Sábado, Dezembro 31, 2011

BOM ANO


Bom 2012 a quem o merecer.

Etiquetas:

Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

A LEI CRISTAS


O governo aprovou ontem o diploma que, depois de submetido e votado no Parlamento, dará corpo à nova Lei das Rendas. Conheço apenas o que li no Público e no Expresso. Não percebo o alarido dos senhorios, “indignados” com o facto de a futura lei não resolver o imbróglio dos contratos anteriores a 1990. Dizem eles que há 250 mil rendas congeladas. O INE diz que são só metade desse número. Seja como for, 250 ou 125 mil, tanta “indignação” traz água no bico. Quanto sei, as rendas muito baixas (estou a falar de Lisboa) praticam-se nos bairros “típicos”: Baixa, Chiado, Sé, Alfama, Mouraria, Bairro Alto, Bica, Madragoa, etc.

Melhor dito: nos edifícios degradados desses bairros. Porque ao lado desses em mau estado existem outros, também centenários, porém recuperados, e convertidos em propriedade horizontal (sendo proprietários a larga maioria dos seus ocupantes), onde os inquilinos pagam rendas de padrão europeu. As pessoas que pagam rendas de 40 e 60 euros vivem, passe a expressão, em pardieiros. Não é sério exigir-lhes que passem a pagar 200 ou 300 euros.

Vamos admitir, por hipótese macabra, que uma vaga de despejos esvaziava 90% das casas do centro histórico. Têm os proprietários capital para recuperar os edifícios? Têm a ilusão de poder substituir inquilinos idosos de baixos recursos por inquilinos jovens de recursos médios? Ou só os querem vazios porque sim?

O busílis parece estar nas Avenidas Novas, Alvalade, Areeiro, Campo de Ourique, Príncipe Real, Rato e zonas burguesas afins. É para aí, julgo eu, que a “indignação” dos senhorios faz pontaria. O mantra das casas de 200 metros quadrados alugadas a 400 euros é um clichê. Sucede que essas casas, quando foram alugadas, tinham uma renda alta. Conheço um caso de 1972, ano em que a renda de um T3 nas Avenidas Novas foi fixada em 16 contos (o equivalente a 80 euros), actualizada a partir de 1985, estando hoje, por força dessas actualizações, com uma renda de 560 euros. É verdade que, no mesmo edifício, há dois apartamentos iguais alugados a 800 euros cada, mas são contratos de 1999. Já agora, lembrar que, em 1972, um técnico superior da função pública com funções de chefia não ganhava 16 contos. Durante 30 anos, o senhorio desse T3 portou-se como um agiota siciliano.

Como os senhorios andam sempre com o mercado na boca, deviam começar por verificar se têm condições para cumprir as regras atinentes. A saber: nos termos da futura lei, se o senhorio do T3 de que falei quiser subir a renda de 560 para 800 euros, e o inquilino só aceitar 600, resolve o assunto com uma indemnização de 42 mil euros (700 euros vezes 60 meses). Tão simples como isso. A irritação dos senhorios não é com as rendas de 40 ou 50 euros. É com as 300 e 400.

Deviam, porém, pensar no óbvio: com meio milhão de apartamentos (em todo o país) por vender, é muito provável que dois terços dessas habitações tenha como destino o mercado do aluguer. Quando isso acontecer, a retórica das associações de senhorios é triturada pela expertise da Banca.

Etiquetas:

NOSTALGIA DA FELICIDADE


Agora que o n.º 109, relativo a Janeiro de 2012, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica Nostalgia da Felicidade, publicada no n.º 108 na minha coluna Heterodoxias:

A morte prematura de Tony Judt (1948-2010) abre um buraco na memória colectiva. Não é frequente um historiador tornar-se bestseller, mas foi o que sucedeu com Judt a partir de 2005, ano em que publicou Pós-Guerra. História da Europa desde 1945. Porquê, se dezenas de historiadores e romancistas escreveram sobre a Segunda Grande Guerra, tema de centenas de filmes e séries de televisão? É simples: por um lado, Judt escreveu a opus magnum depois da abertura dos arquivos austríacos e da Europa de Leste, o que só aconteceu no fim dos anos 1990. Nenhum dos seus predecessores, nem os melhores (Hobsbawm, Lichtheim, Taylor), teve acesso a essa informação.

Por outro, interpreta o passado de forma “declaradamente pessoal”. O reconhecimento planetário foi imediato. Quando, em 2008, O Século XX Esquecido chegou às livrarias, já o discreto director do Instituto Erich Maria Remarque e professor de Estudos Europeus na Universidade de Nova Iorque era uma celebridade dos dois lados do Atlântico.

Judt nasceu em Londres, deveio americano sem dar por isso («tinha-me tornado americano») e, aos 62 anos, vítima de uma variação da esclerose lateral amiotrófica, também conhecida por doença de Lou Gehrig, morreu em Nova Iorque. A doença gerou O Chalet da Memória.

Ponto prévio: «Os ensaios que figuram neste livrinho nunca foram escritos para publicação. Comecei a escrevê-los para minha própria satisfação...» Após o diagnóstico (em 2008), impedido de viajar, começando a perder a voz, pensando mais depressa do que conseguia formar palavras, corpo paralisado, correu contra a morte. Timothy Garton Ash e Eugene Rusyn criaram as condições do sprint. Ironia suprema: são textos “felizes”. O primeiro leva-nos a Chesières, estância de esqui na Suíça, onde Judt, então com 10 anos, se deliciava com a voz de barítono e as «imprecações irrepetíveis» de Rachel Roberts, a actriz galesa que se hospedava no mesmo hotel.

É comovente ver como este homem, que com tanta argúcia escreveu sobre a História da Europa e um punhado de autores que marcou o perfil do seu e nosso tempo (Camus, Sartre, Arendt, Said, Althusser, Levi, Foucault, outros), se deixou enredar com ironia e sageza no labirinto das mnemónicas: «Para um miúdo, o racionamento fazia parte da ordem natural das coisas.» Isto não é sobre a guerra, é sobre Londres nos anos 1950. Pequena folga para a coroação de Isabel II: «foi permitido a toda a gente mais 450 gramas de açúcar...» Falando da infância, Judt faz o retrato da sociedade inglesa no tempo de Attlee e Macmillan: «A seriedade moral na vida pública é como a pornografia, difícil de descrever mas imediatamente identificável quando a vemos.» No mesmo registo, o ensaio dedicado à comida baliza a fronteira entre necessidade e volupté.

Quando em 1975 chegou à América, a convite da Universidade da Califórnia, o choque foi brutal: «nenhum lugar no mundo se pode gabar de ter universidades públicas tão boas.» Isto, dito por quem vinha de dar aulas em Oxford. Antes da mudança definitiva para Nova Iorque em 1987, andou entre Berkeley e St Anne’s: «O ataque do governo Thatcher ao ensino superior britânico estava a começar...»

