Mostrar mensagens com a etiqueta In memoriam. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta In memoriam. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

JOSÉ LOPES 1958-2019


Não há palavras para descrever o horror.

Na tenda que lhe servia de tecto, morreu um homem de 61 anos. Vivia sozinho, na miséria, sem acesso ao rendimento mínimo alegadamente garantido. O corpo foi descoberto ontem, por um amigo, mas o óbito terá ocorrido em data anterior.

Era um actor, o José Lopes, outrora respeitado e aplaudido, antigo colaborador de Luís Miguel Cintra no Teatro da Cornucópia e na Escola Superior de Teatro e Cinema.

Não há palavras.

O ministério da Cultura vai pagar as despesas do funeral, ou nem isso?

Clique na imagem.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

JOSÉ MÁRIO BRANCO 1942-2019


Sem que nada o fizesse prever, morreu esta madrugada o músico José Mário Branco, autor do mítico Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (1971), álbum que junta letras suas com poemas de Camões, Natália, O’Neill e Sérgio Godinho.

Compositor, letrista e cantor, mas também produtor de vários artistas, entre eles Camané, José Mário Branco nasceu no Porto, foi dirigente da Acção Católica até 1958, militou no PCP [«saltei de uma igreja para a outra»], foi perseguido pela PIDE, exilou-se em Paris em 1963 e regressou a Portugal depois do 25 de Abril.

Em Maio de 1974 fundou o GAC — Grupo de Acção Cultural Vozes na Luta. Colaborou activamente com grupos de teatro, em especial A Comuna, e compôs música para duas dezenas de filmes de, entre outros, Luís Galvão Teles, Solveig Nordlund, Jorge Silva Melo, Paulo Rocha, Noémia Delgado e João Canijo.

Em 2018 foi editado Inéditos, juntando canções do período de 1967 a 1999.

Numa das últimas entrevistas que deu, afirmou: «O mundo está mesmo muito diferente. Deixámos de ter um projecto, aquela coisa ideológica do futuro

Tinha 77 anos.

Clique na imagem.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

GEORGE MONTEIRO 1932-2019


Morreu ontem, aos 87 anos, o poeta e ensaísta George Monteiro, professor emérito da Brown University, de Providence.

Filho de pais portugueses, Monteiro nasceu na vila de Valley Falls, em Rhode Island, mas tinha poucos meses de idade quando, na companhia da mãe, Maria Augusta Temudo, veio para Portugal. E foi na Beira Alta que passou parte da infância, regressando aos Estados Unidos assim que a mãe obteve autorização de residência. Desde então viveu sempre nos Estados Unidos, salvo um intervalo (nos anos 1960) de dezoito meses, no Brasil.

Depois de frequentar as escolas públicas de Cumberland, Monteiro formou-se nas universidades de Brown e Columbia, tornando-se professor de literatura.

Da sua vasta obra ensaística destacam-se estudos sobre, entre outros, Fernando Pessoa, Elizabeth Bishop, Stephen Crane, Emily Dickinson, Henry James e José Rodrigues Miguéis. Traduziu para inglês autores como Pessoa, Miguéis, Torga e Sena.

Em 1975 tornou-se director do Centro de Estudos Brasileiros e Portugueses da Brown University.

Poeta tardio — terá começado a escrever poemas depois dos 40 anos de idade —, reuniu em The Pessoa Chronicles. Poems 1980-2016, da Bricktop Hill Books, o essencial da sua poesia.

Clique na imagem.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

SOPHIA, CEM ANOS


Faz hoje cem anos que nasceu Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), poeta, contista, ensaísta e tradutora.

Sophia nasceu no Porto, mas veio viver para Lisboa em 1937. Em 1946 casou com o advogado Francisco Sousa Tavares, de quem teve cinco filhos e de quem se divorciou em 1985. Entre 1975-76 foi deputada, eleita pelo PS, à Assembleia Constituinte.

Entre muitos outros, recebeu o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças (1992), o Prémio Camões (1999) e o Prémio Rainha Sofia (2003).

Por razões familiares, recusou dois cargos institucionais propostos por Mário Soares: o de secretária de Estado da Cultura e o de embaixadora de Portugal em Paris. Mas, em 1987, aceitou ser nomeada Chanceler das Ordens Nacionais.

Em 1998 foi doutorada honoris causa pela Universidade de Aveiro.

Organizada por Carlos Mendes de Sousa, a obra poética completa [1944-2001] foi publicada pela Editorial Caminho em 2010, num volume reeditado a partir de 2015 pela Assírio & Alvim.

Em 2014, os restos mortais de Sophia foram trasladados para o Panteão Nacional.

A foto da imagem é de 1996. Clique.

sábado, 2 de novembro de 2019

SENA, CEM ANOS


Faz hoje cem anos que nasceu Jorge de Sena (1919-1978), o mais importante intelectual português do século XX. Poeta, romancista, contista, dramaturgo, ensaísta, camonista, historiador da literatura, memorialista, crítico, antologiador, tradutor e professor, Sena é uma figura ímpar da língua portuguesa. 

