Segunda-feira, Outubro 31, 2011

AXEL AXGIL 1915-2011


Com 96 anos, morreu no sábado Axel Lundahl-Madsen Axgil, fundador da associação nacional dinamarquesa dos direitos LGBT, a Landsforeningen for bøsser, lesbiske, biseksuelle og transpersoner.  Graças ao seu activismo, a Dinamarca foi o primeiro país a legalizar as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. Assim que a lei foi aprovada, Axel casou-se (no dia 1 de Outubro de 1989) com o seu companheiro de sempre, o activista Eigil Eskildsen Axgil, que veio a falecer em 1995. Axgil foi o sobrenome comum adoptado no dia do casamento. A foto de Langkilde Morten mostra o casal em 1989: Exel à esquerda, olhar virado à objectiva, e Eigil à direita. Leia o obituário do NYT.

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O LIMITE ERA O CÉU


Cratices, hoje no Público:

«[...] Quase metade (46,7%) do pessoal da administração central está no Ministério da Educação. É um valor extraordinário. / Defendo, independentemente de todos estes cortes, que é necessário reduzir o número de disciplinas no ensino básico, que é necessário concentrar nas disciplinas essenciais, que é necessário eliminar a dispersão na oferta curricular, que é necessário reforçar o Português e a Matemática, que é necessário dar mais atenção à História, à Geografia, às Ciências, ao Inglês. / É preciso dizer isto com clareza: não estamos em época de contratar mais professores do que o estritamente necessário. Isto significa que vamos ter uma grande contenção na contratação de professores. / Nesta idade, a maioria dos jovens já domina os computadores perfeitamente e é questionável que seja necessário ter uma disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação no 9.º ano. / Apesar de todo o esforço que fizemos para racionalizar o recrutamento de professores, temos no sistema 1858 professores com horários zero. Era o número no final de Setembro. Isto é preocupante. / Não é admissível um aluno chegar ao 9.º ano, ao fim da escolaridade obrigatória, e ter dificuldade em ler um jornal. / Vamos tentar encerrar mais umas 300 escolas. / Quinze [universidades] parece-me de mais. [...]»

Se (não sou eu que digo, é o ministro Crato) um aluno chega ao 9.º ano, ao fim da escolaridade obrigatória, e tem dificuldade em ler um jornal, isso é motivo de despedimento com justa causa de uma pipa de professores de português. Certo? Ou é só uma frase de efeito?

Clara Viana, João d’Espiney e Miguel Gaspar foram os entrevistadores. Infelizmente, nenhum deles perguntou ao ministro da Educação o que pensa dos negócios que o actual governo anda a fazer na América Latina com os computadores Magalhães.

Já agora: onde estão os 200 mil manifestantes anti-Maria de Lourdes Rodrigues?

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Domingo, Outubro 30, 2011

AS PORTAGENS DA SIC


A SIC emitiu ontem uma reportagem sobre... a cobrança de portagens, na Rua de Cintura do Porto de Lisboa, entre o Cais do Sodré e Alcântara. Nunca vi tanta manipulação junta.

O que é que se passa, afinal? Em determinado ponto da Rua de Cintura do Porto de Lisboa existe agora uma rotunda e um parque de estacionamento que divide a rua em duas: Cais do Sodré/Parque e Parque/Alcântara. O parque é pago. A tarifa mínima corresponde a 40 cêntimos. Quem, apesar do óbice, quiser ir do Cais do Sodré a Alcântara pela Rua de Cintura do Porto de Lisboa, tem que atravessar (entrar e sair) o referido parque. Como a Avenida 24 de Julho continua aberta ao trânsito, sem portagens, não percebo o alarido.

Pode fazer sentido questionar a construção de um parque de estacionamento naquele sítio. E se o parque cumprir a função de dissuasor de tráfego? Falar de portagens é simplesmente obsceno. Veja a imagem ao alto.

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E ISTO É O POVO DO EXPRESSO!


As sondagens valem o que valem. Esta do Expresso, divulgada ontem, é muito interessante. Clique na imagem.

