O Governo tomou posse e de seguida reuniu em conselho de ministros. Do que se sabe, terá decidido não perder um minuto com a discussão do OE 2016. O famoso draft continuará por elaborar. Bruxelas que espere pelo senhor que se segue. A estratégia é clara. Só não percebo que, sendo assim, haja necessidade de esperar por 9 de Novembro para apresentar o programa à Assembleia da República. Por que não já na próxima semana?
sábado, 31 de outubro de 2015
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
EUROPA, 2015
Entretidos com o folhetim do Governo, temos passado ao lado da vaga migratória. Todos os dias morre gente no Mediterrâneo, nas costas grega e turca, nos Balcãs. Calais transformou-se num imenso bidonville. Todos os dias se erguem muros em países tidos como democracias. A cada hora que passa, a UE olha com maior indiferença o fascismo, já não larvar, mas explícito, de alguns Estados-membros. A intolerância grassa. Acabo de ver imagens terríveis de gente desesperada na fronteira da Eslovénia. É a guerra, na sua forma mais exacta.
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Eduardo Pitta
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15:30
XX GOVERNO
Passos & Portas, mais quinze ministros e trinta e seis secretários de Estado, tomaram hoje posse. A rejeição do Governo parece estar marcada para 10 de Novembro. Hoje, na Ajuda, o Presidente da República matizou o discurso: compete aos deputados decidir em consciência se o Governo vai iniciar funções (cito de cor). O primeiro-ministro foi igual a si mesmo, afirmando, sem se rir, que aumentou as pensões e combateu as desigualdades sociais. O líder da Oposição não esteve na cerimónia. Dos partidos com representação parlamentar, apenas dois, o PS e o PAN, se fizeram representar.
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13:13
DISCURSO DIRECTO, 24
Guilherme W. d’Oliveira Martins, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:
«[...] Ao adoptar o modelo da prorrogação da vigência do Orçamento do ano anterior, o legislador nacional resolveu um problema que se arrastava há já vários anos, que dizia respeito à necessidade de decretos de execução orçamental para sustentar este regime.
A prorrogação do Orçamento não abrange, contudo: (1) as autorizações legislativas contidas no articulado que devam caducar no final do ano económico; (2) as autorizações para a cobrança das receitas, cujos regimes se destinam a vigorar até ao final do ano a que a lei respeita; (3) e as autorizações de despesa respeitante a serviços, programas e medidas plurianuais que devam extinguir-se até ao final do ano económico em causa.
As medidas que caem do lado da receita e do lado da despesa são todas as transitórias, a saber: a sobretaxa do IRS, a contribuição extraordinária de solidariedade, do lado da receita, e a redução remuneratória e o congelamento de pensões, do lado da despesa.
Podemos ter algumas dúvidas do como caem, mas há algo que as deita por terra no dia 31 de Dezembro — a sua transitoriedade, aliás, secundada e vigiada nos últimos anos pelo Tribunal Constitucional, que, tendo oportunidade, não deixaria espaço para novas dúvidas. [...]»
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Eduardo Pitta
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10:55
DISCURSO DIRECTO, 23
José Pacheco Pereira, na Sábado. Excerto, sublinhado meu:
«[...] Ao proceder como procedeu, Cavaco Silva mobilizou toda a direita para a exigência de que o primeiro acto do novo Presidente seja fazer eleições [...] O clamor será tal que Marcelo, que em condições normais não o faria [dissolver o Parlamento] sem haver uma grave crise de natureza institucional, pode ter que o fazer, mobilizando com esse acto toda uma frente de esquerda que se sentirá não só vitimizada, mas em risco de ser excluída do sistema político. Não vai ser bonito de ver, com responsabilidade directa de Cavaco que envenenou toda a campanha de Marcelo e condicionou os passos iniciais da sua presidência caso ganhe. [...]»
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09:30
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
TO FUCK, OR NOT TO FUCK: THAT IS THE QUESTION
A propósito de uma entrevista dada por António Lobo Antunes ao jornal El País (ver imagem), Eugénio Lisboa escreveu para o J.L. o texto que a seguir se transcreve. Sublinhados meus:
“O ratio literacia / iliteracia é constante, mas, nos nossos dias, os iletrados sabem ler e escrever.”
