Maioria de Esquerda = 56,7%. Cada vez maior o fosso entre PS e PSD. O CDS continua a cair. Clique na imagem do Expresso para ver melhor.
sábado, 8 de julho de 2017
quinta-feira, 6 de julho de 2017
MORRIS & STEINER
Hoje na Sábado escrevo sobre Conundrum, de Jan Morris (n. 1926). Em 1974, quando o livro chegou às livrarias, não era apenas mais um. Nessa data, a autora tinha quinze livros publicados como James Morris, ou seja, como homem e historiador, oficial dos Lanceiros da Rainha durante a Segunda Guerra Mundial, marido de Elizabeth Tuckniss, mãe dos seus cinco filhos. O primeiro volume da trilogia Pax Britannica faz parte da fase masculina. Com Enigma, a História de Uma Mudança de Sexo, nascia Jan Morris, reconhecida como um dos autores britânicos mais importantes do pós-guerra. A primeira frase é eloquente: «Tinha três anos, talvez quatro, quando me dei conta de que nascera no corpo errado, de que deveria ter nascido rapariga.» Não se julgue, porém, que a narrativa prossegue neste tom neutro. Pelo contrário. Jan Morris tem uma escrita elegíaca que transporta o leitor aos anos despreocupados da infância, ao coro do colégio de Oxford, à descoberta do prazer e, mais tarde, às idiossincrasias do serviço militar, época vertida em páginas admiráveis. O mesmo se diga da descrição das primeiras experiências sexuais (com outros rapazes do colégio), um prodígio de contenção que nenhuma vulgaridade belisca. Simples virtuosismo. A autora não faz proselitismo nem se limita a descrever factos. Enigma é uma elegante reflexão sobre a natureza e as consequências do «conflito que [a] dilacerava». A mudança de sexo surge enquadrada por práticas de povos tão remotos como os índios mohaves, os esquimós tchuktches ou os sarombavy de Madagáscar. O caso do pintor dinamarquês Einar Wegener/Lili Elbe introduz a questão cirúrgica. A vida de escritor e repórter, bem como o casamento ‘aberto’ com Elizabeth, estabelecem um hiato até ao encontro, em Nova Iorque, com Harry Benjamin, o endocrinologista que primeiro estudou a transexualidade. A primeira e decisiva cirurgia, feita em Casablanca, em 1972 (seguiram-se outras duas em Inglaterra), vem detalhada com minúcia. Começava aí o resto da vida dela. Este livro foi publicado em Portugal em 1975, com o título Conundrum, o Enigma, mas a actual edição corresponde à versão emendada («somente meia dúzia de palavras») pela autora em 2001. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.
Escrevo ainda sobre George Steiner em The New Yorker, a colectânea que colige 28 dos mais de 150 artigos que Steiner (n. 1929) publicou na revista New Yorker durante 30 anos (1967-97). Se pensarmos num pensador de índole renascentista, o nome que nos ocorre de imediato é o do autor, porventura o último sobrevivente da categoria. Com grande parte da obra traduzida no nosso país, chegou agora às livrarias este novo volume de ensaios. Na introdução que fez para o volume, Robert Boyers sublinha o «sentido de missão pedagógica e força bruta de inteligência crítica» de Steiner. É vasto o espectro de temas e autores. Dividido em quatro partes, o livro inclui um extenso ensaio sobre Anthony Blunt, O Sacerdote da Traição. Blunt, que foi um eminente crítico e historiador de Arte, além de curador da colecção da família real, foi também espião soviético, membro do Cambridge Five, até ser acusado em 1979. Steiner corrobora o ponto de vista de que a versão pública do caso «é, em muitos aspectos, forjada» para proteger interesses mais altos. Soljenítsin, Orwell, Céline, Borges, Chomsky e Brecht, entre outros, são objecto de estudos de largo fôlego. O brilhantismo da escrita é de regra. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.
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11:55
quarta-feira, 5 de julho de 2017
INVENTONA
É hoje líquido que a manif dos generais indignados não passou de uma manobra de contra-informação, que os media alimentaram até à exaustão. Não obstante, hoje, ainda hoje, o Público bate na tecla da desconvocação.
