quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

MONTESQUIEU


Hoje na Sábado escrevo sobre Cartas Persas (1721), de Montesquieu, ou seja, Charles-Louis de Secondat (1689-1755), barão de La Brède e de Montesquieu, filósofo, fundador da sociologia moderna, o aristocrata defensor das liberdades e da tolerância que abalou as certezas do século XVIII ao publicar De l’Esprit des Lois (1748). A presente tradução segue a edição canónica de 1754, ocasião em que foram acrescentadas onze cartas ao corpus original. Cartas Persas é um romance epistolar, género que atingiria o cume com As Ligações Perigosas (1782), de Laclos. Montesquieu não vai tão longe como o futuro marechal, e faz todo o sentido que assim seja, porquanto o livre-pensador e o militar napoleónico são homens de índole diferente. Em todo o caso, Montesquieu faz um retrato cru, muitas vezes cínico, da época em que viveu, dando ênfase ao despotismo e ao carácter intrusivo da monarquia francesa, de par com a crítica ao dogmatismo da Igreja. Em suma, o autor usa o artifício da ficção (a correspondência de Usbek e Rica) para invectivar os fundamentos da sociedade. De certo modo, as “observações” dos dois persas antecipam o tratado sobre o espírito das leis. A controvérsia era inevitável: «A maior parte dos governos da Europa são monárquicos, ou assim chamados. Na verdade, ignoro se já houve alguns verdadeiramente assim; pelo menos, não subsistiram muito tempo na sua pureza. É um estado violento… etc.» A denúncia do abuso dos privilégios («a vantagem está habitualmente do lado do príncipe») fez a fama do autor que pôs na boca de um estrangeiro a frase assassina («o poder dos reis da Europa é muito grande»), pretexto para teorizar sobre crimes de lesa-majestade e o arbítrio da pena de morte. Isto tudo com a heterodoxia adicional de o fazer por comparação com o modus operandi dos sultões persas. No prefácio, Nuno Júdice expõe com clareza as linhas de força do romance, em especial o «fundo libertino» associado às histórias do serralho de Solim. Cinco estrelas.

Escrevo ainda sobre Desmobilizados, a estreia de Phil Klay (n. 1983) que suscitou aplausos gerais. Os prémios vieram logo a seguir: o National Book na categoria de ficção, o John Leonard para a melhor primeira obra em qualquer género, etc. O coro laudatório tem razão de ser. O livro junta doze contos sobre a experiência do autor, veterano do Iraque. Klay não é um marine comum. Formou-se em Dartmouth (uma universidade da Ivy League) e, antes de publicar o livro, tinha escrito ensaios para o Wall Street Journal, o New York Times e outras publicações do mesmo calibre. O conto que abre o volume foi originalmente publicado na edição americana da revista Granta. Klay faz o retrato em grande angular da ocupação do Iraque. Direitos humanos? Códigos de conduta? Tretas. Depois de degolar um prisioneiro, um capitão diz: «Sabe bem matar um gajo com uma faca.» Narrados na primeira pessoa, os textos estão impregnados de sexo, violência e stress pós-traumático. Uma catarse sobre o sem sentido da guerra, num continuum narrativo admirável. Para um americano não deve ser fácil ler este livro. Creio que é o maior elogio que se lhe pode fazer. Quatro estrelas e meia. Publicou a Elsinore.

RADICAL, DIZEM ELES


Por regra, um ministro oriundo de fora dos partidos não tem a desenvoltura tribunícia dos deputados mais experientes. Foi por isso uma agradável surpresa ouvir Tiago Brandão Rodrigues, o ministro da Educação, durante a audição a que ontem foi sujeito em sede de Comissão Parlamentar. Brandão Rodrigues deixou claro quem é que manda e, em resposta a um deputado da Oposição que lhe chamou radical por ter alterado de alto a baixo o modelo Crato, respondeu: É verdade. Sou radicalmente a favor da aprendizagem dos alunos. Os comentadores que tão apressadamente peroraram sobre a presuntiva falta de experiência política de um especialista em oncologia da Universidade de Cambridge, vão ter de rever a cábula das avenças.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A IMPRENSA A QUE TEMOS DIREITO

Como é que um jornal com pergaminhos — estou a falar do Diário de Notícias —, um jornal centenário, se permite dizer, em reportagem assinada por Rui Pedro Antunes, que «as eleições já estão decididas»?

