quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

IMPORTA ESCLARECER

A morte de um doente no Hospital de São José provocou três demissões: as de Luís Cunha Ribeiro, presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo; Teresa Sustelo, presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central; e Carlos Martins, presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte. As demissões fazem manchetes mas não explicam nada.

Importa esclarecer:

1. As chefias intermédias estavam de férias no estrangeiro?
2. O Hospital de Santarém desconhece que, aos fins-de-semana, o Hospital de São José (Lisboa) tem os serviços de Neurorradiologia de Intervenção suspensos desde 2013, e os de Neurocirurgia Vascular desde Abril de 2014?
3. Se não sabia, quem responde pela falta de informação?
4. Se sabia, por que razão enviou o doente para o Hospital de São José? Quem tomou a decisão? Porquê?
5. Após encontro com a tutela, Luís Cunha Ribeiro afirmou ontem, em conferência de imprensa: «Os centros hospitalares passam a conseguir tratar estes casos, independentemente da hora ou dia da semana
6. Nenhuma chefia intermédia conseguiu falar, no sábado, com Teresa Sustelo, CEO do hospital? Porquê?

Enquanto estas questões não forem esclarecidas, tudo não passa de tapar o sol com a peneira.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

DISCURSO DIRECTO, 32


Francisco Louçã, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:

«Ficámos este fim-de-semana pelo menos dois mil milhões de euros mais pobres, apesar de o comunicado seráfico do Banco de Portugal se ter esforçado por apresentar tudo como coisa normal. [...] Pode ainda acrescentar-se que, na realidade, a tramóia já vem de longe e que foi só por razões políticas que a questão do Banif foi escondida, nos termos de um acordo ou de uma concessão do governador do Banco de Portugal às conveniências eleitorais de Passos Coelho. [...] Na última semana, tudo piorou. Alguém lançou o boato da liquidação do bancoe desencadeou assim a corrida aos depósitos. Se não foi um comprador pretendendo tornar irreversível a pressão sobre os representantes do Estado, foi muito bem imitado. Entretanto, a crise exigiu centenas de milhões de euros de empréstimo de liquidez e o prazo para uma solução não podia ser adiado. Acresce finalmente que, por razões enigmáticas, a CMVM só no fim da semana suspendeu as acções em bolsa. Um ano de erros, uma semana de catástrofe. [...] O governador do Banco de Portugal, depois do BES e do Banif, não tira nenhuma conclusão sobre a degradação da confiança na banca, sob a sua liderança e nestes dois casos com a sua responsabilidade directa? [...]»

A imagem é do Público. Clique.

JAVIER CERCAS


Hoje na Sábado escrevo sobre O Impostor, do espanhol Javier Cercas (n. 1962), um dos nomes centrais da literatura em castelhano. Traduzido em dezenas de países, várias vezes premiado, colunista de El País, publicou no ano passado um livro inspirado na vida de Enric Marco, o presidente da Amical de Mauthausen (a associação de sobreviventes com sede em Barcelona), mas também secretário-geral da Confederação Nacional do Trabalho. O título diz tudo: O Impostor. Até ao momento de ser desmascarado, Enric, o anarco-sindicalista, construiu a biografia falsa que fazia dele um sobrevivente do campo nazi de Flossenbürg, permitindo-se publicar artigos sobre factos inventados na imprensa respeitável. Em 2005, quando o escândalo rebentou, a verdade veio à tona: a sua episódica passagem pela Alemanha tivera carácter voluntário, e nunca o regime de Franco o impediu de viver tranquilamente em solo catalão. Vem a propósito recordar que Claudio Magris e Vargas Llosa também escreveram sobre Enric Marco. O Impostor pode ser lido como a biografia de um mitómano, mas também como um livro de História, um diário em forma de thriller, ou mesmo a crónica jornalística dos «dias de fim de mundo». O autor admite ter rompido com a genologia clássica, artifício que dá azo a múltiplas abordagens da obra. Não é portanto de um romance que aqui tratamos, e não vem daí mal ao mundo. A prosa enxuta e o tema bem esgalhado tornam fútil a discussão. Não fazendo sentido ficcionar a vida de alguém que escolheu viver uma ficção, o autor cola-se à realidade. Sirva de exemplo a iconografia que ilustra o texto, em particular a lista de prisioneiros (manipulada) de Flossenbürg. Dividido em três partes, cada uma delas com secções próprias, e numeradas, O Impostor faz o relato de uma mentira. A verdade chegou tarde: «Marco nasceu num manicómio; a mãe estava louca. Ele também estará?» Javier Cercas é muito hábil na forma como constrói o patchwork dessa vida inventada. Primeiro A casca da cebola (vénia a Günter Grass), depois O romancista de si próprio e, precedendo o epílogo, O voo de Ícaro. O relato fecha com O ponto cego, texto na primeira pessoa sobre a responsabilidade do intelectual e o ofício de escrever. Fruto de investigação aturada, O Impostor não teria atingido o grau de nitidez que lhe reconhecemos se Javier Cercas não tivesse mantido longas conversas com Enric Marco e, naturalmente, com Benito Bermejo, «o historiador que revelou o embuste» e pensou escrever um livro sobre o caso. Quatro estrelas.

