terça-feira, 14 de junho de 2016

POIS

O livro mais vendido na Feira de Lisboa foi o Mein Kampf, de Hitler. Edição Guerra & Paz, com noventa páginas de prefácio de Manuel S. Fonseca, contextualizando a obra. Logo a seguir, o mais vendido foi o último romance de José Rodrigues dos Santos (Gradiva). Quem dá estas novidades é o Diário de Notícias.

O BURACO DA CGD

Segundo a imprensa tablóide, seria da responsabilidade de Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, nomeados por Teixeira dos Santos em 2005. Mas ambos deixaram a Caixa Geral de Depósitos em Janeiro de 2008, transitando para o Millennium BCP. Então o buraco da CGD vem de 2007? Verdade? A ser assim, o que andou Faria de Oliveira a fazer como CEO da Caixa entre 2008 e 2011, e como Chairman entre 2011 e 2013? Com a agravante, convém recordar, de Faria de Oliveira presidir à Associação Portuguesa de Bancos desde Abril de 2012, e de ser membro dos conselhos consultivos do Banco de Portugal e da CMVM. Os ministros Vítor Gaspar (2011-13) e Maria Luís Albuquerque (2013-15) não deram por nada? O que andou a fazer a administração presidida, desde 2013, por José Agostinho de Matos? Os funcionários da troika destacados em Lisboa entre 2011 e 2015 passaram esses quatro anos a fazer o quê? Atirando para Carlos Santos Ferreira e Armando Vara a responsabilidade do buraco da Caixa, a imprensa tablóide revela um continuum de cumplicidades. Entretanto, desapareceram dois bancos: o BES e o BANIF.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A BARBÁRIE


O Daesh já reivindicou o ataque à discoteca gay Pulse: «Foi um soldado do Califado.» O matador, nascido nos Estados Unidos no seio de uma família afegã, era segurança de profissão. Não gostava de ver homens a beijarem-se, declarou o pai aos media. Obama foi claro: «Não vamos ceder ao medo ou virar-nos uns contra os outros. Vamos permanecer unidos como americanos para proteger o nosso povo, defender a nossa nação e agir contra os que nos ameaçam.» O massacre de Orlando foi o ataque a tiro mais mortífero da História dos Estados Unidos. Foi declarado estado de emergência em toda a Flórida e, nas últimas 24 horas, realizaram-se marchas de repúdio em cidades de vários Estados americanos.

domingo, 12 de junho de 2016

ORLANDO, MASSACRE

As pessoas que estavam a divertir-se na discoteca Pulse não eram WASP (white anglo-saxon protestant), eram membros da comunidade hispânica. A Pulse é a discoteca gay de Orlando onde um tarado abateu 50 pessoas a tiro, fazendo reféns mais 300. Houve quem conseguisse fugir. O pesadelo acabou quando uma brigada da polícia de choque invadiu o local e abateu o atirador. Rescaldo: 50 mortos, 53 feridos em estado grave. Aconteceu ontem à noite (sete da manhã de hoje em Lisboa), e as autoridades americanas ainda não sabem se o atirador era um radical islâmico. Mas quem quer saber de um massacre anti-gay na cidade-Disney?

sexta-feira, 10 de junho de 2016

COMO DEVE SER

Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, podia estar hoje em Bilderberg, por ter sido um dos três convidados portugueses. Mas preferiu ficar em Lisboa. Afinal, os dias 10 e 13 de Junho são datas caras à cidade. Os holofotes internacionais podem esperar.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 53,3%. Subiu 0,5% relativamente a Maio. Em matéria de popularidade, Marcelo e António Costa continuam no topo. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

MUDAM-SE OS TEMPOS

A propósito da exaltação de Marques Mendes com as 35 horas de trabalho no sector público, propondo o seu veto, Francisco Louçã lembra no Público que o conselheiro-comentador era membro do governo de Cavaco que introduziu esse limite (revogado por Passos & Portas). Na sua qualidade de secretário de Estado da Presidência, Mendes «tinha por função coordenar a produção legislativa do governo, verificar as leis, preparar a sua redacção final.» Nessa altura não lhe ocorreu nenhuma inconstitucionalidade. Espero que no próximo domingo a SIC confronte Mendes com o facto.

MS CLINTON, OF COURSE


Hillary tem a nomeação garantida. Ainda bem. Clique na imagem.