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O QUE ELES GANHAM

Maria Lopes, do Público, foi ao Tribunal Constitucional verificar as declarações de rendimentos, património e cargos sociais dos dez candidatos a PR. A Lei impõe essa declaração. Há números curiosos.

Por exemplo, em matéria de rendimentos auferidos em 2014, ficamos a saber que Marcelo recebeu cerca de 385 mil euros brutos por trabalho dependente e independente; Sampaio da Nóvoa cerca de 130 mil; Marisa Matias cerca de 98 mil; Cândido Ferreira cerca de 95 mil; Maria de Belém cerca de 61 mil; Paulo Morais cerca de 58 mil; Edgar Silva 46 mil; Jorge Sequeira 36 mil; e Vitorino Silva, mais conhecido por Tino de Rans, cerca de 18 mil. Henrique Neto tem um património de 1,3 milhões de euros, mas a notícia é omissa quanto ao valor dos seus rendimentos de trabalho ou pensão. Sobre património, Cândido Ferreira tem o seu avaliado em 5,6 milhões de euros. Marcelo não tem casa nem carro, embora tenha poupanças no valor de 384 mil euros. A notícia indica outros itens.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

PIERRE BOULEZ 1925-2016


Morreu Pierre Boulez, maestro e compositor, figura maior da música contemporânea, director de orquestra em Baden-Baden, Berlim, Viena, Nova Iorque, Chicago, Cleveland, Londres (BBC), etc. A doença já não lhe permitiu dirigir a Filarmónica de Paris. O óbito ocorreu ontem à noite.

A imagem é do Libération. Clique.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

EM QUE FICAMOS?

Pode ser que sim, pode ser que não. Rumores de sinal contrário dão conta de que Cavaco não promulgará a Lei que permite a adopção plena, o apadrinhamento civil e demais relações jurídicas familiares por casais do mesmo sexo, aprovada no Parlamento no passado 18 de Dezembro, com os votos do PS, BE, PCP, PEV, PAN e dezassete deputados do PSD. A ver vamos.

Para já, uma certeza. Dois candidatos presidenciais comprometeram-se ontem publicamente, na SICN, a promulgar a Lei. Marcelo Rebelo de Sousa e Marisa Matias foram claros. Marcelo disse: «O que interessa na adopção é a protecção da criança. Não interessa que seja um adoptante, dois adoptantes, um casal do mesmo sexo ou de sexo diferente, isso é irrelevante.» Marisa corroborou, afirmando: «Não há famílias de primeira, segunda ou terceira.» Convinha saber o que pensam os outros candidatos.

domingo, 3 de janeiro de 2016

GROTESCO

Para não ir mais longe que os últimos dez anos. Em 2006, o Tribunal Constitucional rejeitou sete candidaturas presidenciais. Sete. Em 2011 rejeitou três. Este ano não rejeitou nenhuma. Ontem, no Público, Pacheco Pereira interroga-se sobre se «o Tribunal Constitucional verificou as assinaturas de todas as candidaturas que lhe foram apresentadas, algumas das quais parecem ter conseguido sem “aparelho” o milagre de obter 7500 assinaturas validadas...» É uma dúvida legítima. Não esquecer que três candidatos (sendo o senhor de Rans o mais notável dos três) apresentaram as assinaturas a poucas horas do fim do prazo.

As televisões, em nome do politicamente correcto, começaram anteontem a dar espaço às dez candidaturas. Um disparate que me dispenso de comentar. Não vi nem tenciono ver nenhum debate ou entrevista, mas ontem foi impossível escapar ao episódio... “Candidato abandona debate em directo”, porque todos os canais repetiram o sketch até à exaustão, com o propósito de enfatizar a magnanimidade de Marcelo, disponível para debater quando o outro quisesse.

Sobre o grau zero das prioridades informativas, estamos conversados. Sobre a criatura, ficámos esclarecidos: teve de ler um papel para dizer... “Não concordo com o modelo dos debates, vou-me embora” (as palavras são minhas). Tudo isto é deplorável.

