quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O MURO DE CALAIS

Ando desde ontem atordoado com a notícia da construção de um muro em Calais, iniciativa conjunta do Reino Unido e da França, destinada a impedir a entrada de refugiados e imigrantes no reino de Sua Majestade. Robert Goodwill, ministro britânico do Interior, explicou que o muro terá quatro metros de altura, estendendo-se ao longo de um quilómetro, no perímetro de acesso à zona do túnel e dos ferries do Canal da Mancha. Muro e novos “equipamentos” dissuasores. O que significa, exactamente, “equipamentos”? Tudo estará pronto antes do Natal.

Aparentemente, o controlo de fronteiras é insuficiente. Afinal, o Reino Unido nunca fez parte do Espaço Schengen. E, na prática, o Brexit está em vigor (o formalismo do artigo 50.º apenas visa definir o início das negociações formais). A Europa torna-se mais irrespirável a cada dia que passa.

PHILIP K. DICK


Hoje na Sábado escrevo sobre O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick (1928-1982). Para muita gente, Dick é o homem por trás de Blade Runner, o filme que Ridley Scott fez a partir do romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, uma das suas obras mais conhecidas. Desde 1962, quando publicou O Homem do Castelo Alto, Dick era tido como um dos gurus da ficção distópica. Narrado a partir do ponto de vista de Mr. Childan, proprietário de uma loja de bricabraque em São Francisco, o plot é perturbador: vencedores da Segunda Grande Guerra após a derrota da URSS e rendição dos aliados ocidentais, a Alemanha e o Japão dividem entre si os Estados Unidos da América. Hitler foi afastado por causa da sífilis e Bormann é o novo chanceler do Reich. Goebbels sobreviveu. Sob desconfiança mútua, a costa do Atlântico é administrada pelos alemães e a do Pacífico pelos japoneses. Espécie de linha de fronteira, subsiste no centro uma zona neutra. Dick torce a História para escrever um romance. Faz parte do protocolo. Azar: o tradutor confunde o New Deal (Roosevelt) com o Plano Marshall. Três estrelas.

FOLHETIM MNAA

A propósito das declarações proferidas no passado dia 2 na Escola de Quadros do CDS, António Filipe Pimentel, director do Museu Nacional de Arte Antiga, enviou uma carta de desculpas ao ministro da Cultura: «É desnecessário fazer pensar que quero incendiar o paiol, porque não quero.» Luís Filipe Castro Mendes, o ministro, deve regressar hoje a Portugal. O ministério confirmou ter recebido a carta. A imagem é do Diário de Notícias. Clique.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

SEGUNDA CIRCULAR

Dando provimento ao relatório do júri, o presidente da Câmara de Lisboa mandou anular o concurso e suspender as obras de requalificação da Segunda Circular. É de facto inadmissível que a empresa vencedora da adjudicação, a Consulpav, tenha passado a ser (não era na fase da candidatura) a distribuidora do pavimento indicado na sua proposta. Além do evidente conflito de interesses, a utilização de material nunca testado no nosso país era uma incógnita em termos de resultado final.

sábado, 3 de setembro de 2016

MARIA ISABEL BARRENO 1939-2016


Morreu hoje Maria Isabel Barreno, escritora e feminista de origem caboverdiana, co-autora, com Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, de Novas Cartas Portuguesas (1972) e, por consequência, do affaire Três Marias, que teve ampla repercussão na imprensa internacional, em particular na francesa e britânica. Na ocasião, foi convidada a proferir conferências em universidades europeias e norte-americanas. Contudo, nem toda a obra ficcional tem esse recorte militante. Sirvam de exemplo, entre outros, romances como De Noite as Árvores são Negras (1968), Os Outros Legítimos Superiores (1970), Célia e Celina (1985), A Morte da Mãe (1989), Os Sensos Incomuns (1993), O Senhor das Ilhas (1994), As Vésperas Esquecidas (1999) ou Vozes do Vento (2009). Durante muitos anos, Maria Isabel Barreno foi responsável pelo ensino do português em França, país onde também exerceu funções de conselheira cultural na embaixada de Portugal. Publicou ainda ensaios de índole sociológica sobre a condição dos trabalhadores e, em especial, da mulher. Tinha 77 anos. Clique na imagem.

