Quarta-feira, Setembro 03, 2008

NOVO JÚDICE


No próximo dia 25, as Edições Nelson de Matos lançam o novo livro de poesia de Nuno Júdice, O Breve Sentimento do Eterno, colectânea de 41 poemas escritos em Dezembro de 2004, tendo como particularidade a reprodução dos manuscritos de cada um dos poemas. O volume inclui uma reflexão do autor sobre o acto físico de escrever, bem como das diferenças entre a escrita do poema e a de outros textos. A foto ao alto é um pormenor da capa.

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Sábado, Julho 19, 2008

EM ANTIOQUIA, 5


Depois de uma directa, com banho pelo meio, chegar ao aeroporto internacional de Medellín cerca das quatro da manhã, é quase um pesadelo. Frio, nevoeiro, fraqueza (não tinha comido nada depois do jantar), sono, inquérito para embarcar num voo AA, taxas de saída do país — duas: uma de USD$5, outra de 57mil pesos colombianos, ambas a pagar em dinheiro vivo —, imigação, tira sapatos, tira o cinto (as mulheres estão isentas das duas coisas), apalpa tudo, e como!, fito obstinado numa bebida quente, de preferência chocolate ou chá, mas estou por tudo, a garganta seca, podia ser café. Nada. Uma vez na zona de embarque, só a luz mortiça, o ruído da televisão, e um guarda armado a cada duas portas. Na sala 12 cruzo-me com Chiqui Vicioso e Alex Fleites que regressam à República Dominicana e a Cuba, respectivamente (ambos com escala no Panamá). A minha e a de Rachel Tzvia Back era a 13. Não chegamos a ver Roberta Hill e o marido, que eram supostos seguir no nosso voo para Miami. Penso no anel dos Andes e no nevoeiro, cada vez mais denso. O avião parte às 07:10h. Durmo as três horas seguidas. Em Miami, para quem vem do Sul, a imigração é a dobrar. Cinco dias antes, à chegada de Madrid, a imigração formal (cinco minutos). Agora, logo no fim da manga de desembarque, uma barreira de agentes, todos de origem mexicana ou afim, para a triagem informal: “Porquê Medellín?” / “Um Festival de Poesia?” / “Vá ali para o lado”. Fomos. Ao fim de 20 minutos somos chamados um a um (éramos quinze), inspeccionam a bagagem de mão, devolvem o passaporte a 3 dos 15. Os outros vão ter de os acompanhar à alfândega e abrir a bagagem de porão. Nós os três temos luz verde. Seguimos para a imigração formal. Escassos minutos, tudo OK. É preciso levantar a bagagem de porão para entregar de novo na conexão para Madrid. Não há que enganar. A sinalização é clara, o staff sabe o que faz, o serviço está bem montado. Tenho cinco longas horas pela frente. Vou directamente para o hotel que tem entrada pelo Terminal E. Hora e meia de spa, para relaxar, e depois almoço (USD$29, ou seja, 18 euros) no restaurante do último piso. A viagem de regresso é cansativa mas corre bem. Não consigo deixar de pensar no que Frank Chipasula me dissera no jantar da véspera: «Corremos o risco, sério, de ver repetir no Malawi, dentro de um ano, o actual caos do Zimbabwe.» Divido o sono intermitente com a leitura de Norman Davies — que o mexicano da imigração informal sacudira com frenesi à espera de ver cair sabe-se lá o quê —, e recordo os últimos dias: o afecto natural de gente que nunca vira na vida, o calor dos jovens, a magia da cidade, a excepcional qualidade das leituras de John Viana (o “meu” leitor) a partir da tradução que Elkin Obregón fez dos meus poemas, a gratificante descoberta de Débora Arango (pintora, 1907-2005) e Giovanni Quessep (poeta, n. 1939), a imersão na obra de Botero — há uma praça com uma dúzia de estátuas suas, mas a pintura faz esquecer tudo —, a política colombiana pela boca dos nativos. Todos me disseram: «Uribe é de extrema-direita!, o governo é de extrema-direita!» Depois mostravam, com orgulho, iniciativas de âmbito cultural e social. «Então o alcaide é de esquerda...?», perguntava. «Não. É de extrema-direita!» Então ficamos assim. [A imagem ao alto mostra um pormenor da biblioteca da Universidade CES.]