Pelo andar da carruagem, não seria de admirar que a abstenção fosse superior a 60%.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2015

Chega hoje ao fim um ano terrível. Lá fora é a guerra, formalmente iniciada com o 11 de Setembro, porque foi em Manhattan e em Washington, e a opinião pública ocidental que tinha olhado para o lado em Agosto de 1998, quando as embaixadas americanas em Dar es Salaam e Nairobi foram reduzidas a pó num ataque simultâneo da Al-Qaeda que fez mais de duzentos mortos, a opinião pública ocidental, dizia, viu-se obrigada a perceber que há um antes e um depois de 2001. O ano que hoje termina marca também o pesadelo das populações deslocadas pela maior vaga migratória dos últimos 70 anos.

Cá dentro percebemos finalmente que, com raras excepções, as nossas elites empresariais são associações de gangsters. O único sinal positivo chegou em Outubro, com o pacto das Esquerdas. António Costa foi o homem certo no lugar certo, mas, mais importante que o seu pragmatismo, foi a descoberta de que dois terços da população perdeu o medo. Se a perseverança de Costa fosse contrária ao sentir dos portugueses, o país tinha dito não à solução parlamentarista. Ao invés, tudo se passou como e quando ele quis sem que ninguém rasgasse as vestes. A Direita foi incapaz de organizar uma nova Alameda, porque afinal não há eleitores “enganados”. Esse sinal de maturidade permite ter esperança. A ver vamos.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

ATTICUS LISH


Hoje na Sábado escrevo sobre Preparação Para a Próxima Vida, de Atticus Lish (n. 1972). Não é todos os dias que um estreante vence o prémio PEN/Faulkner de Ficção. Foi o que sucedeu com Atticus, filho de Gordon Lish, um dos editores mais influentes de Manhattan, e fazer parte do Meio literário ajuda. Atticus teve um percurso heterodoxo: entrou e saiu de Harvard, andou “fora dos eixos”, serviu na Marinha, trabalhou como operário, esteve de relações cortadas com o pai durante doze anos (após a morte da mãe), voltou à universidade, casou com uma coreana, viveu e leccionou inglês na China, etc. Por último mas não em último, levou cinco anos a escrever Preparação Para a Próxima Vida. Garante que o fez à mão. A prosa dá notícia de uma voz singular: «Então digam-me como se diz que o céu é alto», quer saber Zou Lei, a imigrante ilegal, co-protagonista do romance. Meia dúzia de páginas chegam para intuir que vamos mergulhar numa saga de gente desapossada à mercê de todo o tipo de abusos e arbitrariedade. Em suma, a história dos que vivem nas margens. É esse o material de Atticus. Se fosse nosso contemporâneo, Dickens disputaria o mesmo território. Nenhum glamour nimba a Nova Iorque de Atticus. Tudo se passa depois do 11 de Setembro, sob o signo da Lei Patriótica e das irregular renditions (acto de fazer circular “insurgentes” entre dois ou mais países, interrogando-os sob tortura) que permitem, por exemplo, a transferência de suspeitos de terrorismo de New Haven para o Egipto ou Israel, com o à-vontade de quem muda um prisioneiro de Brooklyn para Queens. É dessa América que perdeu a alma que o livro trata. Certo didactismo sobre a China («Dentro de trinta ou quarenta anos, vamos conseguir vencer a América ou a Rússia») não belisca o plot. Um dia, Zou encontra Skinner, antigo soldado no Iraque, lá onde nada fazia sentido, por ser «o país deles», e Skinner, não sendo um deles, depressa se deteriorou. Descrita em grande angular, a guerra prescinde de ênfase. Apenas factos: desespero, atrocidades, esquadrões da morte à revelia dos códigos de conduta. Skinner sobrevive (com stress pós-traumático) a três comissões. Zou apanha por tabela. Preparação Para a Próxima Vida é um retrato do lumpemproletariado de Nova Iorque, sendo Zou e Skinner guias desse submundo onde a violência policial dita as regras. Cerca de quinhentas páginas sobre o tema podiam dar azo, noutras mãos, a um exercício fútil de propaganda ou complacência. Não é o caso. Quatro estrelas e meia.

