
Ricardo Pais, encenador e director do Teatro São João, do Porto, entrevistado por Andréia Azevedo Soares e Raquel Abecasis, para o Público e a Rádio Renascença. Highlights:
Este corte não pode abrir precedentes para outras autarquias? Começa-se a discutir se é ou não obrigação de uma câmara municipal subsidiar a cultura quando há que investir ainda em outras coisas como saneamento, vias públicas e escolas básicas...
Recuamos 30 anos quando começamos a falar em saneamento versus cultura. A cultura é um factor de desenvolvimento como outro qualquer. O problema é que a pretensa entrega do Teatro Rivoli a uma exploração privada tem tido o apoio de um conjunto de comentaristas, uma espécie de tropa de elite que ocupa de uma maneira doentia a comunicação social. Gostaria de saber quais são os hábitos culturais desses comentaristas, quantas vezes por ano vão ao teatro, ao cinema ou ao museu, quantas vezes se deslocam efectivamente da pacatez dourada da sua casa ou dos seus trabalhos de investigação — a maior parte dos quais são “subsídio-pagos” através de instituições como o Instituto de Ciências Sociais, no pressuposto (certo) de que estão a fazer investigação histórica, mesmo que a História se considere ou não uma arte.
Não são muitos os comentaristas do Instituto de Ciências Sociais que escrevem na imprensa portuguesa. Se calhar valeria a pena pôr-lhes o nome.
Não. Cada um enfia a carapuça que entender. O país também percebe, com certeza. Eu realmente gostava de saber os hábitos culturais dessas pessoas. Obviamente que, se falamos de um investimento, temos de falar dos outros. Fala-se da cultura porque é mais simples. A cultura é a área por excelência da ignorância. Como nós temos uma classe média muito inculta e uma série de comentaristas autocomplacentes, nunca perguntamos a estas pessoas se elas porventura não estarão a falar daquilo que desconhecem.
Para si a cultura em Portugal tem de ser sempre subsidiada?
A cultura em Portugal tem de ser financiada. [...] Quanto a mim, companhias como o Teatro da Cornucópia ou o Teatro Aberto deveriam estar há muito tempo estabilizadas com fórmulas próprias inscritas no Orçamento de Estado. Não deveriam andar a concorrer a subsídio absolutamente nenhum.
Deveriam receber uma verba fixa?
Sim, que poderia ser maior ou menor consoante a crise. Quando se diz que se está a dar um subsídio ao Luís Miguel Cintra, pensa-se que o Estado está a pagar o Teatro da Cornucópia. Não é verdade. Se calcularmos os ordenados que Luís Miguel Cintra auferiu durante estes anos todos, veremos que esse montante exclui, por exemplo, os direitos de autor. Isto é, o Luís Miguel Cintra não se faz cobrar pelo seu trabalho como encenador. Na realidade, ao contrário daquilo que pode parecer, não é o Estado que está a subsidiar o teatro, são as companhias que estão a subsidiar o teatro.
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