Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

EQUÍVOCO


Lamento ir contra a corrente, mas Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa estava publicado em Portugal há vários anos, na colecção de obras fac-similadas vendida pelo Público e disponível em livrarias.

Na imagem, é o exemplar da direita, que reproduz a edição original (1956) da Livraria José Olympio Editôra, do Rio de Janeiro.

A minha amiga Isabel Lucas, que é uma mulher culta, no texto que hoje dedica à obra, fala de edição («só agora tem edição em Portugal...») e não de publicação. A mudança dos substantivos tem significado.

Mas, na cabeça de muita gente, persiste a ideia de que só em Outubro de 2019 o livro foi impresso em Portugal. Errado.

Clique na imagem.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

SONTAG


Não sei se os nossos editores são da mesma opinião, mas convinha traduzir a biografia da última intelectual do século XX.

Benjamin Moser, que todos conhecemos por ter escrito a biografia de Clarice Lispector, levou sete anos a escavar a vida da inventriz do camp.

Clique na imagem.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

LITERATURA & VIAGENS


Hoje na Sábado, Literatura e Viagens

Houve um tempo em que a literatura nos impelia a viajar, descobrindo povos e países. Isso mudou. Os que não lêem livros têm agora o recurso da Internet. Presumo que sejam poucos os que hoje seguem as pegadas de Jan Morris ou Bruce Chatwin.

A minha geração atravessou a adolescência e a entrada na idade adulta sem plataformas digitais. Queríamos descobrir as cidades dos “nossos” autores. Lembro-me de, por volta de 1966, ter lido A Bastarda de Violette Leduc. Como não querer conhecer os cafés onde se acotovelavam as lendas vivas que eram então Simone de Beauvoir, Sartre e Genet, os caveaux onde Juliette Gréco reinava como sacerdotisa de todos os existencialistas? Mas a vida dá muitas voltas e, quando a oportunidade chegou, já a literatura francesa era um imenso bocejo, com raros intervalos de lucidez — À l’Ami Qui Ne m’a Pas Sauvé La Vie de Hervé Guibert foi um deles — que erguiam uma barragem, não contra o Pacífico (como em Duras), mas contra o desejo.

Muito antes calhou a vez de Londres. Era preciso conhecer a cidade onde Virginia Woolf e os outros bloomsberries inauguraram em 1910 o mundo moderno, entendido como, notou Quentin Bell, «uma entidade ética, social e estética.» Mais: era preciso fazer o percurso que Clarissa Dalloway fez na manhã em que foi comprar flores. A Festa de Mrs Dalloway é o conto de 1922 que mais tarde deu origem ao romance Mrs Dalloway, lido por todos nós antes do texto percursor. Até que um dia dei comigo no n.º 31 de Gordon Square, morada onde o economista John Maynard Keynes e o pintor Duncan Grant viveram a sua relação amorosa (nessa casa está hoje instalada a Mozambique High Commission). Virginia, portanto, mais T.S. Eliot e os que vieram a seguir, de Graham Greene, Doris Lessing e John Le Carré até Julian Barnes, Ian McEwan e Zadie Smith. Mas quando pela primeira vez ali cheguei, o Bloomsbury era um bairro melancólico e a swinging London uma reminiscência arqueológica, porque Callaghan era então o inquilino de Downing Street, e até no Ivy, o restaurante do West End preferido pelos intelectuais de esquerda, se dizia mal dele. A mítica dos sixties, com o célebre Annus Mirabilis de Larkin — «Sexual intercourse began / In nineteen sixty-three…» —, os Beatles, Mary Quant, Carnaby Street, Twiggy (epítome da super-modelo anoréxica), o glamoroso escândalo Profumo, faziam parte da era que Antonioni fixou em Blow-Up.

O Buda dos Subúrbios, de Hanif Kureishi, regista essa mudança. Thatcher deu cabo do resto, mas isso é outro campeonato.

E por vezes um livro basta. A Virgem dos Sicários de Fernando Vallejo fez mais por Medellín que o famoso cartel de droga de Pablo Escobar. A Catedral Metropolitana da cidade, onde os sicários (matadores a soldo) iam pedir a benção da Virgem antes de consumarem as execuções contratadas, tornou-se, quem diria?, lugar de culto literário… São ínvios os caminhos que ligam a literatura ao desejo de viajar.