Sobre os anos da political correctness, a famosa asserção de Gertrude Stein numa conferência em Oxford acerca da “questão” da mulher: «Nem tudo pode ser sobre tudo.» E assim sucessivamente, porque O Chalet da Memória é sobre quase tudo: identidade judaica, solipsismo académico, lugar do intelectual francês, sistema escolar inglês, «incontinência retórica» em Zizek, New York Review of Books, elitismo, École Normale Supérieure, bibliotecas americanas, assédio sexual... Judt, afinal, não morreu.

Etiquetas: ,

LER 109


A LER 109, relativa a Janeiro de 2012, chegou hoje às bancas e livrarias. Carlos Vaz Marques entrevista Manuel António Pina  —  «Não percebo que se possa valorizar mais a poesia do que a família, os amigos, o amor, a amizade.»  —  e Anthony Bourdain. Ambos dispensam apresentações. Rogério Casanova escreve sobre Vassili Grossman e entrevista Nina e Filipe Guerra, os tradutores de Vida e Destino. Carla Maia de Almeida escreve sobre Hélia Correia. José do Carmo Francisco entrevista Liberto Cruz. O resto, que é muito, inclui crónicas — a minha é sobre o silêncio da sida na literatura portuguesa —, recensões críticas, resenhas, artigos de vária índole, a coluna do Provedor, etc. Não perca.

Etiquetas:

ANO EM REVISTA


Em 2011 escrevi sobre livros de:

No Público, entre Janeiro e Dezembro: Jonathan Ames, Christopher Isherwood, Ricardo M. Salmón, Pedro Vieira, Romain Gary, Andrew Sullivan, Milan Kundera, Lídia Jorge, Leonardo Padura, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário de Carvalho, Karen Blixen, Saul Bellow, Ruta Sepetys e, na escolha dos críticos, duas pequenas notas sobre Joyce Carol Oates e Guy de Maupassant.

Na revista Sábado, entre Maio e Dezembro: Christopher Isherwood, Dante, Ignácio de Loyola Brandão, José Oliveira Ribeiro, Adam Haslett, Hugo Gonçalves, Cristina Carvalho, Richard C. Morais, Peter Carey, William Trevor, Maria Teresa Horta, Raymond Chandler, Patti Smith, Paulo Bugalho, Aravind Adiga, Joseph Heller, Reinaldo Moraes, Filomena Marona Beja, Vladimir Nabokov, Paulo Castilho, Cormac McCarthy, Lars Kepler, Patrícia Reis, Darin Strauss, J. Rentes de Carvalho, Andrea Camilleri, Guy de Maupassant, Francisco Vaz da Silva, Evelyn Waugh, Ernesto de Sousa, Mons Kallentoft, Ali Smith, Liudmila Ulítskaia, Paulo José Miranda, Martin Amis, Samanta Schweblin, Herta Müller, Virginie Despentes, Colum McCann, Miguel Real, Penelope Fitzgerald, Christos Tsiolkas, Thomas Pynchon, Clara Pinto Correia, Lewis Carroll, Dulce Maria Cardoso, Edney Silvestre, Titus Müller, V.S. Naipaul, John Cheever, J.D. Salinger, José Saramago, Florbela Espanca, Alan Hollinghurst, Per Olov Enquist, John O’Hara, Vassili Grossman, Truman Capote, Ana Cristina Silva, Julian Barnes, João Pedro George, Vasco Graça Moura, Patrick Modiano, Joyce Carol Oates, Haruki Murakami, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Margaret Atwood e George Eliot.

[Imagem: caricatura da Round Table por Hirschfeld.]

Etiquetas:

Quinta-feira, Dezembro 29, 2011

CITAÇÃO, 396


José Pacheco Pereira, O estado das artes, hoje na Sábado. Excerto, sublinhados meus:

«O PSD estando no governo está bem e recomenda-se, quase no inverso de como está mal na oposição. O seu conteúdo ideológico e programático está em extinção [...] O aparelho detém todo o poder e quase não há respiração fora dele. No Governo, mais do que o primeiro-ministro, funciona o ministro do aparelho em tudo o que é sensível, movimenta interesses e lugares, posiciona para o futuro. Muita gente pensa sempre com aquela complacência de achar que há quem faça e há quem seja enganado, ou não saiba, ou não conheça. No caso vertente, a formação do primeiro-ministro e do seu principal executor é exactamente a mesma. Podem ter a certeza absoluta de que ambos, ambos, ambos, sabem de tudo. Fizeram-se lá e sabem muito bem como se fizeram. [...]»

Etiquetas: ,

QUEM LÊ JORNAIS?


Ranking dos jornais diários portugueses (vendidos em banca) entre Janeiro e Outubro de 2011:

Correio da Manhã  —  124.504 exemplares diários  —  menos 0,29%
Jornal de Notícias  —  78.574 exemplares diários  —  menos 1,81%
Público  —  26.163 exemplares diários  —  menos 5,84%
Diário de Notícias  —  17.940 exemplares diários  —  menos 23,55%
i  —  5.307 exemplares diários  —  menos 15,72%
Diário Económico  —  4.781 exemplares diários
Jornal de Negócios —  3.327 exemplares diários

Estes são os dados que o Público revela.

O Diário de Notícias tem uma tabela diferente, pois junta as assinaturas (11.440 exemplares diários) às vendas em banca, o que dá um aumento de 13,2%.

Etiquetas:

MARGARET ATWOOD


Hoje na Sábado escrevo sobre O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood (n. 1939), que faz díptico com Órix e Crex (2003), embora a edição portuguesa omita essa relação. Ambos pertencem ao género “romance de antecipação”. Quem gosta de Philip K. Dick vai gostar deste novo livro de Atwood que faz a síntese entre ciência e teologia num universo Verde pós-punk... Jardineiros de Deus, dançarinas de varão, jogadores de Painball, prostituição organizada (sendo o nível mais baixo designado como Eurolixo), drogas sintéticas, protectores de biopelícula, alimentos geneticamente manipulados: a carne de frango é um legume que cresce em caules... Tudo isto e a sombra de Blake.

Escrevo ainda sobre Middlemarch, o clássico de George Eliot (1819-1880) sobre o tempo em que viveu, teses racionalistas, humanismo naturalista, comportamentos e relações humanas, política, arte, ciência e religião. Sir David Cecil, o crítico inglês, disse em 1934 que Middlemarch é o equivalente possível, em língua inglesa  —  «o que se pôde arranjar»  —, de Guerra e Paz de Tolstoi... José Miguel Silva e Miguel Serras Pereira, que assinam a nova tradução desta obra-prima do catálogo da Relógio d’Água, estão de parabéns.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Dezembro 28, 2011

ONDE ANDAVA A MINISTRA?


