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quinta-feira, 11 de abril de 2019

AGUSTINA BIOGRAFADA


Hoje na Sábado.

Em Janeiro, na presença de Graça Fonseca, ministra da Cultura, a editora Contraponto apresentou na Biblioteca Nacional de Portugal o ambicioso projecto de uma colecção de biografias de Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, Natália Correia, Herberto Helder e outros. Os autores destas quatro são, respectivamente, Isabel Rio Novo, Bruno Vieira Amaral, Filipa Martins e João Pedro George. A presença da ministra surpreendeu muita gente e abriu um precedente. Graça Fonseca tenciona doravante caucionar a apresentação de colecções literárias?

A primeira, O Poço e a Estrada. Biografia de Agustina Bessa-Luís, de Isabel Rio Novo, chegou às livrarias em Fevereiro. Feita à revelia da família de Agustina, já comprometida com a editora Relógio d’Água e o historiador Rui Ramos, autor da aguardada biografia canónica, ressente-se da interdição a documentação privada, bem como da ausência de portfolio fotográfico. Isabel Rio Novo teve de fazer o seu trabalho a partir da leitura da obra, da bibliografia passiva, de alguma correspondência publicada, e de recortes de imprensa. A tudo isso acrescentou entrevistas com diversas personalidades, mas nenhuma delas ultrapassa anedotário conhecido e trivialidades domésticas. Talvez por isso, Carlos Maria Bobone tenha escrito no Observador que «O livro está cheio de historietas, descrições de paisagens, sentimentos, que por vezes conseguem ser interessantes, sim; no entanto, são interessantes pelo que Agustina disse ou escreveu sobre eles, não são interessantes por si próprios.» Noutro registo, Mário Santos escreveu no Público: «a leitura do livro é proveitosa e, em geral, prazenteira. Sobretudo, na parte concernente à infância, à juventude e aos primeiros anos do percurso literário da romancista

Sejamos claros: O Poço e a Estrada tem o mérito de exarar factos, datas, endereços, genealogias, equívocos, tensões familiares, a pulsão do Pai pelo jogo, o apoio do marido, a filha (a escritora Mónica Baldaque), os atritos com o crítico Jaime Brasil, as relações com Régio e Ferreira de Castro, a coquetterie inata, o enfado do milieu literário, um breve período depressivo, as adaptações de Manoel de Oliveira, a proximidade com a mulher de Francisco Sá Carneiro, as posições políticas, o ódio de estimação por Natália Correia, as amizades electivas com Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria Helena Vieira da Silva. Aqui chegados, podemos presumir que Isabel Rio Novo apenas omite dados constantes dos arquivos pessoais de Agustina.

Escrita com grande desenvoltura narrativa, O Poço e a Estrada lê-se como um romance (o título adapta uma frase de Agustina). São aliciantes as páginas dedicadas à Póvoa de Varzim dos anos 1930. E muito oportuna a lembrança da sua nomeação como directora do Teatro Nacional D. Maria II, de Lisboa, ao tempo em que Santana Lopes era secretário de Estado da Cultura. Foi ali na sala de Garrett que, para escândalo da intelligentsia, Agustina promoveu (em 1991) a exibição da revista Passa por mim no Rossio, de Filipe La Féria.

O livro de Isabel Rio Novo também não esquece a fortuna crítica, as viagens, os prémios, o apoio à despenalização da interrupção voluntária da gravidez e, por fim, o acidente vascular cerebral que obrigou à retirada da vida pública no início de 2007, pouco depois de, no fim de 2006, Agustina ter publicado A Ronda da Noite. Certas zonas de sombra são iluminadas por petite histoire avulsa. Efabulação? A biógrafa conclui: «O enigma de Agustina e da noite em que está encerrada já não pode ser auscultado.» 

O volume inclui índice onomástico e 80 páginas de notas remissivas. A grande falha é a ausência de uma bibliografia de Agustina. Os livros são citados (e muitos analisados), mas uma coisa não dispensa a outra. Porém, isso pode e deve resolver-se em próxima edição.

Publicou a Contraponto.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

OLGA TOKARCZUK


Hoje na Sábado escrevo sobre Viagens, da escritora polaca Olga Tokarczuk (n. 1962). Famosa no seu país, ganhou notoriedade planetária quando, em 2018, a tradução em língua inglesa venceu o Man Booker Internacional. O livro é de 2007, mas só agora chegou ao vasto mundo. Trata-se de uma compilação de fragmentos narrativos, mais de cem, nem todos ficcionais, muitos factuais (sobre a Wikipédia: «o projecto mais honesto que o homem já inventou»), de tamanho variável (vinte palavras, ensaios de várias páginas, verbetes curtos), experiências pessoais ou imaginadas, sobre temas tão diferentes como viagens aéreas, a Bíblia, dança do ventre, Atenas, pensos higiénicos, hotéis de luxo, Cleópatra, aparecimento das espécies, síndromes, Cioran, as reformas de Atatürk, idiossincrasias: «Têm de ir às Caraíbas, forçosamente! Especialmente a Cuba enquanto for governada por Fidel. […] Mas têm de se apressar, porque parece que Fidel está muito doente.» O livro fica a meio caminho entre o diário de apontamentos de um nómada e um almanaque erudito. São Petersburgo, Viena e Berlim fazem parte do guião. Doze mapas intercalam os textos. Duas estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

quinta-feira, 21 de março de 2019

NOVE LIVROS


Hoje na Sábado.

Com as livrarias entupidas, há que fazer contas e escolhas. Escolhi nove títulos: obras de Edward St Aubyn, Natalia Ginzburg, Artur Domoslawski, Alice Brito, Fernando Assis Pacheco, Marianne Moore, Lucia Berlin, Nuno Júdice e António Sousa Homem.

Edward St Aubyn (n. 1960), o romancista inglês mais fulgurante da sua geração, faz com Dunbar e as suas filhas a versão contemporânea dessa tragédia familiar que é o Lear de Shakespeare. Depois do quinteto Melrose parecia impossível manter a fasquia, mas St Aubyn chega lá. Henry Dunbar, CEO absoluto de uma multinacional de comunicação (alegoria de Murdoch?), enclausurado pela família numa residência sénior para bilionários, atolado em psicofármacos, consegue fugir, mas não recupera o poder global. Como sempre, St Aubyn é virtuoso na forma como descreve as personagens, os estados de espírito e as planícies geladas do Lake District. Notável. Cinco estrelas. Publicou a Bertrand.