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10:30
COISAS EXTRAORDINÁRIAS
O advogado José Miguel Júdice foi à TVI dizer que o grupo de assaltantes de Tancos estava identificado (e andava a ser seguido) pela polícia. Mas que a polícia não tinha avisado o exército e lhes havia perdido o rasto. Fonte da informação do antigo bastonário: «Um político de nível muito elevado.» A polícia, e outras entidades ligadas à investigação do furto, desmentiram o comentador. Não é extraordinário? A parte do político de nível muito elevado é a minha preferida.
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10:00
domingo, 2 de julho de 2017
BOMBA RELÓGIO
A menos de 48 horas do fim do prazo do ultimato feito ao Qatar pela Arábia Saudita, Egipto, Bahrein e Emiratos Árabes Unidos, o sheikh Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, ministro dos Negócios Estrangeiros, disse ontem em Roma que o Qatar não vai cumprir nenhuma das treze exigências apresentadas por aqueles países: «Estamos prontos para tudo. O Qatar está preparado para enfrentar quaisquer consequências. Existe uma lei internacional que não deve ser violada.» Falava de guerra, claro. Entre as 13 exigências, contam-se o corte de relações diplomáticas com o Irão e o encerramento da televisão Al-Jazeera. O prazo extingue-se amanhã, 3 de Julho.
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10:00
sexta-feira, 30 de junho de 2017
CASAMENTO GAY NA ALEMANHA
Por 393 votos a favor, 226 contra e quatro abstenções, o Bundestag aprovou hoje o casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como a adopção plena. Os deputados conservadores tiveram liberdade de voto. Merkel declarou à imprensa que a lei reforçará a coesão social e a paz (a chanceler votou contra). A Alemanha tinha desde 2001 uma lei de união civil para gays, mas com restrições aos direitos consagrados no casamento.
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16:00
terça-feira, 27 de junho de 2017
PRETO NO BRANCO
Ao fim de três anos, o Tribunal Criminal de Lisboa arquivou o processo movido contra Inês Pedrosa, por alegado abuso de poder enquanto directora da Casa Fernando Pessoa, cargo que abandonou em Abril de 2014.
Segundo o juiz, «Não assiste razão ao Ministério Público porque os elementos de prova não permitem assacar responsabilidade criminal dos arguidos e a matéria de facto vertida na acusação não se revela suficiente para caracterizar o tipo de que os arguidos vêm acusados. [...] A conduta da arguida Inês Pedrosa, descrita na acusação, não preenche factualmente o tipo de crime que lhe está imputado. [...] Por tudo isto se entende que, com maior probabilidade os arguidos seriam absolvidos, razão pelo qual este tribunal decide não os pronunciar.»
Como os media publicitam as acusações mas, quase sempre, ignoram as absolvições, aqui fica o registo.
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11:00
segunda-feira, 26 de junho de 2017
MEDINA, OF COURSE!
Quando forem 6 da tarde, Fernando Medina formaliza a sua recandidatura à Câmara de Lisboa. Vai ser no Palácio Galveias, ali ao Campo Pequeno.
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11:55
SUICÍDIOS, DIZ ELE
E você? Já se suicidou? Ou nem ao menos tentou?
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11:30
domingo, 25 de junho de 2017
MOÇAMBIQUE: 42 ANOS
Moçambique completa hoje 42 anos como país independente. Deixo aqui um excerto das minhas memórias desse dia.
Moçambique tornou-se independente no dia 25 de Junho de 1975. Na véspera não fui trabalhar. Era terça-feira mas deve ter havido tolerância de ponto. A época fria tinha começado e o tempo mantinha-se luminoso. Em Moçambique, o Inverno é seco. As chuvas chegam em Janeiro e Fevereiro, quando a temperatura sobe. O jantar foi servido à hora do costume. Para surpresa de minha mãe, não acompanhei o Jorge à cerimónia que teve início no Estádio da Machava ao minuto zero do dia 25. Estavam lá muitos filhos da burguesia dourada, gente que não tinha sujado as mãos na guerra, preferindo viver anestesiada em Oslo ou Estocolmo. Alguns ficaram. A maioria regressou no primeiro avião ao borralho escandinavo. Deitei-me cedo e lembro-me de acordar de madrugada com o estampido das balas de jubilação. A Frelimo tinha acabado de instaurar o regime de partido único. Naquele momento, alguns amigos que tinham celebrado a queda de Saigão como o advento de um mundo novo, gozavam as amenidades de Cape Town como lídimos herdeiros de Cecil Rhodes. Eu lia Alan Watts e queria acreditar num futuro que nunca chegou.
— Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013, p. 19
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11:00
quinta-feira, 22 de junho de 2017
GUEDES DE CARVALHO & SENA
Hoje na Sábado escrevo sobre O Pianista de Hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho (n. 1963), que regressa ao romance após um intervalo de dez anos. Sem surpresa, a prosa clara dispensa todo o tipo de malabarismos semânticos. Mesmo em sottovoce, o autor impõe uma dicção própria. Foi assim nos romances anteriores e o timbre mantém-se inalterado. Narrador autodiegético, Guedes de Carvalho intromete-se na narrativa com gozo evidente. Percebemos logo nas primeiras páginas que é de solidão e perda que o romance trata. E que o faz sem rodriguinhos, antes com uma escrita segura, elegante, atenta à prosódia da língua: «Luís Gustavo nunca a conheceu, e pela vida fora quase nem falará dela, até que um dia começará a pensar nela, quando já seria tempo de a ter esquecido, as coidas estranhas que fazemos sem lógica.» Guedes de Carvalho é muito hábil na forma como articula os factos descritos com o carácter das personagens. Ao arrepio de tanta prosa contemporânea, a sua ficção organiza-se sem ‘encenação’. Dito de outro modo, sem piscar o olho ao ar do tempo. O low profile é ilusório. Por várias vezes a narrativa deflagra em violência crua: «— Não passa de hoje vais dizer onde mora esse filho da puta...» A trama envolve sexo, bullying, imprevistos hospitalares, homossexualidade (o episódio do supermercado é deveras polissémico), violência doméstica, disfunção conjugal, morte, psicanálise, etc. Em suma, a vida como ela é. No fim, tudo conflui para o mesmo ponto, um conhecido hotel da Linha de Cascais. A sólida arquitectura romanesca dá a medida dos recursos do autor. Coisa rara na literatura portuguesa, as cenas de sexo são plausíveis e, graças à utilização correcta dos verbos, bem esgalhadas. Bem calibrado, o discurso não evita o vernáculo da oralidade. Poderá soar rude a espíritos mais sensíveis, mas nunca a linguagem comum foi decalcada de um missal. O fundamentalismo politicamente correcto vai torcer o nariz a certas passagens (a persona do autor potenciará esse condicionamento), mas a literatura não pode deixar-se capturar pela assepsia. O menos importante de tudo é o pianista do hotel. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.
Escrevo ainda sobre a publicação, em edição de bolso, de Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (1919-1978). Um acontecimento. Trata-se de um dos romances mais importantes do século XX português, sucessivamente reeditado e esgotado desde 1979. Retrato ácido da educação sentimental dos jovens adultos de 1936, com a Guerra Civil espanhola em pano de fundo, Sena põe em pauta o Portugal salazarento e uma panóplia de interditos que vão da inscrição política à hipocrisia dos costumes. Tudo se passa no ambiente da burguesia bem instalada da Figueira da Foz, que fazia vista grossa à pesporrência do Estado Novo (actuação da Pide incluída) e a questões de natureza sexual. Alter-ego de Sena, o protagonista, Jorge, disseca com minúcia aquele peculiar microcosmo. O acento tónico incide no grau de ‘tolerância’ face à identidade sexual de alguns personagens, em particular Rufino e Rodrigues. É deveras eloquente o episódio do ménage à trois entre Jorge, Luís e uma prostituta: «a mulher não tinha tido importância, a mim é que ele, de uma maneira ou de outra, escolhera.» Destinado a ser o primeiro volume da saga romanesca Monte Cativo, projecto abortado por morte de Sena, Sinais de Fogo é uma obra-prima. Cinco estrelas. Publicou a Livros do Brasil.