DISCURSO DIRECTO, 43

Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura, hoje. Excerto:

«Estou um pouco perplexo. Não entendo que o senhor director do Museu Nacional de Arte Antiga, sem me dar qualquer conhecimento, e tendo reunido comigo na semana passada, venha dar alarme na comunicação social, e alarme público, porque não se pode dizer que uma casa não está segura, é quase um convite ao assalto.» 


AINDA O MNAA

Perguntar não ofende. Quando, em Março de 2010, assumiu o cargo de director do Museu Nacional de Arte Antiga e, por inerência, o de subdirector-geral do Património, António Filipe Pimentel estava ciente da escassez de recursos humanos do museu? Eram em número igual ao que são hoje? Mais? Menos? Em 2010 já eram 64 os funcionários do quadro (conservadores, técnicos superiores, investigadores, bibliotecários, pessoal administrativo, staff de comunicação, vigilantes), ou esse número mudou durante o Governo PSD-CDS? Se o museu está à beira de uma «calamidade», seja ela de que tipo for, por que não se demitiu? Não foi ele quem disse, em 2010, quando trocou o Museu Grão Vasco pelo MNAA, que não era «o homem da Regisconta»? Que sentido faz continuar no cargo tendo consciência da sua inutilidade? Seis anos é muito tempo. A importância do MNAA não justifica concurso público internacional para o cargo de director?

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

CALAMIDADE, DIZ ELE

António Filipe Pimentel, director do Museu Nacional de Arte Antiga, afirmou hoje de manhã:

«Um destes dias há uma calamidade no museu. São 64 pessoas para 82 salas abertas ao público. De certeza absoluta que um destes dias há uma calamidade no museu. Só pode, porque andamos a brincar ao património. O país tem um grave problema a resolver [no MNAA] porque aquilo vai partir e vai partir em muito pouco tempo. Quando acontecer, abre os telejornais

Provavelmente o director do MNAA sabe do que fala. Mas faz-me espécie que tenha feito estas afirmações, não numa conferência de imprensa, mas na Escola de Quadros do CDS (se fosse de outro partido qualquer também me encanitava), no âmbito de um debate sobre Cultura e Economia.

CAMILIANA


O Círculo de Leitores lança este mês uma colecção dedicada a Camilo Castelo Branco, dividida em quatro volumes de capa dura: o 1.º e o 2.º coligem todos os contos, as novelas curtas e os romances breves, nos quais se inclui o romance inacabado, e inédito, A Infanta Capelista; no 3.º encontramos uma parte da correspondência [Cartas Escolhidas] e, no 4.º, uma selecção de crónicas, textos polémicos e outros artigos. A recolha, prefácio e notas são de José Viale Moutinho. Clique na imagem.

LIVROS EM BELÉM


No próximo domingo, dia 4, estarei na Festa do Livro que abriu ontem nos jardins do Palácio de Belém. Repito o que escrevi dezenas de vezes: não gosto de feiras. Só o respeito pelos leitores e as obrigações contratuais e de amizade com os meus editores fazem com que esteja presente neste tipo de eventos.

Tendo livros publicados por várias chancelas, deixo aqui detalhes das capas dos cinco mais recentes: Cidade Proibida, romance, 2007 (a edição disponível é a de 2013, ou seja, a quarta); Desobediência, poesia, 2011 (colige os anteriores livros de poesia); Cadernos Italianos, diário de viagem, 2013; Um Rapaz a Arder, memórias, 2013; e Pompas Fúnebres, crónicas, 2014. Conforme o gosto de cada um, estas obras podem encontrar-se, respectivamente, nos stands da Planeta, Dom Quixote, Tinta da China, Quetzal e Babel. Clique na imagem.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

