Morreu hoje o filósofo francês André Glucksmann, nascido no seio de uma família judaica, autor de uma obra controversa iniciada em 1966, a qual evoluiu do maoísmo para o neo-conservadorismo. A ruptura com a Esquerda deu-se em 1975, quando publicou La Cuisinière et le Mangeur d’Hommes. Réflexions sur l’État, le Marxisme et les Camps de Concentration. Guy Hocquenghem foi um dos seus mais acérrimos detractores. Foram muitas as polémicas em que se envolveu, em temas tão diversos como o Vietname, o Maio de 68, a pedofilia, as intervenções da NATO nos Balcãs, a defesa de Israel e do Tibete, a energia nuclear, etc. Tinha 78 anos.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
GOVERNO CHUMBADO
Eram 17:17 quando Ferro Rodrigues, Presidente da Assembleia da República, confirmou a queda do XX Governo Constitucional, rejeitado por uma moção do PS aprovada por 123 deputados do PS, BE, PCP, PEV e PAN.
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17:30
O 10 DE NOVEMBRO
Aqui chegados, creio que toda a gente já percebeu a importância de ter apeado António José Seguro. Se fosse vivo, Cunhal faria hoje 102 anos. Clique nas imagens.
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15:00
NOS 40 ANOS DA DESCOLONIZAÇÃO
Ontem, no Diário de Notícias, Fernanda Câncio publicou dois textos sobre os 40 anos da Descolonização. No primeiro, cita conversas tidas comigo, com Isabela Figueiredo, Dulce Maria Cardoso e Vanessa Rato. No segundo, faz o mesmo com Inês Gomes, autora da série Depois do Adeus, e Elsa Peralta, curadora da exposição Retornar.
Como a Fernanda facultou um desses textos no FB, já apareceu uma criatura a manifestar irritação («Confesso que estes relatos por muito criticos que sejam, irritam-me») e a citar, em inglês, um cidadão do Gana. Não sei nem me interessa saber que partes dos relatos provocaram azia. Da longa conversa que tive com a Fernanda, respigo um brevíssimo excerto:
«A ponte aérea fez-se para Angola, as pessoas em Moçambique foram deixadas à sua sorte, tiveram de fugir pelos seus meios, daí muitas terem ido para a África do Sul, porque era ao lado. [Mas] das coisas muito duras ninguém fala. Porque é despertar os demónios e reabrir as feridas. [Coisas como] os campos de reeducação para brancos que se fizeram em Moçambique, as pessoas que morreram, se suicidaram, ficaram doidas.»
Era aqui que eu queria chegar. E como essa realidade é desconhecida da maioria dos portugueses, vou citar uma passagem do meu livro de memórias:
«Graça Machel reconheceria mais tarde, quando era já senhora Mandela, que a intimidação dos portugueses tinha sido um acto deliberado para nos afastar de vez. Isso explica as prisões em massa efectuadas na noite de 30 de Outubro de 1975. Nesse dia, a partir das dez da noite, foram presas todas as pessoas não identificadas encontradas na rua, em transportes públicos, cinemas, cafés, bares, restaurantes e clubes nocturnos (e só na Rua Araújo havia meia dúzia). Eu fazia parte dos que não tinham consigo o bilhete de identidade. Fui preso junto ao Hotel Clube, o belo edifício de 1898 onde hoje funciona o Centro Cultural Francês. Ia a caminho de casa com o Jorge quando fui interpelado por uma patrulha. Levaram-me para o campo de treino de cães da polícia, perto do zoo, onde permaneci durante catorze horas. (E só esse tempo porque minha mãe bateu às portas certas.) Eu e milhares como eu. Por estar documentado, o Jorge foi deixado em paz. Avisou minha mãe e ambos passaram a noite a tentar resolver a situação. Enquanto estive sob custódia, pude observar a seguinte triagem: um indivíduo branco mandava separar os rapazes de cabelo comprido e as raparigas de saia curta. Não sei o que lhes aconteceu ou o que poderia ter-me acontecido. Era inútil contar com a protecção da Embaixada de Portugal. O primeiro embaixador português a seguir à independência era um indivíduo preocupado em agradar à Frelimo. [...] Desde 1963, ainda no tempo de Eduardo Mondlane, a Frelimo mantinha na Tanzânia os denominados campos de reeducação. Os mais conhecidos eram os de Nachingwea e Bagamoyo. No Niassa, em Moçambique, ficava o de Mitelela. Para esses campos foram enviados dezenas de milhares de indivíduos. Por esta ordem: negros, mestiços, brancos e indianos. A comunidade chinesa não foi incomodada. Dois terços dos detidos enlouqueceram, morreram de fome ou foram executados. O terço que sobrou ficou reduzido a zombies que mendigam pelas ruas de Maputo, Nampula e outras cidades. Vim a saber que um vizinho, um miúdo que não teria ainda 20 anos, foi abatido ao tentar fugir do campo onde estava. O pico das purgas deu-se entre 1975 e 1990, época em que o totalitarismo teve rédea solta e ninguém piou.» — cf pp 28-31 de Um Rapaz a Arder, memórias 1975-2001, Quetzal, 2013.
