quinta-feira, 11 de agosto de 2016

MIGUEL CARDOSO


Hoje na Sábado escrevo sobre Víveres, de Miguel Cardoso (n. 1976). Desde Adília Lopes, que irrompeu na cena literária em 1985, nunca um poeta foi tão assertivo como Miguel Cardoso. Claro que o intervalo que vai de Adília até hoje não é um deserto: Rui Cóias, João Luís Barreto Guimarães, José Miguel Silva e António Carlos Cortez, aqui citados por ano de nascimento (seriam elegíveis mais um ou dois), “prolongaram”, cada um a seu modo, a melhor genealogia. O facto é que Cardoso, para além de prolongar, acrescenta. Víveres é um livro composto por seis sequências de poemas, fechando com um curioso Anexo Documental. Digamos que o autor traz com ele a respiração (se preferirem: a prosódia) dos que são obrigados a viver vários patamares abaixo daquele em que nasceram. Dito de outro modo, a mobilidade social de pernas para o ar — «e a promessa de minas d’oiro / é uma declaração de guerra» ou, de forma menos elíptica, «A fome volta e então como é difícil cantar […] O quanto custa imaginar entradas e saídas. / Cá andamos em voltas entre os nossos inimigos.» Imprescindível. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre a nova tradução de Crash, do britânico J. G. Ballard (1930-2009). Os primeiros anos da vida do autor deram origem a um filme célebre, O Império do Sol, que Spielberg realizou em 1987 após a adaptação que Tom Stoppard fez do romance homónimo. Nessa altura muita gente descobriu Ballard, que já então tinha publicado dez romances e catorze colectâneas de contos, núcleo a que pertencem algumas das suas obras mais consistentes. Mas o vasto mundo comoveu-se com a história do rapazinho à deriva sob o bombardeamento de Xangai. Foi ali que Ballard nasceu, porque era lá que os pais viviam e trabalhavam. Durante a ocupação japonesa, a família foi internada num campo de concentração até ao fim da guerra. O recorte autobiográfico de O Império do Sol faz dele o seu único romance convencional. Tudo o resto tem carácter distópico. Muitos títulos antecipam um universo caótico: Cataclismo Solar (1962) e Noites de Cocaína (1996), para dar exemplos com edição portuguesa, são obras emblemáticas. Agora, Crash (1973) regressou às livrarias. Nas palavras do autor, «o livro tem um papel político para além do seu conteúdo sexual, mas prefiro encarar Crash como o primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia.» O foco central é a symphorophilia, ou seja, a parafilia que faz do desastre o objecto do prazer: assistir, planear, provocar, participar em. Neste caso, desastres com automóveis. Um dos personagens, Robert Vaughan, pretende atingir o clímax fazendo embater o seu carro, de frente, com o de Elizabeth Taylor. De certo modo, o plot é o corolário dos contos premonitórios reunidos em Disaster Area (1967), embora Crash seja mais revolvente. As descrições gráficas dos actos sexuais praticados no interior dos automóveis em andamento não seriam plausíveis sem o alto conseguimento da escrita. Nesse particular, Ballard é inatacável. Podemos não gostar daquele magma de olhos vazados, membros decepados, gases, sangue, vomitado, fezes e sémen («a vibração dos vidros do carro desencandeou o meu orgasmo»), mas não ficamos indiferentes. Sem surpresa, o filme que Cronenberg fez em 1996 a partir do livro tornou-se uma obra de culto. As feministas leram Crash como um exercício falocrata, e talvez tenham razão. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

DISCURSO DIRECTO, 41

Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna, ontem na SIC.

