Segunda-feira, Junho 23, 2008

PRÉMIO LEYA 2008


O Jorge Reis-Sá suscita questões atinentes ao Prémio Leya 2008. Uma delas tendo que ver com o valor real do galardão: as contas que faz têm a exactidão das evidências. Vale a pena ler. Também se refere à existência de dois patamares de jurados: os que vão partir pedra (i.e., ler os originais, seleccionando uns tantos para ulterior decisão) e os que vão homologar a partir dessa selecção prévia. O processo não é original. Em 2004, o Prémio LER-Millennium — que distinguiu Jerusalém de Gonçalo M. Tavares — seguiu idêntico critério. No patamar dos calceteiros estavam, entre outros, intelectuais como Eugénio Lisboa e José Carlos Seabra Pereira (em que pese a minha admiração por ambos), que tiveram de ler mesmo as obras a concurso, e no patamar decisório, entre outros, intelectuais como António Barreto e José Pacheco Pereira (idem). Já será um progresso se a Leya optar por criadores. Seja como for, escritores ou funcionários do grupo, o comité de leitura tem de ser do conhecimento prévio da opinião pública.

Etiquetas:

Quarta-feira, Junho 04, 2008

GRANDE PRÉMIO DA APE


Por unanimidade, foi atribuído a Ana Luísa Amaral (n. 1956), professora associada da Faculdade de Letras do Porto, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, pelo livro Entre Dois Rios e Outras Noites. Recensão de Rosa Maria Martelo aqui.

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Junho 02, 2008

IRMÃOLÚCIA AO SALDANHA


É já amanhã, às sete da tarde, que podemos ver os rabiscos [quase] exemplares de Pedro Vieira, a partir de horrores e ternuras de max aub, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha. Na ocasião, José Mário Silva lerá contos.

Etiquetas: ,

Sábado, Maio 31, 2008

A FEIRA DE LISBOA


A pedido da minha editora, passei hoje cerca de três horas na Feira do Livro de Lisboa. Como dizia Simone de Beauvoir sobre uma sua estadia em Chicago, derreti ao sol. Mas esteve uma tarde bonita, o valter foi uma óptima companhia (o mesmo se diga da Maria do Rosário e da Ana), vários amigos foram à barraquinha dar dois dedos de conversa e, hélas!, pude conferir a Praça Leya. Então é assim: dois terços do espaço são ocupados por um kindergarten, o staff das marcas anda fardado, há uma caixa central e não, não há fundos editoriais. Pois é. Editoras com fundos imemoriais, como a Asa, a Dom Quixote, a Caminho, etc., reduzidas às novidades dos últimos 15 dias. As míticas barracas em novo formato são uma espécie de contentores onde se entra. O pior é que, em tendo 4 pessoas lá dentro, já ninguém vê nada. Portanto, em vez da batalha campal, a concorrência devia estar agradecida. Dali não vem (não pode vir) prejuízo. Muito mais eficaz e concorrida é a tenda dos pequenos editores.

Etiquetas: , ,

Segunda-feira, Maio 26, 2008

PERDIDO NA FEIRA


Três dias no Porto, infelizmente muito molhados. Mas é bom estar com os amigos, voltar a jantar no Foz Velha, dormir na Tenente Valadim, descobrir a casa que Siza fez para Armanda Passos na Marechal Gomes da Costa. Entretanto, a Feira do Livro, motivo desta deslocação. Para quem não conhece, a coisa funciona assim: entra-se por uma enorme tenda de plástico, onde estão amontoadas várias editoras, não sei quantas, não contei, serão talvez trinta; ao fim de meia hora em passo de caracol — os corredores são estreitos, as pessoas são muitas, os “carrinhos de bebé”, às dezenas, têm o tamanho de monovolumes —, chega-se finalmente à nave do pavilhão. Uma vez lá, respira-se melhor. Concentra-se aqui o grosso das editoras. Gente para cá e para lá. Altifalantes anunciam que o autor X e o autor Y dão autógrafos no stand Z. Os stands são divisórias em cartão prensado, estando as editoras identificadas por tiras de papel branco, colado na vertical, cujo alinhamento superior não ultrapassa 1,60m. Resultado: qualquer criança mais espigada tapa essa tão original sinalização. Ao cérebro que planeou o layout da Feira decerto não ocorreu que a mole humana, unida em bloco, “engole” as chancelas. Achou que assim é que era bonito, e não pensou mais no assunto. Multibanco também não havia (no domingo à tarde), o sistema estava out, dando azo a que compradores já com os livros autografados, se vissem impedidos de os pagar. É a isto que chamam promoção da cultura?

