sábado, 15 de outubro de 2016

O TAMANHO CONTA?

Desde quinta-feira que leio e ouço toda a sorte de disparates a propósito da atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan. Isto não tem nada a ver com gostarem ou não gostarem da escolha do comité Nobel. Cada um é livre de concordar ou discordar. Eu, por acaso, não subscrevo metade das escolhas feitas até hoje (e estou a ser generoso). Mas há argumentos que relevam da ignorância. Dizem alguns: O gajo só tem 4 ou 5 livros publicados. Não é verdade. Já agora: por acaso sabem quantos livros publicou Raduan Nassar? Quatro, o mais recente em 1994. Isso não o impediu de vencer o Prémio Camões 2016. Mas Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013) publicou noventa e morreu sem ser laureado com o mesmíssimo Camões. Sim, noventa: 25 romances, 12 novelas, 14 colectâneas de contos, 24 volumes de ensaios, 8 livros de viagem, 6 colectâneas de crónicas e uma peça de teatro. E Urbano não era um qualquer.

EM QUE FICAMOS?


Em que ficamos: 5,50 euros ou 25 cêntimos? Veja e clique nas imagens. São ambas do Diário de Notícias de hoje. Na capa, o jornal diz que o subsídio de refeição dos funcionários públicos contará com «mais 5,5 euros por mês». Nas páginas interiores, o aumento será de 25 cêntimos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

PROTOCOLOS

A maioria das pessoas desconhece que os prémios literários, como os de outras áreas, exigem candidatura prévia. Uma candidatura envolve burocracia e, no caso do Nobel, esses trâmites obedecem a protocolos estritos. Não chega um jornal ou associação corporativa proclamar que fulano é o nosso candidato. Em Estocolmo estão vacinados para candidaturas virtuais. Adiante.

Descendo do Panteão à realidade portuguesa. Uma candidatura ao mais obscuro prémio literário envolve coisas tão esotéricas como, por exemplo, atestado de residência do autor. Ponto decisivo: se o editor, por desleixo ou má-fé, não candidatar determinada obra, ela fica de fora. E muitos esquecem-se dessa obrigação. É tão simples como isto.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

AUSENTES

Ando há vários anos a bater na mesma tecla: Claudio Magris, italiano, autor de uma obra excepcional, já devia ter recebido o Nobel da Literatura. Ainda há dias voltei ao assunto.

Desde que começou a ser atribuído em 1901, o Nobel da Literatura ignorou dezenas de grandes autores, dos quais destaco Tolstoi, Joyce, Proust, Kafka, Borges, Ibsen, Nabokov, Valéry, Yourcenar, Rushdie, DeLillo e Carlos Drummond de Andrade. Se isto não é o topo, não sei o que seja o topo.

É evidente que Bob Dylan está noutro patamar. Mas antes ele que muitos autores citados em várias partes.

NOBEL 2016


Bob Dylan é o Nobel da Literatura 2016. Antes de arrancarem os cabelos, ter em conta que se trata de um grande poeta. O prémio faz todo o sentido. Clique na imagem.

