domingo, 6 de setembro de 2015

LEI DA ROLHA


Mas por que carga de água deverá Sócrates permanecer calado? Para fazer vénia a Wittgenstein, como sugere o articulista? A imagem é do Público.

sábado, 5 de setembro de 2015

DISCURSO DIRECTO, 9

Francisco Louçã, hoje no Público. Excerto:

«[...] A direita precisa disso por todas as razões. O ódio a Sócrates mobiliza o seu eleitorado, apático e cheio de dúvidas porque não acredita em Passos. O caso Sócrates faz tremer os sectores sociais do centro. E a coligação precisa desse suplemento de alma para tentar recuperar os votos que tem perdido ao longo do desastre que foi a estratégia de “empobrecimento” de Portugal

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

POR FIM

Sócrates deixou a prisão de Évora por volta das 19:40 e já está em casa, em regime de prisão domiciliária sem pulseira electrónica.

EUROSONDAGEM



Eurosondagem divulgada ao meio-dia. Falta um mês para sabermos se isto ilustra um desejo ou reflecte a realidade. Imagens do Expresso. Clique para ler melhor.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A UE EXISTE?


As autoridades húngaras impediram a chegada a Sopron, cidade junto à fronteira com a Áustria, de um comboio com 400 refugiados sírios e afegãos. Em Bicske, os passageiros foram forçados a abandonar as carruagens e a seguirem para um campo de internamento. Berlim só se preocupa com os défices? O ovo da serpente não incomoda? A imagem é do Expresso (clique para ver melhor), cuja edição online mostra imagens de pesadelo.

NUMERADOS


Não foi há 70 anos. É agora. As autoridades checas estão a numerar os refugiados nos braços. Esta imagem é do Guardian (clique para ver melhor), mas há muitas na imprensa europeia.

DISCURSO DIRECTO, 8

Bernardo Pires de Lima, hoje no Diário de Notícias. Excertos, sublinhados meus:

«Eu bem queria mudar de assunto, mas a UE não me deixa. Chama ao drama dos refugiados um assunto urgente, mas só tem vaga na agenda para uma reunião extraordinária, ainda por cima ministerial, daqui a 15 dias. É incapaz de dignificar o que resta do seu método comunitário, tentando recuperar o estatuto da Comissão, ou até organizar um Conselho Europeu urgente que sente à mesa a imensidão de líderes embeiçados pelos seus umbigos. É sempre lesta a reunir aos domingos sobre a moeda única, fomentar maratonas negociais para vergar parceiros ou ter governantes a fazer figuras tristes no Twitter, mas não consegue arranjar umas horas para, em conjunto, discutir medidas urgentes que salvem vidas e salvaguardem Schengen. [...] É que nem as regras se cumprem, nem os procedimentos se preservam, nem a influência se exerce. No final, são as fontes de refugiados que continuam entregues ao tribalismo islamista, à sangria dos ditadores e à lei da bomba. No final, também, é a preservação da integração europeia que fica esvaziada, sem denominadores comuns, com mais contabilistas do que políticos, mais moeda única do que Schengen, menos soluções comuns do que arbitrárias, menos moderação do que xenofobia. Se a UE já vivia em crise identitária, hoje acrescenta-lhe a existencial. Temo pelo que aí vem

ANNE FRANK & BERNARDO CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre O Diário de Anne Frank. Li-o pela primeira vez na tradução de Ilse Losa. A actual, da responsabilidade de Elsa T. S. Vieira, disponível há cerca de dez anos, terá sido feita a partir de uma das edições de língua inglesa: The Diary of a Young Girl: the definitive edition. Escrito em neerlandês e publicado pela primeira vez em 1947, numa versão curta, o diário tornou-se mundialmente conhecido em 1952, ano em que foi vertido para inglês. Contudo, seria preciso esperar por 1980, ano da morte de Otto Frank, o pai de Anne, para que o texto fosse editado na íntegra, sem excluir «passagens relacionadas com a sexualidade» da filha. Pelo que hoje se sabe, não está garantido que tenham sido aproveitados todos os trechos sobre sexo, em particular os mais “francos”. De qualquer modo, após avaliação do manuscrito original (a sua veracidade continua a ser posta em causa pelos negacionistas do Holocausto) por peritos do Instituto Holandês de Documentação de Guerra, foi publicada em 1986 a versão dita “definitiva”. Porém, em 1998, a descoberta de «cinco páginas antes desconhecidas», levou a nova alteração do corpus. O prefácio do presente volume, não assinado nem datado, remete os leitores interessados para a Edição Crítica revista. Mas qual delas: a de 1986, a de 1999, outra? O texto começa no dia 12 de Junho de 1942 e termina a 1 de Agosto de 1944. A primeira entrada coincide com o 13.º aniversário de Anne, pois o diário propriamente dito (o caderno de folhas lisas) foi um presente. Nascida em Frankfurt no seio de uma família judaica, Anne Frank (1929-1945) tinha acabado de completar 4 anos quando acompanhou os pais e a irmã na fuga para Amesterdão. Mas em Maio de 1940, com a ocupação da Holanda pela Alemanha, tudo mudou. A 6 de Julho de 1942 os Franks refugiam-se no anexo secreto do número 267 de Prinsengracht. Com eles estão mais quatro pessoas: três membros da família Van Pels e o dentista Fritz Pfeffer (citados no livro por pseudónimos). Até que, em 4 de Agosto de 1944, uma denúncia leva à prisão do grupo. Anne e a irmã acabariam por morrer de tifo no campo de Bergen-Belsen. Dos oito ocupantes do anexo, Otto Frank, prisioneiro em Auschwitz, foi o único sobrevivente. Seria pleonástico avaliar O Diário de Anne Frank como uma obra literária tout court. Perante a natureza do texto, toda a exegese seria fútil. Quatro estrelas.