O Rio de Janeiro foi um caso especial. Como não visitar a cidade à boleia de Machado de Assis? Dois livros chegam: Memórias Póstumas de Brás Cubas, roteiro «amargo e áspero», e Dom Casmurro, apesar de tudo menos dickensiano. Percorrer a Rua do Ouvidor, tomar chá na Confeitaria Colombo, conhecer Santa Teresa — cenário de outras obras de Machado e, cem anos mais tarde, zona demarcada dos soixante-huitard que sobreviveram ao novo milénio —, calcorrear o Jardim Botânico, descobrir que a cidade rivaliza com Paris em matéria de art déco, ou seja, tentar perceber o Rio vazado em obras de Lima Barreto, João do Rio, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Ruy Castro e outros. Por falar em Castro, o Rio que melhor conheci cabe inteiro nos seus livros, sobretudo o bairro de Ipanema, feudo da imigração culta (sobretudo alemães, polacos, franceses e italianos) dos anos 1930 e, talvez por isso, sublinha o autor de Carnaval no Fogo, «berço ou palco de várias revoluções no comportamento, na moda, nas artes plásticas, no cinema, na música popular, na imprensa…». Dito de outro modo, o cosmopolitismo no seu esplendor.

Para Roma também somos empurrados pela literatura. Quem leu Declínio e Queda do Império Romano de Edward Gibbon ou, em alternativa, I Claudius de Robert Graves, não perde a cidade de vista. Mas também Pasolini, Moravia e Elsa Morante, referências incontornáveis. Os primeiros romances do cineasta, Ragazzi di vita, radiografia crua do lumpemproletariado, e Vida Violenta, espécie de sequela do anterior, acordam em nós sentimentos díspares. Temos de ir ver como é. Contudo, Roma permanece um caso singular, sendo porventura a menos moderna das capitais europeias. A primeira grande surpresa decorre das afinidades com Lisboa: cheio de tesouros artísticos incomparáveis, o centro histórico de Roma é uma espécie de Bairro Alto a multiplicar por quatro. E o Trastevere, bairro boémio por excelência, reproduz fielmente o que livros e filmes ilustram: engarrafamentos de trânsito madrugada dentro, com centenas de vespas em alta velocidade, beldades de todos os sexos a beber, dançar e flirtar na rua (como na Piazza Trilussa, epicentro do que sobrou da dolce vita), feiras de bijuteria a céu aberto defronte de igrejas medievais, versão low cost e contemporânea do Satyricon de Petrónio.

Veneza é um caso parecido. Durante séculos, toda a gente escreveu sobre a cidade. Dois exemplos: as Dramatic Lyrics de Robert Browning, sequência de pregnante eloquência, ou Marca de Água de Joseph Brodsky. Foi aliás por causa do russo que lá fui. Mas a bibliografia da cidade é interminável: desde logo Ruskin, com St Mark’s Rest: The History of Venice, e depois Goethe, Thomas Mann, Italo Calvino e dezenas de outros. A Riva Degli Schiavoni, onde Henry James viveu e escreveu Retrato duma Senhora, não se adequa à nossa fantasia, mas não nos podemos esquecer que em 1880 o mundo era outro.

Berlim é um caso sério, sobretudo para quem gosta de poesia inglesa. Não há nenhum mistério. Christopher Isherwood escreveu Adeus a Berlim após ali ter vivido com Auden (seu amante) e os poetas Stephen Spender, Louis Mac Neice e Cecil Day-Lewis, mais o fotógrafo Herbert List. O livro de Isherwood é sempre citado, até por causa de Cabaret, o filme de Bob Fosse, mas o relato mais fiel desses anos loucos do estertor da República de Weimar foi escrito por Spender, num romance autobiográfico, pouco conhecido, chamado O Templo. A seguir veio o Reich e a Segunda Guerra Mundial, catástrofe que gerou toda uma literatura, mas foram os thirties poets ingleses que colocaram Berlim no meu ponto de mira.