Escrevo ainda sobre a Prosa Escolhida de Álvaro de Campos, editada por Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. O prefácio põe o acento tónico numa evidência: «muitos dos mais importantes textos em prosa publicados por Fernando Pessoa […] são assinados por Álvaro de Campos.» Esses textos estão aqui reunidos. A antologia abre com as “Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro”, cerca de cinquenta páginas que auto-justificam Campos: «Quem me tira os testículos, tira-me só a possibilidade de todas as mulheres; quem me tira os olhos, tira-me a realidade do universo inteiro.» Mas também cartas, como a dirigida à revista Contemporânea, na qual discorre sobre a «imoralidade absoluta» de António Botto. E, colado ao tema (as Canções de Botto), o sibilino “Aviso por causa da moral”, no qual Campos reage, em 1923, à tranquibérnia dos estudantes fascistas que queimaram livros de Botto, Judith Teixeira e Raul Leal: «Bolas para a gente ter que aturar isto. […] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra.» Doravante, o leitor encontra num único volume um conjunto de textos (escritos entre 1915 e 1935) dispersos por várias publicações. Publicou a Assírio & Alvim. Cinco estrelas.

BEST OF 2015


Por causa do Natal, a Sábado antecipou a saída para hoje. Aqui ficam as minhas escolhas do ano, em ficção: os três melhores e a grande desilusão. Três mais um são três mais um. Não há preâmbulos para registo de... “mas também o livro de fulano que me pôs em ponto de rebuçado, etc.” Fica-se sempre sem saber o que é mais importante: se os da lista seca, se os “mas também”.

Portanto, é assim: 1. A Senda Estreita Para o Norte Profundo, de Richard Flanagan / 2. Em Movimento. Uma Vida, de Oliver Sacks, ambos publicados pela Relógio d'Água / 3. Cidade em Chamas, de Garth Risk Hallberg, publicado pela Teorema.

Flop — Um Anjo Impuro, de Henning Mankell, publicado pela Presença.

Clique na imagem para ler os textos.

GALILEU


A Galileu faz hoje 43 anos. Desde 1972, a Galileu é “a” livraria de Cascais. Durante os 22 anos em que lá vivemos, foi ponto de passagem, não direi diário, mas quase. A Caroline e o Nuno forem sempre anfitriões excelentíssimos.

Deixo aqui um excerto do meu livro de memórias:

Uma tarde em que fui com o Jorge comer gelados ao Santini (a gelataria por onde passaram várias gerações da família real espanhola), descobrimos a Livraria Galileu [...] O que nos chamou a atenção foram as mesas de livros usados colocadas no passeio, cheias de paperbacks ingleses. Os fundos de literatura portuguesa estavam na cave, sobretudo raridades em segunda mão. Rotatividade era um conceito ignorado. Livro que ficasse no andar de cima sem vender, descia, ao fim de meses, para a cave. Nunca era devolvido. Encontrei preciosidades a preços irrisórios. Nessa primeira visita chamou-me a atenção uma prateleira com autores de direita: Agustina Bessa-Luís, António Quadros, Joaquim Paço d’Arcos, Rodrigo Emílio, Pinharanda Gomes e outros. Uma temeridade no Outono de 1975. Facto é que mais depressa se vendiam os poemas de Agostinho Neto que os de Sophia. Dessa visita inaugural trouxe livros de Agustina, largamente ignorada em Moçambique. Ignorada no sentido de pouco lida. As Pessoas Felizes (1975) foi um deles. Romance fulgurante como muito poucos. Trouxe também Ana Paula (1938), de Joaquim Paço d’Arcos, não podendo deixar de recordar um episódio de 1971. [...] A Galileu era ponto de passagem de escritores e poetas que viviam ou veraneavam em Cascais, como era o caso de António Quadros, David, Assis Pacheco, Herberto e Gaspar Simões. — Um Rapaz a Arder, Quetzal, 2013...