De um texto que escrevi e publiquei em 1999, mais tarde coligido no meu livro Comenda de Fogo (2002), respigo alguns acidentes biográficos. Não é uma transcrição do texto original. As obras citadas correspondem a uma ínfima parte da bibliografia do autor.

Natural de Lisboa, Sena fez estudos de piano e foi aluno de Rómulo de Carvalho (o poeta António Gedeão) no Liceu Camões. Aos 17 anos ingressou na Escola Naval, tendo feito uma viagem no navio-escola Sagres, entre Outubro de 1937 e Fevereiro de 1938. Em 14 de Março de 1938 foi excluído da Marinha de Guerra.

Sob o pseudónimo de Teles de Abreu publicou os primeiros textos em Março de 1939. O primeiro livro  —  Perseguição  —  saiu em Junho de 1942. Concluiu o curso de engenharia civil em Novembro de 1944. Viu-se obrigado a fazer o serviço militar entre 1945 e 1946. Durante doze anos (1947-59) desenvolveu actividade profissional no ministério das Obras Públicas. Em Março de 1949 casou-se com Maria Mécia de Freitas Lopes, irmã de Óscar Lopes. Co-dirigiu as 2.ª e 3.ª séries dos Cadernos de Poesia (1951-53). Fez um estágio de engenharia em Inglaterra, no ano (1952) em que começou a traduzir os poemas ingleses de Fernando Pessoa. Em 1953, divulgou a poesia de Kavafis.

A PIDE apreendeu As Evidências (1955), rotulando o livro de subversivo e pornográfico. Publicou a tradução de Porgy & Bess. A 11 de Março de 1959 envolveu-se no frustrado Golpe da Sé e, no mês seguinte, publicou o primeiro volume de ensaios, Da Poesia Portuguesa. Face à situação política do país, parte a 7 de Agosto para o Brasil, desembarcando no Recife. Mécia e os sete filhos nascidos em Portugal juntam-se-lhe a 17 de Outubro.

O exílio brasileiro, que duraria seis anos, foi o corolário de uma intricada teia de insatisfações. Discurso directo: «Em Portugal, se eu me tivesse lançado na engenharia particularmente, à margem da minha actividade oficial de funcionário, poderia ter ganho muito dinheiro talvez. E houve muitas pessoas que estranhavam que o não fizesse. Mas se eu tivesse feito isso, quando teria sido o escritor que, em 1959, tinha títulos suficientes para mudar de vida

O início da docência universitária  —  na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, em São Paulo  —  mudou tudo, porque «uma situação financeiramente desafogada [...] bolsas de pesquisa, etc., me garantiram a possibilidade de dedicar-me integralmente à produção literária.» No Brasil, à margem da docência, foi director literário da Editora Agir, do Rio de Janeiro, fez conferências, participou de congressos, e colaborou largamente na imprensa. Em 1960 publica Andanças do Demónio, primeira colectânea de contos. Demitiu-se da direcção da Unidade Democrática Portuguesa no mesmo ano em que publicou O Reino da Estupidez. Em Março de 1963 torna-se cidadão brasileiro. No ano em que começa a escrever Sinais de Fogo, prestou provas de doutoramento (1964) com uma tese sobre Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular.

Entretanto, na sequência do golpe militar brasileiro de 31 de Março de 1964, Sena foi demitido por telefone da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto, onde desde 1962 era professor visitante. O ambiente torna-se irrespirável e Sena troca o Brasil pelos Estados Unidos. Tem agora mais dois filhos, nascidos em terra brasileira. 

A 7 de Outubro de 1965, após seis anos de Brasil, Sena e a família desembarcam em Nova Iorque, em trânsito para a Universidade do Wisconsin (Madison). Os treze anos seguintes, os anos americanos, foram uma sucessão de realizações académicas (em 1967 foi nomeado professor catedrático efectivo de Literatura Portuguesa e Brasileira), colóquios e congressos internacionais, viagens planetárias, conferências em vários países, trabalho insano, uma obra notável que não parou de crescer: «Podereis roubar-me tudo: / as ideias, as palavras, as imagens, / e também as metáforas, os temas, os motivos [...] E podereis depois não me citar, / suprimir-me, ignorar-me, aclamar até / outros ladrões mais felizes [...] Nada tereis, mas nada: nem os ossos, / que um vosso esqueleto há-de ser buscado, / para passar por meu. E para outros ladrões, / iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo

De Portugal chega uma tardia consagração: a revista O Tempo e o Modo dedica-lhe, em Abril de 1968, o n.º 59, inteiramente dedicado (são 134 páginas) à sua pessoa: nota de abertura, breve autobiografia, entrevista sulfurosa, antologia seniana, artigos de fundo e depoimentos de 24 escritores. Foi uma espécie de reconciliação nacional, embora persistissem muitos anticorpos. E quando, a 22 de Dezembro, tenta entrar em Portugal, é detido pela PIDE na fronteira de Valencia de Alcantara. Blanc de Portugal intercede junto de Marcello Caetano e ao fim de 24 horas concedem-lhe visto de entrada. Ficará em Lisboa durante dois meses. 

