolongando o relato, sobre os mesmos países, iniciado com Entre os Crentes, publicado em 1981, no auge dos excessos da teocracia iraniana. Naipaul é peremptório em várias das suas conclusões, embora faça questão de exarar que este «não é um livro de opiniões». Por exemplo, o Islamismo seria uma forma de imperialismo, uma forma de reagir à globalização: «O Islão e a Europa, dois imperialismos em competição, tinham chegado à Indonésia quase ao mesmo tempo, e, juntos, haviam destruído o longo passado budista-hinduísta.» A estratégia narrativa faz lembrar a de Svetlana Alexievich, ou seja, a de deixar os outros falar. A diferença reside no facto de Svetlana não largar a pele de repórter, enquanto Naipaul não abdica do estatuto de autor. Ela compõe reportagens, ele conta histórias: «Este é um livro sobre pessoas.» E de facto assim acontece, porque são os seus retratos que nos transmitem a natureza desses países. Como entender a Indonésia de Suharto, o homem dos brutais massacres dos anos 1960, sem conhecer a história de Imaduddin? O mesmo se diga de Mehrdad e da Teerão dos aiatolas. Ou da realidade malaia vista pelos olhos de Syed Alwi. O capítulo dedicado ao Paquistão (e o pecado original da secessão com a Índia) é muito interessante: «Ao fim de quarenta anos de cinismo e preguiça intelectual, o Estado, que, de início, era para alguns idêntico a Deus, tornara-se uma empresa criminosa.» Está na altura de um terceiro périplo. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre O Prodígio, de Emma Donoghue (n. 1969), romancista, contista, dramaturga, argumentista e historiadora do lesbianismo na literatura. A autora nasceu na Irlanda mas vive no Canadá, país que adoptou como seu e onde escreveu quase toda a obra. Com uma bibliografia extensa e abarcando vários géneros, O Prodígio é o segundo dos seus livros a ser traduzido em Portugal. Enquanto não chega Room, romance de 2010 inspirado no caso Josef Fritzl (o homem que encarcerou e abusou da filha durante mais de vinte anos), O Prodígio é um bom exemplo do à-vontade da autora a ficcionar temas perturbantes dos nossos dias. Com uma escrita fluente que transmite a natureza sinistra dos factos, tais como o jejum forçado de uma jovem rapariga, Donoghue construiu a sua história apoiada em relatos históricos. Aqui vemos como Lib Wright, uma enfermeira contratada por membros influentes da aldeia de Athlone, vai interagir com Anna O’Donnell. Estamos na segunda metade do século XIX, na Irlanda profunda que mal sobreviveu à Grande Fome dos anos 1840. Se Anna resistisse poderia até ser canonizada, o que não acontecia há muito tempo com nenhum irlandês. É neste quadro fantasmagórico que Donoghue nos força a conhecer uma realidade abominável. Quatro estrelas. Porto Editora.