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Sexta-feira, Julho 18, 2008

EM ANTIOQUIA, 4


Os encontros de escritores, como os festivais de poesia e toda a sorte de reuniões corporativas (do cricket à medicina), são momentos privilegiados de exposição idiossincrática. Nenhum iluminado perde a oportunidade da pirueta. Isso também foi notório em Medellín, e de forma acentuada na sessão de encerramento, a chamada Clausura, que junta milhares de pessoas no Teatro Carlos Vieco, um auditório ao ar livre encravado no meio da densa vegetação da colina de Nutibara. Ao longo das seis horas (16-22h) em que durou, viu-se de tudo. Poetas circunspectos, histriónicos, militantes, tímidos, contagiantes, minimalistas, exóticos, etc. Competindo a cada poeta ler um poema, um só poema, porque são 74 e os poemas em língua estrangeira têm de ser lidos duas vezes (no original e em castelhano), há sempre quem faça uma particular interpretação da regra pré-determinada. Yolande Mukagasana (n. 1954), por exemplo. Yolande Mukagasana nasceu no Ruanda e sobreviveu ao genocídio de 1994, ocasião em que perdeu o marido, os três filhos e todos os irmãos e cunhados. Fundou uma associação para recordar o acontecido, tendo recebido prémios na Itália, Alemanha, França e Bélgica. Quando, passava das oito da noite, chegou a sua vez, a senhora fez um statement de vinte minutos, que teve de ser traduzido, e foi naturalmente muito aplaudido, lendo de seguida seis poemas que não eram propriamente haikus, e tiveram de ser traduzidos... Não foi caso único. O uruguaio Eduardo Espina (n. 1950) levou meia hora a ler, em ritmo frenético, o seu. Freedom Nyamubaya (n. 1958), do Zimbabwe, também leu vários, mas o prato-forte da sua performance foram os cinco minutos de gargalhadas com que antecedeu a leitura: ela chega, arranca o micro do suporte, saracoteia, e rompe num gargalhar estridente que a instalação sonora potencia. Puro circo, mas o auditório explode. O bielorruso Andrei Khadanovic (n. 1973) faz-se acompanhar à viola, dá pulos, fica a um passo da cambalhota, inverte a ordem de leitura: primeiro em castelhano (sem pulos), depois no original em overacting. O sul-africano Zolani Mkiva (n. 1974), representante da tradição oral ukubonga, Prémio Nelson Mandela, Príncipe da Poesia-Afro (sic), uma espécie de Poet Laureate zulu, militante do ANC, consegue estar um quarto de hora a dar estalidos com a língua... sem perder a respiração. Quem se portou muito bem foi Frank Chipasula (n. 1949), do Malawi, que fez um brevíssimo speech e leu de seguida um poema breve. Os poetas de expressão exótica a ouvidos castelhanos, como o coreano Kim Ki Dong (n. 1938), a israelita Rachel Tzvia Back (n. 1960; leu um poema em hebraico), a indiana Mamta Sagar (n. 1966), a vietnamita Nguyen Bao Chan (n. 1969), o estónio Jüri Talvet (n. 1945), o alemão Gerhard Falkner (n. 1951), o holandês Arjen Duinker (n. 1956), o esloveno Brane Mozetic (n. 1958), a norueguesa Tale Naess (n. 1969) ou o sueco Henrik Nilsson (n. 1971), suscitam sempre maior curiosidade que os de língua inglesa, ou seja, os da África anglófona, e também a americana Roberta Hill (n. 1947), o irlandês Joseph Woods (n. 1966) ou o canadiano Patrick Woodcock (n. 1968). O espanhol Marcos Ana (n. 1920), que vai ter as suas memórias adaptadas ao cinema por Almodóvar, e foi a “glória” do festival, bem como o francês Bernard Noël (n. 1930) ou o suíço Armin Senser (n. 1964), não tinham a seu favor o módico de estranheza de idiomas menos comuns. Os latino-americanos, com a assinalada excepção de Espina, respeitaram o figurino, e não merecem comentário especial, salvo para notar que o guatemalteco Alan Mills (n. 1979) arrebatou a assistência, primeiro com duas anedotas, depois com um poema de inegável qualidade. Fernando Rendón foi parcimonioso no discurso que fez (cerca de cinco minutos). Continua a intrigar-me como aqueles milhares de pessoas não arredaram pé ao longo das seis horas da sessão. Houve depois o jantar e recepção de despedida, muito barulhenta, e eu tinha de estar no lobby do hotel às 02:50h para seguir para o aeroporto... [Continua]

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Quinta-feira, Julho 17, 2008

