quinta-feira, 27 de outubro de 2016

IAN McEWAN


Hoje na Sábado escrevo sobre Numa Casca de Noz, do inglês Ian McEwan (n. 1948), um autor que não pára de surpreender-nos. O romance mais recente coloca o narrador num feto: «E para aqui estou eu, de pernas para o ar dentro de uma mulher. Com os braços pacientemente cruzados, à espera, à espera e a perguntar-me dentro de quem estou, para que estou aqui.» É assim que o livro começa. É provável que os leitores de Expiação (2001), Na Praia de Chesil (2007), Mel (2012) ou A Balada de Adam Henry (2014), quatro dos seus livros que fixaram a bitola do virtuosismo, fiquem desconcertados com um romance que, seguindo a tipologia narrativa de um thriller, ultrapassa o protocolo do género. Com recurso ao imaginário hamletiano, McEwan faz o que antes dele outros fizeram. Iris Murdoch e David Foster Wallace são dois exemplos. É lendário o ódio que opôs o príncipe da Dinamarca ao tio Claudius. Numa Casca de Noz anda lá perto. Dois amantes, Trudy e Claude, combinam matar John, pai da criança que vai nascer. John, poeta e editor marginal, irmão de Claude, não perdeu a esperança de voltar a viver com Trudy. Mas é com o cunhado que Trudy quer estar, sobretudo na cama. Ninguém melhor que o feto-narrador para o comprovar: «Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz.» O enfoque podia ter privilegiado a trama assassina, mas McEwan optou por um solilóquio em grande angular. Desviando-se da intriga central, o feto-narrador reflecte sobre vários temas, tais como o carácter dos progenitores, as sequelas do terrorismo em Londres («Não entro no metro desde o 7 de Julho»), geopolítica internacional, os «vastos movimentos de populações» e até as peculiaridades da monarquia britânica, sem esquecer as trivialidades do quotidiano. Num autor menos apetrechado, a descrição de certas situações seria penosa. Convenhamos que pôr um feto a discretear sobre a exiguidade do «sítio onde [se] encontra» não acontece todos os dias. Citações de Shakespeare, Draiton, Keats, Eliot, Owen e outros, dão consistência ao recorte psicológico das personagens, bem como ao inesperado desfecho. Quatro estrelas. Publicou a Gradiva.

Escrevo ainda sobre Memórias de um Escravo, de Laila Lalami (n. 1968), escritora marroquina de expressão inglesa, radicada há mais de vinte anos nos Estados Unidos, país onde começou a escrever e publicar. A história, centrada numa expedição ao denominado Novo Mundo (América) durante a primeira metade do século XVI, é narrada por Mustafa ibn Muhammad, o escravo negro-árabe de Azamor a quem o capitão da armada castelhana tratava por Estebanico. Baseado em factos reais, o romance de Laila Lalami foi construído a partir de Naufragios y comentarios, o diário de viagem de Álvar Núñez Cabeza de Vaca (1490-1557) considerado o primeiro relato histórico do que é actualmente a Flórida. Laila ficciona as personagens, excepto Estebanico, intercalando os vários tempos da narrativa. A intriga apoia-se numa série de incidentes picarescos, apontamentos etnográficos, violência, equívocos e um saldo de centenas de mortes. Estebanico é um dos quatro sobreviventes do desastre. Em rodapé, o tradutor Paulo Rêgo ajuda o leitor a situar as datas da Hégira no calendário cristão. Exemplo: «o ano 934 da Hégira […] corresponde a 1527Três estrelas. Publicou o Clube do Autor.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

PAUL BEATTY


Com The Sellout, uma saga distópica, Paul Beatty, 54 anos, tornou-se o primeiro americano a ganhar o Man Booker Prize. Entre 1969 e 2013 o prémio foi atribuído exclusivamente a autores do Reino Unido e dos países da Commonwealth. Desde então é irrelevante a origem do autor, desde que o livro esteja publicado em língua inglesa no Reino Unido. Beatty, que começou a publicar em 1991, é autor de quatro romances e dois volumes de poesia. Lembrar que The Sellout já havia sido premiado com o National Book Critics Circle Award. Quanto sei, nenhum livro seu está traduzido em Portugal.

