sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

LOURENÇO MARQUES


Deixei Moçambique em Novembro de 1975, cinco meses depois da independência do país. Tinha 26 anos, vivia com o Jorge há três, era autor de um livro de poesia publicado no ano anterior, e conhecia Portugal de duas visitas: 1964 e 1974. Nunca voltei. O passado é o passado. Mas tenho-me mantido informado da realidade moçambicana através de amigos que vão e vêm, da imprensa de Maputo, de escritores moçambicanos com quem falo nos eventos do costume. Em 1999, entrevistado pela RTP, disse que tinha nascido em Moçambique como podia ter nascido na China (afirmação que causou escândalo), mas é mesmo isso que penso. A nossa terra é onde nos sentimos bem. Nunca tive fantasmas identitários. Isto dito, passo ao que realmente interessa.

Fui ontem tomar chá com uma grande amiga que também deixou Moçambique em Novembro de 1975. Nessa altura ela tinha 12 anos. Mas não esqueceu. Nunca nos conhecemos enquanto lá vivemos. A nossa amizade data de 2007. Em comum, o facto de sermos escritores. Em 2009, escreveu um livro devastador sobre a realidade colonial que fez dela o alvo de todos os saudosistas. Foi demonizada até ao paroxismo. O que sempre nos separou foi a vontade de voltar. Ela queria, eu não. E lá foi, contra todas as advertências, passar um mês sozinha. Sozinha ali se manteve, por acaso num bairro bom. Teve a sorte de arranjar um motorista de tuk-tuk de confiança. A descrição que me fez da Maputo actual não terá sido diferente da que faria de Nairobi: crime, insegurança generalizada, pobreza extrema, autismo da comunidade branca. Por comunidade branca entenda-se o núcleo dos funcionários transnacionais que estão de passagem e são pagos em dólares americanos, os sul-africanos que exploram os resorts turísticos, mas, sobretudo, os nacionalistas que pertencem ou têm a bengala das ‘estruturas’ do Partido único. Essa comunidade de happy few vive em guetos de luxo, tem segurança privada e circula em automóveis com vidros fumados. Ninguém que se preze tem menos que vários criados. O formalismo é de regra nas relações sociais. Quatro quintos da população não tem o que comer. Sobre a degradação urbana não vale a pena falar. Em suma, um pesadelo.

A tudo isto, a imprensa portuguesa diz nada. Moçambique fica do outro lado do mundo, nunca interessou aos nossos jornaleiros.

As imagens mostram a vista aérea dos bairros da Polana e do Sommerschield, e parte do Hotel Polana, inaugurado em 1922. Clique nelas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

ANNE TYLER


Hoje na Sábado escrevo sobre O Carrinho de Linha Azul, de Anne Tyler (n. 1941), que com este romance regressa à edição portuguesa, de que andou afastada bastante tempo, sem que se perceba porquê, na medida em que vários dos seus livros, entre eles Jantar no Restaurante da Saudade (1982) ou O Turista Acidental (1985), foram grandes sucessos. O segundo até deu origem a um filme famoso de Lawrence Kasdan. Ficcionista laureada com o Pulitzer e com o prémio do National Book Critics Circle, Anne Tyler é autora de mais de vinte romances, dezenas de contos e dois livros para a infância. A crítica ortodoxa tende a ser condescendente com o imaginário clean dos seus livros, mas estamos longe da literatura de aeroporto. Verdade que Anne Tyler não é Alice Munro ou Joyce Carol Oates, mas estamos a falar de alguém com uma obra consistente sobre a vida de pessoas comuns, alheadas de melodramas operáticos ou atritos disfuncionais, num quadro de classe média convencional. O Carrinho de Linha Azul começa numa noite de Julho de 1994, no exacto momento em que um pai ouve um dos filhos dizer-lhe, sem rodeios e por telefone, que é homossexual. Mas o rapaz desliga assim que acaba de dizer o que queria, deixando pai e mãe incapazes de avaliar a situação. Confissão? Brincadeira de mau gosto? Afinal, Denny, nessa altura com dezanove anos, já tinha engravidado uma rapariga do liceu. E, ao contrário do irmão mais novo, Stem, respeitador das regras básicas de sociabilidade, Denny era ou pretendia ser um outsider, vivendo à margem do núcleo familiar. Naquela noite o seu paradeiro era desconhecido. Podia estar ali, em Baltimore, como no outro extremo do país. Com recurso a flashbacks e pertinentes notas de humor, a autora descreve o quotidiano de uma família-padrão, neste caso os Whitshank, ao longo de várias gerações. O ponto de partida é a personalidade desconcertante de Denny, por oposição à dos outros filhos, em especial Stem, mas o espectro analítico tem um âmbito mais alargado. Anne Tyler não ignora nenhum detalhe, por mais prosaico que seja. Digamos que O Carrinho de Linha Azul é uma dissertação, bem calibrada, dos sobressaltos da vida conjugal.Três estrelas e meia. Publicou a Presença.