Em 1969 sai Peregrinatio ad Loca Infecta e, no ano seguinte, muda-se do Wisconsin para a Califórnia. Em Julho de 1972 visita Moçambique, proferindo três conferências em Lourenço Marques. Durante uma visita à ilha de Moçambique, na companhia de Rui Knopfli, escreve: «[...] Tudo passou aqui  —  Almeidas e Gonzagas, / Bocages e Albuquerques, desde o Gama. / Naqueles tempos se fazia o espanto / desta pequena aldeia citadina / de brancos, negros, indianos e cristãos, / e muçulmanos, brâmanes e ateus. / Europa e África, o Brasil e as Índias, / cruzou-se tudo aqui neste calor tão branco / como do forte a cal no pátio, e tão cruzado / como a elegância das nervuras simples / da capela pequena do Baluarte. / Jazem hoje aqui em lápides perdidas / os nomes todos dessa gente que, / como hoje os negros, se chegava às rochas, / baixava as calças e largava ao mar / a malcheirosa escória de estar vivo [...] como se te limparas de miséria, / e de desgraça e de injustiça e dor / de ver que eram tão poucos os melhores, / enquanto a caca ia-se na brisa esbelta, / igual ao que se esquece e se lançou de nós.» 

Publicará ainda duas excepcionais colectâneas de poesia, Conheço o Sal... e Outros Poemas (1974) e Sobre Esta Praia... Oito Meditações à Beira do Pacífico (1977), considerado o seu testamento poético: «Deitados no saber de ao sol queimarem / o mais oculto de si mesmos são / dois jovens e uma jovem misturados. / Um dos rapazes se recosta contra o corpo / do outro rapaz que alonga dorso e pernas [...] São, como deuses, animais sem cio? / Ou são, como animais, humanos que se aceitam? / Ela é de quem? De um deles só, dos dois? / Um deles será dela mas também do outro? / Será cada um dos três dos outros dois? / Ambos os machos serão fêmeas do outro? / Ou só um deles? Qual dos dois? O que / sentado se recosta? O que deitado / aceita contra o seu o corpo recostado? / Os três são muito belos... [...]» 

Apesar da doença que o mina, agravada por problemas cardíacos, vê publicados os contos reunidos em Os Grão Capitães (1976) e a novela O Físico Prodigioso (1977), agora editada isoladamente. Em Abril de 1977 recebe o prémio internacional de poesia Etna-Taormina, na Sicília. Na ocasião, dirá: «A minha poesia nada tem de patriótica ou de nacionalista, e eu sempre me quis e me fiz um cidadão do mundo, no tempo e no espaço

Vem depois a Portugal, para conferências na Gulbenkian e no 10 de Junho. O discurso da Guarda, no Dia de Portugal, a convite de Eanes, comentado por dois coevos ilustres  —  Saramago e Vergílio Ferreira  —, dá a medida do feedback nacional. Para Saramago, foi uma «imprecação lançada contra os ouvidos rolhados dos espectadores de perto e de longe». Para Vergílio, todo o azedume foi pouco: «E o Jorge de Sena fez a sua cena. Berrou, gesticulou, invectivou. Foi aclamado em delírio. A mesa da presidência veio toda em peso palmear-lhe as costas. Fiquei logo subalternizado.» Sobrou-lhe um sacudido ano de vida. Mágoa maior, o descaso da Universidade portuguesa, que lhe fechou as portas.

O último poema  —  Aviso a cardíacos e outras pessoas atacadas de semelhantes males  —  foi escrito a 19 de Março de 1978. Antes de morrer, ainda vê publicadas as suas Dialécticas Aplicadas da Literatura bem como as Antigas e Novas Andanças do Demónio, obras centrais do ensaio e da ficção senianas.

Em Junho de 1978, quando morreu em Santa Bárbara, na Califórnia, tinha 58 anos. Em Setembro de 2009 os restos mortais foram trasladados para Lisboa.

Mas Sinais de Fogo, obra maior da ficção romanesca em língua portuguesa, provavelmente o romance mais importante do século XX português, só foi publicado postumamente, como também as colectâneas poéticas 40 Anos de Servidão (1979), Sequências (1980), que tem tido uma recepção crítica eviesada, fruto talvez da desembaraçada ultrapassagem de vários interditos, Visão Perpétua (1982), os dois volumes da juvenília reunida por Mécia de Sena em Post-Scriptum II (1985) e os magníficos 80 Poemas de Emily Dickinson (1979). Por escassas semanas, também Poesia do Século XX, que fecha o homérico trabalho de tradução iniciado com Poesia de 26 Séculos (1972), se lhe tornou obra póstuma.