«A Madeira não tem condições para utilizar meios aéreos no combate aos fogos. É preciso ter postos de abastecimento e isso não existe, mas é algo que o Governo Regional da Madeira poderá equacionar

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

DISCURSO DIRECTO, 40

Bárbara Bulhosa entrevistada hoje pelo Diário de Notícias. Excertos, sublinhados meus:

«[...] Esta nova geração de escritores não é assim tão extraordinária [...] Considero que os livros deveriam ser mais trabalhados antes de serem publicados e que os autores deveriam ter mais tempo para os rever e pensar. Um bom livro só o pode ser depois de muito maturado. [...] Está instalada uma máquina de fazer livros que tem muito pouco a ver com literatura. [...] Publico um livro quando acredito que tem leitores ou pertinência política ou social. Um editor é também um agente de divulgação cultural e política e quem disser o contrário não compreende o que faz. Vivemos em democracia e é preciso honrar a profissão. [...] Ao saírem 14 mil livros por ano, as livrarias estão sempre a receber novidades e a devolver os outros. O tempo de vida de um livro está em três semanas, um mês no máximo. [...] Não vejo grandes autores em Portugal que gostasse de editar. [...]»

Convém ler na íntegra. Ficamos a saber que a Tinta da China vai publicar Nelson Rodrigues, e nada me dá maior prazer.

BRASIL

Ontem, por 59 votos contra 21, o Senado deliberou passar Dilma de «suspensa de funções», como estava desde 12 de Maio, para «ré». A destituição definitiva deverá ocorrer no próximo dia 25.

UM NOVO CHIADO?


A situação que se vive no Funchal é dramática e faz lembrar o incêndio que arrasou o Chiado em Agosto de 1988. Até ao momento, três mortos confirmados e mil pessoas desalojadas de casas e hotéis. O centro histórico em chamas. Grande parte do Jardim Botânico destruído. António Costa alertou a UE e pediu ajuda à Rússia. A imagem de Gregório Cunha, para a Lusa, faz hoje a capa do Expresso, Público e Jornal de Notícias. Clique na imagem.

domingo, 7 de agosto de 2016

BERLIM, PARTE DOIS


No texto anterior faço um tour d’horizon objectivo, com raras apreciações de índole subjectiva. Hoje tentarei fazer diferente. Cinco dias não chegaram para conhecer Charlotenburg, Hansaviertel, Prenzalauer Berg e Wannsee. O início de Agosto é uma época sem ópera e concertos clássicos. A Deutsche Oper, uma das três da cidade, abre a temporada no próximo dia 28. Nada a fazer. O clima não é especialmente simpático: calor (26-28 graus, com ligeira descida a partir das dez da noite) e chuva intermitente. As obras entopem tudo, da Unter den Linden a Schloßplatz, passando pela St Hedwigs Kathedrale, bem como outras áreas menos nobres. Em Bebelplatz, defronte do Hotel de Rome, vimos um grupo de meia centena de rapazes e raparigas deitados no chão, em aparente estado de meditação. Eram 11 da manhã. Estariam a reflectir sobre o auto-de-fé nazi de Maio de 1933, realizado ali mesmo?

A ilha dos museus é um estaleiro. O mesmo se diga do troço que vai da Universidade Humboldt ao local onde existiu o Palast der Republik, o parlamento da antiga RDA. Após um debate público de cerca de cinco anos, o edifício foi demolido em 2006. No seu lugar está a ser construído uma espécie de CCB, com inauguração prevista para 2019, que fará contraste violento com a esplêndida Berliner Dom, a catedral barroca do outro lado da avenida.

Como em qualquer grande cidade, andar de metro é muito prático, mas, neste caso, o idioma dificulta a vida a quem o desconhece. O táxi é uma alternativa cara mas eficiente. Exemplo: da Porta de Brandemburgo ao KaDaWe são 16 euros às quatro da tarde. Por falar em táxis: do Aeroporto de Schoenefeld à Porta de Brandemburgo, onde fica o Adlon, o nosso hotel, foram 50 euros à chegada e 40 à partida (outro trajecto), sem gorjeta. Schoenefeld é uma viagem ao passado, onde a cada metro tropeçamos nos fantasmas da antiga RDA. Não deixa por isso de ser eficiente.

