Sexta-feira, Setembro 05, 2008

AUGUSTEN BURROUGHS


Hoje no Público:


Depois do êxito planetário de Correr com Tesouras, a sua muito aclamada autobiografia da infância e adolescência, Augusten Burroughs (n. 1965) não perdeu tempo: avançou com A Seco, memórias de um criativo de publicidade dependente do álcool. Os livros são de 2002 e 2003, respectivamente, e o primeiro até deu azo a um divertido filme de Ryan Murphy com Joseph Cross no papel de Augusten Burroughs. A família (a mãe é escritora e poeta, o pai é director do departamento de filosofia da Universidade de Massachusetts Amherst) não gostou do que leu, e a Vanity Fair publicou em 2007 um artigo que pretende demonstrar a manipulação de grande parte dos incidentes que Augusten Burroughs assume como biográficos. Polémicas à parte, o aplauso é geral: o primeiro livro, Sellevision (2000), está a ser adaptado ao cinema, e as colectâneas de ensaios vendem-se como amendoim. Não esquecer que o autor é colunista das publicações de língua inglesa mais influentes dos dois lados do Atlântico.

À primeira leitura, pode parecer que Augusten Burroughs escreve no registo linear que faz escola desde Menos que zero (1985), de Bret Easton Ellis. Mas, para todos os efeitos, apesar de afinidades geracionais, Augusten não faz parte do Brat Pack, o grupo de autores (Ellis, Jay McInerney, Tama Janowitz, David Leavitt, Donna Tartt, etc.) que nos anos 1980 redefiniu o pós-modernismo americano. A sua escrita tem uma plasticidade capaz de nos levar das lágrimas ao riso. Os seus livros, e este em particular, estão isentos de melodrama, mesmo quando nacos de tragédia sórdida convivem com o humor mais corrosivo.

Tal como em Correr com Tesouras, Augusten é o narrador e protagonista de A Seco. Começa por explicar como, sem habilitações formais, entrou e fez sucesso na profissão. Aos 13 anos havia sido entregue pela mãe, para adopção, ao seu psiquiatra: «Levei então uma vida de infelicidade e pedofilia, sem ir à escola e com comprimidos de borla. Quando finalmente consegui escapar, apresentei-me às agências de publicidade como um jovem autodidacta, levemente excêntrico [...] Omiti o facto de não saber soletrar uma palavra e de fazer broches desde os treze anos.» Trabalho e talento fizeram o resto. Aos 25 anos faz parte dos happy few de Manhattan, mas a crescente dependência do álcool põe tudo em risco.

Augusten é gay, mantendo uma relação de enamoramento com um antigo amante: «Pighead e eu conhecemo-nos através de uma linha de telefones eróticos. Eu tinha acabado de me mudar para Manhattan [...] Contei-lhe a minha vida de publicitário, impressionando-o com a minha falta de formação académica para além da escola primária e com o meu sucesso numa idade tão jovem.» Pighead é um jovem banqueiro de investimentos, de origem grega, seropositivo, que vive num apartamento faustoso na companhia de Virgil, o seu terrier de estimação. Por seu lado, Augusten, não obstante os duzentos mil dólares de salário anual, sobrevive no meio do caos, com a casa atulhada de garrafas vazias, tantas que «enchem vinte e sete sacos gigantes, de tamanho industrial.» Deu por isso no dia em que regressou a Nova Iorque após um mês de desintoxicação no Minnesota. Tem dificuldade em acreditar no que vê e perde sete horas a encher os sacos. O pior vem depois: a sua relação com Foster, dependente de crack; a partida de Hayden; a morte de Pighead. Nessa altura descobre que passou «meses a tentar matá-lo com os [seus] pensamentos.» Quando Augusten por fim desmorona, os capítulos tornam-se sombrios, fazendo abrandar o ritmo dos diálogos (no geral bastante divertidos). Só o sarcasmo permanece incólume.

Ao longo do texto, em notas de rodapé, Duarte Sousa Tavares, o tradutor, dá explicações sucintas que contextualizam a obra à luz da cultura e do quotidiano da sociedade americana. Porém, uma revisão menos atenta fez com que duas dessas notas (a 33 e a 34) apareçam na página errada.


Génio disfuncional, in Ípsilon, 5-9-2008, p. 30. Quatro estrelas e meia.

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Sexta-feira, Agosto 29, 2008

JORGE EDWARDS


Hoje no Público:


Pegando no título do primeiro romance de Joaquín Edwards Bello, El Inútil (1910), o escritor chileno Jorge Edwards (n. 1931), sobrinho-neto de Bello, escreveu O Inútil da Família, cruzando a biografia do tio-avô com a sua própria autobiografia. Para tanto, socorreu-se da focalização omnisciente, processo que lhe permitiu manipular factos e personagens de modo a dar dos acontecimentos a interpretação que lhe convinha, ou seja, estabelecer nexos entre a vida acidentada do irmão mais velho do seu avô paterno e a sua própria. Ele o diz: «É, em certa medida, a minha própria história».

Nascido no seio do poderoso clã dos Edwards, que detinha influência política e económica no Chile, Joaquín Edwards Bello (1887-1968) foi um colunista de grande audiência, romancista, contista e ensaísta. Porém, o seu estilo de vida, em tudo contrário às convenções aristocráticas da família, transformou-o no outsider que tinha como divisa a objurgatória de Gide: «Famílias, como vos detesto!» É natural que o sobrinho-neto dê testemunho desse antepassado transgressor, um homem que toda a vida desafiou os seus, coerente com os valores em que acreditava, «politicamente incorrecto, desdenhoso da Academia, mas de pena incisiva, com um ritmo ágil e nervoso, de visões fulgurantes e amiúde contraditórias.» De algum modo, aquilo que Jorge Edwards, formado por jesuítas, antigo diplomata (além de cargos menores, foi embaixador em Cuba e na Unesco), biógrafo de Neruda e Machado de Assis, escritor, Prémio Cervantes, colunista de grandes jornais europeus, etc., gostaria de ser.

E se Joaquín Edwards Bello é praticamente desconhecido em Portugal, Jorge Edwards, apesar de dois romances traduzidos (mas não aquele que lhe deu fama, Persona non grata, de 1973, sobre a sua expulsão de Havana ao fim de três meses de ter apresentado credenciais a Fidel em nome de Allende), também não faz parte do selecto grupo de autores latino-americanos imediatamente reconhecíveis pelo público. Mas pode ser que as coisas mudem com a publicação, anunciada para breve, de A Casa de Dostoiévski, a sua obra mais recente.

O Inútil da Família é o tipo de livro que não suscita entusiasmo fora dos círculos de iniciados. Narrado, em simultâneo, na terceira e na segunda pessoa («Não faz mal, pensou, pensaste, que faça mau tempo», ou «Pois bem, agora, a meio da manhã, cruzava, cruzavas o umbral do Hipódromo do Chile...», etc.), utilizando todos os recursos da narrativa culta, apoiado em vasta informação bibliográfica, sob um sólido fundo historicista, a que Jorge Edwards junta as suas idiossincrasias mais pessoais, extensas memórias literárias e lastro político correlato, de tudo resultando o magma complexo que ilustra o destino do tio-avô, «herói trágico, alguém que sempre fui seguindo com os olhos abertos, com uma atenção apaixonada e não raras vezes abismada.» Um projecto ambicioso que o talento do autor leva a bom porto.

Convicções ideológicas à parte, Jorge Edwards está mais próximo do argentino Jorge Luis Borges que do seu compatriota Neruda. Assim o prova o exercício mnemónico e culturalista que faz de O Inútil da Família uma obra singular. Expurgado da ganga “literata”, trata-se de um curioso ensaio sobre o suicídio, sendo irrelevante, para o efeito, que o móbil da dissertação assente no acidentado percurso de Joaquín Edwards Bello, com os seus vícios (entre todos, as corridas de cavalos) e bizarrias particulares. O quadro sociológico em que se moviam as classes possidentes e a intelligentzia do início do século XX é descrito com segurança. Afinal de contas, Joaquín Edwards Bello foi um homem do mundo: estudou na Europa, conviveu com os grandes do seu tempo, nunca tendo prescindido da sua quota de social. Agora até tem uma biografia, decerto pouco convencional, a que a tradução de Helder Moura Pereira empresta colorido e vivacidade.

Inútil, é como quem diz, in Ípsilon, 29-8-2008, pp. 35-36. Quatro estrelas.

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Sexta-feira, Agosto 15, 2008

ALBERTO MORAVIA


Hoje no Público:


Em 1961, Alberto Moravia (1907-1990), acompanhado de Elsa Morante, então sua mulher, e de Pier Paolo Pasolini, fizeram juntos uma viagem à Índia. O resultado foram dois livros, publicados ambos em 1962: O Cheiro da Índia, de Pasolini, e Uma Ideia da Índia, de Moravia. Elsa absteve-se. Três escritores italianos, em digressão por um país como a Índia ainda era há perto de cinquenta anos, foi com certeza uma experiência homérica.

No regresso, antes da edição em volume, Moravia relatou essa experiência numa série de onze artigos publicados no Corriere della Sera entre Fevereiro e Julho de 1961. E logo aí foi notada a omissão de qualquer referência aos companheiros de viagem. Salvo pequenas intervenções de natureza formal, Uma Ideia da Índia reproduz esses artigos (com uma única excepção, os respectivos títulos correspondem aos dos capítulos), mais um inédito a fechar: O Escândalo de Khajurah.

Saída havia pouco da tutela britânica (a independência fora em Agosto de 1947), a Índia estava longe de ser a potência emergente que é na actualidade. À época, reflectia «uma pobreza enferma e frenética, de tipo medieval, que no Ocidente desapareceu há alguns séculos». À medida que o relato avança, sentimos o enfado de Moravia: «Uma viagem na Índia significa um passeio através [de] cidades em que, à excepção de alguns monumentos muito notórios, mas não excepcionais, tudo é muito semelhante, de tal modo que ter visto uma é o mesmo que tê-las visto todas. Com efeito, a cidade indiana não é mais do que um enorme bazar [...] com aquela monotonia confusa e um pouco irritante que é própria da pobreza e da ausência de qualquer plano urbanístico.» Hoje, qualquer colunista que expressasse um tal ponto de vista seria crucificado em nome da “correcção”. Mas, nos anos 1960, o marxista Moravia podia lavar o fígado em público.