Se isto irrita o maralhal, paciência.
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10:00
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
NADA SERÁ COMO DANTES
Ontem fez-se História. Doravante, o 8 de Novembro de 2015 poderá ficar marcado como o dia em que a Esquerda portuguesa percebeu o óbvio: prejudica o país defender idiossincrasias particulares em detrimento de um denominador comum. Passados 40 anos sobre o 25 de Novembro, o PS assume o compromisso de governar com o apoio parlamentar do BE, do PCP e dos Verdes. Em 4 de Outubro, os portugueses elegeram deputados, cabendo portanto ao Parlamento decidir quem deve governar.
O nó górdio foi desatado pelo PCP, quando, ao início da noite, Jerónimo de Sousa transmitiu a decisão unânime do Comité Central: «Nada obsta à formação de um Governo de iniciativa do PS que assegure uma solução duradoura na perspectiva da legislatura.» Estando na sala quem não soubesse o que é uma legislatura, o líder comunista precisou: «Como não houve revisão constitucional, uma legislatura são quatro anos.» Claro como água.
Duas horas mais tarde, o PS reuniu a sua Comissão Política, a que se juntaram deputados e eurodeputados. O partido decidiu formalizar uma aliança parlamentar com o BE, o PCP e os Verdes, e apresentar uma moção de rejeição ao programa de Governo que hoje começa a ser discutido no Parlamento. A proposta de António Costa foi aprovada por 69 votos a favor e cinco contra, sem abstenções. (No sábado, a Comissão Nacional havia mandatado Costa com 163 votos a favor, sete contra e duas abstenções.) O secretário-geral do PS está portanto em condições de derrubar Passos Coelho e apresentar uma alternativa ao Presidente da República.
A contestação da ala direitista esvaziou. Francisco Assis foi claro: «Desejei boa sorte a António Costa, que vai ser primeiro-ministro e, obviamente, não vou fazer mais nenhuma consideração, porque o caso está internamente resolvido. A minha posição é conhecida, o partido vai seguir por outro caminho, mas tenho de respeitar as decisões tomadas democraticamente.»
Tudo indica que o XX Governo Constitucional seja rejeitado amanhã. Cavaco, Passos & Portas devem ter presente que foi a intolerância dos últimos quatro anos que levou a este desfecho. Aconteça o que acontecer, nada será como dantes.
A imagem é de José Caria, para o Expresso.
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08:00
domingo, 8 de novembro de 2015
40 ANOS
Cheguei a Portugal faz hoje 40 anos. Transcrevo do meu livro de memórias:
Deixei Moçambique no dia 8 de Novembro de 1975. Tinha 26 anos. Nesse sábado, em Lisboa, o Governo mandou dinamitar os emissores da Rádio Renascença, controlada pela extrema-esquerda. — Um Rapaz a Arder, memórias 1975-2001, Quetzal, 2013.