Escrevo ainda sobre a reedição, acrescentada de inéditos, de Não Percas a Rosa..., de Natália Correia (1923-1993). Não é segredo que a autora, tendo sido perseguida pelo Estado Novo, foi uma opositora declarada da deriva esquerdista em que o país mergulhou entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975. Muito poucos a acompanharam nessa luta. Cesariny e Vergílio Ferreira foram duas excepções. Como o essencial desse “combate” se fez na imprensa, importava coligir os textos dispersos. É essa lacuna que este livro vem preencher. Dividido em duas partes, junta Não Percas a Rosa, o Diário, agora reeditado, e Ó Liberdade, brancura do relâmpago, as crónicas do PREC. Nos dois casos, apêndices com manuscritos inéditos. Retratos e fac-símiles ilustram o volume, organizado e anotado com critério por Vladimiro Nunes. Se o Diário é eloquente no tocante ao desassombro da autora, as crónicas têm o alto teor de corrosão que se espera de textos de intervenção política imediata. Os inéditos dão notícia de factos desconhecidos: golpes combinados entre Spínola e Kaúlza, o rapto de um inspector da Pide, etc. Natália nunca pediu licença para dizer o que quis. Isso a distinguia da intelligentsia bem comportada. Quatro estrelas. Editou a Ponto de Fuga.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

ALEGADAMENTE, MORREU


Alegadamente, o Centro Hospitalar do Algarve terá cumprido as normas de transferência de doentes com AVC isquémico. Alegadamente, o Hospital de São José tem uma escala de serviço patusca. Alegadamente, não havia helicóptero para levar o doente para Coimbra. Alegadamente, vivemos num país da Europa.

A imagem é do Expresso. Clique.

SNS

A propósito das mortes que têm ocorrido com doentes em trânsito pelo Hospital de São José, convém lembrar que o Serviço Nacional de Saúde assenta na Lei n.º 56/79, de 15 de Setembro, apresentada ao Parlamento pelos socialistas Mário Soares, António Arnaut (autor) e Salgado Zenha, tendo sido aprovada pelo PS, PCP, MDP-CDE, UDP e um deputado independente (ex-PS), e rejeitada pelo PSD, CDS e os 37 dissidentes do PSD que estiveram na origem da ASDI.

Não sei onde estava Marcelo Rebelo de Sousa em Junho de 1979, quando a Lei foi apresentada, discutida e aprovada. Sei apenas que o seu partido votou contra ela. A Direita, mesmo a civilizada, nunca gostou do SNS. E o Governo de Passos & Portas tudo fez para o destruir. Os episódios macabros que recentemente envolveram doentes transferidos de Santarém e de Faro para São José, são a ponta de um imenso iceberg.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

IMPORTA ESCLARECER

A morte de um doente no Hospital de São José provocou três demissões: as de Luís Cunha Ribeiro, presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo; Teresa Sustelo, presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central; e Carlos Martins, presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte. As demissões fazem manchetes mas não explicam nada.

Importa esclarecer:

1. As chefias intermédias estavam de férias no estrangeiro?
2. O Hospital de Santarém desconhece que, aos fins-de-semana, o Hospital de São José (Lisboa) tem os serviços de Neurorradiologia de Intervenção suspensos desde 2013, e os de Neurocirurgia Vascular desde Abril de 2014?
3. Se não sabia, quem responde pela falta de informação?
4. Se sabia, por que razão enviou o doente para o Hospital de São José? Quem tomou a decisão? Porquê?
5. Após encontro com a tutela, Luís Cunha Ribeiro afirmou ontem, em conferência de imprensa: «Os centros hospitalares passam a conseguir tratar estes casos, independentemente da hora ou dia da semana
6. Nenhuma chefia intermédia conseguiu falar, no sábado, com Teresa Sustelo, CEO do hospital? Porquê?

Enquanto estas questões não forem esclarecidas, tudo não passa de tapar o sol com a peneira.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

DISCURSO DIRECTO, 32


Francisco Louçã, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:

