Morreu o Pancho. A notícia, seca, chegou depois do jantar. Pancho, como era conhecido o arquitecto Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes, nasceu em Lisboa mas viveu em Moçambique desde criança: ainda não tinha 7 anos quando chegou a Lourenço Marques. Formou-se em arquitectura na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, mas o Estado Novo obrigou-o a vir a Portugal homologar a licenciatura. Viveu na capital de Moçambique entre 1932 e 1975, ano em que representou Moçambique na Bienal de Veneza. São de sua autoria algumas das obras mais emblemáticas de Lourenço Marques, como acontece com os edifícios de habitação Dragão (1951), Prometheus (1951), Leão Que Ri (1956), Tonelli (1958), Simões Ferreira (1962), Parque (1974) e outros, os edifícios de escritórios Mann George (1952), Abreu (1953), Spencer & Lemos (1953) e Octavio Lobo (1967), os últimos três formando gaveto na Praça Mac Mahon, as casas Matos Ribeiro (1952), Gonzaga Gomes (1955) e outras, a Fábrica de Pão Saipal (1954), o mítico restaurante Zambi (1954), o Colégio dos Irmãos Maristas (1955), o Cinema Infante (1963), o Convento de São José de Lhanguene (1967), a Escola de Enfermagem do Hospital Miguel Bombarda (1969), a Igreja Anglicana de São Cipriano do Chamanculo (1970), mas também obras fora da cidade, como por exemplo o Instituto Agrário de Boane, concluído em 1975. A minha geração passou noites homéricas no bar do Hotel Polana, que ele “reinventou” no fim dos anos 1950, sem beliscar a patine do hotel que Hugh Le May construiu em 1921. Foi com ele que aprendi a olhar para a paisagem urbana. Além de arquitecto foi escultor e pintor, estando representado em museus um pouco por toda a parte. Viveu na África do Sul nos últimos 40 anos, com um breve intervalo (1996-97) em Lisboa. Na zona de Colares (Sintra) fica o Casal dos Olhos, por todos conhecido como “a casa de Pancho Guedes na Eugaria”. A partir dos anos 1980, retrospectivas da sua obra foram apresentadas em Joanesburgo, Londres, São Paulo, Maputo e Lisboa. Leccionou na Witts (Joanesburgo) e, por breves períodos, em Los Angeles, Haifa e Lisboa. A sua morte é uma perda para a Cultura portuguesa. Tinha 90 anos.
sábado, 7 de novembro de 2015
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
DISCURSO DIRECTO, 28
Fernanda Câncio, hoje no Diário de Notícias. Excerto, sublinhado meu:
«[...] E reencontrei em mim, como nas pessoas à minha volta, a capacidade da esperança. Envergonhada, medrosa, a disfarçar (é muito mais sofisticado e seguro ser cínico), mas esperança. Pessoas crescidas com sorrisos tontos, infantis, comovidos, a darem-se licença de acreditar, a darem-se licença de entusiasmo. [...] Pior que desenganar a esperança (que, reconheça-se, será muito mau e muito triste) é avançar sem um acordo seguro, assinado, ajuramentado; um acordo que não se desfaça ao primeiro problema, ao primeiro safanão da realidade, ao primeiro dilema governativo. Um acordo em que se possa confiar. Lembrem-se: esperámos tanto por isto que nos esquecemos de esperar. Não nos desiludam — mais uma vez.»