A ideia de bazar incomodou-o. É muito eloquente a descrição do interior do Templo de Maduré, onde «vagabundos e peregrinos dormem no chão, estendidos aqui e acolá ao acaso, como cadáveres depois de uma matança», lado a lado com «vacas atordoadas e magras de causar dó, cães sarnentos e talvez raivosos», etc., mais a multidão que discute e regateia como se estivesse no bazar, pois os vendedores estão instalados em balcões colocados entre «pilares fantasticamente esculpidos com figuras grotescas e ameaçadoras». Por oposição a esse cenário dantesco, as ruínas (sem gente por perto) do Templo de Mahabalipuram despertam nele «o mesmo sentimento de pura exaltação que diante das ruínas de Olímpia [...] na Grécia.»

Longe da multidão, o neopaganismo («poucos sabem o que ele significa verdadeiramente»; no Ocidente, claro) é um conceito respeitável, uma vez que na Índia teve lugar «há mais de três mil anos [...] no plano religioso, a mesma operação de recuperação cultural que, no plano científico, foi posta em vigor nos nossos dias pela psicanálise.» Se juntarmos a isto o facto, ele o diz, de que «a Índia não foi sublimada e humanizada pelo cristianismo», a reflexão muda de patamar. Uma ideia, portanto. Sem o empecilho das moscas.

Realmente memoráveis são as árvores. «O que fica, então, na memória, de uma viagem de automóvel, suponhamos, ao longo dos mil e poucos quilómetros do vale do Ganges, de Nova Deli até Calcutá?» As árvores. Sobretudo «a figueira-de-Bengala, que podia ser o símbolo vegetal da Índia, como o cedro o é do Líbano». O resto é poeira, e «a mata é geralmente seca [...] decrépita, maligna, selvagem, mas selvagem de um modo particular, dissimulado sob uma aparência de pacatez.»

Acerca da pobreza do povo, Moravia afirma que «o próprio fenómeno da mendicidade levanta a suspeita de que a pobreza na Índia não é um facto contingente e remediável, mas sim um traço constitutivo, de modo que modificá-la ou tentar anulá-la significaria alterar completamente o carácter do povo indiano.»

Quando, em 1929, com apenas 22 anos, Moravia publicou Os Indiferentes, o seu romance de estreia, a crítica foi unânime em fazer dele um nome de referência. Obras posteriores, como O Conformista (1947), O Desprezo (1954) ou La Ciociara (1957), levadas ao cinema por Bertolucci, Godard e Vittorio De Sica, amplamente confirmaram o sucesso do autor. Noutro registo, o imediatismo da escrita diarística, mostrando as perplexidades e os enfados à flor da pele, faz de Uma Ideia da Índia uma obra de contornos diferentes daqueles a que nos habituara o Moravia canónico.


Uma ideia, diz ele, in Ípsilon, 15-8-2008, p. 43. Três estrelas e meia.

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Sexta-feira, Agosto 08, 2008

KATE CHOPIN



Também hoje no Público:


Quarenta e dois anos separam Madame Bovary, de Flaubert, de O Despertar, de Kate Chopin. Contudo, as duas obras têm sido lidas em contraponto. Flaubert, homem e francês, gozou da vantagem de não ter sofrido o ostracismo de que Kate Chopin, mulher e americana, seria vítima. Afinal de contas, não era impunemente que, em 1899, na sociedade fechada de St Louis, uma senhora da boa sociedade ousava pôr em letra de forma a elaborada construção da sua identidade sexual. De um momento para outro, a estimada colaboradora de revistas respeitáveis (como Vogue, Atlantic Monthly, etc.), autora de contos para crianças e adultos — reunidos em duas colectâneas preciosas: Bayou Folk, de 1894, e A Night in Acadie, de 1897 —, punha em cheque os valores da família segundo o padrão índigena. Acusada de obscenidade, Kate Chopin foi denegrida na imprensa, afastada dos círculos que frequentava, e o livro retirado das livrarias. Praticamente deixou de escrever. Quando no fim dos anos 1960 a obra voltou aos prelos e às livrarias, a crítica classificou O Despertar como um romance proto-feminista, o que não inibiu Edmund Wilson de entusiásticos encómios. Em anos mais recentes, Harold Bloom também sublinhou o seu classicismo.

O’Flaherty em solteira, Kate Chopin (1851-1904) era filha de um imigrante irlandês que se tornou um próspero negociante de algodão, e de uma crioula da comunidade francesa de St Louis. Viveu e casou em Nova Orleães, viajou pela Europa, teve cinco filhos, e só depois da morte do marido, ocorrida em 1882, de febre tifóide, se dedicou à literatura. Escreveu poesia, ensaio, dois romances e mais de cem contos. Os hábitos crioulos e a miscigenação cultural da Louisiana são temas centrais da obra.

Com acção centrada na região do Bayou, O Despertar subsume esse universo com grande virtuosismo. Num dado Verão, Edna Pontellier, a protagonista, descobre em Grand Isle (uma estância de férias da alta classe média de Nova Orleães) que a harmonia doméstica não é o modelo de vida que lhe interessa, embora nada lhe faltasse: nem uma casa confortável, nem dois filhos saudáveis, nem um marido jovem, atencioso e responsável. Em todo o caso, era uma mulher diferente das outras que passavam o Verão em Grand Isle, desde logo por não ser uma mãe-galinha, o tipo de mulheres «que idolatravam os filhos, veneravam os maridos, e consideravam um privilégio sagrado apagarem-se como indivíduos e ganharem asas, como anjos servidores.» Não. Edna era diferente. Deu por isso ao fim de seis anos de casada, «quando vozes estranhas e novas despertaram nela», na noite daquele 28 de Agosto em que nadou sem medo e, sem que o soubesse logo, ficou presa a Robert. A partir desse momento nada voltou a ser como dantes.

Kate Chopin introduz com naturalidade o factor de perturbação que mudou a vida de Edna. A fluidez do estilo narrativo, em que nenhum detalhe é esquecido, e a sua acumulação não emperra o discurso (muito pelo contrário), tornam a leitura extremamente gratificante. A intriga evolui em crescendo, dos emolientes dias de Grand Isle ao jantar com que Edna decide assinalar o fim dos deveres conjugais: «Havia algo na sua atitude, em toda a sua aparência, quando ela reclinava a cabeça contra a cadeira de espaldar elevado e afastava os braços, que sugeriam a mulher régia, aquela que governa, que é mera espectadora, que não tem igual. [...] Os momentos foram-se sucedendo, enquanto um sentimento de boa camaradagem se transmitiu em torno do círculo como um cordão místico, unindo e ligando aquelas pessoas umas às outras pela graça e o riso.» Em nenhuma circunstância, qualquer resquício de tom heróico interfere com o relato seco dos factos: um casamento sem história, a descontraída camaraderie de Robert, a noite em que o espírito do golfo tomou conta dela, a galeria de personagens da coterie do Quarteirão Francês (a doce Madame Ratignolle, a sarcástica Mademoiselle Reisz, outros), a súbita partida de Robert para o México, o regresso de Edna à casa de Esplanade Street, o desinteresse pela vida conjugal, concomitante ao interesse pela pintura (Edna era uma retratista dotada), o involuntário flirt com Alcée Arobin, a decisão de abandonar marido e filhos, o inesperado regresso de Robert, a solução final: «Foi avançando, avançando. Recordou a noite em que nadou até longe, e lembrou-se do terror que a dominara, receando não ser capaz de voltar à praia. Agora não olhou para trás [...] Pensou em Léonce e nos filhos. Eram uma parte da sua vida. Mas não era preciso terem pensado que a podiam possuir, corpo e alma.»

Por último, mas não em último, sublinhar quanto o prazer da leitura releva da excepcional qualidade da tradução de Margarida Periquito.


Madame Bovary no Bayou, in Ípsilon, 8-8-2008, pp. 33-34. Cinco estrelas.

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JOÃO PEREIRA COUTINHO



Hoje no Público:


Ponto prévio: não confundir crónica com colunismo de inscrição partidária. As quotas de representação ideológica têm razões que a crónica desconhece. Sobra pouco, mas nem tudo está perdido. Sem necessidade de recuar muito, é possível citar bons exemplos: Artur Portela Filho, Luís de Sttau Monteiro, Alexandre O’Neill, José Sesinando, Vasco Pulido Valente, Miguel Esteves Cardoso, Baptista-Bastos, António Lobo Antunes, Eduardo Prado Coelho, A. B. Kotter, Clara Ferreira Alves e António Sousa Homem. Nenhum abdicou de convicções políticas, mas nenhum confunde crónica com outra coisa qualquer. É nessa genealogia que João Pereira Coutinho (n. 1976) se inscreve.

O escândalo — e nunca um adjectivo foi tão exacto —, é que Coutinho se reclama da tradição brasileira e, dentro dela, das heranças sulfurosas de Nelson Rodrigues e Paulo Francis, autores com alto teor de acidez que fustigaram o politicamente correcto num tempo em que ele (como conceito) não existia. Ora como é que, num país do tamanho do nosso, sobrevive um cronista assim?

No princípio era O Independente, que tinha elasticidade bastante para aguentar a catilinária culta, não raro insolente, recentrando a opinião à direita, durante o tempo necessário para impor o tom. O resto é história, mas é um facto que sem o Indy dificilmente teria havido Coutinho.

Afinal, o que é que o distingue? Convicção, cultura, savoir-faire, irreverência e, naturalmente, uma escrita em tudo contrária ao modo funcionário de escrever. É fácil conferir na edição revista e aumentada de Avenida Paulista, volume que colige parte das crónicas publicadas entre 2005 e 2008 no jornal brasileiro Folha de S. Paulo.