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17:00
sábado, 7 de novembro de 2015
PANCHO MIRANDA GUEDES 1925-2015
Morreu o Pancho. A notícia, seca, chegou depois do jantar. Pancho, como era conhecido o arquitecto Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes, nasceu em Lisboa mas viveu em Moçambique desde criança: ainda não tinha 7 anos quando chegou a Lourenço Marques. Formou-se em arquitectura na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, mas o Estado Novo obrigou-o a vir a Portugal homologar a licenciatura. Viveu na capital de Moçambique entre 1932 e 1975, ano em que representou Moçambique na Bienal de Veneza. São de sua autoria algumas das obras mais emblemáticas de Lourenço Marques, como acontece com os edifícios de habitação Dragão (1951), Prometheus (1951), Leão Que Ri (1956), Tonelli (1958), Simões Ferreira (1962), Parque (1974) e outros, os edifícios de escritórios Mann George (1952), Abreu (1953), Spencer & Lemos (1953) e Octavio Lobo (1967), os últimos três formando gaveto na Praça Mac Mahon, as casas Matos Ribeiro (1952), Gonzaga Gomes (1955) e outras, a Fábrica de Pão Saipal (1954), o mítico restaurante Zambi (1954), o Colégio dos Irmãos Maristas (1955), o Cinema Infante (1963), o Convento de São José de Lhanguene (1967), a Escola de Enfermagem do Hospital Miguel Bombarda (1969), a Igreja Anglicana de São Cipriano do Chamanculo (1970), mas também obras fora da cidade, como por exemplo o Instituto Agrário de Boane, concluído em 1975. A minha geração passou noites homéricas no bar do Hotel Polana, que ele “reinventou” no fim dos anos 1950, sem beliscar a patine do hotel que Hugh Le May construiu em 1921. Foi com ele que aprendi a olhar para a paisagem urbana. Além de arquitecto foi escultor e pintor, estando representado em museus um pouco por toda a parte. Viveu na África do Sul nos últimos 40 anos, com um breve intervalo (1996-97) em Lisboa. Na zona de Colares (Sintra) fica o Casal dos Olhos, por todos conhecido como “a casa de Pancho Guedes na Eugaria”. A partir dos anos 1980, retrospectivas da sua obra foram apresentadas em Joanesburgo, Londres, São Paulo, Maputo e Lisboa. Leccionou na Witts (Joanesburgo) e, por breves períodos, em Los Angeles, Haifa e Lisboa. A sua morte é uma perda para a Cultura portuguesa. Tinha 90 anos.
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23:32
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
DISCURSO DIRECTO, 28
Fernanda Câncio, hoje no Diário de Notícias. Excerto, sublinhado meu:
«[...] E reencontrei em mim, como nas pessoas à minha volta, a capacidade da esperança. Envergonhada, medrosa, a disfarçar (é muito mais sofisticado e seguro ser cínico), mas esperança. Pessoas crescidas com sorrisos tontos, infantis, comovidos, a darem-se licença de acreditar, a darem-se licença de entusiasmo. [...] Pior que desenganar a esperança (que, reconheça-se, será muito mau e muito triste) é avançar sem um acordo seguro, assinado, ajuramentado; um acordo que não se desfaça ao primeiro problema, ao primeiro safanão da realidade, ao primeiro dilema governativo. Um acordo em que se possa confiar. Lembrem-se: esperámos tanto por isto que nos esquecemos de esperar. Não nos desiludam — mais uma vez.»
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09:50
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
DANA SPIOTTA
Hoje na Sábado escrevo sobre Stone Arabia. As Crónicas Secretas de Nik Worth, da norte-americana Dana Spiotta (n. 1966), autora que faz parte do grupo de autores “novos” com boa imprensa. Stone Arabia é terceiro dos quatro livros que publicou, e foi finalista do prémio do National Book Critics Circle em 2012. Não acontece com todos. É natural a curiosidade em torno da obra de alguém que os portugueses conhecem desde a publicação de Destruir a Prova. Spiotta escreve sobre a contemporaneidade urbana: música pop, sexo, individualismo, guerra, fanzines, tudo num registo absolutamente cool. O tom seco e ágil respeita à melhor tradição das escolas de escrita criativa. Para quem não sabe, Stone Arabia é o nome de uma comunidade amish do Estado de Nova Iorque. O livro gira em torno do universo das bandas de rock de garagem, porque Nik Worth, um personagem de ficção inspirado na vida do padrasto da autora, foi «uma estrela secreta do rock». Nik compôs canções enquanto a saúde permitiu. Agora já nem guitarra consegue tocar. Sucessivos flashbacks ajudam a perceber o seu percurso. Factos reais sinalizam a acção. Fala-se das fotos encenadas pelos soldados americanos na prisão iraquiana de Abu Ghraib, bem como de Daniel Pearl, o jornalista do Wall Street Journal sequestrado no Paquistão e assassinado pela Al-Qaeda. Três estrelas.
