Quinta-feira, Janeiro 05, 2012

RODRIGO LACERDA


Hoje na Sábado escrevo sobre Outra Vida, o romance mais recente do brasileiro Rodrigo Lacerda (n. 1969), com acção centrada às primeiras horas da manhã no terminal rodoviário de uma cidade não nomeada. Os personagens também não têm nome. São o homem, a mulher e a filha, com sogra, amante e deputado ao fundo. Plot: suborno vs culpa. Podia ser um croqui para teatro: é patente o domínio da coreografia. A história mistura passagens muito bem esgalhadas (o conflito, primeiro latente, depois explícito, entre marido e mulher) com reflexões pomposas acerca do mundo actual: impasses da política brasileira, fontes não-identificadas, fome e guerra global, informação atrelada a vozes sem dono («ou de um dono sem caráter»), exploração mediática da miséria, etc. Rodrigo Lacerda é neto do lendário Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista e político, fundador do jornal Tribuna da Imprensa e da editora Nova Fronteira, governador do Estado da Guanabara e líder civil do golpe militar de 1964 que provocou a demissão do presidente João Goulart.

Escrevo ainda sobre Impressões de África, o romance de Raymond Roussel (1877-1933) que passou despercebido à data da publicação (1910). Roussel, que influenciou os surrealistas, os dadaístas, os autores do futuro Nouveau Roman, bem como os artistas e poetas da Escola de Nova Iorque (Kooning, Ashbery e outros), era de opinião que o livro podia, e talvez devesse, ser lido de forma arbitrária, embora aconselhasse os amigos a começar pelo décimo capítulo. Edição Relógio d’Água.

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