Alberto Moravia
«Peço, desde já, que me perdoem o tom desenfastiado desta prosa, a começar pelo título: paráfrase libertina de um solilóquio célebre. Vou usar, como verão, vocábulos desataviados ou mesmo crus: o culpado disto tudo é o escritor António Lobo Antunes que, numa entrevista recente – das muitas que ele não gosta de dar mas vai dando – sugeriu o mote, ao afirmar o seguinte, referindo-se a Fernando Pessoa: “Eu me pergunto se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.” Não é a primeira vez que o autor de Memória de Elefante nos serve este mimo. Provavelmente, ao tê-la, gostou tanto da ideia, que não se cansa de no-la servir, faça chuva ou faça sol. Reajo a ela, não tanto pela crueza vicentina do tom (e do glossário), como pelo facto de me não parecer cientificamente sustentável. E, neste ponto, faço apelo ao que, de ciência, ainda reste na cabeça do outrora psiquiatra Lobo Antunes.
Antunes propõe, em suma, que a falta de tesão de Pessoa não é compatível com o equipamento profissional de um bom escritor, ou, de maneira menos crua: a castidade não leva à criação poderosa. Ora bem: quando se põe, em ciência, uma hipótese de trabalho, esta só se mantém de pé, até ao preciso momento em que um novo facto conhecido a vem desmentir (ou falsificar, como diria Popper). Ora o que não faltam são factos que perturbam, abanam e fazem desmoronar a atrevida asserção de Lobo Antunes – os tais factos que Ronald Reagan apelidava de “estúpidos”, porque contrariavam as suas fantasias primárias.
Isaac Newton, incontestavelmente o maior cientista de todos os tempos, morreu virgem ou, se Lobo Antunes assim preferir, não consta que alguma vez tenha fodido – o que não o impediu de sondar, como ninguém, os enigmas do universo. Também não creio que um dos maiores artistas e inventor prodigioso de artefactos tecnológicos – Leonardo da Vinci – tenha fodido por aí além, se é que, propriamente, alguma vez fodeu. Estes dois exemplos, só por si, bastariam para foder irremediavelmente a hipótese científica do ex-aprendiz de psiquiatra doublé de ficcionista, que dá pelo nome de Lobo Antunes. É certo que nenhum destes personagens que citei é, exactamente, um escritor e Lobo Antunes referiu-se apenas à incapacidade de um casto escrever boa literatura. Vejamos, então, do lado dos escritores. Os exemplos – os tais factos “estúpidos” – não faltam. Henry James, por exemplo, não consta que alguma vez tenha ido para a cama, com menina ou menino. Walpole bem quis, um dia, seduzi-lo para o seu leito (desconfiado que andava de tanta reticência mais própria de solteirona ressequida), mas o autor de Portrait of a Lady recuou, horrorizado: he couldn’t possibly do that! Houve até uma mulher que se suicidou por ele a ter rejeitado ou não ter descodificado bem os passes que ela lhe andava a fazer, mas nada o levaria a fazer aquilo que Lobo Antunes considera fundamental para uma fecunda vida literária: foder, nem que seja só um bocado. James deixou uma obra monumental e Graham Greene só se lhe referia, chamando-lhe, com uma vénia, “the Master”, mas Lobo Antunes é de opinião que a obra do grande ficcionista americano ficou completamente fodida por o seu autor não ter fodido. Jane Austen, que conseguiu o milagre de agradar simultaneamente ao grande público, aos cineastas e aos “high-brows” universitários, também não fodeu. Viveu solteira e virgem e produziu, no meio da mais impertinente castidade, uma meia dúzia de obras-primas. Assim ajudando a foder consideravelmente a hipótese antunesina. John Ruskin, que tão bem escreveu sobre arte, merecendo até a glória de ser traduzido para francês por Marcel Proust – que Lobo Antunes tanto e com tal exclusividade admira! – também não chegou a foder, embora tenha tentado: na noite de núpcias, os pelos púbicos da noiva – coisa que, pelos vistos, nunca tinha contemplado – de tal forma o horrorizaram, que deixou a pobre rapariga intacta e nunca mais repetiu a tentativa. Fodido, não é? A poetisa americana Emily Dickinson ficou igualmente para tia, o que justifica, segundo Antunes, uma reavaliação da sua poesia, à luz de tanto não foder. Por outro lado, Edgar Poe, o da literatura policial – com o inesquecível Dupin, ínclito precursor de Sherlock Holmes – mas também o mago da literatura fantástica e de horror – que Baudelaire admiravelmente traduziu – e o poeta romântico que Pessoa verteu para português, Poe, dizia eu, cometeu o que Antunes classificaria como o mais hediondo dos crimes: casou com a priminha de 13 anos, Virginia Clemm, sem ter chegado, porém, a fodê-la. Nem a ela nem a nenhuma outra, que se saiba. O grande poeta Gerard Manley Hopkins, padre, ficou também casto (não sei se por ser padre, mas a verdade é que ficou), o que obrigará, em breve, a organizar-se todo um colóquio douto, para reavaliação da sua obra: quem esforçadamente não fode, escrever bem não pode, garante Antunes a quem o queira ouvir.