NELSON & CRISTINA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Homem Fatal, de Nelson Rodrigues (1912-1980). Nunca será de mais enfatizar a importância da sua obra de dramaturgo, cronista, romancista, contista e, antes de tudo, repórter. O facto de ter apoiado a ditadura militar instaurada em 1964 gerou rasura e equívocos. Contudo, seu filho Nelsinho, o famoso ‘Prancha’ da luta armada, teve o retrato afixado nos aeroportos, sendo preso e torturado em 1972. Praticamente inédito em Portugal, Nelson era quase só identificado como tradutor dos romances de Harold Robbins. Estamos a falar do homem que em 1943, com Vestido de Noiva, fez o teatro brasileiro entrar na modernidade. Convém lembrar que o reaccionarismo de um autor não pode servir de bitola para o excluir. Mesmo porque: «D. Hélder está furioso com a questão racial dos Estados Unidos. […] E os nossos negros?» Ignorar a obra de Nelson significa pôr de lado parte importante da literatura de língua portuguesa. Para contrariar o preconceito, a Tinta da China começou a editar vários dos seus livros. Os primeiros estão aí: além de O Homem Fatal, oitenta crónicas escolhidas por Pedro Mexia, saiu A Vida Como Ela É…, sessenta contos escolhidos por Abel Barros Baptista. Chegará, espero, o tempo das peças de teatro (as tragédias cariocas e outras) e das confissões (O Óbvio Ululante, A Cabra Vadia, etc.). É um bom começo, na medida em que é impossível compreender o Brasil sem ler Nelson. As crónicas condensam as grandes obsessões do autor (morte, sexo, hipocrisia), de ordinário ilustradas por um imaginário kitsch. Nelson expõe a céu aberto, não raro em recorte escabroso, e sempre com humor, os interditos e as contradições dos vários estratos da sociedade carioca. É nas crónicas que encontramos alguns dos aforismos que a lenda fixou: «O sujeito pode ser um pulha e como tal beber cerveja. Não há incompatibilidade entre o pulha e a cerveja.» No prefácio, Pedro Mexia sublinha ter privilegiado os textos que «ofendem o senso-comum ideológico», em detrimento dos autobiográficos, os de índole cultural e os dedicados ao futebol. Para estes últimos, de tal modo relevantes no conjunto da obra, é de presumir volume autónomo. Seja como for, a presente selecção é exemplar. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre As Fabulosas Histórias da Tapada de Mafra, um livro singular de Cristina Carvalho (n. 1949). Criada em 1747 por D. João V, a Real Tapada de Mafra, contígua ao palácio, serviu de parque de caça dos monarcas portugueses até à implantação da República. Sobre este espaço mítico, e sem omitir dados concretos, a autora fez mais do que um roteiro. Os monólogos do bufo-real e do lobo, tal como as narrativas encantatórias (sirvam de exemplo Piqueniques e formigas ou Um passeio noturno pela Tapada), sínteses de memórias remotas com o imaginário local, mas também os poemas, transformam o livro numa obra de classificação ambígua. Verdade que Cristina Carvalho sinaliza a origem da Tapada, a promessa do rei, os hábitos da Corte, o enquadramento geográfico, os materiais utilizados na construção do palácio-convento, a retrete de D. Carlos, as datas relevantes, etc., mas o livro tem outra ambição. Como de regra na obra da autora, a linguagem não abdica do timbre onírico. Em suma, um livro de leitura indispensável para quem queira conhecer e perceber a importância da Tapada de Mafra. Fotografias de Nanã Sousa Dias e desenhos de Teodora Boneva enriquecem o volume. Quatro estrelas. Publicou a Sextante.

A HISTÓRIA REPETE-SE

Jaber Albakr, o alegado terrorista sírio preso em Leipzig (Alemanha) no passado dia 8, foi ontem à noite encontrado morto por enforcamento na cela da prisão. As pessoas da minha geração já viram este filme: Ulrike Meinhof (1934-1976), fundadora do grupo de extrema-esquerda Baader-Meinhof, também se enforcou na cela.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

FRONDA TAXISTA

Parece claro que os dirigentes dos taxistas pretendem repetir o efeito do buzinão de 24 de Junho de 1994 que durante doze horas bloqueou a ponte sobre o Tejo, a maior acção de desobediência civil jamais registada em Portugal e, para todos os efeitos, o tiro de partida do colapso do cavaquismo. Esquecem-se de um detalhe: o protesto do Verão de 94 partiu da sociedade civil, enquanto que o de ontem tem origem em interesses corporativos que afrontam a maioria da população.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

LITERATURA ADIADA

Só daqui a 10 ou 15 dias se saberá o nome do laureado com o Nobel da Literatura 2016. Motivo? Os dezoito membros da Academia Sueca de Literatura estão profundamente divididos a discutir frioleiras do tipo... tem de ser uma lésbica declarada, tem de ser um negro, tem de ser um homossexual não encapotado, não pode ser um WASP com reconhecimento planetário, etc. É uma pena Claudio Magris não preencher nenhum destes itens.

Quando pensamos nas nulidades que a Academia Sueca tem distinguido (sirva de exemplo, por todos, Patrick Modiano), o facto de Magris, Rushdie, Philip Roth, Joyce Carol Oates, John Banville, Hilary Mantel, Richard Ford, David Grossman, Edward St Aubyn e outros continuarem no limbo, faz temer o pior. A ver vamos.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

GUTERRES


Guterres é na prática o próximo secretário-geral das Nações Unidas. Na votação hoje realizada, a sexta, o antigo primeiro-ministro obteve o voto de 13 dos 15 membros do Conselho de Segurança. Houve duas abstenções. Nenhum veto, nem sequer um voto contra. Ironia: foi Vitaly Churkin, o embaixador russo, quem fez o anúncio oficial. Amanhã de manhã realiza-se a votação em plenário da Assembleia-Geral, durante a qual Guterres deverá ser confirmado por aclamação.