Clique na imagem, o retrato de Sena por Fernando Lemos.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

HAROLD BLOOM 1930-2019


Harold Bloom, o crítico literário mais influente dos últimos cem anos, morreu ontem à noite no hospital de New Haven (Connecticut) onde se encontrava internado.

Professor de Yale, Bloom deixou uma obra extensa, com vários livros publicados em Portugal, entre eles A Angústia da Influência, 1973, com tradução de Miguel Tamen, e O Cânone Ocidental, 1994, close reading da obra dos 26 escritores mais importantes da literatura ocidental, de Dante a Thomas Pynchon, com tradução de Manuel Frias Martins. Há outros.

Em língua portuguesa, publicadas no Brasil, estão traduzidas três obras incontornáveis: Poesia e Repressão, 1976, com tradução de Cillu Maia, Shakespeare: A Invenção do Humano, 1998, e Génio, 2002, ambas com tradução de José Roberto O’Shea. Sobre peças de Shakespeare escreveu vários outros livros. No famoso The Book of J., 1990, sustenta que longos trechos da Bíblia foram escritos por uma mulher.

Politicamente incorrecto, combateu a crítica marxista, o afrocentrismo e o feminismo, ou seja, aquilo que designava por escola do ressentimento. Admirava profundamente Emily Dickinson, Jane Austen, George Eliot, Virginia Woolf, Toni Morrison, Maya Angelou e Amy Tan. Detestava a saga Harry Potter e, de um modo geral, a cultura popular. Mas gostava de Álvaro de Campos e não desgostava de Saramago. Tinha 89 anos.

Clique na imagem.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

FREITAS DO AMARAL 1941-2019


Vítima de cancro nos ossos, morreu hoje Diogo Freitas do Amaral, internado há cerca de três semanas no Hospital da CUF, em Cascais, embora também estivesse a ser seguido por especialistas da Fundação Champalimaud. Tinha 78 anos.

Professor catedrático de Direito, antigo procurador da Câmara Corporativa, deputado em várias legislaturas, vice-primeiro-ministro de Sá Carneiro (e primeiro-ministro interino após a sua morte), membro do Conselho de Estado, mais de uma vez ministro da Defesa Nacional e dos Negócios Estrangeiros, Presidente da União Europeia das Democracias Cristãs, um dos autores da revisão constitucional de 1982, candidato presidencial em 1986 e, em 1995, Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, deixa uma bibliografia com mais de sessenta títulos, incluindo os três volumes das Memórias, o último dos quais lançado há três meses.

Fundador do CDS em Julho de 1974, juntamente com Adelino Amaro da Costa, Basílio Horta, Victor Sá Machado, João Morais Leitão e outros, dirigiu o partido até 1982, mas abandonou-o em 1992.

O Governo decretou luto nacional no próximo sábado, dia do funeral. O primeiro-ministro foi claro: «Morreu um dos fundadores do regime democrático». O Presidente da República cancelou a viagem ao Vaticano.

Clique na imagem.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

JESSYE NORMAN 1945-2019


Vítima de choque séptico, morreu hoje no Mount Sinai St Luke Hospital de Nova Iorque a soprano americana Jessye Norman. Iniciada no gospel, Jessye notabilizou-se pelas suas interpretações de Schubert, Mahler, Wagner, Brahms, Satie, Bartok, Strauss, Poulenc, Messiaen, Purcell, Berlioz, Verdi e outros. Provavelmente a soprano americana mais amada na Europa, Jessye deu sempre primazia ao cânone europeu. Em 1989, Mitterrand convidou-a para cantar La Marseillaise na cerimónia oficial de celebração dos duzentos anos da Revolução. Tinha 74 anos.

Clique na imagem.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

TONI MORRISON 1931-2019


Morreu ontem à noite no Montefiore Medical Center, de Nova Iorque, a escritora norte-americana Toni Morrison, Nobel da Literatura em 1993. A notícia só foi divulgada hoje à tarde. Tinha 88 anos.

Master of Arts pela Cornell University, e professora de inglês em Princeton, Morrison publicou doze romances, três colectâneas de contos, nove volumes de ensaio, uma compilação de crónicas, cinco livros para a infância e o libreto de uma ópera.

Além do Nobel e de dezenas de outras distinções, recebeu o prémio do National Book Critics Circle (1977), o Pulitzer de Ficção (1988) e a Medalha Presidencial da Liberdade (2012) atribuída por Obama. Foi doutorada honoris causa por várias universidades.

Beloved (1987), que em Portugal mantém o título original, é o seu livro mais famoso.

