Viver em democracia tem custos. Quem viu ou vê a série britânica The Crown, de Peter Morgan, que passa na Netflix, surpreende-se com a forma como temas ‘melindrosos’ são tratados. A relação de Isabel II com o marido não omite a faceta de mulherengo do Duque de Edimburgo. O próprio passado de Filipe é dissecado sem filtros: as simpatias nazis da família são expostas de forma bruta. Por falar em nazismo, o Duque de Windsor (o rei Eduardo VIII, que abdicou em 1936) não sai nada bem no retrato. O assunto não constitui novidade, mas nunca tinha sido tratado sem ambiguidades. O Duque queria mesmo regressar ao trono pela mão de Hitler. A crise do canal do Suez e a demissão de Eden mostram bem a hipocrisia brit. O mesmo se diga do escândalo Profumo, que não poupa o Duque de Edimburgo, habitué das festas de Stephen Ward, o osteopata que fornecia meninas à alta sociedade. Muito interessante o modo como o casamento da princesa Margarida com Tony Amstrong-Jones é ilustrado: a série põe o futuro Lord Snowdon na cama com outros cavalheiros, o que também não é uma revelação, mas uma coisa são rumores, outra bem diferente pôr os factos na televisão. Junte a tudo isto álcool e drogas. Ainda só vamos na segunda temporada, que termina em 1964, com o nascimento do príncipe Eduardo, o quarto filho da rainha, portanto imagina-se o que virá a seguir, com a entrada em cena de Diana. Não esquecer que a rainha e o marido estão vivos. Em Portugal, nem com gente morta há 500 anos seria possível.
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domingo, 17 de dezembro de 2017
segunda-feira, 30 de maio de 2016
GROTESCO
Se a ideia era contar a história da PIDE, qual o intuito de recuar a D. João II? Afinal, no século XV, o rei já tinha polícia política. São 500 anos de tradição... Então, qual o pecado do Estado Novo? Metendo tudo no mesmo saco (as guardas pretorianas da monarquia, a Inquisição, milícias de facção, a Carbonária, etc.), o primeiro episódio da série A PIDE antes da PIDE, que a RTP2 começou ontem a transmitir, defrauda as expectativas de quem quer conhecer a história da polícia política de Salazar. É como se, para explicar o anti-semitismo do III Reich, as normas em vigor na Judengasse de Frankfurt, o ghetto judeu que durou de 1462 a 1811, desculpassem o Holocausto. Grotesco.
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Eduardo Pitta
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sexta-feira, 27 de maio de 2016
NÃO ESQUECER
Há seis semanas que a RTP2 transmite, de segunda a sexta, a série Uma Aldeia Francesa de Philippe Triboit. Cinco episódios por semana. Não me recordo que algum jornal lhe tenha feito referência. Ontem passou o episódio 42, dos 60 que preenchem as seis temporadas concluídas (2009-16). A 7.ª ainda está em produção. Trata da ocupação da França pela Alemanha nazi. Verdade que a série não tem o glamour das grandes produções da HBO. Mas trata de forma assisada, e pedagógica, o drama da França ocupada, as ignomínias de Vichy, o aviltamento da colaboração, a deportação de judeus, a bufaria generalizada, as vidas dos homens e mulheres que fizeram a Resistência, etc. Um elenco muito vasto de que fazem parte, entre outros, Audrey Fleurot, Thierry Godard, Emmanuelle Bach, Robin Renucci, Marie Kremer, François Loriquet, Nade Dieu, Nicolas Gob, Fabrizio Rongione, Patrick Descamps, Martin Loizillon e Richard Sammel. Ora aí está uma série que devia ser exibida nas escolas de ensino secundário. A deriva da Europa actual não se compadece com o branqueamento da História. Nem sequer há o argumento das imagens insuportáveis. A ocupação da França foi um episódio tenebroso, como aqui documentado, mas o horror na sua forma mais exacta foi a Leste, especialmente na Polónia, Balcãs e União Soviética. Portanto não há nada que as ‘crianças’ não possam ver.
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Eduardo Pitta
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11:00
quinta-feira, 28 de abril de 2016
SALÁRIOS
A RTP, a SIC e a TVI divulgaram os seus relatórios referentes a 2015. Verifica-se que o salário médio mensal (catorze meses) dos seus trabalhadores, corresponde a 3.680 euros brutos (SIC), 3.220 (RTP) e 2.852 (TVI). Como todos sabemos, as médias mascaram a realidade. Muitos destes trabalhadores recebem menos do que a média, e alguns (entre outros, os pivôs) bastante mais. O que me surpreende é a quantidade de efectivos: 1.085 trabalhadores na SIC; 1648 na RTP e 1.088 na TVI.
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Eduardo Pitta
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11:55
terça-feira, 26 de abril de 2016
TRÊS HISTÓRIAS
Ontem, até quase à meia-noite, não li jornais, não ouvi rádio e não estive perto de nenhuma televisão. Isto para dizer que não acompanhei as celebrações protocolares, oficiais e oficiosas, do dia. Mas depois do jantar vi em diferido um painel da TVI onde Judite de Sousa juntou duas resistentes comunistas com Fernando Medina, filho e neto de comunistas. As duas senhoras, Faustina Barradas (1944) e Mariana Morais de Oliveira (1949), falaram da sua experiência na clandestinidade, em particular sobre o drama dos pais que eram obrigados a separar-se dos filhos. Faustina sem conter a emoção, Mariana com travão ideológico. Faustina veio do Alentejo da fome, Mariana foi aos 17 anos estudar dialéctica para a União Soviética, e relatou com pormenor as peripécias do salto de fronteira. Medina, que no 25 de Abril tinha pouco mais de um ano de idade, nasceu longe do pai, algures na clandestinidade. Foi por um anúncio de jornal (uma senha) que teve conhecimento do nascimento do filho, que é hoje presidente da Câmara de Lisboa. Memórias muito diferentes, todas comoventes. Fica-se sempre com um nó na garganta. Há ocasiões em que nos reconciliamos com a televisão.
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Eduardo Pitta
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10:00
quarta-feira, 15 de julho de 2015
ASFIXIA
A cessação unilateral do contrato que a TVI tinha com Augusto Santos Silva não surpreende. Numa frase curta, Santos Silva tem um poder letal (não isento de pedagogia) que a maioria dos comentadores profissionais não consegue numa hora de verborreia. Era preciso afastar o professor catedrático e antigo ministro. Até prova em contrário, a decisão será da responsabilidade de Sérgio Figueiredo, director de informação, e de José Alberto Carvalho, presidente do comité editorial da TVI. O contrato cessa no fim do mês, mas faz-me espécie que Santos Silva não tenha batido com a porta no dia em que soube do seu afastamento. Teria evitado a afronta de ontem: o seu espaço de opinião na TVI-24 foi substituído sem aviso prévio por um “debate” sobre a entrevista do primeiro-ministro à SIC. Isto dito, ainda me faz mais espécie que Fernando Medina, o presidente da Câmara de Lisboa, tenha aceite o convite da TVI para substituir Santos Silva a partir de Setembro.
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Eduardo Pitta
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09:55
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