Portanto, hoje é dia de festa. A fotografia de Maximilien Coppens foi roubada a Caroline Tyssen. Clique nela.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

CRIME, DISSE ELA

Mariana Mortágua, hoje em conferência de imprensa.

«O Governo PSD/CDS cometeu um crime contra os interesses do Estado e do país. Ao longo de três anos, o executivo de Passos e Portas ignorou sucessivos avisos da Comissão Europeia, que recusou nada menos que oito planos de reestruturação apresentados pela administração do BANIF. Já em setembro, avisado pelo auditor do BANIF da necessidade de uma intervenção imediata, o governo optou por nada fazer. Enquanto o governo da Direita, com a colaboração das instituições europeias, se preocupava unicamente em encenar a famosa saída limpa, a real situação do BANIF foi ocultada até se tornar insustentável. O governador do Banco de Portugal não tem as mínimas condições para se manter no lugar. O BE irá propor uma comissão parlamentar de inquérito à gestão e intervenção no BANIF para apurar todas as responsabilidades sobre o caso

SAÍDA LIMPA

O BANIF já é espanhol: foi vendido ao Santander Totta por 150 milhões de euros.

Ontem à noite, ao ouvir o primeiro-ministro, não pude deixar de comparar com o que se passou no primeiro domingo de Agosto de 2014, quando (eram 11 da noite) o governador do Banco de Portugal apareceu em directo na televisão a anunciar a Resolução que deu origem ao Novo Banco. Nesse domingo, o Governo de Passos Coelho aprovou, e o Presidente da República promulgou, o Decreto-Lei n.º 114-B/2014, de 4 de Agosto. Nesse domingo, com o PM e a maioria dos ministros na praia, a operação teve quatro intervenientes: o governador do BdP, o vice-primeiro-ministro, a ministra das Finanças e o PR. Únicos subscritores do diploma: Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque. O governador do BdP fez uma arenga ininteligível que o país ouviu com incredulidade.

Ontem à noite, o primeiro-ministro fez um statement claro sobre a venda do banco madeirense — «A opção do Governo e do Banco de Portugal foi tomada tendo em conta os depositantes, os postos de trabalho, a salvaguarda económica das regiões autónomas e a sustentabilidade do sistema financeiro. A venda tem um custo muito elevado para os contribuintes, mas das opções possíveis é a melhor para defender os interesses nacionais. Protege todos os depositantes, incluindo as poupanças dos emigrantes, postos de trabalho e sistema financeiro

A operação envolve 2.255 milhões de euros: 1.766 milhões de euros directamente do OE, mais 489 milhões de euros do Fundo de Resolução. Bruxelas aprovou, mas Margrethe Vestager, comissária europeia da Concorrência, afirmou que «os bancos não podem ser mantidos artificialmente no mercado com dinheiro dos contribuintes». Hoje, um Conselho de Ministros extraordinário aprovará um Orçamento Rectificativo para enquadrar toda a operação.

Como salientou o primeiro-ministro, compete à Assembleia da República averiguar por que razão um problema identificado em Janeiro de 2013, investigado pela Comissão Europeia há mais de um ano, com todas as luzes vermelhas acesas desde Março, só foi tornado público depois da rejeição do Governo PAF.

IMBRÓGLIO


Numas eleições muito participadas (a abstenção foi apenas de 26,8%), o PP perdeu 3,6 milhões de eleitores e 63 deputados. Mesmo assim, foi o partido mais votado de Espanha, com 28,7% dos votos expressos e 123 deputados. Em segundo lugar ficou o PSOE, com 22% e 90 deputados. Em terceiro o PODEMOS, com 20,6% e 69 deputados. Em várias regiões, o PODEMOS concorreu coligado com outras forças. Não se confirmaram as projecções de que o partido de Iglesias seria a segunda força mais votada. Os socialistas obtiveram mais 400 mil votos e 21 deputados do que o PODEMOS. Em quarto o CIUDADANOS, com 13,9% e 40 deputados.