EM ANTIOQUIA, 3


Para quem não saiba, Medellín tem 2,6 milhões de habitantes (a área metropolitana tem o dobro), o maior parque industrial da Colômbia, trinta universidades, dois aeroportos, actividade cultural intensa, a maior e melhor rede de bibliotecas do país, a maior e mais qualificada concentração de obras de Botero numa única cidade, a mais vasta rede de metro da América Latina, etc. Para o estrangeiro, é justamente o metro — nem Bogotá nem qualquer outra cidade colombiana dispõe desse meio de transporte — o que mais impressiona, até por contraste com a paleolítica frota de autocarros. O metro é moderno, limpo, eficiente, barato, funciona 24 horas, e liga a cidade aos municípios adjacentes de Itagüí, Envigado e Bello. Mais: o ultra-moderno Metro Cable (imagem ao alto), uma extensão do serviço do metro, trepa pela íngreme cordilheira — Medellín fica no Vale de Aburrá, rodeada pelos Andes — que cerca a cidade, única forma de levar a população pobre às favelas e, no caso particular de Santo Domingo, garantir acesso rápido de estudantes, investigadores e turistas à Biblioteca Espanha, obra do arquitecto Giancarlo Mazzanti que é o ai Jesus dos antioquenhos. Santo Domingo foi considerada, até ao fim dos anos 1990, a favela mais perigosa do mundo. É hoje um bairro procurado por turistas, seguro — parece que à custa de medidas que me abstenho de adjectivar... —, sossegado, limpo (mais limpo do que a Avenida de Roma, em Lisboa), pitoresco, totalmente electrificado e com saneamento básico pleno. Sei do que falo porque, tendo subido de Metro Cable, desci a pé, o que deu para 45 minutos de passeio. Mas ele há favelas e favelas, e não podemos tomar a parte pelo todo. Também vi, na parte do percurso de metro que acompanha o rio Medellín, imagens que só julgaria possíveis nas margens do Ganges. Isto dito, vamos ao festival de poesia. Nos oito dias que durou, o festival teve duas sessões colectivas (a abertura e o fecho), noventa e seis sessões en petit comité (quatro ou cinco poetas por sessão), mais catorze sessões noutras cidades de Antioquia. Houve ainda um seminário de poesia em doze sessões. Em simultâneo, porém em locais diferentes, realizaram-se por dia uma média de catorze sessões (no dia 5 houve apenas a abertura). Isto mobilizou os setenta e quatro poetas presentes, um batalhão de leitores/tradutores, apresentadores, etc. Os poetas que comigo dividiram as cinco sessões em que participei foram Isabel García, Julio César Arciniegas, José Zuleta e Eduardo Gómez (os quatro da Colômbia), Andrei Khadanovich (da Bielorrússia), Rachel Tzvia Back (de Israel), Lina Zerón (do México), Henrik Nilsson (da Suécia), Zolani Mkiva (da África do Sul), Lyerka Bonanno (da Venezuela), Alex Fleites (de Cuba), Joseph Woods (da Irlanda) e Marjorie Evasco (das Filipinas). Três bisaram: Rachel, Nilsson e Zuleta. A sessão com a venezuelana Lyerka foi a dois, por ter-se realizado no Suenan Timbres, um bar barra pesada onde se fez um silêncio de tumba assim que o apresentador deu início à sessão. De todas, a mais calorosa foi a realizada na Biblioteca Belén, que dispõe de um moderníssimo auditório, perante cerca de mil pessoas. As outras (falo por mim) tiveram lugar na Sala Beethoven da Fundação Bellas Artes, sala onde tem lugar a temporada anual de concertos clássicos; no jardim da Casa Museu Fernando González; e no Teatro Lido, totalmente recuperado e devolvido ao esplendor dos anos 1930. No final de cada sessão, dezenas de espectadores adolescentes (excepto no bar e na Casa Museu Fernando González, onde a média etária andava pelos 20-25 no primeiro caso, e nos 30-40 no segundo) precipitavam-se sobre os poetas, felicitando-os, fotografando-os e solicitando autógrafos na antologia de 400 páginas — três poemas de cada poeta, no original, em castelhano e inglês —, editada pela revista Prometeo. Tudo o que pudesse acrescentar seria hagiográfico. O fecho, ou Clausura, merece comentário autónomo. Fica para amanhã. [Nunca o referi, por me parecer óbvio, mas pelo correio de leitores verifico que nem todos sabem que, clicando nas imagens, se obtém a respectiva ampliação.]

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Quarta-feira, Julho 16, 2008

EM ANTIOQUIA, 2


Se para alguma coisa serviu, a minha recente viagem a Medellín provou — para usar uma formulação em voga — que a realidade é uma coisa, e a realidade dos media outra coisa qualquer. Verdade que nunca dei grande atenção à Colômbia. Mesmo o cartel liderado por Pablo Escobar era para mim uma referência vaga. Nessa medida, induzido pelo ruído dos media, parti para a capital de Antioquia com alguma ansiedade. Para quem viaja com ideias feitas, a chegada ao Aeroporto José María Córdoba (a cidade dispõe de outro, o Olaya Herrera, destinado a voos domésticos) não é propriamente auspiciosa. Pequeno, mal iluminado, com um polícia armado a cada dez metros, e um cão por cada dois polícias, o europeu habituado ao blasé do Espaço Schengen fica interdito. E se tudo acontece perto das 11 da noite, pior. O meu voo estava marcado para as 17:40h, mas só partiu de Miami às 19:50h, embora todos os passageiros estivessem a bordo desde as 17:35h. Todos, menos um. E como esse refractário não chegou, havia que tirar do avião a bagagem respectiva. Isso levou duas horas, dando azo a confraternização geral, com quatro quintos dos 300 passageiros de pé, falando alto, e copo em riste, como numa festa: champanhe californiano (os da executiva), sumos naturais, Coca-Cola ou vinho chileno a 6 dólares a garrafa de três decilitros. Uma vez no ar, a American Airlines serviu um excelente jantar, tal como acontecera com o almoço e lanche do voo entre Madrid e Miami. Em nenhuma outra companhia, mesmo quando viajei em executiva ou primeira, a qualidade das refeições atingiu tal nível. Desse modo, as três horas do percurso passaram num ápice. Medellín, portanto. Quem tenha visto La Virgen de los Sicarios — em Portugal correu como Nossa Senhora dos Matadores —, o filme que Barbet Schroeder fez em 2000 a partir do romance de Fernando Vallejo, ficou com essas imagens de violência gravadas na memória. Nunca esqueci as cenas nocturnas filmadas na Catedral Metropolitana. Aberto dia e noite, excepto das duas às seis da tarde, o templo é dedicado a Nossa Senhora dos Sicários. Consta que nenhum matador faz o trabalho contratado sem primeiro se encomendar à virgem. Por mim, coincidindo com o início da missa do meio-dia, vi outro tipo de cenas ilustradas no filme. Seria pleonástico descrever a grandiosidade da nave central ou do órgão de 3500 tubos. Mesmo em frente fica o Parque Bolívar (remeto os leitores para as cenas mais escatológicas de Gabriel García Márquez) e, no outro topo do jardim, a Passaje Junín, uma rua para peões, muito arborizada, com comércio popular e o Salon Versalles (sem i), onde se faz uma refeição completa, bastante aceitável, por 15 pesos colombianos (0,oo51 euros). Propriedade de um argentino, o restaurante é famoso por ser frequentado, no piso de cima, por estrangeiros, universitários, políticos da oposição, intelectuais e boémios tout court. Os clientes fumam que nem desalmados, mas como as janelas estão abertas e fazem corrente de ar, tudo OK. As paredes estão cobertas com gravuras, retratos e caricaturas emolduradas, tal como no Solar dos Presuntos de Lisboa. Não me recordo de ter comido um pêssego Melba tão delicioso! A Passaje Junín é o coração do downtown, ou centro histórico, hoje muito degradado, com milhares e milhares de pessoas acotovelando-se nos passeios, um trânsito caótico (quem conhece Calcutá tem a bitola), e o langor típico das gentes trepando pelas paredes. Outra rua para peões, muito característica, é a Carabobo, que tem numa extremidade o Museu de Antioquia (o espólio foi doado por Botero) e a Igreja de Vera Cruz e, na outra, o Centro Comercial Palacio Nacional, que podem ver na imagem ao alto. Construído em 1925, é hoje um shopping popular (como os do Martim Moniz), asseadíssimo e policiadíssimo, aberto 24 horas por dia, como de resto acontece noutros centros comerciais para a classe média alta, como El Tesoro ou o Oviedo, ambos no Poblado, o bairro chique da cidade. No Poblado, onde ficam os colégios privados, os clubes elegantes e os melhores restaurantes, o aluguer de um apartamento novo, de 300 metros quadrados, em condomínio fechado, custa 4 milhões de pesos colombianos (1369,91 euros). Amanhã há mais.

