quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

MARINA PEREZAGUA


Hoje na Sábado escrevo sobre Yoro, de Marina Perezagua (n. 1978). Mais conhecida como contista, a espanhola chega à edição portuguesa com o único romance que publicou. Seria bom editar as colectâneas de contos. A escrita de Marina, que vive e lecciona em Nova Iorque, tem sido comparada com a de Djuna Barnes. A avaliação vale o que vale, mas dá a medida da recepção crítica. Sem prejuízo da fluidez, não é despiciendo que a estrutura deste romance deva quase tudo à matriz do conto. Tomemos como exemplo a história de Herculine Barbin, a/o hermafrodita, que pode ler-se como texto autónomo. O livro abre com uma enigmática declaração de interesses, assinada H., algures na República Democrática do Congo. Descobrimos então que aquele H, vogal muda em castelhano, inicial de Hiroxima, corresponde à identidade da narradora. Afinal, é das sequelas da bomba que Yoro trata, e em paralelo com a saga de Jim, o soldado americano que «viu e acariciou a pele» da mãe de Yoro. A narrativa contrapõe realidades distintas, duas em particular, Hiroxima e um incêndio no Congo. Corolário: a devastação não se mede pelo impacto imediato. As mortes individuais, «pela fome, a escravatura, a doença», acrescidas dos abusos sexuais que o status quo permite e finge ignorar, em nada se distinguem de um bombardeamento planificado. O que a autora sublinha é justamente o indizível: o genocídio japonês de 1945 e o quotidiano de certas zonas de África (nos nossos dias) são sobreponíveis. Uma tese escorregadia que Marina Perezagua defende bem, tendo como ponto de partida as minas de urânio, e a relação entre uma coisa e outra, de tão óbvia, dispensa grandes explicações. São vários os episódios que acentuam o carácter desconcertante da narrativa. Desde logo a peculiar gravidez da narradora. Mas também a descoberta, na Hungria, de «um vibrador [um pénis com dezoito centímetros] que os arqueólogos datavam do período Mesolítico…», um dos muitos artefactos sexuais que a autora descreve com minúcia nas páginas que dedica ao tema. O «prazer de matar» vem associado ao terceiro orgasmo: «Como vê, nunca poderá dizer que sou frígida.» Neste caso, terceiro não é número, mas género: orgasmo heterossexual, homossexual, assassino. Crime, disse ela. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

BEST OF


O Best Of da Sábado saiu hoje. Aqui ficam a minhas escolhas:

Todos os Contos, Clarice Lispector / Relógio d’Água
Uma rapariga é uma Coisa Inacabada, Eimear McBride / Elsinore
Túnel de Pombos, John Le Carré / Dom Quixote
A Gorda, Isabela Figueiredo / Caminho
A Última Noite e Outras Histórias, James Salter / Livros do Brasil

Clique na imagem.

MÃE & FILHA


Para mal dos meus pecados, não faço parte da legião de pessoas que conhecia a Princesa Leia de Star Wars. Nem sabia que Carrie Fisher era filha de Debbie Reynolds (1932-2016), que morreu ontem durante os preparativos do funeral da filha. As gerações mais novas não sabem quem foi Debbie Reynolds, que protagonizou setenta filmes, mais coisa menos coisa. Tenho de voltar a ver The Unsinkable Molly Brown, que em 1964 emocionou a minha juventude. Vejam, para tomar o pulso a uma actriz imensa.