MEGAN BRADBURY


Hoje na Sábado escrevo o primeiro “romance” de Megan Bradbury, centrado em Nova Iorque. Por que será que nove em cada dez livros são actualmente classificados como romances? Onde Todos Observam, o referido livro de estreia, é uma interessante narrativa de não-ficção construída a partir de fragmentos biográficos de habitantes ilustres da cidade, tais como Walt Whitman, Robert Moses, Edmund White, John McKendry, Robert Mapplethorpe, Patti Smith e outros. Um apêndice final remete para a bibliografia, filmografia e discografia atinente. Diz a autora: «Acredito que tem de existir uma forma de escrever ficção sobre o real…» Curiosa afirmação por parte de uma especialista em escrita criativa. Portanto, Balzac, Zola e Faulkner nunca existiram. Onde Todos Observam cruza de forma hábil as vidas de gente que faz parte da memorabilia de Nova Iorque. A infância e adolescência de Mapplethorpe em Queens e Brooklyn, o encontro com Patti Smith, a conquista de Manhattan com o patrocínio de John McKendry, o curador de fotografia do MET. O regresso de Edmund White após oito anos em Paris. O sonho de Robert Moses, o homem que deu uma praia aos novaiorquinos. (No século XX, Moses foi o mais influente urbanista americano. Entre outras obras que mudaram a vida da cidade, está Battery Park.) As memórias de Whitman filtradas por Richard Maurice Bucke, o psiquiatra canadense que escreveu a sua primeira biografia. Referências aos nus masculinos de Thomas Eakins, bem como a fotografias de Jacob Riis, Berenice Abbott e Lewis Hine, mas também obras de Nan Goldin, Laurie Anderson e Gordon Matta-Clark, pontuam a narrativa. Nem sequer falta o Chelsea Hotel. De certo modo, Onde Todos Observam é uma espécie de guia artístico de Nova Iorque. Mas um leitor menos versado perde-se na vertigem do name-dropping.  A trama de Megan Bradbury não ignora a Nova Iorque falida e permissiva dos anos 1970, quando nos decrépitos pontões do Hudson a comunidade gay dava livre curso a todas as pulsões. De passagem, são referidas as razões que levaram Edmund White a escrever Hotel de Dream (2007), o livro atribuído a Stephen Crane, jamais encontrado: «Na ausência deste, Edmund escreveu-o ele mesmo.» Em suma, um livro que se lê com agrado. Três estrelas. Publicou a Elsinore.

Escrevo ainda sobre À Beira da Água, o primeiro volume dos contos reunidos do americano Paul Bowles (1910-1999). Ficcionista, poeta, memorialista, tradutor dos contos orais do pintor Mohamed Mrabet, mas também de Sartre e Genet, Bowles fixou a lenda do expatriado em Marrocos desde que em 1947 trocou Nova Iorque por Tânger, onde viveu até morrer e foi anfitrião da geração beat. A integral dos contos começou agora a ser publicada em Portugal. Este volume colige 29 contos escritos entre 1946 e 1964. Embora grande parte deles tenham sido escritos em Marrocos, a acção decorre em Manhattan, sendo as personagens new yorkers típicos dos anos 1940-50. Neste volume, são os mais consistentes. Veremos se os do próximo alteram o juízo. Facto: Bowles é melhor contista que romancista. Na sua obra, os textos curtos têm uma eficácia superior aos que exigem discurso de longo fôlego. A excepção são os livros de viagens e de memórias, do melhor que nos deixou. É provável que o seu trabalho de compositor (música erudita e scores para a Broadway) esteja na raiz de tudo. Nos contos parece-me evidente. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

FESTA DO LIVRO


Um realejo com Florbela Espanca abre hoje (18:00), nos jardins do Palácio de Belém, a Festa do Livro. Estão representadas 33 editoras e os seus autores de língua portuguesa. Além de quiosques de venda de livros, haverá um kindergarten e sete pontos de restauração. Pedro Mexia, assessor cultural do Presidente da República, organizou debates sobre vários temas em que participarão, entre outros, Bernardo Pires de Lima, Bruno Vieira Amaral, Djaimilia Pereira da Silva, Eduardo Lourenço, Frederico Lourenço e Maria de Fátima Bonifácio. Também haverá jogos didácticos (seja lá o que isso for), sessões de leitura de poesia, charlas com contadores de histórias, uma palestra sobre Pessoa, intervenções do Quarteto de Cordas da GNR, um espectáculo de fado com Cristina Branco (amanhã), bem como, no sábado, a estreia de «Visita ou Memórias e Confissões», o filme póstumo de Manoel de Oliveira, que volta a ser exibido no domingo. Pela parte que me toca, estarei presente no domingo a partir das 17h. A entrada é livre, mas quem quiser ir terá de levar consigo o cartão de cidadão ou o bilhete de identidade.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

ACABOU


Dilma perdeu o cargo por 61 votos contra 20.
Imagem: Estado de São Paulo. Clique.