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09:50
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
DANA SPIOTTA
Hoje na Sábado escrevo sobre Stone Arabia. As Crónicas Secretas de Nik Worth, da norte-americana Dana Spiotta (n. 1966), autora que faz parte do grupo de autores “novos” com boa imprensa. Stone Arabia é terceiro dos quatro livros que publicou, e foi finalista do prémio do National Book Critics Circle em 2012. Não acontece com todos. É natural a curiosidade em torno da obra de alguém que os portugueses conhecem desde a publicação de Destruir a Prova. Spiotta escreve sobre a contemporaneidade urbana: música pop, sexo, individualismo, guerra, fanzines, tudo num registo absolutamente cool. O tom seco e ágil respeita à melhor tradição das escolas de escrita criativa. Para quem não sabe, Stone Arabia é o nome de uma comunidade amish do Estado de Nova Iorque. O livro gira em torno do universo das bandas de rock de garagem, porque Nik Worth, um personagem de ficção inspirado na vida do padrasto da autora, foi «uma estrela secreta do rock». Nik compôs canções enquanto a saúde permitiu. Agora já nem guitarra consegue tocar. Sucessivos flashbacks ajudam a perceber o seu percurso. Factos reais sinalizam a acção. Fala-se das fotos encenadas pelos soldados americanos na prisão iraquiana de Abu Ghraib, bem como de Daniel Pearl, o jornalista do Wall Street Journal sequestrado no Paquistão e assassinado pela Al-Qaeda. Três estrelas.
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11:31
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
DISCURSO DIRECTO, 27
Pedro Nuno Santos, em entrevista ao Público, hoje. Excerto:
«Esta é a questão mais importante de todas: percebermos finalmente que elegemos um Parlamento e que os Governos emanam das maiorias criadas no Parlamento.»
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14:44
O MANTRA
Deputados, governantes, jornalistas e comentadores da Direita insistem na tese de que Costa estaria a defraudar as expectativas do eleitorado PS. E repetem o mantra: Se as pessoas soubessem que haveria acordo com o PCP e o Bloco teriam votado de outra forma. Ora, desde que foi eleito secretário-geral do PS, Costa não fez outra coisa senão demarcar-se enfaticamente de qualquer hipótese de Bloco Central. Isso o distinguia de Seguro e tropa fandanga. Foi mesmo o único item claro das campanhas: a das Directas, em Setembro do ano passado, e a das últimas Legislativas. Fosse tudo assim tão claro e não teria havido fuga de votos do PS para o BE (o que não impediu o PS de aumentar de 74 para 86 o número de deputados), como muitos de nós sabem que houve, bastando para tanto lembrar discussões e conversas tidas com familiares, amigos, colegas, vizinhos, etc. Portanto, uma larga fatia do eleitorado PS queria uma solução à esquerda capaz de pôr termo ao consulado de Passos & Portas. A ver vamos se a Esquerda está à altura do desafio.
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12:20
PONTO DA SITUAÇÃO?
O Diário de Notícias (ver imagem) diz que haverá dois acordos autónomos: PS+BE e PS+PCP. As linhas gerais serão comuns. Entretanto, o Jornal de Negócios garante que estão fechados os principais temas, os quais seriam:
1 — A TSU desce mesmo, mas só para salários até 600 euros. A redução será feita em três anos, uma descida de 1, 3% por ano, e apenas para trabalhadores. Exemplo: em 2016, a TSU baixa de 11% para 9, 7%. Válido apenas para salários até 600 euros. Em 2019 volta a ser como é hoje. Contudo, a descida transitória da TSU não afectará as pensões futuras.
2 — Os salários dos funcionários públicos são repostos já em 2016, ao ritmo de 25% por trimestre.
3 — Actualização em 0,3% das pensões inferiores a 628 euros.
4 — Eliminação da sobretaxa de IRS. Metade em 2016, a outra metade em 2017.
5 — Criação em sede de IRS de um complemento salarial para trabalhadores pobres.
6 — Menos isenções no IRC (empresas), mais imposto sobre dividendos.
7 — O IVA da restauração baixa para 13%.
Só não sei o que é um «trabalhador pobre». É o que ganha 300 euros por mês, ou o que ganha 1.500 mas tem dois filhos adolescentes, mulher desempregada, pai ou mãe internado num lar, e encargos mensais fixos de 1.200 euros?
