Sábado, Dezembro 31, 2011
Sexta-feira, Dezembro 30, 2011
A LEI CRISTAS
O governo aprovou ontem o diploma que, depois de submetido e votado no Parlamento, dará corpo à nova Lei das Rendas. Conheço apenas o que li no Público e no Expresso. Não percebo o alarido dos senhorios, “indignados” com o facto de a futura lei não resolver o imbróglio dos contratos anteriores a 1990. Dizem eles que há 250 mil rendas congeladas. O INE diz que são só metade desse número. Seja como for, 250 ou 125 mil, tanta “indignação” traz água no bico. Quanto sei, as rendas muito baixas (estou a falar de Lisboa) praticam-se nos bairros “típicos”: Baixa, Chiado, Sé, Alfama, Mouraria, Bairro Alto, Bica, Madragoa, etc.
Melhor dito: nos edifícios degradados desses bairros. Porque ao lado desses em mau estado existem outros, também centenários, porém recuperados, e convertidos em propriedade horizontal (sendo proprietários a larga maioria dos seus ocupantes), onde os inquilinos pagam rendas de padrão europeu. As pessoas que pagam rendas de 40 e 60 euros vivem, passe a expressão, em pardieiros. Não é sério exigir-lhes que passem a pagar 200 ou 300 euros.
Vamos admitir, por hipótese macabra, que uma vaga de despejos esvaziava 90% das casas do centro histórico. Têm os proprietários capital para recuperar os edifícios? Têm a ilusão de poder substituir inquilinos idosos de baixos recursos por inquilinos jovens de recursos médios? Ou só os querem vazios porque sim?
O busílis parece estar nas Avenidas Novas, Alvalade, Areeiro, Campo de Ourique, Príncipe Real, Rato e zonas burguesas afins. É para aí, julgo eu, que a “indignação” dos senhorios faz pontaria. O mantra das casas de 200 metros quadrados alugadas a 400 euros é um clichê. Sucede que essas casas, quando foram alugadas, tinham uma renda alta. Conheço um caso de 1972, ano em que a renda de um T3 nas Avenidas Novas foi fixada em 16 contos (o equivalente a 80 euros), actualizada a partir de 1985, estando hoje, por força dessas actualizações, com uma renda de 560 euros. É verdade que, no mesmo edifício, há dois apartamentos iguais alugados a 800 euros cada, mas são contratos de 1999. Já agora, lembrar que, em 1972, um técnico superior da função pública com funções de chefia não ganhava 16 contos. Durante 30 anos, o senhorio desse T3 portou-se como um agiota siciliano.
Como os senhorios andam sempre com o mercado na boca, deviam começar por verificar se têm condições para cumprir as regras atinentes. A saber: nos termos da futura lei, se o senhorio do T3 de que falei quiser subir a renda de 560 para 800 euros, e o inquilino só aceitar 600, resolve o assunto com uma indemnização de 42 mil euros (700 euros vezes 60 meses). Tão simples como isso. A irritação dos senhorios não é com as rendas de 40 ou 50 euros. É com as 300 e 400.
Deviam, porém, pensar no óbvio: com meio milhão de apartamentos (em todo o país) por vender, é muito provável que dois terços dessas habitações tenha como destino o mercado do aluguer. Quando isso acontecer, a retórica das associações de senhorios é triturada pela expertise da Banca.
Etiquetas: Lei das rendas
NOSTALGIA DA FELICIDADE
Agora que o n.º 109, relativo a Janeiro de 2012, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica Nostalgia da Felicidade, publicada no n.º 108 na minha coluna Heterodoxias:
A morte prematura de Tony Judt (1948-2010) abre um buraco na memória colectiva. Não é frequente um historiador tornar-se bestseller, mas foi o que sucedeu com Judt a partir de 2005, ano em que publicou Pós-Guerra. História da Europa desde 1945. Porquê, se dezenas de historiadores e romancistas escreveram sobre a Segunda Grande Guerra, tema de centenas de filmes e séries de televisão? É simples: por um lado, Judt escreveu a opus magnum depois da abertura dos arquivos austríacos e da Europa de Leste, o que só aconteceu no fim dos anos 1990. Nenhum dos seus predecessores, nem os melhores (Hobsbawm, Lichtheim, Taylor), teve acesso a essa informação.
Por outro, interpreta o passado de forma “declaradamente pessoal”. O reconhecimento planetário foi imediato. Quando, em 2008, O Século XX Esquecido chegou às livrarias, já o discreto director do Instituto Erich Maria Remarque e professor de Estudos Europeus na Universidade de Nova Iorque era uma celebridade dos dois lados do Atlântico.
Judt nasceu em Londres, deveio americano sem dar por isso («tinha-me tornado americano») e, aos 62 anos, vítima de uma variação da esclerose lateral amiotrófica, também conhecida por doença de Lou Gehrig, morreu em Nova Iorque. A doença gerou O Chalet da Memória.
Ponto prévio: «Os ensaios que figuram neste livrinho nunca foram escritos para publicação. Comecei a escrevê-los para minha própria satisfação...» Após o diagnóstico (em 2008), impedido de viajar, começando a perder a voz, pensando mais depressa do que conseguia formar palavras, corpo paralisado, correu contra a morte. Timothy Garton Ash e Eugene Rusyn criaram as condições do sprint. Ironia suprema: são textos “felizes”. O primeiro leva-nos a Chesières, estância de esqui na Suíça, onde Judt, então com 10 anos, se deliciava com a voz de barítono e as «imprecações irrepetíveis» de Rachel Roberts, a actriz galesa que se hospedava no mesmo hotel.