Falar de literatura e viagens e esquecer Nova Iorque seria uma contradição nos termos. Uma pessoa lê Breakfast at Tiffany’s de Truman Capote, ou O Grande Gatsby de Scott Fitzgerald, e vê-se obrigada a conhecer a cidade. Os mais novos, para quem Capote ou Fitzgerald possam ser referências remotas, podem optar por outros marcos geracionais, como o glittering As Mil Luzes de Nova Iorque de Jay McInerney, apogeu do Brat Pack literário, ou, em registo étnico, Open City de Teju Cole. A lista nunca termina, mas os livros de Mary McCarthy, John Cheever e Dorothy Parker estão entre os que fizeram de Nova Iorque a cidade prometida para sucessivas gerações de leitores. Quem, gostando de literatura, fica indiferente à memória da Round Table, com quartel-general instalado no bar do Algonquin Hotel? Fundada por Dorothy Parker e Alexander Woollcott, foi na Round Table (o mais influente círculo de críticos de Nova Iorque entre 1919 e 1929, a quem os detractores se referiam como the vicious circle…) que nasceu a revista New Yorker. Recuando no tempo, convém não esquecer Walt Whitman, que em 1855 publicou na cidade a primeira edição de Leaves of Grass, cujo primeiro canto, nesse ano ainda sem título, virá mais tarde a ser o emblemático Song of Myself. Whitman trabalhou em vários jornais de Manhattan, escrevendo crítica de ópera, teatro e baseball, crónicas do quotidiano, artigos sobre a questão esclavagista, guias de viagem, etc. Se tudo isto não são argumentos de viagem…

Do outro lado do mundo, Viena continua a fazer parte do imaginário dos viajantes cultos. Muitos ainda lá vão por causa de Freud, embora grande parte deles saiba que o famoso divã está em Londres, no museu de Hampstead dedicado ao pai da psicanálise. Verdade que, na primeira metade do século XX, os filósofos, cientistas, pintores e escritores que constituiram o Círculo de Viena fizeram da capital austríaca um dos epicentros da política e da cultura da Europa. Os leitores de Stefan Zweig são muitos e, após ler O Mundo de Ontem, a sua autobiografia, quase todos querem ir conferir. Joseph Roth, Thomas Bernhard, Arthur Schnitzler e Elfriede Jelinek têm a sua quota, mas Zweig chega e sobra para nos transportar à cidade que ficou manchada pelo Anschluss nazi. Os apreciadores de thrillers de espionagem guiam-se por Graham Greene, que ali esteve destacado como agente secreto do MI6 britânico.

Faltam cidades? Faltam com certeza. Mas o poço sem fundo da literatura universal ajuda-nos a encontrar os recessos onde escondemos os nossos fantasmas privados.

Clique na imagem.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

GEORGE MONTEIRO 1932-2019


Morreu ontem, aos 87 anos, o poeta e ensaísta George Monteiro, professor emérito da Brown University, de Providence.

Filho de pais portugueses, Monteiro nasceu na vila de Valley Falls, em Rhode Island, mas tinha poucos meses de idade quando, na companhia da mãe, Maria Augusta Temudo, veio para Portugal. E foi na Beira Alta que passou parte da infância, regressando aos Estados Unidos assim que a mãe obteve autorização de residência. Desde então viveu sempre nos Estados Unidos, salvo um intervalo (nos anos 1960) de dezoito meses, no Brasil.

Depois de frequentar as escolas públicas de Cumberland, Monteiro formou-se nas universidades de Brown e Columbia, tornando-se professor de literatura.

Da sua vasta obra ensaística destacam-se estudos sobre, entre outros, Fernando Pessoa, Elizabeth Bishop, Stephen Crane, Emily Dickinson, Henry James e José Rodrigues Miguéis. Traduziu para inglês autores como Pessoa, Miguéis, Torga e Sena.

Em 1975 tornou-se director do Centro de Estudos Brasileiros e Portugueses da Brown University.

Poeta tardio — terá começado a escrever poemas depois dos 40 anos de idade —, reuniu em The Pessoa Chronicles. Poems 1980-2016, da Bricktop Hill Books, o essencial da sua poesia.

Clique na imagem.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

HAROLD BLOOM 1930-2019


Harold Bloom, o crítico literário mais influente dos últimos cem anos, morreu ontem à noite no hospital de New Haven (Connecticut) onde se encontrava internado.