Concorda com o OE 2012?  —  81,1% NÃO
Concorda com o corte dos subsídios?  — 79,8% NÃO
Confia no governo?  — 57,8% NÃO
Concorda com a convocação da greve geral?  —  63% SIM
As metas do OE 2012 serão cumpridas?  —  63,2% NÃO
Corte de subsídios também para privados?  —  53,8% NÃO
Confia no ministro das Finanças?  —  59,6% NÃO

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Sábado, Outubro 29, 2011

LA CUMBRE


Não é só a Europa que atravessa uma profunda crise de identidade. Metade dos chefes de Estado e de governo que deviam participar na 21.ª Cimeira Ibero-Americana que hoje começou no Paraguai, não se dignou comparecer. Países como a Argentina, o Brasil, a Colômbia, a Costa Rica, Cuba, El Salvador, as Honduras, a Nicarágua, a República Dominicana, a Venezuela e o Uruguai ignoraram ostensivamente a Cumbre de Asunción, apesar das démarches diplomáticas do rei de Espanha, que falou pessoalmente com alguns chefes de Estado. Para compensar, estão lá Cavaco e Passos Coelho, cujo brilho decerto ofuscará o das 11 delegações refractárias.

[Imagem: foto de Luis Vera para El País.]

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CITAÇÃO, 388


Vasco Pulido Valente, Um caso triste, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:

«A história de Duarte Lima não é uma história que passe rápida e ligeiramente sobre nós. Não o conheci nos seus tempos de importância e da relativa glória portuguesa, mas já nessa altura ele me parecia uma personagem um pouco estranha na corte do PSD e de Cavaco: grosso, baixo, calado, estranho à carreira do arrivismo comum. Havia boas razões para isso. Duarte Lima nasceu no fim do mundo (em Bragança), numa família muito pobre de nove filhos. Às vezes, teve fome, ou muito perto disso. Foi educado pela escola primária da terra e, sempre, pela Igreja. Na Igreja [...] aprendeu música e, nomeadamente, a tocar órgão: aos 12, 13 anos, já acompanhava a missa no órgão da Sé. Era com certeza uma criança aplicada; de certa maneira, uma personagem do século XIX. [...]

Daí em diante, Duarte Lima seguiu a via tradicional das carreiras no PSD e, a certa altura, ainda novo, chegou à Assembleia da República e a mais do que isso, a presidente do grupo parlamentar da maioria.

Não é líquido por que razão o elegeram e não é líquido por que razão eventualmente correram com ele. Consta que exibia “sinais de riqueza”, que não caíam bem. Ou, se calhar, arranjou uma incompatibilidade qualquer ou com o dr. Cavaco ou com a Igreja. De qualquer maneira, ficou isolado. Um pobre de Bragança não podia transitar suavemente para uma companhia, um banco ou um escritório de advogados, como transitava a gente com velhas relações pessoais no Porto e em Lisboa.

[...] O caso dele é um caso triste.»

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Sexta-feira, Outubro 28, 2011

MEDIA


Ainda sou do tempo em que as pessoas comuns compravam três jornais por dia. Há 25 anos era assim. Hoje é como mostra o quadro supra (clique), uma imprensa pouco mais que virtual. Como sobrevivem certos jornais? Em que pé ficou a denúncia de que determinada empresa comprava assinaturas para distribuir exemplares gratuitamente?

[Imagem: Público.]

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CITAÇÃO, 387


Filipe Nunes Vicente, O pensamento táctico. Excerto:

«[...] Está na hora de o PS aplicar a doutrina do eng.º Ângelo Correia e chumbar o OE.»

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O ESPLENDOR DA HIPOCRISIA


Passos Coelho escolheu Brasília para corroborar a doutrina do seu ministro da Propaganda: Muitos países europeus, em vez de 14, pagam 12 vencimentos. Não excluo que isso possa vir a acontecer em Portugal. A hipocrisia em todo o seu esplendor. O que o primeiro-ministro não disse foi que os subsídios de férias e de Natal fazem parte do rendimento anual bruto dos trabalhadores do sector privado, dos trabalhadores do sector empresarial do Estado, dos funcionários públicos e, naturalmente, do montante indexado às pensões de reforma e aposentação. Dito de outro modo, o patronato e o Estado arrecadam por antecipação dois catorze avos do rendimento anual bruto dos trabalhadores do sector privado, dos trabalhadores do sector empresarial do Estado, dos funcionários públicos e dos pensionistas. Se fosse um homem de carácter, o primeiro-ministro teria dito o que disse no Parlamento português, sujeitando-se a contraditório. Nunca no estrangeiro. Em qualquer dos casos, tratar o tema ao nível da gorjeta é indigno de uma democracia.