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10:55
RETORNAR AO PADRÃO
Comissariada por Elsa Peralta, abre hoje na Galeria Avenida da Índia, em Lisboa, a exposição Retornar. Traços da Memória. Junto ao Padrão dos Descobrimentos poderá ver-se uma instalação do atelier Silva Designers, criada a partir de uma fotografia de contentores tirada por Alfredo Cunha em 1975. Era o tempo da ponte aérea de Angola. Sob um fundo de vozes, doze retratos anónimos de Bruno Simões Castanheira sinalizam o regresso de meio milhão de retornados. Ainda no campo das memórias fotográficas, Joana Gonçalo Oliveira montou em 56 molduras um total de seiscentas fotografias de álbuns de família.
Em paralelo haverá debates com Adriano Moreira, António Pinto Ribeiro, Eduardo Lourenço e Maria Filomena Molder. Mas também, já no próximo dia 21, no Padrão, uma performance teatral de Joana Craveiro, Um Museu Vivo de Memórias Pequenas Esquecidas. E, em Janeiro, no Teatro São Luiz, um espectáculo de André Amálio encenado a partir de memórias de colonos. A exposição é organizada pela EGEAC e estará aberta ao público até 29 de Fevereiro de 2016.
Em paralelo haverá debates com Adriano Moreira, António Pinto Ribeiro, Eduardo Lourenço e Maria Filomena Molder. Mas também, já no próximo dia 21, no Padrão, uma performance teatral de Joana Craveiro, Um Museu Vivo de Memórias Pequenas Esquecidas. E, em Janeiro, no Teatro São Luiz, um espectáculo de André Amálio encenado a partir de memórias de colonos. A exposição é organizada pela EGEAC e estará aberta ao público até 29 de Fevereiro de 2016.
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09:30
terça-feira, 3 de novembro de 2015
DISCURSO DIRECTO, 26
José Vítor Malheiros, hoje no Público. Excerto do artigo Nove razões por que será bom ter um Governo de esquerda.
«A sétima razão é porque teremos um Governo que não confunde o Estado social com a sopa dos pobres — como a pobre, pobre Isabel Jonet — e que sabe que o Estado social é de todos para todos porque só assim se garante a justiça e a equidade e só assim se garante a qualidade e a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, da Segurança Social, dos programas sociais.»
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11:31
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
DESATINO
O senhor Proença esteve meio século na UGT. E agora é um dos promotores do circuito da carne assada que Assis (o Francisco) realizará a partir do próximo fim-de-semana, porque, diz o senhor Proença, é preciso explicar ao eleitorado que o secretário-geral do PS está a promover entendimentos à Esquerda à revelia do partido. Escandalizado, o senhor Proença afirma que Costa nunca realmente pretendeu «um acordo com a coligação». Mas isso não era óbvio desde as directas de Setembro de 2014? Em que mundo vive o senhor Proença?
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10:00
domingo, 1 de novembro de 2015
JOSÉ FONSECA E COSTA 1933-2015
Vítima de pneumonia, morreu hoje o realizador José Fonseca e Costa autor de tantos filmes que mudaram o cinema português: O Recado (1970), Os Demónios de Alcácer-Kibir (1975), Kilas, o Mau da Fita (1981), Sem Sombra de Pecado (1982), Balada da Praia dos Cães (1985), Cinco Dias, Cinco Noites (1995), a partir da obra homónima de Cunhal, e O Fascínio (2003), são alguns exemplos. Por concluir ficou Axilas, o derradeiro filme, feito a partir de um conto do brasileiro Rubem Fonseca.
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16:16
CHUTZPAH
Entre 22 de Outubro, data em que indigitou Passos Coelho, e anteontem, data em que empossou o primeiro-ministro, o Presidente da República engoliu vários sapos. Não foi ele que mudou. A mão que escreveu o discurso de 30 de Outubro não pôde ignorar o eco internacional da catilinária com que pretendeu ilegalizar três partidos com representação parlamentar (BE, PCP, PEV), subtraindo direitos de cidadania a um milhão de eleitores. Não foi um eco qualquer. Bastar ler o Wall Street Journal, a Forbes, o New York Times, La Tribune, o Huffington Post, o Telegraph ou mesmo o conservador Tagesspiegel, coincidindo todos na tese da usurpação de poder ou, na fórmula de Jacques Sapir, “golpe de Estado silencioso”, para termos a noção de como a imprensa de referência leu Cavaco Silva. Isso levou ao discurso soft de anteontem. Tão simples como isto.