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Maio 23, 2008

ANNEMARIE SCHWARZENBACH


Se fosse viva, Annemarie Schwarzenbach (1908-1942) faria hoje 100 anos. Um pouco por todo o mundo, leituras da sua obra têm recordado quem foi esta bisneta de Bismarck que conheceu António Ferro. Lisboa não foge à regra e, daqui a pouco, na Fábrica Braço de Prata, os actores Diogo Dória, Lúcia Sigalho e Teresa Mónica, vão ler textos seus, incluindo passagens de Où est la terre des promesses?, relato de uma viagem no Afeganistão. Enquanto não chega Morte na Pérsia, que a Tinta da China vai publicar em breve, ou a exposição de fotografia no Museu do Chiado, as leituras de hoje à noite são uma boa aproximação. No P2 do Público, Alexandra Lucas Coelho assina um excelente perfil.

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Maio 15, 2008

AO LADO


A batalha campal prossegue. Guilherme Valente, da Gradiva, abandonou a UEP e propõe um abaixo-assinado. Bárbara Bulhosa, da Tinta da China, solidariza-se e reafirma: «Também nós consideramos inaceitável que a CML depois de ter dado a organização da Feira do Livro à APEL, conceda directamente 720 m2 de espaço a um grupo empresarial que nem sequer se inscreveu para participar como todos os outros. Se tal acontecer, a CML estará a avalizar a prepotência, a arrogância e a falta de respeito por todos os editores.» No ínterim, Isaías Gomes Teixeira disse aos media que o grupo Leya vai estar no Parque Eduardo VII porque a Câmara autorizou a sua presença. Ou seja, diz quem acompanha o milando, pode acontecer que a Leya não venha a estar dentro dos exactos limites concessionados à APEL, mas estará seguramente ao lado. Naturalmente, 720 metros quadrados não passam despercebidos.

Etiquetas: , ,

LUGARES SELECTOS


O actual imbróglio entre a Câmara de Lisboa, as associações de editores [APEL e UEP] e o grupo Leya, devia servir para repensar o modelo da Feira do Livro de Lisboa. Repito o que escrevi noutras ocasiões: não faz sentido uma feira ao sol e à chuva, muitas vezes sob nuvens de poeira, sem instações sanitárias, com os livros amontoados em stands decrépitos, roídos pela ferrugem, os autores sentados em plano inclinado, etc. Um evento desta natureza devia realizar-se em recinto coberto, como no Porto, com entradas pagas, sendo o seu valor descontado no pagamento dos livros adquiridos. A FIL, no Parque das Nações, seria uma boa opção. Isto dito, a conflito à volta do barracão que a Leya pretende instalar — parece que com 720 metros quadrados —, para abrigar a dúzia de editoras que comprou, não tem razão de ser. Primeiro, porque em anos anteriores o barracão colectivo dos editores independentes sempre coexistiu com os stands individuais. E nunca vi nenhuma associação queixar-se do barracão dos pobrezinhos. Agora que os ricos querem ter um, cai o Carmo e a Trindade. OK. Entretanto, lembrar aos distraídos que não é por haver (ou não) hiper-barracões que a Feira se isenta de lugares selectos: o modelo actual reserva a melhor localização aos editores mais influentes. Ou é mera coincidência?

Adenda: Pessoa amiga, conhecedora do processo, esclarece-me que o grupo Leya não pretende instalar um barracão para abrigar as suas marcas: Asa, Caminho, Dom Quixote e mais oito ou nove. Na verdade, o grupo Leya pretende agrupar os seus stands (um por cada marca, presumo) num espaço comum, o qual dará origem a uma praça, com imagem própria, bem vincada, uma vez que esses stands foram desenhados por um conhecido arquitecto. Fica feita a rectificação.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Maio 14, 2008

INTERESSE PÚBLICO


O imbróglio da Feira do Livro de Lisboa atingiu o paroxismo. Primeiro, a gente lê este comunicado e fica com azia. Ninguém explica aos burocratas da Câmara de Lisboa que um comunicado com mais de dez linhas perde eficácia? Depois, vem a cereja em cima do bolo: «[...] Mostrando-se intransigente em relação aos pavilhões da Leya, que representa autores como Lobo Antunes, Lídia Jorge e Saramago, a APEL corre o risco de perder o subsídio camarário: a autarquia pode vir a invocar a perda de interesse público do evento, por via da possível ausência destes autores.» Muito curiosa esta noção de interesse público.