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11:31
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
DISCURSO DIRECTO, 27
Pedro Nuno Santos, em entrevista ao Público, hoje. Excerto:
«Esta é a questão mais importante de todas: percebermos finalmente que elegemos um Parlamento e que os Governos emanam das maiorias criadas no Parlamento.»
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14:44
O MANTRA
Deputados, governantes, jornalistas e comentadores da Direita insistem na tese de que Costa estaria a defraudar as expectativas do eleitorado PS. E repetem o mantra: Se as pessoas soubessem que haveria acordo com o PCP e o Bloco teriam votado de outra forma. Ora, desde que foi eleito secretário-geral do PS, Costa não fez outra coisa senão demarcar-se enfaticamente de qualquer hipótese de Bloco Central. Isso o distinguia de Seguro e tropa fandanga. Foi mesmo o único item claro das campanhas: a das Directas, em Setembro do ano passado, e a das últimas Legislativas. Fosse tudo assim tão claro e não teria havido fuga de votos do PS para o BE (o que não impediu o PS de aumentar de 74 para 86 o número de deputados), como muitos de nós sabem que houve, bastando para tanto lembrar discussões e conversas tidas com familiares, amigos, colegas, vizinhos, etc. Portanto, uma larga fatia do eleitorado PS queria uma solução à esquerda capaz de pôr termo ao consulado de Passos & Portas. A ver vamos se a Esquerda está à altura do desafio.
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12:20
PONTO DA SITUAÇÃO?
O Diário de Notícias (ver imagem) diz que haverá dois acordos autónomos: PS+BE e PS+PCP. As linhas gerais serão comuns. Entretanto, o Jornal de Negócios garante que estão fechados os principais temas, os quais seriam:
1 — A TSU desce mesmo, mas só para salários até 600 euros. A redução será feita em três anos, uma descida de 1, 3% por ano, e apenas para trabalhadores. Exemplo: em 2016, a TSU baixa de 11% para 9, 7%. Válido apenas para salários até 600 euros. Em 2019 volta a ser como é hoje. Contudo, a descida transitória da TSU não afectará as pensões futuras.
2 — Os salários dos funcionários públicos são repostos já em 2016, ao ritmo de 25% por trimestre.
3 — Actualização em 0,3% das pensões inferiores a 628 euros.
4 — Eliminação da sobretaxa de IRS. Metade em 2016, a outra metade em 2017.
5 — Criação em sede de IRS de um complemento salarial para trabalhadores pobres.
6 — Menos isenções no IRC (empresas), mais imposto sobre dividendos.
7 — O IVA da restauração baixa para 13%.
Só não sei o que é um «trabalhador pobre». É o que ganha 300 euros por mês, ou o que ganha 1.500 mas tem dois filhos adolescentes, mulher desempregada, pai ou mãe internado num lar, e encargos mensais fixos de 1.200 euros?
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10:55
RETORNAR AO PADRÃO
Comissariada por Elsa Peralta, abre hoje na Galeria Avenida da Índia, em Lisboa, a exposição Retornar. Traços da Memória. Junto ao Padrão dos Descobrimentos poderá ver-se uma instalação do atelier Silva Designers, criada a partir de uma fotografia de contentores tirada por Alfredo Cunha em 1975. Era o tempo da ponte aérea de Angola. Sob um fundo de vozes, doze retratos anónimos de Bruno Simões Castanheira sinalizam o regresso de meio milhão de retornados. Ainda no campo das memórias fotográficas, Joana Gonçalo Oliveira montou em 56 molduras um total de seiscentas fotografias de álbuns de família.
Em paralelo haverá debates com Adriano Moreira, António Pinto Ribeiro, Eduardo Lourenço e Maria Filomena Molder. Mas também, já no próximo dia 21, no Padrão, uma performance teatral de Joana Craveiro, Um Museu Vivo de Memórias Pequenas Esquecidas. E, em Janeiro, no Teatro São Luiz, um espectáculo de André Amálio encenado a partir de memórias de colonos. A exposição é organizada pela EGEAC e estará aberta ao público até 29 de Fevereiro de 2016.