Escrevo ainda sobre O Segredo da Modelo Perdida, de Eduardo Mendoza (n. 1943). São às dezenas os autores de thrillers cuja identidade se confunde com a das suas personagens. Exemplo clássico: falamos de Poirot como se Agatha Christie não existisse. Os casos multiplicam-se. Com Mendoza é ao contrário. O escritor catalão criou um detective anónimo, sendo O Segredo da Modelo Perdida o quinto (e mais recente) volume da série a que dá corpo. O seu detective tem outra particularidade: cabeleireiro oriundo do bas-fond, nem por isso deixa de questionar a situação europeia, como também fez no volume anterior, O Enredo da Bolsa e da Vida. Trata-se agora de recuperar um caso onde esteve envolvido há vinte anos. Um dos aspectos mais interessantes das suas narrativas radica nas tradições catalãs e, em concreto, na história de Barcelona, subtexto decisivo da trama geral. Constantes: ritmo vertiginoso, nonsense, saltos no tempo (notórios entre a primeira e a segunda parte do livro) e uso sagaz da ironia: «Faz tonificação, jacúzi, massagem e raios UV. Mas não me parece que seja gay.» O leitor não terá dificuldade em relacionar as manobras da APALF, sociedade secreta, com as consequências da deriva independentista da Catalunha. Três estrelas e meia. Publicou a Sextante.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

FEITO


Por 498 votos contra 114, o Parlamento britânico autorizou o Brexit. Theresa May já pode accionar o Artigo 50. Os 498 votos a favor vieram dos conservadores (319), dos trabalhistas (167), de outros três partidos (11) e de um deputado independente. Os sonhadores a quem passou pela cabeça que o Parlamento iria contra a vontade expressa em referendo, acabam de levar com a realidade na tola. A votação foi imposta pelo Supremo Tribunal, que tinha decretado no passado dia 24: O Governo não pode accionar o Artigo 50 sem autorização do Parlamento. Está feito. Boris Johnson, o ministro dos Negócios Estrangeiros, já reagiu no Twitter.

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NEIL GORSUCH


Neil Gorsuch, 49 anos, foi o juiz escolhido por Trump para ocupar a vaga aberta pela morte de Antonin Scalia. Gorsuch terá agora de passar pelo processo de avaliação e votação no Senado. Se tudo correr bem, tomará posse daqui a três meses. Se as coisas correrem mal, acontece-lhe o mesmo que aconteceu a Merrick Garland, que Obama escolheu para o lugar mas o Senado vetou. Gorsuch, que é doutorado por Oxford, integra a corrente textualista, ou seja, é um defensor da interpretação literal da Constituição. São conhecidas as suas posições anti-aborto e anti-eutanásia, mas estamos a falar de um conservador. Não é o troglodita que muitos esperavam, nem tem nada a ver com a corrente evangélica. Ocupou cargos relevantes durante os mandatos de Obama, com apoio expresso de muitos Democratas. Esperar para ver.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

LINGUAGEM


A propósito da polémica que envolve o Plano Nacional de Leitura e meia dúzia de papás agastados com a linguagem crua de um romance, vou contar uma história.

Em Fevereiro do ano passado, uma amiga, que por acaso é escritora, pediu-me autorização para ceder um excerto do meu romance Cidade Proibida, de 2007, a uma revista literária que ia aparecer. A minha amiga não fazia parte da direcção da revista, desaparecida ao 2.º ou 3.º número, mas serviu de intermediária entre as partes. Porquê este excerto e não outro? Porque a revista tencionava publicar um dossier sobre erotismo na poesia portuguesa contemporânea. Disse que sim, mas acrescentei: O texto nunca será publicado. Com efeito, nenhum dos números publicados incluiu o famoso dossier. Verdade que a revista acabou, mas... Se comparado com outras passagens, o excerto seleccionado é soft. Transcrevo-o com cortes para sublinhar os trechos com linguagem crua.