Na imagem, Debbie e a filha. Clique.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

BÍBLIA GREGA


Fico sempre surpreendido com a incapacidade de tantos em perceber o sentido de um texto. Será que só lêem duas linhas? Abreviando: o que ontem escrevi no Facebook sobre “especialistas de grego” (nos media) foi entendido como crítica à recente tradução do primeiro volume da Bíblia Grega, empreendida por Frederico Lourenço. Num país onde 99% das pessoas, grupo no qual me incluo, não domina os estudos bíblicos, e menos ainda as variantes dos cânones católico, hebraico e protestante, dando de barato que uma percentagem ligeiramente mais alargada tenha conhecimentos de latim e grego, num país como o nosso, dizia, faz-me espécie ver tanto especialista encartado. Eu também presumo que a tradução seja boa. E tenho boas razões para presumir. Frederico Lourenço tem provas dadas como tradutor de Homero e outros, não estando em causa a sua erudição ou proficiência literária. Mas presumir não é o mesmo que garantir. Passou-se o mesmo em 1995, com O Erro de Descartes, de António Damásio. O pessoal deu cambalhotas como se estivesse a comentar O Canto da Mocidade de Odette de Saint-Maurice.

Voltando à Bíblia Grega. Até ao momento, li uma recensão ao trabalho de Frederico Lourenço, publicada no Observador no passado 16 de Outubro. Um texto assinado por Frei Herculano Alves, franciscano capuchinho, biblista, professor da Universidade Católica do Porto. Francisco José Viegas, editor da Quetzal, reagiu em defesa do seu autor: «[...] só o pode fazer por uma de três razões: má fé, ignorância ou distração. Certamente que foi por distração. Há limites.» É tudo o que sei à margem dos Best of de imprensa.

Ainda ontem, um dos espantados com o meu post comentou por mensagem privada. Palavra puxa palavra, ele, um dos que ama esta versão, não sabia da existência de uma Bíblia Grega: «Mas então não é judaica

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

GEORGE MICHAEL 1963-2016


Vítima de paragem cardíaca enquanto dormia, George Michael (1963-2016), aliás Georgios Kyriacos Panayiotou, filho de pai cipriota grego e mãe inglesa, morreu ontem na sua casa em Oxfordshire. Tinha 53 anos. Em 1981 fundou com Andrew Ridgeley a banda Wham! que o tornaria conhecido em todo o mundo. Em 1987 saiu do armário, assumindo-se como gay, e passou a actuar a solo. Em Abril de 1998 foi preso num urinol público de Los Angeles por um polícia de nome Marcelo Rodríguez, membro do Squad Pretty, o corpo de polícias handsome que, actuando à paisana, induzia homossexuais a praticar sexo em locais públicos para depois lhes darem ordem de prisão, como também acontecia em Portugal antes de Abril de 1974. George Michael vendeu mais de cem milhões de discos, recebeu dezenas de prémios, e marcou de forma decisiva a música pop de língua inglesa. Crítico da invasão do Iraque, lançou em 2002 o álbum Shoot the Dog (os cães são Bush e Blair), cujo vídeo promocional inclui um urinol da Casa Branca, em referência explícita ao episódio de 98.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

EX AEQUO

Não gosto de classificações ex aequo, sejam prémios ou listas dos melhores do ano. O ex aequo é uma forma de escapismo, de não deixar de fora ninguém que, pelas mais variadas razões, não “pode” ficar de fora. Outra coisa que me intriga: como se alinham os livros, ou filmes, músicas, peças de teatro, bailados, exposições de artes plásticas, etc., metidos no saco sem fundo do ex aequo? Por ordem alfabética do título? Por ordem alfabética do autor? Por ordem cronológica de publicação ou exibição? Por data de nascimento do autor? Arbitrariamente? O arbítrio é da responsabilidade do publicista-mor ou do lobby dominante? Já não gostava no tempo dos livros ou filmes ao par, agora em quarteto ou aos molhos de meia-dúzia não se pode levar a sério.