RESISTIR

A Europa tornou-se um sítio perigoso. Mas há quem comece a resistir. É o caso da cantora húngara Fullajtár Andrea, que estreou em Budapeste o espectáculo Boomerang Baby, inspirado em canções e na vida de Marlene Dietrich. Fullajtár Andrea tem consciência de que o seu país caminha a passos largos para o fascismo. E não ficou parada.

MARC RIBOUD 1923-2016


Morreu ontem o fotógrafo francês Marc Riboud, referência incontornável da fotografia do século XX, em especial pelas reportagens da Revolução Cultural Chinesa e da Guerra do Vietname, registadas na imprensa de todo o mundo mas também em livros como Les Trois Bannières de la Chine (1966) e Face of North Vietnam (1970). Mas não só. A Cuba de Fidel, o caso Watergate, a Primavera de Praga, a invasão da embaixada dos Estados Unidos em Teerão, o contributo do sindicato Solidariedade para a queda do regime comunista na Polónia, o julgamento do nazi Klaus Barbie, o apartheid sul-africano, etc., foram alguns dos temas que o ocuparam. Membro da resistência francesa durante a Segunda Grande Guerra, Riboud tinha 93 anos. A notícia da sua morte só hoje foi tornada pública.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

DIREITOS SELECTIVOS


Em Villeneuve-Loubet é proibido proibir. E nas outras comunas (cerca de trinta) com leis semelhantes em vigor? Sublinhado: «Si l'arrêté de Villeneuve-Loubet se retrouve de facto invalidé, ceux des autres communes restent toujours en vigueur tant qu'ils n'ont pas été contestés devant la justice.» Os representantes da comunidade muçulmana em França esperam que o acórdão faça jurisprudência noutras comunas. Por enquanto, não faz. Imagem do Libération. Clique.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

IRIS MURDOCH


Hoje na Sábado escrevo sobre O Sino, de Iris Murdoch (1919-1999), que é ao mesmo tempo uma romancista de grande sucesso e uma académica respeitada na área da filosofia. Além de ensaios, Iris escreveu poesia, peças de teatro, crítica literária, contos e vinte e seis romances, alguns deles bestsellers em vários países. O Sino, que voltou às livrarias com uma terceira tradução, põe em confronto as regras do materialismo com a deriva “espiritual”, não necessariamente religiosa. As questões morais estão no centro da intriga, como nenhum leitor seu desconhece. O ensaísmo pauta-se por igual preocupação: decerto não por acaso, o primeiro livro que publicou é sobre Sartre. Depois do retrato de Dora, a protagonista, enredada em adultério e nos dilemas típicos dos anos 1950 (origem middle class da aluna e depois mulher de Paul Greenfield, historiador de arte, seu professor na Slade, aristocrata e treze anos mais velho), o romance centra-se no microcosmo da Abadia de Imber, a comunidade laica onde tudo acontece. Forçada a juntar-se ao marido no Gloucestershire, Dora fica refém de situações imprevisíveis, às quais os manuscritos raros do século XIV, móbil da retiro, são indiferentes. A homossexualidade é um dos temas presentes, nos acasos que unem Michael, Nick e Toby, facto curioso se tivermos em conta que o livro saiu em 1958, um ano após a divulgação do controverso Relatório Wolfenden, que propôs a descriminalização no Reino Unido da homossexualidade entre adultos. Iris foi mais longe: mete Michael e Toby num Land-Rover e em três páginas de subtileza inatacável descreve uma epifania. Com 18 anos, Toby tem idade para ser filho de Michael. Leitmotiv da obra de Iris, o conflito entre o Bem e o Mal molda toda a narrativa, por vezes de forma ambivalente: «a mão de Toby encontrou a sua num forte aperto de mão. Ficaram assim juntos em silêncio na escuridão.» O carácter aforístico ou sentencioso da escrita de Iris é deveras interessante: «Era muito magro e tinha aquele ar franco e um pouco insolente das pessoas felizes.» Como este, existem muitos exemplos que lembram de imediato os romances de Agustina Bessa-Luís. A literatura comparada tem aqui terreno fértil. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Fechada Para o Inverno, de Jorn Lier Horst (n. 1970). Um dia terá de ser feito um estudo sobre os inspectores de polícia que a dado momento da vida abandonam a carreira para serem escritores. Entre outros exemplos, cito Rubem Fonseca e Jorn Lier Horst, embora o brasileiro tenha sobre o norueguês várias vantagens, entre elas a de um imaginário ficcional mais abrangente. Até agora inédito em Portugal, Horst escreve thrillers, sendo os mais conhecidos os que têm o inspector Wisting como protagonista. Fechada Para o Inverno, o sétimo dos dez volumes da série, assinala a sua estreia entre nós. Uma nota introdutória dá a conhecer um minucioso perfil de Wisting (origens, formação, carácter, família), bem como da região onde a história decorre. A moda dos policiais escandinavos terá que ver com o tipo de crimes ficcionados, em tudo diferentes da tradição anglo-americana. O estranho assalto à casa de Verão de um apresentador de televisão célebre é o detonador do plot. A investigação vai da Noruega à Lituânia, tendo a filha de Wisting e respectivo namorado como empecilhos. A sensação de déjà vu é atenuada pela escrita limpa de Horst. Três estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