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO


Hoje na Sábado escrevo sobre a Obra Essencial de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), volume planeado por Fernando Pessoa, executor literário do amigo precocemente suicidado, que até hoje nunca vira a luz do dia. Isso acontece agora, pela mão exigente e criteriosa de Vasco Silva, no ano do centenário de Sá-Carneiro. Nas suas quase seiscentas páginas, colige o texto programático que Pessoa publicou na revista Athena em Novembro de 1924, bem como Dispersão, Indícios de Ouro, Manucure e Últimos Poemas, duas narrativas em prosa — A Confissão de Lúcio e Céu em Fogo —, além de textos avulsos, correspondência entre Pessoa e João Gaspar Simões, cartas astrológicas, uma entrevista e as respostas a um inquérito. Não se trata, portanto, de uma edição crítica, mas do Sá-Carneiro que Pessoa considerava essencial. Na Nota Editorial, Vasco Silva dá conta da metodologia seguida (as edições de referência para a fixação do texto). Uma minuciosa cronologia, índice de primeiros versos e bibliografia, completam o volume. Acrescentar que a edição, de capa dura e esmerado apuro gráfico, resulta de um mecanismo de financiamento colectivo por parte de um grupo de leitores. Cinco estrelas. Publicou a E-Primatur.

sábado, 4 de junho de 2016

PROJECTO?

No prólogo de uma entrevista com Vasco Pulido Valente, hoje publicada no Expresso (o pretexto é dizer mal de Marcelo), escreve Ângela Silva: «Pulido Valente fala das memórias que está a começar a escrever, da sua passagem, em breve, dos jornais para um projeto online...» Um projecto online? Então uma publicação com dois anos é um projecto? Toda a gente sabe que VPV deixou o Público há meses, e vai começar a escrever, a partir de Outubro, no Observador. Goste-se ou não, o Observador é um jornal, com forte marca ideológica, presumo que mais lido que o Expresso. O suporte digital é irrelevante. Custa assim tanto dizer o nome da concorrência?

BREXIT OR NOT

A possibilidade do Brexit está a aterrorizar as elites de Londres. Depois dos apelos dramáticos dos banqueiros e dos patrões da indústria, chegou a vez da intelligentsia. Alguns exemplos: Dame Carol Ann Duffy, poeta (a primeira mulher e a primeira personalidade LGBT a ocupar o lugar de Poet Laureate); escritores como Hilary Mantel, Ian McEwan, John le Carré, Michael Morpugo e Tom Stoppard; cineastas como Danny Boyle e Stephen Frears; actores como Benedict Cumberbatch, Bill Nighy, Dominic West, John Hurt, Keira Knightley e Kristin Scott Thomas; artistas plásticos como Anish Kapoor e Tracey Emin; a performer Paloma Faith e muitos outros. O abaixo assinado dos artistas e intelectuais tem centenas de aderentes.

E O BURACO?

O Governo prepara-se para mudar tudo na gestão da Caixa Geral de Depósitos. O novo CEO será António Domingues, que esta semana saiu do BPI. O presidente do Conselho Fiscal será Guilherme d’Oliveira Martins, ex-presidente do Tribunal de Contas e actual administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian. É extinto o cargo de Chairman. Em seu lugar, é criado um conselho de administração não-executivo, constituído por doze membros, entre os quais Rui Vilar, ex-presidente da Gulbenkian e da REN; Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud; Bernardo Trindade, ex-secretário de Estado de um governo de Sócrates; e Pedro Norton, ex-CEO da Impresa. Nos termos de uma directiva do BCE, a nova administração da CGD auferirá salários superiores aos actuais. A administração PAF vai toda à vida.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