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Terça-feira, Julho 15, 2008

EM ANTIOQUIA, 1


Ao cabo de uma jornada de 29 horas consecutivas entre Medellín e Lisboa, repartidas por três voos (catorze horas), transfers e intervalos em três aeroportos (as outras quinze), estou de volta. Mais logo darei conta dos detalhes da décima oitava edição do Festival Internacional de Poesia de Medellín, que este ano provocou um tumulto nos círculos intelectuais da direita colombiana, levando-a a dizer em letra de forma o que até aqui era só rumor. Com efeito, os poetas Harold Alvarado Tenorio e Eduardo Escobar, ambos não participantes, publicaram nas respectivas colunas de imprensa artigos muito violentos contra a organização do festival, acusando-a de conluio com a «izquierda asesina», opinião corroborada por José Manuel Arango, Juan Manuel Roca e outros. Fernando Rendón, director do festival, respondeu em duas sulfurosas entrevistas, lembrando a posição de inequívoco repúdio das Farc, manifestada na Cimeira Mundial da Poesia de 2003. Além das acusações de natureza política, Tenorio & Escobar questionam os subsídios oficiais, o que não deixa de ser uma ironia: se a organização — afecta à revista Prometeo — tem conluio com «terroristas», como ambos afirmam, por que é que o governo de Uribe (e também os executivos alemão e suíço) subsidia o festival? Um dos jornalistas que acompanhou de perto a querela foi Yvette Siegert, da revista New Yorker, que se deslocou a Medellín para cobrir o evento. Outro convidado, o holandês Bas Kwakman, director do Festival Internacional de Poesia de Roterdão, manifestou-se (em entrevista publicada no jornal El Mundo, no último sábado) estupefacto com as acusações. Tricas à parte, o festival foi uma espantosa demonstração de vitalidade e profissionalismo. Não é fácil garantir a logística de 74 poetas, dos quais 60 estrangeiros (oriundos de 54 países), expressando-se em 28 idiomas diferentes. Facto é que nada falhou, da vulgar fotocópia à confirmação dos voos de regresso. A cada poeta de expressão não-castelhana foi atribuído um leitor/tradutor (o meu foi John Viana, um actor que desenvolve um projecto em torno de Pessoa) e essas dezenas de rapazes e raparigas, com o serem profissinais competentes, em nenhuma circunstância manifestaram cansaço. Pelo contrário. À chegada, o meu voo sofreu um atraso de duas horas; mas quando, perto das onze da noite, finalmente desembarquei, Juliana, Johny e Alexandra lá estavam, sorridentes, calorosos, sem ponta de enfado (nenhum dos três tinha jantado), conversando comigo durante o trajecto de pouco mais de uma hora até ao centro da cidade. No regresso, tendo que estar no aeroporto às quatro da manhã (o voo para Miami partia às sete), e sendo portanto necessário sair do hotel às 02:50h, a mesma irrestrita disponibilidade por parte da equipa de León, uma das que a essa hora tão impossível assegurou a partida de oito poetas (no meu voo seguiu também Rachel Tzvia Back, de Israel) para o outro lado do mundo. Ao alto, El Niño de Vallecas, de Botero, que foi quem melhor pintou e esculpiu os fantasmas de Medellín.

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Segunda-feira, Julho 07, 2008

A CAMINHO DOS ANDES


Como explicado aqui, estou de partida para o XVIII Festival Internacional de Poesia de Medellín, que começou anteontem naquela cidade colombiana e encerra no próximo dia 12. A partir de dia 15 conto como foi.