Activista política desde sempre, pela causa negra, dos direitos humanos e do feminismo, Morrison publicou em 2016, na New Yorker, um violento artigo contra a eleição de Trump, que acusou de supremacista branco.

Antes de tornar-se uma autora consagrada, foi editora na Random House entre 1965 e 1983. Foi casada com um arquitecto de quem teve dois filhos.

Está na altura da RTP2 transmitir o filme Imagine. Toni Morrison Remembers (2015), da BBC.

Clique na imagem.

terça-feira, 4 de junho de 2019

O ANO DO CENTENÁRIO


Passam hoje 41 anos sobre a morte de Jorge de Sena (1919-1978), figura maior da Literatura portuguesa de todos os tempos. Sena morreu em Santa Bárbara (Califórnia), com 58 anos. Os restos mortais foram trasladados para Lisboa em Setembro de 2009.

Em Novembro próximo passam cem anos do seu nascimento. Mas a Academia exonerou-se de assinalar a data com o congresso internacional que lhe é devido.

Como escrevi nas minhas memórias, «Sena teve o destino dos exilados: morrendo longe, a pátria assobiou para o lado. A imprensa da época encheu primeiras páginas com artigos de fundo e retratos. [...] Mas o foguetório durou pouco. Sena veio a Portugal pela última vez a convite de Eanes, para as cerimónias do 10 de Junho de 1977. Mas nem a democracia o livrou dos anticorpos. A universidade portuguesa, sempre generosa com os tolos, foi incapaz de lhe oferecer um lugar. Pior: o establishment boicotou essa possibilidade

Seria pleonástico sublinhar a importância de Sena na poesia, na ficção (conto, novela e romance), no teatro, no ensaio, na teoria e crítica literária, nos estudos camonianos, na exegese pessoana, na historiografia literária, na diarística, nos mil e um prefácios de livros próprios e alheios, na correspondência, nas traduções, etc. Sena atingiu um patamar que condena à irrelevância a larga maioria das glórias nacionais.

Na imagem, Sena retratado (em 1949) por Fernando Lemos. Clique.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

AGUSTINA, SEMPRE


Hoje na edição online da Sábado.

Desapareceu aos 96 anos a maior romancista portuguesa do século XX. Agustina deixou-nos na madrugada desta segunda-feira, após doze anos de reclusão da vida pública, a que se viu forçada pelo acidente vascular cerebral sofrido no início de 2007. Estava ainda na memória de todos a obra mais recente, A Ronda da Noite, saída dos prelos no Outono de 2006. Rembrandt serviu de pretexto para contar a história dos Nabascos, família que não suportava amadores, «fosse na arte, fosse nos negócios ou na política…» Absolutamente vintage.

Nascida em Vila Meã, Amarante, a 15 de Outubro de 1922, foi sempre uma mulher do Norte. Ali casou, ali lhe nasceu uma filha — a escritora e artista plástica Mónica Baldaque —, ali se fez à vida literária. Estreada em 1948, com Mundo Fechado, Agustina escreveu cerca de cem livros, em todos os géneros: ficção (romances, novelas e contos), dramaturgia, literatura infantil, biografia, ensaio, crónica, viagens, memórias e artigos de opinião. Em 1954, A Sibila fez dela uma autora respeitada. Iam longe os tempos das diatribes de Jaime Brasil. Saudada por Aquilino, Régio, Pascoaes e Ferreira de Castro, Agustina tornava-se a primeira escritora a quebrar o domínio do Partido Comunista na vida cultural portuguesa. Eduardo Lourenço falou mesmo do surgimento de uma «literatura nova». 

A medida do reconhecimento pode avaliar-se pelo facto de, logo em 1962, ter integrado a delegação nacional ao congresso da Comunità Europea Degli Scrittori, realizado em Florença. Ao lado de Sophia de Mello Breyner Andresen, Urbano Tavares Rodrigies, Natália Correia, José Cardoso Pires e Orlando da Costa, a presença de Agustina, uma conservadora de convicções fortes, era a nota dissonante. Mas em 1974 Agustina era já um nome incontornável. Sem surpresa, a implosão do Estado Novo contribuiu para lhe reforçar a aura.

Aos romances que podem ser lidos como trilogia da revolução — As Pessoas Felizes, 1975, Crónica do Cruzado Osb., 1976, e As Fúrias, 1977 —, seguiram-se outros nos quais, sob variados ângulos, teceu a narrativa do país. Exemplo de grande conseguimento, Os Meninos de Ouro, de 1983, põe em pauta o destino de Francisco Sá Carneiro (doublé de José Matildes), o primeiro-ministro morto na última noite da campanha presidencial de 1980. Picante suplementar, o romance mete Sophia e o primo Ruben A. entre as personagens. E assim se foi consolidando a imagem de autora de culto.