A italiana Natalia Ginzburg (1916-1991), que andava desaparecida das livrarias portuguesas, regressa com Léxico Familiar, obra-chave desta autora que quis que lêssemos a história da sua família como um romance. O livro acompanha os anos da ascensão do fascismo italiano, as leis raciais de Mussolini e a Segunda Guerra Mundial. Os Levi são judeus, Natalia é a mais nova de cinco irmãos. Por sua casa, em Turim, passaram os amigos, intelectuais e poetas, entre eles Pavese. A escrita seca recupera os fulgores da adolescência, as ignomínias da guerra, os combates ideológicos, as dúvidas (América ou Palestina?), em suma, a vida como ela foi. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Um dos jornalistas mais célebres do século XX  foi o polaco Ryszard Kapuscinski (1932-2007), autor de livros que foram bestsellers planetários. Mas, como demonstrado na biografia escrita por Artur Domoslawski — Kapuscinski. Uma Vida —, o seu percurso está cheio de zonas de sombra. Domoslawski entrevistou a viúva, que tentou evitar a publicação do livro, incomodada com os detalhes sobre a vida privada de ambos (os casos extra-conjugais) e o facto de Kapuscinski ter sido agente activo dos serviços secretos polacos. A grande surpresa surge com a revelação de que muitos ‘factos’ eram efabulados: as amizades com Che Guevara, Allende e Lumumba; a presença na Praça de Tlatelolco, na Cidade do México, durante o massacre de 1968; a história de como o pai ‘escapou’ ao massacre de Katyn, etc. Kapuscinski defendia-se argumentando com a liberdade do jornalismo literário…  Quatro estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

Todos sabemos que Alice Brito (n. 1954) é uma escritora comprometida com a denúncia do tempo ominoso do fascismo: «Mas será que tem que se escrever […] sobre esta porra de existência que nos aconteceu?» Advogada, feminista e activista política, a nitidez da voz autoral traz com ela a vantagem suplementar da oralidade bem calibrada. A Noite Passada dá testemunho do país acabrunhado dos anos 1950-70, a queda do Estado Novo, os “desacertos” de Setúbal, cidade-palco do romance e, por fim, a ressaca  do 25 de Novembro de 1975. Alice Brito é muito hábil na forma como manipula o fluxo da consciência, encadeando factos reais ou imaginados: subalternidade das mulheres, gravidez fora do casamento, violência, delação, miséria, ignomínia da polícia política, guerra, traição. Quatro estrelas. Publicou a Planeta.

Nunca é de mais sublinhar a importância de Fernando Assis Pacheco (1937-1995) no contexto da poesia portuguesa do século XX. Mantendo o título original, A Musa Irregular, a edição aumentada da sua obra poética, organizada por Abel Barros Baptista, colige os dez livros publicados em vida, o Lote de Salvados que fechava o volume de 1991, o livro póstumo Respiração Assistida, apenas publicado em 2003, bem como um Suplemento ao Lote de Salvados, secção que inclui dez poemas-colagem, mas também inéditos e dispersos. Subsumindo o melhor da tradição, Assis Pacheco fez a síntese do classicismo com o modernismo, a declinação surrealista, o discurso fescenino, formas versificatórias próximas da cantiga popular e, formando um núcleo de grande exigência, os poemas da guerra colonial. Manuel Gusmão assina o posfácio. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

Graças a Rui Knopfli, descobri Marianne Moore (1887-1972) há perto de cinquenta anos. Agora, Margarida Vale de Gato acrescentou O Pangolim e Outros Poemas à língua portuguesa. Antologia bilingue, a tradutora ilumina a poesia daquela que considera ser «a mais persistente e porventura mais notável voz feminina» do modernismo americano. O gosto pelas aulas de biologia e histologia reflectiu-se no universo imagético, fundindo realidades díspares. Por exemplo, ornitologia, baseball e crustáceos: «caranguejos como lírios / verdes e submarinos / fungos, roçam como juncos.» A consagração chegou em 1951, quando Collected Poems recebeu os três prémios literários de maior prestígio nos Estados Unidos: o Pulitzer, o Bollingen e o National Book Award. Imprescindível. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

No texto que serve de prefácio à coletânea de contos Anoitecer no paraíso, Mark Berlin explica o que foi a vida da mãe, Lucia Berlin (1936-2004), outsider dos círculos institucionais da comunidade literária americana até à publicação do livro póstumo Manual para Mulheres de Limpeza, publicado onze anos após a sua morte. A vida (alcoolismo, toxicodependência, nomadismo) explica a obra, e é desse magma, mais tarde agravado pela doença, que Lucia extrai histórias prodigiosas, como são, entre outras, “Por vezes, no Verão”, “Anoitecer no paraíso”, “As esposas” ou “Pony Bar, Oakland”. Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.

Autor de uma obra extensa e poeta consagrado, Nuno Júdice (n. 1949) continua a publicar ficção, género em que O Café de Lenine é o título mais recente. Trata-se de uma novela que, a partir de clássicos da literatura universal, põe em pauta o presente. Sirvam de exemplo Madame Bovary, de Flaubert, e A Cartuxa de Parma, de Stendhal. Um divertissement culto com ecos do imaginário “surrealista”, forma enviesada de classificar uma narrativa suportada em personagens e factos concretos, directa ou indirectamente citados, tais como Lenine, Camões, Eça, Dante, Lispector, a Primeira República, o rendimento social de inserção, o ofício de escritor e outras derivas. Não é para qualquer um, mas Júdice consegue. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

António Sousa Homem, heterónimo de um conhecido escritor, deu à estampa mais uma compilação das suas crónicas — O Crepúsculo em Moledo. Acabado de sair dos prelos, com prefácio de João Pereira Coutinho, constitui a quarta colectânea de crónicas deste “reaccionário minhoto”, guardião dos pergaminhos de Moledo, advogado e botânico, porventura o derradeiro miguelista. Numa prosa irrepreensível, Sousa Homem ilustra o presente à luz da tradição histórica: «A verdade é que nunca fomos liberais. Temos um problema grave com o dicionárioQuatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

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quinta-feira, 14 de março de 2019

RICHARD ZIMLER


Hoje na Sábado escrevo sobre Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco, o romance mais recente do ciclo sefardita de Richard Zimler (n. 1956). O Holocausto continua a ser um dos temas centrais da obra do autor. Trata-se de ficcionar a “culpa” sentida por Benjamin e seu primo Shelley, dois sobreviventes que carregam o peso desse acto de transgressão (a sobrevivência em si mesma). O ponto não é despiciendo: houve quem sobrevivesse aos campos e fosse morto no regresso a casa. Citado de passagem a pretexto da relação amorosa de George com Shelley, o pogrom de Kielce (Polónia), ocorrido em 1946, é eloquente. Para quem vê de fora, parece estranho, mas Zimler dilucida a questão, manipulando com desenvoltura as várias personagens e os tempos da história. Dividida em seis capítulos, a narrativa vai de 1944 a 2018. Uma das chaves encontra-se num manuscrito do século XVI que só na actualidade, depois de lido, esclarece parte do sentido do plot. A fechar, um glossário hebraico/português ajuda o leitor interessado nos interstícios da intriga. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