Escrevo ainda sobre Reprodução, o romance mais recente de Bernardo Carvalho (n. 1960), um dos mais estimulantes autores brasileiros contemporâneos. Dividido em três partes, o monólogo tem momentos deveras vituosos. A “desconstrução” da identidade gay (o autor é homossexual assumido) é um exemplo: «Gay é que nem praga na horta de Deus. Gay não reproduz. Ou melhor: reproduz na horizontal, não na vertical. […] Vai se espalhando como erva daninha. Por isso é que não pode deixar. E nisso estou com o Vaticano, não pode deixar.» Seria apropriado citar Kafka, porque o narrador, um estudante de chinês separado da mulher e desempregado, ao ser interrogado pela polícia que acaba de prender sem razão aparente uma sua antiga professora, dribla o diálogo até ao paroxismo. Bernardo Carvalho não faz proselitismo. A questão gay versus homofóbico é apenas um entre vários temas em pauta. O uso da língua portuguesa também é trazido à colação. Espelho dos equívocos do multiculturalismo em versão internauta (como ilustrado pelos comentadores de blogues e sítios afins), Reprodução apoia-se num nonsense corrosivo como numa trave-mestra. Publicou a Quetzal. Quatro estrelas.

EM CASAS COMO AQUELA


É inaugurada hoje (18:00) no Museu da Electricidade, da Fundação EDP, uma exposição de fotografia de Duarte Belo dedicada a Cesariny: manuscritos, livros, obras de arte, objectos pessoais, o interior da casa do poeta e artista plástico no segundo andar direito do n.º 6 da Rua Basílio Teles, em Lisboa. Em Novembro do ano passado foi publicado o livro que se vê na imagem, agora chegou a vez dos originais.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CONVINHA REEDITAR, 5


Roland Barthes (1915-1980) foi um dos nomes que marcaram a minha geração. À boleia do estruturalismo, que chegou a Portugal, caduco, nos anos 1960, foram traduzidos vários livros seus. O último em data foi Incidents, diário póstumo das deambulações do homossexual discreto que foi até ao fim. É provável que Mythologies (1957) não seja a sua obra mais importante, mas gostava de a ver reeditada. A edição que a imagem mostra é de 1973, já com a breve introdução que Barthes escreveu em 1970. Foi traduzida por José Augusto Seabra, poeta e diplomata. Fazendo a crítica ideológica da linguagem da cultura de massas, as Mitologias vão de Racine ao bifteck com a mesma desenvoltura. Imprescindível.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

NOVO BANCO

Facto: passou um ano sem que o Novo Banco tivesse sido vendido. Consequência: os 4,9 mil milhões de euros que o Estado, através do Fundo de Resolução, aplicou nele, têm de ser indexados ao défice, que desse modo passará dos miríficos 2,7% anunciados pelo Governo para nada menos que 7,5%. Um rombo e tanto. Falhada a operação Anbang, mesmo que o senhor Guo Guangchang (o patrão da Fosum e, portanto, do Hospital da Luz e da seguradora Fidelidade) decida dar um passo em frente, o défice bateu no tecto: o prazo de doze meses é improrrogável. Maria Luís vai tentar comover Bruxelas, mas a realidade congelou o Novo Banco.