As comparações são inevitáveis. Berlim é uma cidade monumental, mas é uma monumentalidade diferente de Paris ou Madrid. É uma grande cidade, mas num sentido diferente ao de Londres ou Nova Iorque. O turismo não é tão opressivo como em nenhuma destas cidades, ficando a milhas da esquizofrenia de Roma ou Veneza. A maior surpresa foi a pujança do comércio, em todas as gamas de preços. Sinal inequívoco de civilidade: as dezenas de vitrines nos passeios da Kurfürstendamm (a Kudamm), que terá qualquer coisa como quilómetro e meio, permanecem com o recheio ao longo da noite. E não estamos a falar de souvenirs para turista pobre. Vitrines Rolex, Ferragamo, etc., iluminadas às 11 da noite, seriam um convite ao assalto noutro tipo de civilização.

Checkpoint Charlie não tem glamour mas tem memória. A minha geração sente um arrepio quando ali chega, mas suspeito que aos mais novos (os que nasceram a partir de 1990) o local seja indiferente.

Pedaços do muro podem ser vistos em vários locais. Na Potsdamerplatz existem cinco ou seis blocos. E, na Friedrichstraße, o Westin Grand faz questão de ter um a decorar a esplanada do bar.

Em traços gerais foi assim que vi Berlim. Clique na imagem.

sábado, 6 de agosto de 2016

BERLIM, PARTE UM


Cinco dias em Berlim permitiram desfazer o enigma desta cidade inscrita a ferro e fogo na memória cultural e política da minha geração. Não basta conhecer os últimos cem anos de História, ter seguido a passo a literatura, o cinema e a memorabilia gay. Relatos avulsos de um punhado de amigos ajudam, mas é preciso ver e compreender. Tentarei alinhavar alguns tópicos. Berlim é uma cidade civilizada, limpa e, até prova em contrário, segura. Os berlinenses são educados e prestáveis. Nas principais avenidas, os passeios são muito largos, embora a cidade, ao fim de 27 anos de reunificação, continue a ser um imenso estaleiro. As zonas de fronteira entre Leste e Oeste foram rapidamente reconstruídas e ocupadas — como por exemplo toda área que vai de Potsdamer Platz à Porta de Brandemburgo —, com edifícios assinados pela nata da arquitectura mundial, mas o interior dos bairros só agora está a ser afinado. Sirva de exemplo a majestosa Unter den Linden, o equivalente local dos Champs Élysées. Fiquei instalado no seu topo, no mítico Adlon Kempinski, a dois minutos da Porta de Brandemburgo. O hotel teve uma primeira vida, de 1907 a 1945, mas foi totalmente destruído pelos Aliados. Em 1997, oito anos após a queda do Muro, a família Kempinski reconstruiu o edifício. Por lá passou toda a gente (realeza e plebeus) que foi alguém: era o pouso preferido de Thomas Mann. Gostei francamente de lá ter ficado hospedado. O Adlon ocupa um terço de um quarteirão, estando o espaço que sobra ocupado, a Leste, pela embaixada britânica, e a oeste pela embaixada americana. No mesmo quarteirão, virado à Pariser Platz, resta ainda um nicho para o DZ Bank, obra de Frank Gehry, e para a simpática Akademie der Künste, de arte contemporânea. A rua da embaixada britânica, a Wilhelmstraße, está cortada ao trânsito automóvel entre Unter den Linden e Behrenstraße.

Berlim é uma cidade cara. Verdade que a variação de preços acompanha a passagem de um bairro para outro. Em Mitte, a zona envolvente do Adlon, tudo é caríssimo. Mas em Kreuzberg, zona multicultural frequentada por turistas com preocupações de natureza intelectual, a diferença é residual. Exemplo: em Mitte, uma bica custa três euros, num café de rua gerido por turcos antipáticos; em Kreuzberg custa 2,5 euros num café com WiFi gerido por rapazinhos louros de pele de pêssego e simpatia desarmante.

