Com 57% dos votos, Sadiq Khan, 45 anos, muçulmano de origem paquistanesa, membro do Labour, tornou-se o mayor de Londres, derrotando o milionário Zac Goldsmith, do Partido Conservador. Na primeira volta, Sadiq tinha obtido 44% contra 35% de Zac. Sadiq nasceu em Londres dois anos depois dos pais terem abandonado o Paquistão. Sucedendo ao excêntrico Boris Johnson, que por acaso nasceu em Nova Iorque, a capital britânica será governada pelo filho de um casal de imigrantes pobres. Boris não concorreu porque está a fazer pontaria para o n.º 10 de Downing Street.
sábado, 7 de maio de 2016
MOÇAMBIQUE, ALIÁS MOZAMBIQUE
A propósito da sucessão de disparates que se têm escrito sobre Moçambique, vou alinhavar duas ou três coisas que ajudem a perceber a ignorância nacional. Ao contrário de Angola, que fica relativamente perto, Moçambique fica do outro lado do mundo. Em Março de 1961, na sequência do massacre da UPA, Salazar fixou a legenda: Angola é nossa. Em Julho de 1975 teve início a famosa ponte aérea que durante cem dias trouxe para Portugal meio milhão de pessoas. E em Setembro de 1989, durante a guerra civil angolana, o avião em que seguia João Soares despenhou-se na Jamba. (O filho de Mário Soares regressava de um congresso da Unita.) Entre outros, estes três acontecimentos tiveram larga cobertura mediática e ficaram gravados na memória colectiva.
Em Moçambique nada ocorreu de parecido. O massacre de Wiriyamu, em Dezembro de 1972, tendo tido larga repercussão na imprensa internacional, sobretudo na de língua inglesa, foi silenciado em Portugal. A partir de 1974, a imprensa portuguesa ignorou sistematicamente a situação em Moçambique, onde dezenas de milhares de indivíduos (negros, mestiços, brancos e indianos; a comunidade chinesa não foi incomodada) foram enviados para os ‘campos de reeducação’ da Frelimo — Nachingwea e Bagamoyo, ambos na Tanzânia; Mitelela, no Niassa. Dois terços dos detidos enlouqueceram, morreram de fome ou foram executados. Seria preciso esperar por Junho de 1995 para o Público dar à estampa a reportagem «Os Campos da Vergonha», de José Pinto de Sá. Alguém ligou? O tema voltaria em 2007 sob a forma de romance, Campo de Trânsito, do historiador e escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, mas toda a gente assobiou para o lado. Nem sequer a guerra civil moçambicana, que durante dezasseis anos (1976-92) opôs a Frelimo à Renamo, comoveu os nossos media. Pior: não me lembro de ter lido em jornais portugueses qualquer referência ao facto de Joaquim Chissano ter admitido em Washington, perante uma comissão do Departamento de Estado, a prática de execuções sumárias nos anos 1970. («Report on Human Rights Practice for 1991/1992», US State Department, Washington DC, 1993.) A tudo isto a opinião pública portuguesa disse nada.
Para os media nacionais, Moçambique é aquele país distante onde se conduz pela esquerda. Ponto. Nunca perceberam, nem quiseram perceber, que a colonização de Angola não teve nada a ver com a de Moçambique. Para Angola sempre foi quem quis, quando quis e como quis. Ao contrário, para Moçambique, a exigência de carta de chamada vigorou até ao fim dos anos 1960. Os brancos de Angola nunca cortaram o cordão umbilical com as origens. Em Moçambique, para a larga maioria da população branca, Portugal era uma entidade abstracta. Quando eu nasci (1949), ainda a maioria do comércio de Lourenço Marques se fazia em libras e não em escudos: era assim no John Orr's e no LM Bazaar, para dar dois exemplos. E o LM Guardian era redigido em inglês... Não vou entrar na caracterização sociológica da emigração porque existe bibliografia sobre o assunto.
Para os media nacionais, é mais fácil perceber e falar de Angola: diamantes, petróleo, nepotismo, Luanda como meca de patos-bravos, as birras da Dona Isabel, etc. Moçambique fica longe e, bem vistas as coisas, até é desde 1995 um Estado-membro da Commonwealth.
Na imagem, LM/Maputo. Clique.
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Eduardo Pitta
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11:55
sexta-feira, 6 de maio de 2016
ASNEIRA GROSSA
A viagem do Presidente da República a Moçambique tem revelado em todo o seu esplendor a ignorância dos media nacionais.