Professor de Yale, Bloom deixou uma obra extensa, com vários livros publicados em Portugal, entre eles A Angústia da Influência, 1973, com tradução de Miguel Tamen, e O Cânone Ocidental, 1994, close reading da obra dos 26 escritores mais importantes da literatura ocidental, de Dante a Thomas Pynchon, com tradução de Manuel Frias Martins. Há outros.

Em língua portuguesa, publicadas no Brasil, estão traduzidas três obras incontornáveis: Poesia e Repressão, 1976, com tradução de Cillu Maia, Shakespeare: A Invenção do Humano, 1998, e Génio, 2002, ambas com tradução de José Roberto O’Shea. Sobre peças de Shakespeare escreveu vários outros livros. No famoso The Book of J., 1990, sustenta que longos trechos da Bíblia foram escritos por uma mulher.

Politicamente incorrecto, combateu a crítica marxista, o afrocentrismo e o feminismo, ou seja, aquilo que designava por escola do ressentimento. Admirava profundamente Emily Dickinson, Jane Austen, George Eliot, Virginia Woolf, Toni Morrison, Maya Angelou e Amy Tan. Detestava a saga Harry Potter e, de um modo geral, a cultura popular. Mas gostava de Álvaro de Campos e não desgostava de Saramago. Tinha 89 anos.

Clique na imagem.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

TRADUÇÕES


Nos últimos vinte anos traduz-se mais e melhor em Portugal. Mas há autores que permanecem no limbo. O poeta escocês Douglas Dunn (1942) é um deles. Cito-o por ser um autor que muito prezo. Podia citar outros.

Apesar de tudo, Plath e Akhmatova, que também se vêem na imagem, estão traduzidas, embora a russa em doses homeopáticas.

O que me faz confusão é a insistência dos editores em traduzir toda a tralha premiada e, pior, autores de todos os sexos oriundos de escolas de escrita criativa. Não há necessidade. Existe uma galáxia de AUTORES inéditos em português.

Clique na imagem.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

TONI MORRISON 1931-2019


Morreu ontem à noite no Montefiore Medical Center, de Nova Iorque, a escritora norte-americana Toni Morrison, Nobel da Literatura em 1993. A notícia só foi divulgada hoje à tarde. Tinha 88 anos.

Master of Arts pela Cornell University, e professora de inglês em Princeton, Morrison publicou doze romances, três colectâneas de contos, nove volumes de ensaio, uma compilação de crónicas, cinco livros para a infância e o libreto de uma ópera.

Além do Nobel e de dezenas de outras distinções, recebeu o prémio do National Book Critics Circle (1977), o Pulitzer de Ficção (1988) e a Medalha Presidencial da Liberdade (2012) atribuída por Obama. Foi doutorada honoris causa por várias universidades.

Beloved (1987), que em Portugal mantém o título original, é o seu livro mais famoso.

Activista política desde sempre, pela causa negra, dos direitos humanos e do feminismo, Morrison publicou em 2016, na New Yorker, um violento artigo contra a eleição de Trump, que acusou de supremacista branco.

Antes de tornar-se uma autora consagrada, foi editora na Random House entre 1965 e 1983. Foi casada com um arquitecto de quem teve dois filhos.

Está na altura da RTP2 transmitir o filme Imagine. Toni Morrison Remembers (2015), da BBC.

Clique na imagem.

sábado, 29 de junho de 2019

STONEWALL, 50 ANOS


Para a maioria das pessoas, os motins de Stonewall não dizem nada. Mas foi com eles que nasceu a cultura gay, hoje estudada em todas as universidades que se prezam.

Resumidamente: faz agora 50 anos que os motins de Stonewall mudaram tudo. Começaram no dia do funeral de Judy Garland — 27 de Junho de 1969 —, ícone da comunidade gay, falecida em Londres mas trasladada para a América, ocasião para centenas de homossexuais levarem o caos a Greenwich Village, um bairro de Nova Iorque.

Durante três dias consecutivos, entre 27 e 29 de Junho, homens e mulheres fizeram frente ao assédio moral e à reiterada prática de chantagem da polícia, fazendo ver à sociedade americana, e em especial às autoridades, que uma democracia não pode permitir que uns sejam mais iguais do que outros. O ponto de partida das hostilidades foi o bar gay Stonewall Inn, em Christopher Street. Nunca mais nada foi como dantes.