Quase todos os hotéis de prestígio estão concentrados em Unter den Linden, Behrenstraße e Friedrichstraße. As zonas comerciais por excelência são a Friedrichstraße e a Kurfürstendamm, vulgo Kudamm. Em ambas, a primeira no antigo Leste, a segunda no antigo sector americano, existem centros comerciais homéricos, além de lojas elegantes das marcas mais reputadas: Cartier, Prada, Kors, etc. Na Friedrichstraße ficam os concorridos Quartier 205-6-7. O 206 é obra do chinês Pei, o da pirâmide do Louvre. Atrás do Quartier 206 fica a Gendarmenmarkt, uma praça agradável, onde está o Konzerthaus, com a estátua de Schiller em frente, e as igrejas alemã e francesa. O Quartier 207 são as Galerias Lafayette, obra do francês Jean Nouvel. A Kudamm é magnífica: comércio, cafés, restaurantes, bares, hotéis populares, uma babilónia étnica. O Reinhard’s é o equivalente de Les Deux Magots. Tomar um chá ou um drink na esplanada é ver passar o mundo. Um chá custa entre 6 e 9 euros. Muitos rapazes morenos com a braguilha ostensivamente aberta, o que pressupõe outro tipo de comércio. O Reinhard’s fica na esquina da Fasanenstrasse, uma rua cheia de galerias de arte e pequenas lojas especializadas: arte déco, antiquários, livrarias, lentes zeiss, etc. Também ali está a discreta Literaturhaus, com uma boa livraria e um bonito jardim de rosas onde se pode almoçar.

Num dos topos da Kudamm, logo a seguir à Igreja da Memória, começa a Tauentzienstraße, onde fica o famoso KaDaWe, um Corte Inglês a multiplicar por dez. As secções gourmet do sexto piso são superlativas.

Para os amantes de arquitectura em altura, a Potsdamerplatz é o sítio ideal: arranha-céus tipo Manhattan, o Ritz-Carlton (o bar é excelente, mas dois whiskies custam 48 euros), o Sony Center com a sua gigantesca cúpula em aço, etc. A Filarmonia fica a dois passos, mas só reabre no próximo dia 26. E também a Gemäldegalerie, um bom museu com arte europeia dos séculos XV a XVIII. Uma das secções do Muro passava na Potsdamerplatz. Fazendo a pé o trajecto até à Porta de Brandemburgo, podem ver-se fotos de como era no antigamente. Fica aí o Memorial do Holocausto, também conhecido por Memorial aos Judeus Mortos da Europa, projectado por Peter Eisenman e inaugurado em 2005. Ocupa uma área de cerca de vinte mil metros quadrados. Há muitos memoriais em Berlim: aos homossexuais vítimas do regime nazi, aos deputados comunistas e socialistas assassinados a seguir ao incêndio do Reichstag, aos ciganos, etc. A memória é um ferrete.

No cimo do Bundestag fica a famosa cúpula em vidro de Norman Foster. Com pena, não fui visitar. As reservas pela Internet estavam bloqueadas para as próximas semanas e a possibilidade de fazer uma marcação in loco implicava ficar duas horas numa fila. Fora de questão.

Preferi ir para a ilha dos museus, que são cinco. A saber: o Altes Museum, com antiguidade grega, romana e etrusca; a Alte Nationalgalerie, com impressionismo alemão e francês; o Pergamon, com monumentos da antiguidade; o Neues Museum, recuperado recentemente por Chipperfield, onde podemos ver a cabeça de Nefertiti e réplicas do tesouro de Tróia que os russos levaram no fim da guerra; e o Bode Museum, com peças Alta Idade Média. Não fomos ao Pergamon porque era preciso comprar o ingresso (extra-passe) noutro contentor, e os 40 minutos gastos no contentor anterior chegaram e bastaram. A zona está toda em obras. Ao lado da ilha fica o Museu de História Alemã, muitíssimo bom. A parte menos interessante é uma escada em caracol desenhada pelo omnipresente Pei. Como digo, o museu é óptimo, mas a cafetaria não tem nada do que vem na lista. Nada. Não era por ter acabado, o empregado explicou que a lista tem anos e nunca foi mudada. No caminho para a ilha dos museus passei pela Dussmann, uma livraria magnífica em Friedrichstraße.