Na imagem (BBC), Beatty com a Duquesa da Cornualha.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

CONDIÇÃO DE RECURSOS

Anda tudo em polvorosa com a exigência de condição de recursos para as pensões mínimas. Para começo de conversa convém esclarecer que a denominada pensão mínima tem quatro escalões: vai de 275,89 euros para quem tenha descontado durante um período inferior a quinze anos, até 380,56 euros para quem o tenha feito durante pelo menos trinta anos. São valores de 2016.

Isto dito, três histórias entre muitas possíveis.

J., 72 anos, operário, tendo trabalhado nos Estados Unidos durante 36 anos (1976-2012), é detentor de uma pensão americana de 836 dólares, o equivalente a 768 euros. Não obstante, requereu e aufere o escalão mais baixo da pensão mínima da Segurança Social por ter trabalhado e descontado em Portugal entre 1967-75.

T., 92 anos, doméstica, vivendo em união de facto (desde 1971) com um médico do SNS detentor de pensão de aposentação de 2.400 euros brutos, viu indeferido em 2011 o pedido de pensão de velhice. Argumento: Não tem necessidade.

M., 67 anos, freelance na área da fotografia, proprietário de viatura própria e habitação avaliada em meio milhão de euros, nunca tendo efectuado descontos em Portugal, aufere o escalão mais baixo da pensão mínima da Segurança Social. Verdade que ter carro e casa não põe comida na boca, não paga a conta da farmácia, nem a electricidade nem a água, etc. Mas não custa demonstrar.

É evidente que este universo tem de ser disciplinado. Não se trata de mexer no que está atribuído. Trata-se de escrutinar o que aí vem.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

PERDÃO?

O Governo britânico prepara-se para perdoar cerca de setenta mil homens e mulheres que foram julgados e condenados por homossexualidade antes de 1967 (na Inglaterra e no País de Gales), antes de 1980 (na Escócia) e antes de 1982 (na Irlanda do Norte). Perdão póstumo para a maioria, uma vez que apenas dezasseis mil culpados permanecem vivos. Mais valia estarem quietos. O ‘perdão’ cauciona a culpa, o crime. Bem fez George Montague que declarou publicamente não aceitar o indulto: «Aceitar um perdão é admitir que foi culpado. Eu não fui culpado de nada. Só fui culpado de estar no lugar errado no momento errado

Os anónimos são menos que Alan Turing, a cujos herdeiros o Governo de Sua Majestade apresentou um pedido formal de desculpas? Ao menos o Governo alemão indemnizou (em Maio de 2015) os seus cidadãos condenados por homossexualidade.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

ANTHONY MARRA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Czar do Amor e do Tecno, uma colectânea de contos do americano Anthony Marra (n. 1984). A história russa dos últimos cem anos é uma das prioridades da edição internacional, seja para dissecar o estalinismo, seja para analisar o colapso da URSS. O autor acrescenta o seu nome a essa vasta bibliografia. O New York Times garante que o livro é uma versão actual de Guerra e Paz, de Tolstoi, mas estamos no domínio do ditirambo. O livro tem um lado A, com quatro contos, e um lado B, com mais quatro. Existe um intervalo preenchido pelo conto que dá o título ao volume. Não comece por aí para evitar a sensação de ler Jay McInerney com quarenta anos de atraso. O resto tem maior consistência. Existem personagens comuns a vários textos. Temas dominantes: a rasura dos dissidentes durante o Grande Terror (os seus rostos foram apagados de fotografias e pinturas), os campos da morte e, naturalmente, a Chechénia, epicentro dos interesses do autor. Pode ser que A Constellation of Vital Phenomena (2013), o romance de estreia, inédito em Portugal, seja emocionante. Estes contos são apenas competentes. Três estrelas. Publicou a Teorema.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O VOLUME QUE FALTAVA


Quando forem seis da tarde, será lançado no Centro Nacional de Cultura o segundo volume das memórias de Eugénio Lisboa — Acta Est Fabula —, referente aos anos 1947-1955, período em que o autor veio estudar para Lisboa. Era o volume que faltava, pois estão publicados o primeiro (1930-1947), o terceiro (1955-1976), o quarto (1976-1995) e o quinto (1995-2015). A apresentação será feita por Liberto Cruz.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

SNOWDEN


Se ainda não viu, veja. Snowden de Oliver Stone é um daqueles filmes que temos de ver. Tirando Nicolas Cage e Tom Wilkinson, ambos em papéis secundários, o elenco é preenchido por quase-desconhecidos. Mesmo o protagonista, Joseph Gordon-Levitt, era para mim um nome exótico. (Mas no fim temos direito a uns minutos com Edward Snowden himself.) Não é o plot que é um pesadelo. É o mundo em que vivemos desde o 11 de Setembro de 2001.

sábado, 15 de outubro de 2016

O TAMANHO CONTA?