A búlgara Kristalina Georgieva, vice-presidente da Comissão Europeia e candidata de última hora, divulgou entretanto um statement a felicitar Guterres. Lembrar que Kristalina foi imposta por Merkel e apoiada por Jean-Claude Juncker, pelo Partido Popular Europeu, pela diplomacia russa e por um subalterno português de Durão Barroso cujo nome não me ocorre.

Clique na imagem.

MAAT


Foi ontem inaugurada, com pompa e circunstância, a extensão do MAAT — Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, da Fundação EDP. Faz-me confusão que uma obra que só fica pronta daqui a seis meses tenha sido inaugurada. Neste momento, no edifício concebido pela arquitecta britânica Amanda Levete, apenas pode ver-se uma exposição, Pynchon Park (escultura, som, luz, performance), da francesa Dominique Gonzalez-Foerster. A obra insere-se no tema Utopia/Distopia. Em todo o caso, ainda tem doze dias para ver, na Central Tejo, as magníficas fotografias com que Edgar Martins dá corpo a Siloquies and Soliloquies on Death, Life and Other Interludes. Edgar Martins nasceu em Évora, em 1977, mas foi ainda criança para Macau, vivendo ali até 1996, ano em que foi estudar para Londres, onde continua a viver. Actualmente é um dos mais conceituados fotógrafos da sua geração, com obras representadas em colecções e museus dos dois lados do Atlântico. Se clicar na imagem, confere o que pode ver em cada um dos edifícios do MAAT.

RAFAEL CHIRBES


Hoje na Sábado, que saiu um dia mais cedo por ser feriado, escrevo sobre Paris-Austerlitz, romance póstumo do espanhol Rafael Chirbes (1949-2015). O livro reitera o óbvio: o conjunto da obra do autor, dez romances e quatro volumes de ensaios, é um dos mais consistentes da literatura contemporânea em língua castelhana. Chirbes não teve pressa. Tinha 39 anos quando publicou o primeiro livro, e estava morto quando o último saiu dos prelos. Fosse qual fosse o assunto, o apego à realidade foi constante. Sirvam de exemplo a bolha imobiliária espanhola e a ulterior crise da dívida soberana, tópicos que deram azo a romances notáveis. Paris-Austerlitz tem outro enfoque. À beira de morrer, Chirbes entregou ao editor o que podemos considerar o seu testamento autobiográfico. Quem leu o livro de estreia, Mimoun (1988), percebe que o ciclo se fechou. Estamos de volta aos temas centrais: homossexualidade, doença, solidão. Antes de regressar a Madrid, o narrador discorre sobre o carácter de Michel, o antigo amante, a morrer com sida num hospital de Rouen. O retrato de um certo meio por interposto ajuste de contas. Chirbes não divaga nem doura a pílula, tudo tem a exactidão das evidências. Saudar a tradução de Rui Pires Cabral, que soube escolher as palavras exactas. Quatro estrelas.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

UM ANO

Faz hoje um ano tudo mudou na política portuguesa. O arco da governação alargou de três para seis partidos e, com um atraso de 40 anos, o eleitorado foi obrigado a perceber o óbvio: o Governo emana do Parlamento. O resto é semântica.

sábado, 1 de outubro de 2016

IMI CAVACAL


A partir da próxima segunda-feira, dia 3, o Público tem nova direcção. David Dinis, que vem da TSF, é o sucessor de Bárbara Reis. Talvez seja por isso que o jornal resolveu dar hoje um arzinho da sua graça. Esta notícia seria possível daqui a meia dúzia de dias?