«[...] Assim que decidiram viver juntos, Martim e Rupert procuraram casa [...] Rupert continuava a achar absurdo o preço das casas portuguesas, e não queria comprar, mas um dia Martim apareceu-lhe nas aulas com as chaves. [...] Anda, vem ver. Depois almoçamos no Pabe. / Com o skyline das colinas a toda a largura das janelas e o rio ao fundo, a vista do 4.º andar era magnífica. A casa estava vazia, só se mudaram ao fim de dez dias, mas Rupert ficou logo impressionado com a luminosidade, o soalho, o recorte dos estuques, o fogão de sala com sólidas guardas de bronze, o granito rosa das casas de banho e a tralha hi-tech da cozinha. Foi justamente na cozinha que Martim o comeu. A mesa era larga, tinha boa altura e um tampo surpreendentemente macio. Não se lembra qual dos dois chupou primeiro o outro. Lembra-se da luz crua do sol, de ter arrancado as calças e os briefs de Rupert, obrigando-o a dobrar-se no tampo de pedra negra, ao mesmo tempo que com a mão aberta lhe apertava a garganta à medida que o penetrava. Nunca tinham fodido de pé. O orgasmo foi praticamente simultâneo, sem que Rupert tivesse necessidade de se tocar. Nessas ocasiões, Martim afrouxava a pressão dos dedos para melhor sentir estremecer o corpo do companheiro. [...]»

A título de curiosidade, refira-se que a cena se passa no 11 de Setembro, mas, como tudo acontece em Lisboa antes das duas da tarde, eles ainda não sabem.

A imagem corresponde à capa da terceira edição comercial (2013) do livro. Clique.

EM QUE FICAMOS?

O Conselho de Segurança da ONU reúne de emergência com os pretextos mais frívolos. É assim há décadas. Mas, aparentemente, não tomou conhecimento da ordem executiva da Casa Branca que impede a entrada nos Estados Unidos de cidadãos oriundos de sete países mulçulmanos, mesmo que alguns desses cidadãos tenham autorização de residência e trabalho. Alguns até têm cidadania americana! Mas, se por qualquer razão estiverem ausentes do país, são barrados à entrada. Mr Guterres, em que ficamos?

OS DOIS STEPHEN


Trump, o Presidente, é a mão que assina as decisões de Stephen Bannon e Stephen Miller. Nunca ouviu falar deles? Convém saber quem são. Ambos estão dispostos a subverter a ordem constitucional americana.

Stephen Bannon, 63 anos, militante da ala direita do Partido Republicano, foi nomeado anteontem Chief Strategist da Casa Branca e membro permanente do Conselho de Segurança Nacional. É o homem mais influente da actual administração americana. Dirigiu a campanha de Trump e agora está no comando do país (isto não é uma metáfora). Proprietário e CEO da Breitbart News Network, website de extrema-direita fundado em 2007, defende posições que fazem de Marine Le Pen uma menina de coro. A Breitbart não fica pelo proselitismo xenófobo, pró-Vida, anti-gay, anti-ecologista, ou pela defesa da supremacia branca e doutrinas afins. Para defender os seus pontos de vista, a Breitbart inventa notícias em que milhões de americanos acreditam. Oriundo da working class irlandesa, católico, Bannon serviu na Marinha e foi banqueiro na Goldman Sachs antes de fundar o seu próprio banco. Tem um diploma de Harvard em economia. Acusado de violência doméstica, encontra-se divorciado da terceira mulher. Define-se a si próprio como um nacionalista branco.

Stephen Miller, 31 anos, militante da ala direita do Partido Republicano, oriundo de uma família judaica de tradições liberais filiada no Partido Democrata, foi nomeado assessor-principal do Presidente no passado dia 20. É um acérrimo defensor e legislador da política anti-imigratória. Redigiu o discurso da tomada de posse de Trump e foi quem propôs a ordem executiva de sábado passado que impede a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de sete países muçulmanos. Tem um diploma de Duke em ciência política.