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10:05
A VER VAMOS
«E as mais baixas terão mesmo um aumento real», garante a porta-voz do Bloco de Esquerda. Entretanto, no PS, há mudanças: o deputado Porfírio Silva assumiu a coordenação das relações internacionais (o pelouro foi até agora ocupado por Sérgio Sousa Pinto), enquanto o deputado João Galamba passa a ser o novo responsável pela comunicação.
A imagem é do Diário de Notícias. Clique.
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09:00
DISCURSO DIRECTO, 25
José Pacheco Pereira, ontem no Público. Excertos, sublinhados meus:
«A esquerda portuguesa prepara-se para um casamento, ou, se se quiser, para uma união de facto. Terá os seus votos de noivado no momento em que derrubar o Governo PSD-CDS e casará no dia em que um Governo do PS, com participação ou apoio do BE e do PCP, for empossado pelo Presidente e vir o seu programa aprovado pela Assembleia. O casamento poderá ter muitas fórmulas [...] mas, seja qual for a fórmula, vão selar o seu destino. [...]
É um casamento de alto risco e tem muita coisa que o pode levar a correr mal. Mas há uma coisa que os esposos devem ter clara na sua cabeça, escrita em letras de fogo, tatuada nas mãos e nos braços, para que estejam sempre a ver, é que o divórcio será muito mais gravoso e penoso.
Há várias coisas de que todos os que abraçam esta solução de um Governo de esquerda devem saber, uma das quais é que nada contribuirá mais a favor da legitimidade da solução encontrada do que se cumprir a legislatura inteira. E, se há coisa que este Governo precisa é de um acrescento de legitimidade política, visto que legitimidade formal, tem-na. E isso só vem de governar razoavelmente, onde o óptimo é inimigo do bom, e se o fizer com durabilidade, provocará um ponto sem retorno na vida política portuguesa. Até lá, as fragilidades serão enormes e exigem de quem é parte desta solução que se atenha ao essencial, sem hesitações.
Se o esquecerem, garantem para muitas décadas que a direita governe Portugal, não de forma amável e delicodoce [...] mas de forma vingativa e agressiva. A direita que se vai levantar das cinzas de um Governo de esquerda, caia ele pelo PS, pelo BE ou pelo PCP, falará a mesma linguagem que hoje usam Nuno Melo, Paulo Rangel e os articulistas do Observador. E, por trás dela, em formação regular e militar, estarão os anónimos comentadores, genuínos e avençados, que pululam nas redes sociais, que espumam de fúria e falam numa linguagem que torna o pior do PREC num conjunto de amabilidades. Estes anos de crise do “ajustamento” alimentaram todos os monstros e deram-lhes uma sustentação em fortes interesses, que eles sabem muito bem quanto é perigoso o que se está a passar para a hegemonia assente no autoritarismo do “não há alternativa”. De um lado sabe-se, espero que do outro também se saiba.
[...] É por isso que é vital compreender que esta alternativa exige uma enorme firmeza e capacidade de separar o essencial do secundário. Não se está a jogar a feijões, isto é tudo muito a sério, demasiado a sério, para ser apenas um devaneio ideológico e experimental de homenzinhos e mulherzinhas, mas é para homens e mulheres a sério. Ou então mais vale irem para a casa medíocre do Portugal submisso onde as hierarquias do poder e do dinheiro fazem o que querem, para além da lei e da ética.