Nenhum dos dois grandes blocos chega à maioria absoluta de 176 deputados. A Direita, PP+CIUDADANOS soma 163 deputados. A Esquerda, PSOE+PODEMOS+UP soma 161. (A UP, ou Unidade Popular en Común, é a coligação da Izquierda Unida com os Verdes.) Um grande imbróglio. Clique na imagem.

domingo, 20 de dezembro de 2015

HOJE COMO VAI SER?


Em 2011, o PP de Rajoy conseguiu 10,8 milhões de votos (44,6%), que se traduziram numa maioria absoluta de 186 deputados. Por seu turno, o PSOE de Zapatero conseguiu 7 milhões de votos (28,7%), que se traduziram em 110 deputados. Mas nos últimos quatro anos muita coisa mudou. O PSOE substituiu Zapatero por Rubalcaba (até 2014), tendo agora Sánchez à frente do partido. Mas o que vai baralhar as contas é o aparecimento de dois novos partidos: o PODEMOS, de Pablo Iglesias, fundado em Janeiro de 2014, decalcando o modelo do Syriza; e o partido conservador CIUDADANOS, de Albert Rivera, fundado em Junho de 2006, em Barcelona, com perfil regional, mas que só a partir de 2014, com as eleições para o Parlamento Europeu, obteve estatuto de partido nacional. As sondagens dão os quatro praticamente empatados, porque os eleitorados tradicionais do PP e do PSOE subdividiram-se. Logo à noite veremos. Clique na imagem.

sábado, 19 de dezembro de 2015

TAP

António Costa, em Bruxelas: «Com acordo ou sem acordo, o Estado voltará a deter a maioria do capital da TAP.»

Neste momento, o Estado detém apenas 34%. A maioria (61%) pertence à Gateway, o consórcio que junta David Neeleman e Humberto Pedrosa. Os restantes 5% estão nas mãos dos trabalhadores da empresa. Lembrar que o contrato entre o Estado e a Gateway foi assinado em reunião à porta fechada, nas instalações da Parpública, às 23:30 de 12 de Novembro, ou seja, dois dias depois da queda do Governo PAF. Aconselharia o bom senso que os senhores Neeleman e Pedrosa não tivessem fechado o negócio com um Governo demitido, que só nesse dia, 12 de Novembro, estando já em gestão corrente, aprovou a minuta final do contrato. Costa quer outra estrutura accionista: Estado (51%), Gateway (44%), Trabalhadores (5%). Neeleman e Pedrosa não aceitam, o que levará ao desenlace óbvio: o Governo expropriará a empresa após aprovação, no Parlamento, de uma Lei que declare o negócio ilegal.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

CES

Uma maioria mais bizarra, constituída pelo PS, PSD, CDS e PAN, aprovou a redução para metade da Contribuição Extraordinária de Solidariedade, o imposto que incide exclusivamente sobre pensões. BE, PCP e PEV, que pretendiam a extinção da CES em todas as pensões, votaram contra. O diploma do PS mantém a CES nas pensões de valor superior a 4.611 euros (será de 7,5% em vez dos 15% actuais) e a 7.126 euros (será de 20% em vez dos 40% actuais). Afinal, Costa não teve que se demitir para ver o PSD e o CDS a votarem uma proposta sua.

A TERRA MOVE-SE

A maioria de Esquerda aprovou também:

1. A revogação das alterações introduzidas na Legislatura anterior, pelo PSD e o CDS, à Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez.

2. Os novos escalões da sobretaxa de IRS. O diploma do PCP foi chumbado, mas o PCP acompanhou o BE, o PEV e o PAN na aprovação do diploma do PS.

3. A devolução, em quatro etapas (Janeiro, Abril, Julho e Outubro), dos cortes efectuados nos vencimentos dos funcionários públicos.

CONSELHO DE ESTADO

Carlos César, Francisco Louçã e Domingos Abrantes, com 116 votos cada, mas também Pinto Balsemão e Adriano Moreira, com 104 votos cada, foram hoje eleitos representantes da Assembleia da República no Conselho de Estado. Houve cinco votos brancos e um nulo.

A entrada dos novos conselheiros determina a saída de Manuel Alegre, Marques Mendes, Alfredo Bruto da Costa e Luís Filipe Menezes. Por ter sido reeleito, Balsemão fica.