A transferência, para o Parque das Nações, de dezenas de departamentos do ministério da Justiça e dos tribunais de Lisboa, deu origem ao Campus da Justiça. O edifício do antigo Tribunal da Boa Hora foi um dos que ficou vazio. À época (vai fazer três anos), a possibilidade de o ver transformado em hotel de charme mobilizou meio mundo: «É uma pouca-vergonha. É preciso não deixar esquecer a memória histórica», disse Mário Soares. Mas isso foi em Fevereiro de 2009.

Há quinze dias, o governo transferiu a propriedade do edifício da Rua Nova do Almada para a Câmara de Lisboa. Nos termos do Dec-Lei n.º 110/2011, de 25 de Novembro, compete à Câmara de Lisboa requalificar e reabilitar a frente ribeirinha da Baixa pombalina. Entra aí o edifício do antigo Tribunal da Boa Hora. António Costa quer instalar ali a Assembleia Municipal, um kindergarten, uma escola do primeiro ciclo, bem como todos os serviços camarários dispersos pela Baixa.

Agora, Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça, quer reaver o edifício. António Costa reagiu, declarando ao Público: «Se o Estado tiver 7,5 milhões de euros para nos dar, nós podemos considerar essa hipótese, desde que fique também salvaguardado que o imóvel da Boa Hora não ficará abandonado.» Onde andava a ministra quando, há quinze dias, o governo de que faz parte transferiu a propriedade do edifício para a Câmara de Lisboa?

Etiquetas: ,

Terça-feira, Dezembro 27, 2011

A DECADÊNCIA DA EUROPA


Portugal não serve de exemplo porque as periferias não fazem História. Mas a Inglaterra é um sintoma. Uma história exemplar:

Duas amigas minhas vão passar dez dias a Londres na primeira quinzena de Janeiro. Uma delas fez toda a sua formação escolar em inglês, tendo vivido vinte anos em Londres (1978-98). As duas usam a net com a naturalidade de quem respira. Interessadas em ver espectáculos (música, dança, teatro) durante as mini-férias, tentam adquirir os respectivos ingressos através das agências especializadas de Londres. Resultado da pesquisa: a agência A só vende os bilhetes mais caros; a B só os mais baratos; a C só coxias laterais; a D só para espectáculos à tarde; a E só para espectáculos à noite; a F só balcões; etc. A maioria não mostra a planta da sala. Todas cobram taxas abusivas sobre o preço de bilheteira. As minhas amigas desistem da pesquisa inglesa. Procuram agências de Nova Iorque. Denominador comum: planta da sala em 1.º lugar; todos os horários disponíveis; todo o tipo de lugares à venda; taxas inferiores às inglesas. Compram em NY os ingressos pretendidos. Ou seja, para comprar bilhetes para espectáculos em Londres, contacte agências americanas.

Isto não é só patético. Isto é um retrato daquilo em que a Europa se transformou.

[Na imagem, o Wyndhams Theatre de Londres.]

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Dezembro 26, 2011

SENSIBILIDADE E BOM SENSO


O Jansenista acabou. Tenho pena. Não cheguei a conhecer o seu autor (uma viagem minha impediu que isso acontecesse em Julho), mas o facto é irrelevante tendo em vista o que o blogue deu a conhecer dele: fair play, bom gosto, cultura, cosmopolitismo. Tudo qualidades cada vez mais escassas na bloga. A imagem foi roubada ao caro jansenista. Até sempre.

Etiquetas:

Sábado, Dezembro 24, 2011

NATAL 2011


Bom Natal.

Etiquetas:

Sexta-feira, Dezembro 23, 2011

TALVEZ A CHINA


Manchete do Expresso, hoje.

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

CHINESES GANHAM EDP


A empresa China Three Gorges venceu o concurso para adquirir a quota de 21,35% que o Estado detinha na EDP, derrotando alemães e brasileiros. O Estado recebe 2,7 mil milhões de euros pela venda desses 21,35%. A China Three Gorges compromete-se a construir em Portugal uma fábrica de turbinas eólicas até ao Verão de 2013.

Nada disto tem a ver com os bonitos olhos dos portugueses. Os concorrentes estão sobretudo interessados na operação externa da EDP, com activos em Espanha, no Brasil e nos Estados Unidos (Nova Iorque e Califórnia). As tarifas que nós pagamos são obscenas, mas: 1. não são fixadas pela EDP; 2. os lucros da empresa decorrem da operação externa. O folhetim acabou.

Etiquetas:

LEHMAN QUÊ?


O governo de Rajoy tomou posse. A imagem mostra o banqueiro Luis de Guindos, novo ministro da Economia e Competitividade, a jurar perante o rei os termos da investidura. Em 2008, quando a falência do Lehman Brothers abalou o mundo, Luis de Guindos era o chefe do bureau europeu do banco americano. Les beaux esprits...

Etiquetas: ,

JOSÉ LUÍS PEIXOTO


Hoje na Sábado escrevo sobre Abraço, de José Luís Peixoto (n. 1974), colecção de 165 crónicas publicadas nos últimos dez anos em revistas e jornais, entre eles o JL. Peixoto é o fio condutor da narrativa: pai, mãe, irmãs, madrinha, filhos, mulheres, amigos, camaradas, ruas, cidades, aeroportos. Quando era bebé, andou ao colo do Mário Soares (em Avis). Depois, o vasto mundo. Entre Nova Iorque e a Toscana, memórias de Parati, lágrimas em Tóquio, tédio em Frankfurt, epifania em Venice Beach, encontro com leitores no deserto do Mojave, encontro com fotógrafo em Manhattan, encontro com tradutor em Nova Deli, as mil luzes de Las Vegas, o metro de Paris, as coisas que fez depois de ler Yourcenar, Rimbaud, Céline, Diderot e Camus: andou de bicicleta, comeu pão com manteiga, etc. O Alentejo são os cachopos. Escritores são três: Saramago, Eduardo Prado Coelho e Luiz Pacheco. Peixoto aprendeu depressa que todo o escritor é uma “construção”. Isso distingue os profissionais dos amadores.

Escrevo também sobre Short Movies, de Gonçalo M. Tavares (n. 1970). Se Jeanne Moreau diz que ele é «un écrivain magnifique, un homme magnifique», quem sou eu para duvidar.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

ÀS TANTAS, UMA AGÊNCIA


Paulo Rangel, ontem, à entrada para uma reunião do Conselho Nacional do PSD, sobre o apelo à emigração dirigido pelo primeiro-ministro aos desempregados em geral, professores em particular:

«Às tantas, nós até devemos pensar, se houver essas oportunidades, em, de alguma maneira, gerirmos esse processo. Talvez fosse uma forma de controlar os danos. Era ter, no fundo, uma agência nacional que pudesse eventualmente identificar necessidades e procurar ajustar as pessoas que tivessem vontade  —  não é forçar ninguém a emigrar, não se trata disso  —  e canalizar isso. Não vejo motivo de escândalo. Pelo contrário, [a sugestão] devia suscitar um debate sério na sociedade portuguesa, para tentarmos, na medida do possível, acomodar as necessidades do País em termos de mercado de trabalho no exterior. No caso da Educação, com a baixa da taxa demográfica, não há lugar para todos os professores. Ou os senhores querem que as pessoas fiquem em casa à fome e a viver do fundo de desemprego, é isso que querem?»