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Quinta-feira, Outubro 27, 2011

PAULO PORTAS NÃO CHEGAVA?


Começa amanhã (19:00h) no Paraguai a 21.ª Cimeira Ibero-Americana, onde Portugal se fará representar pelo Presidente da República, o primeiro-ministro e o ministro dos Negócios Estrangeiros. Cavaco Silva já partiu: vai jantar hoje em São Paulo na Sociedade Hípica Paulista, a convite da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil. Levou consigo uma comitiva de 23 pessoas. Segundo o i, cada bilhete de ida-e-volta custou, em classe executiva, 7500 euros. Passos faz-se acompanhar de 4 pessoas. Acerca da comitiva do MNE nada é dito. Estará Portas incluído no bando dos quatro que acompanha Passos?

[A foto é do i.]

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ESPERAR PARA VER


Sobre a Cimeira do Euro, a imprensa nacional e internacional coincide em dois pontos: o Fundo Europeu de Estabilização Financeira passou dos actuais 440 mil milhões de euros para um bilião de euros; e os 27 perdoam 50% da dívida grega. Os bancos estão dispostos a abdicar de 100 mil milhões de euros se o FEEF lhes der garantias de 30 mil milhões. Ler aqui a declaração final da Cimeira.

Mas Luís Campos e Cunha, entrevistado ontem à noite na SICN, foi peremptório: um eventual perdão da dívida acionaria automaticamente os seguros associados aos créditos, provocando o efeito-dominó... (cito de cor). Dito de outro modo, pior a emenda que o soneto. João Salgueiro ouviu e corroborou.

Como não podem ter todos razão ao mesmo tempo, o subsecretário de Estado do Planeamento de Marcelo Caetano (mais tarde ministro das Finanças de Balsemão), o ministro das Finanças de Sócrates até ao Verão de 2005, a directora-geral do FMI, o presidente do BCE, o senhor Van Rompuy e os ilustríssimos chefes de governo dos 27, o melhor é esperar para ver.

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JOHN CHEEVER


Hoje na Sábado escrevo sobre Fall River e outros contos dispersos, de John Cheever (1912-1982), o maior estilista da geração que começou a publicar nos anos 1930. Em vida, Cheever deixou estes 13 contos fora dos livros que organizou. A viúva não descansou enquanto não os pôs a render: a batalha legal durou sete anos, mas, em 1994, Fall River and Other Uncollected Stories estava nas livrarias. O volume colige 12 contos publicados em revistas entre 1931 e 1942, e o décimo terceiro em 1949. Um desses contos, Fim de Estação (1931), tornou-se um clássico da literatura gay: «Quando Richard se despiu, o corpo dele estava morno como uma sala bem iluminada.» Homossexual recalcado, Cheever notabilizou-se pela forma como ilustrou o mundo organizado dos subúrbios elegantes. Isso é notório nos Contos Completos, que a Sextante publicou em dois volumes, o 1.º em 2009, o 2.º em 2010. Estes contos juvenis dão a conhecer as simpatias esquerdistas do autor, que a partir de certa altura começou a ser classificado como “burguês degenerado” pelos críticos marxistas.

Escrevo ainda sobre À Espera no Centeio, a obra-prima de J. D. Salinger (1919-2010). Em 1951, João Palma-Ferreira deu à sua tradução o título de Uma Agulha no Palheiro. José Lima fez nova tradução em 2005, dando-lhe o título actual. Nos anos 1950, À Espera no Centeio tornou-se uma espécie de Bíblia da cultura pop. A sua publicação coincidiu com o aparecimento de James Dean, antecipando em dois anos o de Elvis Presley. Salinger, Dean e Elvis fixaram o mito da juventude sem causa. Em tempos mais recentes, Mark Chapman, o assassino de John Lennon, alegou ter cometido o assassínio depois de ter lido o livro. A intriga é muito simples: um adolescente das classes altas não sabe como informar os pais do flop escolar. Excelente reedição da Quetzal.

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Quarta-feira, Outubro 26, 2011

REFORMADA-BEBÉ


Depois de Gianfranco Fini ter chamado reformada-bebé à mulher de Umberto Bossi, três deputados travaram-se de razões. Fini, 59 anos, líder do partido conservador liberal Futuro e Libertà, é o presidente da Câmara dos Deputados italianos. Bossi, 70 anos, fundador e líder da Liga Norte e ministro da Reforma Institucional, é marido da senhora que se reformou com 39 anos. Ambos fazem parte da coligação que apoia Berlusconi. Os ânimos estão ao rubro no momento em que Bruxelas tenta obrigar a Itália a reformar o seu sistema de pensões.