POR FIM

Com os votos do PS, BE, PCP, PEV e PAN, mas também dezassete deputados do PSD (dez homens e sete mulheres), foi hoje aprovada no Parlamento a Lei que permite a adopção plena, o apadrinhamento civil e demais relações jurídicas familiares por casais do mesmo sexo. Abstiveram-se quatro deputados do PSD, duas deputadas do CDS e um deputado do PS. Os quatro projectos de Lei aprovados em Novembro, na generalidade, tinham baixado à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias onde foram vertidos num único diploma.

DINAMARCA, 2015


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A imagem, não integral, é do Público. Clique para ver melhor.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

GARTH RISK HALLBERG


Hoje na Sábado escrevo sobre Cidade em Chamas, do americano Garth Risk Hallberg (n. 1979), um estreante que conseguiu a proeza de publicar um romance de mais de mil páginas, recebendo dois milhões de dólares de “avanço” sobre direitos futuros. O livro foi lançado em todo o mundo no mês passado. Narrada na terceira pessoa, a história tem especial enfoque no curto período de seis meses que vai do fim do ano de 1976 até ao início do Verão de 1977, quando, na noite de 13 para 14 de Julho, Nova Iorque sofreu o maior apagão da sua história. Recuando até ao fim dos anos 1950, os flashbacks iluminam o contexto. O crime de Central Park é instrumental. A época em que o plot assenta é uma das mais vibrantes de Nova Iorque, quando os índices de criminalidade eram um flagelo e a “baixa” de Manhattan (sobretudo o SoHo e Greenwich Village), à boleia do diktat gay, se tornou o centro da contracultura. Anos de luz e sombra em que tudo podia acontecer e, de facto, aconteceu. Andy Warhol não teria sido possível sem essa osmose de extremos. O mérito de Hallberg é o de enquadrar tudo numa moldura clássica, com a sua escrita bem calibrada e a noção exacta do que é tradição literária, com envios, nem sempre explícitos, a ícones como Susan Sontag ou Patti Smith. Naquele tempo, Nova Iorque não era ainda a cidade bem comportada, limpa, fashionable, que se tornou nos últimos vinte anos. Era uma metrópole caótica onde a “norma” era transgredir. Truman Capote e o celebrado A Sangue Frio servem de contraponto aos comportamentos então dominantes: rock, ginásios, homossexualidade, estética punk, violência policial. De certo modo, Hallberg quis fazer a história de um sítio sob o prisma de alguém que chega de outro lado: «A Cidade reconfortava-o de uma maneira que Long Island não conseguia…», diz uma das personagens. Esse sítio onde cabiam todos, Hallberg só o descobriu no fim da adolescência. (O autor é oriundo da Carolina do Norte e radicou-se em Nova Iorque em 2006.) Porém, desde sempre soube que era um manancial para qualquer escritor. Mais tarde, o 11 de Setembro fez com que olhasse para a cidade de outra maneira. Cidade em Chamas antecipa o pesadelo, é outra coisa, é de quando ainda existiam as Torres Gémeas. Deve assinalar-se o cuidado gráfico da edição. O volume inclui gravuras em hors-texte, canções (Bowie, Reed, outros), interlúdios com lettering próprio e excertos de Walter Benjamin. A partir do livro, Scott Rudin vai fazer um filme. Cinco estrelas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

SÓCRATES TAKE DOIS

Se dúvidas houvesse, a segunda parte da entrevista de Sócrates à TVI provou o óbvio: o antigo primeiro-ministro não tem rival à altura. Sobre a saga processual já se falou. A celeuma da vida faustosa ilustrou a mesquinharia indígena. Como é de uso dizer-se, a caterva não pode ver alguém com uma camisa lavada. Adiante. Ontem também se discutiu a situação política actual. Muito oportuno o exemplo de Robert Walpole, que o Parlamento britânico rejeitou em 1742, pondo termo a vinte anos de mandato, naquela que foi a primeira moção de rejeição da História. Walpole reconheceu que um Governo não pode governar contra o Parlamento. A questão presidencial também foi abordada: com a sua neutralidade, «o PS está a favorecer a candidatura de Marcelo». Elementar.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O PÉ EM CIMA DA MINA