O próximo passo será aconselhar aos desempregados mais novos a mais velha profissão do mundo?

Etiquetas: ,

Terça-feira, Dezembro 20, 2011

CITAÇÃO, 395


José Vítor Malheiros, Ainda esta semana, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:


«São umas vinte e vão todas em fila indiana, de mãos dadas como se estivessem numa roda, com os seus bibes vermelhos [...] Para o Governo do meu país, os financeiros sem rosto que sobem os juros da dívida que dizem que temos são mais importantes que as crianças de bibe vermelho. Ainda que esses financeiros sem rosto tenham roubado os títulos da dívida a alguém, ainda que os tenham forjado, ainda que tenham sido eles a convencer os governantes a reduzir os impostos às empresas para depois termos de lhes pedir dinheiro emprestado, ainda que nos cobrem um juro agiota, ainda que subam o seu juro agiota sem razão, ainda que condenem à miséria crianças de bibe vermelho por todo o mundo, ainda que condenem a morrer à fome crianças que nem sequer têm um bibe vermelho. Que honra é esta que sobrepõe o dever de pagamento da dívida aos ricos ao dever de alimentar os pobres? Que honra é esta que aceita aumentos de juros de 7 por cento para as dívidas que se devem aos ricos mas apenas um aumento de 3 por cento para as pensões dos mais pobres dos pobres? Não é nenhuma honra. É apenas indignidade. É apenas falta de vergonha. É apenas desumanidade.

[...] O discurso hegemónico é simples e condena as crianças de bibe vermelho à vida triste que já vivemos há quarenta anos, como lembrava há dias Isabel do Carmo.

[...] Já começámos a perceber como funciona o sistema da dívida, a armadilha dos juros crescentes, a matilha de agências de rating e dos bancos, empenhados em reduzir a solidariedade ao Estado mínimo que deixa todos os negócios na mão de quem já controla os mercados, a mentira do falso mercado da falsa concorrência, a mentira dos cartéis e da corrupção, dos impostos que são apenas para os trabalhadores e dos paraísos fiscais que são apenas para os ricos. [...]»

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Dezembro 19, 2011

CITAÇÃO, 394


Manuel António Pina, Finalmente alguém sensato, no Jornal de Notícias. Sublinhado meu:

«O que disse o vice-presidente da bancada do PS e tanta celeuma levantou é o óbvio: um Governo que se preocupasse exclusivamente com os interesses dos portugueses e não fosse um mero núncio local dos interesses dos “mercados” deveria ter como absoluta prioridade a renegociação da dívida.

É hoje claro para quem observa, sem palas ideológicas, a situação portuguesa que nunca conseguiremos pagar a dívida nas condições usurárias que nos foram impostas, as quais, gerando recessão e bloqueando o crescimento da economia, constituem o principal obstáculo a esse pagamento, forçando sempre a novas e sucessivas
“ajudas”, numa espiral de endividamento cujos resultados estão à vista na Grécia.

Assim, a reestruturação da dívida será, mais tarde ou mais cedo, uma inevitabilidade. Aos credores interessa que seja o mais tarde possível, quando o país estiver já completamente exaurido e sem património que vender ao desbarato. Nessa altura, tudo o que puderem ainda sacar será bem vindo. Aos portugueses interessa que seja já, enquanto ainda dispomos de uns restos de soberania.

A desassombrada afirmação de Pedro Nuno Santos, de que devemos
“marimbar-nos para os credores” e usar todas as armas para obter condições que nos permitam pagar o que devemos e sobreviver como país independente, seria o desiderato patriótico de qualquer Governo que não agisse apenas como submissa correia de transmissão dos interesses da Sra. Merkel

Etiquetas: ,

SE ATÉ ELE O DIZ


Diz o homem que foi a primeira escolha para ministro das Finanças. E cada vez há mais gente, da extrema-esquerda à extrema-direita, sem esquecer segmentos importantes do Centrão, a pensar o mesmo. A entrevista vem no Público.

Etiquetas:

Domingo, Dezembro 18, 2011

EVACUAR


Um snobe dirá: é uma manchete do Sunday Times, não é para levar a sério. Mas o Foreign Office britânico já confirmou, com uma nuance: Não é para aplicar só em Espanha e Portugal. É para aplicar em todos os países da zona euro onde isso aconteça. Uns brincalhões, estes ingleses.

Etiquetas:

EMIGREM


Passos Coelho encontrou solução para o problema dos professores excedentários. Emigrem!

Entrevistado hoje pelo Correio da Manhã, perguntado sobre se os professores deviam procurar emprego noutro país, afirmou:

«[...] Em Angola e não só. O Brasil tem também uma grande necessidade ao nível do ensino básico e secundário. [...] Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm, nesta altura, ocupação. E o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. [...] Estamos com uma demografia decrescente, como todos sabem, e portanto nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma: ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa. [...]»

Mário Nogueira já deu o exemplo, tendo emigrado há seis meses.

[Imagem: foto de Manuel Galrinho.]

Etiquetas: ,

Sábado, Dezembro 17, 2011

CESÁRIA ÉVORA 1941-2011


O coração parou aos 70 anos. Aconteceu na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Até sempre Miss Perfumado.

Etiquetas:

ASSINAR DE CRUZ?


No último Conselho Europeu, Merkozy impôs à Europa a transposição do limite de 0,5% ao défice nas leis constitucionais dos países da UE. Cameron vetou (essa e outras directivas), mas os outros, Portugal incluído, juraram obediência: Tudo por Merkozy, nada contra Merkozy.

O busílis está em saber como é que isso se faz. Passos Coelho quer meter a norma na Constituição da República. António José Seguro fez duas imposições: primeiro (e muito bem), quer conhecer o articulado do futuro Tratado; segundo, considera suficiente aprovar uma lei de valor reforçado, a qual exige aprovação por maioria absoluta, ao contrário das normas constitucionais, que têm de ser aprovadas por dois terços dos deputados. Para aprovar uma lei de valor reforçado, a maioria PSD/CDS-PP chega. Para a hipótese constitucional, seria preciso o concurso do PS, e Seguro não está para aí virado. Tem o melhor argumento: não assina de cruz. Passos Coelho também não conhece o articulado do futuro Tratado mas, pelos vistos, isso não o preocupa.