Ao contrário de outros, nunca o espírito do tempo a impediu de tomar posições claras. A título de exemplo, veja-se o desassombro com que apoiou o referendo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Também nunca se esquivou a polémicas, como as que envolveram o facto de ter sido mandatária de Freitas do Amaral nas eleições presidenciais de 1986 (em 1976 tinha apoiado Eanes); as posições assumidas enquanto vogal da Alta Autoridade para a Comunicação Social; bem como a heterodoxa gestão do Teatro Nacional D. Maria II, do qual foi directora entre 1990 e 1993. Está na memória de muitos a recordação de ter patrocinado na Casa de Garrett a exibição da revista Passa por mim no Rossio, de Filipe La Féria. O mesmo se diga da época em que dirigiu O Primeiro de Janeiro, jornal do Porto com largas tradições na vida da cidade.

A cumplicidade com Manoel de Oliveira deu azo a vários filmes: Francisca, o primeiro, feito a partir de Fanny Owen, romance de 1979 que mete Camilo no plot; o segundo, Vale Abraão, inspirado no romance homónimo de 1991, etc. Estaria na calha outro, sobre A Ronda da Noite, mas o projecto caducou com a saída de cena de Agustina.

Outro romance passado ao cinema foi A Corte do Norte, com realização de João Botelho. É provável que os filmes tenham alargado o número de leitores, conquanto Agustina nunca tenha sido uma autora bestseller.

Doutorada honoris causa por várias universidades, entre elas a Tor Vergata de Roma, Agustina recebeu todos os prémios e condecorações que há para receber no nosso país. Em 2004 foi a vez do Prémio Camões. Membro da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Brasileira de Letras e da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres, jamais a obra foi beliscada pelo exercício de cargos públicos ou funções institucionais.

A morte surpreendeu-a hoje na casa da Rua do Gólgota. Mas vamos continuar com ela. A editora Relógio d'Água tem estado a reeditar a obra, prevendo-se para breve o volume da correspondência (inédita) trocada com Juan Rodolfo Wilcock, o poeta e escritor argentino de quem foi amiga.

Clique na imagem.

AGUSTINA BESSA-LUÍS 1922-2019


Agustina morreu esta madrugada. Tinha 96 anos. Farei mais tarde o obituário da maior romancista portuguesa do século XX. Por enquanto não há palavras. 

À família, em particular a sua filha Mónica Baldaque, os meus sentimentos.

Origem da foto: O Livro de Agustina, 2007. Clique

terça-feira, 9 de abril de 2019

TERESA ROZA d’OLIVEIRA 1945-2019


Vítima de problemas cardíacos, morreu ontem a Teresa Roza d’Oliveira (1945-2019), artista plástica com lugar cativo nas minhas memórias. Tinha 74 anos.

Fomos amigos desde 1961, estivemos juntos em Lisboa na semana que antecedeu o 25 de Abril, foi ela a autora da capa do meu primeiro livro (1974), e escrevo estas linhas defronte de um dos seus quadros. Natural da Ilha de Moçambique, cedo acompanhou a família para Lourenço Marques. Foi casada com o poeta Lourenço de Carvalho, pai dos seus dois filhos, de quem se separou no fim dos anos 1970.

Teresa Roza d’Oliveira, que fez parte do grupo de artistas revelado pelo Núcleo de Arte de Lourenço Marques, tem obra espalhada por museus de Maputo, Joanesburgo, Pretória e Durban, bem como pelas colecções de arte da Universidade Eduardo Mondlane (Maputo), BNU, Banco Central de Moçambique, Instituto de Crédito de Moçambique, Linhas Aéreas de Moçambique, Petróleos de Moçambique, Banco Pinto & Sotto Mayor, Banco de Fomento Exterior, Portugal Telecom, Petróleos de Angola, Organização Nacional dos Jornalistas (Maputo), Cimpor, outras empresas e coleccionadores particulares. O espólio de arte de Natália Correia inclui obras suas. Entre outros, trabalhou com os pintores João Ayres, Bertina Lopes, José Júlio e Malangatana.

Radicada em Portugal a partir de 1977, depois de uma estadia fugaz na África do Sul, manteve presença discreta no milieu artístico nacional, em exposições individuais e colectivas, na Galeria Moira (Lisboa), na Bienal de Pintura de Óbidos, na Biblioteca-Museu República e Resistência, na Galeria Paula Cabral (Lisboa), na Galeria de Arte Lóios (Porto), na Galeria Arade (Portimão), na Fundação Sousa Pedro (Lisboa), na Cooperativa Árvore (Porto), na Casa da Imprensa, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, etc. Nos anos 1990 voltou a Moçambique, onde permaneceu cerca de um ano. Vivia há largos anos na aldeia do Meco, na companhia de Maria Emília Moraes, sua companheira.

Na imagem, eu e a Teresa, fotografados por Kok Nam, na noite de 2 de Março de 1974, em Lourenço Marques. Clique.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

JOÃO BIGOTTE CHORÃO 1933-2019


Morreu ontem à noite o crítico e ensaísta João Bigotte Chorão, membro da Academia das Ciências de Lisboa, do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, e antigo director (1997-2003) do Círculo Eça de Queiroz.

Bigotte Chorão foi um dos grandes especialistas de Camilo Castelo Branco. Da sua vasta obra destacaria O Discípulo Nocturno (1965), Camilo, a Obra e o Homem (1979), O Escritor na Cidade (1986), O Reino Dividido (1999), Galeria de Retratos (2000), Diário Quase Completo (2001), obra que recebeu o Grande Prémio da Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores, Além da Literatura (2014) e Diário 2000-2015 (2018).

Na Editorial Verbo, de que foi director, coordenou e editou várias enciclopédias, tais como, entre outras, a BIBLOS, dedicada às literaturas de língua portuguesa, ou a luso-brasileira LOGOS, de filosofia.

Personalidade discreta da vida cultural portuguesa, Bigotte Chorão é pai do crítico e poeta Pedro Mexia.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

ARNALDO MATOS 1939-2019


A propósito da morte de Arnaldo Matos, fundador do MRPP em 1970, advogado, Pacheco Pereira escreve hoje no Público um texto que põe os pontos nos is.

Lembra, por exemplo, que, «Depois do 25 de Abril, [o MRPP] entrou em choque com o MFA, tendo sido a única organização que foi sujeita a uma prisão em massa por parte dos militares no poder, com a preciosa ajuda do PCP, que os considerava “contra-revolucionários” e agentes da CIA. Arnaldo Matos foi igualmente preso e gerou um grande movimento exigindo a sua libertação

Detido pelo Copcon, a polícia revolucionária de Otelo, Arnaldo Matos foi o primeiro preso político após o 25 de Abril. E o MRPP foi proibido de concorrer às eleições para a Assembleia Constituinte.

Percebo as razões da má-vontade de muita gente contra Arnaldo Matos, porque vivi os anos em que, como recorda Pacheco Pereira, assumiu posições que o colocaram «próximo do PS e de um grupo de militares ligados a Eanes, na resistência ao PCP e às outras organizações da extrema-esquerda, como a UDP

Se estivesse vivo, faria amanhã 80 anos. A História não deve ser apagada.

Clique na imagem.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

SEQUEIRA COSTA 1929-2019


Vítima de cancro, morreu ontem no Kansas o pianista Sequeira Costa. Tinha 89 anos. Sequeira Costa nasceu em Luanda, mas foi ainda bebé para Lourenço Marques, cidade onde viveu até 1937, ano em que veio para Lisboa estudar com Vianna da Motta. Em 1948 foi para Londres continuar os estudos com Mark Hambourg, e mais tarde para Paris, onde trabalhou com Marguerite Long e Jacques Février, seguindo-se Edwin Fischerem em Lucerna. Não admira que o seu estilo subsuma as tradições alemã e francesa.

Aclamado em dezenas de países do mundo inteiro (China incluída), especialmente pelas suas interpretações de Bach, Chopin, Ravel, Liszt, Beethoven, Schumann, Albeniz, Busoni, Rachmaninov e Vianna da Motta, tocou com orquestras tão diferentes como a London Symphony Orchestra, a Royal Philharmonic Orchestra, a Filarmónica de Moscovo, a Filarmónica de Leningrad, a Sinfónica de Praga, a Bamberger Symphonikern (Alemanha), a Filarmónica do Japão, a Sydney Symphony Orchestra, a Tokyo Metropolitan, a Orquestra Gulbenkian e muitas outras. Da vasta discografia faz parte a integral das sonatas de Beethoven.

Aos 22 anos venceu o Grande Prémio no Marguerite Long International Piano Competition. E em 1957 fundou em Lisboa o Concurso Internacional de Música Vianna da Motta. Nesse mesmo ano, Shostakovich convidou-o a integrar o júri do primeiro Concurso Internacional Tchaikovsky, em Moscovo, função que desempenhou durante seis anos. Em 1979 criou o Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim, por onde passaram Rostropovitch, Tortelier, Alfred Brendel e outros.

Radicou-se nos Estados Unidos em 1976, ocupando o cargo de Cordelia Brown Murphy Distinguished Professor of Piano, da Universidade do Kansas. A estreia americana ocorreu em 1979, no Alice Tully Hall do Lincoln Center, em Nova Iorque. Desde então, tem feito parte dos júris dos concursos de piano mais importantes do mundo

O pianista português Artur Pizarro foi seu aluno durante dezasseis anos.

Clique na imagem.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

KARL LAGERFELD 1933-2019


Morreu hoje o estilista alemão Karl Lagerfeld, director da Chanel desde 1982 e, nessa medida, um dos mandarins da haute couture francesa.