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Sábado, Julho 05, 2008

XVIII FESTIVAL INTERNACIONAL DE POESIA DE MEDELLÍN


Hoje, quando forem 22:00h em Portugal, [16:00h na Colômbia] começa o XVIII Festival Internacional de Poesia de Medellín, ao qual me juntarei na próxima terça-feira, dia 8 (razões de natureza particular impedem-me de viajar mais cedo). Não é a primeira vez que poetas portugueses participam no festival. Em anos anteriores, Ana Luísa Amaral, Casimiro de Brito, Egito Gonçalves, Fernando Aguiar, Fernando Echevarría, Nuno Júdice, Paulo Teixeira e Rosa Alice Branco passaram por lá. Esta semana encontram-se em Medellín 76 poetas de 52 países, embora, como acontece comigo, nem todos cheguem hoje. Na sessão de encerramento, no próximo dia 12, será entregue o Prémio Nacional de Poesia ao poeta colombiano Omar García Ramírez, por La balsa de la Medusa y otros poemas. Nos oito dias em que decorrerá, as inúmeras sessões de leitura e as mesas-redondas terão lugar em teatros, museus, bibliotecas, fundações, universidades, parques públicos, escolas dos subúrbios e também (a abertura e o encerramento) no Auditório Carlos Vieco, uma imensa estrutura ao ar livre encravada na colina de Nutibara. Em reconhecimento da sua importância, a Academia Sueca atribuiu em 2006 um Nobel alternativo ao Festival, entregue aos seus fundadores Fernando Rendón, Gloria Chvatal e Gabriel Jaime Franco, em cerimónia realizada no Parlamento Sueco.

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Quarta-feira, Junho 04, 2008

GRANDE PRÉMIO DA APE


Por unanimidade, foi atribuído a Ana Luísa Amaral (n. 1956), professora associada da Faculdade de Letras do Porto, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, pelo livro Entre Dois Rios e Outras Noites. Recensão de Rosa Maria Martelo aqui.

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Sexta-feira, Maio 30, 2008

FÁTIMA


Como aqui se diz, já estão disponíveis os dois primeiros volumes da colecção de obras completas de António Botto. O segundo, Fátima — o qual, dado o seu carácter religioso, deixei de fora de Canções e Outros Poemas —, foi publicado no Brasil, no âmbito do XXXVI Congresso Eucarístico, o que dá a medida da profunda crise de fé que acompanhou o poeta nos últimos anos de vida. Se nos lembrarmos que a reunião dos seus contos para a infância, em 1942, assumira o beneplácito explícito da hierarquia da Igreja — «Aprovados em Portugal por Sua Eminência o Cardeal Patriarca», lê-se no frontispício do volume —, Fátima surge como corolário dessa revisão de vida e obra. Com efeito, neste poema, o esteta sensualista de Piquenas Esculturas (1925) dá lugar ao crente face à expiação, alguém que, vamos supor, tendo lido Heidegger, sabe que o homem «não está apenas carregado de erros, está em falta». Também do ponto de vista formal a mudança foi nítida, uma vez que Fátima cede às exigências da métrica tradicional. Refira-se, a título de curiosidade, que o autor assinou a obra como António Boto, com supressão do duplo t, como optara por fazer desde que em 1947 se expatriou no Brasil.

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Quinta-feira, Maio 29, 2008

ANTÓNIO BOTTO


Numa livraria ou feira perto de si, os dois primeiros volumes da colecção de obras completas de António Botto, por mim dirigida: Canções e Outros Poemas (na imagem) e Fátima. À semelhança de Leaves of Grass de Walt Whitman ou de O Medo de Al Berto, Canções é uma obra que foi crescendo, entre 1921 e 1941, sucessivamente acrescentada de novos títulos, até atingir, na sua forma definitiva, os quinze livros que a compõem:

1. Adolescente / 2. Curiosidades Estéticas / 3. Piquenas Esculturas / 4. Olimpíadas / 5. Dandismo / 6. Ciúme / 7. Baionetas da Morte / 8. Piquenas Canções de Cabaret / 9. Intervalo / 10. Aves de Um Parque Real / 11. Poema de Cinza / 12. Tristes Cantigas de Amor / 13. A Vida Que Te Dei / 14. Sonetos / 15. Toda a Vida.

Para esta edição segui a de Abril de 1941. Decidi assim por ser a que ficou a salvo dos cortes e acrescentos de outras que se seguiram. Porém, sem prejuízo dessa decisão, foram cotejadas as de 1932, 1944 e 1956, com vista a dirimir dúvidas na fixação do texto. Verificando que, em 1944, António Botto alterou profundamente a estrutura de Toda a Vida, tendo-o feito com alto conseguimento, optei, para esse livro, por seguir a referida edição. Cartas Que Me Foram Devolvidas, uma sequência em prosa constante da edição de 1941, terá publicação em volume autónomo. No seu lugar surge O Livro do Povo, obra de 1944. Foram também incluídos dez longos poemas de Ainda Não Se Escreveu, colectânea irregular publicada três meses depois da morte do poeta. Entre edições vigiadas por Botto, antes e depois da partida para o Brasil em 1947, e edições feitas à sua revelia, em Portugal e no Brasil, antes e depois de 1959, é praticamente impossível seguir o rasto da obra, em particular o de Canções. Como a esse conjunto de quinze livros juntei outro e ainda parte de outro, tem razão de ser o título ora adoptado: Canções e Outros Poemas. Nas suas 427 páginas, este volume reúne a quase totalidade da obra poética do autor. De fora ficaram os poemas de Ódio e Amor (1947), colectânea menor, bem como Fátima (1955), publicado no Brasil no auge de uma crise de fé, já disponível em volume próprio (o 2.º da colecção). Seguem-se outros dedicados à prosa, aos contos, incluindo os para crianças, ao teatro, aos cantares e, a fechar, Ele Que Diga Se Eu Minto (1945), breves apontamentos do quotidiano, num registo a que hoje chamaríamos posts. Cada um dos oito volumes inclui nota editorial, bem como cronologia biobibliográfica. O primeiro, Canções e Outros poemas, inclui também uma introdução. Já não há desculpa para não ler o Botto.