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10:00
segunda-feira, 19 de junho de 2017
REI SOL
Obtendo 350 lugares, La République en Marche conseguiu a maioria absoluta na Assembleia Nacional francesa. É menos do que as projecções indicavam, mas não deixa de ser um resultado histórico. Macron torna-se uma espécie de rei Sol. Os Republicanos obtiveram 130. O Partido Socialista ficou em terceiro lugar, elegendo 33 deputados, uma derrota inquestionável, mas longe da temida pasokização. E em todo o caso com representação superior à France Insoumise, que mesmo em coligação com o PC não foi além de 27 lugares. Marine Le Pen conseguiu ser eleita, mas o Front National ficou apenas com 8 lugares. Tudo visto, é impossível ignorar o índice de abstenção, que chegou a 57,4%. Também vai ser curioso seguir o comportamento da Assembleia, onde 432 eleitos (num total de 577) são estreantes. Já agora, quatro deputados, um deles do Front National, são casados com pessoas do mesmo sexo, muito menos do que no Parlamento britânico, mas é um começo.
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11:11
domingo, 18 de junho de 2017
MACRON ABSOLUTO
Com uma abstenção de 56,6%, a segunda volta das Legislativas francesas confirma a maioria absoluta do partido de Macron, La République en Marche. Ao alto, a projecção mais recente dos resultados finais. Clique para ler melhor.
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19:55
A MALDIÇÃO
Estão confirmados, até ao momento, 57 mortos e 61 feridos vítimas do incêndio que deflagrou ontem ao meio-dia em Escalos Fundeiros, na região de Pedrógão Grande (Leiria). Trinta pessoas morreram carbonizadas dentro das próprias viaturas, a maioria quando tentavam fugir pela estrada que liga Castanheira de Pêra a Figueiró dos Vinhos. As aldeias de Mosteiro, Vila Facaia, Coelhal, Escalos Cimeiros, Regadas e Graça foram as mais afectadas. O número de vítimas pode subir porque continuam desaparecidas várias pessoas. Dois pelotões do exército vão juntar-se aos bombeiros na região. Clique na imagem. [Actualizado às 10:00]
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08:30
sábado, 17 de junho de 2017
TRAGÉDIA DE LONDRES
Enquanto a polícia vai actualizando o número de mortos aos bochechos (ontem subiu de 17 para 30), ocultando a muito previsível existência de uma centena, ou mais, de corpos carbonizados, com o argumento da falta de identificação, «que levará meses a concluir», sucedem-se as manifestações da opinião pública contra a forma desastrada como tem estado a ser gerido o processo de apoio às vítimas da Torre Grenfell.
Jeremy Corbyn, o líder trabalhista, não faz a coisa por menos: quer os desalojados instalados nas mansões vazias dos bairros elegantes da cidade. E avisou Theresa May que cinco milhões de libras são peanuts.
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11:21
sexta-feira, 16 de junho de 2017
HELMUT KOHL 1930-2017
Helmut Kohl, chanceler alemão durante dezasseis anos, entre 1982 e 1998, morreu hoje. A Alemanha deve-lhe a reunificação, em Outubro de 1990. Mitterrand e Thatcher eram contra. Gorbachev aceitou sem grandes reticências, até porque a Alemanha financiou a fundo perdido a saída dos exércitos soviéticos da RDA. Do outro lado do Atlântico veio o apoio decisivo de Bush pai. Em suma, como alguém disse, foi o homem que acelerou a História.
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22:00
ATÉ QUE ENFIM
Após oito anos, o Ecofin retirou hoje Portugal do procedimento por défice excessivo. Ainda há palermas a gozar com Centeno?
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12:00
AXIMAGE
Sondagem da AXIMAGE para o Correio da Manhã» e o Negócios:
PS 43,7% / PSD 24,6% / BE 9,7% / CDU 7,8% / CDS 4,6%.
Maioria de esquerda = 61,2%. PAF = 29,2%.
Em termos de popularidade, a sondagem é clara: 69,1% escolhem António Costa contra os 22,2 por cento que escolhem Passos Coelho. Com o PS à beira da maioria absoluta, a Direita regista os piores resultados desde 1976.