Primeiro, o Expresso ‘ressuscitou’ Malangatana. Agora, a SIC faz de Joaquim Chissano o líder na Renamo, qualidade em que teria sido convidado a participar no banquete de Estado oferecido pelo PR moçambicano a Marcelo Rebelo de Sousa. Como a SIC devia saber, o líder da Renamo é Afonso Dhlakama. Ponto.
A notícia é de ontem ou anteontem mas só hoje tomei conhecimento dela. Como é que a SIC ignora que Chissano foi primeiro-ministro do Governo de Transição (1974-75), ministro dos Negócios Estrangeiros (1975-86) e, após a morte de Samora Machel, Presidente da República (1986-2005) durante dezanove anos? Como?
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Eduardo Pitta
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17:00
SCUT
Com os votos do PS, BE, PCP, PEV e PAN, o Parlamento aprovou hoje a redução do valor das portagens nas antigas Scut, ou seja:
Na A22, vulgo Via do Infante — Algarve;
na A23, ou autoestrada da Beira Interior — Torres Novas-Guarda;
na A24, ou autoestrada do Interior Norte — Viseu-Vila Real;
na A25, ou autoestrada das Beiras Litoral e Alta — Aveiro-Vilar Formoso.
PSD e CDS abstiveram-se. Lembrar que as Scut, acrónimo de Sem Custos para o Utilizador, foram gratuitas até 2011, altura em que o Governo PSD/CDS alterou essa situação.
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Eduardo Pitta
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16:00
quinta-feira, 5 de maio de 2016
HERBERTO HELDER
Hoje na Sábado escrevo sobre Letra Aberta, de Herberto Helder (1930-2015). Não era expectável que, um ano após a sua morte, aparecesse um novo livro. Contudo, foi o que aconteceu. Olga Lima, a viúva, escolheu e coligiu poemas inéditos e deu à estampa um pequeno volume com trinta e três poemas. Alguns fac-símiles constam da edição. Irá surgir uma arca-Herberto? Nos últimos livros que publicou em vida, A Morte Sem Mestre (2014) e Poemas Canhotos (2015), sobretudo no primeiro, Herberto queimou todas as pontes que o ligavam à tradição que ele próprio criou. Letra Aberta interrompe o desvio. Podemos presumir o óbvio: tratando-se de poemas que o autor não publicou por qualquer razão, estes inéditos pertencem a fases coincidentes com a obra pretérita. Uma nota editorial poderia esclarecer a data de factura, mas ela não existe. O único esclarecimento remete para opções de fixação de texto em quatro poemas. Em todo o caso, estamos longe do timbre visionarista: «eu cá acho que sim, / acho que apesar de tudo escrevi um poema aceitável, / um poema que amadurou em mim ao longo de oitenta anos […]» Os leitores corroboram. Herberto é sinónimo de poema contínuo. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.
Escrevo ainda sobre Montaigne, de Stefan Zweig (1881-1942). A concisão é de regra: menos de cem páginas são bastantes para nos dar a conhecer a vida e o pensamento do “pai” do Cepticismo, o celebrado inventor do ensaio, Michel Eyquem, senhor de Montaigne. Sobre a sua personalidade, Zweig sublinha: «Só aquele que foi obrigado a viver numa época em que a guerra, a violência e a tirania das ideologias ameaçavam o futuro de cada um e, nela, a sua essência mais preciosa, a liberdade individual, sabe quanta coragem, rectidão e energia são precisas para se manter fiel ao seu eu mais profundo…» Zweig é perspicaz na forma como dilucida Montaigne, alguém que confessou ter casado por conveniência, reconhecendo «o direito, mais às mulheres do que aos homens, de terem um amante…» Nascido em 1533, Montaigne morreu cedo (1592), facto que o não impediu de ser filósofo, magistrado, presidente da Câmara de Bordéus, conselheiro e agente secreto de Henrique de Navarra, viajante, amigo íntimo de Étienne de La Boétie (o precursor daquilo a que chamamos desobediência civil, autor do Discurso sobre a Servidão Voluntária), a quem dedicará os Ensaios que fizeram dele um homem célebre. Zweig enfatiza a importância dessa relação, citando La Boétie. É pena que as duas tradutoras do livro não tenham assinalado a proveniência dos textos. Bem vistas as coisas, este Montaigne é o monólogo interior com que Zweig se confronta com o biografado: «Montaigne só me emociona e me interessa hoje por isto: saber como, numa época semelhante à nossa, ele se libertou interiormente…» É impossível não estabelecer um nexo causal entre as escolhas pessoais de um e outro. O livro foi escrito durante o exílio brasileiro (austríaco de origem judaica, Zweig refugiou-se em Petrópolis entre 1940 e 1942), ocorrendo a sua primeira publicação quarenta anos após o suicídio do autor e da sua segunda mulher. A vasta bibliografia sobre Montaigne não dispensa a leitura deste magnífico ensaio biográfico de Zweig. Cinco estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.