Portanto, se entram numa solução deste tipo, têm que dar, neste caso ao PS, alguma margem de manobra para fazer o equilibrismo financeiro que é necessário para cumprir, sem qualquer zelo, o Tratado Orçamental, antes de haver alguma negociação que o modere. Isto exige compreender que não é a mesma coisa ser um Governo PS a fazê-lo nestas circunstâncias graves do que ser um Governo da coligação PSD-CDS. Nem para o bem, nem para o mal. Quando os salários e as pensões forem recuperados, como aliás a coligação também disse que ia fazer, para quem vê o que recebe no fim do mês aumentar, faz toda a diferença saber se isso vem de um Governo de esquerda, que lhe dirá que o faz porque isso é a reposição de um direito que foi sonegado, e que é bom para economia, ou da coligação PSD-CDS, que lhe dirá (se o fizer) que isso se deve à justeza da sua política económica e quererá dessa eventual devolução justificar outros cortes de salários ou pensões e, mais grave ainda, o corte de direitos económicos, sociais e políticos, para prosseguir a mesma política de desigualdade social. Insisto, faz toda a diferença e as pessoas sabem isso. [...]
Se houver uma recuperação da dinâmica da classe média, destruída e radicalizada nestes últimos anos, um afastamento e uma mitigação do poder do PPE, que é aquilo a que hoje chamamos “Europa” (e isso faz com que a experiência portuguesa seja decisiva para as eleições espanholas ainda em 2015), um efeito de moderação, pela experiência de governação, de partidos como o BE e o PCP, uma melhoria das condições de vida dos portugueses e um retomar da sua dignidade, um repor dos equilíbrios no mundo laboral, uma diminuição da radicalização inscrita na sociedade pelo aumento das desigualdades, o extremismo da direita pode ficar acantonado e perder força. Vamos ver.»
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08:00
sábado, 31 de outubro de 2015
COREOGRAFIA
O Governo tomou posse e de seguida reuniu em conselho de ministros. Do que se sabe, terá decidido não perder um minuto com a discussão do OE 2016. O famoso draft continuará por elaborar. Bruxelas que espere pelo senhor que se segue. A estratégia é clara. Só não percebo que, sendo assim, haja necessidade de esperar por 9 de Novembro para apresentar o programa à Assembleia da República. Por que não já na próxima semana?
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09:09
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
EUROPA, 2015
Entretidos com o folhetim do Governo, temos passado ao lado da vaga migratória. Todos os dias morre gente no Mediterrâneo, nas costas grega e turca, nos Balcãs. Calais transformou-se num imenso bidonville. Todos os dias se erguem muros em países tidos como democracias. A cada hora que passa, a UE olha com maior indiferença o fascismo, já não larvar, mas explícito, de alguns Estados-membros. A intolerância grassa. Acabo de ver imagens terríveis de gente desesperada na fronteira da Eslovénia. É a guerra, na sua forma mais exacta.
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15:30
XX GOVERNO
Passos & Portas, mais quinze ministros e trinta e seis secretários de Estado, tomaram hoje posse. A rejeição do Governo parece estar marcada para 10 de Novembro. Hoje, na Ajuda, o Presidente da República matizou o discurso: compete aos deputados decidir em consciência se o Governo vai iniciar funções (cito de cor). O primeiro-ministro foi igual a si mesmo, afirmando, sem se rir, que aumentou as pensões e combateu as desigualdades sociais. O líder da Oposição não esteve na cerimónia. Dos partidos com representação parlamentar, apenas dois, o PS e o PAN, se fizeram representar.
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13:13
DISCURSO DIRECTO, 24
Guilherme W. d’Oliveira Martins, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:
«[...] Ao adoptar o modelo da prorrogação da vigência do Orçamento do ano anterior, o legislador nacional resolveu um problema que se arrastava há já vários anos, que dizia respeito à necessidade de decretos de execução orçamental para sustentar este regime.
A prorrogação do Orçamento não abrange, contudo: (1) as autorizações legislativas contidas no articulado que devam caducar no final do ano económico; (2) as autorizações para a cobrança das receitas, cujos regimes se destinam a vigorar até ao final do ano a que a lei respeita; (3) e as autorizações de despesa respeitante a serviços, programas e medidas plurianuais que devam extinguir-se até ao final do ano económico em causa.