É comovente ver como este homem, que com tanta argúcia escreveu sobre a História da Europa e um punhado de autores que marcou o perfil do seu e nosso tempo (Camus, Sartre, Arendt, Said, Althusser, Levi, Foucault, outros), se deixou enredar com ironia e sageza no labirinto das mnemónicas: «Para um miúdo, o racionamento fazia parte da ordem natural das coisas.» Isto não é sobre a guerra, é sobre Londres nos anos 1950. Pequena folga para a coroação de Isabel II: «foi permitido a toda a gente mais 450 gramas de açúcar...» Falando da infância, Judt faz o retrato da sociedade inglesa no tempo de Attlee e Macmillan: «A seriedade moral na vida pública é como a pornografia, difícil de descrever mas imediatamente identificável quando a vemos.» No mesmo registo, o ensaio dedicado à comida baliza a fronteira entre necessidade e volupté.
Quando em 1975 chegou à América, a convite da Universidade da Califórnia, o choque foi brutal: «nenhum lugar no mundo se pode gabar de ter universidades públicas tão boas.» Isto, dito por quem vinha de dar aulas em Oxford. Antes da mudança definitiva para Nova Iorque em 1987, andou entre Berkeley e St Anne’s: «O ataque do governo Thatcher ao ensino superior britânico estava a começar...»
Sobre os anos da political correctness, a famosa asserção de Gertrude Stein numa conferência em Oxford acerca da “questão” da mulher: «Nem tudo pode ser sobre tudo.» E assim sucessivamente, porque O Chalet da Memória é sobre quase tudo: identidade judaica, solipsismo académico, lugar do intelectual francês, sistema escolar inglês, «incontinência retórica» em Zizek, New York Review of Books, elitismo, École Normale Supérieure, bibliotecas americanas, assédio sexual... Judt, afinal, não morreu.
LER 109
Etiquetas: Nova LER
ANO EM REVISTA
Em 2011 escrevi sobre livros de:
No Público, entre Janeiro e Dezembro: Jonathan Ames, Christopher Isherwood, Ricardo M. Salmón, Pedro Vieira, Romain Gary, Andrew Sullivan, Milan Kundera, Lídia Jorge, Leonardo Padura, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário de Carvalho, Karen Blixen, Saul Bellow, Ruta Sepetys e, na escolha dos críticos, duas pequenas notas sobre Joyce Carol Oates e Guy de Maupassant.
Na revista Sábado, entre Maio e Dezembro: Christopher Isherwood, Dante, Ignácio de Loyola Brandão, José Oliveira Ribeiro, Adam Haslett, Hugo Gonçalves, Cristina Carvalho, Richard C. Morais, Peter Carey, William Trevor, Maria Teresa Horta, Raymond Chandler, Patti Smith, Paulo Bugalho, Aravind Adiga, Joseph Heller, Reinaldo Moraes, Filomena Marona Beja, Vladimir Nabokov, Paulo Castilho, Cormac McCarthy, Lars Kepler, Patrícia Reis, Darin Strauss, J. Rentes de Carvalho, Andrea Camilleri, Guy de Maupassant, Francisco Vaz da Silva, Evelyn Waugh, Ernesto de Sousa, Mons Kallentoft, Ali Smith, Liudmila Ulítskaia, Paulo José Miranda, Martin Amis, Samanta Schweblin, Herta Müller, Virginie Despentes, Colum McCann, Miguel Real, Penelope Fitzgerald, Christos Tsiolkas, Thomas Pynchon, Clara Pinto Correia, Lewis Carroll, Dulce Maria Cardoso, Edney Silvestre, Titus Müller, V.S. Naipaul, John Cheever, J.D. Salinger, José Saramago, Florbela Espanca, Alan Hollinghurst, Per Olov Enquist, John O’Hara, Vassili Grossman, Truman Capote, Ana Cristina Silva, Julian Barnes, João Pedro George, Vasco Graça Moura, Patrick Modiano, Joyce Carol Oates, Haruki Murakami, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Margaret Atwood e George Eliot.
[Imagem: caricatura da Round Table por Hirschfeld.]
Etiquetas: Crítica literária
Quinta-feira, Dezembro 29, 2011
CITAÇÃO, 396
José Pacheco Pereira, O estado das artes, hoje na Sábado. Excerto, sublinhados meus:
«O PSD estando no governo está bem e recomenda-se, quase no inverso de como está mal na oposição. O seu conteúdo ideológico e programático está em extinção [...] O aparelho detém todo o poder e quase não há respiração fora dele. No Governo, mais do que o primeiro-ministro, funciona o ministro do aparelho em tudo o que é sensível, movimenta interesses e lugares, posiciona para o futuro. Muita gente pensa sempre com aquela complacência de achar que há quem faça e há quem seja enganado, ou não saiba, ou não conheça. No caso vertente, a formação do primeiro-ministro e do seu principal executor é exactamente a mesma. Podem ter a certeza absoluta de que ambos, ambos, ambos, sabem de tudo. Fizeram-se lá e sabem muito bem como se fizeram. [...]»
QUEM LÊ JORNAIS?
Ranking dos jornais diários portugueses (vendidos em banca) entre Janeiro e Outubro de 2011:
Correio da Manhã — 124.504 exemplares diários — menos 0,29%
Jornal de Notícias — 78.574 exemplares diários — menos 1,81%
Público — 26.163 exemplares diários — menos 5,84%
Diário de Notícias — 17.940 exemplares diários — menos 23,55%
i — 5.307 exemplares diários — menos 15,72%
Diário Económico — 4.781 exemplares diários
Jornal de Negócios — 3.327 exemplares diários
Estes são os dados que o Público revela.