Desde quinta-feira que leio e ouço toda a sorte de disparates a propósito da atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan. Isto não tem nada a ver com gostarem ou não gostarem da escolha do comité Nobel. Cada um é livre de concordar ou discordar. Eu, por acaso, não subscrevo metade das escolhas feitas até hoje (e estou a ser generoso). Mas há argumentos que relevam da ignorância. Dizem alguns: O gajo só tem 4 ou 5 livros publicados. Não é verdade. Já agora: por acaso sabem quantos livros publicou Raduan Nassar? Quatro, o mais recente em 1994. Isso não o impediu de vencer o Prémio Camões 2016. Mas Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013) publicou noventa e morreu sem ser laureado com o mesmíssimo Camões. Sim, noventa: 25 romances, 12 novelas, 14 colectâneas de contos, 24 volumes de ensaios, 8 livros de viagem, 6 colectâneas de crónicas e uma peça de teatro. E Urbano não era um qualquer.

EM QUE FICAMOS?


Em que ficamos: 5,50 euros ou 25 cêntimos? Veja e clique nas imagens. São ambas do Diário de Notícias de hoje. Na capa, o jornal diz que o subsídio de refeição dos funcionários públicos contará com «mais 5,5 euros por mês». Nas páginas interiores, o aumento será de 25 cêntimos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

PROTOCOLOS

A maioria das pessoas desconhece que os prémios literários, como os de outras áreas, exigem candidatura prévia. Uma candidatura envolve burocracia e, no caso do Nobel, esses trâmites obedecem a protocolos estritos. Não chega um jornal ou associação corporativa proclamar que fulano é o nosso candidato. Em Estocolmo estão vacinados para candidaturas virtuais. Adiante.

Descendo do Panteão à realidade portuguesa. Uma candidatura ao mais obscuro prémio literário envolve coisas tão esotéricas como, por exemplo, atestado de residência do autor. Ponto decisivo: se o editor, por desleixo ou má-fé, não candidatar determinada obra, ela fica de fora. E muitos esquecem-se dessa obrigação. É tão simples como isto.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

AUSENTES

Ando há vários anos a bater na mesma tecla: Claudio Magris, italiano, autor de uma obra excepcional, já devia ter recebido o Nobel da Literatura. Ainda há dias voltei ao assunto.

Desde que começou a ser atribuído em 1901, o Nobel da Literatura ignorou dezenas de grandes autores, dos quais destaco Tolstoi, Joyce, Proust, Kafka, Borges, Ibsen, Nabokov, Valéry, Yourcenar, Rushdie, DeLillo e Carlos Drummond de Andrade. Se isto não é o topo, não sei o que seja o topo.

É evidente que Bob Dylan está noutro patamar. Mas antes ele que muitos autores citados em várias partes.

NOBEL 2016


Bob Dylan é o Nobel da Literatura 2016. Antes de arrancarem os cabelos, ter em conta que se trata de um grande poeta. O prémio faz todo o sentido. Clique na imagem.