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22:00
quarta-feira, 4 de maio de 2016
CONTRADIÇÕES AMERICANAS
É este o ponto da situação nas Primárias americanas. Do lado republicano, o score de Trump representa a vitória da maioria xenófoba, ultrapassando tudo o que podia imaginar-se e deixando às elites conservadores o dilema de, em Novembro próximo, preferirem votar Hillary. Do lado democrata, é curioso verificar como um socialista consequente (Sanders) tem conseguido obter resultados mais do que satisfatórios, embora insuficientes para travar a vitória de Hillary Clinton. Veja a diferença de superdelegados: Hillary com 520 e Sanders com 39.
O gráfico é do New York Times. Clique na imagem para ler melhor.
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10:30
terça-feira, 3 de maio de 2016
QUERUBIM LAPA 1925-2016
Vítima de complicações respiratórias após um AVC, morreu ontem Querubim Lapa, artista plástico que deixa obra de referência na cerâmica, azulejaria, escultura, pintura, desenho e gravura. Lisboa está cheia de obras suas. Tinha 90 anos. Clique na imagem.
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07:30
domingo, 1 de maio de 2016
MÃE
Leitores e críticos fazem outra pontaria. Nem uns nem outros adivinham que o sujeito deste poema de 1984 é minha Mãe, aqui fotografada no dia em que fez 78 anos (1998), com o nosso Tonecas ao colo. Clique na imagem.
Houve ali um rosto
muito belo, mal disfarçado
na teia geométrica
de uma finíssima máscara.
Sulcos de um antigo
ardor.
Tranquilo e arbitrário
desapego.
A luz baixou tanto.
Aquele rosto é
um mapa: um mapa
crivado de cidades saqueadas.
Eduardo Pitta, Desobediência. Poemas escolhidos — Dom Quixote, 2011.
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10:00
sábado, 30 de abril de 2016
ESPIRITISMO
Ângela Silva no Expresso — «Ocasião para [Marcelo] reencontrar o seu velho amigo Malangatana.»
Sucede que Malangatana morreu há cinco anos, exactamente no dia 5 de Janeiro de 2011. E morreu em Matosinhos. Clique na imagem.
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15:00
PAULO VARELA GOMES 1952-2016
Vítima de cancro, morreu hoje de manhã Paulo Varela Gomes, professor, historiador de arquitectura, escritor e antigo delegado em Goa da Fundação Oriente. É autor de romances e crónicas. As suas obras mais conhecidas, todas editadas pela Tinta da China, são O Verão de 2012 (2013), Hotel (2014), Ouro e Cinza (2014), Era uma vez em Goa (2015) e Passos Perdidos (2016). Foi militante do PCP e, mais tarde, um dos fundadores do movimento Política XXI que seria absorvido pelo BE.
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11:50
sexta-feira, 29 de abril de 2016
EM NOME DO RUÍDO?
Só hoje li com atenção aquilo que os media dizem ser o novo regulamento da Câmara de Lisboa (aprovado anteontem por unanimidade) que estabelece o horário de restaurantes, bares, discotecas, lojas de conveniência e outros estabelecimentos de venda ao público. A ver vamos o que decide a Assembleia Municipal, a quem cabe a última palavra.
Nos termos do referido regulamento, a cidade fica dividida em duas zonas: a Zona A, que é praticamente tudo; e a Zona B, que delimita a frente ribeirinha. Na Zona A, os horários serão fixados de acordo com o tipo de estabelecimento. Na Zona B (ou seja, Belém, Docas, Cais do Sodré, Parque das Nações e pouco mais), qualquer que seja a actividade, os horários serão livres.