A literatura sobre homossexualidade tem mais de três mil anos: o saco sem fundo da antiguidade clássica, os poetas da antologia grega (onde Safo tem lugar cativo), as contribuições de Homero, Virgílio e Petrónio, o Épico de Gilgamesh, epítome do amor viril, as estrofes espirituais de São João da Cruz, os poetas do Islão, desde o tempo em que as fronteiras do Islão chegavam a Silves, os poetas chineses Hsü Ling e Wu Chün, a decantada Chanson de Roland, os poetas turcos e persas dos divã — fonte do Westöstlicher Divan de Goethe, tal como do Diván del Tamarit de Lorca —, os infernos de Rimbaud e Verlaine, os estudos precursores de John Addington Symonds, Edward Carpenter e Henry Havelock Ellis e, naturalmente, as obras centrais de Whitman, Kavafis, Wilde, Gide, Botto, Gunn e muitos outros.

Contudo, ia ser necessária uma década de intervalo para que pudesse irromper e afirmar-se publicamente uma verdadeira geração de escritores gay pós-Stonewall. É o caso do grupo do Violet Quill Club, de que fazem parte, entre outros, Edmund White, Andrew Holleran e Felice Picano. É a partir daí que nasce a cultura gay. Para uma perspectiva de conjunto, ver The Violet Quill Reader (1994). A cultura gay distingue-se por afirmar a sua condição política sem recurso às madalenas de Proust.

A partir daqui parece-me fútil perguntar das razões das marchas do orgulho gay, iniciadas em 1970, em Nova Iorque, e hoje realizadas em mais de 60 países (em Portugal começaram em 2000). Mandela, por exemplo, participou numa das marchas sul-africanas. A mim, o que me faz confusão, é o défice de políticos e personalidades públicas portugueses capazes de darem a cara.

Na imagem, o livro editado em 1994 por David Bergman (na St Martin Press) sobre a emergência da literatura gay pós-Stonewall. Clique.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

ESTUÁRIO


Com Estuário (2018), Lídia Jorge acaba de vencer o Grande Prémio de Literatura DST.

Faz hoje exactamente um ano, publiquei na Sábado um texto de que transcrevo um breve excerto:

«A ficção portuguesa sofreu uma guinada quando Lídia Jorge publicou o primeiro livro. É bom verificar que, ao fim de 38 anos, a obra permanece incólume. O título mais recente, ‘Estuário’, mantém a pujança inaugural. Dominando na perfeição todos os recursos narrativos, a autora constrói o romance a partir da figura de Edmundo Galeano, um jovem regressado do inferno de Dadaab, um dos campos de refugiados que o ACNUR mantém no Quénia [...] Lídia Jorge é muito hábil na forma como ilustra o contraponto das premências. De um lado, os equívocos da ajuda humanitária. Do outro, o desajuste das famílias. [...]»

Parabéns, Lídia.

Foto de António Pedro Ferreira para a Visão. Clique.

terça-feira, 11 de junho de 2019

PUB


A partir de hoje numa livraria perto de si. Ou no stand da Dom Quixote na Feira do Livro de Lisboa. As edições de 2000 e 2007 estão esgotadas. Não é amável, mas a realidade também não.

terça-feira, 4 de junho de 2019

O ANO DO CENTENÁRIO


Passam hoje 41 anos sobre a morte de Jorge de Sena (1919-1978), figura maior da Literatura portuguesa de todos os tempos. Sena morreu em Santa Bárbara (Califórnia), com 58 anos. Os restos mortais foram trasladados para Lisboa em Setembro de 2009.

Em Novembro próximo passam cem anos do seu nascimento. Mas a Academia exonerou-se de assinalar a data com o congresso internacional que lhe é devido.

Como escrevi nas minhas memórias, «Sena teve o destino dos exilados: morrendo longe, a pátria assobiou para o lado. A imprensa da época encheu primeiras páginas com artigos de fundo e retratos. [...] Mas o foguetório durou pouco. Sena veio a Portugal pela última vez a convite de Eanes, para as cerimónias do 10 de Junho de 1977. Mas nem a democracia o livrou dos anticorpos. A universidade portuguesa, sempre generosa com os tolos, foi incapaz de lhe oferecer um lugar. Pior: o establishment boicotou essa possibilidade

Seria pleonástico sublinhar a importância de Sena na poesia, na ficção (conto, novela e romance), no teatro, no ensaio, na teoria e crítica literária, nos estudos camonianos, na exegese pessoana, na historiografia literária, na diarística, nos mil e um prefácios de livros próprios e alheios, na correspondência, nas traduções, etc. Sena atingiu um patamar que condena à irrelevância a larga maioria das glórias nacionais.