NELSON & CRISTINA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Homem Fatal, de Nelson Rodrigues (1912-1980). Nunca será de mais enfatizar a importância da sua obra de dramaturgo, cronista, romancista, contista e, antes de tudo, repórter. O facto de ter apoiado a ditadura militar instaurada em 1964 gerou rasura e equívocos. Contudo, seu filho Nelsinho, o famoso ‘Prancha’ da luta armada, teve o retrato afixado nos aeroportos, sendo preso e torturado em 1972. Praticamente inédito em Portugal, Nelson era quase só identificado como tradutor dos romances de Harold Robbins. Estamos a falar do homem que em 1943, com Vestido de Noiva, fez o teatro brasileiro entrar na modernidade. Convém lembrar que o reaccionarismo de um autor não pode servir de bitola para o excluir. Mesmo porque: «D. Hélder está furioso com a questão racial dos Estados Unidos. […] E os nossos negros?» Ignorar a obra de Nelson significa pôr de lado parte importante da literatura de língua portuguesa. Para contrariar o preconceito, a Tinta da China começou a editar vários dos seus livros. Os primeiros estão aí: além de O Homem Fatal, oitenta crónicas escolhidas por Pedro Mexia, saiu A Vida Como Ela É…, sessenta contos escolhidos por Abel Barros Baptista. Chegará, espero, o tempo das peças de teatro (as tragédias cariocas e outras) e das confissões (O Óbvio Ululante, A Cabra Vadia, etc.). É um bom começo, na medida em que é impossível compreender o Brasil sem ler Nelson. As crónicas condensam as grandes obsessões do autor (morte, sexo, hipocrisia), de ordinário ilustradas por um imaginário kitsch. Nelson expõe a céu aberto, não raro em recorte escabroso, e sempre com humor, os interditos e as contradições dos vários estratos da sociedade carioca. É nas crónicas que encontramos alguns dos aforismos que a lenda fixou: «O sujeito pode ser um pulha e como tal beber cerveja. Não há incompatibilidade entre o pulha e a cerveja.» No prefácio, Pedro Mexia sublinha ter privilegiado os textos que «ofendem o senso-comum ideológico», em detrimento dos autobiográficos, os de índole cultural e os dedicados ao futebol. Para estes últimos, de tal modo relevantes no conjunto da obra, é de presumir volume autónomo. Seja como for, a presente selecção é exemplar. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre As Fabulosas Histórias da Tapada de Mafra, um livro singular de Cristina Carvalho (n. 1949). Criada em 1747 por D. João V, a Real Tapada de Mafra, contígua ao palácio, serviu de parque de caça dos monarcas portugueses até à implantação da República. Sobre este espaço mítico, e sem omitir dados concretos, a autora fez mais do que um roteiro. Os monólogos do bufo-real e do lobo, tal como as narrativas encantatórias (sirvam de exemplo Piqueniques e formigas ou Um passeio noturno pela Tapada), sínteses de memórias remotas com o imaginário local, mas também os poemas, transformam o livro numa obra de classificação ambígua. Verdade que Cristina Carvalho sinaliza a origem da Tapada, a promessa do rei, os hábitos da Corte, o enquadramento geográfico, os materiais utilizados na construção do palácio-convento, a retrete de D. Carlos, as datas relevantes, etc., mas o livro tem outra ambição. Como de regra na obra da autora, a linguagem não abdica do timbre onírico. Em suma, um livro de leitura indispensável para quem queira conhecer e perceber a importância da Tapada de Mafra. Fotografias de Nanã Sousa Dias e desenhos de Teodora Boneva enriquecem o volume. Quatro estrelas. Publicou a Sextante.

A HISTÓRIA REPETE-SE

Jaber Albakr, o alegado terrorista sírio preso em Leipzig (Alemanha) no passado dia 8, foi ontem à noite encontrado morto por enforcamento na cela da prisão. As pessoas da minha geração já viram este filme: Ulrike Meinhof (1934-1976), fundadora do grupo de extrema-esquerda Baader-Meinhof, também se enforcou na cela.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

FRONDA TAXISTA

Parece claro que os dirigentes dos taxistas pretendem repetir o efeito do buzinão de 24 de Junho de 1994 que durante doze horas bloqueou a ponte sobre o Tejo, a maior acção de desobediência civil jamais registada em Portugal e, para todos os efeitos, o tiro de partida do colapso do cavaquismo. Esquecem-se de um detalhe: o protesto do Verão de 94 partiu da sociedade civil, enquanto que o de ontem tem origem em interesses corporativos que afrontam a maioria da população.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

LITERATURA ADIADA

Só daqui a 10 ou 15 dias se saberá o nome do laureado com o Nobel da Literatura 2016. Motivo? Os dezoito membros da Academia Sueca de Literatura estão profundamente divididos a discutir frioleiras do tipo... tem de ser uma lésbica declarada, tem de ser um negro, tem de ser um homossexual não encapotado, não pode ser um WASP com reconhecimento planetário, etc. É uma pena Claudio Magris não preencher nenhum destes itens.