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Eduardo Pitta
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11:30
GRENFELL TOWER
Ainda a tragédia de Londres. O Governo britânico tinha em seu poder, há anos, um dossiê sobre a falta de condições de segurança da Torre Grenfell. Gavin Barwell, ministro da Habitação até ao passado dia 8, devia tê-lo na gaveta. Mr Barwell é actualmente chefe de gabinete da primeira-ministra. Não consta que se tenha deslocado ao local e, já hoje de manhã, à chegada ao n.º 10 de Downing Street, recusou falar à imprensa. A Torre Grenfell era gerida pelos serviços de habitação social da Câmara de Londres. Sadiq Khan, mayor de Londres desde Maio do ano passado, não ignorava com certeza a existência do dossiê. O mesmo se diga de Boris Johnson, actual ministro dos Negócios Estrangeiros, que foi mayor da cidade durante oito anos (2008-16). Ora estes cavalheiros não podem assobiar para o lado. Na imagem vêem-se drones a sobrevoar a Torre.
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10:00
quarta-feira, 14 de junho de 2017
THIEN & CUMMINGS
Hoje na Sábado escrevo sobre Não Digam Que Não Temos Nada, de Madeleine Thien (n. 1974), escritora canadense de origem sino-malaia. Trata-se de um dos romances mais aclamados dos últimos anos. O título remete para uma passagem da versão chinesa da Internacional, o hino comunista: «O velho mundo será destruído. De pé, escravos, de pé. Não digam que não temos nada.» Com a intriga focada na China que sobreviveu à Revolução Cultural, e a caução de reminiscências autobiográficas, o romance tem todos os ingredientes para ser um sucesso de público e crítica. A sucessão de prémios aí está para o provar. A partir de Vancouver, a narradora descreve com método o ambiente de uma família de imigrantes, tendo como ponto de partida o massacre da Praça Tiananmen, em Pequim. O pai tinha fugido em 1978 e proibido de voltar à China, mas os brutais acontecimentos de Junho de 1989 levaram-no a partir para Hong Kong, onde acabou por desaparecer. Para as autoridades, ter-se-ia suicidado. É este o detonador do plot, que explica os solavancos que conduziram à China actual. Através de flashbacks recuamos às razões do percurso do pai da narradora e, por sua vez, do pai adoptivo deste, um enigmático professor de música. Mas nem só das sequelas da Revolução Cultural aqui se trata. Thien descreve muito bem as etapas de que Mao Tsé-Tung se serviu para impor a ditadura do proletariado, em especial a reforma agrária, bem como o denominado, e fracassado, Grande Salto, ou seja, a industrialização acelerada que provocaria dezenas de milhões de mortos, a maioria pela fome. Thien não faz proselitismo. A escrita, em regra neutra, tem a desenvoltura dos factos: «Fui recrutado pelo Kuomintang. Felizmente, consegui escapar-me e passar para o exército comunista. Foi pavoroso. Os combates, quero eu dizer. Mas fizemos este país.» É realmente mais fácil perceber a China contemporânea depois de ler Não Digam Que Não Temos Nada. O texto é pontuado por inúmeras remissões culturais (chinesas e ocidentais), bem como por fotos da época versada. Nem umas nem outras servem de ornamento, mas de suporte da narrativa. Notas esclarecedoras encerram o volume. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d'Água.
Escrevo ainda sobre O Quarto Enorme, de E. E. Cummings (1894-1962), nome central do Modernismo, poeta, ensaísta, dramaturgo e artista plástico, que em 1922 publicou o relato da sua prisão em França, em Setembro de 1917, no estertor da Primeira Guerra Mundial. Cummings e um amigo foram acusados de espionagem, mas o futuro poeta foi prontamente ilibado, o que não impediu três meses de cativeiro, malgrado diligências diplomáticas conduzidas pelo pai. Tudo se resumia ao espírito anti-guerra que o levou, juntamente com William Slater Brown, a servir como voluntário no corpo de ambulâncias. O episódio teve contornos bizarros, dele resultando O Quarto Enorme, título que remete para a cela comunitária partilhada com dezenas de presos no campo de concentração de La Ferté-Macé. Ilustrado com desenhos do autor, a edição portuguesa segue a versão fixada em 1978 por George Firmage, destinada a «corrigir as omissões e alterações das versões anteriormente publicadas», em especial no tocante à extravagante pontuação: ausência de espaços a seguir às vírgulas e outras diabruras. A narrativa descreve, com mordacidade e muitas vezes em tom pícaro, o quotidiano do campo, sem contemplação pelas autoridades francesas. O leitor que não conheça a poesia de Cummings tenderá a sentir-se perdido. Quatro estrelas. Publicou a Livros do Brasil.
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Eduardo Pitta
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14:00
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