COLM TÓIBÍN


Hoje na Sábado escrevo sobre Nora Webster, o romance mais recente do irlandês Colm Tóibín (n. 1955). Professor dos dois lados do Atlântico, escrita criativa em Manchester, Humanidades em Nova Iorque, autor de vasta obra ensaística e dez romances, Tóibín escreve desta vez sobre as armadilhas da solidão. Provavelmente inspirado na vida da sua própria mãe, o plot tem a cadência das narrativas auto-referenciais. A escrita é lisa, isenta de ênfase, mas isso não é novidade para quem leu os livros anteriores. Não era fácil a vida na Irlanda dos anos 1960-70. Nora é uma viúva precoce, uma mulher de meia-idade com quatro filhos e seis libras por semana de pensão de viuvez. A morte do marido deixou-a suspensa no vazio. Agora, até a solicitude dos vizinhos se tornou um empecilho, no limite da intrusão. Quem tenha lido Brooklyn, depressa identifica a May Lacey que surge no primeiro capítulo. Mas Nora estava farta. Farta de ouvir dizer que «o tempo cura tudo», metia-se no carro, saía de Enniscorthy e ia chorar para perto do mar. Vira-se obrigada a vender a modesta casa de praia, mas fora feliz em Cush, e era para lá que fugia. Parecia-lhe sensato deixar os filhos longe da dor. Mais tarde tomará consciência do erro. Quando Maurice morreu não queria pensar em nada, nem sequer no sofrimento dos filhos. Menos ainda em política. O marido estivera ligado ao Fianna Fáil e uma das filhas acabará por seguir as pisadas do pai. Os interstícios da ficção são pontuados por factos e personagens reais (os motins de Derry, o escândalo que envolveu Charles Haughey, o ministro das Finanças acusado de traficar armas para o IRA, por exemplo), estratagema que torna a leitura muito aliciante. Como não podia deixar de ser numa história irlandesa, a querela religiosa, vexata quaestio entre todas, surge como parte da intriga. A partir do momento em que Nora vem à tona da depressão, voltando a cantar e dando novo rumo à sua vida, o romance ganha outro fôlego. Quatro estrelas.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

PRÉMIO CAMÕES 2016

O brasileiro Raduan Nassar, 80 anos, venceu o Prémio Camões 2016. Nassar publicou apenas três livros: o romance Lavoura Arcaica (1975), a novela Um Copo de Cólera (1978), títulos que em 1980 foram reunidos num único volume, e a colectânea de contos Menina a Caminho (1994). Em Portugal, os seus livros estão publicados pelas editoras Relógio d’Água e Cotovia.

GROTESCO

Se a ideia era contar a história da PIDE, qual o intuito de recuar a D. João II? Afinal, no século XV, o rei já tinha polícia política. São 500 anos de tradição... Então, qual o pecado do Estado Novo? Metendo tudo no mesmo saco (as guardas pretorianas da monarquia, a Inquisição, milícias de facção, a Carbonária, etc.), o primeiro episódio da série A PIDE antes da PIDE, que a RTP2 começou ontem a transmitir, defrauda as expectativas de quem quer conhecer a história da polícia política de Salazar. É como se, para explicar o anti-semitismo do III Reich, as normas em vigor na Judengasse de Frankfurt, o ghetto judeu que durou de 1462 a 1811, desculpassem o Holocausto. Grotesco.

domingo, 29 de maio de 2016

QUEM PAGA?

Os promotores do movimento que defende o financiamento das escolas privadas, na sua maioria católicas, suportadas com o dinheiro dos contribuintes, manifesta-se hoje em Lisboa. Tem do seu lado a hierarquia da Igreja, os sectores ultramontanos da sociedade, os direitolas do PAF e, sem surpresa, os media, que têm manipulado a opinião pública sem resquício de pudor. O Presidente da República desautorizou o movimento. O Tribunal de Contas desmentiu os media («Este Tribunal não se pronunciou, nem tinha que se pronunciar, sobre contratos de associação»), e o Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República deu razão ao Governo no tocante à redução do financiamento a colégios privados com contrato de associação. Facto é que está prevista manif. Segundo os media, foi fretado um comboio e centenas de camionetas. Quem paga essa logística?

sexta-feira, 27 de maio de 2016

NÃO ESQUECER


Há seis semanas que a RTP2 transmite, de segunda a sexta, a série Uma Aldeia Francesa de Philippe Triboit. Cinco episódios por semana. Não me recordo que algum jornal lhe tenha feito referência. Ontem passou o episódio 42, dos 60 que preenchem as seis temporadas concluídas (2009-16). A 7.ª ainda está em produção. Trata da ocupação da França pela Alemanha nazi. Verdade que a série não tem o glamour das grandes produções da HBO. Mas trata de forma assisada, e pedagógica, o drama da França ocupada, as ignomínias de Vichy, o aviltamento da colaboração, a deportação de judeus, a bufaria generalizada, as vidas dos homens e mulheres que fizeram a Resistência, etc. Um elenco muito vasto de que fazem parte, entre outros, Audrey Fleurot, Thierry Godard, Emmanuelle Bach, Robin Renucci, Marie Kremer, François Loriquet, Nade Dieu, Nicolas Gob, Fabrizio Rongione, Patrick Descamps, Martin Loizillon e Richard Sammel. Ora aí está uma série que devia ser exibida nas escolas de ensino secundário. A deriva da Europa actual não se compadece com o branqueamento da História. Nem sequer há o argumento das imagens insuportáveis. A ocupação da França foi um episódio tenebroso, como aqui documentado, mas o horror na sua forma mais exacta foi a Leste, especialmente na Polónia, Balcãs e União Soviética. Portanto não há nada que as ‘crianças’ não possam ver.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

A FEIRA

Telefonema da TSF. O jornalista quer saber o que tenciono comprar na Feira do Livro. Digo-lhe que este ano nem por lá devo passar (não publiquei nenhum livro em 2015), que não gosto da Feira, e que só lá fui a dúzia de vezes em que por obrigação contratual tinha de cumprir o ritual dos autógrafos. Contracorrente? Paciência. Não gosto.