CRISTINA CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre A Saga de Selma Lagerlöf, de Cristina Carvalho (n. 1949). Biografias romanceadas há muitas. O que Cristina Carvalho fez foi outra coisa: chamou-lhe romance biográfico. Ainda hoje a escritora sueca de maior projecção internacional, Selma Lagerlöf rompeu a barreira da língua, impondo-se ao vasto mundo. Verdade que o Nobel da Literatura ajudou, mas, em 1909, quando o recebeu, era já autora de um livro que se tornou um clássico, A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson pela Suécia. Com a focalização omnisciente levada ao extremo, a autora introduz-se na narrativa em nome próprio. Utiliza o expediente ao longo do livro, desde logo na descrição do enterro de Selma no cemitério da colina de Östra Ämtervik: «Agradeço-te muito, Cristina Carvalho, o facto de estares a falar por mim, mas não te alongues muito, não faz sentido, pouco interessa.» Facto é que, sem ignorar nenhum detalhe relevante, a autora constrói o livro como um patchwork de memórias. Está lá tudo: a casa de Marbacka; a descoberta dos pavões, acontecimento de tal modo marcante que pôs fim às limitações provocadas pela deficiência no quadril esquerdo com que Selma havia nascido («De repente, caminhei»); a morte do pai; os anos da juventude; o intervalo de Falun; a docência com crianças; a descoberta da condição feminina; o combate sufragista; as relações lésbicas (com Sophie Elkan, sua companheira durante 27 anos, mas também com Valborg Olander, amante e consultora literária); as viagens pela Europa e pela Palestina; o sucesso estrondoso do primeiro livro, A Saga de Gösta Berling (1891); a carreira literária ao arrepio dos padrões da época; o Prémio Nobel; o ingresso na Real Academia Sueca em 1914, privilégio até então vedado a mulheres; a troca de cartas com a poetisa Nelly Sachs, vítima do Holocausto e futura Nobel; a amizade com o pintor Carl Larsson; etc. Mas estão sobretudo os rituais escandinavos, os estados de espírito, as sensações, o peculiar universo de lobos, ursos, gralhas, bruxas, pragas e terrores. Bem como a marca identitária de Selma: «Sim, sou homossexual. Mas então, se não fosse era o quê?» Em suma, um belo romance biográfico. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

MARGARET DRABBLE


Hoje na Sábado escrevo sobre o romance mais recente de Margaret Drabble (n. 1939), Sobe a Maré Negra. Lembro-me da autora como ensaísta e editora do Oxford Companion to English Literature, mas, apesar de extensa, não conhecia a sua ficção. O título do romance remete para um conhecido poema de D.H. Lawrence (citado em epígrafe) sobre a finitude da vida. O romance põe em pauta a velhice tout court, bem como o ritual de sofrimento das doenças letais, “antecipando”, provavelmente, a morte recente da filha Rebecca, uma conhecida consultora literária, vítima de cancro aos 53 anos. E por vezes nem tanto. Frequentemente, o desconforto e as indignidades da velhice tornam-se tão incómodos que alguns preferem «embarcar num desses atos de loucura imprudente que leve tudo a um fim rápido…» Não se trata portanto de escrita light, antes pelo contrário, mas Margaret Drabble doseia bem o sarcasmo de forma a resgatar o romance da sua tonalidade sombria. A intriga é pontuada por citações ou alusões a Shakespeare, Beckett, Auden, Spender, Adorno, Edward Said e muitos outros, em parte por imperativo do tema, outro tanto porque as personagens do romance (como os próprios familiares da autora, irmã da romancista A.S. Byatt e da historiadora Helen Langdon) respiram literatura por todos os poros. Nem sequer escapa o casal gay formado por Ivor e Bennet. Certo pendor ensaístico (espécie de inventário histórico de mortes não relacionadas com a doença, tais como desastres naturais, guerras e crimes) mantém a narrativa suspensa num género fluido. Por exemplo, vejam-se as referências às vagas migratórias no Mediterrâneo: «Nenhum deles pode saber até que ponto a história dos imigrantes está longe de acabar [e] quanto mais gente se afogar, espera a Europa, mais se desencorajará a emigração e menos serão as bocas para a Europa alimentar.» Afinal, pode reflectir-se sobre a morte para lá dos muros das residências sénior. Verdade que o cinismo de Francesca Stubbs, a protagonista, prende o leitor. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

LITTELL & SMITH


Hoje na Sábado escrevo sobre Uma História Antiga, de Jonathan Littell (n. 1967), a nova versão, em sete capítulos, do díptico de 2012. Quando, em 2006, Littell publicou As Benevolentes, venceu, entre outros, o Goncourt e o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa, assim monopolizando todos os holofotes dos dois lados do Atlântico. Só em França, o romance vendeu um milhão de exemplares. Filho de escritor, Littell nasceu em Nova Iorque, estudou em França, mas regressou a Nova Iorque, onde escreveu o primeiro livro, uma novela cyberpunk, além uma série de ensaios polémicos sobre Bacon (o pintor), as guerras que devastaram a Síria, o Congo, a Tchechénia, o Afeganistão e a Geórgia, as crianças-soldado do Uganda — acerca das quais realizou em 2015 o documentário Wrong Elements —, os serviços secretos russos, o activista da extrema-direita belga Léon Degrelle, etc. Agora, esta nova versão de Uma História Antiga, não chegando a ser desastrosa, fica muito aquém dos mínimos exigidos a um autor desta envergadura. Os sete capítulos correspondem a diferentes variações do mesmo tema: sexo, dominação e poder. O narrador muda de género à medida que a narratriva progride. Fiel a si próprio, Littell descreve cenas de sexo em doses maciças, por norma em contexto de grande violência. Relações humanas, diz ele, no tom sobranceiro da prosa desta vez tão francesa. Littell entretém-se a ilustrar aquilo a que Freud chamou ‘conteúdo manifesto’ (nos sonhos) e ‘conteúdo latente’, sobrepondo ambos: «Um outro ânus estava mesmo junto do meu rosto e eu estendi a língua para o lamber […] Quando acordei, uma luz fria irradiava pelo quarto.» A piscina é a metáfora deste récit à maneira de Burroughs (o autor de Naked Lunch surge em cada frincha), o qual, ao contrário do original, substitui interditos por subterfúgios. O que pretende Littell? Transpor para o quotidiano das pessoas comuns o horror dos conflitos de que tem sido testemunha privilegiada? Sexualizar os Carnets de Homs, relato da viagem clandestina que fez à Síria? Afinal, nada do que relata é estranho às pessoas comuns. Com mais ou menos transgressão, estamos a falar de trivialidades. Duas estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Inverno, segundo volume da tetralogia das estações do ano, da escocêsa Ali Smith (n. 1962). Activista política e defensora dos direitos LGBTI, foca-se agora nas consequências do Brexit e na deriva populista encarnada po Trump, «um presidente norte-americano que tem por hábito comparar mulheres a cadelas [e que] encoraja os Escuteiros da América a vaiar o último presidente e a vaiar o nome da sua própria adversária nas eleições do ano passado.» Em Smith, nada é linear: a narrativa errática e os monólogos interiores permitem todo o tipo de digressões. O real (um deputado britânico a ladrar para uma colega de etnia diferente) pode ser surreal. Reflexões em torno de Cimbelino, de Shakespeare, servem de metáfora ao Brexit: «Uma peça sobre um reino assente no caos, na mentira, no exercício tirânico do poder…» Certa acumulação de referências sociais, como os direitos dos refugiados, as mudanças climáticas, as incertezas do pós-Brexit, o domínio das redes sociais, o fascismo subliminar, etc., tenderiam a fazer de Inverno um panfleto, não fosse o caso de Smith ser uma autora prodigiosa. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