O Diário de Notícias tem uma tabela diferente, pois junta as assinaturas (11.440 exemplares diários) às vendas em banca, o que dá um aumento de 13,2%.
Etiquetas: Media
MARGARET ATWOOD
Escrevo ainda sobre Middlemarch, o clássico de George Eliot (1819-1880) sobre o tempo em que viveu, teses racionalistas, humanismo naturalista, comportamentos e relações humanas, política, arte, ciência e religião. Sir David Cecil, o crítico inglês, disse em 1934 que Middlemarch é o equivalente possível, em língua inglesa — «o que se pôde arranjar» —, de Guerra e Paz de Tolstoi... José Miguel Silva e Miguel Serras Pereira, que assinam a nova tradução desta obra-prima do catálogo da Relógio d’Água, estão de parabéns.
Etiquetas: Crítica literária, revista Sábado
Quarta-feira, Dezembro 28, 2011
ONDE ANDAVA A MINISTRA?
Há quinze dias, o governo transferiu a propriedade do edifício da Rua Nova do Almada para a Câmara de Lisboa. Nos termos do Dec-Lei n.º 110/2011, de 25 de Novembro, compete à Câmara de Lisboa requalificar e reabilitar a frente ribeirinha da Baixa pombalina. Entra aí o edifício do antigo Tribunal da Boa Hora. António Costa quer instalar ali a Assembleia Municipal, um kindergarten, uma escola do primeiro ciclo, bem como todos os serviços camarários dispersos pela Baixa.
Agora, Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça, quer reaver o edifício. António Costa reagiu, declarando ao Público: «Se o Estado tiver 7,5 milhões de euros para nos dar, nós podemos considerar essa hipótese, desde que fique também salvaguardado que o imóvel da Boa Hora não ficará abandonado.» Onde andava a ministra quando, há quinze dias, o governo de que faz parte transferiu a propriedade do edifício para a Câmara de Lisboa?
Terça-feira, Dezembro 27, 2011
A DECADÊNCIA DA EUROPA
Portugal não serve de exemplo porque as periferias não fazem História. Mas a Inglaterra é um sintoma. Uma história exemplar:
Duas amigas minhas vão passar dez dias a Londres na primeira quinzena de Janeiro. Uma delas fez toda a sua formação escolar em inglês, tendo vivido vinte anos em Londres (1978-98). As duas usam a net com a naturalidade de quem respira. Interessadas em ver espectáculos (música, dança, teatro) durante as mini-férias, tentam adquirir os respectivos ingressos através das agências especializadas de Londres. Resultado da pesquisa: a agência A só vende os bilhetes mais caros; a B só os mais baratos; a C só coxias laterais; a D só para espectáculos à tarde; a E só para espectáculos à noite; a F só balcões; etc. A maioria não mostra a planta da sala. Todas cobram taxas abusivas sobre o preço de bilheteira. As minhas amigas desistem da pesquisa inglesa. Procuram agências de Nova Iorque. Denominador comum: planta da sala em 1.º lugar; todos os horários disponíveis; todo o tipo de lugares à venda; taxas inferiores às inglesas. Compram em NY os ingressos pretendidos. Ou seja, para comprar bilhetes para espectáculos em Londres, contacte agências americanas.
Isto não é só patético. Isto é um retrato daquilo em que a Europa se transformou.
[Na imagem, o Wyndhams Theatre de Londres.]
Segunda-feira, Dezembro 26, 2011
SENSIBILIDADE E BOM SENSO
O Jansenista acabou. Tenho pena. Não cheguei a conhecer o seu autor (uma viagem minha impediu que isso acontecesse em Julho), mas o facto é irrelevante tendo em vista o que o blogue deu a conhecer dele: fair play, bom gosto, cultura, cosmopolitismo. Tudo qualidades cada vez mais escassas na bloga. A imagem foi roubada ao caro jansenista. Até sempre.
Etiquetas: Blogues
Sábado, Dezembro 24, 2011
Sexta-feira, Dezembro 23, 2011
Quinta-feira, Dezembro 22, 2011
CHINESES GANHAM EDP
A empresa China Three Gorges venceu o concurso para adquirir a quota de 21,35% que o Estado detinha na EDP, derrotando alemães e brasileiros. O Estado recebe 2,7 mil milhões de euros pela venda desses 21,35%. A China Three Gorges compromete-se a construir em Portugal uma fábrica de turbinas eólicas até ao Verão de 2013.
Nada disto tem a ver com os bonitos olhos dos portugueses. Os concorrentes estão sobretudo interessados na operação externa da EDP, com activos em Espanha, no Brasil e nos Estados Unidos (Nova Iorque e Califórnia). As tarifas que nós pagamos são obscenas, mas: 1. não são fixadas pela EDP; 2. os lucros da empresa decorrem da operação externa. O folhetim acabou.
Etiquetas: EDP
LEHMAN QUÊ?
Etiquetas: Espanha, Lehman Brothers
JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Escrevo também sobre Short Movies, de Gonçalo M. Tavares (n. 1970). Se Jeanne Moreau diz que ele é «un écrivain magnifique, un homme magnifique», quem sou eu para duvidar.