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OM & DENOMINAÇÃO COMUM


Nos países civilizados, os médicos prescrevem os medicamentos por princípio activo. Não é Avodart, Ben-u-ron, Prozac, etc. É dutasterida, paracetamol, fluoxetina, etc. Em Fevereiro, com o aplauso do PSD, Cavaco vetou o decreto-lei sobre prescrição por Denominação Comum Internacional. Agora que está no poleiro, o PSD propõe-se fazer aprovar depois de amanhã uma proposta de lei impondo a Denominação Comum Internacional. Troika oblige...

A Ordem dos Médicos opõe-se. E pretende que os médicos distribuam folhetos (apensos às receitas) desaconselhando os doentes a aceitarem sugestões dos farmacêuticos. É vergonhoso. Ninguém impede ninguém de comprar medicamentos por marca, desde que os pague do seu bolso. Porém, quem depende (milhões de portugueses entre os quais me incluo) de medicação subvencionada  —  pela Segurança Social, ADSE, outros subsistemas, seguros de empresa, seguros privados, etc.  —, não pode exigir a marca X, vendida a 60 euros a embalagem, quando as farmácias vendem o genérico do mesmo princípio activo por... 36 euros.

É muito esquisito, para não lhe chamar outra coisa, ver a Ordem dos Médicos preocupada com as Marcas.

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Terça-feira, Outubro 25, 2011

CADA CAVADELA SUA MINHOCA


O OE para 2012 prevê um corte de 14,8% no rendimento anual bruto dos pensionistas, funcionários públicos e trabalhadores do sector empresarial do Estado. O famoso corte dos subsídios de férias e de Natal.

E a medida só não é extensiva aos privados porque... isso dificilmente seria considerado um exercício credível lá fora, deixando Portugal sem ajuda externa já em Novembro.

Comentários para quê?

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A VERDADE DOS NÚMEROS



Estes dois quadros vêm hoje no Público, inseridos no dossiê sobre a anunciada reestruturação da RTP. A partir deles temos uma noção de como é lá fora. Ambos desmontam o mito, propagado pela direita, de que a RTP é uma ilha isolada no contexto dos apoios estatais europeus. E então sobre taxas nem se fala... Nada como ter os números à frente! Clique nas imagens.

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CRITICA TEXTUS


O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, órgão dirigido pelo padre José Tolentino Mendonça, acusa José Rodrigues dos Santos de escrever «centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala». A catilinária reporta ao 9.º romance do autor, O Último Segredo (Gradiva). Em declarações ao Público, José Rodrigues dos Santos afirma: «O mais interessante nesta crítica é que não é contestado um único facto [...] sobre a vida de Jesus. Há uma boa razão para isso. É que tudo o que no romance escrevi, no que diz respeito a citações bíblicas ou informações históricas ou científicas, é verdadeiro  — e a Igreja sabe.» O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura não gosta do tom de «intolerância desabrida» de que o autor faz uso ao pretender entrar «na história da formação da Bíblia». A Igreja perdeu uma boa oportunidade de estar calada.

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Segunda-feira, Outubro 24, 2011

VIRAR O BICO AO PREGO


Título de uma notícia do Público: “Comissão Europeia abre investigação aprofundada sobre a nacionalização do BPN”.

Súmula da notícia: «Em concreto, precisa Bruxelas, a Comissão necessita de informações que lhe permitam determinar se o BPN será uma entidade viável após a sua integração no futuro comprador, se o auxílio concedido ao BPN é limitado ao mínimo necessário para realizar a reestruturação, se foram adoptadas medidas suficientes para limitar a distorção da concorrência e se o processo de venda não implica um auxílio para o comprador

Portanto, ao contrário do que diz o título da notícia, Bruxelas abriu uma investigação às condições da privatização do BPN. Bruxelas quer perceber se a venda do BPN aos angolanos do BIC não distorce a concorrência e se o auxílio do Estado não representa um auxílio para o comprador. A preocupação de Bruxelas é com o comprador, não é com a nacionalização de 2008.