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Quarta-feira, Maio 14, 2008

A MATÉRIA DO POEMA


Há doze anos, escrevendo sobre O Movimento do Mundo (1996), citei T. S. Eliot: «A palavra tem, e continuará a ter, vários significados em vários contextos». Faço-o de novo, agora que Nuno Júdice (n. 1949) publica A matéria do poema, por me parecer que o juízo de Eliot, na sua aparente redundância, define com clareza o sentido de uma obra que desde A Noção de Poema (1972) não parou de nos surpreender, sem, contudo, se afastar do propósito original. Neste mais recente livro, o grão da voz sobreleva (mas não rasura) a música dos versos. Fica um exemplo:


Gramática: O Verbo

Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada um sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o enunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir
.

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Domingo, Abril 27, 2008

ESCAPADA


Três dias no Algarve, por causa da Bienal de Poesia de Silves. Oportunidade para reencontrar amigos, conhecer gente nova, descobrir vocações. Um tempo magnífico (a imagem foi obtida a partir da varanda do meu quarto, às 10 da manhã de ontem), a hospitalidade generosa de Maria Gabriela Rocha Gouveia e de todo o staff da autarquia, as magníficas instalações da nova Biblioteca Municipal, onde decorreram as sessões, o ambiente descontraído dos almoços e jantares, tudo contribuiu para um fim-de-semana diferente. O manuel a. domingos também andou por lá. Houve de tudo: cantares à desgarrada (nanja eu), egos inflacionados, gossip político (o PS tem um peso-pesado para apresentar em Silves nas próximas autárquicas), poemas ao vivo, provas de vinho, cavaqueio sobre Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu com Denise Ferraz, uma simpática scholar brasileira, um pianista cego com voz de barítono, um episódio boliviano que envolveu Maria Estela Guedes, a força da natureza que é Luís Carlos de Abreu, etc. Também houve uma homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, marcada para o fim da tarde de hoje, a que já não pude assistir, com grande pena, mas tinha outro compromisso em Lisboa. Do muito que ouvi, retive com particular agrado a comunicação de Marco Alexandre Rebelo, um jovem mestre em estudos portugueses e teoria da literatura da Universidade Nova de Lisboa, bem como os poemas de Aida Monteiro e manuel a. domingos. Ontem à noite, num serão informal, o romancista Domingos Lobo, cuja poesia não conhecia, surpreendeu toda a gente com a leitura de um (magnífico) poema de homenagem a Luiz Pacheco. Valeu a pena. Está explicado o motivo porque hoje não pus em linha o habitual Ler os Outros.

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Quinta-feira, Abril 24, 2008

III BIENAL DE POESIA DE SILVES


Coincidindo com a inauguração da nova Biblioteca Municipal, onde vão decorrer as sessões, começa amanhã em Silves a III Bienal de Poesia, que encerra no domingo com uma homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, cabendo a Domingos Lobo a oração de sapiência. Participam Aida Monteiro, António Simões, João Rasteiro, Jorge Fragoso, Marco Alexandre Rebelo, Maria Azenha, Maria Gomes, bruno béu, eu próprio, Graça Magalhães, José Ribeiro Marto, Maria Toscano, Rui Mendes, Teresa Tudela, Luís Serrano, Maria Estela Guedes, Maria do Sameiro Barroso, manuel a. domingos, Manuel Madeira, Porfírio Al Brandão, Luís Carlos de Abreu, Paulo Penisga e Silvestre Raposo, os três últimos como moderadores das mesas redondas. Vai haver performances pelo grupo Experiment’Arte, uma exposição da pintora Marta Jacinto e, na noite de sábado, no Bar da Fábrica do Inglês, a apresentação da antologia Nas Margens da Poesia. [A foto ao alto é de Dias dos Reis]

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Domingo, Abril 13, 2008

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Acaba de ser publicada em Madrid — o lançamento foi a semana passada, no Círculo de Belas Artes da capital espanhola — uma antologia bilingue de Nuno Júdice (n. 1949), que tem a particularidade de estar circunscrita a poemas de temática amorosa: Tú, a quien llamo amor. São 49 poemas, distribuídos por 15 livros, publicados entre 1975 e 2006, traduzidos por Jesús Munárriz. O volume saiu na colecção de poesia da Hiperión, editora que tem no seu catálogo outros portugueses: Fernando Pessoa (o ortónimo e Álvaro de Campos), Mário de Sá-Carneiro, Cesário Verde, Camilo Pessanha, José de Almada Negreiros, Eugénio de Andrade, Herberto Helder e Vasco Graça Moura, todos em volumes próprios, e ainda uma antologia com Sophia, Eugénio, Fiama, Júdice, Ruy Belo, Pedro Tamen, Gastão Cruz, Fernando Pinto do Amaral e Ana Luísa Amaral. Outros poetas de língua portuguesa representados na Hiperión são os brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Armando Freitas Filho. Tú, a quien llamo amor corresponde a uma selecção de Manuela Júdice, sendo a introdução assinada por Inês Pedrosa. O alusivo desenho da capa é do pintor Jorge Martins.