«Ficámos este fim-de-semana pelo menos dois mil milhões de euros mais pobres, apesar de o comunicado seráfico do Banco de Portugal se ter esforçado por apresentar tudo como coisa normal. [...] Pode ainda acrescentar-se que, na realidade, a tramóia já vem de longe e que foi só por razões políticas que a questão do Banif foi escondida, nos termos de um acordo ou de uma concessão do governador do Banco de Portugal às conveniências eleitorais de Passos Coelho. [...] Na última semana, tudo piorou. Alguém lançou o boato da liquidação do bancoe desencadeou assim a corrida aos depósitos. Se não foi um comprador pretendendo tornar irreversível a pressão sobre os representantes do Estado, foi muito bem imitado. Entretanto, a crise exigiu centenas de milhões de euros de empréstimo de liquidez e o prazo para uma solução não podia ser adiado. Acresce finalmente que, por razões enigmáticas, a CMVM só no fim da semana suspendeu as acções em bolsa. Um ano de erros, uma semana de catástrofe. [...] O governador do Banco de Portugal, depois do BES e do Banif, não tira nenhuma conclusão sobre a degradação da confiança na banca, sob a sua liderança e nestes dois casos com a sua responsabilidade directa? [...]»

A imagem é do Público. Clique.

JAVIER CERCAS


Hoje na Sábado escrevo sobre O Impostor, do espanhol Javier Cercas (n. 1962), um dos nomes centrais da literatura em castelhano. Traduzido em dezenas de países, várias vezes premiado, colunista de El País, publicou no ano passado um livro inspirado na vida de Enric Marco, o presidente da Amical de Mauthausen (a associação de sobreviventes com sede em Barcelona), mas também secretário-geral da Confederação Nacional do Trabalho. O título diz tudo: O Impostor. Até ao momento de ser desmascarado, Enric, o anarco-sindicalista, construiu a biografia falsa que fazia dele um sobrevivente do campo nazi de Flossenbürg, permitindo-se publicar artigos sobre factos inventados na imprensa respeitável. Em 2005, quando o escândalo rebentou, a verdade veio à tona: a sua episódica passagem pela Alemanha tivera carácter voluntário, e nunca o regime de Franco o impediu de viver tranquilamente em solo catalão. Vem a propósito recordar que Claudio Magris e Vargas Llosa também escreveram sobre Enric Marco. O Impostor pode ser lido como a biografia de um mitómano, mas também como um livro de História, um diário em forma de thriller, ou mesmo a crónica jornalística dos «dias de fim de mundo». O autor admite ter rompido com a genologia clássica, artifício que dá azo a múltiplas abordagens da obra. Não é portanto de um romance que aqui tratamos, e não vem daí mal ao mundo. A prosa enxuta e o tema bem esgalhado tornam fútil a discussão. Não fazendo sentido ficcionar a vida de alguém que escolheu viver uma ficção, o autor cola-se à realidade. Sirva de exemplo a iconografia que ilustra o texto, em particular a lista de prisioneiros (manipulada) de Flossenbürg. Dividido em três partes, cada uma delas com secções próprias, e numeradas, O Impostor faz o relato de uma mentira. A verdade chegou tarde: «Marco nasceu num manicómio; a mãe estava louca. Ele também estará?» Javier Cercas é muito hábil na forma como constrói o patchwork dessa vida inventada. Primeiro A casca da cebola (vénia a Günter Grass), depois O romancista de si próprio e, precedendo o epílogo, O voo de Ícaro. O relato fecha com O ponto cego, texto na primeira pessoa sobre a responsabilidade do intelectual e o ofício de escrever. Fruto de investigação aturada, O Impostor não teria atingido o grau de nitidez que lhe reconhecemos se Javier Cercas não tivesse mantido longas conversas com Enric Marco e, naturalmente, com Benito Bermejo, «o historiador que revelou o embuste» e pensou escrever um livro sobre o caso. Quatro estrelas.

Escrevo ainda sobre a Prosa Escolhida de Álvaro de Campos, editada por Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. O prefácio põe o acento tónico numa evidência: «muitos dos mais importantes textos em prosa publicados por Fernando Pessoa […] são assinados por Álvaro de Campos.» Esses textos estão aqui reunidos. A antologia abre com as “Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro”, cerca de cinquenta páginas que auto-justificam Campos: «Quem me tira os testículos, tira-me só a possibilidade de todas as mulheres; quem me tira os olhos, tira-me a realidade do universo inteiro.» Mas também cartas, como a dirigida à revista Contemporânea, na qual discorre sobre a «imoralidade absoluta» de António Botto. E, colado ao tema (as Canções de Botto), o sibilino “Aviso por causa da moral”, no qual Campos reage, em 1923, à tranquibérnia dos estudantes fascistas que queimaram livros de Botto, Judith Teixeira e Raul Leal: «Bolas para a gente ter que aturar isto. […] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra.» Doravante, o leitor encontra num único volume um conjunto de textos (escritos entre 1915 e 1935) dispersos por várias publicações. Publicou a Assírio & Alvim. Cinco estrelas.