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O METRO DE LISBOA

A linha verde do Metropolitano de Lisboa, que liga Telheiras ao Cais do Sodré, é a única onde os comboios não circulam com seis carruagens. Motivo: a estação continua como era em 1972, ano em que abriu. Das treze estações da linha verde, só Arroios mantém o formato original. Dito de outro modo: por causa de uma estação, os utentes das outras doze são fortemente penalizados. Esteve previsto o seu encerramento para que as obras pudessem realizar-se com celeridade, mas um coro de críticas obviou essa solução. As pessoas preferem viajar comprimidas em três carruagens (muitas vezes impedidas de entrar porque a bagagem dos turistas bloqueia o acesso) a terem uma estação encerrada durante seis meses.

Entretanto, os cartões VIVA — sem os quais é impossível circular no metro — estão esgotados na estação do Saldanha II. Não é anedota. Os crânios que são pagos para planificar e gerir não se lembraram que os turistas também os usam, sendo portanto necessário triplicar ou quadruplicar o stock. Conferir no local (Saldanha II, com ligação ao aeroporto), onde o aviso está redigido em... inglês.

A administração do Metropolitano assobia para o lado.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

MÁRIO DE CARVALHO & CAMILO



Hoje na Sábado escrevo sobre Ronda das Mil Belas em Frol, de Mário de Carvalho (n. 1944), título que a alguns parecerá obscuro, mas pode ler-se como “belas em flor”, ou, atento o teor das narrativas, ilustrando a efemeridade dos encontros à superfície dos dias, senão mesmo das ondas… Num tempo em que o vocabulário comum se vê reduzido a cem palavras, e este patamar já corresponde a gente com responsabilidades na área da comunicação e da Cultura, ler Mário de Carvalho reconcilia-nos com a língua. Volta a ser assim com este novo livro, uma colectânea de dezassete contos eróticos isentos de muleta metafórica, embora o universo fescenino não pise nunca o risco do soi-disant mau gosto, facto que tranquilizará os leitores mais sensíveis ao jargão rude. Não fica nada por dizer, mas o autor tem recursos de sobra para dispensar o vernáculo atinente. Exemplo: «Não é que eu desgoste da outra coisa, mas só me desencadeio com os dedos. Antes assim que Fulana […] que só goza por trás. Mesmo por trás, percebe?» Na realidade, Ronda das Mil Belas em Frol é um exercício bem esgalhado sobre o género feminino. Do epílogo: «Não poucas mulheres são intensas, efusivas, entusiásticas e, não seria exagero dizer, desvairadas, no momento da verdade.» O epílogo vale como conto. Retratos de mulheres: Gherda, Madalena, Antonieta, Cremilde, Mónica, Olga, Marta, Patrícia, Magda, Flora, Dionilde, Zulmira, Bruna, Aurora, Adozinda, Yolanda, Sílvia. E mais duas sem nome: uma executiva e a dona de uma tabacaria de shopping. Sandra e Rebeca não contam. Algumas são casadas. Apenas Mónica é citada com nome de família. Perfis breves, porém nítidos. Licenciosidade («Detesto coisas moles na minha mão»), ironia, cinismo, crítica social. Importa menos o recorte gráfico da coreografia libidinal («Vá, crava! — E, desfalecendo: — Crava!») do que o olhar arguto das circunstâncias, digamos, “transgressoras”, das classes médias urbanas. Dito de outro modo, a função dos sketches não se esgota na crónica dos engates do narrador. Estes contos fixam um tempo preciso, que talvez coincida com os anos 1970 e 80 do século passado, mas isto é presunção de leitor atento à linguagem e ao modus operandi das personagens, sem resquício de juízo valorativo. O feminismo ortodoxo vai torcer o nariz. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

Escrevo ainda sobre Todos os Contos, Novelas curtas e Romances breves de Camilo Castelo Branco (1825-1890), primeiro dos quatro volumes com que o Círculo de Leitores dará a conhecer a parte menos conhecida da Obra do autor de Amor de Perdição, ou seja, os contos, novelas curtas e romances breves, mas também, em próximos tomos, os textos polémicos e parte da correspondência do autor. Este primeiro volume inclui a famosa novela Maria! Não Me Mates Que Sou Tua Mãe!, bem como o romance inacabado A Infanta Capelista (1872), de certo modo inédito, pois teve difusão “clandestina”. Trata-se de um roman à clef sobre os Braganças e a família imperial brasileira. A sua escrita foi interrompida depois da visita que o imperador D. Pedro II fez ao escritor. Em carta a um amigo, Camilo não tergiversa: «A consciência entrou-me na algibeira.» O volume inclui cronologia biográfica, iconografia relacionada com a vida e obra do autor e notas. Parece-me pouco feliz a opção de paginar a duas colunas os textos de Camilo, suponho que com a intenção de os distinguir da vasta e criteriosa hermenêutica de José Viale Moutinho, responsável pela edição, autor dos preâmbulos e restante aparato crítico. Indispensável para melhor compreender Camilo. Cinco estrelas. Publicou o Círculo de Leitores.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