De P. G. Wodehouse a Stephen Sondheim, sem esquecer Jane Austen ou Art Buchwald, é muito largo o espectro de temas: o interesse crescente das mulheres pelo futebol, consequência, talvez, da «crescente efeminação dos machos»; o colaboracionismo de Brecht com a Comissão de Actividades Anti-Americanas, antes de McCarthy chegar (mas a cronologia não chega para diluir a nódoa); a guerra que opôs Israel ao Hezbollah no Verão de 2006; o sarcasmo new yorker de Woody Allen; o medo que une os amantes da praia de Chesil (Ian McEwan, sim); o Macbeth de Rupert Goold; o conflito entre fé e razão segundo Ratzinger; a manteiga de Maria Schneider e a revolução portuguesa; Petr Ginz e o Museu do Holocausto; o estado da cultura francesa actual; a homossexualidade enquanto adjectivo; o encontro de Isaiah Berlin com Anna Akhmátova; o ensaísmo superlativo de Gore Vidal; leitura emocionada de Campo Santo, com Sebald à luz de Naipaul, na «busca contínua do lugar [...] que se teve, que se perdeu e que não existe mais», e ainda Carver, Beckett, Houellebecq, Steiner, Canetti, Stefan Zweig, Bryan Ward-Perkins, Christopher Hitchens, etc. Múltiplas leituras em contraponto. Sirva de exemplo a de Philip Roth a partir de Tolstói, ou, mais exactamente, Todo-o-Mundo a partir de A Morte de Ivan Ilyich.

A secção final, Encore, tem enfoque directo no quotidiano paulista: clima, gastronomia, gossip político, literatura. Registo diarístico: «Dizem que São Paulo é a mais feia cidade do mundo. Será? Não creio. Uma mistura de Tóquio e Istambul, mas com tesão para dar e vender.» Tudo é pretexto de afirmação empenhada, fazendo da prosa dúctil um exercício de puro prazer.

Aqui chegados, já o leitor percebeu que o João Pereira Coutinho da Folha não é imediatamente sobreponível ao do Expresso. É natural. A trapalhada indígena não colheria do outro lado do Atlântico.


Crónicas exemplares, in Ípsilon, 8-8-2008, pp. 32-33. Quatro estrelas.

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Sexta-feira, Agosto 01, 2008

DINO BUZZATI


Hoje no Público:


O italiano Dino Buzzati (1906-1972) tornou-se mundialmente conhecido em 1940 quando publicou O Deserto dos Tártaros, romance alegórico que Camus adaptou a teatro e Zurlini levou ao cinema, e que está de volta às livrarias portuguesas (a edição de 2005 esgotou) em simultâneo com a recolha de contos A Derrocada da Baliverna. Jornalista e escritor, além de pintor, Buzzati escreveu libretos de ópera, crónica, teatro, poesia e ficção, área em que se notabilizou: cinco romances e cerca de uma centena de contos fizeram dele um nome incontornável da literatura europeia do século XX.

A Derrocada da Baliverna é um conto de 1957, coligido em Sessanta racconti (1958), que surge a dar o título e a abrir esta recolha de trinta e sete narrativas. Autor de uma obra que questiona o poder e indaga o sentido da vida, Buzzati, um verista por excelência, tem sido com frequência associado ao realismo fantástico graças ao estranhamento que nimba tantas das suas histórias. Triunfo é um exemplo entre muitos: «No laboratório entrará o cortejo, automóveis, girafas, tocadores e tudo o mais, reduzindo-se a dimensões microscópicas; e os dois cavalões brancos, pateando sobre o banco de trabalho de Ermanni, aquele porco, nele descarregarão os excrementos.» Fazendo do não-dito um dos seus traços distintivos, a elipse — como, por exemplo, em Algo Acontecera — é decisiva na estratégia narrativa.

Um sentimento de má-consciência percorre o livro: a mulher que vai de férias deixando a filha de quatro anos trancada em casa (A Menina Esquecida); o coronel que sem querer inutiliza um brinquedo do neto (O Menino Tirano); o comendador acossado por ter morto um gato (O Crime do Comandador Imbriani); o preconceito face à tecnologia (Rigoletto); os infortúnios do calculismo (Os Cinco Irmãos), etc. Logo no primeiro, A Derrocada da Baliverna, esse sentimento atinge o paroxismo. A tal respeito, é paradigmática a história do alfaiate que provoca a derrocada do prémio no exacto momento em que tenta a escalada, sem que alguém (a não ser ele próprio) dê pelo fautor. Os outros não sabem. Mas ele sim. E tem medo. Muito medo.

Afinal o que é a Baliverna? É um edifício abandonado, em forma de torre, com oitenta por quarenta metros, ocupado com a complacência das autoridades por «uma turba de desalojados e sem-abrigo, desgraçados cujas casas tinham sido destruídas pelas bombas, vagabundos, mendigos, indigentes, até uma pequena comunidade de ciganos.» Buzzati compara o ronco da derrocada ao «trovão aterrador» de centenas de bombardeiros. A associação não é fortuita: correspondente de guerra na Etiópia no início da Segunda Grande Guerra — e por isso O Deserto dos Tártaros —, parte importante da obra assenta nas memórias do conflito.

Por oposição a Calvino, que tem uma ironia fina capaz de levar ao riso, em Buzzati predomina uma acédia temperada pela dura realidade. O seu estilo é o de quem acredita nas virtualidades da palavra, um estilo seco, isento de malabarismo, recortado com a precisão cirúrgica de uma reportagem pautada por grande objectividade: «Na Primavera, quando o tempo está bom, divirto-me a andar de bicicleta pela charneca de Laiate, a uns quinze quilómetros de Milão. Não é extraordinário que existam lugares tão solitários e quase selvagens às portas da cidade?» Depois, como quem não quer a coisa, entretece a intriga das pessoas simples, aquelas a quem o tom heróico seria pouco adequado.


Acédia crepuscular, in Ípsilon, 1-8-2008, pp. 38-39. Quatro estrelas.

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Segunda-feira, Julho 28, 2008

LITERATURA VS IDEOLOGIA


Quando escrevi isto, e mais isto, não dei conta que alguém se tivesse preocupado com o facto de me abster de comentar a ideologia de Les Bienveillantes de Jonathan Littell. Agora, porém, estranha-se que faça o mesmo com Os Dias do Fim, que ainda por cima é uma reportagem, objectiva quanto possível. Na parte em que tende a perder objectividade — os capítulos relacionados com o movimento secessionista de 7 de Setembro de 1974, em Moçambique —, torna-se «menos interessante». De resto, no livro de Saavedra, há pontos de vista contraditórios: a denúncia dos excessos da guerra colonial, em particular o massacre de Wiriyamu (entra aí o contraponto com a barbárie descrita por Littell), traduz, se quisermos, um ponto de vista da esquerda; enquanto que a “defesa” do movimento secessionista se situa no outro extremo do espectro ideológico. Não me interessa a ideologia de Saavedra, do mesmo modo que não me interessa a de Littell. Quando faço crítica literária, comento literatura, não comento ideologias.

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Sexta-feira, Julho 25, 2008

RICARDO DE SAAVEDRA


Hoje no Público:


Apresentado como romance, Os Dias do Fim, do jornalista Ricardo de Saavedra (n. 1941), é uma reportagem sobre a descolonização de Moçambique, apoiada em factos, variada documentação, fontes jornalísticas e apontamentos diarísticos, mas não, como pretende o editor, uma obra de ficção literária. Publicado pela primeira vez em 1995, surge agora em edição revista.

Nada na sua estrutura obedece ao cânone ficcional, e não é por tratar de acontecimentos e personagens reais (o que sucede com grande parte da ficção contemporânea, que não perde o estatuto literário por essa razão), mas porque o autor a escreveu como reportagem, entremeada de memórias. No prólogo, uma nota de rodapé dá conta da existência do espólio de um jornalista, Luís Ribeiro Sales, constante de «cinco cadernos escolares formato A4, com 80 folhas cada, escritas em letra miúda e corrida», onde (entre outros temas) é narrada a chacina de Wiriyamu. O narrador é Luís Ribeiro Sales, himself.

Esse prólogo abre com a descrição metódica da chacina ocorrida a 16 de Dezembro de 1972, nas aldeias de Wiriyamu e Juwau, em Moçambique. As tais que, segundo Kaulza de Arriaga, nem sequer constavam do mapa. A prosa remete para o inferno: «Duas horas da tarde. Zona operacional de Tete [...] dois Fiat G-91 da Força Aérea despejam, em voo rasante, bombas incendiárias. [...] Enquanto um grupo se dedica à pilhagem e a incendiar cubatas, outro persegue quatro garotas, de 12 ou 13 anos, e arrasta-as para o mato. Numa clareira do capim alto, violam as miúdas, em fila. O Fuinha, quando acaba com a dele, enfia-lhe a automática na vagina e dispara [...] Os adornos de missanga que lhes envolviam o ventre levam-nos os ditos boinas-vermelhas ao pescoço, a servir de colar.» Mas há pior — por exemplo, cabeças decapitadas de crianças a fazer de bolas de futebol —, e esse excesso vem descrito com indescritível nitidez. Não é irrelevante que Wiriyamu seja o detonador da narrativa. As repercussões internacionais do caso, a partir da sua divulgação no Times de Londres (em data que antecedeu de poucos dias a visita de Marcelo Caetano ao Reino Unido), sinalizaram o princípio do fim. Sintomaticamente, o Congresso dos Combatentes do Ultramar, que teve lugar no Porto seis meses mais tarde, não pôde deixar de reflectir as suas ondas de choque.

Seguindo a cronologia, o livro mostra como o ataque à Herdade de Águas Frescas, em Janeiro de 1974, assinalou o ponto de não retorno. Revoltada com a abulia do exército face ao acontecido em Vila Pery, a população da Beira organizou-se em milícias, insultou o governador e os militares, apedrejou a messe de oficiais, e por pouco não fez o mesmo ao general Costa Gomes, que tinha ido a Moçambique deitar água na fervura. Em nenhuma outra cidade como na Beira a indignação foi tão estridente no repúdio do que considerava a guerra das nove às cinco: «O povão só pensa em armas e os fardas no pré e na peluda.»