MICHEL BUTOR 1926-2016


Morreu Michel Butor, figura de proa do Nouveau Roman, sobretudo desde a publicação de La Modification (1957). Além de romances, Butor escreveu poesia, textos experimentais, ensaios e crítica de Arte. Entre outros, traduziu Hölderlin e Shakespeare. Tinha 89 anos.

EUROPA 2016

Merkel, Hollande e Renzi, o anfitrião, reuniram-se anteontem a bordo do porta-aviões Giuseppe Garibaldi, que por acaso participa neste momento numa operação naval da NATO em curso no Mediterrâneo. Unir a Europa pós-Brexit foi o móbil das três grandes potências económicas da UE. Tudo se passou ao largo da ilha de Ventotene, onde, em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, Ernesto Rossi e Altiero Spinelli, dois intelectuais antifascistas, redigiram um manifesto sobre os benefícios futuros de uma Europa federada. No momento actual, a mise-en-scène teve o efeito contrário.

O nó górdio parece residir na acumulação, cada vez mais evidente, de sinais de implosão da Ucrânia, um tema que parecia adormecido. Mas nos círculos diplomáticos e da intelligence militar comenta-se em voz alta uma invasão russa em larga escala, ainda este ano. Isso mudou tudo. Neste preciso momento, o Governo Alemão prepara-se para aprovar um pacote de defesa civil, com directivas à população que incluem racionamento alimentar e de energia, além de medidas concretas a que ficarão obrigados os hospitais, os serviços públicos e as empresas privadas (sobretudo no tocante à reconstrução de infraestruturas vitais que tenham de ser reconstruídas), uns e outros sob supervisão do ministério do Interior e das Bundeswehr, ou seja, as Forças Armadas. A eventual reintrodução do serviço militar obrigatório está em cima da mesa de Merkel. Por vontade de Thomas de Maizière, o ministro do Interior, começava hoje.

O ‘pacote’ constitui mera prevenção? Se é assim, chega tarde. O ponto é saber se o receio vem de uma guerra na Europa, ou da possibilidade de uma vaga de ataques terroristas contra centrais nucleares alemãs, redes de transportes, sistemas de distribuição de água, gás e electricidade, etc., sem excluir o terrorismo cibernético, o qual afectaria todos estes sectores.

Aguardar para ver.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

JOGOS DO RIO

Acabaram os jogos do Rio. Não vi. Ocasionais zappings nunca apanhavam as provas que vejo com agrado: ginástica, hipismo, esgrima, salto com vara, natação (o resto não me interessa). Soube hoje que Telma Monteiro conseguiu uma medalha de bronze numa prova de judo. E que uma atleta americana competiu com hijab. Apesar de todas as profecias, o Rio não se portou mal. O sistema de saneamento da Barra da Tijuca está entupido com dezenas de milhares de preservativos, mas isso é moleza.