As medidas que caem do lado da receita e do lado da despesa são todas as transitórias, a saber: a sobretaxa do IRS, a contribuição extraordinária de solidariedade, do lado da receita, e a redução remuneratória e o congelamento de pensões, do lado da despesa.
Podemos ter algumas dúvidas do como caem, mas há algo que as deita por terra no dia 31 de Dezembro — a sua transitoriedade, aliás, secundada e vigiada nos últimos anos pelo Tribunal Constitucional, que, tendo oportunidade, não deixaria espaço para novas dúvidas. [...]»
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10:55
DISCURSO DIRECTO, 23
José Pacheco Pereira, na Sábado. Excerto, sublinhado meu:
«[...] Ao proceder como procedeu, Cavaco Silva mobilizou toda a direita para a exigência de que o primeiro acto do novo Presidente seja fazer eleições [...] O clamor será tal que Marcelo, que em condições normais não o faria [dissolver o Parlamento] sem haver uma grave crise de natureza institucional, pode ter que o fazer, mobilizando com esse acto toda uma frente de esquerda que se sentirá não só vitimizada, mas em risco de ser excluída do sistema político. Não vai ser bonito de ver, com responsabilidade directa de Cavaco que envenenou toda a campanha de Marcelo e condicionou os passos iniciais da sua presidência caso ganhe. [...]»
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09:30
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
TO FUCK, OR NOT TO FUCK: THAT IS THE QUESTION
A propósito de uma entrevista dada por António Lobo Antunes ao jornal El País (ver imagem), Eugénio Lisboa escreveu para o J.L. o texto que a seguir se transcreve. Sublinhados meus:
“O ratio literacia / iliteracia é constante, mas, nos nossos dias, os iletrados sabem ler e escrever.”
Alberto Moravia
«Peço, desde já, que me perdoem o tom desenfastiado desta prosa, a começar pelo título: paráfrase libertina de um solilóquio célebre. Vou usar, como verão, vocábulos desataviados ou mesmo crus: o culpado disto tudo é o escritor António Lobo Antunes que, numa entrevista recente – das muitas que ele não gosta de dar mas vai dando – sugeriu o mote, ao afirmar o seguinte, referindo-se a Fernando Pessoa: “Eu me pergunto se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.” Não é a primeira vez que o autor de Memória de Elefante nos serve este mimo. Provavelmente, ao tê-la, gostou tanto da ideia, que não se cansa de no-la servir, faça chuva ou faça sol. Reajo a ela, não tanto pela crueza vicentina do tom (e do glossário), como pelo facto de me não parecer cientificamente sustentável. E, neste ponto, faço apelo ao que, de ciência, ainda reste na cabeça do outrora psiquiatra Lobo Antunes.
Antunes propõe, em suma, que a falta de tesão de Pessoa não é compatível com o equipamento profissional de um bom escritor, ou, de maneira menos crua: a castidade não leva à criação poderosa. Ora bem: quando se põe, em ciência, uma hipótese de trabalho, esta só se mantém de pé, até ao preciso momento em que um novo facto conhecido a vem desmentir (ou falsificar, como diria Popper). Ora o que não faltam são factos que perturbam, abanam e fazem desmoronar a atrevida asserção de Lobo Antunes – os tais factos que Ronald Reagan apelidava de “estúpidos”, porque contrariavam as suas fantasias primárias.