Etiquetas: , ,

Sábado, Maio 03, 2008

CARAVANA


É já hoje à tarde (16:30h) na Fnac Chiado.

Etiquetas:

Domingo, Abril 27, 2008

ESCAPADA


Três dias no Algarve, por causa da Bienal de Poesia de Silves. Oportunidade para reencontrar amigos, conhecer gente nova, descobrir vocações. Um tempo magnífico (a imagem foi obtida a partir da varanda do meu quarto, às 10 da manhã de ontem), a hospitalidade generosa de Maria Gabriela Rocha Gouveia e de todo o staff da autarquia, as magníficas instalações da nova Biblioteca Municipal, onde decorreram as sessões, o ambiente descontraído dos almoços e jantares, tudo contribuiu para um fim-de-semana diferente. O manuel a. domingos também andou por lá. Houve de tudo: cantares à desgarrada (nanja eu), egos inflacionados, gossip político (o PS tem um peso-pesado para apresentar em Silves nas próximas autárquicas), poemas ao vivo, provas de vinho, cavaqueio sobre Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu com Denise Ferraz, uma simpática scholar brasileira, um pianista cego com voz de barítono, um episódio boliviano que envolveu Maria Estela Guedes, a força da natureza que é Luís Carlos de Abreu, etc. Também houve uma homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, marcada para o fim da tarde de hoje, a que já não pude assistir, com grande pena, mas tinha outro compromisso em Lisboa. Do muito que ouvi, retive com particular agrado a comunicação de Marco Alexandre Rebelo, um jovem mestre em estudos portugueses e teoria da literatura da Universidade Nova de Lisboa, bem como os poemas de Aida Monteiro e manuel a. domingos. Ontem à noite, num serão informal, o romancista Domingos Lobo, cuja poesia não conhecia, surpreendeu toda a gente com a leitura de um (magnífico) poema de homenagem a Luiz Pacheco. Valeu a pena. Está explicado o motivo porque hoje não pus em linha o habitual Ler os Outros.

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Abril 24, 2008

III BIENAL DE POESIA DE SILVES


Coincidindo com a inauguração da nova Biblioteca Municipal, onde vão decorrer as sessões, começa amanhã em Silves a III Bienal de Poesia, que encerra no domingo com uma homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, cabendo a Domingos Lobo a oração de sapiência. Participam Aida Monteiro, António Simões, João Rasteiro, Jorge Fragoso, Marco Alexandre Rebelo, Maria Azenha, Maria Gomes, bruno béu, eu próprio, Graça Magalhães, José Ribeiro Marto, Maria Toscano, Rui Mendes, Teresa Tudela, Luís Serrano, Maria Estela Guedes, Maria do Sameiro Barroso, manuel a. domingos, Manuel Madeira, Porfírio Al Brandão, Luís Carlos de Abreu, Paulo Penisga e Silvestre Raposo, os três últimos como moderadores das mesas redondas. Vai haver performances pelo grupo Experiment’Arte, uma exposição da pintora Marta Jacinto e, na noite de sábado, no Bar da Fábrica do Inglês, a apresentação da antologia Nas Margens da Poesia. [A foto ao alto é de Dias dos Reis]

Etiquetas: ,

Sábado, Abril 19, 2008

FALTA POUCO


Como prova junta, o primeiro número da nova série da revista LER, agora com periodicidade mensal, está finalmente pronto. Duas grandes entrevistas: António Lobo Antunes e Paulo Teixeira Pinto, ex-CEO do grupo Millennium BCP, actual proprietário da Guimarães Editores (exactamente, a editora de Agustina). Inéditos de Cortázar. Para quem gosta de listas, a dos 50 autores mais influentes do século XX. Para quem gosta de opinião assinada, colunas em conformidade: as de Abel Barros Baptista, myself [Heterodoxias], Filipe Nunes Vicente, Francisco Belard, Inês Pedrosa, José Eduardo Agualusa, José Mário Silva e Onésimo Teotónio Almeida. A nós oito junta-se a partir do 2.º número uma scholar highbrow. Quem será? Textos sobre o mundo da edição, livros e autores, entre eles Eduardo Lourenço e Pedro Tamen. Notícias. Blogues. Gossip. Crítica. O lançamento é na próxima terça-feira, dia 22, às 21:30h, no Belém Bar Caffè. Só para happy few, naturalmente. A 23, Dia Mundial do Livro, estará nas bancas.