REGRESSO A 1939


Às primeiras horas da madrugada, o Governo húngaro vedou o acesso de refugiados à principal estação de comboios de Budapeste. Argumento: Essas pessoas não têm passaporte válido para circular na UE. Sucede que algumas centenas de refugiados (na sua maioria sírios) que conseguiram chegar a Budapeste são portadores de bilhete para Munique. Mas nem a empresa lhes devolve o dinheiro nem as autoridades os deixam embarcar. Não os deixam seguir viagem, ponto. Têm de voltar para trás. Cumprimos as regras europeias, diz um porta-voz de Viktor Orbán. A imagem é do Guardian. Clique.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

REFUGIADOS

Por uma vez, temos know-how superior ao dos nossos parceiros da UE. Em 1974-75, Portugal recebeu cerca de 600 mil refugiados das antigas Colónias, sendo 90% oriundos de Angola. Verdade que a Alemanha e os países escandinavos, em particular a Suécia, abriram os cordões à bolsa, mas a logística foi pensada, montada e executada por portugueses. Durante cento e dez dias, entre 17 de Julho e 3 de Novembro de 1975, a ponte aérea coordenada pelo coronel António Gonçalves Ribeiro tirou de Luanda meio milhão de pessoas. O êxodo angolano foi a maior deslocação de civis entre dois continentes alguma vez realizada. Nada de parecido aconteceu noutras ocasiões, nem nos casos traumáticos do antigo Congo belga (1960) ou da Argélia francesa (1962). E quem saiu de Moçambique teve de o fazer pelos seus meios, razão pela qual a larga maioria optou por fixar-se na África do Sul.

A influência de Soares, então ministro dos Negócios Estrangeiros, agilizou o processo, porque Soares tratava por tu os dirigentes da Internacional Socialista, muitos dos quais eram chefes de Governo, como Helmut Schmidt na Alemanha e Olof Palme na Suécia, e fez-lhes ver que a chegada de meio milhão de refugiados a um país do tamanho do nosso era um rastilho para a guerra civil. Um conjunto de medidas de excepção permitiu integrar essas populações no tecido social português. A Administração Pública absorveu nos seus quadros todos os funcionários públicos das antigas Colónias, aposentando expeditamente, qualquer que fosse a idade, os que tivessem 40 anos de descontos comprovados. A chegada de milhares de funcionários das antigas Colónias obrigou ao alargamento dos quadros, permitindo do mesmo passo integrar milhares de funcionários da “Metrópole” sem vínculo ao Estado (contratados, supra-numerários e outros). A Banca, nacionalizada em Março de 1975, absorveu parte dos empregados bancários. Ou seja: apenas os que mantiveram o exercício de funções, nas antigas Colónias, durante dois anos após as respectivas independências. Os que vieram mais cedo foram integrados na Administração Pública. Com regras muito rígidas, a Caixa Geral de Depósitos criou o crédito à habitação, durante vários anos reservado a famílias oriundas do Ultramar. Foram concedidos subsídios de integração e disponibilizadas linhas de crédito bonificado para permitir a rápida absorção dos soi disant “retornados”, facilitando a fixação no interior do país (e a criação de pequenos negócios) de mais de metade dessas pessoas. Tudo isto evitou convulsões sociais de proporções inimagináveis. Há outras variáveis, mas o quadro geral é este.

Ora se isto foi possível há 40 anos, num país pequeno e sem recursos, como é que a Europa no seu todo demonstra hoje tanta incapacidade para resolver o problema dos refugiados da Síria, Iraque, Afeganistão, Eritreia, Sudão, Líbia, etc.? Há uma resposta cínica: os europeus perderam a alma.

domingo, 30 de agosto de 2015

OLIVER SACKS 1933-2015


Morreu hoje em Nova Iorque o neurologista inglês Oliver Sacks, autor de uma obra em parte traduzida em Portugal pela editora Relógio d'Água. A imagem é do Guardian. Clique.

sábado, 29 de agosto de 2015

CONVÉM ESCLARECER

As afirmações de Paulo Rangel no acantonamento do PSD em Castelo de Vide têm de ser esclarecidas por Passos Coelho, como exige o PS, mas também pela Procuradora-Geral da República. Porque o que o eurodeputado do PSD disse, preto no branco, foi que o Ministério Público cumpre ordens do Governo que estiver em funções. Tão simples como isto. Terá Paulo Rangel, secretário de Estado adjunto do ministro da Justiça no XVI Governo Constitucional (2004-05), advogado e eurodeputado, informação privilegiada?

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

LUXO NA RIBEIRA

Há dois anos foi a Central Station, um conglomerado de startups, a ocupar parte do imenso edifício cor-de-rosa da Praça D. Luiz onde a partir de 1953 funcionou a Central Telefónica e Telegráfica de Lisboa, que mais tarde passou a Estação Central de Correios. Agora vai ser um condomínio de apartamentos de luxo assinados por um gabinete de arquitectos famosos. A 50 metros, o edifício ao lado da Roche Bobois sofre idêntica intervenção. É impressão minha ou de repente virou tudo milionário?