Vamos então por partes. Na Zona A, ou residencial, os restaurantes podem funcionar entre as 06.00 da manhã e as 02:00 da madrugada, horário mais do que liberal. As discotecas poderão funcionar entre o meio-dia e as 04:00 da madrugada. Não frequento, mas dizem-me que fechar às 4 significa fechar precisamente à hora em que os happy few costumam aparecer. Não discuto. Se o problema é o ruído, as discotecas deviam ser obrigadas a ter insonorização eficiente.
O busílis são as lojas de conveniência. Ou são de ‘de conveniência’ ou não são. Pretender que encerrem às 22:00 é um contra-senso. Uma loja ‘de conveniência’ deve estar aberta das 8 da noite às 8 da manhã seguinte. As esplanadas também terão de fechar à meia-noite. Eu nem sabia da existência (em bairros residenciais) de esplanadas abertas até mais tarde. Há por aí uma Lisboa exótica que desconheço.
Em resumo, todo este alarido me parece uma patetice.
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08:00
quinta-feira, 28 de abril de 2016
AGUENTA, AGUENTA
Isabel dos Santos acaba de impedir que Fernando Ulrich, presidente executivo do BPI, seja reeleito para um novo mandato. Com os seus (dela) votos, não passou a alteração dos estatutos na parte que interdita a eleição de membros da Comissão Executiva com mais de 62 anos.
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13:00
SALÁRIOS
A RTP, a SIC e a TVI divulgaram os seus relatórios referentes a 2015. Verifica-se que o salário médio mensal (catorze meses) dos seus trabalhadores, corresponde a 3.680 euros brutos (SIC), 3.220 (RTP) e 2.852 (TVI). Como todos sabemos, as médias mascaram a realidade. Muitos destes trabalhadores recebem menos do que a média, e alguns (entre outros, os pivôs) bastante mais. O que me surpreende é a quantidade de efectivos: 1.085 trabalhadores na SIC; 1648 na RTP e 1.088 na TVI.
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11:55
EIMEAR McBRIDE
Hoje na Sábado escrevo sobre Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada, de Eimear McBride. Já ouviu falar dela? É provável que não. Eimear nasceu na Inglaterra, mas é uma escritora irlandesa, autora de um único livro, acabado de traduzir. Nascida em Liverpool em 1976, tinha 3 anos quando acompanhou os pais no seu regresso à Irlanda. Aos 17 foi para Londres estudar teatro e agora vive em Norwich. Não foi fácil publicar o livro, que andou nove anos em bolandas de editor em editor. Enfim, nenhum deles podia adivinhar que o sucesso se traduziria em cinco prémios, e que a crítica mais exigente falasse de génio. Até a New York Review of Books trouxe Beckett à colação. Eimear mete no livro os fantasmas irlandeses: religião, sexo, culpa e disfunção. Mais a exposição dos interditos (Catherine Millet mora aqui?) que faz de Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada o avesso do romance de formação. Do seu modelo clássico, quero dizer. A transgressão é de regra: «Oferecem-se e ficam desconcertados pelo meu não de dizer não. Dizer sim é o melhor dos poderes.» O comportamento da narradora é determinado pela doença (um tumor no cérebro) do irmão e pelos abusos do tio que a violentou. O “tu” para quem as falas remetem é esse irmão que transforma a Parte V numa catarse: «Até ele feliz de fodido me meter por mim acima.» A peculiaridade da sintaxe é uma marca forte do livro. Um exemplo entre dezenas: «Abro os joelhos disse anda lá. Quase se morreu de susto. […] Baixa as calças. Só para lhe tocar na pila tremente. […] Aqui a lida lida e puxo a saia e sacudo casca. Afasto-me mais calma agora do que que.» Tal como os heterodoxos nexos gramaticais, a repetição e/ou junção de palavras não constituem gralhas. São simplesmente a prosódia da autora, herdeira de Edna O’Brien e, por que não?, de Joyce. Não espanta que tudo isto seja resultado do imparável fluxo de consciência. A tradução é da responsabilidade de um poeta (Daniel Jonas), e faz sentido que seja assim. Este livro não é para amanuenses. Cinco estrelas.