BANVILLE & ONDAATJE


Hoje na Sábado escrevo sobre Mrs. Osmond, de John Banville (n. 1945), o irlandês que é actualmente um dos mais importantes autores vivos de língua inglesa. Só um autor como ele podia, sem cair no ridículo, escrever a sequela de Retrato de Uma Senhora, de Henry James. Fez isso neste seu romance mais recente, prolongamento das aventuras de Isabel Archer, a americana rica que se deixou seduzir por um europeu arrivista. O romance de 1881 é um clássico. Quem não leu James, viu com certeza o filme que Jane Campion fez em 1996, com Nicole Kidman e John Malkovich nos papéis de Isabel e Gilbert Osmond. Mrs. Osmond é um pastiche, com a vantagem suplementar de ‘responder’ ao livro de James, que tem um final ambíguo, coisa que agora não acontece. É provável que alguns jamesianos prefiram a história suspensa. Para muitos deles, é indiferente saber se Isabel volta para Gilbert. Mas esse detalhe hermenêutico vê-se ultrapassado pelo brilho estilístico de Banville, que resgata a intriga das incertezas e equívocos da obra-prima de James, fazendo a transição do romance vitoriano para a narrativa modernista. Isabel continua na Europa, em trânsito pela Inglaterra, França e Itália, porém ligada ao repelente marido. Banville cria novas personagens, sem excluir as de James: o primo Ralph, madame Merle (amante de Gilbert), Henrietta Stackpole e outras. A mais-valia radica no fôlego da escrita, quer se trate de descrições de viagens, factos triviais ou estados de alma: «Além disso, não estava na sua natureza esquivar-se ao dever e às coisas que reclamavam a sua intervenção. Na sua conceção de si mesma, sempre predominara a ideia de que na vida uma pessoa só consegue preservar o que resta da sua honra ao encarar cabalmente as suas más ações e a sua cumplicidade no mal…» O leitor talvez considere excessivo o uso de pronomes possessivos, que têm no texto original um peso diferente daquele que adquirem na língua de chegada, mas a prosódia tem exigências. No confronto com James, Banville dialoga de igual para igual, sobrepondo o virtuosismo da prosa à engrenagem do plot. O resultado é surpreendente. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre A Luz da Guerra, de Michael Ondaatje (n. 1943), poeta consagrado e romancista laureado, conhecido em todo o mundo desde que Anthony Minghella adaptou ao cinema O Paciente Inglês, provavelmente o melhor romance deste canadense nascido no Sri Lanka. A obra mais recente confirma a solidez de uma escrita convencional, porém sedutora. Estamos na ressaca da Blitz londrina, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. A primeira frase dá o tom: «Os nossos pais foram-se embora, deixando-nos ao cuidado de dois homens que podiam muito bem ser criminosos.» O motivo da inesperada partida para Singapura foi um mistério para Nathaniel e Rachel. Por que razão a mãe não levou consigo a mala de porão? Qual a natureza do trabalho que precipitou a partida? Serviços secretos? Fuga a segredos indizíveis? Como de regra, Ondaatje é minucioso nos detalhes da recriação de ambientes, mesmo (como aqui) em registo dickensiano. Do seu lugar de narrador autodiegético, Nathaniel conta como foi. Tudo aconteceu num tempo que a memória filtrou, sem os holofotes do presente. Música de câmara perfeita. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

MORANTE & BUKOWSKI


Hoje na Sábado escrevo sobre A História, da italiana Elsa Morante (1912-1985), tão arredia da edição portuguesa, ao contrário de seu marido, Alberto Moravia. É bom tê-la de volta. O mais famoso dos seus romances foi agora traduzido por José Lima. À data do lançamento, em 1974, no auge dos anos de chumbo italianos, a celeuma em torno do livro dividiu a intelligentsia marxista. Pasolini, de quem Morante era amiga e colaboradora em vários filmes, foi um crítico violento. Nunca mais se falaram até à morte do cineasta. Embora comece antes e acabe depois, A História centra-se na ocupação de Roma pelos nazis e, em particular, na história pessoal de Ida Ramundo, professora, judia, vítima de estupro (em sua própria casa) por um soldado alemão, bêbedo, incapaz de perceber que a epilepsia fizera Ida perder por momentos a consciência. Useppe, o segundo filho, nasceu em resultado. Mas o romance centra-se sobretudo na história da Europa do século XX. Pontuam o livro cronologias detalhadas de convulsões políticas ocorridas entre 1900 e 1967. Como se não fosse possível perceber Ida sem conhecer os porquês das duas Guerras Mundiais, a República de Salò, o estalinismo, as bombas de Hiroxima e Nagasaki, a vitória de Mao Tsé-Tung, o Muro de Berlim, a independência da Argélia, a crise dos mísseis soviéticos em Cuba, a guerra do Vietname, a onda de assassinatos políticos em Itália, o golpe dos coronéis em Atenas, etc. Na sua crueza, na ambiguidade das suas harmónicas («Ela redescobria aquela sensação de realização…»), nem o capítulo da violação dispensa contexto histórico. O relato do conflito é devastador. Morante tem uma escrita seca, precisa, capaz de, sem ênfase retórica, fazer o retrato vívido de personagens secundários (como é o caso de Davide Segre) e, ao mesmo tempo, descrever acontecimentos terríveis em grande angular. Inquéritos e listas valem o que valem, mas, segundo uma pesquisa feita em 1985 pelo jornal Corriere della Sera, A História é (ou era) o mais lido e discutido dos romances italianos contemporâneos. Fora de Itália, é considerado um dos cem romances mais importantes de sempre em qualquer língua. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Os Cães Ladram Facas, uma antologia da poesia de Charles Bukowski (1920-1994) organizada por Valério Romão a partir de vários livros, alguns póstumos. Selecção de 135 poemas traduzidos por Rosalina Marshall. A edição não é bilingue. No prefácio, Valério Romão alerta o leitor para a possibilidade de vários poemas póstumos terem «sofrido modificações consideráveis à mão do editor, John Martin.» Poeta e escritor do realismo sujo, a obra de Bukowski tem sido reavaliada depois da sua morte. Marginal ao sistema literário, desde cedo cantou as vidas dos deserdados e o absurdo da existência: «Somos pássaros moribundos / somos navios que se afundam — / o mundo balança contra nós […] e chamam ao nosso veneno política.» Clichês autobiográficos plasmados na obra: misoginia inata, sexo promíscuo, abuso de álcool e violência indiscriminada. A precariedade das profissões (operário fabril, carteiro, etc.) não o impediu de escrever dezenas de livros, incluindo seis romances e uma dúzia de colectâneas de contos. A Black Sparrow Press tem feito render o espólio. Três estrelas. Publicou a Alfaguara.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