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

PRIMEIRO PASSO


Merkel deu o primeiro passo: suspendeu as regras, em vigor na UE desde 1990, que filtram o acesso de migrantes. Deste modo, a Alemanha abre as portas aos refugiados da Síria, do Iraque, do Afeganistão, etc., qualquer que tenha sido o método utilizado por eles para chegarem às fronteiras alemãs. A França e a Itália ficam, digamos, obrigadas a fazer o mesmo. A imagem é do Independent. Clique.

CONVINHA REEDITAR, 4


A maior parte dos portugueses nunca ouviu falar de João Pedro Grabato Dias, pseudónimo literário do pintor António Quadros (1933-1994), que começou por ser professor da Escola Superior de Belas Artes do Porto, depois andou por Paris como bolseiro da Gulbenkian, para de seguida radicar-se em Lourenço Marques, onde viveu durante vinte anos (1964-84) e se revelou poeta em 1968. Toda a obra foi publicada em Moçambique. António Quadros, de seu nome completo António Augusto Melo de Lucena e Quadros, é autor da letra de alguns dos maiores êxitos de Zeca Afonso, que também viveu em Moçambique (1964-67), onde, por intermédio de Rui Knopfli, conheceu e fez amizade com o futuro autor de Qvybyrycas.

Com extenso e corrosivo prefácio de Jorge de Sena, que em 1972 andou por Moçambique, Qvybyrycas foi publicado para assinalar os 400 anos da publicação de Os Lusíadas. António Quadros, já então autor de quatro livros assinados como Grabato Dias, publicou a obra com o heterónimo Frei Ioannes Garabatus.  (Em 1975, no auge da descolonização, inventaria outro, Mutimati Barnabé João, suposto guerrilheiro da Frelimo e autor de Eu, o Povo.) Aos 10 cantos e 1102 estâncias do poema de Camões, Garabatus opôs 11 cantos e 1180 estâncias. Esse acréscimo de um canto e 78 estâncias não foi inocente, como Sena explica com detalhe. Não há equivalente na poesia portuguesa mas a crítica universitária assobiou para o lado e a outra não deu por nada.

Em Portugal, Qvybyrycas foi reeditado em 1991, tendo o seu Terceiro Canto sido impresso em 1998 num dos livrinhos da Expo 98. É talvez chegada a hora de voltar a dar o livro à estampa. Clique na imagem.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

PESADELO

Só em Julho, cerca de 110 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo para entrar na Europa. Em 2014 foi um terço deste número. É a maior vaga migratória dos últimos 70 anos. Até há poucos meses vinham da Líbia, embora nos barcos da morte com destino a Lampedusa viessem refugiados de outros países do Magreb. Agora tudo mudou. Oriundos da Síria, do Iraque, do Afeganistão, da Eritreia, do Sudão e do Paquistão, dezenas de milhares de refugiados (um estatuto que não faz sentido aplicar aos paquistaneses) atravessaram a fronteira da Grécia com a Macedónia, onde foram metidos em comboios com destino à Sérvia. Vão esbarrar no muro que a Hungria colocou na frontreira. Ao pé disto, o que se passa em Calais e no Túnel da Mancha é pouco mais que um faits divers. Merkel e Hollande vão hoje discutir o assunto.

HERMÍNIO MARTINS 1934-2015


Morreu em Oxford o sociólogo Hermínio Martins, «o único cientista social português da sua geração conhecido na comunidade científica internacional», na síntese de António Costa Pinto. De tal modo que hoje é um nome central das ciências sociais no Reino Unido. Natural de Lourenço Marques, deixou Moçambique no início dos anos 1950 para estudar na London School of Economics, onde foi aluno de Popper e Michael Oakeshott. Professor em várias universidades, como Leeds e Harvard, fixou-se em Oxford, tendo leccionado no St Antony’s College entre 1971 e 2001. O óbito terá ocorrido no passado dia 19, mas só agora foi divulgado em Portugal. O essencial da obra está publicada em língua inglesa, mas talvez fosse altura de reeditar Hegel, Texas e Outros Ensaios de Teoria Social (1996) e Classe, Status e Poder e Outros Ensaios sobre o Portugal Contemporâneo (1998). Suponho que Experimentum Humanum. Civilização Tecnológica e Condição Humana (2011) não esteja esgotado. E, claro, aguardar a publicação de um volume inédito, escrito em inglês, onde Martins cruza três datas-chave da vida portuguesa: 5 de Outubro de 1910, 28 de Maio de 1926, 25 de Abril de 1974. A imagem é do site do St Antony’s College. Clique.