Em paralelo haverá debates com Adriano Moreira, António Pinto Ribeiro, Eduardo Lourenço e Maria Filomena Molder. Mas também, já no próximo dia 21, no Padrão, uma performance teatral de Joana Craveiro, Um Museu Vivo de Memórias Pequenas Esquecidas. E, em Janeiro, no Teatro São Luiz, um espectáculo de André Amálio encenado a partir de memórias de colonos. A exposição é organizada pela EGEAC e estará aberta ao público até 29 de Fevereiro de 2016.
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09:30
terça-feira, 3 de novembro de 2015
DISCURSO DIRECTO, 26
José Vítor Malheiros, hoje no Público. Excerto do artigo Nove razões por que será bom ter um Governo de esquerda.
«A sétima razão é porque teremos um Governo que não confunde o Estado social com a sopa dos pobres — como a pobre, pobre Isabel Jonet — e que sabe que o Estado social é de todos para todos porque só assim se garante a justiça e a equidade e só assim se garante a qualidade e a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, da Segurança Social, dos programas sociais.»
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11:31
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
DESATINO
O senhor Proença esteve meio século na UGT. E agora é um dos promotores do circuito da carne assada que Assis (o Francisco) realizará a partir do próximo fim-de-semana, porque, diz o senhor Proença, é preciso explicar ao eleitorado que o secretário-geral do PS está a promover entendimentos à Esquerda à revelia do partido. Escandalizado, o senhor Proença afirma que Costa nunca realmente pretendeu «um acordo com a coligação». Mas isso não era óbvio desde as directas de Setembro de 2014? Em que mundo vive o senhor Proença?
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10:00
domingo, 1 de novembro de 2015
JOSÉ FONSECA E COSTA 1933-2015
Vítima de pneumonia, morreu hoje o realizador José Fonseca e Costa autor de tantos filmes que mudaram o cinema português: O Recado (1970), Os Demónios de Alcácer-Kibir (1975), Kilas, o Mau da Fita (1981), Sem Sombra de Pecado (1982), Balada da Praia dos Cães (1985), Cinco Dias, Cinco Noites (1995), a partir da obra homónima de Cunhal, e O Fascínio (2003), são alguns exemplos. Por concluir ficou Axilas, o derradeiro filme, feito a partir de um conto do brasileiro Rubem Fonseca.
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16:16
CHUTZPAH
Entre 22 de Outubro, data em que indigitou Passos Coelho, e anteontem, data em que empossou o primeiro-ministro, o Presidente da República engoliu vários sapos. Não foi ele que mudou. A mão que escreveu o discurso de 30 de Outubro não pôde ignorar o eco internacional da catilinária com que pretendeu ilegalizar três partidos com representação parlamentar (BE, PCP, PEV), subtraindo direitos de cidadania a um milhão de eleitores. Não foi um eco qualquer. Bastar ler o Wall Street Journal, a Forbes, o New York Times, La Tribune, o Huffington Post, o Telegraph ou mesmo o conservador Tagesspiegel, coincidindo todos na tese da usurpação de poder ou, na fórmula de Jacques Sapir, “golpe de Estado silencioso”, para termos a noção de como a imprensa de referência leu Cavaco Silva. Isso levou ao discurso soft de anteontem. Tão simples como isto.
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10:05
A VER VAMOS
«E as mais baixas terão mesmo um aumento real», garante a porta-voz do Bloco de Esquerda. Entretanto, no PS, há mudanças: o deputado Porfírio Silva assumiu a coordenação das relações internacionais (o pelouro foi até agora ocupado por Sérgio Sousa Pinto), enquanto o deputado João Galamba passa a ser o novo responsável pela comunicação.
A imagem é do Diário de Notícias. Clique.
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09:00
DISCURSO DIRECTO, 25
José Pacheco Pereira, ontem no Público. Excertos, sublinhados meus:
«A esquerda portuguesa prepara-se para um casamento, ou, se se quiser, para uma união de facto. Terá os seus votos de noivado no momento em que derrubar o Governo PSD-CDS e casará no dia em que um Governo do PS, com participação ou apoio do BE e do PCP, for empossado pelo Presidente e vir o seu programa aprovado pela Assembleia. O casamento poderá ter muitas fórmulas [...] mas, seja qual for a fórmula, vão selar o seu destino. [...]