Os factos são conhecidos. Mas o narrador introduz revelações surpreendentes, duas em especial. Sobre Wiriyamu, a «emboscada montada por militares portugueses» aos comandos destacados para «apagar os indícios da carnificina». Paira no ar o horror de My Lai (Vietname) e a memória do tenente Calley. Sobre o ataque em Vila Pery, os indícios de envolvimento de gente ligada aos interesses económicos da Beira. Não esquecer que Jorge Jardim, que tinha serviço de informações (o SEI) e exército privado (os Flechas), era quem, naquela região de Moçambique, detinha o poder real. Nessa medida, o levantamento da população da Beira fora manipulado pelo «eventual culpado [que] decreta luto e manda flores à própria vítima».

Montado sob a forma de diário, intercalando textos de maior fôlego com anexos sintéticos, Os Dias do Fim segue passo a passo os dias que vão de Abril a Outubro de 1974, detendo-se com particular minúcia na tentativa secessionista de 7 de Setembro. Com larga soma de detalhes, e abundante informação sobre os movimentos e partidos políticos (e seus líderes) que formaram a malograda coligação anti-Frelimo, é a parte menos interessante da obra. Não obstante, os quatro dias de ocupação do Rádio Clube de Moçambique, em Lourenço Marques (actual Maputo), bem como o controlo do aeroporto da cidade, são recuperados com precisão: a puerilidade de grande parte dos manifestantes, a esperança gorada em Spínola, os equívocos ideológicos, os choques de personalidade, o armamento sul-africano que não chegou e, last but not least, o acto falhado, nunca devidamente explicado, da omissão de Jorge Jardim. Como sabido, acabou em tragédia: milhares de mortos, êxodo de dezenas de milhares de brancos para a África do Sul (as fronteiras foram abertas), recidiva mais violenta em Outubro. O Anexo 6 faz uma síntese perturbadora dos dias de brasa que assolaram a periferia da cidade: «O dono de um talho aparece pendurado pelas costas num dos ganchos do próprio estabelecimento. Noutros açougues foram encontradas crianças [...]». Ricardo de Saavedra é autor de Aqui Moçambique Livre (1975), que não li, mas presumo seja a principal fonte no que ao 7 de Setembro respeita. O seu conhecimento dos meandros da política local permite-lhe traçar perfis consistentes dos líderes negros que se opuseram à doutrina do partido único, casos de Joana Simeão, Uria Simango, Lázaro Kavandame, Miguel Morrupa e outros. Neste e noutros aspectos, a falta de índice remissivo constitui óbice flagrante.

Escrito num estilo enxuto, sem grande adjectivação, e mantendo a cadência adequada, Os Dias do Fim dão testemunho de um período concreto da história de Moçambique, com referências bem fundamentadas a alguns dos episódios (e personalidades) que precipitaram a borrasca imperial.


A borrasca imperial, in Ípsilon, 25-7-2008, pp. 34-35. Quatro estrelas.

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Terça-feira, Julho 15, 2008

RODRIGO FRESÁN


No Público do passado dia 11:

Uma biografia disfarçada de romance não é nada que não se tenha visto. Porquê o estratagema? Talvez porque fora do mundo de língua inglesa uma biografia de J. M. Barrie tivesse poucas possibilidades de sucesso. Mas não posso garantir que o argentino Rodrigo Fresán (n. 1963) tenha levado em conta esse raciocínio quando decidiu escrever a biografia, naturalmente muito romanceada, de Sir James Matthew Barrie, o celebrado autor de Peter Pan (1904).

Barrie andou pelo Bloomsbury nos anos em que o grupo polarizado em torno de Virginia e Leonard Woolf deu a estocada final nos costumes vitorianos, tendo escrito a sua obra-prima a partir da vida acidentada de Peter Llewelyn Davies. Sintomatica-mente, Rodrigo Fresán abre Jardins de Kensington com a descrição do suicídio do reputado editor, episódio que permite estabelecer uma relação entre os factos e a história narrada: «Peter Pan suicida-se e aqui entra o metro. [...] A necessidade de acreditar [...] que o espírito imortal de Peter Llewelyn Davies abandona o seu corpo em ruínas [...] e depois penetra, quase acto contínuo, no meu flamante corpo mortal, é imensamente tentadora.» Isto diz Peter Hook, o narrador, autor de livros para crianças, filho de um roqueiro e de uma aristocrata hippie, nascido no dia em que Peter ‘Pan’ Llewelyn Davies se suicidou com 63 anos.

É muita informação junta para um divertissement que faz negaças à biografia? É. O livro exige o conhecimento prévio de dois temas não coincidentes. Por um lado, os meandros da pop britânica dos anos 1960, quando a swinging London voltou a redefinir a moral dominante. Por outro, o Peter Pan enquanto obra de ficção. Fresán não perde de vista a leitura próxima da obra de Barrie, bibliografia correlata incluída. O escocês vampirizou os Llewelyn Davies? Ele, o argentino, fará o mesmo. Nenhum detalhe é esquecido. Por exemplo, The Little White Bird (1901), que ocupou Barrie durante quatro anos, e cujo protagonista é o irmão mais velho de Peter, serve de ponto de partida: «George é o filho que Barrie nunca terá e que o converte no pai que nunca seria: um filho e um pai imaginários e livres das prisões e das responsabilidades do sangue. Um pai e um filho para os quais a única e indeclinável obrigação é brincar.» E assim sucessivamente.

Os Llewelyn Davies viviam em Kensington Park Gardens (ainda hoje lá existe uma estátua de Peter Pan), bairro que no início do século XX começou a atrair intelectuais e artistas das classes altas. O título do livro não podia ser mais alusivo. A partir daí, porque o discurso compacta a biografia de Barrie com a imaginação gótica do narrador, sucedem-se os envios, trazendo à colação toda a sorte de referências, de Lewis Carrol a Michael Jackson, sem esquecer Bob Dylan, H. G. Wells, John Lennon, Francis Donkin Bedford, G. K. Chesterton, George Bernard Shaw, Arthur Conan Doyle, J. K. Rowling e outros. Tudo se passa numa Neverland mítica: «O vestíbulo de Neverland poderia engolir todas as baleias que alguma vez nadaram nos oceanos e tragaram todos os Jonas e Pinóquios; e esse vestíbulo desemboca num corredor largo como uma auto-estrada à qual não se pode adivinhar o fim ou o destino.» Absolutamente conforme às obsessões de Fresán, que decidiu ser escritor no dia em que (com 6 anos de idade) viu a capa do LP dos Beatles Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

A despeito da sua indiscutível fluência narrativa, a pirotecnia culturalista de certo modo subverte o propósito de contar a história do rapazinho que se recusou a crescer.


A Terra do Nunca, in Ípsilon, 11-7-2008, p. 50. Três estrelas e meia.

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Sexta-feira, Julho 04, 2008

J. M. COETZEE


Hoje no Público:


No seu penúltimo romance, O Homem Lento, o escritor sul-africano J. M. Coetzee (n. 1940) tem outra vez à perna Elizabeth Costello, e desta vez em sentido literal. Para quem não saiba, Elizabeth Costello é o alter-ego do autor. Apareceu pela primeira vez em 1999, com A Vida dos Animais e, em 2003, a obra que precede O Homem Lento leva mesmo o seu nome no título. O processo é simples: Coetzee cria uma situação de mise en abyme (ou seja, de encaixe) de modo a inserir na intriga um mecanismo de auto-contemplação. Elizabeth Costello é escritora: «começa a recordar-se de quem ela é. Tentou uma vez ler um livro escrito por ela, um romance, mas desistiu: não lhe prendeu a atenção. [...] Em tempos que já lá vão (agora está a escavar na memória) ela foi célebre por uma coisa qualquer, mas isso parece ter desaparecido, ou talvez fosse apenas mais uma tempestade dos meios de comunicação.» Os dois falam a mesma linguagem (no romance de 2003 ela comenta ensaios do autor) e provocam-se mutuamente.

O fotógrafo Paul Rayment é um homem diminuído. Foi atropelado e amputaram-lhe uma perna: «O impacto [...] deu-se em cheio no joelho, e havia uma componente acrescida de rotação, de forma que a articulação fora ao mesmo tempo esmagada e torcida.» Como se não bastasse, apaixonou-se pela enfermeira, Marijana Jokics, uma mulher com formação em arte, que emigrou com o marido e os filhos para a Austrália, país onde não teve oportunidade de aplicar o saber obtido em Dubrovnik. Paul Rayment é um dos seus pacientes.

Longe da Croácia natal, a família Jokics vive os equívocos da diáspora. Em Adelaide, uma cidade muito diferente da Munno Para de onde veio, Miroslav Jokics, um restaurador conceituado, vê-se obrigado a ganhar a vida como mecânico de automóveis. É o desenraizamento dessa família que permite a Coetzee discorrer sobre os óbices e consequências do expatriamento, algo que conhece bem. (Natural de Cape Town, o escritor deixou a África do Sul em 2002, radicando-se na Austrália.) À primeira vista poderão parecer experiências diferentes, porque os Jokics foram ao encontro de outra cultura, e de uma língua nova, enquanto que o “exílio” de Coetzee o manteria no mundo de língua inglesa. Pura falácia. A realidade encalha onde menos se espera. Com efeito, Coetzee é um genuíno africânder, alguém que cresceu e se formou à sombra da cultura e língua africânder (a origem remonta a 1652, quando os primeiros colonos holandeses se fixaram em Cape Town), nessa qualidade tendo traduzido, para o inglês e outros idiomas, a literatura nativa. É na qualidade de escritor sul-africano emigrado na Austrália que o protagonista do seu último romance, Diary of a Bad Year (2007), inédito em Portugal, comenta o terrorismo, a globalização, os desastres ecológicos, o avanço das experiências genéticas e outros temas mediáticos. Quando trocou a África do Sul pela Austrália, e não foi o único escritor sul-africano que o fez, Coetzee emigrou, de facto, para outra cultura. Por isso é que, ao falar da família Jokics, está na verdade a lamber as suas próprias feridas.