Sobre a entrevista de Sócrates, Sérgio Figueiredo, o director de informação da TVI, faz hoje no DN o making-of da operação. Conta que foi quatro vezes a casa do antigo primeiro-ministro para garantir o exclusivo. Sobre a primeira parte, transmitida ontem em directo (a segunda parte, a transmitir hoje, foi gravada), afirma:

«Esta primeira parte da entrevista de José Sócrates limitou-se a abrir mais brechas num processo demasiado mau para ser verdadeiro. Um ataque cerrado à Justiça. Viagem ao interior de uma investigação que, manifestamente, está em dificuldade para deduzir uma acusação. [...] Mas diante do embaraço do Ministério Público, nem é bom presumir o que acontecerá ao nosso sistema judicial caso se confirme o que se teme — que há um juiz, um procurador e um inspector tributário que pisaram a mina e não sabem como tirar dali o pé. [...]»

Isso. O pé em cima da mina. Quem viu a primeira parte da entrevista, ouviu Sócrates ler uma informação (constante do processo) de Paulo Silva, o inspector tributário que lhe deu ordem de prisão no aeroporto, em 21 de Novembro de 2014, ao chegar a Lisboa. Nessa informação, referindo-se à permanente violação do segredo de Justiça, o inspector tributário escreve que as fugas de informação só podem partir de três pessoas: ele mesmo, o procurador titular do processo, e o juiz de instrução. A acusação caiu em saco roto. Ninguém pode admirar-se que o antigo primeiro-ministro tenha responsabilizado directamente a Preocuradora-Geral da República pelo evoluir da situação.

Sócrates levantou outras questões, todas pertinentes. Os prazos: sabemos por acórdão da Relação que toda a investigação posterior a 15 de Março não tem sustentação legal. Que a fase do inquérito cessou a 18 de Outubro. Que passou um ano sem que tivesse sido deduzida acusação. Tudo isto é extraordinário, mas ainda mais extravagante é o que se relaciona com o grupo Lena. O antigo PM demonstrou que, durante o seu mandato (2005-11), o grupo Lena fez parte dos consórcios vencedores de 2 dos 21 concursos das PPM. Dois em vinte e um. Sempre em posição minoritária: 7% do capital num caso, 16% no outro. O MP investigou os contratos? Não. Falou com os responsáveis? Não. Os media difundem, está feito. Abracadabrante, chamou Sócrates a este tipo de procedimento.

Muito mais haveria a dizer, mas isto chega.

No debate que se seguiu à entrevista, três advogados (Magalhães e Silva, Paulo Sá e Cunha e um terceiro cujo nome não me ocorre) reconheceram os vários atropelos do processo, reconhecendo que não existem fundamentos credíveis para justificar a prisão preventiva de Sócrates.

Logo à noite há mais.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

FRANÇA 2015


Este é o mapa da França que saiu das eleições regionais. Le Pen foi derrotada, mas a Frente Nacional obteve mais meio milhão de votos do que na 1.ª volta. Tem agora 6,5 milhões de votantes, um número inquietante. Para esse resultado terá contribuído a queda da abstenção, que passou de 50,9% (no dia 6) para os 40,7% de ontem.

Os Republicanos venceram com 40,5% dos votos expressos. O partido de Sarkozy domina agora sete regiões metropolitanas (Paca, Nord Pas-de-Calais-Picardie, Grand Est, Rhône-Alpes, Pays de la Loire, Normandie, Ile-de-France) e uma ultramarina (Reunião). O Partido Socialista domina cinco: Aquitaine-Poitou-Charente-Limousin, Bretagne, Midi-Pyrénées, Bourgogne-Franche-Comté, Centre. Três regiões do Ultramar foram ganhas pelos Independentes de Esquerda: Guadalupe, Guiana e Martinica. Na Córsega venceu um partido da região.

Convém não esquecer que a derrota pessoal de Marine Le Pen (Nord-Pas-de-Calais-Picardie) e da sobrinha Marion-Maréchal Le Pen (Provence-Alpes-Côte d'Azur) fica a dever-se à desistência do PS nessas duas regiões. Hollande foi muito criticado por ter imposto as desistências, mas o resultado está à vista.

O mapa é do Libération. Clique.

sábado, 12 de dezembro de 2015

INDEX ANGOLANO


A Tinta da China já deu à estampa a tradução portuguesa do livro que levou à prisão, em Luanda, de dezassete activistas pró-democracia. Como diz a cinta, uma obra perigosa em ditaduras. Clique na imagem.