Também o emérito Yeats, um dos grandes da poesia do século XX, permaneceu casto até aos trintas e, durante este período de espartano “no fucking”, escreveu e publicou bastante poesia. E, já agora, para terminar, desconfio bem que o nosso ternurento António Nobre, precursor indiscutível da nossa poesia moderna e “a nossa maior poetisa”, segundo a perfídia mansa do grande Pascoaes, também não era particularmente dado às fornicações que Antunes considera fundamentais ao acto da escrita.
Por fim, ainda na referida entrevista, o autor de Os Cus de Judas dá a Virgílio o que é de Horácio, quando alude desastradamente às odes de Ricardo Reis: assim fode, sem apelo nem agravo, a erudição vigente. É caso de se dizer que, se quem não fode escrever não pode, não é menos certo que quem pouco manuseia o antigo não logra ver além do postigo.
Abrégé do texto acima, com tese (minha): quando se trata de escrever, tanto faz foder como não foder. O importante é ter que dizer e saber o modo de o fazer. Simples? Eu diria mesmo mais: fodidamente elementar, meu caro Watson!»
Clique na imagem para ler melhor.
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19:00
HARPER LEE
Hoje na Sábado escrevo sobre Vai e Põe Uma Sentinela, de Harper Lee (n. 1926), durante quase sessenta anos tida como autora de um único livro, Não Matem a Cotovia, vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção e, em 1999, eleito o melhor romance do século XX. Até que no ano passado apareceu o manuscrito, julgado perdido, de um livro mais antigo nunca publicado. Tendo sido o primeiro a ser escrito, Vai e Põe Uma Sentinela destinava-se a fechar uma trilogia por concluir. Nunca saberemos o que fez Lee ficar parada depois da consagração e do sucesso planetário de Não Matem a Cotovia, que Robert Mulligan levou ao cinema em 1962. Para sermos justos, Vai e Põe Uma Sentinela pouco acrescenta ao prestígio da autora. Aparentemente, a sua publicação terá sido uma “exigência” do agente literário. Jean Louise é agora uma mulher adulta, consciente das contradições da sociedade americana nos anos 1950. De visita a Maycomb (a cidade ficcionada que corresponde a Monroeville, no Alabama), vinda de Nova Iorque, vai confrontar-se com a realidade: a idade matiza os ideais, os ídolos da infância são vistos sem o filtro da inocência. É o caso do pai, o insubornável Atticus Finch. Lá onde a cor da pele determinava tudo, e estava mal, agora há quem continue a alimentar fantasmas. Quatro estrelas.
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11:00
domingo, 25 de outubro de 2015
sábado, 24 de outubro de 2015
DISCURSO DIRECTO, 22
José Pacheco Pereira, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:
«O que fez o Presidente da República na sua declaração foi dar uma chicotada nos portugueses — por singular coincidência, a maioria — de que ele considera não ser o Presidente. Não foi uma chicotada psicológica, mas uma chicotada real. [...]