A grande decepção foi Alexanderplatz, uma espécie de Martim Moniz em dobro. A torre de televisão da antiga RDA fica quase colada. Nenhum interesse. Não houve tempo para visitar Prenzlauer Berg, antigo bairro proletário hoje ocupado por yuppies.

Acerca de restaurantes. As surpresas mais agradáveis foram a Ganymed Brasserie (Schiffbauerdamm, 5), consta que a preferida da senhora Merkel, o Borchardt (Französische Straße, 47), o Grosz (Kurfuerstendamm, 193) e o Pauly Saal (Auguststraße, 11). O Gendarmerie (Behrenstraße, 42) vale pela decoração e atmosfera cool. Aparentemente, tem o maior mural de madeira do mundo, pintura neo-expressionista de Jean-Yves Klein. O staff é simpático mas a comida é medíocre. A grande decepção foi a Enoiteca Il Calice (Walter Benjamin Platz, 4), onde tudo é pretensioso, a começar pela morada. Com excepção do Borchardt e do Grosz, que têm preços sensatos, os equivalentes dos restantes cobram em Lisboa menos 40%.

Continua. A imagem mostra a torre de televisão da antiga RDA. Clique.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

VICTOR SERGE


Na edição da Sábado que ontem chegou às bancas e livrarias, escrevo sobre O Caso do Camarada Tulaev, do russo Victor Serge (1890-1947). O autor tem vários livros publicados em Portugal, em especial os de natureza panfletária, e uma biografia de Trotsky, mas este seu romance, o mais importante de todos, só agora foi traduzido. Obra póstuma, incensada por Brodsky e Susan Sontag, usa o Grande Terror estalinista como foco central. Serge, que nasceu na Bélgica e morreu no México, tinha quase 30 anos quando pisou solo russo pela primeira vez. Anarquista, bolchevique, trotskista e, a partir de 1928, opositor declarado de Estaline, que o mandou prender duas vezes, foi libertado e expulso da URSS em 1936 após pressão de intelectuais europeus. Começa a diáspora. O Caso do Camarada Tulaev corresponderá ao período mexicano, embora a edição original (1949) seja francesa. Serge descreve com nitidez as circunstâncias em que decorreram as purgas do regime soviético, bem como o carácter autofágico da polícia secreta, que prendia, torturava, deportava e abatia os adversários reais ou imaginários. A escrita é seca e auto-referencial. A saga de alguém que viveu por dentro os equívocos e dissensões do movimento comunista. Três estrelas. Publicou a E-Primatur.

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 53%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

BERLIM


Até já. Clique na imagem.

domingo, 31 de julho de 2016

PORTELA

Cinco argelinos invadiram ontem às 19:50 a pista principal do Aeroporto de Lisboa, que por essa razão esteve encerrado durante 35 minutos. Provenientes de Argel, os homens foram presos pela polícia. Um deles ficou ferido e recebeu tratamento hospitalar. Ainda não se conhece a motivação do acto. Imigração ilegal para entrar no espaço Schengen? Amanhã serão ouvidos por um juiz.

sábado, 30 de julho de 2016

METADE?


Se estes números correspondem à realidade (o gráfico é do Diário de Notícias), não percebo por que motivo continua a haver tanta gente a devolver a casa ao banco. Clique na imagem.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

BREXIT À MODA DELA

Os britânicos não mudam: querem comer o bolo e ficar com o bolo. Theresa May já se encontrou com Merkel, Hollande e Renzi. Mas também com Enda Kenny, o PM irlandês; Robert Fico, o PM eslovaco; e Beata Szydło, a PM polaca. A todos disse que o Reino Unido pretende continuar a usufruir das vantagens do mercado comum, mas interditar a livre circulação de pessoas. Merkel foi clara: sem livre circulação de pessoas, não há mercado comum. Por seu turno, a primeira-ministra britânica também esclareceu que não tenciona seguir o modelo norueguês. A Noruega não faz parte da UE, mas, para participar do mercado comum, permite a livre circulação de pessoas, bens, capitais e serviços.