À margem das questões identitárias (convém não esquecer o peso que a experiência colonial tem no conjunto da obra do autor), O Homem Lento é uma epifania sobre o envelhecimento e a perda do amor. A obsessão de Paul Rayment por Marijana é que o impede de desistir. Por essa mulher, casada e mãe de filhos, fará o que for preciso. Nem que tenha de corromper o filho, esse Drago «demasiado luminoso» que tem estampada a marca da morte. O rapaz quer ir para o Wellington College, cujas propinas não estão ao alcance dos pais? Não seja por isso. Paul Rayment assina o cheque. Afinal de contas, nunca tinha tido uma paixão balcânica! Quem o traz de volta à terra, obrigando-o a reflectir na insensatez, é Elizabeth Costello. Não se trata de moral. Mrs. Costello preocupa-se com questões práticas: «É melhor que esteja também limpo para ela. Se falo com crueza, desculpe. Lave-se bem. Lave tudo. E desfaça-se dessa cara triste. Perder uma perna não é uma tragédia. Pelo contrário, perder uma perna é cómico. [...] Caso contrário não haveria tantas piadas sobre o assunto.»

Ao longo do livro, há envios ao Ulisses de Joyce e a certos personagens de banda desenhada, bem como referências de outro tipo, mas tudo isso flui com extrema naturalidade na prosa dúctil de Coetzee. Sem a força de obras anteriores, como, por exemplo, À Espera dos Bárbaros (1980) ou A Vida e o Tempo de Michael K (1983), romances que têm um ímpeto declarativo que contrasta com o tom resignado da história do fotógrafo perneta, ainda assim O Homem Lento evidencia a excepcional capacidade narrativa do autor.


O Fotógrafo Perneta, in Ípsilon, 4-7-2008, p. 40. Quatro estrelas.

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Sexta-feira, Junho 27, 2008

NICK McDONELL


Hoje no Público:


Será o talento determinado pelo código genético? A pergunta faz sentido de cada vez que lemos um livro de Nick McDonell (n. 1984), que tinha 17 anos quando publicou Doze, e 20 quando entregou O Terceiro Irmão ao editor. O seu aparecimento na cena literária americana fez lembrar a onde choque provocada pela publicação dos primeiros livros de Jay McInerney e Bret Easton Ellis, respetivamente As Mil Luzes de Nova Iorque (1984) e Menos Que Zero (1985). McDonell consegue ser tão cortante como eles, com a vantagem de ter o cinismo temperado pelo 11 de Setembro. Facto é que dos dois lados do Atlântico, do exigente New York Times Book Review ao circunspecto Berliner Zeitung, toda a gente se rendeu à eficácia da sua escrita.

E se Doze podia dar-se ao luxo de ser um olhar niilista sobre a juventude dourada de Manhattan, O Terceiro Irmão é um exercício de virtuosismo sobre a perda da inocência. O ataque ao World Trade Center serve de pano de fundo à história de Mike, do seu irmão Lyle, e do terceiro irmão que só existia na cabeça de Lyle. Nos interstícios da intriga, o pai e a mãe de ambos, um casal esculpido «a partir do mesmo pedaço de alabastro» que dava jantares memoráveis na sua casa de praia de Long Island.

Agora, «Mike e Lyle são órfãos. Há pouco mais de um ano os seus pais morreram num incêndio em casa e Lyle enlouqueceu.» McDonell conta a história através da justaposição de inserts que ilustram as circunstâncias dos dois irmãos, as causas da súbita desagregação da família, a implosão das torres gémeas, o salto para a morte de Lyle. A descrição da manhã em que o mundo mudou é feita sem qualquer ênfase, como numa espécie de épico do avesso.

Afinal, Mike não sabia de nada. Soube quando entrou numa cafetaria para comprar um queque de mirtilos no exacto momento em que a televisão mostrava imagens do voo 11 da American Airlines a embater na torre Norte. Não percebeu, ninguém percebia. A partir dali é uma corrida contra o tempo. O apartamento de Lyle fica a poucos quarteirões da zona de impacto. A longa caminhada entre a rua 112, no Upper West Side, e a Duane Street, no Soho, é feita quase sempre a pé (com Mike a correr), salvo no curto trajecto em que arranjou táxi. Mas, entre a rua 72 e a Broadway, o motorista — um homem de turbante e nome impronunciável —, desorientado com os acontecimentos, atropela um peão, tomba inanimado, e o táxi pára ao embater contra uma cabine telefónica. A despeito da fractura exposta da vítima, Mike abandona o local do acidente. Corre, «correr ajuda-o a organizar as ideias», corre sempre em sentido contrário ao da multidão. Quando chega à rua 59 já uma das torres desabou. Nos degraus da Catedral de São Patrício junta-se uma pequena multidão. À medida que corre, desfilam na sua cabeça os anos despreocupados da vida de uma família feliz. O fumo adensa-se cada vez mais. Não tarda, terá de proteger-se dos detritos que voam dos tejadilhos das ambulâncias, enquanto salta por cima de «partes de corpos espalhados pela rua, como animais estranhos e horríveis adormecidos no chão.»

Em nenhum momento McDonell tropeça nos adjectivos ou perde o sangue-frio. O senão é que o livro devia acabar na página 237. Aqui: «Quando Mike regressa ao telhado com a água, Lyle já saltou.» Porque a terceira parte (pouco mais de quarenta páginas) introduz um factor de auto-comiseração que desvirtua o sentido da história. Realmente não havia necessidade.

Caminhada para a morte, in Ípsilon, 27-6-2008, p. 40. Três estrelas e meia.

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Sexta-feira, Junho 20, 2008

LÍDIA JORGE


Hoje no Público:


Se tivesse de caracterizar os contos que Lídia Jorge (n. 1946) reuniu em Praça de Londres, diria que são contos de atmosfera, não isentos de efeito emocional correlativo. Isso é sobretudo nítido em Branca de Neve e Viagem para Dois, sendo que neste último a tentação do thriller empresta ao discurso maior dinâmica.

Nesse conto, o penúltimo da colecção, um homem e uma mulher descobrem (a bordo de um comboio, algures entre a Lombardia e o Veneto) ser ambos falantes de português. A descoberta fê-los rir, dando azo às respectivas apresentações: ela escreve histórias de cordel, ele redige relatórios criminais. Duas criaturas a um passo de cair em desuso: «Pois tal como eu, a senhora acredita na lógica dos factos, acredita pelo menos que sobre eles podemos ensaiar uma leitura possível, e essa crença faz de si e de mim seres raros, ou pelo menos seres desactualizados.» É um ponto de partida muito interessante, a partir do qual o plot ganha contornos bem definidos. A questão: o que fazer quando o nosso gato de estimação engole uma jóia de apreciável valor material e simbólico? Pior: que decisão tomar quando a radiografia mostra «a silhueta do anel incrustado no intestino do felino, amarrado a uma prega por uma garra de ouro», desse modo esgarçando os tecidos, «provocando uma hemorragia interna incontrolável, uma septicémia generalizada» e, a breve trecho, a morte do bicho? O que mais desorienta o leitor é o pragmatismo de Maria Luísa, a dona do gato. Porém, na economia narrativa, o destino do pequeno bengali é um mero pretexto.

O mesmo se diga de Perfume, dedicado à memória do actor e cineasta curdo Yilmaz Güney, que bem podia ser o embrião de um romance. A história do rapazinho habituado a conviver com as sucessivas idas e vindas do pai (um guitarrista bem sucedido), contada sob o ponto de vista da babá, com a sua moral bem vincada, está pontuada de apontamentos em que é possível acompanhar o raciocínio de uma criança: «Quando o pai regressou a Lisboa, dois dias depois, era outra pessoa. Trazia o mesmo instrumento dentro da caixa, trazia as partituras dentro da pasta, trazia a mala com a roupa, e trazia a orgia. Eu não sabia o que era a orgia, mas tinha a certeza de que era alguma coisa que afastava a babá da sua própria alegria, do seu andamento rápido e silencioso, da sua natural eficácia.» O desenlace é um inesperado anti-clímax.

Do conjunto, o menos interessante é o segundo, Rue du Rhône, sobre os equívocos gerados pela aquisição, numa loja elegante de Genebra, de uma carteira de pele gravada. A profusão de zeros (no preço) daria para «abrir um jardim no horto seco, comprar metade de um automóvel, salvar alguém do cancro [...] salvar-nos a nós mesmas de qualquer coisa escondida que se pudesse trazer sem se saber, como o aneurisma, a tromboflebite, a própria loucura louca.» É fácil associar este episódio real, que teve como protagonista uma romancista famosa, com uma das estórias mais conhecidas do meio literário português. Talvez por isso, pelo défice de novidade, Rue du Rhône nos pareça aquém das suas possibilidades.

Em contrapartida, o que dá título à colectânea abre-se a todas as conjecturas. O que viu aquela mulher enquanto caminhava na Praça de Londres? Quem era o homem que beijava sôfregamente uma criança de tenra idade? O que é que a levou a desconfiar? E a desconfiar exactamente de quê? Estaremos nós — e entre todos a protagonista da história — condicionados pelos fantasmas do abuso de menores?

O mesmo tipo de enigma dá corpo a Branca de Neve. A deriva de Maria da Graça e dos miúdos que vinham no encalço do «cone de protecção criado pela aba do seu casaco para se abrigarem do vento frio», serve de parábola (acentuada pela quadra festiva em que decorre) ao mito eterno da juventude predadora.

Como verificado, à medida que os contos se sucedem, vai diluindo o estranhamento. Longe do seu melhor — é no romance que Lídia Jorge atinge pleno conseguimento —, estes cinco contos lêem-se de um fôlego.


Mitos urbanos, in Ípsilon, 20-6-2008, pp. 36-37. Três estrelas e meia.

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Segunda-feira, Junho 16, 2008

TORGNY LINDGREN


No passado dia 13, no Público:


Deve o jornalismo estar em conformidade absoluta com a realidade? É a partir deste tópico que o escritor sueco Torgny Lindgren (n. 1938) apresenta o narrador do romance A última receita. Tudo começa em Dezembro de 1947, quando o correspondente de um jornal em Avabäck é despedido, aos 53 anos, com o argumento de trair a confiança dos leitores. Diz a carta do director: «Desde há algum tempo, após advertências discretas de leitores perplexos e preocupados [...] descobrimos que as suas notícias são, em termos simples, totalmente desprovidas de fundamento.» A gota de água, a história impossível, tem como protagonistas um professor primário desempregado, Lars Högström, e um vendedor de panos que esconde o passado, Robert Maser, amantes ambos de gastronomia, que se entretêm a provar todas as variantes possíveis de Pölsa. Mas, para o jornal, uma tal evidência é «simplesmente imaginada, inventada e inexistente.»