Etiquetas: , ,

Sexta-feira, Abril 18, 2008

ET PUR SI MUOVE


Uma coisa é certa: Manuel Alberto Valente não arrumou as botas. Entrevistado hoje por Isabel Coutinho, para o Público, o antigo editor da Asa levanta um pouco o véu do que pretende fazer já este ano. Boas notícias:


«Tenho estado a construir um projecto que quero que seja consistente, de qualidade, de excelência. E há duas hipóteses: ou avanço para esse projecto sozinho, ou encontro um interlocutor que o aceita e inclui numa estrutura editorial já forte. Como é ambicioso, gostava de o ver integrado numa estrutura que lhe desse garantias de eficácia.

É um projecto editorial que passa pela publicação de autores portugueses e de obras traduzidas na área da ficção e da não-ficção.
Não é para publicar os restos do que sobra dos grandes grupos. Quero que possa ser um projecto concorrente dos grandes grupos. Quero publicar livros já este ano, na rentrée, em Setembro.

Não posso trazer das Edições Asa livros previstos no seu programa editorial e que já estavam contratados. Mas autores posso. Desde que os autores não tenham contratos assinados para obras novas, evidentemente que os posso trazer. E conto com eles, aliás, quer portugueses, quer estrangeiros.»

Etiquetas: ,

Terça-feira, Abril 01, 2008

CIBERESCRITAS


A partir de hoje, o Ciberescritas da Isabel Coutinho está online. Coincide com a chegada às livrarias americanas, sob chancela da William Morrow (editora do grupo HarperCollins), do romance que José Rodrigues dos Santos escreveu sobre Colombo: Codex 632. No âmbito da campanha de marketing, um grupo de jornalistas americanos veio a Portugal na semana passada, para conhecer os locais que servem de pano de fundo à história. O passeio pode ser acompanhado (através do YouTube) na reportagem. Eu sei que a data não é propícia a este tipo de notícias, mas neste caso é mesmo verdade. Em todo o caso, o importante é o Ciberescritas.

Etiquetas: ,

Terça-feira, Março 18, 2008

LEYA SEM VALENTE & VIEGAS


Manuel Alberto Valente, o editor que fez da Asa uma chancela de referência, deixou a casa onde estava desde 1991. Recorde-se que a Asa foi comprada em Maio do ano passado por Miguel Pais do Amaral, que fundou o grupo Leya, uma holding de várias chancelas: Caminho, Dom Quixote, Gailivro, Texto, Novagaia, a moçambicana Ndjira e a angolana Nzila. Entretanto, Francisco José Viegas, autor da Asa e editor da Babilónia, uma marca da Asa, também se mudou para a Bertrand, do grupo Bertelsmann. E levou com ele os autores do catálogo babilónico. Anda animada, a edição portuguesa.

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

INÊS NA CASA


Inês Pedrosa foi nomeada directora da Casa Fernando Pessoa, substituindo Francisco José Viegas, que deixa aquelas funções na próxima sexta-feira, dia 15. [Foto de Dionísio Leitão]

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

O BIBLIOTECÁRIO DE BABEL


Passou tempo suficiente para ser dito sem contradita. Se há blogue literário por excelência, esse blogue é o Bibliotecário de Babel, de José Mário Silva. Literário no sentido em que deviam sê-lo as revistas literárias que não temos. [Não temos, não. A Colóquio-Letras, que ainda não acabou, é uma excelente revista de estudos literários; a Textos e Pretextos, que parece que acabou, idem; a Inimigo Rumor, que acabou mesmo, idem em clave luso-brazuca; a LER, também desaparecida, mudou o perfil em 2000; as Águas Furtadas é uma estimável revista multidisciplinar; e Os Meus Livros uma revista sobre livros, por sinal a única com periodicidade regular. Sobram publicações avulsas, de âmbito académico, umas vocacionadas para estudos de literatura comparada, outras para o sexo dos anjos em pós-graduação metafísica.] O Bibliotecário de Babel funciona como agenda — realização de colóquios e seminários, encontros de escritores, lançamentos, feiras do livro, prémios, traduções, notícias da edição e do milieu, aniversários de poetas (quem mais se lembrou que Al Berto teria feito 60 anos no passado dia 11?), etc. —, mas não abdica de opinião. É justamente a quota de opinião que o distingue de outra morada afim, Mundo Pessoa, o blogue da Casa Fernando Pessoa, gerido (e bem) por Ricardo Gross com a distanciação que se espera de um sítio institucional. Coisas diferentes, portanto. Quanto tenho visto, o ecumenismo do Bibliotecário de Babel tem sido de regra. Uma vez que os jornais desistiram da cena literária, haja ao menos um sítio onde ir conferir. Na imagem ao alto vê-se a sala de leitura da Biblioteca Pública de Nova Iorque.