Escrevo ainda sobre Vamos Comprar um Poeta, de Afonso Cruz (n. 1971), um dos autores mais cultos da sua geração, várias vezes premiado, autor de romances, contos, livros para a infância, etc. Cruz acaba de dar à estampa um livrinho de micro-contos aforísticos. Quem leu A Boneca de Kokoschka (2010), Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012) ou Flores (2015), três obras de assinalável conseguimento, talvez se surpreenda com o tom menor destes textos paródicos, devedores de alguma tradição surrealista. Ironia e nonsense são de regra: «É sempre necessário serem um pouco subversivos ou a qualidade poética baixa demasiado e não gera lucro, ninguém compra, acabam preteridos a bailarinos ou hamsters.» Há aqui ecos remotos do José Sesinando [Palla e Carmo] de quem hoje quase ninguém se lembra, mas Afonso Cruz terá lido com proveito. Como também Ramón Gómez de la Serna, expressamente citado. Em mais de vinte títulos publicados, sobressai a recusa da naïveté que tem sido a imagem de marca dos mais promovidos dos seus pares geracionais. Não é pequeno mérito. É justamente esse patamar de exigência que Vamos Comprar um Poeta não corrobora. Três estrelas. Publicou a Caminho.
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11:11
quarta-feira, 27 de abril de 2016
O SEQUEIRA É NOSSO
Com uma doação de 35 mil euros, a Fundação da Casa de Bragança completou os 600 mil euros necessários para acrescentar ao acervo do Museu Nacional de Arte Antiga o quadro Adoração dos Magos (1828), de Domingos Sequeira. Foram seis meses de crowdfunding intenso, no qual participaram anónimos, figuras públicas e instituições (a Fundação Aga Khan contribuiu com um terço do total, ou seja, com 200 mil euros), tais como a Fundação Luso-Americana, a EDP, a Fundação Carmona e Costa, o ACP, a Galeria Jorge Welsh, a Sociedade Portuguesa de Autores, etc. Presumo que antes do Verão já se possa ver a tela exposta no MNAA.
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15:55
E OS OUTROS?
O Sindicato dos Jornalistas quer que a direcção do Expresso revele o nome dos mais de cem jornalistas que fazem parte da lista de ‘alegados’ (alegados?) pagamentos realizados pelo Grupo Espírito Santo. E porquê só os avençados do GES? Os que mamavam noutras tetas não têm sombra de pecado?
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10:30
terça-feira, 26 de abril de 2016
POR FIM
Marcelo Rebelo de Sousa vai condecorar Salgueiro Maia (1944-1992) com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. O Presidente da República tornou público esse propósito durante uma homenagem que prestou em Santarém ao antigo capitão de Abril. A condecoração será outorgada no próximo dia 1 de Julho, data em que se comemoram 72 anos sobre o nascimento de Salgueiro Maia.
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10:10
TRÊS HISTÓRIAS
Ontem, até quase à meia-noite, não li jornais, não ouvi rádio e não estive perto de nenhuma televisão. Isto para dizer que não acompanhei as celebrações protocolares, oficiais e oficiosas, do dia. Mas depois do jantar vi em diferido um painel da TVI onde Judite de Sousa juntou duas resistentes comunistas com Fernando Medina, filho e neto de comunistas. As duas senhoras, Faustina Barradas (1944) e Mariana Morais de Oliveira (1949), falaram da sua experiência na clandestinidade, em particular sobre o drama dos pais que eram obrigados a separar-se dos filhos. Faustina sem conter a emoção, Mariana com travão ideológico. Faustina veio do Alentejo da fome, Mariana foi aos 17 anos estudar dialéctica para a União Soviética, e relatou com pormenor as peripécias do salto de fronteira. Medina, que no 25 de Abril tinha pouco mais de um ano de idade, nasceu longe do pai, algures na clandestinidade. Foi por um anúncio de jornal (uma senha) que teve conhecimento do nascimento do filho, que é hoje presidente da Câmara de Lisboa. Memórias muito diferentes, todas comoventes. Fica-se sempre com um nó na garganta. Há ocasiões em que nos reconciliamos com a televisão.
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segunda-feira, 25 de abril de 2016
O QUE TERIA SIDO?
Quem não viveu os anos do salazarismo não pode avaliar em toda a sua extensão o que era o Portugal mesquinho do Estado Novo. Não chega ter ouvido contar. Não chega ter lido o muito que entretanto se escreveu sobre essas décadas abomináveis. Realmente não chega. É preciso ter passado pela experiência da censura, da polícia política e da guerra. Foi terrível. Nasci em Lourenço Marques, onde vivi até aos 26 anos. Nunca pertenci a movimentos clandestinos, nunca militei em qualquer espécie de organização política. Nem sequer em democracia. A minha aversão ao Regime vinha por tradição familiar. Comprava livros proibidos, dizia mal do Botas, e era tudo. Melhor dito: pensava eu que era tudo. De facto, não era.