MARÍAS & JONES


Hoje na Sábado escrevo sobre Berta Isla, o romance mais recente do espanhol Javier Marías (n. 1951). Trata-se de um thriller de espionagem que recupera Peter Wheeler, um dos personagens da trilogia O Teu Rosto Amanhã. O protagonista, Tom Nevinson, podia ser o alter-ego do autor, pois ambos, em determinado momento das suas vidas, trocaram Espanha por Oxford, pautando o dia a dia por idiossincrasias britânicas. Como em obras anteriores, a acção de Berta Isla — o nome da mulher de Tom — desenrola-se tendo a História europeia como pano de fundo. Desta vez, o leitor acompanha a turbulência de 1968 (o Maio francês, a ocupação de Praga pelos tanques do Pacto de Varsóvia) e o colapso da URSS em 1991, depois de passar pela guerrilha do Ulster, a guerra das Malvinas e a queda do Muro de Berlim. Sem esquecer a ditadura franquista, pretexto para Marías lembrar os ominosos tempos do caudilho, em especial os métodos de actuação das polícias espanholas. Em Oxford, Tom, cujos dotes de linguista e de mimo eram reconhecidos, vê-se compelido a ser espião ao serviço do MI6. Filho de pai inglês e mãe espanhola, reunia as condições «para ser útil ao país e o servir com as suas capacidades excepcionais.» Tom recusa a sugestão de Wheeler, mas um episódio macabro (uma mulher com quem fez sexo aparece estrangulada) coloca-o entre duas escolhas: acusação de assassinato ou tornar-se infiltrado com base em Madrid. A originalidade da intriga radica no facto de cruzar os incidentes da vida conjugal com os segredos da profissão. Por exemplo, Berta não sabe por que razão foi um dia atacada por um casal de activistas do IRA. O que queriam com ela os irlandeses? Embora se trate de um thriller, um dos aspectos mais interessantes e melhor resolvidos relaciona-se com a solidão de Berta (o meu marido é o meu marido?, interrogava-se), que foi mantendo breves casos extra-conjugais, mas durante vinte anos não desistiu de ver Tom de regresso a casa. Oportunas citações de Shakespeare (o contraponto de Thatcher com Henrique V em Agincourt, em 1415, é um achado) e T.S. Eliot, pontuam a narrativa. Cinco estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre Aquilo Que Encontrei na Praia, romance do escritor galês Cynan Jones (n. 1975). A vida dos que vivem no limite da sobrevivência é o tema central. Podia ser um thriller policial, na medida em que tudo começa com a descoberta do corpo de um homem com «um buraco na cara, um túnel até à nuca», homem a quem faltavam quase todos os dedos de uma das mãos. O livro foi publicado em 2011, no auge da crise europeia. No centro da intriga, Grzegorz, imigrante polaco, e Hold, um pescador. Tráfico de droga, chantagem, contabilidade paralela, expedientes que põem em risco o visto de Grzegorz, pretextos para Cynan Jones falar dos efeitos da desregulação do mercado, dos monopólios da cadeia alimentar e da globalização. Não é inocente que Grzegorz seja polaco: quando os britânicos se queixam dos estrangeiros que hoje em dia ocupam a generalidade das profissões pouco qualificadas, estão a pensar em polacos. Grzegorz lê o grafito todos os dias: «Polacos fora». Mas o medo é o que «mantém as pessoas na linha». Três estrelas. Publicou a Elsinore.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

DEANA BARROQUEIRO


Hoje na Sábado escrevo sobre Contos Eróticos do Velho Testamento, de Deana Barroqueiro (n. 1945), autora de romances históricos, que agora coligiu num único volume os 21 contos que escreveu a partir da Bíblia. Embora o erotismo seja moderado, a selecção faz jus ao título. Discurso directo: «Partindo dos estereótipos do Antigo Testamento, tive a pretensão de escrever uma saga histórica […] das mulheres da Antiguidade…» Trata-se portanto de fixar uma genealogia da mulher pré-emancipada. Numa linguagem escorreita, a autora compõe a narrativa de submissão, abuso, adultério e incesto de mulheres subjugadas à autoridade e aos caprichos dos seus amos, homens que foram príncipes, guerreiros, irmãos e pais, casos de, entre outros, Abraão, Booz, David, Amnon, Holofernes, Jacob e Sansão. Quem, tendo lido os textos sagrados, não reconhece Sarai, Abisag, Raquel, Betsabé, Thamar, Rute, Judite, Rebeca, Tirsa, Dalila e tantas mais? Algumas foram amadas, outras simplesmente humilhadas ou violentadas. Se outra coisa não fossem, os contos de Deana Barroqueiro servem de resgate da subalternidade de género em que todas viveram. Maria Teresa Horta assina o prefácio. Três estrelas. Publicou a Planeta.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

JONATHAN FRANZEN


Hoje na Sábado escrevo sobre O Fim do Fim da Terra, a nova e muito estimulante colectânea de ensaios de Jonathan Franzen (n. 1959). Pássaros, aquecimento global e vida literária são três dos vários assuntos abordados. O primeiro dos dezasseis textos aqui reunidos diz respeito à natureza actual do ensaio: micronarrativas publicadas nas redes sociais, domínio do EU nos media de referência, «testemunho introvertido na primeira pessoa» (os livros de Rachel Cusk e Karl Ove Knausgard), idiossincrasias dos críticos literários, etc. Uma das conclusões: «E a ficção literária, por sua vez, aproxima-se cada vez mais do ensaio.» Noutro registo, um ensaio sobre o 11 de Setembro é do melhor que se tem escrito acerca da tragédia. Edith Wharton merece páginas de grande empatia, numa close reading que ‘obriga’ o leitor a reler a obra da autora, em especial A Casa da Alegria. África, onde turistas ricos vão experenciar ilusões («criar memórias») em resorts protegidos de doença e miséria, suscita reflexões pertinentes. Sherry Turkle, a guru do MIT, serve de pretexto para introduzir o tema das novas tecnologias. Francamente bom. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