Embora não o tenha dito explicitamente, disse com clareza suficiente que não dará posse a um governo PS-BE-PCP, com maioria parlamentar, que ele entende ser maldito, sugerindo que, mesmo que o Governo PSD-CDS não passe na Assembleia, poderá deixá-lo em gestão até que haja condições para haver novas eleições. O facto de apenas o ter subentendido pode indicar que possa recuar, mas o tom agressivo das suas considerações faz com que, se o fizer, isso equivalha a uma gigantesca manifestação de incoerência e impotência, em si mesma um factor de instabilidade. [...]
Num só acto o Presidente garantiu longos meses de instabilidade política, um confronto permanente entre instituições, uma enorme radicalização da vida política, e tornou-se responsável pelas consequências económicas que daí advenham. A aceitarem este rumo, Cavaco Silva e Passos Coelho passam a ser os principais sujeitos dos efeitos negativos na economia e na sociedade, desta instabilidade [...]
Na verdade, o que é ainda mais grave é que se mostrou disposto a deteriorar a situação económica do país, e a sua posição face aos “mercados”, que até agora não reflectiram o catastrofismo do discurso interno do PSD-PS e externo do PPE, e que, se agora o começarem a fazer, é porque o Presidente abriu uma frente de guerra e de instabilidade que dificilmente se resolverá. [...]
Nunca, desde o 25 de Abril, um Governo serviu a direita ideológica e dos interesses como o tandem troika-PSD-CDS. Nunca foi tão grande a troca mútua de serviços entre a “Europa” e a direita política. [...] A aliança do PSD-CDS com os interesses económicos consolidou-se como nunca. Os passeios de Sócrates com os empresários, muitos que agora andam atrás de Passos, Portas e Pires de Lima, são uma brincadeira de meninos com o que se passa hoje. Sócrates distribuiu favores e benesses, Passos e Portas, apoiados na troika, mudaram as regras do jogo em áreas decisivas para o patronato que precisa de poder despedir sem grandes problemas, baixar salários e contar com uma enorme pool de trabalho precário, e de uma ecologia fiscal e social favorável aos “negócios”. Deram-lhes um incremento de legitimação ao propagandearem uma economia que era feita apenas de empresas, empresários e “empreendedorismo”, mas em que os trabalhadores são apenas uma maçada uma vez por mês para pagar salários. Ofereceram-lhes uma voz política como nunca tiveram, e uma voz em que a “economia” passou a significar governar como eles governaram, ou seja, a “economia” exige que se governe à direita, e em que os “mercados” passaram a estar acima da democracia e do voto. E nunca até agora uma poderosa máquina ideológica e comunicacional existiu para proteger estes interesses económicos e políticos. [...]
Outro dos efeitos perversos da comunicação presidencial foi condicionar a próxima eleição presidencial ao dilema da dissolução ou não da Assembleia. [...]
Por último, o Presidente, com a sua declaração de guerra, terá a guerra que declarou. Ao apelar à desobediência dos deputados do PS, tornará muito difícil que eles desobedeçam, sob pena de se tornarem párias no seu próprio partido. Ajudou a consolidar a vontade do PS, BE e PCP de defrontarem em comum o PSD-CDS, e abriu espaço para o imediato anúncio, que ainda não tinha sido feito, de que o PS apresentaria uma moção de rejeição. [...]
Onde a mensagem do Presidente — sugerindo, mesmo que não o diga com clareza, que possa manter o Governo Passos Coelho em gestão até novas eleições — é mais grave é no confronto que faz à Assembleia da República. É que se o Governo pode estar em gestão, a Assembleia não o está. É detentora dos seus plenos poderes constitucionais. Pode não só impedir a legislação oriunda do Governo, como pode ela própria legislar e avocar muitos actos que o Governo venha a praticar. Ou seja, numa situação de conflito entre um Governo que recusou e os seus próprios poderes, a Assembleia pode “governar” sem limitações em muitas matérias. E que fará o Presidente? Veta de gaveta, devolve os diplomas, manda para o Tribunal Constitucional? Os precedentes que este conflito pode gerar mostram como a comunicação presidencial está, ela sim, no limite do abuso e da usurpação de poderes.»