Etiquetas: Crítica literária, revista Sábado
Quarta-feira, Dezembro 21, 2011
ÀS TANTAS, UMA AGÊNCIA
Paulo Rangel, ontem, à entrada para uma reunião do Conselho Nacional do PSD, sobre o apelo à emigração dirigido pelo primeiro-ministro aos desempregados em geral, professores em particular:
«Às tantas, nós até devemos pensar, se houver essas oportunidades, em, de alguma maneira, gerirmos esse processo. Talvez fosse uma forma de controlar os danos. Era ter, no fundo, uma agência nacional que pudesse eventualmente identificar necessidades e procurar ajustar as pessoas que tivessem vontade — não é forçar ninguém a emigrar, não se trata disso — e canalizar isso. Não vejo motivo de escândalo. Pelo contrário, [a sugestão] devia suscitar um debate sério na sociedade portuguesa, para tentarmos, na medida do possível, acomodar as necessidades do País em termos de mercado de trabalho no exterior. No caso da Educação, com a baixa da taxa demográfica, não há lugar para todos os professores. Ou os senhores querem que as pessoas fiquem em casa à fome e a viver do fundo de desemprego, é isso que querem?»
O próximo passo será aconselhar aos desempregados mais novos a mais velha profissão do mundo?
Terça-feira, Dezembro 20, 2011
CITAÇÃO, 395
«São umas vinte e vão todas em fila indiana, de mãos dadas como se estivessem numa roda, com os seus bibes vermelhos [...] Para o Governo do meu país, os financeiros sem rosto que sobem os juros da dívida que dizem que temos são mais importantes que as crianças de bibe vermelho. Ainda que esses financeiros sem rosto tenham roubado os títulos da dívida a alguém, ainda que os tenham forjado, ainda que tenham sido eles a convencer os governantes a reduzir os impostos às empresas para depois termos de lhes pedir dinheiro emprestado, ainda que nos cobrem um juro agiota, ainda que subam o seu juro agiota sem razão, ainda que condenem à miséria crianças de bibe vermelho por todo o mundo, ainda que condenem a morrer à fome crianças que nem sequer têm um bibe vermelho. Que honra é esta que sobrepõe o dever de pagamento da dívida aos ricos ao dever de alimentar os pobres? Que honra é esta que aceita aumentos de juros de 7 por cento para as dívidas que se devem aos ricos mas apenas um aumento de 3 por cento para as pensões dos mais pobres dos pobres? Não é nenhuma honra. É apenas indignidade. É apenas falta de vergonha. É apenas desumanidade.
[...] O discurso hegemónico é simples e condena as crianças de bibe vermelho à vida triste que já vivemos há quarenta anos, como lembrava há dias Isabel do Carmo.
[...] Já começámos a perceber como funciona o sistema da dívida, a armadilha dos juros crescentes, a matilha de agências de rating e dos bancos, empenhados em reduzir a solidariedade ao Estado mínimo que deixa todos os negócios na mão de quem já controla os mercados, a mentira do falso mercado da falsa concorrência, a mentira dos cartéis e da corrupção, dos impostos que são apenas para os trabalhadores e dos paraísos fiscais que são apenas para os ricos. [...]»
Etiquetas: Citações, Dívida portuguesa
Segunda-feira, Dezembro 19, 2011
CITAÇÃO, 394
Manuel António Pina, Finalmente alguém sensato, no Jornal de Notícias. Sublinhado meu:
«O que disse o vice-presidente da bancada do PS e tanta celeuma levantou é o óbvio: um Governo que se preocupasse exclusivamente com os interesses dos portugueses e não fosse um mero núncio local dos interesses dos “mercados” deveria ter como absoluta prioridade a renegociação da dívida.
É hoje claro para quem observa, sem palas ideológicas, a situação portuguesa que nunca conseguiremos pagar a dívida nas condições usurárias que nos foram impostas, as quais, gerando recessão e bloqueando o crescimento da economia, constituem o principal obstáculo a esse pagamento, forçando sempre a novas e sucessivas “ajudas”, numa espiral de endividamento cujos resultados estão à vista na Grécia.
Assim, a reestruturação da dívida será, mais tarde ou mais cedo, uma inevitabilidade. Aos credores interessa que seja o mais tarde possível, quando o país estiver já completamente exaurido e sem património que vender ao desbarato. Nessa altura, tudo o que puderem ainda sacar será bem vindo. Aos portugueses interessa que seja já, enquanto ainda dispomos de uns restos de soberania.
A desassombrada afirmação de Pedro Nuno Santos, de que devemos “marimbar-nos para os credores” e usar todas as armas para obter condições que nos permitam pagar o que devemos e sobreviver como país independente, seria o desiderato patriótico de qualquer Governo que não agisse apenas como submissa correia de transmissão dos interesses da Sra. Merkel.»
Etiquetas: Citações, Dívida portuguesa
SE ATÉ ELE O DIZ
Etiquetas: Crise do euro
Domingo, Dezembro 18, 2011
EVACUAR
Um snobe dirá: é uma manchete do Sunday Times, não é para levar a sério. Mas o Foreign Office britânico já confirmou, com uma nuance: Não é para aplicar só em Espanha e Portugal. É para aplicar em todos os países da zona euro onde isso aconteça. Uns brincalhões, estes ingleses.
Etiquetas: Crise do euro
EMIGREM
Passos Coelho encontrou solução para o problema dos professores excedentários. Emigrem!
Entrevistado hoje pelo Correio da Manhã, perguntado sobre se os professores deviam procurar emprego noutro país, afirmou:
«[...] Em Angola e não só. O Brasil tem também uma grande necessidade ao nível do ensino básico e secundário. [...] Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm, nesta altura, ocupação. E o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. [...] Estamos com uma demografia decrescente, como todos sabem, e portanto nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma: ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa. [...]»
Mário Nogueira já deu o exemplo, tendo emigrado há seis meses.
[Imagem: foto de Manuel Galrinho.]