VITORINO NEMÉSIO


Hoje na Sábado escrevo sobre Poesia 1916-1940, o primeiro volume da obra completa de Vitorino Nemésio (1901-1978), poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, memorialista e cronista. Em boa hora a Imprensa Nacional, em parceria com a Companhia das Ilhas, decidiu reeditar a Obra. A este volume seguir-se-ão outros três de poesia, mais três de ficção e teatro, quatro de ensaio, e ainda seis de diário e crónicas. O presente volume, da responsabilidade de Luiz Fagundes Duarte, colige a poesia da juvenília — ou seja, a que foi publicada antes de 1935 —, acrescentando-lhe dois livros centrais à maturidade do autor: O Bicho Harmonioso (1938) e Eu, Comovido a Oeste (1940). Inclui também o prefácio escrito por Nemésio quando pela primeira vez organizou a sua poesia ‘completa’. Leitor de português na Universidade de Montpellier, foi ali que Nemésio deu à estampa La voyelle promise (1935), mas, passados 83 anos, não faz sentido continuar a publicar o livro em francês: as edições bilingues servem para preservar o texto original. Seria pleonástico insistir na importância da poesia nemesiana: «Mas então isto que é? Que violino engoli? / Que frauta rude aveludou a minha noite?» Uma voz de oiro. Cinco estrelas. Publicou a Imprensa Nacional em parceria com a Companhia das Ilhas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

MARIA JUDITE & PUCHNER


Hoje na Sábado escrevo sobre o segundo volume das obras completas de Maria Judite de Carvalho (1921-1998), contista e cronista de excepção. É importante que a obra da autora esteja a ser reeditada. Este volume colige duas colectâneas de contos — Paisagem Sem Barcos, 1963, O Seu Amor Por Etel, 1967 — e uma novela, Os Armários Vazios, 1966. Os acidentes biográficos talvez expliquem a rigidez do seu universo ficcional. Vivendo os pais na Bélgica, nasceu em Lisboa por acaso. Longe dos pais, foi educada por tias em ambiente austero. Mais tarde, acompanhou Urbano Tavares Rodrigues, seu marido, num exílio de vários anos em França. A partir de 1959, ano em publicou o primeiro livro, a colectânea de contos Tanta Gente, Mariana (a mais aclamada das suas obras), fixou por direito próprio o lugar que ocupa na Literatura portuguesa. Personalidade apagada, um tanto por contraponto ao perfil mundano do marido, escritor mediático e activista político, outro tanto por motivos de saúde (chegando nos últimos anos à deformação física), a obra reflecte o imaginário recalcado, cinzento, mesquinho e acomodado da sociedade portuguesa dos anos 1950 e 1960: «Uma amálgama de acontecimentos sem interesse e sem sentido.» Em contrapartida, a escrita da autora não tem nada de inócua. Bem pelo contrário. Numa prosa só na aparência desprendida, dominando bem os monólogos interiores, Maria Judite de Carvalho capta as subtis harmónicas do quotidiano, o espírito peganhento do tempo a enredar vidas sem horizonte, o confronto com outras realidades: «O Times é um jornal sério, não mente nem peca por omissão.» A novela Os Armários Vazios faz o retrato nítido do Portugal salazarista visto sob o ângulo da pequena-burguesia urbana, a pobreza envergonhada de Dora Rosário, «viúva de carreira», fumando um cigarro depois do café, vestida de preto durante dez anos, até ao dia em que a sogra lhe disse que o filho pensava viver com outra. Traços distintivos do meio em que Dora se movia, como abulia, resignação e preconceito, são descritos com sarcasmo. À beira dos 40, Dora muda a imagem. A filha fez o liceu, aprendeu línguas, podia perfeitamente ser hospedeira da TAP. O desfecho é absolut sixties. Quatro estrelas. Publicou a Minotauro.

Escrevo ainda sobre a obra mais recente do filósofo e ensaísta alemão Martin Puchner (n. 1969), O Mundo da Escrita. O subtítulo dá a medida da ambição: O poder das histórias que formaram os povos e as civilizações. Especialista em vanguardas e professor em Harvard, Puchner escreveu esta história da literatura universal dos primórdios — Épico de Gilgames, Homero, Bíblia hebraica, etc. — às novas tecnologias da escrita, como propiciadas pela Internet, passando pelo «puré medieval» com que J.K. Rowling molda a saga Harry Potter… Numa prosa envolvente, doseando erudição, humor e uma quota de imprevisto (a introdução aborda alguns aspectos da missão Apollo 8), Puchner faz close reading de obras que são património da humanidade. Entre outros, Cervantes, Goethe, Marx, Akhmátova, Soljenítsin e Walcott são apresentados com brilho. O fio condutor une As Mil e Uma Noites com a literatura pós-colonial, sem ignorar o contexto político de cada época. Uma obra indispensável, que inclui portfolio fotográfico. Cinco estrelas. Publicou a Temas e Debates.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

JON McGREGOR


Hoje na Sábado escrevo sobre Reservatório 13, do britânico Jon McGregor (n. 1976), autor que despertou a atenção da crítica com o seu primeiro romance, rapidamente traduzido entre nós. Tinha então 25 anos. O mais recente chegou agora às livrarias. Confirma os dotes do autor, várias vezes premiado, incensado por pares ilustres. Reservatório 13 parece um thriller em ambiente rural pós-moderno. No centro da intriga, o desaparecimento de uma adolescente, Rebecca Shaw, numa aldeia perto de Manchester. Os treze capítulos do livro sinalizam os anos de busca. Com excepção do primeiro, começam todos com a mesma frase: À meia-noite, na passagem de ano… O dia fatídico permanecerá um mistério. O foco não é tanto a rapariga, que pode ter partido por vontade própria, mas o microcosmo local. Rapidamente esquecemos Rebecca. O romance é sobre as pessoas da terra (solidão, aspirações, sexo voraz, intrigas), os colegas de escola, o quotidiano do Centro Comunitário, a equipa de críquete. McGregor é muito hábil na forma como monta o patchwork. Mas por que será que é sempre uma rapariga a desaparecer? Três estrelas. Publicou a Elsinore.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