Na imagem, Sena retratado (em 1949) por Fernando Lemos. Clique.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

AGUSTINA, SEMPRE


Hoje na edição online da Sábado.

Desapareceu aos 96 anos a maior romancista portuguesa do século XX. Agustina deixou-nos na madrugada desta segunda-feira, após doze anos de reclusão da vida pública, a que se viu forçada pelo acidente vascular cerebral sofrido no início de 2007. Estava ainda na memória de todos a obra mais recente, A Ronda da Noite, saída dos prelos no Outono de 2006. Rembrandt serviu de pretexto para contar a história dos Nabascos, família que não suportava amadores, «fosse na arte, fosse nos negócios ou na política…» Absolutamente vintage.

Nascida em Vila Meã, Amarante, a 15 de Outubro de 1922, foi sempre uma mulher do Norte. Ali casou, ali lhe nasceu uma filha — a escritora e artista plástica Mónica Baldaque —, ali se fez à vida literária. Estreada em 1948, com Mundo Fechado, Agustina escreveu cerca de cem livros, em todos os géneros: ficção (romances, novelas e contos), dramaturgia, literatura infantil, biografia, ensaio, crónica, viagens, memórias e artigos de opinião. Em 1954, A Sibila fez dela uma autora respeitada. Iam longe os tempos das diatribes de Jaime Brasil. Saudada por Aquilino, Régio, Pascoaes e Ferreira de Castro, Agustina tornava-se a primeira escritora a quebrar o domínio do Partido Comunista na vida cultural portuguesa. Eduardo Lourenço falou mesmo do surgimento de uma «literatura nova». 

A medida do reconhecimento pode avaliar-se pelo facto de, logo em 1962, ter integrado a delegação nacional ao congresso da Comunità Europea Degli Scrittori, realizado em Florença. Ao lado de Sophia de Mello Breyner Andresen, Urbano Tavares Rodrigies, Natália Correia, José Cardoso Pires e Orlando da Costa, a presença de Agustina, uma conservadora de convicções fortes, era a nota dissonante. Mas em 1974 Agustina era já um nome incontornável. Sem surpresa, a implosão do Estado Novo contribuiu para lhe reforçar a aura.

Aos romances que podem ser lidos como trilogia da revolução — As Pessoas Felizes, 1975, Crónica do Cruzado Osb., 1976, e As Fúrias, 1977 —, seguiram-se outros nos quais, sob variados ângulos, teceu a narrativa do país. Exemplo de grande conseguimento, Os Meninos de Ouro, de 1983, põe em pauta o destino de Francisco Sá Carneiro (doublé de José Matildes), o primeiro-ministro morto na última noite da campanha presidencial de 1980. Picante suplementar, o romance mete Sophia e o primo Ruben A. entre as personagens. E assim se foi consolidando a imagem de autora de culto.

Ao contrário de outros, nunca o espírito do tempo a impediu de tomar posições claras. A título de exemplo, veja-se o desassombro com que apoiou o referendo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Também nunca se esquivou a polémicas, como as que envolveram o facto de ter sido mandatária de Freitas do Amaral nas eleições presidenciais de 1986 (em 1976 tinha apoiado Eanes); as posições assumidas enquanto vogal da Alta Autoridade para a Comunicação Social; bem como a heterodoxa gestão do Teatro Nacional D. Maria II, do qual foi directora entre 1990 e 1993. Está na memória de muitos a recordação de ter patrocinado na Casa de Garrett a exibição da revista Passa por mim no Rossio, de Filipe La Féria. O mesmo se diga da época em que dirigiu O Primeiro de Janeiro, jornal do Porto com largas tradições na vida da cidade.

A cumplicidade com Manoel de Oliveira deu azo a vários filmes: Francisca, o primeiro, feito a partir de Fanny Owen, romance de 1979 que mete Camilo no plot; o segundo, Vale Abraão, inspirado no romance homónimo de 1991, etc. Estaria na calha outro, sobre A Ronda da Noite, mas o projecto caducou com a saída de cena de Agustina.