O Rui Cóias tem um blogue novo: Boulevard Hotel.

Filipe Nunes Vicente: «Mais tarde ou mais cedo serão vocês os habitantes dessa reunião mental, o anfitrião alguém que sentirá a vossa falta.»

João Gonçalves: «Naqueles anos ninguém se preocupava em saber se as salas eram “confortáveis” ou se era possível levar pipocas e coca-colas lá para dentro. Não. Era a pueril alegria de ver cinema.»

LER: «Demitiu-se a directora da área escolar da Asa durante mais de vinte anos, Manuela Magalhães, que abandonou o grupo LeYa.»

Pedro Vieira: «Ruca desconfia que incidente de recusa foi quando a soraia não se negou ao arrebimba ao malho, excepto quando se alvitrou a hipótese do cú.»

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Terça-feira, Abril 08, 2008

O AMANTE JAPONÊS


Já está nas livrarias o novo livro de Armando Silva Carvalho (n. 1938), O Amante Japonês, colectânea de 67 poemas, alguns a partir do Apóstolo João, mas também de Pessanha, Herberto, Novalis, Blake, Wagner, Luiz Pacheco, Carlos de Oliveira e Manuel de Freitas.


Hoje os olhos são míopes
E eu um assassino dentro do teu corpo.
Há palavras de sangue caídas
Ao meu lado.

Mas sorvo mesmo assim essas imagens densas
Enquanto o esforço sobe o nevoeiro
E tu não te arrependes de me levares contigo
Atraiçoado
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Segunda-feira, Março 17, 2008

NAMBUANGONGO, MEU AMOR


Em 1995, escrevendo sobre Manuel Alegre, lembrei o eco dos seus poemas nas casernas e picadas do Império. A título de exemplo, citei meia dúzia de versos do Canto Peninsular: «Estar aqui dói-me. E eu estou aqui / há novecentos anos. Não cresci nem mudei. / Apodreci. / Doem-me as próprias raízes que criei. [...] Mas nunca ninguém me disse a razão por que me dói / estar aqui.» Depois disso, Manuel Alegre publicou inúmeros livros, de poesia e ficção. Agora, por reconhecer neles (e bem) uma «identidade própria», reuniu os poemas da guerra em volume autónomo: Nambuangongo, meu amor. Trata-se, portanto, de uma antologia, que foi buscar poemas a quatro livros: Praça da Canção (1965), O Canto e as Armas (1967), Atlântico (1981) e o último a Doze Naus (2007). A seriação actual não obedece à cronologia com que foram originalmente editados, antes seguindo um fio condutor que permite estabelecer nexos «entre eles e o tempo ou tempos da própria guerra». Nambuangongo, meu amor é lançado hoje, às 19:30h, no Palácio Galveias, em Lisboa. Lídia Jorge apresenta.

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Domingo, Novembro 25, 2007

DESCONSTRUIR, EIS A QUESTÃO


O encontro de Mesão Frio não podia ter corrido melhor. O tempo ajudou: três dias de sol magnífico e frio como deve ser. O resto ficou por conta das pessoas (os poetas e os jornalistas que foram convidados, entre eles Francisco Belard e Luís Caetano) e, naturalmente, dos chefs de cozinha do grupo CS Hotéis. Manuel António Pina e Maria Teresa Horta acabaram por não poder ir, por motivos de saúde, mas foram prontamente substituídos por valter hugo mãe e Maria do Rosário Pedreira, não necessariamente por esta ordem, na medida em que uma notável da terra, olhando fixamente o crânio rapado do valter, afirmou estar na presença de, e passo a citar, «a Maria Teresa Horta desconstruída», síntese que provocou frisson no salão, embora alguns presidentes de Junta não tenham atinado com o raciocínio. Estaria a senhora sugestionada com o poema em que o valter fala de «ir dar o cu à pátria»? (cf. a pátria em português de dois mil e seis, in pornografia erudita, Cosmorama: 2007) É possível. A alteração do elenco de poetas mudou as balizas de leitura: prevista para ir do Plioceno à Modernidade, centrou-se no período que vai dos seventies à era pós-punk. Verdade que correu muito bem. Abriu com o valter, por ser o mais novo, progredindo cronologicamente com o Fernando Pinto do Amaral, a Maria do Rosário Pedreira, a Helga Moreira, eu (infelizmente o mais velho dos portugueses) e, por fim, o espanhol Juan Carlos Mestre, que fechou a sessão por ser o poeta estrangeiro convidado. A sua intervenção diferiu da nossa por ter correspondido a uma performance em que a leitura foi pontuada por instrumentos musicais. Uma boa surpresa! Cabe lembrar que Manuel Alberto Valente, o editor da Asa, apresentou os poetas como deve ser, que o mesmo é dizer, com naturalidade e objectividade. Depois da prova cega de vinhos (do Porto, of course) a que todos fomos submetidos no Pinhão, e do jantar bem regado, a descontracção era de regra. Dir-se-ia que o espírito de Lipovetsky pairava naquelas salas desenhadas por Nasoni. Por falar na prova cega... quem a ganhou foi o Fernando. O resto, foi o trivial em encontros de escritores: gossip & gossip. Não é daí que vem mal ao mundo. Já não há, como no tempo de Rilke, príncipes mecenas como os Thurn und Taxis, mas a Carlos Saraiva, CEO do grupo CS Hotéis, também não falta rasgo para este tipo de apostas. Por último, mas não em último, vai daqui um abraço para quem anonimamente tem sido (e anónimo quer continuar) o ideólogo destes encontros que chegaram este ano à sua terceira edição. Na foto de grupo que se vê ao alto, só falta a Helga Moreira. Onde andaria ela metida?