Expliquei porquê: abomino estar sentado ao sol, ficar encharcado dos pés à cabeça porque o toldo do stand não aguentou a bátega, ir a correr para o Hospital da Luz porque a cadeira do Jorge caiu de um estrado com quase um metro, tropeçar em berços do tamanho de caravanas, ficar com um pólo estragado porque uma criança ao colo dos pais deixou cair o gelado em cima de mim, ter que ir ao Ritz se me apetecer urinar, suportar poeira e vento agreste, aturar tontos, etc. Isto dito, das vezes que fui, até tive a companhia de bons amigos, editores e escritores. Não cito nomes porque o risco de esquecer alguém é muito grande. Quanto à Feira, estamos conversados.

CLARICE LISPECTOR


Hoje na Sábado escrevo sobre a integral dos contos de Clarice Lispector (1920-1977), que Benjamin Moser juntou num único volume. São oitenta e cinco. Os que tiveram publicação em volume, mais os avulsos repescados em jornais, revistas e outras publicações, um texto arquivado na Fundação Casa Rui Barbosa, bem como inéditos do espólio. Atentas as variantes ocorridas ao longo do tempo, Moser optou pelas edições originais. Portanto, depois da integral das crónicas, temos Todos os Contos. Clarice é a déracinée típica, a mulher que nasceu na Ucrânia, à época território russo, no seio de uma família judaica, mas foi ainda bebé para o Brasil (a família teve de fugir dos pogroms anti-semitas), onde o pai lhe mudou o nome: Haia virou Clarice. Nessa altura ainda não tinha a nacionalidade brasileira, que só obteve em Janeiro de 1943, já com o curso de Direito concluído, onze dias antes de casar com um diplomata e no mesmo ano em que publicou Perto do Coração Selvagem, o romance de estreia que provocou ondas de choque nos círculos literários mais exigentes. Tinha nascido uma lenda. No prólogo, Moser faz notar que a obra «é o registo da vida inteira de uma mulher, escrito ao longo da vida inteira de uma mulher […] o primeiro registo do género em qualquer país.» É uma afirmação temerária, mas Moser defende-a bem. O volume está dividido em oito partes. Primeiros contos colige os textos escritos até 1941. Laços de Família (1960), A Legião Estrangeira (1964), Felicidade Clandestina (1971), Onde estivestes de noite? (1974) A Via Crucis do Corpo (1974) e Visão do Esplendor (1975), reproduzem as colectâneas homónimas. A fechar, Últimos Contos. Em apêndice, um texto no qual Clarice explica a génese da sua escrita. Deste vasto corpus, quero destacar “Eu e Jimmy”, “A Fuga”, “Amor”, “Uma Galinha”, “Feliz Aniversário”, “O Jantar”, “Preciosidade”, “O Crime do Professor de Matemática”, “O Búfalo”, “Os Obedientes”, “A Criada” e “Melhor do que Arder”. Alguns são clássicos absolutos. Para quem nunca leu Clarice, parecem-me uma boa introdução à obra. Katherine Boo disse: «Senti-me fisicamente abalada pelo seu génio.» O primeiro embate é sempre assim. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Tudo o que ficou por dizer, livro de estreia de Celeste NG, americana de origem chinesa, largamente elogiada por parte da crítica mais conspícua. As questões identitárias estão na ordem do dia e o livro põe em pauta os direitos das mulheres e problemas associados à integração de imigrantes asiáticos na sociedade americana. Detonador da intriga: a morte de Lydia, uma adolescente filha de pai chinês e mãe americana. Estamos em 1977, no coração do Ohio. A polícia encontra o corpo num lago. Acidente? Suicídio? A narrativa intercala passado e presente. Professor, o pai tem como prioridade “ser” americano. Dona de casa, a mãe projectou em Lydia as suas próprias aspirações. Os flashbacks compõem dois retratos: o da imigração chinesa nos primeiros anos do século XX, quando o avô de Lydia chegou à Califórnia; e a subalternização das mulheres como norma dos anos 1950. O desaparecimento de Lydia é um pretexto para Celeste NG, ela mesma filha de um casal de cientistas chineses imigrados, questionar os equívocos das relações familiares. Três estrelas e meia. Publicou a Asa.