Em Abril de 1969, tinha então 19 anos, fui a Durban com duas amigas, uma delas filha de um conhecido e respeitado oposicionista entretanto falecido. A viagem foi monitorizada pela PIDE em sintonia com a BOSS sul-africana. Soube-o no regresso, quando minha Mãe, que durante a minha ausência fora chamada ao gabinete do director da PIDE, me perguntou o que tinha andado a fazer. A viagem mete pelo meio o escritor Alan Paton (activista dos direitos cívicos e fundador do Partido Liberal, que se opunha à política do desenvolvimento separado), mas isso agora não vem ao caso. Em Outubro desse ano, no dia das primeiras eleições do consulado de Caetano, uma festa heterodoxa — um ‘casamento’ fictício —, organizada por mim e pelas amigas da viagem a Durban, foi por momentos interrompida por dois agentes da polícia política que não perceberam porque carga de água 50 rapazes e 50 raparigas vestiam calças de sarja branca. A inspecção terá durado um quarto de hora. Até que, em Janeiro de 1971, foi aberto o ominoso processo 1/808/71, o qual conduziu à prisão dezenas de militares de todas as patentes, por práticas homossexuais. Sem acusação formada, eu próprio estive preso em Nampula durante 57 dias. (O processo foi arquivado em Dezembro de 1973.) Adiante. Em 2014 pude consultar, no Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra, o escabroso relatório da PIDE a meu respeito, documento ilustrado com uma dúzia de fotografias minhas, três das quais nunca tinha visto.
A partir daqui, está tudo dito. O que teria sido de nós sem o 25 de Abril?
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Eduardo Pitta
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domingo, 24 de abril de 2016
CANONIZO EU, CANONIZAS TU
A propósito do post de ontem sobre o cânone do DN, aproveito para lembrar a polémica gerada pela edição, em Outubro de 2002, da antologia Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, organizada por Osvaldo Manuel Silvestre, professor da Universidade de Coimbra, e Pedro Serra, professor da Universidade de Salamanca.
Transcrevo do meu livro de memórias, com inclusão, entre parênteses rectos, de nomes e excertos de notas de fim de texto:
«Um colégio de 73 ensaístas e poetas escolheu 73 poemas. Poemas e não poetas. O resultado indexa esses 73 poemas a 47 poetas. A lista dos ausentes ilustra bem o que acima vai dito. Não foram seleccionados poemas de dezenas de autores em regra antologiáveis. [Entre outros, estão ausentes António Botto, José Gomes Ferreira, António Gedeão, Miguel Torga, Raul de Carvalho, Natália Correia, Manuel Alegre e Maria Teresa Horta.] Na Assembleia da República, dez deputados liderados por Almeida Santos e Helena Roseta apresentaram em plenário um manifesto contra a ‘discriminação’ que se abatera sobre Torga e mais nove. [Além de Torga, o manifesto dos deputados cita Afonso Duarte, Florbela Espanca, António Botto, Pedro Homem de Mello, António Gedeão, Adolfo Casais Monteiro, Manuel da Fonseca, Natália Correia e Manuel Alegre.] Nunca o Parlamento produziu um documento tão esotérico. Silvestre & Serra responderam aos deputados de forma liminar: ‘Façam política, que é para isso que vos pagamos.’ [cf Público, 2-3-2003] Sem surpresa, uma onda de mexericos varreu o Meio. Um desses boatos garantia que Eugénio de Andrade, representado com um poema, teria sido incluído in extremis. Ouvida pelo Diário de Notícias, Maria Teresa Horta, uma das ausentes, deixou no ar o rumor — ‘como ia acontecendo ao Eugénio de Andrade, que no final foi incluído’. [cf DN 28-1-2003] Colaborei na antologia e sei que não foi assim. Por essa ordem de ideias, Torga estaria lá.» — cf Um Rapaz a Arder, Quetzal, 2013.
Portanto, nada de novo. Século de Ouro colige 73 poemas de 47 poetas. Sena e Ruy Belo são os poetas com maior representação. Cada poema é acompanhado de um ensaio. Sou autor da close reading ao poema O Preto no branco, de Rui Knopfli. Uma minuciosa introdução de 53 páginas explica a filosofia e o modus operandi da antologia.
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Eduardo Pitta
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