Sábado, Dezembro 17, 2011
CESÁRIA ÉVORA 1941-2011
O coração parou aos 70 anos. Aconteceu na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Até sempre Miss Perfumado.
Etiquetas: In Memoriam
ASSINAR DE CRUZ?
O busílis está em saber como é que isso se faz. Passos Coelho quer meter a norma na Constituição da República. António José Seguro fez duas imposições: primeiro (e muito bem), quer conhecer o articulado do futuro Tratado; segundo, considera suficiente aprovar uma lei de valor reforçado, a qual exige aprovação por maioria absoluta, ao contrário das normas constitucionais, que têm de ser aprovadas por dois terços dos deputados. Para aprovar uma lei de valor reforçado, a maioria PSD/CDS-PP chega. Para a hipótese constitucional, seria preciso o concurso do PS, e Seguro não está para aí virado. Tem o melhor argumento: não assina de cruz. Passos Coelho também não conhece o articulado do futuro Tratado mas, pelos vistos, isso não o preocupa.
Tornando público, ontem, no Parlamento, o teor da conversa privada mantida com o secretário-geral do PS na véspera do Conselho Europeu do passado dia 8, Passos Coelho inquinou a entente informal que o PSD mantinha com o maior partido da oposição. Isto não vai acabar bem.
[Imagem: foto de Nuno Ferreira Santos, Público.]
Etiquetas: Crise do euro, Défice
Sexta-feira, Dezembro 16, 2011
TRASH
A Standard & Poor’s baixou hoje o rating dos quatro maiores bancos portugueses. Foram todos reclassificados na categoria “lixo”. O Millennium BCP, o BES (mais o BES Investimento), o BPI (mais o BPI Investimento) e a Caixa Geral de Depósitos receberam esta tarde as respectivas notificações. A S&P admite novos cortes.
Etiquetas: Banca, Crise do euro
CHRISTOPHER HITCHENS 1949-2011
Etiquetas: In Memoriam
BEST OF 2011
Aqui ficam as minhas escolhas de 2011. Dezoito títulos de ficção e dois de ensaio. Alguns são reedições com novas traduções. Critério pessoal? Prazer do texto. Já não tenho idade para andar a brincar aos maître à penser...
1
Contos Completos, Vol 1
Vladimir Nabokov
Trad Telma Costa
Teorema
2
Contos Escolhidos
Guy de Maupassant
Trad Pedro Tamen
Dom Quixote
3
Ravelstein
Saul Bellow
Trad Rui Zink
Quetzal
4
O Chalet da Memória
Tony Judt
Trad Pedro Bernardo
Edições 70
5
A Filha do Coveiro
Joyce Carol Oates
Trad Susana Baeta e Miguel Castro Caldas
Sextante
6
O Sentido do Fim
Julian Barnes
Trad Helena Cardoso
Quetzal
7
As Desventuras do Sr. Pinfold
Evelyn Waugh
Trad Mª Teresa e João Carlos Beckert d'Assumpção
Relógio d’Água
8
Nas Trevas Exteriores
Cormac McCarthy
Trad Paulo Faria
Relógio d’Água
9
Um Homem Singular
Christopher Isherwood
Trad Filomena Duarte
Quetzal
10
O Filho do Desconhecido
Alan Hollinghurst
Trad Tânia Ganho
Dom Quixote
11
Fall River e outros contos dispersos
John Cheever
Trad José Lima
Sextante
12
Encontro em Samarra
John O’Hara
Trad H. Silva Letra
Relógio d’Água
13
O Último Homem na Torre
Aravind Adiga
Trad Alice Rocha
Presença
14
Union Atlantic
Adam Haslett
Trad Pedro Dias
Cavalo de Ferro
15
A Viagem de Felícia
William Trevor
Trad José Miguel Silva
Relógio d’Água
16
O Homem do Turbante Verde
Mário de Carvalho
Caminho
17
A Alma Conservadora
Andrew Sullivan
Trad Miguel de Castro Henriques
Quetzal
18
As Luzes de Leonor
Maria Teresa Horta
Dom Quixote
19
O Homem que Gostava de Cães
Leonardo Padura
Trad Helena Pitta
Porto Editora
20
A Visita do Médico Real
Per Olov Enquist
Trad Mário Semião e Maria João Freire de Andrade
Ahab
Metade destes livros (os de Nabokov, Maupassant, Bellow, Judt, Oates, Barnes, Hollinghurst, Adiga, Padura e Maria Teresa Horta) constam do Best of do Ípsilon, hoje publicado, a partir de uma votação em que participei com Isabel Coutinho, Helena Vasconcelos, João Bonifácio, José Manuel Fernandes, José Riço Direitinho, Maria da Conceição Caleiro, Rogério Casanova e Rui Lagartinho.
Etiquetas: Best of, Literatura
Quinta-feira, Dezembro 15, 2011
JOYCE CAROL OATES
Escrevo também sobre 1Q84 do japonês Haruki Murakami (n. 1949), primeiro volume de uma saga orwelliana. Se gosta de Stieg Larsson vai gostar de Murakami.
