Quinta-feira, Março 01, 2012

PRIMUS INTER PARES


Agora que o n.º 111, relativo a Março, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica Primus inter pares, publicada no n.º 110 na minha coluna Heterodoxias:

Conheci o Fernando Assis Pacheco em 1979, a seguir à publicação do meu segundo livro. À época, os escritores comentavam livros e combinavam almoços por carta. Posso estar errado, mas julgo que, depois da família, as prioridades do Assis eram os livros e os almoços, não necessariamente por esta ordem. Leitor bem apetrechado, fazia todas as semanas, no Bookcionário  —  a coluna de crítica que mantinha no semanário O Jornal  —, uma escolha criteriosa do que era publicado. Numa altura em que a literatura estava refém da ideologia, sabia separar o trigo do joio. Fazia isso muito bem.

Quando o conheci, o Assis era autor de três livros, dois de poesia e a novela pícara Walt (1978). E também uma figura pública porque um programa da RTP, A Visita da Cornélia, apresentado por Solnado, lhe conferiu esse dúbio estatuto no Portugal pós-revolucionário de 1977. Jornalista admirado entre pares de todos os quadrantes, esperou anos antes de ser reconhecido como poeta. A primeira edição da poesia reunida apareceu em 1991, trinta anos depois da estreia, sob chancela da Hiena, editora marginal entretanto desaparecida. Mas só em 2006, pela mão de Abel Barros Baptista, que dirige a edição das suas obras, A Musa Irregular chegou ao catálogo da Assírio & Alvim. Teria sido importante vinte anos mais cedo. Em 2006, ninguém se impressionou.

Assis Pacheco tinha 58 anos quando a morte o surpreendeu na Buchholz, a livraria da rua Duque de Palmela onde se abastecia de livros importados. Era o 30 de Novembro de 1995, eu estava em Madrid, a jantar no Lhardy, quando recebi a notícia. (O Lhardy fora sugestão sua; como também El Mosquito, o mais antigo restaurante de Vigo onde faço questão de ir todos os anos, aproveitando para beber um copo em sua homenagem.) O país institucional não rasgou as vestes. Tinha desaparecido um grande poeta, mas o que escrevia não encaixava nos discursos do 10 de Junho: «Por uma cona assim eu perco o tino / e tudo o mais desamo que não faça / como rata em soneto de Aretino: / a um caralho dar frequente caça [...]» Desiluda-se quem suponha que cito plaquete privada oferecida a happy few (um velho hábito seu). Estou a citar o primeiro soneto de Respiração Assistida, livro póstumo dado à estampa em 2003.

Variações em Sousa (1987) colige vários dos melhores poemas que deixou: Coimbra em Formato Postal, Conhecimento da Amada, A Bela do Bairro, Canção do Ano 86, O Cu de Maruxa, Como um Relâmpago Verde, este sobre a morte do avô: «Nesse ano e mês chamaram de Lisboa / era o pai de meu pai / morrendo velozmente ao telefone / eu ouvia os gritos baterem / nas portas da cristaleira / quis chamar Deus para convencê-lo / a suspender o voo / mas já ia longe para lá de Alfeizerão [...]» Memorabilia em verso não é para qualquer um.

Num país como o nosso, um homem generoso, culto, com senso de humor, não fazendo segredo do prazer da cozinha e das viagens, se for um intelectual, é olhado de viés. O Assis era tudo isso, com desembaraço e salero galego. Não tendo ilusões acerca do Meio, escreveu numa das cartas que comigo trocou: «O que fica é a escrita, a tesão e a imaginação que se põe na escrita. Showbiz, estou servido; já dei.» Imune ao ar do tempo, sorria de perfil quando a conversa tangia o famigerado “regresso ao Real”. Não fora a sua dissertação de licenciatura justamente sobre Stephen Spender? (Ironia: com meses de intervalo, primeiro o inglês, morreram os dois no mesmo ano.) Virtudes e defeitos, fair play, mordacidade adoçada pelo timbre educado da voz, capacidade rara de absorção das tradições literárias, virtuoso da síntese: «Peçam a grandiloquência a outros / acho-a pulha no estado actual da economia [...]» A fasquia estava lá em cima.

Se fosse vivo, faria 75 anos no dia 1 de Fevereiro de 2012.

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