TAMBÉM TU, FMI?

Uma auditoria independente feita pelo FMI ao resgate português (2011-15) põe tudo em xeque: o prazo de intervenção, considerado excessivamente curto; as previsões económicas; o fracasso da consolidação orçamental; a reincidência em estratégias erradas e o pacote fiscal. Passos, Gaspar, Maria Luís e Carlos Costa podem limpar as mãos à parede.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

JULIAN BARNES


Hoje na Sábado escrevo sobre O Ruído do Tempo, de Julian Barnes (n. 1946), autor que nos últimos dezasseis anos publicou quatro romances, uma colectânea de contos, um volume de memórias e outro de ensaios sobre arte. As memórias e os ensaios (Courbet, Fantin-Latour, Degas, Bonnard, Magritte, Braque, etc.) foram os temas que o absorveram depois da morte da mulher, a agente literária Pat Kavanagh. Agora chegou este novo romance, sobre o compositor russo Dmitri Chostakovich. Trata-se portanto de um romance biográfico, circunstância que não preocupa o autor nem defrauda o leitor: «Todos os romances são biográficos», disse Barnes, e o senhor de La Palice não diria melhor. A tal respeito, a Nota do Autor é de meridiana clareza. Chostakovich, o mais importante compositor da era soviética, foi um joguete nas mãos de Estaline. Logo em 1936, antes de completar trinta anos, uma ópera sua, Lady Macbeth de Mtsensk, aclamada de Nova Iorque a Buenos Aires, mas também em Moscovo e Leninegrado, desagradou ao Grande Pai da Nação. Estaline abandonou o teatro e, no dia seguinte, o Pravda deu à estampa um violento editorial: «Chinfrim em vez de música», anti-ópera para degenerados, etc. A catilinária fora redigida pelo próprio Estaline? A ortografia parecia corroborar… A partir dali, Lady Macbeth de Mtsensk seria proscrita. Chostakovich, que já vira amigos seus serem presos e fuzilados, não tinha ilusões. Com o propósito de «destruir a asfixia burguesa, o Partido tomara conta dos assuntos culturais. O editorial do Pravda tinha de ser lido como um mandado judicial. Dali aos interrogatórios da NKVD foi um passo. Em 1948, por ordem de Estaline, Chostakovich vai a Nova Iorque participar no Congresso Cultural e Científico para a Paz Mundial. Stravinski, o seu ídolo, era o alvo a abater. Recebido com empatia por punhado de intelectuais americanos («a colher de mel numa barrica de alcatrão»), a humilhação da entrevista colectiva do Waldorf Astoria foi um golpe fatal. Barnes faz um retrato extremamente subtil do compositor. Veja-se o encontro com Akhmátova. Descritos com aparente parcimónia, os anos de chumbo avançam e recuam graças à criteriosa inserção de flashbacks. A música redime tudo? Quatro estrelas.

Escrevo ainda sobre Bicha, de William S. Burroughs (1914-1997), que antes de ser escritor teve várias profissões, entre elas a de exterminador de baratas e percevejos. A seguir foi barman e outras coisas. Este homem, oriundo de famílias patrícias, neto do inventor das máquinas de calcular e escrever, formou-se em Harvard e depois foi para Viena fingir que estudava medicina. Homossexual, heroinómano desde a adolescência, dissidente da Cientologia, praticante do cut-up dadaísta, deixou uma obra extensa (ficção, ensaio) onde se destaca o romance Festim Nu, publicado em 1959. Bicha, agora traduzido, teve uma primeira versão (1952) nunca publicada. O que lemos é a versão de 1985. Oliver Harris serve-se da introdução para explicar que o livro não é consequência do assassinato da segunda mulher de Burroughs. (Em 1951, numa festa, Burroughs matou-a com um tiro no rosto. Se era para imitar Guilherme Tell, como disse à polícia, teve azar.) Foi para o México, porque sim. O livro é uma narrativa desordenada sobre o quotidiano de um homossexual freak. Em apêndice datado de 1985, Burroughs dá conta dos anos passados no México, e essa parte é a melhor do livro. Uma estrela. Publicou a Quetzal.