A Pölsa, ou Pölsan — convém sublinhar que o título original do romance é Pölsan —, tem equivalente próximo no bucho recheado das nossas Beiras. Na Suécia confecciona-se de vários modos, o mais comum dos quais resulta numa pasta homogénea, que pode ser mais robusta ou mais fina, feita com carne picada de vitela, a que se junta o coração e o fígado do animal, grãos de centeio, pimenta preta e manjerona. Se for servida fria, a coagulação permite que possa ser cortada às fatias. Era o que sucedia com a que Eva Marklund mostrou a Martin Bormann (sim, o criminoso de guerra nazi), que então se fazia passar por Robert Maser. A intriga gira quase toda à volta desse prato muito apreciado em Avabäck, região de terrenos incultos e pântanos drenados, situada entre as províncias de Västerbotten e da Lapónia.

O estilo de Lindgren, e não encontro outra palavra que defina com tanta exactidão a simbiose de ritmo e fluidez da sua escrita, é de uma grande eloquência, sem que para isso concorra qualquer tipo de retórica. Pelo contrário, o discurso é pautado por declinações bem timbradas que se abrem a um largo espectro de registos. Isso é nítido logo a partir das primeiras páginas, quando o narrador discorre com melancolia sobre o que é, ou não é, «a verdade em si» num determinado lugar ou tempo ou na «consciência do ser pensante e ciente.»

Ao fim de catorze páginas, o romance salta para o ano 2000. O director do jornal morreu, e o velho correspondente de Avabäck, agora com 107 anos, locatário da casa de repouso Lado Solar, vai voltar a escrever. A velhice não lhe trouxe mazelas: «Ano após ano, a sua pele tornava-se mais macia. E, tal como Goethe, acordava todas as manhãs com uma erecção.» Deve ser por causa da minúcia (não isenta de sarcasmo) com que Lindgren descreve o apoio sueco à velhice, que alguns críticos mais afoitos tomam por nonsense aquilo que é o quotidiano da geriatria nas sociedades nórdicas.

A narrativa está em permamente rodopio, tudo servindo de pretexto para o exercício mnemónico, novas formulações de velhas questões, derivações de sentido a partir de factos concretos, em suma, para encaixar as suas mil histórias como numa Matriosca.

Acredito, embora não saiba sueco, que a tradução de Mário Semião contribua para o excelente resultado obtido na língua de chegada.


Excesso de realidade, in Ípsilon, 13-6-2008, p. 53. Quatro estrelas.

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Sexta-feira, Junho 06, 2008

TRUMAN CAPOTE


Hoje no Público:


Pouco antes de morrer, Truman Capote (1924-1984) entregou à sua amiga Joanne Carson a chave de um cofre onde estaria depositado o manuscrito do seu último romance, Súplicas Atendidas. Porém, o cofre estava vazio. E nunca ninguém encontrou mais do que os capítulos pré-publicados na revista Esquire em 1975-76. Três desses quatro capítulos constituem esta obra inacabada, publicada em 1987. São eles: Monstros em Estado Bruto, Kate McCloud e La Côte Basque. A tradução portuguesa de 1993 acaba de ser reeditada.

Na introdução, Joseph M. Fox, o editor americano da obra, dá conta dos incidentes processuais que, ao longo de dezoito anos, pontuaram a génese de Súplicas Atendidas. O contrato de edição, assinado em Janeiro de 1966, sofreu várias prorrogações e, em 1975, contra a opinião de Fox, Capote tomou a decisão de pré-publicar quatro capítulos. O que saiu primeiro, Mojave, foi mais tarde incluído como conto em Música para Camaleões (1980); os outros três constituem o livro tal como o conhecemos. Sobre os capítulos em falta existem inúmeras teorias, mas, como diz Fox, tais «possibilidades tornam-se menos plausíveis à medida que o tempo passa.»

Facto é que a pré-publicação foi fatal para o autor. Indignados, os amigos não perdoaram as inconfidências, e a alta-sociedade fechou-lhe as portas. De um momento para outro, os nomes mais sonantes viam-se expostos sem contemplações: quem dormia com quem, preferências sexuais, consumo de coca e outras drogas, dívidas, traições, etc. Capote comentou: «De que é que eles estavam à espera? Sou escritor. Utilizo tudo. Será que essa gente julgava que eu estava lá só para os divertir?» Embora se trate de uma obra de ficção, e não de memórias, a maioria dos protagonistas é citada pelo nome real. E o gossip acerca de celebridades como Marilyn Monroe, Andy Warhol, Mick Jagger, Jack Kerouac, Marlon Brando, Tennessee Williams ou Montgomery Clift não suscitaria especial controvérsia. Sucede que Capote, fiel ao propósito de fazer um fresco contemporâneo de Em Busca do Tempo Perdido — argumento que pesou nos chorudos avanços que recebeu —, mas dispensando as cautelas de Proust, que crismou os seus condes e duquesas, descreve com acrimónia uma série de episódios rocambolescos envolvendo cabeças coroadas, diplomatas, políticos, intelectuais, banqueiros e praticamente todo o Who’s Who americano e europeu: «Este cavalheiro perdeu Denny em favor da realeza — o príncipe Paulo, mais tarde rei Paulo, da Grécia. A idade do príncipe era mais próxima da de Denny e o afecto que os unia mais equilibrado...» Sobre Barbara Hutton, uma influente socialite de Nova Iorque, diz que terá pago um milhão de dólares para confirmar se Porfírio Rubirosa tinha mesmo uma «picha mulata [...] cor de café com leite de quase vinte e oito centímetros, tão grossa como um punho de homem». Rubirosa era então embaixador da República Dominicana, conhecido em todo o mundo pelas suas ligações amorosas com estrelas de Hollywood. Ainda sobre o mesmo tema, Capote acrescenta que o único homem com idêntica «mercadoria encarapinhada» era o Xá da Pérsia. Este tipo de inconveniência não poupa ninguém. Entre muitos outros, os duques de Windsor, a princesa Margarida (irmã da rainha Isabel), os Vanderbilt, os Kennedy, Ali Khan, Gore Vidal, Colette, Sartre e Simone de Beauvoir, Albert Camus, J. D. Salinger, Cole Porter, Dorothy Parker, Arthur Koestler, Djuna Barnes, Jane Bowles ou, nomeado de viés, o poderoso subsecretário de Estado Sumner Welles, demitido por Roosevelt (de quem era confidente) para evitar um escândalo homossexual.

Não admira que os mesmos que em 1966 tinham sido seus convidados no mítico Baile Branco & Preto, realizado no Hotel Plaza de Nova Iorque, estivessem agora apostados no seu fracasso. Foi esse ostracismo que o levou ao álcool e às drogas, e terá sido por essa razão que não acabou o livro (se o fez, deu sumiço ao trabalho). De certo modo, pagou caro uma das suas frases mais repetidas: «Toda a literatura é coscuvilhice».

O título do livro é extraído da frase de Santa Teresa de Ávila que lhe serve de epígrafe: «Mais lágrimas são choradas por súplicas atendidas do que por aquelas que não o são». O narrador é um prostituto que frequenta círculos selectos, de Nova Iorque à Riviera francesa, passando por Paris e Tânger, sendo a história entrecortada por trechos verídicos das memórias do autor. O estilo é corrosivo, sem a subtileza de obras anteriores: o subestimado Outras Vozes, Outros Quartos (1948), ou o lendário A Sangue-Frio (1966), que deu origem a três filmes e uma série de televisão. Não é difícil ver no livro um ajuste de contas com a “boa sociedade”. Capote nunca esqueceu as origens humildes, o alcoolismo e suicídio da mãe, as vicissitudes do homossexual pobre e, entre todos, o dia em que, ainda não tinha 19 anos, foi despedido da New Yorker (onde trabalhava como moço de recados) por imitar os tiques do poeta Robert Frost. Quando mais tarde a revista lhe encomendou textos, teve de os pagar a peso de ouro...

O domínio do thriller é particularmente evidente no terceiro capítulo. Nessas páginas, o móbil e as peripécias de um assassinato no seio de uma família patrícia servem de fio condutor a um conto moral sobre a natureza do arrivismo: «Se se quer subir rapidamente e com toda a segurança do fundo à superfície, a maneira mais eficaz é ter um tubarão na mira e agarrar-se a ele como um peixe piloto.» Afinal de contas, Capote sabia do que falava.


Puro veneno, in Ípsilon, 6-6-2008, p. 49. Quatro estrelas.

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Sexta-feira, Maio 23, 2008

MARIA ANTONIETA PRETO


Hoje no Público:


O inventor do realismo fantástico, o cubano Alejo Carpentier, filho de mãe russa e pai francês, estava longe de avaliar o grau de contaminação da sua escrita. O facto é que, a partir de 1949, ano em que publicou O Reino deste Mundo, muitos têm sido os que lhe seguiram os passos. O mais famoso continua a ser Gabriel García Márquez, que o tornou mundialmente conhecido em 1967, quando publicou Cem Anos de Solidão. A partir de então, o paradigma fez escola. Em Portugal também não têm faltado exemplos, nem sempre bem sucedidos, valha a verdade. Vem isto a propósito da segunda colectânea de contos de Maria Antonieta Preto, A Ressurreição da Água, cuja declinação entronca na genealogia do realismo fantástico, ou mágico, se preferirem.

Logo a abrir, a fantasmagoria toma conta do discurso: «Os vivos, ao engolirem a terra, levavam os olhos abertos, cheios de olhares. [...] Os vivos pediam com naturalidade que os enterrassem para dentro da terra, que os deixassem mais fundos e bem cobertos, por causa do mosquedo e dos animais do campo, apreciadores de grandes banquetes de carne. [...] Não morriam, porque iam vivos para dentro da terra.» Como se o mantra pudesse recriar o mundo esquecido da ruralidade. A obsessão das pequenas coisas, dos pequenos gestos, o apego à tradição e aos vocábulos da terra, a importância da oralidade, os conceitos míticos, o desapego com que nos fala do «caminho para a morte», tudo contribui para resgatar essa memória perdida.