CABRAL & MORRIS


Hoje na Sábado escrevo sobre Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral (n. 1990). A partir do brutal assassinato de Gisberta Salce Junior, transexual brasileira, o autor escreveu este romance não-ficcional. Quem leu A Sangue Frio, de Truman Capote, identifica o género. Factos: em Fevereiro de 2006, Gisberta, 45 anos, foi encontrada morta no poço alagado de um prédio inacabado da cidade do Porto, conhecido como Pão de Açúcar. Durante três dias, fora repetidamente violada e espancada por catorze rapazes, onze deles sob tutela da Oficina de São José, instituição católica vocacionada para o acolhimento de menores. Apenas um deles era maior de 16 anos. Gisberta foi atirada semi-nua para o poço, na presunção de que não resistira à tortura: pancada, queimaduras de cigarro, penetração com paus de madeira. A autópsia demonstrou que estava viva no momento da queda. Gisberta tinha sida, era toxicodependente, prostituta e sem-abrigo. Montou a sua barraca naquele andar vazio do Pão de Açúcar. Um dos rapazes é filho de uma prostituta que contratara como ama-seca uma mulher amiga de Gisberta. Em Setembro de 2007 todos estavam em liberdade. O caso chocou a opinião pública, mobilizou a comunidade LGBTI e deu origem a manifestações culturais (um documentário, duas peças de teatro, um poema notável de Alberto Pimenta, uma balada de Pedro Abrunhosa também interpretada por Maria Bethânia, vários textos de análise) que têm o seu corolário no romance de Afonso Reis Cabral agora publicado. Ficcionando a persona de Gisberta, foi com este material que o autor lidou. A narrativa centra-se no quotidiano dos rapazes (os da Oficina de São José e os outros três), tentando explicar o caldo de cultura que propiciou a barbárie. A deriva “literária” rouba força ao discurso. Diz o narrador: «Assim em repouso, bateu-me uma falta de ar que era tanto tristeza como excesso de amizade e muita falta de carinho.» O romance é antecedido de uma Nota Antes e fecha com uma Nota Depois. O autor deixa claro que está a lidar com factos verídicos alvo de cobertura mediática. É uma espécie de Balada dos Catorze, bem intencionada e naïve. Três estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Manhattan’45, de Jan Morris (n. 1926). Vários livros da autora têm sido traduzidos entre nós, sendo este o mais recente. Não se trata de um livro de viagens: é um livro sobre como era Manhattam em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Cada um dos sete capítulos tem secções autónomas sobre temas específicos: os transeuntes da Midtown, a fina flor, judeus, celebridades, as ruas, vida ao ar livre, tradições, etc., breves ensaios de recorte sociológico sobre a Nova Iorque de 1945, nas circunstâncias próprias do Armistício. O livro é de 1987, mas esta edição inclui a introdução de 2011. Seja como for, a escrita de Morris é de tal modo envolvente que nos esquecemos do facto central: aquela cidade já não existe. Um exemplo: a Ópera (o Met) não funciona desde 1966 na morada indicada. Uma nota de rodapé sinaliza o detalhe en passant, mas a minuciosa descrição dos programas operáticos e dos seus frequentadores reporta a 1945. Numa escrita de primeiríssima água, Morris doseia cultura, informação, humor, história, memória e idiossincrasias pessoais. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

HOLLINGHURST & LYNCH


Hoje na Sábado escrevo sobre O Caso Sparsholt, do inglês Alan Hollinghurst (n. 1954), que em trinta anos publicou seis romances. O melhor continua a ser o primeiro. O mais recente acaba de ser traduzido: as quinhentas páginas do costume, o nível semântico a que o autor nos habituou, quotidiano homossexual em registo upper class, transgressão moderada, ambientes sofisticados, códigos de casta e, claro, dezenas de personagens. A fórmula não falha. Dividido em cinco capítulos, o livro cobre várias décadas. O título remete para um escândalo fictício, envolvendo David Sparsholt, o pai do protagonista. Tudo começa em Oxford durante o Blitz de 1940. David era um rapaz muito atraente à beira de completar dezoito anos e de ingressar na Royal Air Force. Freddie Green narra essa primeira parte: «havia uma vontade de sublimar e enobrecer o corpo de Sparsholt para lá da realidade, já de si sublime.» O intróito contextualiza a narrativa. Nascido em 1952, Johnny é filho daquele mesmo David que electrizara o college. Retratista e restaurador de antiguidades, o seu percurso ilustra a evolução de costumes na Inglaterra. Após anos de sexo clandestino, tal como seu pai, gozou a libertação: clubes gays, aplicativos móveis para encontros de natureza sexual (como o Grindr), casamento com outro homem, uma filha gerada por doação de esperma a uma amiga lésbica. Hollinghurst regista o ar do tempo com sentido pedagógico. É deveras interessante a forma como transpõe para a vida de Johnny o quotidiano dos amigos que o pai fizera em Oxford. Omite a sida porque foi assunto foi tratado em romance anterior. Londres substitui Oxford, mas o universo social mantém-se: artistas e escritores oriundos da boa sociedade. Após a morte do marido (vítima de cancro da próstata), Johnny aceita retratar, ao jeito de conversation piece, a família de Bella Miserden, uma «loura pragmática» que conhecera por acaso na National Portrait Gallery. Os Miserdens eram novos-ricos ligados à multimédia, o tipo de gente que Johnny não frequentava. Atento às nuances comportamentais, Hollinghurst sugere nexo de causalidade entre a fase depressiva e a aceitação do trabalho. David praticamente desaparece do plot. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Espaço Para Sonhar, a biografia de David Lynch (n. 1946) escrita por Kristine Mackenna e pelo biografado. A edição portuguesa descobriu o filão biográfico. Ainda bem. Ela redigiu a biografia, ele acrescentou-lhe páginas de memórias. A solução não é comum, mas resultou. Obra a quatro mãos, portanto. Além de cineasta, Lynch também é actor, músico, pintor, fotógrafo, designer de móveis e autor de um livro sobre meditação transcendental que expõe o modo como aprendeu a controlar a sua própria violência. Ou seja, o mais próximo que hoje encontramos de um homem da Renascença. Para melhor compor o retrato, Kristine Mackenna fez mais de cem entrevistas com actores, agentes, amigos, antigas mulheres (Lynch casou quatro vezes), familiares, músicos e colaboradores. O mais interessante são as revelações sobre o móbil de certos filmes. Por exemplo, Lost Highway não existiria sem o caso O.J. Simpson. O fascínio por sangue é um item revelador. O volume inclui dezenas de fotografias, filmografia, cronologia de exposições, bibliografia, notas, e o indispensável índice remissivo. Uma edição cuidada. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

JEAN-PAUL DUBOIS


Hoje na Sábado escrevo sobre A Sucessão, do francês Jean-Paul Dubois (n. 1950). Seguindo à risca o padrão da ficção francesa contemporânea, o autor mete este mundo e o outro no mais recente dos seus romances. Paul Katrakilis, o narrador, é médico, filho e neto de médicos. Nunca exerceu. Em vez disso, tornou-se jogador profissional de pelota basca. Vem de uma família complicada: o avô Spyridon, antigo médico de Estaline, e o tio Jules, relojoeiro, suicidaram-se; a relação da mãe com o irmão roçava o incesto; o pai andava de bata e cuecas pelas alas psiquiátricas do hospital. Foi neste universo que Paul cresceu. Não admira que Miami tenha sido um intervalo de fuga para as suas obsessões. Mas Dubois não consegue alhear-se da Wikipédia. Sirva de exemplo o penúltimo parágrafo da página 144: «Borlin venceu a maratona…» / «Gorbatchev foi recebido…» / «a França de Mitterrand votava a lei…» Oito linhas estranhas ao plot. Há mais. A passagem do avô pela URSS tem momentos deveras surreais. A ideia seria falar de perda, mas o excesso de informação dinamita o propósito. Três estrelas. Publicou a Sextante.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