Isaac Newton, incontestavelmente o maior cientista de todos os tempos, morreu virgem ou, se Lobo Antunes assim preferir, não consta que alguma vez tenha fodido – o que não o impediu de sondar, como ninguém, os enigmas do universo. Também não creio que um dos maiores artistas e inventor prodigioso de artefactos tecnológicos – Leonardo da Vinci – tenha fodido por aí além, se é que, propriamente, alguma vez fodeu. Estes dois exemplos, só por si, bastariam para foder irremediavelmente a hipótese científica do ex-aprendiz de psiquiatra doublé de ficcionista, que dá pelo nome de Lobo Antunes. É certo que nenhum destes personagens que citei é, exactamente, um escritor e Lobo Antunes referiu-se apenas à incapacidade de um casto escrever boa literatura. Vejamos, então, do lado dos escritores. Os exemplos – os tais factos “estúpidos” – não faltam. Henry James, por exemplo, não consta que alguma vez tenha ido para a cama, com menina ou menino. Walpole bem quis, um dia, seduzi-lo para o seu leito (desconfiado que andava de tanta reticência mais própria de solteirona ressequida), mas o autor de Portrait of a Lady recuou, horrorizado: he couldn’t possibly do that! Houve até uma mulher que se suicidou por ele a ter rejeitado ou não ter descodificado bem os passes que ela lhe andava a fazer, mas nada o levaria a fazer aquilo que Lobo Antunes considera fundamental para uma fecunda vida literária: foder, nem que seja só um bocado. James deixou uma obra monumental e Graham Greene só se lhe referia, chamando-lhe, com uma vénia, “the Master”, mas Lobo Antunes é de opinião que a obra do grande ficcionista americano ficou completamente fodida por o seu autor não ter fodido. Jane Austen, que conseguiu o milagre de agradar simultaneamente ao grande público, aos cineastas e aos “high-brows” universitários, também não fodeu. Viveu solteira e virgem e produziu, no meio da mais impertinente castidade, uma meia dúzia de obras-primas. Assim ajudando a foder consideravelmente a hipótese antunesina. John Ruskin, que tão bem escreveu sobre arte, merecendo até a glória de ser traduzido para francês por Marcel Proust – que Lobo Antunes tanto e com tal exclusividade admira! – também não chegou a foder, embora tenha tentado: na noite de núpcias, os pelos púbicos da noiva – coisa que, pelos vistos, nunca tinha contemplado – de tal forma o horrorizaram, que deixou a pobre rapariga intacta e nunca mais repetiu a tentativa. Fodido, não é? A poetisa americana Emily Dickinson ficou igualmente para tia, o que justifica, segundo Antunes, uma reavaliação da sua poesia, à luz de tanto não foder. Por outro lado, Edgar Poe, o da literatura policial – com o inesquecível Dupin, ínclito precursor de Sherlock Holmes – mas também o mago da literatura fantástica e de horror – que Baudelaire admiravelmente traduziu – e o poeta romântico que Pessoa verteu para português, Poe, dizia eu, cometeu o que Antunes classificaria como o mais hediondo dos crimes: casou com a priminha de 13 anos, Virginia Clemm, sem ter chegado, porém, a fodê-la. Nem a ela nem a nenhuma outra, que se saiba. O grande poeta Gerard Manley Hopkins, padre, ficou também casto (não sei se por ser padre, mas a verdade é que ficou), o que obrigará, em breve, a organizar-se todo um colóquio douto, para reavaliação da sua obra: quem esforçadamente não fode, escrever bem não pode, garante Antunes a quem o queira ouvir.
Também o emérito Yeats, um dos grandes da poesia do século XX, permaneceu casto até aos trintas e, durante este período de espartano “no fucking”, escreveu e publicou bastante poesia. E, já agora, para terminar, desconfio bem que o nosso ternurento António Nobre, precursor indiscutível da nossa poesia moderna e “a nossa maior poetisa”, segundo a perfídia mansa do grande Pascoaes, também não era particularmente dado às fornicações que Antunes considera fundamentais ao acto da escrita.
Por fim, ainda na referida entrevista, o autor de Os Cus de Judas dá a Virgílio o que é de Horácio, quando alude desastradamente às odes de Ricardo Reis: assim fode, sem apelo nem agravo, a erudição vigente. É caso de se dizer que, se quem não fode escrever não pode, não é menos certo que quem pouco manuseia o antigo não logra ver além do postigo.
Abrégé do texto acima, com tese (minha): quando se trata de escrever, tanto faz foder como não foder. O importante é ter que dizer e saber o modo de o fazer. Simples? Eu diria mesmo mais: fodidamente elementar, meu caro Watson!»
Clique na imagem para ler melhor.
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Eduardo Pitta
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