Desiluda-se quem pretenda encontrar uma intriga em sentido estrito. A acção respeita algumas balizas do género, como sejam a linearidade, a brevidade temporal (neste caso reduzida ao mínimo), a elipse a elidir descrições de maior fôlego, etc., mas, no essencial, tudo se passa no microcosmo circular que caracteriza o universo imagético da autora. Quem conheça o livro anterior, Chovem Cabelos na Fotografia (2004), sabe do que falo. Fiel à tradição “fantástica”, ninguém aqui se chama Alice, Pedro ou João. As personagens respondem pelos nomes de Bordália, Marcalo, Aniéfora, Vidânia, Sélmio, Cemátea, Mortânia, Liortina, Bolóteo, Gulpídia, Pertólio, Oéldia e outros do mesmo jaez.

Um dos contos, Humilhação, descreve um estranho ritual de defloração a dedo, na presença de testemunhas, antes da cerimónia do casamento: «Na noite em que a vagina de Dórica foi posta escancarada no leito improvisado, o noivo, futuro esposo, chegou por essa meia-noite à barraca de pano cigana. [...] Dórica gostaria de não ter derramado essa especiaria de coloração rosa. Preferia ter morrido, ou fugido, mesmo sabendo que, lá longe, a comunidade a que pertencera a consideraria uma mulher desonrada.» É porventura o que está mais próximo da função moralizante tantas vezes atribuída ao conto enquanto género literário.

Talvez fosse mais correcto chamar narrativas líricas a estes quinze contos, e um exemplo disso é com certeza o de Vai Feliz no Ar Voando, texto que estabelece uma boa relação entre linguagem e oralidade, daí resultando o conseguimento prosódico que nem sempre subjaz ao conjunto.


Tradição oral, in Ípsilon, 23-5-2008, pp. 53-54. Três estrelas.

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Sexta-feira, Maio 16, 2008

DORIS LESSING


Hoje no Público:


Independentemente do que possamos pensar a respeito das suas idiossincrasias, o facto é que Doris Lessing (n. 1919) construiu uma obra a que não podemos ficar indiferentes. Livros como Um Casamento Apropriado (1954), The Golden Notebook (1962), The Memoirs of a Survivor (1975) ou o primeiro volume da autobiografia, Under My Skin (1994), no qual descreve os anos em que viveu na Rodésia do Sul (o actual Zimbabue), a saída de África e a dissidência do comunismo, justificam plenamente a aura de que goza. O Nobel mais não fez do que consagrar a persistência desta mulher de 88 anos, que escreveu 70 livros, muitos deles premiados, sem nunca se ter acomodado à sombra do establishment. Logo no primeiro, A Erva Canta (1949), publicado assim que chegou a Inglaterra, dava conta da relação amorosa entre a mulher de um fazendeiro branco e um criado negro, o tipo de história que não ia com o ar do tempo. A partir de então não deixou de surpreender.

Falando dela, é praticamente impossível separar obra e biografia. Os romances contam as peripécias, a autobiografia confirma, os ensaios explicam a deriva ideológica e religiosa. Na vida como nos livros, o desenraizamento é de regra. Nascida no curdistão iraniano, onde o pai estava colocado, foi em criança para a Rodésia do Sul. Naquela antiga colónia britânica viveu durante 25 anos, casou duas vezes, teve três filhos, tornou-se comunista. Só depois de deixar África, abandonando o segundo marido e os dois filhos do primeiro, se fez escritora e feminista. Em 1954 rompeu com o comunismo, e nos anos 1970 aderiu ao sufismo, talvez por influência do filósofo afegão Idries Shah, passando a escrever livros de ficção científica. A saga em cinco volumes Canopus em Argos (1979-1984) é justamente considerada um clássico do género.

A Fenda é uma parábola sobre o poder das mulheres. Não admira que a Academia Sueca tenha realçado o «carácter épico da experiência feminina» na obra de Lessing. O livro abre com um texto onde lemos: «Foi apontada a possibilidade de a estirpe humana básica e primordial ser feminina e de o aparecimento dos homens ser mais tardio, à semelhança duma reflexão cósmica posterior.» A história apoia-se nessa premissa, centrando a intriga numa comunidade de mulheres, as Fendas. Sabemos da sua existência a partir do relato de um patrício romano do tempo de Nero que guarda em sua casa material «acumulado ao longo do tempo, com origem na histórial oral [...] todo ele propondo-se abordar os nossos mais primevos registos...». Não deixa de ser curioso que Lessing dê um ponto de vista masculino a uma história feminista. De acordo com os documentos em poder do narrador, as Fendas geriam por partogénese (ou partenogénese, isto é, a reprodução sem fecundação), e sempre crianças do sexo feminino, até ao dia em que uma delas, contrariando a regra, deu à luz um rapaz, ou seja, um futuro Monstro. Aqui, os homens são Monstros, também conhecidos por Esguichos.

A inclinação de Lessing pelo politicamente incorrecto fica demonstrada no hábito que atribui às Fendas de se desfazerem das crianças com mal-formações: «Quando expúnhamos os nossos bebés deformados, as águias vinham buscá-los. Nós não matávamos os bebés, as águias é que os matavam.» O tom mantém-se quase sempre neste registo. A forma como o romance ilustra as relações entre mulheres e homens é idêntica à que se verifica na série de televisão Perdidos entre os sobreviventes do avião e os Outros, sendo certo que Lessing usa esse tipo de polarização para nos convencer da bondade do feminismo.

Estamos longe da força de obras anteriores, como por exemplo os famosos Diários de Jane Somers (1984), recusado em 1983 por todos os editores, incluindo o seu, porque Lessing enviara o original sob pseudónimo... Mas quando finalmente foi publicado, vendeu um milhão de exemplares no mês do lançamento. Reunindo as qualidades e defeitos do estilo incisivo que distingue a escrita de Lessing, A Fenda não é com certeza o livro que recomendaria a um neófito.


A Guerra dos Sexos, in Ípsilon, 16-5-2008, pp. 48-49. Três estrelas e meia.

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Sexta-feira, Maio 02, 2008

BILL BUFORD


Hoje no Público:


Não vou tão longe quanto Frank McCourt na previsão de que os leitores de Bill Buford (n. 1954), mesmo tratando-se de pessoas indiferentes à comida, se levantem da cama «com as bochechas coradas e os estômagos a grunhir de fome» após terem lido A Ferver. Entusiasmado com a sua leitura, prefiro ir à procura de outras obras suas, não necessariamente a que dedicou ao holiganismo no futebol, Entre os Vândalos (1990), fenómeno que acompanhou de perto durante muitos anos.

Quem é afinal Bill Buford? Resumindo muito, é o americano que relançou a revista britânica Granta, tal como a conhecemos hoje. Considerada a melhor revista literária de língua inglesa, a Granta existe desde 1889, mas estava falida quando Buford tomou conta dela em 1979, tornando-se seu editor até 1995 (o prestígio da revista é o resultado desses dezasseis anos de gestão). Editor de ficção da New Yorker durante oito anos, Buford acredita que cozinhar e escrever são parte da mesma disciplina.

A Ferver começou no dia em que decidiu fazer o perfil de Mario Batali, prontificando-se a passar catorze meses na cozinha do Babbo, o restaurante de cozinha italiana situado em Waverly Place, no West Village. Porquê o interesse em Batali? Porque Batali, Pó para os íntimos, proprietário do Babbo e um chefs mais reputados de Nova Iorque, é uma lenda viva da cozinha. Com os seus «calções, os socos, os óculos de sol circulares, o cabelo ruivo apanhado num rabo-de-cavalo», tornou-se um ícone da cidade, rapidamente identificado tanto pelos executivos de Wall Street como pelos fãs dos New York Giants. Sim, o programa de televisão, Mario Molto, ajuda. Buford e Batali são amigos, mas essa relação de cumplicidade não facilitou a vida do escritor.

Na cozinha do Babbo, igual entre iguais (o estatuto de intelectual não comove ninguém), com a desvantagem do principiante mal preparado, Buford teve de aprender tudo a partir do zero. Logo no primeiro dia, às 7 da manhã, Elisa Sarno, chefe da “preparação” — as cozinhas destes restaurantes são como linhas de montagem —, perguntou rispidamente: «Onde puseste as tuas facas?» Ele não queria acreditar: «É suposto eu ter facas?» Era. Elisa não admitia amadores. Nos Estados Unidos há 229 escolas de cozinha credenciadas, que formam por ano 25 mil profissionais. As mais caras cobram 20 mil dólares de propina por ano (o curso dura quatro) e, no último, é preciso fazer um estágio não remunerado num restaurante. A tese é obrigatória para obtenção do diploma. Buford foi aceite na cozinha do Babbo a título excepcional. No primeiro dia, Elisa pô-lo a aprender a desmanchar animais.

O livro faz a síntese entre o calvário de Buford (contrariamente à tradução portuguesa, que tem como subtítulo Aventuras e desventuras de um cozinheiro amador, o original refere expressamente as aventuras de um “escravo de cozinha”...) e a biografia de Batali, que nasceu em 1960 num subúrbio de Seattle, filho de mãe canadiana e pai italiano, funcionário da Boeing. Aos 15 anos, Batali foi com a família viver para Espanha, e mergulhou fundo na movida de Madrid. De regresso aos Estados Unidos, para frequentar a universidade, depressa foi parar, embora não pelas melhores razões, à cozinha de uma pizaria de New Jersey, o Stuff Yer Face. O mais engraçado é que a mãe lhe recomendara um curso superior de culinária (mas ele preferiu especializar-se em gestão de empresas e em teatro espanhol), sugestão que Batali recusou, por abichanada. A partir da pizaria nunca mais parou. Fez um tirocínio em Londres, num obscuro pub de King’s Road, o Six Bells, entrando como “escravo” de Marco Pierre White, hoje um dos chefs mais influentes do Reino Unido. À época eram ambos jovens, embora White fosse já um profissional reconhecido, «basicamente analfabeto mas, por ser tão intuitivo e físico [...] conseguia fazer com a comida coisas que jamais alguém fizera.» Os dois eram muito diferentes: Batali tinha umas grandes barrigas das pernas, enquanto White era perfeito como uma escultura, com ombros largos e cintura estreita. Mas foi com White que Batali aprendeu «as virtudes da apresentação, da velocidade, da perseverança e de uma cozinha forte e musculada», aprendendo ao mesmo tempo a odiar o paradigma da cozinha francesa. Ao pub de Chelsea seguiu-se um tour pelos grandes restaurantes europeus. O resto é história. A sua passagem pelo Clift e pelo Stars, ambos de São Francisco, coincidiu com a revolução californiana, esse «momento pós-moderno na alimentação», quando um pedaço de comida, «uma ponta de espargo [não era] um mero vegetal verde mas um problema de grande premência — um manuscrito de Milton, ou de Susan Sontag.» Nesses anos em que o jantar se tinha tornado «uma questão intelectual», Batali exorbitou, provando ser possível fazer uma grande refeição a partir de um naco de foie-gras e de uma «redução doce e avinagrada de laranjada Nehi e rebuçados Starbust de fruta». Assim se tornou, aos 27 anos, o chef mais bem pago da América.