BEST OF 2015


Por causa do Natal, a Sábado antecipou a saída para hoje. Aqui ficam as minhas escolhas do ano, em ficção: os três melhores e a grande desilusão. Três mais um são três mais um. Não há preâmbulos para registo de... “mas também o livro de fulano que me pôs em ponto de rebuçado, etc.” Fica-se sempre sem saber o que é mais importante: se os da lista seca, se os “mas também”.

Portanto, é assim: 1. A Senda Estreita Para o Norte Profundo, de Richard Flanagan / 2. Em Movimento. Uma Vida, de Oliver Sacks, ambos publicados pela Relógio d'Água / 3. Cidade em Chamas, de Garth Risk Hallberg, publicado pela Teorema.

Flop — Um Anjo Impuro, de Henning Mankell, publicado pela Presença.

Clique na imagem para ler os textos.

GALILEU


A Galileu faz hoje 43 anos. Desde 1972, a Galileu é “a” livraria de Cascais. Durante os 22 anos em que lá vivemos, foi ponto de passagem, não direi diário, mas quase. A Caroline e o Nuno forem sempre anfitriões excelentíssimos.

Deixo aqui um excerto do meu livro de memórias:

Uma tarde em que fui com o Jorge comer gelados ao Santini (a gelataria por onde passaram várias gerações da família real espanhola), descobrimos a Livraria Galileu [...] O que nos chamou a atenção foram as mesas de livros usados colocadas no passeio, cheias de paperbacks ingleses. Os fundos de literatura portuguesa estavam na cave, sobretudo raridades em segunda mão. Rotatividade era um conceito ignorado. Livro que ficasse no andar de cima sem vender, descia, ao fim de meses, para a cave. Nunca era devolvido. Encontrei preciosidades a preços irrisórios. Nessa primeira visita chamou-me a atenção uma prateleira com autores de direita: Agustina Bessa-Luís, António Quadros, Joaquim Paço d’Arcos, Rodrigo Emílio, Pinharanda Gomes e outros. Uma temeridade no Outono de 1975. Facto é que mais depressa se vendiam os poemas de Agostinho Neto que os de Sophia. Dessa visita inaugural trouxe livros de Agustina, largamente ignorada em Moçambique. Ignorada no sentido de pouco lida. As Pessoas Felizes (1975) foi um deles. Romance fulgurante como muito poucos. Trouxe também Ana Paula (1938), de Joaquim Paço d’Arcos, não podendo deixar de recordar um episódio de 1971. [...] A Galileu era ponto de passagem de escritores e poetas que viviam ou veraneavam em Cascais, como era o caso de António Quadros, David, Assis Pacheco, Herberto e Gaspar Simões. — Um Rapaz a Arder, Quetzal, 2013...

Portanto, hoje é dia de festa. A fotografia de Maximilien Coppens foi roubada a Caroline Tyssen. Clique nela.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

CRIME, DISSE ELA

Mariana Mortágua, hoje em conferência de imprensa.

«O Governo PSD/CDS cometeu um crime contra os interesses do Estado e do país. Ao longo de três anos, o executivo de Passos e Portas ignorou sucessivos avisos da Comissão Europeia, que recusou nada menos que oito planos de reestruturação apresentados pela administração do BANIF. Já em setembro, avisado pelo auditor do BANIF da necessidade de uma intervenção imediata, o governo optou por nada fazer. Enquanto o governo da Direita, com a colaboração das instituições europeias, se preocupava unicamente em encenar a famosa saída limpa, a real situação do BANIF foi ocultada até se tornar insustentável. O governador do Banco de Portugal não tem as mínimas condições para se manter no lugar. O BE irá propor uma comissão parlamentar de inquérito à gestão e intervenção no BANIF para apurar todas as responsabilidades sobre o caso

SAÍDA LIMPA

O BANIF já é espanhol: foi vendido ao Santander Totta por 150 milhões de euros.