Outro romance passado ao cinema foi A Corte do Norte, com realização de João Botelho. É provável que os filmes tenham alargado o número de leitores, conquanto Agustina nunca tenha sido uma autora bestseller.

Doutorada honoris causa por várias universidades, entre elas a Tor Vergata de Roma, Agustina recebeu todos os prémios e condecorações que há para receber no nosso país. Em 2004 foi a vez do Prémio Camões. Membro da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Brasileira de Letras e da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres, jamais a obra foi beliscada pelo exercício de cargos públicos ou funções institucionais.

A morte surpreendeu-a hoje na casa da Rua do Gólgota. Mas vamos continuar com ela. A editora Relógio d'Água tem estado a reeditar a obra, prevendo-se para breve o volume da correspondência (inédita) trocada com Juan Rodolfo Wilcock, o poeta e escritor argentino de quem foi amiga.

Clique na imagem.

AGUSTINA BESSA-LUÍS 1922-2019


Agustina morreu esta madrugada. Tinha 96 anos. Farei mais tarde o obituário da maior romancista portuguesa do século XX. Por enquanto não há palavras. 

À família, em particular a sua filha Mónica Baldaque, os meus sentimentos.

Origem da foto: O Livro de Agustina, 2007. Clique

domingo, 5 de maio de 2019

SOPHIA


Chega às livrarias na próxima terça-feira, dia 7, a primeira biografia de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004).

Para a escrever, Isabel Nery entrevistou mais de sessenta pessoas — família, amigos, escritores, intelectuais, políticos, tradutores, investigadores, gente comum —, consultou arquivos em Portugal, na Dinamarca e na Alemanha, consultou documentação de vária índole, cotejou correspondência, livros, imprensa, teses, filmes e documentários.

O livro tem 336 páginas e inclui portofolio fotográfico. Publica a Esfera dos Livros.

Clique na imagem.

terça-feira, 12 de março de 2019

PUB


No momento em que a sociedade se confronta com o sexo clandestino dos padres, a história de Amaro e Amélia (com aborto pelo meio) vem muito a propósito.

Em 2008, adaptei para os mais novos O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz. A segunda edição do livro foi agora posta à venda, ao preço imbatível de 4 euros por exemplar, por se tratar de uma edição exclusiva para o Pingo Doce, editada pela Glaciar de Jorge Reis-Sá.

Mantém as ilustrações originais de Carla Nazareth — razão determinante para ter autorizado a reedição —, que são magníficas. Difere da edição de há 11 anos pelas dimensões: 25cmx23cm em 2008, 20cmx20cm actualmente. Capa dura e grafismo limpo.

Clique na imagem.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

JOÃO BIGOTTE CHORÃO 1933-2019


Morreu ontem à noite o crítico e ensaísta João Bigotte Chorão, membro da Academia das Ciências de Lisboa, do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, e antigo director (1997-2003) do Círculo Eça de Queiroz.

Bigotte Chorão foi um dos grandes especialistas de Camilo Castelo Branco. Da sua vasta obra destacaria O Discípulo Nocturno (1965), Camilo, a Obra e o Homem (1979), O Escritor na Cidade (1986), O Reino Dividido (1999), Galeria de Retratos (2000), Diário Quase Completo (2001), obra que recebeu o Grande Prémio da Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores, Além da Literatura (2014) e Diário 2000-2015 (2018).

Na Editorial Verbo, de que foi director, coordenou e editou várias enciclopédias, tais como, entre outras, a BIBLOS, dedicada às literaturas de língua portuguesa, ou a luso-brasileira LOGOS, de filosofia.

Personalidade discreta da vida cultural portuguesa, Bigotte Chorão é pai do crítico e poeta Pedro Mexia.

domingo, 20 de janeiro de 2019

COLÓQUIO-LETRAS 200


A Colóquio-Letras chegou ao número 200. Sendo colaborador da revista da Fundação Calouste Gulbenkian desde o n.º 54, ou seja, desde Março de 1980, dá-me especial satisfação ver que a revista resistiu.