Etiquetas: Crítica literária, revista Sábado
Quarta-feira, Dezembro 14, 2011
CITAÇÃO, 393
Vítor Belanciano, hoje no Público. Assino por baixo. Excertos:
«Já não passava pelo interior do Parque Eduardo VII há muito. Minto. Estive lá na última Feira do Livro, o que é também significativo. Parece que hoje em dia aquele parque de localização única, o centro do centro de Lisboa, não serve para mais nada. [...] Não se entende como é que o espaço verde mais extenso no centro de Lisboa [...] está para ali, abandonado, à sua sorte, rodeado por alguns equipamentos tristes, como o inútil Pavilhão Carlos Lopes. Não percebo muito de jardins, mas qualquer leigo percebe que aquela estrutura, o tipo de ajardinamento de representação, símbolo de uma modernidade que não tem nada a ver com a vivência contemporânea da cidade, está completamente desenquadrada da nossa realidade. É um espaço para olhar – como os jardins de Versalhes – e não para ser vivido na realidade. Nisso, sou radical: gosto dos parques ingleses, sem adornos, apenas com relva, árvores e alguns caminhos, alguns deles acabando por ser delineados organicamente pelo movimento das pessoas. No Parque Eduardo VII todos os elementos parecem estar lá para dificultar a vivência, em vez de serem facilitadores. [...] Aquele lugar devia ser de eleição, com actividade, e não qualquer coisa que parece rasurada de vida. [...] Não será altura de finalmente haver coragem e disponibilidade para refazer aquele parque, fazendo ali qualquer coisa virada para as pessoas?»
Etiquetas: Citações, Lisboa, Parque Eduardo VII
Terça-feira, Dezembro 13, 2011
MÁS NOTÍCIAS
Adenda. O valor de 748 euros foi obtido no Eurostat, «que realiza cálculos de conversão que, no caso de Portugal, têm em conta o 13.º e o 14.º mês de salário. Assim, o valor do salário mínimo apresentado pelo Eurostat para Portugal corresponde ao valor administrativo do salário mínimo multiplicado por 14 meses e dividido por 12. No caso da Espanha, é feito um cálculo semelhante.» Conferir aqui.
Etiquetas: Espanha
Segunda-feira, Dezembro 12, 2011
O LIMITE É O CÉU
Os gastos dos portugueses com a saúde caíram pela primeira vez desde 2000. E vão cair ainda mais. Depois de ter anunciado há dias a subida da taxa das urgências para vinte euros, o ministério da Saúde divulgou esta manhã as novas tabelas das consultas, as quais passam a custar, a partir do próximo dia 1 de Janeiro, dez euros. Isto acontece nos hospitais centrais, nos hospitais distritais e também nos SAP. (A uniformização de preço é a única coisa que faz sentido. Como era praticado desde 1974, pressupunha um atendimento de 1.ª, de 2.ª e de 3.ª categoria.) Os tratamentos de enfermagem duplicam. Subir consultas de 3,10 euros para 10 euros é uma provocação. A menos que fiquem isentos de pagamento os utentes do SNS com rendimento mensal inferior a mil euros. Infelizmente, quando o governo fala em “desfavorecidos”, está a referir pessoas com rendimento mensal inferior a duzentos euros.
Etiquetas: Serviço Nacional de Saúde
Domingo, Dezembro 11, 2011
TUDO PELO CANO
Paddy Ashdown sem papas na língua ontem no Guardian. Excertos:
When Hugh Gaitskell sat down after making his “end of a thousand years of history” speech against joining Europe at the Labour conference of 1962, he turned to his wife and said: “Look how many are clapping, dear!” She replied: “Yes, dear. But it’s the wrong people who are clapping.” This weekend, it’s the Eurosceptics who are clapping. [...]
[...] Will the coalition survive? It must and we must find a way to make it so. But the coalition is as disliked among the Eurosceptics as Brussels. Having won one victory over a hated enemy, why not a second? Those who worry that it’s now the 81 Eurosceptics who run the prime minister, not the other way round, are right to wonder: if he has given them this, what will he resist?
And so we have used the veto — but stopped nothing. In order to “protect the City” we have made it more vulnerable. At a time of economic crisis, we have made it more attractive for investors to go to northern Europe. We have tipped 38 years of British foreign policy down the drain in one night. We have handed the referendum agenda over to the Eurosceptics. We have strengthened the arguments of those who would break the union. We have isolated ourselves from Europe and diminished ourselves in Washington.
Not bad, for a policy aimed at “standing up for Britain”!
[Imagem: a caricatura é da edição de ontem do The Times de Londres.]
Etiquetas: Crise do euro, Veto britânico
Sábado, Dezembro 10, 2011
DOIS RETRATOS
Ao alto, Zapatero e Sarkozy parecem saídos da máquina do tempo. A Espanha teve eleições a 20 de Novembro mas, ao fim de três semanas, Rajoy ainda não conseguiu formar governo. (Até nós conseguimos pôr Passos Coelho em São Bento ao fim de dezasseis dias.) Os banqueiros espanhois não têm pressa. O rei pode esperar.
Etiquetas: Conselho Europeu, Crise do euro
Sexta-feira, Dezembro 09, 2011
FLOP
Etiquetas: Crise do euro
Quinta-feira, Dezembro 08, 2011
ENCADEAR PATEGOS
A discussão sobre acabar com quatro feriados, dois católicos e dois civis, parece-me deveras bizantina. Para começo de conversa, não há feriados de 1.ª e de 2.ª como parece decorrer das negociações do ministro da Economia com a Igreja, os sindicatos e as confederações patronais. Há tradições culturais. Ponto. Por isso é que num país laico continuam a existir feriados religiosos. Por falar em feriados religiosos: o 8 de Dezembro foi, durante décadas, o dia da mãe. Para mim e muitos da minha geração, o dia da mãe celebra-se a 8 de Dezembro. Hoje, precisamente. A Imaculada Conceição não era tida nem achada na celebração. A transferência do dia da Mãe para Maio foi um disparate tão grande como agora querer indexar o sucesso da economia a quatro feriados. O truque pode encadear pategos, mas não deixa de ser um truque de feira.