Ao pé deles, Karl Rove, o controverso e todo-poderoso chefe de gabinete de Bush, é um príncipe da Renascença.

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

AZEITE


Toda a gente percebeu que os vinhos portugueses deram um salto e tanto nos últimos dez anos, mas são bastante menos os que têm essa noção acerca do azeite. Daí a importância deste livro de Edgardo Pacheco sobre os cem (sim, 100) melhores azeites nacionais. Num texto claro, «E se falássemos a sério de azeite?», o autor explica porque escolheu estes e não outros. Azeites virtuosos, diz ele. Tal como o vinho tem os seus rituais, também o azeite os tem. Sabia que deve ser consumido sempre à temperatura de 28 graus? Eu também não.

Os cem estão divididos em dois grupos: o Top 10 e, a seguir, seriados por região, os outros 90. Cada um dos azeites escolhidos tem um texto introdutório e respectiva ficha técnica. Edgardo Pacheco lamenta que, ao contrário do que acontece com os vinhos, as lojas e os restaurantes não invistam (salvo raríssimas excepções) em pessoal especializado, capaz de orientar e aconselhar o consumidor mais exigente. Um exemplo: quantos de nós sabem escolher um azeite para temperar sobremesas, gelados incluídos? E distinguir um que não pode ser cozinhado? Em suma, um guia como deve ser. A fechar, ocupando cinquenta páginas, há 25 receitas de 25 chefs, sendo duas mulheres. O Avillez não entra.

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domingo, 29 de janeiro de 2017

HAMON VENCEU AS PRIMÁRIAS


Como era previsível, Benoît Hamon foi o vencedor da segunda volta das Primárias do PS francês. Hamon obteve 58,88% contra 41,12% de Manuel Valls. O número de votantes terá chegado a 1,9 milhões, participação superior à da primeira volta. Clique na imagem do Libération.

sábado, 28 de janeiro de 2017

COMEÇOU

Trump assinou um decreto presidencial que proíbe, por tempo indeterminado, a entrada nos Estados Unidos de cidadãos oriundos da Síria, do Irão, do Iraque, da Líbia, da Somália, do Sudão e do Iémen. A medida já está em vigor e, um pouco por toda a parte, vários passageiros têm sido impedidos de embarcar:

«Confusion turned to panic at airports around the world, as travelers found themselves unable to board flights bound for the United States. In Dubai and Istanbul, airport and immigration officials turned passengers away at boarding gates and, in at least one case, ejected a family from a flight they had boarded.» — NYT

Não estamos a falar de refugiados. Estamos a falar de pessoas com autorização de residência e trabalho nos Estados Unidos que, por qualquer razão, se ausentaram do país. Por exemplo, a Google tem cerca de uma centena de trabalhadores nessas condições e mandou-os regressar imediatamente mas, tudo indica, tarde de mais. De fora da proibição ficam os funcionários da ONU e pessoal diplomático.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

RAHMAN & KNAUSGARD


A avaliar pela unanimidade crítica, e estamos a falar de um coro que inclui gente do calibre de Joyce Carol Oates e James Wood, a literatura pós-colonial ganhou um nome de peso na pessoa de Zia Haider Rahman, cidadão britânico nascido no Bangladesh, radicado no Reino Unido desde criança, formado em Cambridge, Oxford e Yale, banqueiro da Goldman Sachs e, actualmente, advogado de direitos humanos na Transparency International. Também escritor “sem domicílio”, como Steiner disse de outros ao falar de extraterritorialidade. As epígrafes de cada uma das 22 secções do livro são eloquentes, mas Somerset Maugham chegava: «Há pessoas que se adaptam tão bem à máscara que assumiram que por vezes acabam por tornar-se quem pareciam ser.» Porém, quem abre o volume é Sebald. Rahman publicou em 2014 o seu primeiro (e até à data único) livro, À Luz do que Sabemos. A guerra do Afeganistão, o crash de 2008 e as migrações forçadas são três tópicos fortes deste romance de matriz enciclopédica. O autor sabe do que fala, seja sobre Wall Street ou a pulsão de alteridade que molda a sociedade britânica actual, o lodaçal de Islamabad ou os códigos Oxbridge. A partir do lugar de déraciné, constrói uma narrativa focada no confronto de castas. Atenção: castas e não classes, na medida em que tudo se joga nas mil nuances das relações sociais, em particular na identificação do «charme desprendido de quem tem origens superiores.» O narrador sabe que nunca será um “deles”. E não é pelo facto de não ter um bom alfaiate. Vários episódios estabelecem essa linha de fronteira. O da funcionária de apelido sonante que arromba uma janela em Cabul porque a «sua pele branca» lhe dava esse direito, ilustra bem o ponto de vista que defende. À Luz do que Sabemos é o retrato do mundo pós-11/9 nas suas formas mais evidentes: Iluminismo do sector financeiro, terrorismo, povos expatriados. A imagem de Gödel e Einstein a caminharem no terreno de uma quinta americana (ver página 734) é um exemplo do desenraizamento que o livro explora em todos os matizes. De Zafar, o protagonista, Rahman poderá dizer o que Flaubert disse da Bovary. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