ASCO

Impedida de pôr no ar a tourada das sanções, a SICN promoveu ontem à noite um debate conduzido por Clara de Sousa, no qual participaram dois advogados e três jornalistas. Intuito: provar que Sócrates é responsável por toda a corrupção desde 25 de Abril de 1974. Não estou a ironizar. Um jornalista do Expresso e outro de que nunca ouvi falar, meteram tudo no mesmo saco: derrocada do BES, tranquibérnia da PT, OPA da Sonae sobre a PT, compra da VIVO, Vale de Lobo, Grupo Lena, terrenos em Luanda, PPP, Cova da Beira, Freeport, tentativa de controlo da TVI, gastos sumptuários, etc. Tipo: vamos liquidar o tipo de qualquer maneira. O paroxismo foi tal que até o Gomes Ferreira teve de pôr água na fervura, lembrando que esse conjunto de situações, a configurarem crime, não foram obra de um homem só. Afinal, onde estão os ministros, secretários de Estado, directores-gerais, autarcas, banqueiros e assessores que respondem pelos dossiers? Do lado dos advogados, João Araújo (em nome de Sócrates) e Rogério Alves (suponho que em nome da equidistância tecnocrática), houve uma tentativa de recentrar o debate, mas foi em vão. Aguentei talvez 20 minutos. Asco absoluto.

O BANDO DOS QUATRO

A decisão de não aplicar sanções a Portugal e Espanha foi tomada com o voto contra de quatro comissários: o alemão Günther Oettinger, o finlandês Jyrki Katainen, o letão Valdis Dombrovskis e a sueca Cecilia Mälmstrom. Carlos Moedas terá feito uma boa defesa das nossas razões, e faz todo o sentido que tenha sido assim, porquanto as sanções decorreriam do défice (0,2%) de 2015, ou seja, da gestão PSD/CDS, na qual Moedas teve um papel central. Dijsselbloem, ministro holandês das Finanças e presidente do Eurogrupo, ficou desapontado com a decisão, mas não participou na reunião da Comissão.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

FOI-SE O TABU


A realidade tem muita força. Notícia e imagem do Expresso. Clique.

DÉJÀ VU

A simples presença de alguém como Donald Trump nas Presidenciais americanas dá a medida da akrasia universal. Mas não é caso virgem. Quem se lembrar da campanha de 1964 tem na memória a figura sinistra de Barry Goldwater, o candidato oficial do Partido Republicano, defensor acérrimo de que as armas nucleares eram mesmo para usar. E prometeu fazê-lo contra a URSS. Goldwater tinha então 55 anos (Trump tem 70), era e voltou a ser eleito senador (Trump é empresário, sem currículo político). Os sectores moderados do Partido Republicano, que tentaram, sem sucesso, nomear Nelson Rockefeller, preferiram votar na reeleição de Johnson. É verdade que, nos últimos 50 anos, o mundo mudou muito, mas Trump não é uma novidade na vida americana. Os mais novos podem não saber da existência de Goldwater, mas já se esqueceram de Sarah Palin?

EM QUE FICAMOS?

Em 26 de Junho, Donad Tusk, presidente do Conselho Europeu, nomeou Didier Seeuws, diplomata belga, para representar a UE nas negociações do Brexit. Hoje, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, nomeou o francês Michel Barnier como negociador-chefe da Comissão Brexit. Didier Seeuws desistiu?