Ontem à noite, ao ouvir o primeiro-ministro, não pude deixar de comparar com o que se passou no primeiro domingo de Agosto de 2014, quando (eram 11 da noite) o governador do Banco de Portugal apareceu em directo na televisão a anunciar a Resolução que deu origem ao Novo Banco. Nesse domingo, o Governo de Passos Coelho aprovou, e o Presidente da República promulgou, o Decreto-Lei n.º 114-B/2014, de 4 de Agosto. Nesse domingo, com o PM e a maioria dos ministros na praia, a operação teve quatro intervenientes: o governador do BdP, o vice-primeiro-ministro, a ministra das Finanças e o PR. Únicos subscritores do diploma: Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque. O governador do BdP fez uma arenga ininteligível que o país ouviu com incredulidade.

Ontem à noite, o primeiro-ministro fez um statement claro sobre a venda do banco madeirense — «A opção do Governo e do Banco de Portugal foi tomada tendo em conta os depositantes, os postos de trabalho, a salvaguarda económica das regiões autónomas e a sustentabilidade do sistema financeiro. A venda tem um custo muito elevado para os contribuintes, mas das opções possíveis é a melhor para defender os interesses nacionais. Protege todos os depositantes, incluindo as poupanças dos emigrantes, postos de trabalho e sistema financeiro

A operação envolve 2.255 milhões de euros: 1.766 milhões de euros directamente do OE, mais 489 milhões de euros do Fundo de Resolução. Bruxelas aprovou, mas Margrethe Vestager, comissária europeia da Concorrência, afirmou que «os bancos não podem ser mantidos artificialmente no mercado com dinheiro dos contribuintes». Hoje, um Conselho de Ministros extraordinário aprovará um Orçamento Rectificativo para enquadrar toda a operação.

Como salientou o primeiro-ministro, compete à Assembleia da República averiguar por que razão um problema identificado em Janeiro de 2013, investigado pela Comissão Europeia há mais de um ano, com todas as luzes vermelhas acesas desde Março, só foi tornado público depois da rejeição do Governo PAF.

IMBRÓGLIO


Numas eleições muito participadas (a abstenção foi apenas de 26,8%), o PP perdeu 3,6 milhões de eleitores e 63 deputados. Mesmo assim, foi o partido mais votado de Espanha, com 28,7% dos votos expressos e 123 deputados. Em segundo lugar ficou o PSOE, com 22% e 90 deputados. Em terceiro o PODEMOS, com 20,6% e 69 deputados. Em várias regiões, o PODEMOS concorreu coligado com outras forças. Não se confirmaram as projecções de que o partido de Iglesias seria a segunda força mais votada. Os socialistas obtiveram mais 400 mil votos e 21 deputados do que o PODEMOS. Em quarto o CIUDADANOS, com 13,9% e 40 deputados.

Nenhum dos dois grandes blocos chega à maioria absoluta de 176 deputados. A Direita, PP+CIUDADANOS soma 163 deputados. A Esquerda, PSOE+PODEMOS+UP soma 161. (A UP, ou Unidade Popular en Común, é a coligação da Izquierda Unida com os Verdes.) Um grande imbróglio. Clique na imagem.

domingo, 20 de dezembro de 2015

HOJE COMO VAI SER?


Em 2011, o PP de Rajoy conseguiu 10,8 milhões de votos (44,6%), que se traduziram numa maioria absoluta de 186 deputados. Por seu turno, o PSOE de Zapatero conseguiu 7 milhões de votos (28,7%), que se traduziram em 110 deputados. Mas nos últimos quatro anos muita coisa mudou. O PSOE substituiu Zapatero por Rubalcaba (até 2014), tendo agora Sánchez à frente do partido. Mas o que vai baralhar as contas é o aparecimento de dois novos partidos: o PODEMOS, de Pablo Iglesias, fundado em Janeiro de 2014, decalcando o modelo do Syriza; e o partido conservador CIUDADANOS, de Albert Rivera, fundado em Junho de 2006, em Barcelona, com perfil regional, mas que só a partir de 2014, com as eleições para o Parlamento Europeu, obteve estatuto de partido nacional. As sondagens dão os quatro praticamente empatados, porque os eleitorados tradicionais do PP e do PSOE subdividiram-se. Logo à noite veremos. Clique na imagem.