domingo, 22 de maio de 2016

NOTEBOOK DA GARDUNHA


Os festivais de literatura são todos iguais, embora uns sejam mais simpáticos do que outros. O da Gardunha foi especialmente caloroso. Começou bem, sexta-feira à noite, com um jantar volante na Casa dos Maias, um solar barroco do século XVIII. Dividimos uma mesa no jardim com o embaixador Marcello Duarte Mathias e o Gonçalo M. Tavares. Boa conversa durante umas horas. Reencontrei o Fernando Echevarría que não via desde Paris e o Pedro Loureiro que não via desde que deixou de ser nosso vizinho (ainda tivemos tempo de ir ver a sua exposição de fotografia). Conheci o Fernando Paulouro das Neves e o filho, Ricardo, bem como o Tiago Salazar. Amigos que revi foram vários: Ana Nunes Cordeiro, José Mário Silva, Manuel da Silva Ramos e Rui Lagartinho. Ao longe vi Fernando Dacosta, que desapareceu entre as palmeiras. Havia mais umas trinta pessoas, mas a minha memória já não é o que era. Razões sérias de saúde impediram a ida de Cristina Carvalho, José Viale Moutinho, Manuel Gusmão e Paula Tavares. Sempre atenta, Margarida Gil dos Reis, a alma da organização, zelava por tudo. Passava da meia-noite quando regressámos ao hotel, o Cerca Design House, em Donas.

Por razões de ordem particular, estive no Fundão apenas dois dias. Margarida Gil dos Reis foi uma anfitriã de mão cheia, atenta aos horários e outros pormenores. Ontem, sábado, foi a abertura oficial, no edifício da Moagem, dita Cidade do Engenho e das Artes. Fernando Paulouro das Neves fez as honras da casa e apresentou o poeta e ensaísta espanhol César Antonio Molina (antigo ministro da Cultura de Estanha), que fez uma conferência sobre o tema da ‘caminhada’ em literatura, com enfoque em Cervantes. Como não via Molina há quase trinta anos, foi um reencontro. Seguiu-se a primeira mesa, com Ana Margarida de Carvalho, Fernando Dacosta e Gonçalo M. Tavares. Margarida Gil dos Reis moderou. Tive oportunidade de conhecer Mbate Pedro, poeta moçambicano nascido em 1978, membro da União Mundial dos Escritores Médicos. Seguiu-se o almoço, que juntou oitenta pessoas, distribuídas por oito mesas com dez comensais cada. Na minha ficaram Margarida Gil dos Reis, Marcello Duarte Mathias, José Carlos de Vasconcelos, Paula Morão, Fernando Guimarães, Maria de Lourdes Guimarães, Ricardo Paulouro Neves, mais um jovem que não consegui identificar e, naturalmente, o Jorge, meu marido. Duas horas de boa disposição. Seguiu-se a mesa em que participei, com Paula Morão e Marcello Duarte Mathias, moderada por Maria João Costa. Conversa rápida com Helena Buescu. Depois não vi mais nada, porque tive de regressar a Lisboa. Hoje, domingo, chegam a Clara Ferreira Alves e o Pedro Mexia, mas já não ando por lá.

E agora a parte antipática. Presumo que seja do interesse dos editores vender os livros que publicam. Digo eu, que não sou comerciante. Seria natural que estivessem atentos aos festivais literários e eventos afins. Infelizmente, nem todas as casas editoras pensam assim. Isto para dizer o seguinte: a organização do Festival Literário da Gardunha contactou cinco editores de livros meus, e eu próprio alertei as pessoas certas. Aconteceu o quê? A Dom Quixote, a Tinta da China e a Planeta fizeram o que deviam. Mandaram os livros e eles venderam-se todos: Desobediência, poesia (o primeiro a esgotar); Cadernos Italianos, diário de viagem; e Cidade Proibida, romance. A Quetzal e a Ulisseia assobiaram para o lado. Em vão as pessoas procuraram Um Rapaz a Arder, volume de memórias, e Pompas Fúnebres, colectânea de crónicas. Os livros existem para estar disponíveis. Eu sei que não é de ‘bom tom’ falar destas coisas. Mas esse é o lado para que durmo melhor.

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