Tornando público, ontem, no Parlamento, o teor da conversa privada mantida com o secretário-geral do PS na véspera do Conselho Europeu do passado dia 8, Passos Coelho inquinou a entente informal que o PSD mantinha com o maior partido da oposição. Isto não vai acabar bem.

[Imagem: foto de Nuno Ferreira Santos, Público.]

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Dezembro 16, 2011

TRASH


A Standard & Poor’s baixou hoje o rating dos quatro maiores bancos portugueses. Foram todos reclassificados na categoria “lixo”. O Millennium BCP, o BES (mais o BES Investimento), o BPI (mais o BPI Investimento) e a Caixa Geral de Depósitos receberam esta tarde as respectivas notificações. A S&P admite novos cortes.

Etiquetas: ,

CHRISTOPHER HITCHENS 1949-2011


Christopher Hitchens, jornalista, escritor e crítico literário na revista The Atlantic e na New York Times Book Review, morreu hoje aos 62 anos. Nasceu inglês, deveio americano. Escrevendo nas revistas mais glamorosas de língua inglesa, casos da New Yorker, Harper’s, Vanity Fair e The Nation, este anti-teísta tornou-se o guru dos bloggers de direita. Deixa uma obra de razoável extensão, publicada em volume a partir de 1976. God Is Not Great. How Religion Poisons Everything (2007), Christopher Hitchens and His Critics: Terror, Iraq and the Left (2008) e Arguably. Essays (2011) são três dos seus livros mais recentes. O cancro levou a melhor.

Etiquetas:

BEST OF 2011


Aqui ficam as minhas escolhas de 2011. Dezoito títulos de ficção e dois de ensaio. Alguns são reedições com novas traduções. Critério pessoal? Prazer do texto. Já não tenho idade para andar a brincar aos maître à penser...

1
Contos Completos, Vol 1
Vladimir Nabokov
Trad Telma Costa
Teorema

2
Contos Escolhidos
Guy de Maupassant
Trad Pedro Tamen
Dom Quixote

3
Ravelstein
Saul Bellow
Trad Rui Zink
Quetzal

4
O Chalet da Memória
Tony Judt
Trad Pedro Bernardo
Edições 70

5
A Filha do Coveiro
Joyce Carol Oates
Trad Susana Baeta e Miguel Castro Caldas
Sextante

6
O Sentido do Fim
Julian Barnes
Trad Helena Cardoso
Quetzal

7
As Desventuras do Sr. Pinfold
Evelyn Waugh
Trad Mª Teresa e João Carlos Beckert d'Assumpção
Relógio d’Água

8
Nas Trevas Exteriores
Cormac McCarthy
Trad Paulo Faria
Relógio d’Água

9
Um Homem Singular
Christopher Isherwood
Trad Filomena Duarte
Quetzal

10
O Filho do Desconhecido
Alan Hollinghurst
Trad Tânia Ganho
Dom Quixote

11
Fall River e outros contos dispersos
John Cheever
Trad José Lima
Sextante

12
Encontro em Samarra
John O’Hara
Trad H. Silva Letra
Relógio d’Água

13
O Último Homem na Torre
Aravind Adiga
Trad Alice Rocha
Presença

14
Union Atlantic
Adam Haslett
Trad Pedro Dias
Cavalo de Ferro

15
A Viagem de Felícia
William Trevor
Trad José Miguel Silva
Relógio d’Água

16
O Homem do Turbante Verde
Mário de Carvalho
Caminho

17
A Alma Conservadora
Andrew Sullivan
Trad Miguel de Castro Henriques
Quetzal

18
As Luzes de Leonor
Maria Teresa Horta
Dom Quixote

19
O Homem que Gostava de Cães
Leonardo Padura
Trad Helena Pitta
Porto Editora

20
A Visita do Médico Real
Per Olov Enquist
Trad Mário Semião e Maria João Freire de Andrade
Ahab

Metade destes livros (os de Nabokov, Maupassant, Bellow, Judt, Oates, Barnes, Hollinghurst, Adiga, Padura e Maria Teresa Horta) constam do Best of do Ípsilon, hoje publicado, a partir de uma votação em que participei com Isabel Coutinho, Helena Vasconcelos, João Bonifácio, José Manuel Fernandes, José Riço Direitinho, Maria da Conceição Caleiro, Rogério Casanova e Rui Lagartinho.

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Dezembro 15, 2011

JOYCE CAROL OATES


Hoje na Sábado escrevo sobre A Filha do Coveiro, romance épico de Joyce Carol Oates (n. 1938) acabado de chegar às livrarias. Inspira-se na vida de Blanche Morgenstern, avó paterna da autora, a quem o livro é dedicado. Sob o pano de fundo do nazismo e da intolerância americana (a história vai de 1936 a 1999), Oates corrobora com esta obra-prima umas das suas divisas de eleição: toda a ficção parte do real. Ponto central? Violência doméstica. Mas sem melodrama, porque a escrita poderosa de Oates nunca perde o domínio de si própria. Dizer a quem não sabe que Oates tem mais de 120 livros publicados, em todos os géneros: ficção (romances e contos), poesia, teatro, ensaio, memórias e literatura para os mais novos. Só romances são 50, dos quais 11 assinados com os pseudónimos de Rosamond Smith (oito) e Lauren Kelly (três). Eterna candidata ao Nobel, académica respeitada, feminista, Oates é considerada por muitos «o mais excepcional romancista americano, de qualquer sexo, desde Faulkner». Se nunca leu, está na altura. Não se deixe assustar pelas 550 páginas!

Escrevo também sobre 1Q84 do japonês Haruki Murakami (n. 1949), primeiro volume de uma saga orwelliana. Se gosta de Stieg Larsson vai gostar de Murakami.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Dezembro 14, 2011

CITAÇÃO, 393


Vítor Belanciano, hoje no Público. Assino por baixo. Excertos:


«Já não passava pelo interior do Parque Eduardo VII há muito. Minto. Estive lá na última Feira do Livro, o que é também significativo. Parece que hoje em dia aquele parque de localização única, o centro do centro de Lisboa, não serve para mais nada. [...] Não se entende como é que o espaço verde mais extenso no centro de Lisboa [...] está para ali, abandonado, à sua sorte, rodeado por alguns equipamentos tristes, como o inútil Pavilhão Carlos Lopes. Não percebo muito de jardins, mas qualquer leigo percebe que aquela estrutura, o tipo de ajardinamento de representação, símbolo de uma modernidade que não tem nada a ver com a vivência contemporânea da cidade, está completamente desenquadrada da nossa realidade. É um espaço para olhar – como os jardins de Versalhes – e não para ser vivido na realidade. Nisso, sou radical: gosto dos parques ingleses, sem adornos, apenas com relva, árvores e alguns caminhos, alguns deles acabando por ser delineados organicamente pelo movimento das pessoas. No Parque Eduardo VII todos os elementos parecem estar lá para dificultar a vivência, em vez de serem facilitadores. [...] Aquele lugar devia ser de eleição, com actividade, e não qualquer coisa que parece rasurada de vida. [...] Não será altura de finalmente haver coragem e disponibilidade para refazer aquele parque, fazendo ali qualquer coisa virada para as pessoas?»