Este número abre com um dossiê dedicado ao centenário do nascimento de Jorge de Sena, de que fazem parte três extensas cartas, uma delas reproduzida em fac-símile, dirigidas a Gastão Cruz pelo autor de Peregrinatio ad Loca Infecta. Quem quiser saber o que Sena pensava da terceira série de Líricas Portuguesas, antologia organizada por si (e reeditada em versão aumentada), descobre novidades em duas dessas cartas.

Desta vez não há poesia, mas um conto de Marco Lucchesi, um in memoriam de Luís Amaro, bem como os habituais ensaios, recensões críticas, notas & comentários, ilustrações de Rui Sanches, um texto de Ramalho Eanes (sobre Sena), etc. Nuno Júdice e Ana Marques Gastão estão de parabéns.

sábado, 19 de janeiro de 2019

OS DOIS REINALDOS


Em Portugal, quando se fala de Reinaldo Ferreira, nove em cada dez portugueses (intelectuais incluídos) pensa no Repórter X, o mais famoso jornalista português dos anos 1930, também dramaturgo e cineasta. Tão famoso que, em 1986, José Nascimento fez um filme sobre a sua vida, com Joaquim de Almeida, Eunice Muñoz, Jorge Silva Melo, Fernando Heitor, Anamar, José Ribeiro da Fonte e dois terços dos frequentadores do Frágil.

Na História da Literatura Portuguesa, Óscar Lopes refere o Repórter X, ou seja, Reinaldo Ferreira pai (1897-1935), mas, em capítulo diferente, também refere o filho (1922-1959). O seu a seu dono.

Porém, toda a gente se esquece desse filho pródigo, o poeta Reinaldo Ferreira, nascido em Barcelona, onde o pai estava a filmar. Reinaldo foi para Lourenço Marques com 17 anos, ali tendo morrido com 37. Uma lenda da comunidade homossexual moçambicana, deixou uma obra poética incontornável, de que faz parte um dos grande êxitos de Zeca Afonso: Menina dos olhos tristes. Ou o fado-canção Uma casa portuguesa, imortalizado por Amália.

Em todo o caso, a poesia de Reinaldo é outra coisa. Em 1966, Régio não poupou elogios no prefácio que fez para a primeira edição portuguesa (a edição original, publicada em Lourenço Marques em 1960, um ano após a morte do poeta, é da responsabilidade de Eugénio Lisboa) dos seus poemas. Portanto, convinha não confundir Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira com o papá.

Nas imagens, capas das primeiras edições de Poemas (1960) de Reinaldo Ferreira, e de Memórias de um ex-morfinómano (1956) do Repórter X. Clique.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

EGOÍSTA 66


Lugar-comum: a revista Egoísta representa o luxo gráfico da edição portuguesa. Mas, talvez por ser dedicado à literatura infantil — era uma vez —, o número mais recente, o 66, libertou a fantasia dos artistas plásticos convidados.

Pessoalmente tive muita sorte com as ilustrações que Rodrigo Prazeres Saias fez para o meu conto O Menino Malaquias. Mas Rodrigo Prazeres Saias assina outros trabalhos de grande qualidade, como os que acompanham os textos de Lídia Jorge, Mário Claúdio, Inês Pedrosa, Tânia Ganho e Marta Vaz. Também gosto muito Gonçalo F. Santos. Estou a esquecer-me de outros artistas, o que não significa menor estima. E ainda não tive tempo de ler nenhum texto, pois só hoje recebi a revista.

É evidente que nada disto seria possível sem o know-how e o bom gosto da Patricia Reis, sua editora. Parabéns!

Clique na imagem.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

AMOS OZ 1939-2018


Vítima de cancro, morreu hoje Amos Oz, o escritor israelita que se opunha à política expansionista do seu país, o defensor convicto do direito dos palestinianos a um Estado independente, uma voz incómoda para Tel Aviv: «Se não houver aqui dois estados, e rapidamente, haverá apenas um. (E será árabe.)» Romancista, contista, ensaísta, professor de literatura na Universidade Ben-Gurion, em Beersheba, tem a obra (vinte romances, onze colectâneas de ensaios e três de contos) publicada em mais de cinquenta países, incluindo Portugal, onde estão traduzidos os seus livros mais conhecidos. Em data, o mais recente é Caros Fanáticos, uma colectânea de três ensaios centrados no fanatismo universal, de que o islâmico é parte. Tinha 79 anos.