Se para alguma coisa serviu, a minha
recente viagem a Medellín provou — para usar uma formulação em voga — que a realidade é uma coisa, e a
realidade dos media outra coisa qualquer. Verdade que nunca dei grande atenção à Colômbia. Mesmo o cartel liderado por Pablo Escobar era para mim uma referência vaga. Nessa medida, induzido pelo ruído dos
media, parti para a capital de Antioquia com alguma ansiedade. Para quem viaja com ideias feitas, a chegada ao Aeroporto José María Córdoba (a cidade dispõe de outro, o Olaya Herrera, destinado a voos domésticos) não é propriamente auspiciosa. Pequeno, mal iluminado, com um polícia armado a cada dez metros, e um cão por cada dois polícias, o europeu habituado ao
blasé do Espaço Schengen fica interdito. E se tudo acontece perto das 11 da noite, pior. O meu voo estava marcado para as 17:40h, mas só partiu de Miami às 19:50h, embora todos os passageiros estivessem a bordo desde as 17:35h. Todos, menos um. E como esse refractário não chegou, havia que tirar do avião a bagagem respectiva. Isso levou duas horas, dando azo a confraternização geral, com quatro quintos dos 300 passageiros de pé, falando alto, e copo em riste, como numa festa: champanhe californiano (os da executiva), sumos naturais, Coca-Cola ou vinho chileno a 6 dólares a garrafa de três decilitros. Uma vez no ar, a American Airlines serviu um excelente jantar, tal como acontecera com o almoço e lanche do voo entre Madrid e Miami. Em nenhuma outra companhia, mesmo quando viajei em executiva ou primeira, a qualidade das refeições atingiu tal nível. Desse modo, as três horas do percurso passaram num ápice. Medellín, portanto. Quem tenha visto
La Virgen de los Sicarios — em Portugal correu como
Nossa Senhora dos Matadores —, o filme que Barbet Schroeder fez em 2000 a partir do romance de Fernando Vallejo, ficou com essas imagens de violência gravadas na memória. Nunca esqueci as cenas nocturnas filmadas na Catedral Metropolitana. Aberto dia e noite, excepto das duas às seis da tarde, o templo é dedicado a Nossa Senhora dos Sicários. Consta que nenhum matador faz o trabalho contratado sem primeiro se encomendar à virgem. Por mim, coincidindo com o início da missa do meio-dia, vi outro tipo de cenas ilustradas no filme. Seria pleonástico descrever a grandiosidade da nave central ou do órgão de 3500 tubos. Mesmo em frente fica o Parque Bolívar (remeto os leitores para as cenas mais escatológicas de Gabriel García Márquez) e, no outro topo do jardim, a Passaje Junín, uma rua para peões, muito arborizada, com comércio popular e o Salon Versalles (sem i), onde se faz uma refeição completa, bastante aceitável, por 15 pesos colombianos (0,oo51 euros). Propriedade de um argentino, o restaurante é famoso por ser frequentado, no piso de cima, por estrangeiros, universitários, políticos da oposição, intelectuais e boémios
tout court. Os clientes fumam que nem desalmados, mas como as janelas estão abertas e fazem corrente de ar, tudo
OK. As paredes estão cobertas com gravuras, retratos e caricaturas emolduradas, tal como no Solar dos Presuntos de Lisboa. Não me recordo de ter comido um pêssego Melba tão delicioso! A Passaje Junín é o coração do
downtown, ou centro histórico, hoje muito degradado, com milhares e milhares de pessoas acotovelando-se nos passeios, um trânsito caótico (quem conhece Calcutá tem a bitola), e o langor típico das gentes trepando pelas paredes. Outra rua para peões, muito característica, é a Carabobo, que tem numa extremidade o Museu de Antioquia (o espólio foi doado por Botero) e a Igreja de Vera Cruz e, na outra, o Centro Comercial Palacio Nacional, que podem ver na imagem ao alto. Construído em 1925, é hoje um
shopping popular (como os do Martim Moniz), asseadíssimo e policiadíssimo, aberto 24 horas por dia, como de resto acontece noutros centros comerciais para a classe média alta, como El Tesoro ou o Oviedo, ambos no Poblado, o bairro chique da cidade. No Poblado, onde ficam os colégios privados, os clubes elegantes e os melhores restaurantes, o aluguer de um apartamento novo, de 300 metros quadrados, em condomínio fechado, custa 4 milhões de pesos colombianos (1369,91 euros). Amanhã há mais.