WOOLF & PADGETT


Hoje na Sábado escrevo sobre Viagens, de Virginia Woolf (1882-1941), um livro que a autora nunca escreveu. A partir de excertos do diário, cartas avulsas, artigos e ensaios, Jorge Vaz de Carvalho organizou um volume com este título. Com efeito, a autora de Mrs. Dalloway nunca escreveu um livro de viagens, mas a solução encontrada preenche a lacuna. Ao longo da vida, Virginia fez viagens a Itália, Portugal, Espanha, Grécia, Turquia, Alemanha, França, Irlanda e Holanda, repetindo algumas em anos diferentes. A França, por exemplo, foi dezasseis vezes. Escreveu sobre essas experiências a partir de Novembro de 1904, tinha então 22 anos. Várias delas foram mais tarde transpostas para obras de ficção. As observações sobre Portugal são parcimoniosas. Virginia e o irmão Adrian desembarcam em Leixões, apanhando no Porto o comboio para Lisboa porque uma avaria no navio alterou os planos iniciais. Acerca de Lisboa, diz que é uma cidade «ampla, brilhantemente branca e limpa...». Refere o Hotel Borges, onde ficaram instalados, os eléctricos velozes, o Cais do Sodré, a Praça do Cavalo Preto (o Terreiro do Paço) e uma visita ao cemitério inglês para ver a campa de Henry Fielding, o autor de Tom Jones (1749). A partida para Sevilha deu-se nessa mesma noite. Portugal foi um brevíssimo entreacto. Mas, por comparação com a capital portuguesa, considera Sevilha cheia de defeitos: «É uma cidade a que acho difícil acostumar-me.» Numa carta a Violet Dickinson datada de Abril de 1905, matiza o juízo, mas volta a sublinhar que «Lisboa é uma cidade esplêndida, com pelo menos um belo edifício, a grande igreja em Belém.» Na Primavera de 1925, no extremo Sul da França, acompanhada de Leonard, algures entre Cassis e La Ciotat, sente-se feliz: «Ninguém dirá de mim que não conheci a felicidade perfeita.» O turismo não era o que é hoje, mas Virginia não deixa de reflectir sobre relações entre «pessoas que não se conhecem». Em Maio de 1937, com a guerra no horizonte, Virginia volta a França: «No domingo foi a fête. Pessoas com roupas vivas. Aldeias cheias de homens negros, ali parados.» Um belo patchwork de textos de natureza diferente. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

Escrevo ainda sobre Poemas Escolhidos, do americano Ron Padgett (n. 1942). Uma selecção feita por Rosalina Marshall a partir de quatro livros do autor. O primeiro, Big Cabin, será inédito: não se encontram quaisquer referências a seu respeito, e Rosalina Marshall também o omite da bibliografia e da lista de títulos publicados. Padgett faz parte da segunda geração da denominada Escola de Nova Iorque, que tem Frank O’Hara e John Ashbery entre os seus notáveis. Além de sentido de humor, os poemas de Padgett têm ritmo jazzístico. É assim desde os primeiros livros, mas nota-se de forma clara no mais recente, Sozinho Mas Não Só (2015). Tradutor de Apollinaire e outros poetas franceses, amante de banda desenhada, doseia bem o nonsense e os envios culturais: «Passei toda a vida / a pensar que era um rapaz, / depois um homem […] e talvez um bocadinho borboleta.» A retórica belisca alguns poemas em prosa, e o mesmo sucede com os versos de Tudo Depende. Três estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

BALDWIN & OZ


Hoje na Sábado escrevo sobre Se Esta Rua Falasse, do americano James Baldwin (1924-1987). Vá-se lá saber porquê, o autor só agora teve uma obra sua traduzida em Portugal. Não estou a contar com o ensaio sobre a revolta dos negros americanos inserido em volume colectivo. Romancista, dramaturgo, poeta e ensaísta, Baldwin foi também um empenhado activista dos direitos civis, dentro e fora dos Estados Unidos (viveu dez anos em Paris e, a partir de 1970, em Saint-Paul-de-Vence). Negro e homossexual pobre do Harlem, tudo o afastava do meio literário. Contudo, o carácter autobiográfico do primeiro romance, Go Tell It on the Mountain (1953), colocou-o no radar da crítica americana, inglesa e francesa. Se Esta Rua Falasse, publicado em 1974, chegou agora pela mão de José Mário Silva. «Alonzo, vamos ter um bebé.» Feita por auscultador, a revelação dá o tiro de partida à primeira parte do romance. Clementine e Alonzo, 19 e 22 anos respectivamente, o par de namorados da rua Beale, estão separados por um vidro como de regra nos palratórios das prisões. Alonzo está preso por um estupro que não cometeu. O facto de ser um adolescente com excesso de hormonas não fazia dele o violador de Victoria Rogers, a porto-riquenha que o apontou na line-up da esquadra depois de haver sido «forçada a praticar as mais inimagináveis perversões sexuais.» Alonzo teve o azar de ficar na mira de um polícia racista. Narrada por Clementine, a história segue passo a passo a saga de duas famílias sem recursos, apostadas em provar a inocência de Alonzo. Em síntese, pode-se dizer que Baldwin faz o retrato da comunidade negra na América dos seventies, os anos do racismo puro e duro. Por fim, Alonzo sai em liberdade sob fiança (no dia em que o pai comete suicídio) e a criança nasce. A origem do dinheiro é obscura. O julgamento não cabe no plot. O título é uma parábola da desigualdade social: Se a rua Beale pudesse falar… É isso que Baldwin (antigo membro dos Panteras Negras) quis vincar. Os avanços e recuos cronológicos ajudam a contextualizar o ar do tempo. Cinco estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre Caros Fanáticos, do israelita Amos Oz (n. 1939), autor que dispensa apresentações. Defensor do direito dos palestinianos a um Estado independente, voz incómoda para Tel Aviv, juntou em  três ensaios sobre questões controversas de Israel. Questões de vida ou de morte, diz ele, ao caracterizar as reflexões. O livro abre com o ensaio que dá o título ao conjunto, adaptação alargada de conferências feitas na Alemanha. Centra-se no fanatismo islâmico, da Al-Qaeda ao Daesh, passando pelo Hezbollah e outros grupos radicais. O ódio identitário deu azo a uma «vaga de rejeição do outro», instalando o fanatismo universal. É interessante a forma como introduz comentários a obras suas de ficção, sinalizando temas concretos. O segundo, Luzes e não uma única luz, baseia-se num livro da filha. Judaísmo enquanto cultura «e não apenas como religião, e nação.» É porventura o mais erudito dos três. O terceiro, Sonhos de que Israel se deve libertar rapidamente, estatui de modo peremptório: «Se não houver aqui dois estados, e rapidamente, haverá apenas um.» (E será árabe.) Perturbador? Decerto. Amos Oz sabe do que fala. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.