Chegou às livrarias No Outono, um dos volumes da tetralogia que Karl Ove Knausgard (n. 1968) dedicou às estações do ano. Célebre pela saga autobiográfica A Minha Luta, da qual estão traduzidos quatro dos seis volumes, Knausgard tornou-se um autor de culto também em Portugal, apesar da mudança de registo na língua de chegada: João Reis e Pedro Fernandes traduziram dois livros a partir dos originais noruegueses, enquanto Miguel Serras Pereira fez as suas traduções a partir das edições inglesas de Um Homem Apaixonado, A Ilha da Infância e Dança no Escuro. No Outono tem ilustrações de Vanessa Baird e compõe-se de um conjunto de três cartas dirigidas a uma filha que vai nascer. Cada carta é preenchida por vinte textos breves, sobre tópicos tão diferentes como sacos de plástico, gasolina, urina, sangue, febre, lábios vaginais, piolhos, Van Gogh, latas de conserva, vomitado, moscas, retretes, etc. Em cada um deles Knausgard expõe o seu ponto de vista: «A vergonha ajusta diferenças, cria segredos, desenvolve tensões. […] É na sexualidade que se trava a grande batalha entre a vergonha e o desejo.» Flaubert tem direito a vénia. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

TSU & SALÁRIO MÍNIMO

BE, PCP, PEV, PAN e PSD preparam-se para chumbar hoje a descida temporária (vigoraria durante 12 meses) da TSU que incide sobre o salário mínimo. A descida seria de 1,25%. O CDS anunciou ir abster-se. Ficando o PS sozinho, a medida cai. Não vale a pena comentar a cambalhota de Passos Coelho. Lembrar que, em 2014, o PSD aprovou uma medida praticamente igual: 0,75% durante 15 meses. Até à votação, pode ser que alguma água passe pelas pontes. O Governo prepara-se para baixar o valor do Pagamento Especial por Conta, vulgo PEC, decisão que agrada ao BE, ao PCP, aos patrões e às confederações sindicais, tendo a vantagem adicional de compensar a descida da TSU. A ver vamos.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

CLARO COMO ÁGUA

Marcelo deu ontem a sua primeira entrevista televisiva desde que é Presidente da República. Driblou, do princípio ao fim, as rasteiras de Ricardo Costa e Bernardo Ferrão. A cada investida, o PR foi claro: Era preciso fazer, e o Governo fez bem. Também ficou claro que haverá um segundo mandato. Preferindo a solução do mandato único, de seis ou sete anos, mas não sendo esse o Diktat constitucional, terá de ponderar: Em Setembro de 2020 esclareço. Gostei.

BENOÎT HAMON


Obtendo 36,3% dos votos expressos, Benoît Hamon, 49 anos, antigo ministro da Educação e da Economia, ganhou a primeira volta das primárias da Esquerda francesa. Manuel Valls, 54 anos, primeiro-ministro até ao mês passado, ficou em segundo lugar com 31,1%. Apresentaram-se sete candidatos à 1.ª volta. Ao contrário do que sucedeu em 2011, quando 2,6 milhões de franceses votaram nas primárias da Esquerda, ontem o número de votantes não excedeu 1,5 milhões. No próximo dia 29, o duelo será portanto entre Hamon e Valls. Hamon representa a ala esquerda do PS francês, e Valls a ala direita. Clique na imagem.