Etiquetas: , ,

Terça-feira, Dezembro 13, 2011

MÁS NOTÍCIAS


Rajoy toma posse no próximo dia 21. Entretanto, Jesús Posada e Pío García-Escudero foram hoje eleitos presidentes do Congresso e do Senado (o primeiro com 202 votos, o segundo com 180). Agora é só esperar a confirmação das más notícias: o salário mínimo em Espanha, que é hoje de 748 euros, passará para 400 nas próximas contratações. Será a primeira de várias medidas draconianas impostas por Berlim que Rajoy pretende cumprir. Os indignados têm muita praia pela frente...

Adenda. O valor de 748 euros foi obtido no Eurostat, «que realiza cálculos de conversão que, no caso de Portugal, têm em conta o 13.º e o 14.º mês de salário. Assim, o valor do salário mínimo apresentado pelo Eurostat para Portugal corresponde ao valor administrativo do salário mínimo multiplicado por 14 meses e dividido por 12. No caso da Espanha, é feito um cálculo semelhanteConferir aqui.

Etiquetas:

Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

O LIMITE É O CÉU


Os gastos dos portugueses com a saúde caíram pela primeira vez desde 2000. E vão cair ainda mais. Depois de ter anunciado há dias a subida da taxa das urgências para vinte euros, o ministério da Saúde divulgou esta manhã as novas tabelas das consultas, as quais passam a custar, a partir do próximo dia 1 de Janeiro, dez euros. Isto acontece nos hospitais centrais, nos hospitais distritais e também nos SAP. (A uniformização de preço é a única coisa que faz sentido. Como era praticado desde 1974, pressupunha um atendimento de 1.ª, de 2.ª e de 3.ª categoria.) Os tratamentos de enfermagem duplicam. Subir consultas de 3,10 euros para 10 euros é uma provocação. A menos que fiquem isentos de pagamento os utentes do SNS com rendimento mensal inferior a mil euros. Infelizmente, quando o governo fala em “desfavorecidos”, está a referir pessoas com rendimento mensal inferior a duzentos euros.

Etiquetas:

Domingo, Dezembro 11, 2011

TUDO PELO CANO


Paddy Ashdown sem papas na língua ontem no Guardian. Excertos:

When Hugh Gaitskell sat down after making his “end of a thousand years of history” speech against joining Europe at the Labour conference of 1962, he turned to his wife and said: “Look how many are clapping, dear!” She replied: “Yes, dear. But it’s the wrong people who are clapping.” This weekend, it’s the Eurosceptics who are clapping. [...]

[...] Will the coalition survive? It must and we must find a way to make it so. But the coalition is as disliked among the Eurosceptics as Brussels. Having won one victory over a hated enemy, why not a second? Those who worry that it’s now the 81 Eurosceptics who run the prime minister, not the other way round, are right to wonder: if he has given them this, what will he resist?

And so we have used the veto — but stopped nothing. In order to
“protect the City” we have made it more vulnerable. At a time of economic crisis, we have made it more attractive for investors to go to northern Europe. We have tipped 38 years of British foreign policy down the drain in one night. We have handed the referendum agenda over to the Eurosceptics. We have strengthened the arguments of those who would break the union. We have isolated ourselves from Europe and diminished ourselves in Washington.

Not bad, for a policy aimed at
“standing up for Britain”!

[Imagem: a caricatura é da edição de ontem do The Times de Londres.]

Etiquetas: ,

Sábado, Dezembro 10, 2011

DOIS RETRATOS



Estes dois retratos de Eric Feferberg para a AFP, obtidos ambos no Conselho Europeu que ontem terminou, radiografam bem o estado da Europa. Por uma vez, caiu a máscara de campónia alegre da luterana obstinada que Merkel nunca deixou de ser. Os historiadores do futuro vão com certeza dedicar parte do seu tempo à eloquência da imagem.

Ao alto, Zapatero e Sarkozy parecem saídos da máquina do tempo. A Espanha teve eleições a 20 de Novembro mas, ao fim de três semanas, Rajoy ainda não conseguiu formar governo. (Até nós conseguimos pôr Passos Coelho em São Bento ao fim de dezasseis dias.) Os banqueiros espanhois não têm pressa. O rei pode esperar.

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Dezembro 09, 2011

FLOP


A chantagem do gang Merkozy só impressionou quem quis ser impressionado. Cameron vetou a revisão do Tratado de Lisboa. A Suécia, Finlândia, Hungria e República Checa também não aceitam nenhum tipo de revisão. Mas Cameron foi mais longe: o Reino Unido não autorizará que a Comissão Europeia e o Tribunal Europeu de Justiça sejam utilizados no âmbito da futura regulamentação da zona euro. Eram quase cinco da manhã quando este resultado foi tornado público. O gang Merkozy vai tentar levar água ao moinho através de um pacto orçamental (restrito aos países da zona euro) que terá de estar em vigor até Março. Em conferência de imprensa conjunta, Barroso e Rompuy enfatizaram o facto de que as decisões sueca e checa têm de ser ratificadas pelos parlamentos nacionais, sabendo-se à partida o resultado de tal ratificação. Monti deve estar a preparar um plano B, porque daqui a três semanas a Itália terá de honrar compromissos da dívida num montante que daria para resgatar Portugal sete vezes. Hoje é dia de circo: os 27 vão receber a Croácia como membro do clube.

Etiquetas:

Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

ENCADEAR PATEGOS


A discussão sobre acabar com quatro feriados, dois católicos e dois civis, parece-me deveras bizantina. Para começo de conversa, não há feriados de 1.ª e de 2.ª como parece decorrer das negociações do ministro da Economia com a Igreja, os sindicatos e as confederações patronais. Há tradições culturais. Ponto. Por isso é que num país laico continuam a existir feriados religiosos. Por falar em feriados religiosos: o 8 de Dezembro foi, durante décadas, o dia da mãe. Para mim e muitos da minha geração, o dia da mãe celebra-se a 8 de Dezembro. Hoje, precisamente. A Imaculada Conceição não era tida nem achada na celebração. A transferência do dia da Mãe para Maio foi um disparate tão grande como agora querer indexar o sucesso da economia a quatro feriados. O truque pode encadear pategos, mas não deixa de ser um truque de feira.

[Imagem: esta virgem um pouco camp... é a padroeira de Macau.]