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O REGIME


Em 2005, uma das primeiras medidas que Sócrates tomou foi abolir as pensões vitalícias dos políticos. Mas quem vinha de trás continuou a cobrar espórtula. Segundo inventário do Diário de Notícias, largamente publicitado nas televisões, estão nessa situação mais de 400 “antigos” políticos. Não sei se algum vive exclusivamente dessa pensão. Quase todos acumulam as pensões vitalícias com outros honorários: pensões de reforma, emprego, cargos, etc.

O socialista Carlos Melancia, que foi três vezes ministro, e governador de Macau entre Julho de 1987 e Abril de 1991, aufere a pensão mais alta: 9150 euros. Não consta que exerça nenhuma actividade profissional.

Mas a lista dos profissionais bem pagos que acumulam a pensão vitalícia é extensa: Álvaro Barreto, PSD (3400 euros), Zita Seabra, PSD (3000), Joaquim Ferreira do Amaral, PSD (3000), Carlos Carvalhas, PCP (2800), Manuela Ferreira Leite, PSD (2700), Jorge Coelho, PS (2400), Ângelo Correia, PSD (2200), Duarte Lima, PSD (2200), Rui Gomes da Silva, PSD (2100), António Vitorino, PS (2000), Armando Vara, PS (2000), Dias Loureiro, PSD (1700), etc. Até Bagão Félix aceita receber 1000 euros todos os meses! Jorge Coelho diz que dá o dinheiro a instituições de solidariedade social. Em 2010, as subvenções custaram 9 milhões de euros aos contribuintes.

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Domingo, Outubro 23, 2011

QUANTOS MINUTOS DUROU O BLOQUEIO?


Vá-se lá saber porquê, Portugal, a Espanha e a Itália opuseram-se à necessidade de recapitalizar a banca. Quem ontem ouvisse as televisões nacionais, lá vinha o refrão: Portugal, a Espanha e a Itália bloquearam a recapitalização da banca... Mas, no fim da reunião dos ministros das Finanças da UE, a recapitalização dos bancos europeus estava decidida. Com um detalhe picante: em vez dos 80 mil milhões previstos, vão ter de ser injectados 108 mil milhões. Ricardo Salgado e Fernando Ulrich dão ordens na Gomes Teixeira, mas na Europa manda quem pode. Coube a Didier Reynders, o ministro belga, despejar o balde de água fria.

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DÉBÂCLE


O ponto é este: o euro pode sobreviver, mas nada será como dantes. Na prática, três dos dezassete membros da zona euro estão no limbo. É o caso da Irlanda, Grécia e Portugal (cito-os pela cronologia do resgate). Por enquanto, alimentamos a ilusão de que casas, quintas, terrenos, etc., mantêm o seu valor intocado. É uma ilusão cruel. Clique na imagem.

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Sábado, Outubro 22, 2011

OS MARAJÁS


Miguel Macedo, ministro da Administração Interna, acumula ao vencimento do cargo (4240 euros) mais 1400 euros por mês a título de subsídio de alojamento. A lei é de 1980, abrangendo titulares de cargos políticos que não têm residência permanente em Lisboa ou num raio de cem quilómetros. O chamado direito adquirido, neste caso com trinta anos de uso. No governo de Passos são 9 os beneficiados: os ministros da Administração Interna e da Defesa, seis secretários de Estado e uma subsecretária de Estado.

Macedo tem duas casas: uma em Braga, cidade onde nasceu, outra em Algés, onde reside em permanência. Sucede que um parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República, exarado em 1990 (era Cavaco primeiro-ministro), fixou doutrina: Lisboa é sempre “uma residência ocasional” para os membros do governo, porquanto Lisboa é o sítio onde “exercem funções governativas que, por natureza, são temporárias em sociedades democráticas”. Então ficamos assim.

O corte de 14,8% no rendimento anual bruto dos pensionistas, funcionários públicos e trabalhadores do sector empresarial do Estado serve para sustentar marajás?

LER: Naturalmente, num país civilizado, este já não brincava mais aos polícias e ladrões. Ia para casa brincar com soldadinhos de chumbo.

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HOMENAGEM


Eugénio Lisboa fez 80 anos em Maio de 2010. Por esse motivo, a Universidade de Aveiro promove hoje uma homenagem ao seu antigo professor. Às intervenções da praxe segue-se o lançamento (16:00h, no Auditório da Reitoria) de um Festschrift com 73 testemunhos: Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo. Uma Homenagem. O reitor Manuel António Assunção e os professores Otília Pires Martins e Onésimo Teotónio Almeida (Brown) são os anfitriões da celebração. A foto ao alto é de 1957.