É um casamento de alto risco e tem muita coisa que o pode levar a correr mal. Mas há uma coisa que os esposos devem ter clara na sua cabeça, escrita em letras de fogo, tatuada nas mãos e nos braços, para que estejam sempre a ver, é que o divórcio será muito mais gravoso e penoso.
Há várias coisas de que todos os que abraçam esta solução de um Governo de esquerda devem saber, uma das quais é que nada contribuirá mais a favor da legitimidade da solução encontrada do que se cumprir a legislatura inteira. E, se há coisa que este Governo precisa é de um acrescento de legitimidade política, visto que legitimidade formal, tem-na. E isso só vem de governar razoavelmente, onde o óptimo é inimigo do bom, e se o fizer com durabilidade, provocará um ponto sem retorno na vida política portuguesa. Até lá, as fragilidades serão enormes e exigem de quem é parte desta solução que se atenha ao essencial, sem hesitações.
Se o esquecerem, garantem para muitas décadas que a direita governe Portugal, não de forma amável e delicodoce [...] mas de forma vingativa e agressiva. A direita que se vai levantar das cinzas de um Governo de esquerda, caia ele pelo PS, pelo BE ou pelo PCP, falará a mesma linguagem que hoje usam Nuno Melo, Paulo Rangel e os articulistas do Observador. E, por trás dela, em formação regular e militar, estarão os anónimos comentadores, genuínos e avençados, que pululam nas redes sociais, que espumam de fúria e falam numa linguagem que torna o pior do PREC num conjunto de amabilidades. Estes anos de crise do “ajustamento” alimentaram todos os monstros e deram-lhes uma sustentação em fortes interesses, que eles sabem muito bem quanto é perigoso o que se está a passar para a hegemonia assente no autoritarismo do “não há alternativa”. De um lado sabe-se, espero que do outro também se saiba.
[...] É por isso que é vital compreender que esta alternativa exige uma enorme firmeza e capacidade de separar o essencial do secundário. Não se está a jogar a feijões, isto é tudo muito a sério, demasiado a sério, para ser apenas um devaneio ideológico e experimental de homenzinhos e mulherzinhas, mas é para homens e mulheres a sério. Ou então mais vale irem para a casa medíocre do Portugal submisso onde as hierarquias do poder e do dinheiro fazem o que querem, para além da lei e da ética.
Portanto, se entram numa solução deste tipo, têm que dar, neste caso ao PS, alguma margem de manobra para fazer o equilibrismo financeiro que é necessário para cumprir, sem qualquer zelo, o Tratado Orçamental, antes de haver alguma negociação que o modere. Isto exige compreender que não é a mesma coisa ser um Governo PS a fazê-lo nestas circunstâncias graves do que ser um Governo da coligação PSD-CDS. Nem para o bem, nem para o mal. Quando os salários e as pensões forem recuperados, como aliás a coligação também disse que ia fazer, para quem vê o que recebe no fim do mês aumentar, faz toda a diferença saber se isso vem de um Governo de esquerda, que lhe dirá que o faz porque isso é a reposição de um direito que foi sonegado, e que é bom para economia, ou da coligação PSD-CDS, que lhe dirá (se o fizer) que isso se deve à justeza da sua política económica e quererá dessa eventual devolução justificar outros cortes de salários ou pensões e, mais grave ainda, o corte de direitos económicos, sociais e políticos, para prosseguir a mesma política de desigualdade social. Insisto, faz toda a diferença e as pessoas sabem isso. [...]
Se houver uma recuperação da dinâmica da classe média, destruída e radicalizada nestes últimos anos, um afastamento e uma mitigação do poder do PPE, que é aquilo a que hoje chamamos “Europa” (e isso faz com que a experiência portuguesa seja decisiva para as eleições espanholas ainda em 2015), um efeito de moderação, pela experiência de governação, de partidos como o BE e o PCP, uma melhoria das condições de vida dos portugueses e um retomar da sua dignidade, um repor dos equilíbrios no mundo laboral, uma diminuição da radicalização inscrita na sociedade pelo aumento das desigualdades, o extremismo da direita pode ficar acantonado e perder força. Vamos ver.»
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Eduardo Pitta
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08:00
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