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

CORREIO DE LEITORES


Resposta a uma leitora, M., filha de portugueses, nascida na antiga RDA, que tenta acompanhar o que se passa no nosso país, e tem dificuldade em perceber [«sinceramente não entendo»] os mecanismos de recepção cultural nos jornais e nos blogues:


Muita gente continua a queixar-se, mesmo as criaturas que andavam de bibe e chucha quando se deu o 25 de Abril, dos efeitos deletérios da hegemonia marxista na vida cultural portuguesa. Essa hegemonia, todos sabemos, durou perto de cinquenta anos. Podemos estabelecer balizas simbólicas, tão boas como quaisquer outras: entre o artigo que Álvaro Cunhal publicou em 1939, no n.º 615 da Seara Nova, atacando o que considerava ser o individuaismo de José Régio — a frase ainda ecoa: «Cada qual tem que escolher um caminho; para um lado ou para o outro» —, e a publicação, em 1980, do primeiro volume do diário de Vergílio Ferreira, Conta-Corrente, obra de que seriam publicados outros oito volumes até 1994 (divididos em duas séries) e se constituiu, de facto, como tiro de partida da desagregação do sistema, entre essas duas datas, dizia, muita água correu sob as pontes. Entretanto, passados quase 34 anos da queda do Estado Novo, e vivendo nós em democracia plena desde que a primeira revisão constitucional, em 1982, extinguiu o Conselho da Revolução, o que é que vemos? Os tais que andavam de bibe e chucha quando se deu o 25 de Abril, em regra anti-marxistas, a macaquearem comportamentos tidos por ultrapassados. Verdade que esta nova espécie de dogmatismo de casta não tem sustentação ideológica. Tem só interesses. Lá onde o outro se estribava no partido, o de agora tem o respaldo do Estado, sob várias ramificações: ministérios, institutos, empresas do sector público com nicho cultural (e sinecura correlata), universidades, etc. No privado têm menos sorte, porque tendem a ser sacudidos, mas também se vai vendo. O que é que os distingue dos seus predecessores vermelhos? Maior abertura aos costumes? Errado. Grande parte do pessoal trendy confunde tolerância com a noção de que a permissividade alheia deve ser mantida a prudente distância. Têm outro cuidado com a adjectivação, mas a sinuosidade diz bem do que são capazes. Há coisas que não mudam nunca! Zelando pelos respectivos interesses, os novos capatazes defendem com fervor de alucinados aquilo que tomam por reserva sua. É-lhes intolerável qualquer resquício de intromissão heterodoxa. Muitos andam na bloga porque não podem andar em mais parte nenhuma. São de esquerda? São de direita? São uma coisa e o seu contrário, ao sabor dos humores? Há de tudo, cara M., há de tudo! E nem todos andavam de bibe e chucha quando se deu o 25 de Abril. Uns quantos seriam jovens adultos quando amanheceu «o dia inicial inteiro e limpo». [cf. Sophia. Nunca leu? Leia!] Esses são os casos mais tristes. Pergunta-me: «O que querem eles...?» Querem fazer lei. Se necessário, à custa de assassinato de carácter. Enfim, presumo que nada disto lhe seja estranho.

Etiquetas: , ,

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

LES BIENVEILLANTES


Chegou finalmente às livrarias a tradução portuguesa de Les Bienveillantes (2006), de Jonathan Littell, sob chancela da Dom Quixote. A obra, que recebeu o Prémio Goncourt e o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa, tinha começado a ser traduzida por Alface [i. e., por João Alfacinha da Silva], mas a morte surpreendeu o escritor. Coube assim a Miguel Serras Pereira fazê-lo, desde o início, por não ter sido possível compatibilizar a parte já traduzida com a sua própria declinação. Jonathan Littell (n. 1967), filho do escritor americano Robert Littell, nasceu em Nova Iorque, escreveu Les Bienveillantes em francês, e vive em Barcelona. Ao contrário da lenda, esta narrativa sobre o Mal não é a sua primeira obra literária, é a segunda. A edição portuguesa tem 895 páginas em letra miudinha. Continuo sem perceber por que razão se chamou ao livro As Benevolentes, sabendo-se que o título original reporta às Euménides, um eufemismo das Fúrias (cf. Oresteia de Ésquilo), e não reporta por ademane, mas porque o móbil do livro não perde de vista a tragédia do grego. O adequado seria As Fúrias, que por acaso é o título de um livro de Agustina. Crítica no Ípsilon do próximo dia 21.

Etiquetas: ,