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11:55
ELES TÊM UM ROSTO
Honra ao Público que dá rosto aos presos de Luanda. De cima para baixo e da esquerda para a direita vêem-se Nuno Álvaro Dala, Sedrick de Carvalho, Arante Kivuvu, Inocêncio Brito “Drux”, José Hata, Domingos da Cruz, Hitler Samussuko, Manuel “Nito Alves”, Afonso Matias “Mbanza Hamza”, Albano Bingobingo (ou Albano Liberdade), Benedito Jeremias, Fernando Tomás “Nicola Radical”, Nelson Dibango e Osvaldo Caholo. Falta Luaty Beirão, que não é negro e continua em greve de fome.
Lembrar que estes activistas foram presos pela DNIC quando, numa livraria da capital de Angola, foram surpreendidos a ler um livro de Gene Sharp, From Dictatorship do Democracy, que a Tinta da China vai traduzir e publicar em Portugal. Clique na imagem.
Lembrar que estes activistas foram presos pela DNIC quando, numa livraria da capital de Angola, foram surpreendidos a ler um livro de Gene Sharp, From Dictatorship do Democracy, que a Tinta da China vai traduzir e publicar em Portugal. Clique na imagem.
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10:00
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
FERRO ELEITO
Eram quatro da tarde quando Eduardo Ferro Rodrigues foi eleito Presidente da Assembleia da República à primeira volta. O antigo secretário-geral do PS obteve 120 votos. Pela primeira vez, o cargo é ocupado por um deputado que não pertence ao partido mais votado nas Legislativas. No primeiro discurso após a eleição, o facto foi lembrado com indisfarçável rancor pelo líder parlamentar do PSD, como se a democracia tivesse lugares cativos. Clique na imagem.
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16:20
DISCURSO DIRECTO, 21
Fernanda Câncio, hoje no Diário de Notícias. Excerto, sublinhado meu:
«[…] Cavaco, invocando os sentimentos dos mercados e “das instituições internacionais nossas credoras”, fez questão de dizer que há no Parlamento duas forças políticas “intocáveis”, às quais não admite sequer prefigurarem-se como sustentação de um governo.
Ou seja: Cavaco não usou justificações democráticas e constitucionalmente sustentadas. Pelo contrário, adotou uma postura autocrática, tornando claro a uma parte do país que o seu voto e ideias cheiram mal — parte do país que, curiosamente, serviu para derrubar em 2011 um governo contra o qual reclamou “um sobressalto cívico”. Para Cavaco, BE e PCP só dão jeito para deitar abaixo governos, nunca para os sustentar. E se os portugueses decidiram nas urnas virar a página, Cavaco cá está para lhes emendar a mão. Independentemente da vontade dos eleitores, o homem que ocupa Belém com a mais baixa votação e pior aprovação de sempre quer impor a sua, brandindo, como tantos, de Avillez a Barreto, fizeram nos últimos dias, a sua moca de Rio Maior. Ganha a verdade e a clareza, se tivéssemos dúvidas. Mas alguém devia lembrar ao PR que quem subiu à Fonte Luminosa foi o PS, e Costa esteve lá.»
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Eduardo Pitta
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10:40
NOVA LEGISLATURA
Com a tomada de posse dos deputados, tem hoje início a nova Legislatura. Ainda hoje haverá votação para eleger, por voto secreto, o Presidente da Assembleia da República. Ferro Rodrigues (na imagem) é o candidato apoiado pela Esquerda, e Fernando Negrão o candidato PAF. A partir de hoje, e durante seis meses, a AR não poderá ser dissolvida. Mas a partir de 23 de Abril de 2016 o próximo Presidente da República poderá fazê-lo.
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09:30
TRÊS
Antes de Cavaco falar havia duas moções de rejeição anunciadas: a do BE e a do PCP. Agora há três. Clique na imagem.