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Quinta-feira, Novembro 22, 2007

POETAS EM MESÃO FRIO


Entre amanhã e domingo, seis poetas vão juntar-se no Solar da Rede, em Mesão Frio, para ler e falar de poesia. Mecenas: o grupo CS Hotéis. Manuel Alberto Valente será como sempre um mestre de cerimónias atento aos mais pequenos pormenores. Melhor do que ninguém, conhece a raça dos poetas. De Espanha vem Juan Carlos Mestre, que além de poeta é artista plástico; do Porto seguem Helga Moreira e Manuel António Pina; e daqui de Lisboa vou eu, mais o Fernando Pinto do Amaral e a Maria Teresa Horta. Depois conto como foi.

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Quarta-feira, Outubro 17, 2007

O GRIOT E A KORA


Este ano, pela primeira vez, o Ars Amandi reuniu poetas da África francófona e da Moldávia independente. Da Moldávia foi Irina Nechit, que consegue a proeza de ser, em simultâneo, membro da União de Escritores da República Moldava e da União de Escritores da Roménia. Quanto sei, viajou integrada na delegação romena. Mas na intervenção que fez no dia 11, na mesa redonda sobre “autobiografia em poesia”, e no dia seguinte na leitura dos seus poemas, puxou dos galões da luta independentista contra a antiga URSS. A grande surpresa foram os africanos: Julien Kilanga Musinde, do Congo, e Sarah Carrére, do Senegal. Kilanga Musinde, professor da Universidade Lubumbashi, vive actualmente em Paris, onde ocupa o cargo de Directeur de Langues et de l’Ecrit na Agence Intergouvernementale de la Francophonie. Sarah vive em Dakar, mas tão depressa está em Paris (onde tem casa) como no Rio. Fiquei deveras impressionado com a poesia dele e com a performance dela, na linha da tradição griot. Em sessões diferentes, as respectivas leituras foram entrecortadas de canto e, por parte de Sarah, que também é compositora e intérprete, pelos sons que arranca da Kora. Felizmente, a programação do festival permitiu que os poetas descobrissem a cidade, o que nem todos aproveitaram, e nem sempre é fácil neste tipo de encontros. Em Roma torna-se particularmente difícil por causa das limitações da rede de metro e, naturalmente, por causa das multidões concentradas nos sítios do costume. Os museus do Vaticano, por exemplo. Como escapar ao apelo da arte etrusca e pré-romana? Ao fascínio da Capela Sistina, sinónimo de Miguel Ângelo, Botticelli, Ghirlandaio, Rosselli, Perugino, Signorelli... À deriva da arte grega e romana, às salas de Rafael, etc.? Em vão. Nesta época do ano, o tempo médio de espera na fila, para entrar, são cinco horas (ao sol e à chuva). E como a última admissão se faz às 15:20h, significa que quem chegar à fila depois das dez da manhã dificilmente conseguirá entrar. Na basílica de São Pedro só é preciso esperar três horas, o que continua a ser excessivo para comodistas como eu. Tive pena, sinceramente tive, mas não deu. Quando lá voltar, de preferência no Inverno, tiro um dia para o Vaticano. Em todo o caso, a Praça de São Pedro é impressionante. E os guardas suíços que posam (como quem não quer a coisa) para as Sonys planetárias, valem bem uma missa... Dali ao Campo de’Fiori é um passo. O Campo de’Fiori é um mercado a céu aberto, imundo (conferir ao alto), obstruindo a visão do Teatro de Pompeia e da estátua de Giordano Bruno, queimado vivo naquele local, em 1600. Uma inesperada e violenta bátega de chuva atirou connosco para o La Carbonara, junto à fonte da praça. De uma janela do primeiro andar, onde comemos mediocremente (salvo os antipasti, excelentes, e de que nos podemos servir em buffet à discrição) a 25 euros por boca, vimos enfim a estátua do filósofo herege. Ao lado do Campo de’Fiori fica a Piazza Farnese, dominada pela imponente fachada do palazzo que o cardeal Alessandro Farnese ali mandou construir — Sangallo começou, Miguel Ângelo continuou, Giacomo della Porta concluiu — no século XVI, e é hoje a Embaixada de França. À direita do palazzo fica um emaranhado de vielas que nos conduz à Via dei Banchi Vecchi, em cujo n.º 116 fica a Libreria Babele, uma livraria especializada em literatura gay e estudos de género. Foi lá que adquiri L’eroe negato (2000) de Francesco Gnerre, sobre ‘Omosessualità e letteratura nel Novecento italiano’ (447 pp). Devo esta útil indicação a um alto-funcionário do Ministero degli Affari Esteri que me prestou precioso apoio logístico. E vem a talhe de foice esclarecer o Tiago acerca da natureza das mordiscadelas dos tais rapazes, de facto bastante literais, como outras manifestações a que assisti, a despeito da fama que Roma tem de ser uma cidade not friendly em matéria de efusões públicas entre homossexuais.

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