MATHIAS ENARD


Hoje na Sábado escrevo sobre Bússola, do francês Mathias Enard (n. 1972), prémio Goncourt 2015. Publicado em França no ano passado, Bússola segue o ar do tempo, que o mesmo é dizer, a querela que opõe Ocidente e Oriente a reboque da guerra civil na Síria, país onde alemães, franceses e espanhóis dividiam entre si os campos de petróleo. Dito de outro modo, a jihad explicada aos incréus. Para contextualizar, Enard cita dezenas de autores e personagens («Hercule Poirot, o herói de Agatha Christie…»), cruza factos históricos, como por exemplo a colonização do Médio Oriente por parte das potências ocidentais, ponto de partida de todos os males. A mnemónica de Franz Ritter, o narrador, é pontuada com passagens vagamente eróticas («Sulco o seu corpo esguio, musculado…»), uma sobrecarga de referências culturalistas («No oriente do Ocidente, como diz Pessoa») e, sobretudo, muita retórica de salão parisiense. Nem Lou Andreas-Salomé e Peter Fleming escapam ao inventário. Os costumes da sociedade iraniana trazem Verlaine à colação por via de um exame proctológico. Afinal, para a República Islâmica do Irão, público e privado confundem-se. Hitler também entra na intriga. Duas estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O IMPOSTO DA MARIANA

Desde 2012, por iniciativa do Governo PSD/CDS, a Tabela Geral do Imposto do Selo abrange o património de luxo. Nos termos da lei, «os proprietários, usufrutuários e superficiários de prédios urbanos sitos em Portugal, cujo valor patrimonial tributário seja igual ou superior a um milhão de euros...», pagam uma taxa de imposto de 1%. Em tratando-se de prédios detidos por sociedades residentes em paraísos fiscais essa taxa é de 7,5%. Este imposto não exclui o IMI. É obrigatório pagar o IMI mais o imposto adicional. Se a lei é cumprida, ou não, é outro campeonato.

Esta realidade acentua o carácter leviano do statement da deputada Mariana Mortágua, que não foi a primeira, nem será a última, a não saber estar calada (vale para gente de todos os partidos). Subscrevo as declarações de Fernando Medina, que foi de meridiana clareza. Disse o Presidente da Câmara de Lisboa: Não é bom ter deputados a apresentar medidas importantes. Isso cabe ao ministério das Finanças no tempo próprio.

Lembrar que, segundo dados da Autoridade Tributária, o IRS pago pelas novecentas famílias mais ricas de Portugal (as que detêm património superior a 25 milhões de euros ou rendimento médio anual acima de 5 milhões) corresponde a 0,5% do total imposto cobrado. Os restantes 99,5% são pagos pela classe média, porque os pobres estão isentos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

BÍBLIA DA QUETZAL?


Chega esta semana às livrarias o primeiro dos seis volumes da Bíblia traduzida do grego por Frederico Lourenço. Um acontecimento. Mas não é, como lhe chama o Diário de Notícias, a Bíblia da Quetzal. É a Bíblia publicada pela Quetzal. É provável que, em conversa despreocupada, o autor tenha utilizado a expressão. Mas o jornalista, ao transcrever, deveria ter feito a precisão. Acredito que Frederico Lourenço tenha sido o primeiro a ficar de cabelos em pé ao descobrir que há uma Bíblia da Quetzal. Clique na imagem.

NOVELA DO ABSURDO

Afinal, a revelação de que Joaquim Paulo Conceição teria subornado Sócrates com não sei quantos milhões (ver manchete do Correio da Manhã de sexta-feira), não passa de uma conjectura do procurador Rosário Teixeira, do Ministério Público. O presidente do Grupo Lena disse exactamente o contrário. E reagiu à notícia: «Nunca houve qualquer pagamento. Mentiras absurdas e inventadas não é jornalismo. É crime e têm de ser punidas.» O jornal já se retratou.