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Dezembro 07, 2011

VASCO GRAÇA MOURA


Hoje na Sábado escrevo sobre Os Desmandos de Violante, novela com que Vasco Graça Moura (n. 1942) encerra a trilogia O Vermelho e as Sombras. Este ciclo das invasões francesas recria a tradição do feuilleton, uma vez que a sua força reside no encadeado da trama completa, que começa com a fuga da corte portuguesa para o Brasil e termina no auge da tranquibérnia (1808-14) provocada pela ocupação inglesa de Lisboa: centro de Poder pulverizado, fome, pandemias, roubo, violência, escassez de combustível, etc.

Os volumes anteriores são O pequeno-almoço do sargento Beauchamp, 2008, e O Mestre de Música, 2010. A vasta erudição de Graça Moura permite-lhe manipular ficção histórica em registo prosaico, com o à-vontade de quem os estivesse a redigir no palácio de Xabregas. Mas é preciso que a Alêtheia compile em volume único as três novelas, sob pena de retirar força ao conjunto.

Também escrevo sobre O Horizonte, de Patrick Modiano (n. 1945). É um romance francês, com certeza.

Etiquetas: ,

Terça-feira, Dezembro 06, 2011

FARTAR VILANAGEM


O que se está a passar com as nomeações para os conselhos de administração dos hospitais é revelador de que nada mudou. É assim há 37 anos, assim continuará. Agora é o PSD a pôr e dispor, reservando umas migalhas para o CDS-PP. As mexidas são feitas ao arrepio da troika: o Memorando de Entendimento recomenda “não mexer” no que está. [estava, em Maio] Já não falo da campanha eleitoral, durante a qual Passos Coelho prometeu um futuro limpo. Como vimos, à primeira oportunidade fez disto um esgoto a céu aberto. Alega o PSD que os concursos para novos dirigentes apenas se aplicam aos institutos públicos e direcções-gerais, o que deixa de fora os hospitais, que são “entidades públicas empresariais”. Et pour cause...

Por exemplo, no Hospital de Viseu, que agora se chama Centro Hospitalar Viseu/Tondela, a nomeação de dois militantes do PSD para a respectiva administração gerou repulsa até no seio do CDS-PP, tendo o deputado Helder Amaral, vice-presidente do grupo parlamentar, declarado a sua indisponibilidade «para pedir sacrifícios aos portugueses e depois patrocinar o amiguismo da pior espécie que julgava ser uma prática do passado.» O senhor nasceu ontem?

Também no Centro Hospitalar do Médio Tejo, que agrega os hospitais de Tomar, Abrantes e Torres Novas, se verificaram nomeações decorrentes da filiação partidária: os novos senhores (Joaquim Esperancinha, António Lérias e João Lourenço) vieram de uma empresa de tubos de plástico com sede no Cartaxo. Comentários para quê?

Nada disto é novo. Mas no tempo de Soares, Mota Pinto, Sá Carneiro, Balsemão, Cavaco, Guterres, Barroso, Santana e Sócrates, ninguém foi ao bolso dos portugueses escudado no discurso da redenção da Pátria.

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Dezembro 05, 2011

TRUQUE


Transferindo para o Estado os fundos de pensões da banca, medida concretizada a semana passada, o governo conseguiu encaixar seis mil milhões de euros, verba que permitirá aliviar o défice de 2011. Para que serviam esses seis mil milhões? Para pagar as reformas de 27 mil empregados bancários nos próximos 10 anos. (Segundo contas do Económico, a pensão média desses trabalhadores corresponde a 1 323 euros por mês.) Como os fundos passaram para o Estado, será a Segurança Social  —  i.e., seremos nós todos  —  a suportar esse encargo. Nada menos que 500 milhões de euros por ano. Bom negócio ou truque de feira?

[Imagem: obra de Nadir Afonso da colecção do Millennium BCP.]

Etiquetas: ,

Domingo, Dezembro 04, 2011

DECRETO SALVA-ITÁLIA



Ao anunciar o plano de austeridade, il decreto salva-Italia, Monti começou por dizer que renuncia ao salário de primeiro-ministro. Elsa Fornero, ministra do Trabalho, presente na sala, despencou a chorar por causa da violência das medidas. Se a moda pega...

Etiquetas: ,

Sábado, Dezembro 03, 2011

A IGREJA DO RESTELO


Mesmo com obras a decorrer, a igreja paroquial de S. Francisco Xavier, no alto do Restelo, é benzida amanhã por D. José Policarpo, Patriarca de Lisboa. Depois volta a fechar. É o princípo do fim da saga iniciada em 3 de Dezembro de 1980, quando uma Comissão de Leigos presidida por D. Albino Cleto, bispo auxiliar de Lisboa, começou a preparar a desanexação de Santa Maria de Belém, à qual S. Francisco Xavier estava ligado. O padre Henrique Canas deu a cara pela recolha de fundos, e terá sido ele a escolher o arquitecto Troufa Real como autor do projecto que vemos ao alto. Inclui a Igreja propriamente dita, minarete com cem metros de altura (adiado sine die), miradouro, residência paroquial, centro social (adiado sine die), salão de conferências, salas para catequese e outras actividades. Entregue à paróquia em Outubro de 1999, a CML só o aprovou em Maio de 2004. Desde o lançamento da primeira pedra, em Julho de 2007, passaram mais de 4 anos. Clique na imagem para ver bem os detalhes.

Etiquetas: , ,

Sexta-feira, Dezembro 02, 2011

RENATO BALDRUCCO


Agora que o n.º 108 / Dezembro chegou aos quiosques e livrarias, deixo aqui a crónica Renato Baldrucco: uma biografia, publicada no n.º 107 na minha coluna Heterodoxias:

Uma das exigências da Troika foi o prologamento da silly season. Vem no anexo S/M do Memorando de Entendimento. Esse anexo nunca foi traduzido para português. Tenho cópia dele em bislamá, gentileza do embaixador belga em Vanuatu. Passei parte do Verão numa ilha das Novas Hébridas. Não fiz alarido do facto para não pensarem que os escritores andam a nadar em dinheiro. Da nossa cama via o Lopevi como a rainha de Nápoles via o Vesúvio. Foi lá que reencontrei M. Poincaré.

M. Poincaré lê português com grande desembaraço. Fugidos de Valónia, os pais meteram-no em 1938 na École Française do Pátio do Tijolo, ali ao palácio Braamcamp. Em fedelho, M. Poincaré, perdão, Jean-Louis, papava cancioneiros e simbolistas com igual avidez. Nunca ninguém mais teve mão nele. Mais tarde, a carrière teve o efeito de uma cinta lombar em malha de aço. Conheci M. Poincaré no n.º 82 da rua Cecílio de Sousa.

A mala diplomática trouxe o cartapácio.