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00:10
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
GOLPADA
O Presidente da República indigitou Passos Coelho para formar Governo. Embora discutível, a decisão é legítima. Porém, a comunicação que fez ao país prenuncia uma deriva anti-democrática e anti-constitucional de recorte autoritário. Excertos:
«Em 40 anos de democracia, nunca os governos de Portugal dependeram do apoio de forças políticas antieuropeístas, isto é, de forças políticas que, nos programas eleitorais com que se apresentaram ao povo português, defendem a revogação do Tratado de Lisboa, do Tratado Orçamental, da União Bancária e do Pacto de Estabilidade e Crescimento, assim como o desmantelamento da União Económica e Monetária e a saída de Portugal do Euro, para além da dissolução da NATO, organização de que Portugal é membro fundador. [...] Se o Governo formado pela coligação vencedora pode não assegurar inteiramente a estabilidade política de que o País precisa, considero serem muito mais graves as consequências financeiras, económicas e sociais de uma alternativa claramente inconsistente sugerida por outras forças políticas. [...] É aos Deputados que compete decidir, em consciência e tendo em conta os superiores interesses de Portugal, se o Governo deve ou não assumir em plenitude as funções que lhe cabem.»
Significa isto que o PR recusará empossar um Governo do PS com apoio parlamentar do BE e da CDU se e quando o Governo PAF for chumbado no Parlamento?
A parte em que apela a uma cisão no grupo parlamentar do PS está esclarecida.
A imagem é do Expresso. Clique.
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Eduardo Pitta
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21:00
DISCURSO DIRECTO, 20
Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias. Na íntegra, sublinhado meu.
«Como há dúvidas, vou dizer porque votei. Votei no PS, eu, para que todas as casas com construção embargada que me estragam a paisagem sejam deitadas abaixo, já. Esse meu querer lembro-me de ter sussurrado ao voto quando o deitei (só não escrevi para o não inutilizar) - vai para três semanas, e o PS sobre o assunto, nada. Votei no PS por causa do sorriso irónico do líder, são os únicos sorrisos de que gosto nos políticos, mas desde o dia 4 não me parece ser esse o critério de aliança de Costa (a Catarina é simpática, o Jerónimo é veemente, mas nada disso vale um sorriso irónico, acho). Votei no PS para que ele fosse buscar o Luis Fernando Verissimo ao Brasil para dar aulas, nos três canais, duas horas por dia, prime time, sobre como se escrevem diálogos - acho o diálogo fundamental e ninguém pôs isso no programa eleitoral (o PS também não, mas eu não me ia abster, soprei no voto e foi também por isso que votei). Votei no PS porque gosto das ruas alegradas, o Costa pintou a Rua Nova do Carvalho de cor-de-rosa e eu gostava de ver a Estrada de Benfica a cheirar a pitanga. Basicamente foi isto. Os outros 5 408 804 eleitores que digam porque votaram. Eu foi por isto. E não admito que os comentadores digam que votei ou não votei por outras razões senão as expostas. Quanto a formar governo, fui ver à Constituição, não sou eu. Se fosse, vocês iam ter surpresas do caraças.»
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Eduardo Pitta
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11:30
OLIVER SACKS
Hoje na Sábado escrevo sobre a autobiografia de Oliver Sacks (1933-2015), falecido no Verão passado. Não é comum que um neurologista seja um autor bestseller, mas foi o que sucedeu com Sacks, que tem catorze livros traduzidos em Portugal, e a sua prosa «demasiado fácil de ler» aproximou-o do grande público. Dito de outro modo, nunca teve necessidade de “embrulhar” a escrita em jargão técnico, fazendo com que livros de ciência médica fossem lidos por milhões de pessoas comuns. Isso fez dele um nome de referência: «Sou um contador de histórias, para o melhor e para o pior.» Um bom exemplo da sua popularidade pode ser ilustrado pelo facto de Despertares (1973) ter sido adaptado ao teatro por Harold Pinter e ao cinema por Penny Marshall, no famoso filme de 1990 que juntou Robert De Niro e Robin Williams. Discreto no tocante à sua vida privada, Sacks publicou a autobiografia quatro meses antes de morrer — Em movimento. Uma vida. O livro foi lançado em Abril deste ano, mas em Fevereiro já o autor havia publicado um artigo no New York Times anunciando ter chegado ao fim a luta contra a doença: «Sinto gratidão pelos nove anos de boa saúde e produtividade desde o primeiro diagnóstico, mas agora estou perante a morte. O cancro ocupa um terço do meu fígado [...] Não posso fingir que não tenho medo.» Sacks inspirou-se no exemplo de David Hume, o filósofo escocês que em 1776, sabendo que ia morrer, escreveu My Own Life, a sua breve autobiografia. Em movimento. Uma vida é a história de um homem nascido e educado na Inglaterra («o meu lar»), no seio de uma família judaica, mais tarde radicado nos Estados Unidos onde se consagrou como médico e professor, escrevendo livros que o tornaram célebre em todo o mundo. Filho e irmão de médicos, Sacks revela-se por inteiro: família, formação em Oxford, culto das motas, depressão após uma experiência laboratorial mal sucedida, homossexualidade reprimida até entrar na idade adulta (virgem aos 22 anos, relata com brutal franqueza a primeira vez que foi sodomizado), temporada num kibutz em Israel, sexo e bodybuilding, a paixão por música, arte e literatura, a amizade com o poeta Thom Gunn, a vida académica, as descobertas e avanços da medicina, a relação com os pacientes, o melanoma no olho direito, a construção do mito, a razão de cada livro que escreveu, a vida em comum com Billy Hayes nos últimos seis anos de vida. Notável. O volume inclui portfolio fotográfico, mas ressente-se da ausência de índice remissivo. Cinco estrelas.