[Imagem: esta virgem um pouco camp... é a padroeira de Macau.]
Quarta-feira, Dezembro 07, 2011
VASCO GRAÇA MOURA
Os volumes anteriores são O pequeno-almoço do sargento Beauchamp, 2008, e O Mestre de Música, 2010. A vasta erudição de Graça Moura permite-lhe manipular ficção histórica em registo prosaico, com o à-vontade de quem os estivesse a redigir no palácio de Xabregas. Mas é preciso que a Alêtheia compile em volume único as três novelas, sob pena de retirar força ao conjunto.
Também escrevo sobre O Horizonte, de Patrick Modiano (n. 1945). É um romance francês, com certeza.
Etiquetas: Crítica literária, revista Sábado
Terça-feira, Dezembro 06, 2011
FARTAR VILANAGEM
O que se está a passar com as nomeações para os conselhos de administração dos hospitais é revelador de que nada mudou. É assim há 37 anos, assim continuará. Agora é o PSD a pôr e dispor, reservando umas migalhas para o CDS-PP. As mexidas são feitas ao arrepio da troika: o Memorando de Entendimento recomenda “não mexer” no que está. [estava, em Maio] Já não falo da campanha eleitoral, durante a qual Passos Coelho prometeu um futuro limpo. Como vimos, à primeira oportunidade fez disto um esgoto a céu aberto. Alega o PSD que os concursos para novos dirigentes apenas se aplicam aos institutos públicos e direcções-gerais, o que deixa de fora os hospitais, que são “entidades públicas empresariais”. Et pour cause...
Por exemplo, no Hospital de Viseu, que agora se chama Centro Hospitalar Viseu/Tondela, a nomeação de dois militantes do PSD para a respectiva administração gerou repulsa até no seio do CDS-PP, tendo o deputado Helder Amaral, vice-presidente do grupo parlamentar, declarado a sua indisponibilidade «para pedir sacrifícios aos portugueses e depois patrocinar o amiguismo da pior espécie que julgava ser uma prática do passado.» O senhor nasceu ontem?
Também no Centro Hospitalar do Médio Tejo, que agrega os hospitais de Tomar, Abrantes e Torres Novas, se verificaram nomeações decorrentes da filiação partidária: os novos senhores (Joaquim Esperancinha, António Lérias e João Lourenço) vieram de uma empresa de tubos de plástico com sede no Cartaxo. Comentários para quê?
Nada disto é novo. Mas no tempo de Soares, Mota Pinto, Sá Carneiro, Balsemão, Cavaco, Guterres, Barroso, Santana e Sócrates, ninguém foi ao bolso dos portugueses escudado no discurso da redenção da Pátria.
Segunda-feira, Dezembro 05, 2011
TRUQUE
[Imagem: obra de Nadir Afonso da colecção do Millennium BCP.]
Etiquetas: Segurança Social, Truque
Domingo, Dezembro 04, 2011
DECRETO SALVA-ITÁLIA
Etiquetas: Crise do euro, Itália
Sábado, Dezembro 03, 2011
A IGREJA DO RESTELO
Etiquetas: Arquitectura, Igreja, Lisboa
Sexta-feira, Dezembro 02, 2011
RENATO BALDRUCCO
Agora que o n.º 108 / Dezembro chegou aos quiosques e livrarias, deixo aqui a crónica Renato Baldrucco: uma biografia, publicada no n.º 107 na minha coluna Heterodoxias:
Uma das exigências da Troika foi o prologamento da silly season. Vem no anexo S/M do Memorando de Entendimento. Esse anexo nunca foi traduzido para português. Tenho cópia dele em bislamá, gentileza do embaixador belga em Vanuatu. Passei parte do Verão numa ilha das Novas Hébridas. Não fiz alarido do facto para não pensarem que os escritores andam a nadar em dinheiro. Da nossa cama via o Lopevi como a rainha de Nápoles via o Vesúvio. Foi lá que reencontrei M. Poincaré.
M. Poincaré lê português com grande desembaraço. Fugidos de Valónia, os pais meteram-no em 1938 na École Française do Pátio do Tijolo, ali ao palácio Braamcamp. Em fedelho, M. Poincaré, perdão, Jean-Louis, papava cancioneiros e simbolistas com igual avidez. Nunca ninguém mais teve mão nele. Mais tarde, a carrière teve o efeito de uma cinta lombar em malha de aço. Conheci M. Poincaré no n.º 82 da rua Cecílio de Sousa.
A mala diplomática trouxe o cartapácio.
O cartapácio é a biografia de Renato Baldrucco escrita por Joselito Martelo. Renato descende dos Magano-Baldrucco pelo lado paterno e dos Teles Abrunho pelo materno. Joselito ainda tem uma costela Dyrup. M. Poincaré conhecia os Dyrup do Lawn Tennis Clube da Foz. Achou natural que o cartapácio chegasse na mala diplomática: a Loja (rito escocês) nunca se esquecia dele.
Renato Baldrucco cometeu três florilégios: Der junge Törless in der Travessa Pisca (2003), Coimbrões (2008) e Espelho de Adónis (2010). O próximo, Acavalados, vem a caminho. Entrevistado por Anderson Cooper para The Advocate, Joselito foi peremptório: «As ondas de choque vão fazer-se sentir de Finisterra a Vila Real de Santo António.» Lisboa treme.