domingo, 22 de janeiro de 2017

OBRA CONCLUÍDA


Esta foto de Nuno Correia mostra o estado actual do Saldanha. As obras acabaram em todo o eixo que vai do Marquês de Pombal a Entrecampos, vasta área que inclui a Avenida Fontes Pereira de Melo, o Saldanha, a Avenida da República e o Campo Pequeno. Antecipou-se em dois meses a promessa de Fernando Medina de ter as obras concluídas em Março. Hoje, das 10 às 17:00h, a zona estará por conta dos peões, com animação de rua para todos os gostos: taichi, zumba, concertos pop, jazz, bandas, artistas do Chapitô, aulas de bicicleta, feira de artesanato, exposição de fotografia das Avenidas Novas, jogos tradicionais, uma marcha da acessibilidade, street food, etc. Como se vê pela imagem, as árvores do Saldanha estão lá. E ao longo do trajecto foram plantadas centenas de árvores novas. Muito bom!

Apenas lamento que a CML não tenha aproveitado para retirar os placards de propaganda partidária, inestéticos, anacrónicos e, no caso de Entrecampos, prejudicando a visão do Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular.

Clique na imagem.

sábado, 21 de janeiro de 2017

CRONOLOGIA DO HORROR

Dilma foi destituída. O Brexit venceu. Theresa May está disposta a pôr um ponto final nas negociações de saída se os antigos parceiros não fizerem o que ela quer. Vamos voltar a ser grandes, disse. Ter em conta o tiro de partida: ainda o Artigo 50 não foi accionado e o Reino Unido já se auto-excluiu do Mercado Único Europeu. A Turquia, membro da NATO, vive em situação de pré-ditadura, com mais de seis mil pessoas presas por delito de opinião. Apesar de uma vantagem de três milhões de votos, Hillary Clinton não sucedeu a Obama. Trump tomou posse e ditou as novas regras. Vamos reconstruir a América, disse. Marine Le Pen vai vencer as presidenciais francesas de Abril.

Hoje, em Koblenz, na Alemanha, tem início a Cimeira da Extrema-Direita Europeia: Marine Le Pen, da França, Frauke Petry, da Alemanha, Geert Wilders, da Holanda, Matteo Salvini, da Itália, Norbert Hofer, da Áustria, etc. A cimeira tem como objectivo prioritário levar os seus países a fechar as portas à imigração, acabar com o Espaço Schengen, sair da UE e da moeda única. Putin nunca se divertiu tanto. Por último mas não em último, Nigel Farage, antigo líder do UKIP, foi convidado (e aceitou) ser comentador político da Fox News. A sugestão partiu de Trump. Em pano de fundo, milhões de refugiados morrem gelados nos compounds da Turquia e da Grécia.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

NOVA ERA

Quando forem cinco da tarde em Portugal, Trump toma posse como 45.º Presidente dos Estados Unidos. John G. Roberts Jr., juiz do Supremo, preside ao juramento. A inauguração (chama-se assim à tomada de posse) decorre como sempre num dos terraços de acesso ao Capitólio. Acontece que o executivo da Casa Branca ainda não tem luz verde do Congresso: dos seus quinze membros, apenas dois têm a nomeação validada, estando sete na iminência de serem chumbados.

Pelas piores razões, hoje é um dia histórico. Começa uma Nova Era e ninguém sabe exactamente o que isso significa. Não foi por acaso que Theresa May fez o discurso que fez no passado dia 17. Se o fizesse depois da posse de Trump, a primeira-ministra britânica passaria aos olhos de todos como marionete de Washington. O statement de Lancaster House foi imposto pela Nova Era. Ao decretar que o Reino Unido abandona imediatamente o Mercado Único Europeu, qualquer que seja a duração das negociações do Brexit, Theresa May deixou claro estar disposta a bater com a porta de forma unilateral e a qualquer momento. Isso só acontece porque a partir de hoje começa uma Nova Era.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