Escrevo ainda sobre Uma Rapariga Endiabrada, de Nick Hornby (n. 1957), autor que também escreve para cinema e esteve vários anos afastado da literatura. Agora faz-nos regressar à Inglaterra dos anos 1960. Barbara Parker, protagonista do romance e vencedora do concurso Miss Blackpool, não se contenta com a glória local. E parte para Londres com o propósito de ser uma nova Lucille Ball. O plot gira em torno dos bastidores da rodagem de uma série de televisão, havendo quem veja nele uma variante do argumento, escrito por Hornby, de Uma Outra Educação, o filme de Lone Scherfig. O mais interessante é a radiografia dos sixties, quando Mick Jagger ainda não era um canastrão e Harold Wilson ocupava o n.º 10 de Downing Street apesar dos rumores de que seria agente do KGB. O retrato “de época” não dispensa sexo no formato pós-1963 (conforme ao poema de Larkin), quota autobiográfica e, nos interstícios da ficção, envios a personagens reais da swinging London. São aliás recorrentes as entradas de autores, actores, obras e acontecimentos: a estreia de Hair, o musical de 1967 que sinalizou a contracultura hippie, é descrita com nostalgia e cinismo. Hornby tem uma escrita ágil, mas isso não é novidade para quem leu Alta Fidelidade. Editou a Porto Editora. Três estrelas e meia.
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LEMBRAR ÁNGEL CRESPO
A Casa Fernando Pessoa e o Instituto Cervantes de Lisboa promovem a partir de hoje um colóquio dedicado a Ángel Crespo (1926-1995), organizado por Pablo Javier Pérez López e Manuele Masini, para assinalar os vinte anos da sua morte. Poeta e ensaísta, Crespo é o mais destacado tradutor de Pessoa em Espanha. Durante dois dias, vão passar pela Rua Coelho da Rocha uma série de autores e estudiosos dos dois lados da fronteira: Pilar Gómez Bedate, viúva de Crespo, António Osório, Eduardo Lourenço, Amador Palacios, Teresa Rita Lopes, Antonio Saéz Delgado, Gastão Cruz, Ángel Guinda, Arnaldo Saraiva, Trinidad Ruiz Marcellán e outros.
Clara Riso, directora da Casa Fernando Pessoa, e Javier Rioyo, director do Instituto Cervantes de Lisboa, são os anfitriões. Ainda hoje, ao fim da tarde, é inaugurada no ICL a exposição dedicada a Crespo, que além de Pessoa também traduziu Petrarca, Dante, Casanova, Guimarães Rosa e um sem número de autores portugueses.
Clara Riso, directora da Casa Fernando Pessoa, e Javier Rioyo, director do Instituto Cervantes de Lisboa, são os anfitriões. Ainda hoje, ao fim da tarde, é inaugurada no ICL a exposição dedicada a Crespo, que além de Pessoa também traduziu Petrarca, Dante, Casanova, Guimarães Rosa e um sem número de autores portugueses.
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Eduardo Pitta
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