ERA UMA VEZ

Para que servem os serviços de informações? Anis Amri, o tunisino suspeito do atentado da Breitscheidplatz, em Berlim, no passado dia 19, foi abatido durante um operação stop de rotina, na Piazza I Maggio, em Milão. A polícia italiana nem sabia da sua presença no país. Enfim. Vamos todos fingir que acreditamos na versão oficial.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

ELENA FERRANTE


Hoje na Sábado escrevo sobre Escombros, de Elena Ferrante (n. 1943). Chave: «Uma história é antes o precipício das mais diversas experiências, acumuladas ao longo da vida.» Quem o diz é a autora, numa das entrevistas coligidas para a nova edição do livro de 2003 que foi agora reeditado em Itália. Esta versão alargada vem acrescida de duas novas secções: “Tesselas 2003-2007”, intercalando ensaios, correspondência e quatro entrevistas; e “Missivas 2011-2016”, dezassete entrevistas, uma delas de Isabel Lucas. O sucesso planetário do quarteto napolitano (constituído pelos romances A Amiga Genial, História do Novo Nome, História de Quem Vai e de Quem Fica, História da Menina Perdida) deu azo a uma enxurrada de entrevistas para todo o mundo, respondidas sempre por email, tendo Ferrante incluído nesta reedição as suas preferidas. A tradução portuguesa acaba de chegar às livrarias. Longe da exuberância descritiva e da vertigem vocabular dos romances acima citados, bem como daqueles que reuniu em Crónicas do Mal de Amor, a nitidez persiste como regra. Três itens centrais: o direito ao anonimato, a “verdade” em literatura, a defesa intransigente do feminismo. Sobre este último tópico, bem defendido do ponto de vista teórico, faz ouvir uma voz desalinhada: «Temo a linearidade das militâncias, em literatura têm um péssimo efeito.» Aí está um desabafo que não seria possível nos anos 1960. Entretanto, reage com frieza à desconfiança e mesmo hostilidade que o seu anonimato suscita em Itália: «Como se o meu gesto de me subtrair fosse um comportamento ofensivo e digno de culpa.» Clareza desarmante sobre a obra: «Eu escrevo sobre experiências comuns, dilacerações comuns, e a minha máxima obsessão [é ser] capaz de tirar, camada após camada, a gaze que enfaixa a ferida, e chegar à história verídica da chaga.» O princípio não se esgota na epopeia de Elena e Lila. O mesmo tipo de preocupação matiza o diálogo que estabelece com Mario Martone a propósito do guião para cinema de Um Estranho Amor. O filme chocou-a, provocando-lhe «um grande mal-estar», mas a carta de Maio de 1995, inacabada e nunca enviada ao realizador, é um dos momentos altos do livro. Resumindo, Escombros é uma obra decisiva para entender o fenómeno Elena Ferrante. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre António Ferro. Um Homem por Amar, de Rita Ferro (n. 1955), sua neta. Já vi chamar romance a muita coisa, menos a uma biografia. Mas é o que sucede com este livro. Além de cronologia histórica, o volume inclui textos inéditos e mais de duzentas páginas de correspondência do biografado, ou seja, do intelectual modernista que, ironia suprema, construiu a persona de Salazar. Jornalista, escritor, editor da revista Orpheu, director do Secretariado da Propaganda Nacional (1933-50), ideólogo do Estado Novo, impulsionador da Exposição do Mundo Português (1940), fundador do Museu de Arte Popular (1948) e, mais tarde, ministro plenipotenciário (1950-56) em Berna e Roma, António Ferro é uma figura incontornável do século XX português. Verdade que, na primeira parte do volume, Rita Ferro intercala trechos pessoais, mas isso faz parte do protocolo de qualquer biografia. O livro descreve, com minúcia, episódios da vida familiar e profissional, a Política do Espírito, sua mulher Fernanda de Castro, querelas modernistas, as entrevistas famosas (entre outras, com Poincaré, Colette, Mussolini, o Papa Pio XI e Primo de Rivera), perfis de Salazar, políticos e artistas, etc., tudo contextualizado em notas de rodapé. Um ajuste de contas. Três estrelas. Publicou a Dom Quixote.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

TERROR

O atentado contra a feira de Natal da Breitscheidplatz, em Berlim, já fez 9 mortos. Estão confirmados mais de 50 feridos. O método utilizado foi o do atentado de Nice em Julho passado: um camião atropelou deliberadamente as pessoas que estavam no local. A Breitscheidplatz fica muito perto da Kurfürstendamm (vulgo Kudamm), uma das avenidas mais movimentadas da cidade, zona comercial e turística por excelência. Alegadamente, o camião era conduzido por um polaco.