ANNEMARIE & TEOLINDA


Hoje na Sábado escrevo sobre Todos os Caminhos Estão Abertos, de Annemarie Schwarzenbach (1908-1942), escritora e fotógrafa suíça, mas também arqueóloga, autora que tem sido tratada com indiferença pelos editores portugueses. Todos os Caminhos Estão Abertos, agora publicado, parece-me ser o segundo dos seus livros traduzido em Portugal. Em 2008, a Tinta da China publicou Morte na Pérsia, mas continuam por traduzir muitos títulos. Nem o facto de Annemarie ter vivido em Lisboa em 1941 (era então casada com um diplomata francês), ano em que a cidade foi ponto de passagem dos judeus em fuga do nazismo, suscita interesse de maior. Verdade que Annemarie é hoje uma figura de culto à margem da obra literária. A origem aristocrática, a beleza andrógina, a militância anti-fascista, as ligações amorosas com mulheres célebres (entre outras, Carson McCullers e Erika Mann), as histórias associadas às viagens que fez aos Balcãs, Turquia, Pérsia, Palestina, Iraque, Índia, etc., as expedições arqueológicas, as reportagens fotográficas da Grande Depressão americana, as tentativas de suicídio, a dependência da morfina e, last but not least, a circunstância de ter morrido aos 34 anos em consequência de ter caído de uma bicicleta, tudo contribui para o mito. Coligindo textos publicados na imprensa com inéditos, Todos os Caminhos Estão Abertos é o relato de uma viagem ao Afeganistão, entre 1939 e 1940, na companhia de Ella Maillart. As duas partiram de Genebra no carro de Annemarie e só a eclosão da Segunda Grande Guerra abreviou a aventura. No fatídico 1 de Setembro de 1939 estavam em Herat, sem saber do estado do mundo. A reportagem não está isenta de ironia. Annemarie não poupa na invectiva aos hábitos ocidentais, em especial britânicos, parodiando o seu (deles) formalismo por oposição à frugalidade adoptada por si e pela companheira: «nós viajámos sós, sem boy nem chauffeur e, até mesmo, sem gentleman.» A consciência da vaga nazi está presente na narrativa, em particular durante a travessia da Áustria. Apesar da empatia demonstrada pelas tribos afegãs, o tom é objectivo, quase neutro, porém “fotográfico”. É curioso verificar como a Cabul daqueles anos em pouco difere da Cabul descrita na actualidade. Mas tudo acaba em Port Said, no Suez. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Prantos, amores e outros desvarios, de Teolinda Gersão (n. 1940). Seria pleonástico insistir nos recursos discursivos da autora, patentes nos romances e contos que publicou a partir de 1981. A recente atribuição do Prémio Vergílio Ferreira, distinguindo o conjunto da obra, é um corolário justo. Catorze contos dão corpo a esta colectânea que assinala a sua passagem para o catálogo da Porto Editora. Numa escrita que flui com naturalidade, Teolinda narra episódios prosaicos com aparente displicência. Na realidade, esse universo “normalizado” não está isento de violência. Descrito num tom cordato, o quotidiano das pessoas comuns apresenta-se como o conhecemos: um labirinto de interditos. Traços distintivos que Teolinda manobra com exemplar eficácia: rigor vocabular, mordacidade, ausência de ênfase ou delíquio sentimental. Quase sempre histórias de mulheres da actual classe média urbana. A excepção é Alice in Thunderland, que fecha o volume. É o conto mais extenso, e afasta-se do imaginário precedente. Teolinda faz com ele a close reading da obra mítica de Lewis Carroll. Não foi a primeira nem será a última a ficcionar os recessos do reverendo Dodgson, mas, em português, ninguém escavou tanto. A tese é simples: Through a looking glass foi um truque. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

CONCERTAÇÃO SOCIAL


De que serviu a gritaria de Assunção Cristas? O Governo aprovou o decreto que entra amanhã em vigor. O Presidente da República promulgou. Os parceiros assinaram o Acordo. A peixeirada da líder do CDS foi deprimente. Clique na imagem.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

MARIA CABRAL 1941-2017


Morreu no sábado, dia 14, em Paris, a actriz Maria Cabral, rosto mítico do Novo Cinema Português. Tinha 75 anos. A notícia foi dada hoje pela Academia Portuguesa de Cinema. Maria Cabral tornou-se célebre com O Cerco (1970), de Cunha Telles, tendo protagonizado vários outros filmes, tais como O Recado (1971), de Fonseca e Costa, Vidas (1984), também de Cunha Telles, No Man’s Land (1985) de Alain Tanner, e Um Adeus Português (1986), de João Botelho. Do seu casamento (1964-71) com Vasco Pulido Valente nasceu uma filha, Patrícia Cabral, que foi nos anos 1980 a mais iconoclasta crítica literária portuguesa.