Reunidos em Maricá, lentes de Minas Gerais e Coimbra escarafuncham a fresta rizomática. Baldrucco seria uma espécie de corpo sem órgãos. Joselito desmente a heteronímia. Baldrucco nunca poderia ter escrito Verão Assado (1974), Carcamano (1983) ou a Trilogia do Pé (1993). Baldrucco não é um homem da prosa. Baldrucco tem uma tão alta noção da poesia que abomina as conchinhas de Sophia e os efebos de Eugénio. Já era assim no tempo da Tapada de Mafra, o Cruz atrás das aves, Baldrucco (ou seria Joselito?) a derivar. Baldrucco não é de modas. Tão pouco seguiu o rapaz que se debruçava sobre os seus próprios intestinos. Baldrucco (ou seria Joselito?) podia ter aprendido alguma coisa com ele. Sempre evitava o destempero de querer sentar o Eduardo na poltrona do Simões. O Simões tinha Lisboa cheia de poltronas, por oposição, I presume, aos sofás que o Lacerda espalhou entre Hampstead e King’s Road.
M. Poincaré preside ao jantar. O waterzooi de peixe tem óptimo aspecto. Especialidade flamenga por especialidade flamenga, M. Poincaré teve a delicadeza de mandar substituir a anguille au vert (um preparado obsceno) pelo waterzooi. Dou os parabéns ao cozinheiro. M. Poincaré adverte: «Joselito é o apologista de si mesmo. Esse Baldrucco é um Thomas Crosse com pronúncia do Norte.» Pega no pão torrado: «Joselito sonha com Béjaïa, querendo ressuscitar o mito do Teixeira Gomes.» O Gewurztraminer induz a má-língua. Lembro Pessoa: «A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese...» O Adolfo nunca se recompôs. M. Poincaré sorri: «Desde neófito do Orfeuzinho que Joselito tende para a simulação. Baldrucco é o seu Through the Looking-Glass... Sabe que ele ainda é sobrinho-bisneto do Gomes Leal?» E como não? A glosa das Machas-Fêmeas fez furor em Leça: «Nisto passa Gandulo, dominó do Reimar, chispa no olho clauco...»
No horizonte, o Lopevi estremece.
LER 108
A LER n.º 108 / Dezembro está na rua. Mário Soares, que faz 87 anos na próxima quarta-feira, dia 7, é o entrevistado de Carlos Vaz Marques. O pretexto próximo é a publicação de Um Político Assume-se, o ensaio autobiográfico que o Círculo de Leitores e a editora Temas & Debates acabam de publicar. Sobre o livro, escreve Joaquim Vieira. Voltando à entrevista, destaco um episódio relacionado com Saramago: «Quando morreu o Ary dos Santos [...] eu era primeiro ministro, resolvi ir ao enterro dele. Pois se eu era amigo dele e ele era um grande escritor, porque é que eu não havia de ir lá por ele ser comunista? [...] Ninguém me falou, toda a gente voltou a cara. Nessa altura, foi a que foi mulher do Saramago antes da Pilar, [a escritora Isabel da Nóbrega] de quem eu era amigo desde tempos imemoriais, quando ela ainda vivia com o Gaspar Simões, que me veio dizer ‘Mário vá-se embora, que estes tipos têm-lhe ódio, são uns fanáticos’ [...] anos depois, graças em parte à Pilar, voltei a ter relações de grande proximidade com Saramago.» Mas não esperem confissões íntimas: «Não entro na minha vida pessoal. Sou um marido com 62 anos de casado.» Ponto. Destaco ainda um ensaio de Gustavo Rubim sobre Alves Redol, cujo centenário do nascimento ocorre no próximo dia 29. O resto, que é muito, inclui crónicas — a minha é sobre Tony Judt —, recensões críticas, resenhas, artigos de vária índole, a coluna do Provedor, uma conversa com Miguel Gonçalves Mendes, etc. Há ainda o Best of 2011 da revista (trinta livros) e as escolhas de dez críticos (cem livros), mas uma coisa não decorre da outra: são listas autónomas. Numa banca ou livraria perto de si.
Etiquetas: Nova LER
Quinta-feira, Dezembro 01, 2011
ARTE NO TEMPO DA SIDA
Oficialmente, a Sida tem 30 anos. O seu nascimento é reportado ao dia 5 de Junho de 1981, data da publicação de um artigo no Morbility and Mortality Weekly Report, do CDC. O mundo nunca mais foi o mesmo.
Para assinalar esses 30 anos, e perceber em que medida a doença afectou as artes em geral (da pintura ao teatro, passando pela literatura, música, cinema e fotografia), João Osório realizou o documentário Arte no Tempo da Sida, que a RTP-2 transmite hoje às 20:50h.
Sou um dos entrevistados. Os outros são Amílcar Soares, presidente da Associação Positivo; Carlos Coelho, criador de marcas; Henrique Barros, coordenador nacional para a infecção VIH/Sida; Isabel Carlos, directora do CAM da Gulbenkian; Jorge Mourinha, crítico de cinema do Público; Jorge Silva Melo, encenador e director dos Artistas Unidos; José de Guimarães, artista plástico; Margarida Martins, fundadora e presidente da Abraço; Maria José Campos, coordenadora científica do CheckPoint Lx; Miguel Francisco Cadete, director do Blitz; Rui Pregal da Cunha, músico.
[O livro da imagem, uma edição de 1994 da St Martin’Press, representa a primeira manifestação pública de escritores que dão a cara pela Sida.]
Etiquetas: Pub
O SINDICATO
Ler: Central banks step in to stave off new credit crunch.
[Imagem: Público.]
Etiquetas: Crise do euro














