Quando pensamos nas nulidades que a Academia Sueca tem distinguido (sirva de exemplo, por todos, Patrick Modiano), o facto de Magris, Rushdie, Philip Roth, Joyce Carol Oates, John Banville, Hilary Mantel, Richard Ford, David Grossman, Edward St Aubyn e outros continuarem no limbo, faz temer o pior. A ver vamos.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

GUTERRES


Guterres é na prática o próximo secretário-geral das Nações Unidas. Na votação hoje realizada, a sexta, o antigo primeiro-ministro obteve o voto de 13 dos 15 membros do Conselho de Segurança. Houve duas abstenções. Nenhum veto, nem sequer um voto contra. Ironia: foi Vitaly Churkin, o embaixador russo, quem fez o anúncio oficial. Amanhã de manhã realiza-se a votação em plenário da Assembleia-Geral, durante a qual Guterres deverá ser confirmado por aclamação.

A búlgara Kristalina Georgieva, vice-presidente da Comissão Europeia e candidata de última hora, divulgou entretanto um statement a felicitar Guterres. Lembrar que Kristalina foi imposta por Merkel e apoiada por Jean-Claude Juncker, pelo Partido Popular Europeu, pela diplomacia russa e por um subalterno português de Durão Barroso cujo nome não me ocorre.

Clique na imagem.

MAAT


Foi ontem inaugurada, com pompa e circunstância, a extensão do MAAT — Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, da Fundação EDP. Faz-me confusão que uma obra que só fica pronta daqui a seis meses tenha sido inaugurada. Neste momento, no edifício concebido pela arquitecta britânica Amanda Levete, apenas pode ver-se uma exposição, Pynchon Park (escultura, som, luz, performance), da francesa Dominique Gonzalez-Foerster. A obra insere-se no tema Utopia/Distopia. Em todo o caso, ainda tem doze dias para ver, na Central Tejo, as magníficas fotografias com que Edgar Martins dá corpo a Siloquies and Soliloquies on Death, Life and Other Interludes. Edgar Martins nasceu em Évora, em 1977, mas foi ainda criança para Macau, vivendo ali até 1996, ano em que foi estudar para Londres, onde continua a viver. Actualmente é um dos mais conceituados fotógrafos da sua geração, com obras representadas em colecções e museus dos dois lados do Atlântico. Se clicar na imagem, confere o que pode ver em cada um dos edifícios do MAAT.

RAFAEL CHIRBES


Hoje na Sábado, que saiu um dia mais cedo por ser feriado, escrevo sobre Paris-Austerlitz, romance póstumo do espanhol Rafael Chirbes (1949-2015). O livro reitera o óbvio: o conjunto da obra do autor, dez romances e quatro volumes de ensaios, é um dos mais consistentes da literatura contemporânea em língua castelhana. Chirbes não teve pressa. Tinha 39 anos quando publicou o primeiro livro, e estava morto quando o último saiu dos prelos. Fosse qual fosse o assunto, o apego à realidade foi constante. Sirvam de exemplo a bolha imobiliária espanhola e a ulterior crise da dívida soberana, tópicos que deram azo a romances notáveis. Paris-Austerlitz tem outro enfoque. À beira de morrer, Chirbes entregou ao editor o que podemos considerar o seu testamento autobiográfico. Quem leu o livro de estreia, Mimoun (1988), percebe que o ciclo se fechou. Estamos de volta aos temas centrais: homossexualidade, doença, solidão. Antes de regressar a Madrid, o narrador discorre sobre o carácter de Michel, o antigo amante, a morrer com sida num hospital de Rouen. O retrato de um certo meio por interposto ajuste de contas. Chirbes não divaga nem doura a pílula, tudo tem a exactidão das evidências. Saudar a tradução de Rui Pires Cabral, que soube escolher as palavras exactas. Quatro estrelas.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

UM ANO

Faz hoje um ano tudo mudou na política portuguesa. O arco da governação alargou de três para seis partidos e, com um atraso de 40 anos, o eleitorado foi obrigado a perceber o óbvio: o Governo emana do Parlamento. O resto é semântica.