É praticamente impossível descrever as mil peripécias da aprendizagem de Buford (a qual incluiu uma viagem à Toscânia para aprender os segredos da pasta), os seus momentos de tensão, humor e júbilo, os mexericos, as duras regras que teve de vencer para passar de escritor a cozinheiro. E tudo isto apesar de não considerar o Babbo o melhor restaurante italiano de Nova Iorque... lugar que reserva ao Beppe, no n.º 45 East da 22.ª rua (mas esta informação não consta do livro). Absolutamente visceral.


O Escravo, in Ípsilon, 2-5-2008, pp. 40-42. Quatro estrelas e meia.

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Sexta-feira, Abril 25, 2008

TIAGO REBELO


Hoje no Público:


Num ensaio hoje famoso, Reflexões sobre o exílio (1984), Edward W. Said sublinha que a moderna cultura ocidental é, «em larga medida, obra de exilados, emigrantes, refugiados». Ou seja, aquilo que George Steiner define como literatura “extraterritorial”. Vem isto a propósito do novo romance de Tiago Rebelo (n. 1964), O Último Ano em Luanda, obra que descreve com minúcia as circunstâncias que levaram ao êxodo dos brancos radicados em Angola. Mais de trinta anos passados sobre a ponte aérea que despejou em Portugal dezenas de milhares de retornados, a censura ideológica, entretanto esquecida, foi substituída por reserva hermenêutica.

Contando a história dos vencidos, um lado que a literatura preza pouco, livros como o de Tiago Rebelo tendem a interferir com a “verdade” da História, sobretudo quando, como sucede neste caso, o eu da realidade se confunde com o eu da narração.

Tendo como móbil o desmoronar da sociedade colonial angolana, no curto período que foi do 25 de Abril de 1974 até à independência do país, a 11 de Novembro de 1975, o seu maior óbice reside nesse afunilamento. Afinal de contas, um casal que, por impulso, troca Lisboa por Luanda, onde ao fim de cinco anos a descolonização os surpreende, não constitui o paradigma das famílias que a história classificou como de “retornados”. Dito de outra forma, O Último Ano em Luanda não faz a história das famílias fundadoras, nem o das gerações nascidas e radicadas no território, nem sequer a dos colonos pobres fixados nas fazendas do interior a partir dos anos 1950.

Tudo começa em 1969, na Lisboa que tinha o seu epicentro nos cafés da Avenida de Roma: memórias de Easy Rider (o filme que mitificou Dennis Hopper), motos em conformidade, blusões de cabedal e pastilhas de LSD. Regina é uma rapariga da classe média, filha de um juiz sisudo e conservador. Nuno é um traficante à escala das Avenidas Novas. Os dois são muito novos. Vão para Luanda como podiam ter ido para Katmandu. E em Luanda engrossam a comunidade boémia que dividia os dias entre o Clube Naval e as boîtes da moda «onde eram tratados com a deferência reservada às caras conhecidas». Uma rotina que o 25 de Abril interrompe bruscamente. No momento em que a revolução eclode, são pais de uma criança à beira de completar cinco anos. Entretanto, Nuno, o fura-vidas, fornece armas à UNITA como podia fazê-lo a qualquer outro movimento. A UNITA paga em diamantes, seja a UNITA. Um dia é preso por uma patrulha do MPLA. Em consequência, Regina foge com o filho para Lisboa, mas regressa mais tarde, decidida a «virar Luanda de pernas para o ar até descobrir onde está o Nuno»...

A cor local, os tipos humanos, o fratricídio dos três movimentos angolanos, o comportamento dos militares portugueses afectos à “libertação”, os ardis ideológicos, os esquemas de sobrevivência, a debandada em massa dos portugueses, tudo aspectos cuja verossimilhança está garantida. A título de exemplo, o motim de 9 de Julho de 1975, conhecido por Batalha de Luanda, é descrito sem concessão ao melodrama: «Os combates ultrapassaram a fronteira dos subúrbios e chegaram a algumas das avenidas mais populosas da cidade de asfalto. [...] Na população branca dissolveu-se de vez a ilusão de que seria possível ter um lugar no futuro de Angola.» Os diálogos são plausíveis, e o uso de calão adequado. Do ponto de vista dos factos, a obra parece isenta de erros. O autor socorreu-se de bibliografia atinente aos acontecimentos (creditando-a em apêndice), expediente que o ajudou a situar o desenrolar da intriga.

O livro de um jornalista? Admitamos que sim, reconhecendo que foi passado a limpo. Sendo certo que O Último Ano em Luanda está longe de ser obra inatacável, também é verdade que Tiago Rebelo demonstra, neste seu mais recente romance (o nono, se não erro), um saber fazer acima da média de outros autores da sua geração.


A queda de Luanda, in Ípsilon, 25-4-2008, pp. 48-49. Três estrelas e meia.

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Sexta-feira, Abril 18, 2008

ANTÓNIO OSÓRIO


Hoje no Público:


Em Portugal, uma convenção não escrita, gozando de beneplácito geral, instituiu o ensaio como reserva da universidade. A força do preconceito é tal que até um poeta como António Osório (n. 1933), com obra reconhecida há mais de trinta anos, sente necessidade de afirmar que os textos reunidos em Vozes Íntimas — um conjunto de ensaios na tradição de Montaigne — «não condizem com a objectividade universitária». Ao contrário do que tantas vezes acontece noutros países, em especial os de língua inglesa, não é frequente, entre nós, que poetas não docentes escrevam ensaio. É pena, porque o ensaísmo de poetas acrescenta o ponto de vista ancorado em obra própria. Muito diferentes entre si, sirvam de exemplo T. S. Eliot, Cesare Pavese e Seamus Heaney. Verdade que António Osório não discorre sobre o conceito de dissociação de sensibilidade (Eliot), a dilaceração do intelectual face ao totalitarismo (Pavese) ou a metaforização mítico-simbólica da terra (Heaney). Não. Vozes Íntimas é o livro das afinidades electivas: Mário Botas, Vivaldi, António Sérgio, João de Castro Osório, Cristovam Pavia, Umberto Saba, Raul de Carvalho, Ángel Crespo, Fernando Assis Pacheco, Sebastião da Gama, Carlos Nejar, Eugenio Montale, Cecília Meireles e Maria Valupi.

Quem conheça a obra do autor, sabe que esta não é a sua primeira recolha de ensaios. Em 1974, A Mitologia Fadista reflectia sobre mitos do imaginário popular, como o futebol, o fado e o teatro de revista. Agora fez diferente. Foi buscar os poetas e artistas amados para com eles estabelecer nexos mnemónicos. Aos que a morte levou muito cedo, casos de Sebastião da Gama (em 1952, aos 27 anos), Cristovam Pavia (em 1968, aos 35) e Mário Botas (em 1983, com apenas 30), dedica as evocações mais sentidas. Com Pavia partilhou anos de liceu e amizade. Tempos felizes no casarão da Rua 1.º de Maio, entre lanches pródigos, a descoberta de Mozart, Debussy e Satie, o milagre da poesia e os versos escorreitos do filho de Francisco Bugalho: «O grande enigma, para mim, era a assombrosa perfeição dos versos.» Um dia, subitamente, um comboio passou por cima de Pavia. Mário Botas apareceu tarde na vida de Osório. Foram apresentados por Raul de Carvalho e ficaram amigos até à morte precoce do pintor. O fascínio pela obra que ficou, «rápida, fulgurante, inesquecível como um cometa», encontra o testemunho justo: «As imagens elementares, a críptica irradiação, a comunicação confinante entre o consciente e o inconsciente, o poderio do sonho e do mistério, a aparente supremacia do mal, a força alquímica dos mitos que se erguem sobre o destino humano [...] tudo isto constitui a pintura de Mário Botas».

Filho de mãe italiana, desde cedo iniciado na língua de Dante, é natural que António Osório dê particular atenção à cultura italiana, aqui representada por Vivaldi, Saba e Montale. A violência psicológica que caracterizou a perseguição de que Saba foi alvo por parte do regime fascista de Mussolini, logo ele, um judeu tão idiossincrático — «Deus sabe o que sofri, tanto mais que não me sentia um judeu, sentia-me um poeta italiano e nada (ou quase nada) mais» —, é descrita com exemplar concisão. O mesmo se diga do pudor com que evoca Fernando Assis Pacheco a partir da leitura do poema Monólogo e Explicação, sobre o trauma da guerra em Angola.

O volume fecha com o texto que serviu de posfácio à Antologia Poética de Maria Valupi, sua tia, seguida da transcrição de treze cartas de Cecília Meireles para a autora de Amotinação dos Poetas. Doze dos catorze ensaios agora reunidos tiveram primeira publicação em revistas e outros livros (os textos sobre António Sérgio e Eugenio Montale vêm de anterior obra do autor: Libertação da Peste, 2002). Sobre os retratos que antecedem cada ensaio, é preciso dizer que a sua reprodução é de muito má qualidade. Mais valia não terem sido incluídos. A capa, sugestiva, reproduz uma aguarela do pintor brasileiro Gonçalo Ivo.

Afinidades Electivas, in Ípsilon, 18-4-2008, pp. 44-45. Quatro estrelas.

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