O cartapácio é a biografia de Renato Baldrucco escrita por Joselito Martelo. Renato descende dos Magano-Baldrucco pelo lado paterno e dos Teles Abrunho pelo materno. Joselito ainda tem uma costela Dyrup. M. Poincaré conhecia os Dyrup do Lawn Tennis Clube da Foz. Achou natural que o cartapácio chegasse na mala diplomática: a Loja (rito escocês) nunca se esquecia dele.

Renato Baldrucco cometeu três florilégios: Der junge Törless in der Travessa Pisca (2003), Coimbrões (2008) e Espelho de Adónis (2010). O próximo, Acavalados, vem a caminho. Entrevistado por Anderson Cooper para The Advocate, Joselito foi peremptório: «As ondas de choque vão fazer-se sentir de Finisterra a Vila Real de Santo António.» Lisboa treme.

Reunidos em Maricá, lentes de Minas Gerais e Coimbra escarafuncham a fresta rizomática. Baldrucco seria uma espécie de corpo sem órgãos. Joselito desmente a heteronímia. Baldrucco nunca poderia ter escrito Verão Assado (1974), Carcamano (1983) ou a Trilogia do Pé (1993). Baldrucco não é um homem da prosa. Baldrucco tem uma tão alta noção da poesia que abomina as conchinhas de Sophia e os efebos de Eugénio. Já era assim no tempo da Tapada de Mafra, o Cruz atrás das aves, Baldrucco (ou seria Joselito?) a derivar. Baldrucco não é de modas. Tão pouco seguiu o rapaz que se debruçava sobre os seus próprios intestinos. Baldrucco (ou seria Joselito?) podia ter aprendido alguma coisa com ele. Sempre evitava o destempero de querer sentar o Eduardo na poltrona do Simões. O Simões tinha Lisboa cheia de poltronas, por oposição, I presume, aos sofás que o Lacerda espalhou entre Hampstead e King’s Road.

M. Poincaré preside ao jantar. O waterzooi de peixe tem óptimo aspecto. Especialidade flamenga por especialidade flamenga, M. Poincaré teve a delicadeza de mandar substituir a anguille au vert (um preparado obsceno) pelo waterzooi. Dou os parabéns ao cozinheiro. M. Poincaré adverte: «Joselito é o apologista de si mesmo. Esse Baldrucco é um Thomas Crosse com pronúncia do Norte.» Pega no pão torrado: «Joselito sonha com Béjaïa, querendo ressuscitar o mito do Teixeira Gomes.» O Gewurztraminer induz a má-língua. Lembro Pessoa: «A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese...» O Adolfo nunca se recompôs. M. Poincaré sorri: «Desde neófito do Orfeuzinho que Joselito tende para a simulação. Baldrucco é o seu Through the Looking-Glass... Sabe que ele ainda é sobrinho-bisneto do Gomes Leal?» E como não? A glosa das Machas-Fêmeas fez furor em Leça: «Nisto passa Gandulo, dominó do Reimar, chispa no olho clauco...»

No horizonte, o Lopevi estremece.

Etiquetas: ,

LER 108


A LER n.º 108 / Dezembro está na rua. Mário Soares, que faz 87 anos na próxima quarta-feira, dia 7, é o entrevistado de Carlos Vaz Marques. O pretexto próximo é a publicação de Um Político Assume-se, o ensaio autobiográfico que o Círculo de Leitores e a editora Temas & Debates acabam de publicar. Sobre o livro, escreve Joaquim Vieira. Voltando à entrevista, destaco um episódio relacionado com Saramago: «Quando morreu o Ary dos Santos [...] eu era primeiro ministro, resolvi ir ao enterro dele. Pois se eu era amigo dele e ele era um grande escritor, porque é que eu não havia de ir lá por ele ser comunista? [...] Ninguém me falou, toda a gente voltou a cara. Nessa altura, foi a que foi mulher do Saramago antes da Pilar, [a escritora Isabel da Nóbrega] de quem eu era amigo desde tempos imemoriais, quando ela ainda vivia com o Gaspar Simões, que me veio dizer ‘Mário vá-se embora, que estes tipos têm-lhe ódio, são uns fanáticos’ [...] anos depois, graças em parte à Pilar, voltei a ter relações de grande proximidade com Saramago.» Mas não esperem confissões íntimas: «Não entro na minha vida pessoal. Sou um marido com 62 anos de casado.» Ponto. Destaco ainda um ensaio de Gustavo Rubim sobre Alves Redol, cujo centenário do nascimento ocorre no próximo dia 29. O resto, que é muito, inclui crónicas — a minha é sobre Tony Judt —, recensões críticas, resenhas, artigos de vária índole, a coluna do Provedor, uma conversa com Miguel Gonçalves Mendes, etc. Há ainda o Best of 2011 da revista (trinta livros) e as escolhas de dez críticos (cem livros), mas uma coisa não decorre da outra: são listas autónomas. Numa banca ou livraria perto de si.

Etiquetas:

Quinta-feira, Dezembro 01, 2011

ARTE NO TEMPO DA SIDA


Oficialmente, a Sida tem 30 anos. O seu nascimento é reportado ao dia 5 de Junho de 1981, data da publicação de um artigo no Morbility and Mortality Weekly Report, do CDC. O mundo nunca mais foi o mesmo.

Para assinalar esses 30 anos, e perceber em que medida a doença afectou as artes em geral (da pintura ao teatro, passando pela literatura, música, cinema e fotografia), João Osório realizou o documentário Arte no Tempo da Sida, que a RTP-2 transmite hoje às 20:50h.

Sou um dos entrevistados. Os outros são Amílcar Soares, presidente da Associação Positivo; Carlos Coelho, criador de marcas; Henrique Barros, coordenador nacional para a infecção VIH/Sida; Isabel Carlos, directora do CAM da Gulbenkian; Jorge Mourinha, crítico de cinema do Público; Jorge Silva Melo, encenador e director dos Artistas Unidos; José de Guimarães, artista plástico; Margarida Martins, fundadora e presidente da Abraço; Maria José Campos, coordenadora científica do CheckPoint Lx; Miguel Francisco Cadete, director do Blitz; Rui Pregal da Cunha, músico.

[O livro da imagem, uma edição de 1994 da St Martin’Press, representa a primeira manifestação pública de escritores que dão a cara pela Sida.]

Etiquetas:

O SINDICATO


A partir da próxima segunda-feira, o Banco Central Europeu, a Reserva Federal norte-americana e os bancos centrais do Canadá, Inglaterra, Suíça e Japão vão injectar capitais nos bancos da zona euro, a juro muito baixo (0,5%), até Fevereiro de 2013. A Itália é a prioridade, embora, no seu conjunto, o plano tenha em vista evitar o colapso do euro. Nesta altura do campeonato é capaz de ser tarde.

Ler: Central banks step in to stave off new credit crunch.

[Imagem: Público.]

Etiquetas: