Este ano, pela primeira vez, o
Ars Amandi reuniu poetas da África francófona e da Moldávia independente. Da Moldávia foi Irina Nechit, que consegue a proeza de ser, em simultâneo, membro da União de Escritores da República Moldava e da União de Escritores da Roménia. Quanto sei, viajou integrada na delegação romena. Mas na intervenção que fez no dia 11, na mesa redonda sobre “autobiografia em poesia”, e no dia seguinte na leitura dos seus poemas, puxou dos galões da luta independentista contra a antiga URSS. A grande surpresa foram os africanos: Julien Kilanga Musinde, do Congo, e Sarah Carrére, do Senegal. Kilanga Musinde, professor da Universidade Lubumbashi, vive actualmente em Paris, onde ocupa o cargo de Directeur de Langues et de l’Ecrit na Agence Intergouvernementale de la Francophonie. Sarah vive em Dakar, mas tão depressa está em Paris (onde tem casa) como no Rio. Fiquei deveras impressionado com a poesia dele e com a
performance dela, na linha da tradição
griot. Em sessões diferentes, as respectivas leituras foram entrecortadas de canto e, por parte de Sarah, que também é compositora e intérprete, pelos sons que arranca da
Kora. Felizmente, a programação do festival permitiu que os poetas descobrissem a cidade, o que nem todos aproveitaram, e nem sempre é fácil neste tipo de encontros. Em Roma torna-se particularmente difícil por causa das limitações da rede de metro e, naturalmente, por causa das multidões concentradas nos sítios do costume. Os museus do Vaticano, por exemplo. Como escapar ao apelo da arte etrusca e pré-romana? Ao fascínio da Capela Sistina, sinónimo de Miguel Ângelo, Botticelli, Ghirlandaio, Rosselli, Perugino, Signorelli... À deriva da arte grega e romana, às salas de Rafael, etc.? Em vão. Nesta época do ano, o tempo médio de espera na fila, para entrar, são cinco horas (ao sol e à chuva). E como a última admissão se faz às 15:20h, significa que quem chegar à fila depois das dez da manhã dificilmente conseguirá entrar. Na basílica de São Pedro só é preciso esperar três horas, o que continua a ser excessivo para comodistas como eu. Tive pena, sinceramente tive, mas não deu. Quando lá voltar, de preferência no Inverno, tiro um dia para o Vaticano. Em todo o caso, a Praça de São Pedro é impressionante. E os guardas suíços que posam (como quem não quer a coisa) para as Sonys planetárias, valem bem uma missa... Dali ao Campo de’Fiori é um passo. O Campo de’Fiori é um mercado a céu aberto, imundo (conferir ao alto), obstruindo a visão do Teatro de Pompeia e da estátua de Giordano Bruno, queimado vivo naquele local, em 1600. Uma inesperada e violenta bátega de chuva atirou connosco para o La Carbonara, junto à fonte da praça. De uma janela do primeiro andar, onde comemos mediocremente (salvo os
antipasti, excelentes, e de que nos podemos servir em
buffet à discrição) a 25 euros por boca, vimos enfim a estátua do filósofo herege. Ao lado do Campo de’Fiori fica a Piazza Farnese, dominada pela imponente fachada do
palazzo que o cardeal Alessandro Farnese ali mandou construir — Sangallo começou, Miguel Ângelo continuou, Giacomo della Porta concluiu — no século XVI, e é hoje a Embaixada de França. À direita do
palazzo fica um emaranhado de vielas que nos conduz à Via dei Banchi Vecchi, em cujo n.º 116 fica a
Libreria Babele, uma livraria especializada em literatura
gay e estudos de género. Foi lá que adquiri
L’eroe negato (2000) de Francesco Gnerre, sobre ‘
Omosessualità e letteratura nel Novecento italiano’ (447 pp). Devo esta útil indicação a um alto-funcionário do Ministero degli Affari Esteri que me prestou precioso apoio logístico. E vem a talhe de foice esclarecer o
Tiago acerca da natureza das mordiscadelas dos tais rapazes, de facto bastante literais, como outras manifestações a que assisti, a despeito da fama que Roma tem de ser uma cidade
not friendly em matéria de efusões públicas entre homossexuais.