DISPARATE DO ANO


Pôr em risco a democracia? Alguém no DN anda a desatinar. Parece-me evidente que o Governo não pode cair na esparrela da lei de excepção. Mas daí aos riscos para a democracia vai um passo e tanto! Espero que Luis Filipe Castro Mendes, o ministro da Cultura, não repita o erro de Isabel Pires de Lima, que fez uma lei de excepção para João Bénard da Costa. Isso sim, foi um momento triste para o regime democrático.

Clique nas imagens do Diário de Notícias.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 54,8%. Sozinho, o PS ultrapassa a PAF. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

TIRO AO LADO


Que raio de raciocínio é este? É evidente que a média salarial muda consoante o tipo de actividade. Até na antiga URSS era assim. Um catedrático ganha mais do que uma mulher-a-dias tal como um médico ganha mais do que um caixa de supermercado. O insert (a imagem) é do Público mas podia ser de outro jornal qualquer. E é fatal. Porque se um juiz ganha, em média, 4.000 euros por mês, um trabalhador da hotelaria e restauração ganharia... 2.520 euros. É o que nos diz a operação de subtrair 37%. Será? A reportagem é um choradinho por haver «Licenciados a ganhar 2,5 euros à hora, trabalho nocturno pago a menos de cinco euros...» O problema é serem licenciados? Se não forem licenciados está tudo bem? O problema é haver trabalhadores pagos por esses valores. A licenciatura é irrelevante. Sejamos claros: a regressão das condições de trabalho, em todas as actividades, é um facto. Estamos a viver um Caetanismo II. Discutir o assunto sob o prisma do canudo é não ter noção da realidade.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

BOB DYLAN


Hoje na Sábado escrevo sobre Crónicas, de Bob Dylan (n. 1941), autor que corrobora o que a Antiguidade Clássica nos ensinou: todo o poeta é um cantor. Só um profundo desconhecimento do que é a poesia justifica a celeuma gerada em torno da atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Afinal, a poesia começou por ser cantada. Crónicas, agora reeditado, é o primeiro volume das memórias do homem que deveio porta-voz de uma geração. Começa com a chegada a Nova Iorque em 1961: «O que quer que eu andasse a fazer estava a dar resultado, e eu tencionava continuar assim. Sentia que estava a chegar a algum lado.» Numa prosa escorreita, Dylan descreve peripécias da sua vida pessoal, o quotidiano de Manhattan, em especial o milieu do Village, encontros com artistas e poetas, detalhes relacionados com a música que escreveu, política americana, o activismo de Joan Baez, retratos de terceiros, provocações dos media, como quando a revista Esquire publicou «um monstro de quatro caras» — a sua, misturada com as de Malcolm X, Fidel e Kennedy. Aguardar a reedição da sua poesia completa, do curioso livro que é Tarântula e, já agora, dos seis volumes de ensaios sobre arte. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

ALEPO

A devastação de Alepo é a nossa vergonha diária. Não podemos dizer que não sabemos, mesmo sabendo pouco (nós, os que até lemos os jornais de referência, europeus e americanos, seguimos a BBC e a Al Jazeera, conversamos com amigos ‘bem colocados’ nos corredores da diplomacia), porque cada fonte tem a sua verdade, mas, seja ela qual for, Alepo é um ferrete. Isto dito, faz-me confusão ler que as tropas de Bashar Al-Assad executaram, anteontem, milhares de civis. O meu problema é de ordem semântica. Executar não é o mesmo que provocar milhares de mortos durante uma intervenção militar. Quando bombardearam Londres, os alemães não ‘executaram’ ninguém. O Blitz, sobretudo o de Setembro de 1940, provocou milhares de mortos, mas isso não foi uma execução. Foi um acto de guerra. Nada disto desculpa Assad, Putin, Khamenei, Erdoğan, Obama, Hollande e pessoal menor. Convinha usar as palavras exactas. O horror não é transferível por efeito de propaganda. Ou nos explicam em que circunstâncias se verificaram as ‘execuções’ ou estamos no domínio do agitprop que nada resolve. As dezenas de milhares de mortos de Alepo não precisam de álibi diplomático-jornalístico.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

CRÓNICA DE FRANKFURT



Estava por fazer a crónica dos seis dias que passei em Frankfurt na semana passada. Chegada num domingo de sol radioso e cinco graus negativos. A partir das quatro da tarde nunca mais vi sol. Foram dias cinzentos, com vento, nevoeiro cerrado, gelo nas pontes e fiapos de neve. Frankfurt não é uma cidade exaltante, mas respira civilização e dinheiro. Quem conhece os museus de Nova Iorque, Londres, Paris, Madrid, Amesterdão, etc., não descobre nada de novo no Städel, excepto, claro, um excepcional acervo de pintura alemã, aliás magnífica. Mas não faltam os nomes universais, de Watteau a Picasso, sem esquecer Andy Warhol e outros contemporâneos reunidos na luminosa ala subterrânea. Noutro registo, a Kunsthalle é de visita obrigatória: várias alas com exposições temporárias de clássicos e novíssimos. Haverá mais uma dúzia de museus. A zona de Rathaus, onde fica o Römer (a Câmara da cidade desde 1405), encontra-se transformada num estaleiro por causa da recuperação das fachadas conforme modelo dos séculos XV a XVII. Contudo, consegui entrar na Igreja de São Nicolau e ouvir o carrilhão ao vivo. O caos atinge o paroxismo com as famosas barracas de Natal a entupirem. A Feira ocupa todo o centro da cidade, mas em Rathaus, devido às obras, representam um estorvo. 

Os amantes de ópera, bailado e música clássica têm muito por onde escolher. Frankfurt tem duas óperas: a Velha (1880), em Opernplatz, e a Nova (1951), na Willy Brandt Platz. A Alte Oper foi bombardeada em 1944, reconstruída e reaberta em 1981 como sala de concertos. Os espectáculos de ópera passaram todos para a Nova, um edifício magnífico com uma programação de primeiríssima água. Durante a minha estadia estiveram em cena La Bohème, de Puccini, Eugen Onegin, de Tchaikovsky, Ezio, de Gluck e Der Goldene Drache, de Peter Eötvös. No sábado, dia 10, estreou Die Zauberflöte, de Mozart, que queria muito ver, mas o regresso a Lisboa foi na véspera. Além das óperas há recitais a solo, como o do barítono Johannes Martin Kränzle, marcado para hoje.

Sobre gastronomia, item que desatina os puritanos, diz-me a experiência de cinco visitas (num lapso de dez anos) que em Frankfurt come-se muito bem a partir de uma média de 70 euros por boca. Média casal: 140. Este valor corresponde a uma refeição composta por couvert, uma garrafa de água, uma garrafa de vinho, dois pratos principais, uma sobremesa, um café e um chá. Por esse valor temos direito a cozinha de qualidade, serviço irrepreensível, asseio absoluto, bom ambiente, decoração adequada e conforto. Os indígenas jantam muito cedo, mas os restaurantes de que vou falar estão cheios às onze da noite. Praticamente não há turistas. Não cito restaurantes de luxo, nem de chefs com estrela Michelin. Os exemplos situam-se, pelo padrão de Lisboa, algures entre a Bica do Sapato e o Solar dos Presuntos. Pela minha experiência, o custo de vida subiu, da Primavera de 2014 para cá, uns dez por cento. Cinco moradas a que regresso sempre: o Charlot (italiano), em Opernplatz, a Brasserie An Der Alten Oper, que fica mesmo ao lado — ambos virados para a Alte Oper  —, o The Ivory Club (cozinha colonial indochinesa), em Taunusanlage, o Meyer, em Große Bockenheimer Straße, e o Zarges no extremo oposto da mesma rua. Desta vez descobrimos um restaurante turco fabuloso, o Sümela, em Taubenstraße. E um indiano simpático, o Taj Mahal, do outro lado do rio, em Schweizer. O hotel onde costumamos ficar, o Steigenberger Frankfurter Hof, tem quatro restaurantes: o Français (nunca experimentei), estrelado, vocacionado para milionários do Dubai; o Oscar, bastante simpático; o Hofgarten, vulgar; e o Breeze by Lebua, cozinha asiática de fusão, que experimentei agora. Carote-ote-ote. A simpatia do staff e a decoração não justificam os cifrões. O senhor Lebua passa metade do ano em Banguecoque e a outra metade em Frankfurt. Tudo visto, o italiano Charlot continua imbatível, servindo o melhor ragú que jamais comi. Consta que a Brasserie An Der Alten Oper tem Varoufakis entre os clientes famosos. (Os empregados são gregos.) O Sümela foi toda uma experiência turca a roçar o erótico. E o Ivory Club voltou à sua melhor forma. Não vale a pena tentar comer barato. Frankfurt não é Lisboa. Uma refeição de 30-40 euros, para duas pessoas, é um desastre.

Por último, uma experiência inédita. No regresso a Lisboa, no aeroporto, fui obrigado a tirar os sapatos (mas não o cinto), minuciosamente analisados, primeiro à mão, depois no raio X, por um funcionário azedo que esteve mais de cinco minutos a apalpar-me de frente e de trás, tarefa que incluiu massagem da zona dos tornozelos e calcanhares. Não estou a reclamar, limito-me a descrever um facto. Normas de segurança são normas de segurança. Como nunca me tinha acontecido nada tão intrusivo, em lado nenhum (em Miami, em 2008, tive de despir o blazer e despejar o saco a tiracolo), fui apanhado de surpresa.

Por falar do aeroporto de Frankfurt, o 4.º mais movimentado da Europa, registo com agrado que certas áreas (o acesso às portas 52-70), se não são novas, foram renovadas de ponta a ponta, com equipamento novo: passadeiras rolantes, placards, sinalética, assentos, lugares reservados para deficientes, mesas para computadores, lojas, restaurantes, salas de repouso com espreguiçadeiras, etc. Tudo a brilhar de limpeza. Na Primavera de 2014 ainda as casas de banho eram imundas. Agora são luminosas, amplas e limpas.

A imagem ao alto foi obtida na passada quinta-feira, dia 8, ao meio-dia, a partir de uma das pontes que atravessam o Meno. A de baixo mostra as barracas de Natal em Hauptwache, uma espécie de Rossio local. Clique nelas para ver melhor.

POIS


Capa da última Time. Nenhuma surpresa na escolha. O punctum do retrato, feito pelo fotóografo Nadav Kander, está na cadeira Luís XV. Se fosse Hillary provavelmente seria fotografada numa cadeira Mies van der Rohe. Clique na imagem.

GUTERRES NA ONU


Guterres fez ontem o juramento como secretário-geral das Nações Unidas. À cerimónia assistiram, entre outros, o Presidente da República e o primeiro-ministro António Costa. A foto é de Reinaldo Rodrigues para o Diário de Notícias. Clique na imagem.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

RAP

Numa das cem entrevistas que deu nos últimos dez dias, Ricardo Araújo Pereira lamentou-se ao jornal i da impossibilidade de fazer «um sketch sobre marrecos, coxos e mariconços». Já sabíamos que, em Portugal, consoante a origem social ou lugar cativo na hierarquia de classes, os homossexuais masculinos se dividem em três grupos: homossexuais, gays e bichas.

O primeiro grupo subsume os altos cargos do Estado, diplomatas, catedráticos, membros do Gotha, maçons de topo, deputados, banqueiros, gestores, brokers, o baronato das Grandes empresas e políticos avulsos. Fora do círculo das duzentas pessoas que controlam o Who’s Who, o silêncio é de regra. O segundo, dito gay, engloba os representantes da intelligentsia, antiquários, decoradores, estilistas e, de um modo geral, happy few com boa imprensa. No terceiro, o das bichas tout court, cabe tudo o que sobra, com destaque para artistas e cabeleireiros. Até aqui, nada de novo.

Mas Ricardo Araújo Pereira lamenta não poder achincalhar os mariconços. Eu não sei o que é um mariconço. Será uma bicha de call center? Um entertainer? Lamento pelo Ricardo, homem culto e inteligente, de quem gosto, mas assim não vamos lá. A sorte dele é ser o Ricardo, caso contrário teríamos meio mundo a dizer dele o que Mafoma não disse do toucinho.

Nota lateral: no mundo de língua inglesa o termo queer é usado com orgulho. E não há forma de traduzir queer senão por bicha.

sábado, 10 de dezembro de 2016

ITALO CALVINO


Esta semana escrevo na Sábado sobre Um Otimista na América, de Italo Calvino (1923-1985), o italiano que nasceu em Cuba, lutou na Resistência italiana contra os nazis e viveu treze anos em Paris. Nome central da Literatura do século XX, autor de romances e ensaios, Calvino também escreveu este diário da primeira viagem que fez aos Estados Unidos, entre Novembro de 1959 e Maio de 1960, a convite da Fundação Ford, depois de abandonar o Partido Comunista Italiano em Agosto de 1957. Em 1961, já com provas revistas, desistiu de publicar o livro, «demasiado modesto como obra literária e não suficientemente original como reportagem jornalística», confissão feita a Luca Baranelli, de certo modo contrariando a sua própria premissa: «Os livros de viagens são uma maneira útil, modesta e no entanto completa de fazer literatura.» Seria preciso esperar por 2014 para que Um Otimista na América visse a luz do dia. Calvino não foi o primeiro, nem terá sido o último intelectual marxista a deixar-se fascinar pelos Estados Unidos, melhor dito, a América. Em 1948, já Simone de Beauvoir publicara o magnífico L’Amérique au Jour le Jour, relato da sua estadia de quatro meses no ano anterior. Mas há uma diferença de tom: enquanto a Beauvoir, que visitou o país praticamente em cima do fim da guerra, usa um arsenal de reticências, Calvino não disfarça o fascínio pelo “milagre” americano. Nada lhe escapa: costumes, arquitectura, o Village pós-Henry James, volatilidade do quotidiano, hábitos e tiques do meio literário (viajou na dupla qualidade de escritor e consultor literário da editora Einaudi), colégios privados, psicanálise, a obsessão com o agendamento de qualquer compromisso, dress code e códigos de classe, imigrantes italianos, ensino da literatura, cultura da negritude, o Mardi Gras, a intolerância do segregacionismo, o Sul profundo, sexo e automóveis, vida nocturna, Las Vegas, imprensa, peculiaridades das mulheres, hotéis (item que também seduziu a Beauvoir), os vinhos do Vale de Sonoma, Chicago vs Nova Iorque, ditadura da publicidade, o porquê da Broadway “entortar” a partir da Rua 10, etc., em suma, um minucioso tour d’horizon sobre a sociedade americana. Seria pleonástico acrescentar que tudo flui em prosa excelentíssima. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

domingo, 4 de dezembro de 2016

ATÉ JÁ


Desiludam-se: não vou almoçar com Mario Draghi. Clique na imagem.