Natural de Hamburgo, mas criado na quinta que os pais possuíam perto de Bad Bramstedt, na região de Schleswig-Holstein, Lagerfeld transferiu-se para Paris em 1952. Discípulo de Balmain, passou por várias casas importantes (como a Fendi, que dirigiu a partir de 1965), teve a sua própria marca, mais tarde vendida, e um companheiro — Jacques de Bascher, personagem do beau monde parisiense, falecido em 1989, vítima da sida — com quem viveu dezoito anos.

Por, durante quinze anos, ter recusado pagar impostos em França, protagonizou e perdeu um litígio fiscal que o levou a pagar, em 2000, cerca de cem milhões de euros, valor inferior à dívida (260 milhões), graças ao perdão fiscal concedido por Dominique Strauss-Kahn, à época ministro das Finanças. Nessa altura vendeu parte da sua colecção de pintura e mobiliário, pondo ponto final no escândalo.

É de sua autoria a colecção de pronto-a-vestir denominada cápsula, da empresa sueca H&M. Trabalhou com vários realizadores de cinema, como Almodóvar e Zeffirelli, bem como directores de ópera e ballet.

Excêntrico, misantropo, ícone pop, proprietário de duas bibliotecas (a da mansão de Paris, onde morreu, e a da casa dos arredores de Hamburgo) que no seu conjunto acolhem para cima de trezentos mil volumes, não gostava de revelar o ano de nascimento. Nos anos 1990 submeteu-se a uma dieta que o fez perder 43 quilos. Se, como os documentos indicam, nasceu a 10 de Setembro de 1933, tinha 85 anos.

Desapareceu o Kaiser de Paris.

Clique na imagem.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

ALBERT FINNEY 1936-2019


Vítima de infecção pulmonar, morreu ontem Albert Finney, um dos maiores actores ingleses da sua geração.

Era muito novo quando pela primeira vez o vi em Sábado à Noite e domingo de Manhã (1960), mas revi o filme anos mais tarde, e nos últimos tempos mal o reconheci em papéis secundários da saga Bourne. Mas todos nos recordamos dele em Tom Jones (1963), Crime no Expresso do Oriente (1974), O Armário (1983), Sob o Vulcão (1984), Miller's Crossing (1990), Washington Square (1997), Peixe Grande (2003) e outros.

Cinco vezes candidato ao Óscar, nunca o recebeu. Recusou a Ordem do Império Britânico e também o título de Cavaleiro com que a rainha o queria agraciar. Não obstante a sua origem proletária, Finney frequentou a Royal Academy of Dramatic Arts, privilégio hoje vedado a candidatos que não tenham passado por Eton, tornando-se um excelentíssimo actor do repertório shakespeariano.

Clique na imagem.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

AMOS OZ 1939-2018


Vítima de cancro, morreu hoje Amos Oz, o escritor israelita que se opunha à política expansionista do seu país, o defensor convicto do direito dos palestinianos a um Estado independente, uma voz incómoda para Tel Aviv: «Se não houver aqui dois estados, e rapidamente, haverá apenas um. (E será árabe.)» Romancista, contista, ensaísta, professor de literatura na Universidade Ben-Gurion, em Beersheba, tem a obra (vinte romances, onze colectâneas de ensaios e três de contos) publicada em mais de cinquenta países, incluindo Portugal, onde estão traduzidos os seus livros mais conhecidos. Em data, o mais recente é Caros Fanáticos, uma colectânea de três ensaios centrados no fanatismo universal, de que o islâmico é parte. Tinha 79 anos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

RUI MARTINIANO 1954-2018


Vítima de aneurisma, morreu anteontem Rui Martiniano, o editor que, na qualidade de poeta, assinava Rui André Delídia.

Martiniano abandonou a actividade bancária para fundar a Hiena, editora marginal porém muito exigente, que tem no seu catálogo dois livros de Fernando Assis Pacheco, sendo um deles a primeira reunião da poesia completa do autor, uma colectânea de traduções feitas por Herberto Helder, além de livros de Raul Leal, António José Forte, Adília Lopes, Oscar Wilde, Djuna Barnes, Boris Vian, Marguerite Duras, Saint-John Perse, Marina Tsvétaïeva, Walter Benjamin, Thomas Bernhard, Mandelstam, Beckett, Nietzsche, Joyce, Hofmannsthal, Rilke, Céline, Rimbaud, Baudelaire, Genet, Lorca, Artaud, Nerval, Kafka, Mallarmé, Bataille, Michaux, Tzara, Pound e dezenas de outros.

Em 1991, com o título Arte Inútil, publicou a sua própria poesia reunida (escrevi sobre o livro no n.º 135-36 da revista Colóquio-Letras). Nos últimos anos dedicou-se à actividade de alfarrabista, na Rua Anchieta, ao Chiado. Tinha 64 anos.

Imagem de Edgar Pêra, roubada a Diogo Vaz Pinto. Clique.