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Sexta-feira, Outubro 21, 2011

EM CABO VERDE NÃO HÁ MARISCO?


Pergunta um leitor:

«Até quando vamos pagar o saque do BPN? O Dias Loureiro vive como um nababo em Cabo Verde, onde é conhecido por Rei, vem a Portugal quando lhe apetece (avião privado, chegada e partida de Tires), janta no Porto de Santa Maria com amigalhaços, e Vocês não piam

Resposta:

—  Destinatário errado.
—  Faça a pergunta às Cabritas, aos Cerejos e às Laranjos.
—  Mande dossiê ao cuidado de Marques Beria Mendes.
—  Cabo Verde, rei, avião, Porto de Santa Maria: onde a novidade?
—  Dias Loureiro é procurado pela Interpol?
—  O que há para piar?
—  A quem se refere quando diz Vocês...?

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CITAÇÃO, 386


Vasco Pulido Valente, Uma desgraça, hoje no Público. Excerto:

«A eleição do dr. Cavaco para Presidente da República foi uma das maiores desgraças que sucederam a Portugal e aos portugueses desde 2006. Mas foi pior do que uma desgraça, foi um erro. [...]»

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RUTA SEPETYS


Hoje no Público:


Ruta Sepetys é uma americana de origem lituana que se estreou este ano com um romance pungente acerca da violência exercida, durante a ocupação soviética, sobre centenas de milhares de lituanos. Inspirado na experiência de contemporâneos dos seus avós, O longo inverno mostra quão devastadoras foram as purgas estalinistas. No que à Lituânia diz respeito, entre 1940 e 1953 foram presos e deportados mais de trezentos mil nacionais.

A história do país é uma sucessão de rupturas: Estado independente até 1385, unido à Polónia de 1385 a 1918, de novo independente, ocupado pela Alemanha em 1939, anexado pela União Soviética em 1940 (ocupação que durou mais de 50 anos), independente mais uma vez a partir de 1991, embora o exército soviético ali permanecesse até Agosto de 1993.

Contudo, antes de ser outra coisa, O longo inverno é sobre o direito que temos à nossa própria identidade.

Lina Vilkas tinha 15 anos no dia em que foi deportada para a Sibéria: «Levaram-me em camisa de noite.» A ela, à mãe e ao irmão mais novo. Lina desconhece o paradeiro do pai, Kostas Vilkas, professor da universidade de Kaunas. Estamos em Junho de 1941. Quando recorda o que aconteceu nessa noite, tem presente o som dos punhos golpeando a porta. Os oficiais do NKVD (a polícia secreta de Estaline) deram vinte minutos para abandonarem a casa. Um desses oficiais apagou a beata acesa no chão imaculado da sala. Lina percebeu: «Estávamos prestes a transformar-nos em cigarros.» Antes de irem para o camião, a mãe esconde no casaco um maço de rublos e parte todos os cristais que tem em casa. «Destruíste propriedade soviética», grita um dos russos. Lina vê a mãe levar uma coronhada.

A sequência cronológica é entrecortada por pequenos trechos em itálico que fazem o flashback dos dias “antes dos russos”. Ruta Sepetys tem uma escrita que nunca se distrai do essencial. As seis semanas de viagem entre Kaunas e o campo de trabalho de Altai (na Sibéria) são descritos sem complacência pela voz de Lina. O comboio onde segue é um «caixão rolante». O buraco da latrina colectiva tem usos inesperados: serve para passar um naco de presunto ou fazer desaparecer o cadáver putrefacto de um bebé. Quando os cigarros acabam, Jonas (o irmão de Lina) e um amigo arrancam folhas dos Cadernos de Pickwick para enrolar tabaco. Lina fica irritada: ela gosta muito de Dickens e o livro tinha sido um presente da avó.

A meio do trajecto, numa paragem de rotina, Lina e o irmão encontram o pai. Kostas Vilkas está num dos vagões do “comboio dos homens”. O comboio de Lina só tem mulheres, velhos e crianças. Jonas e o rapaz de 17 anos que se tornou seu amigo escaparam do comboio dos homens porque as mães respectivas subornaram oficiais do NKVD, fazendo passar os filhos, à custa de rublos e jóias, por “atrasados”.

Quando chegaram a Altai foi como se tivessem saído de um «armário escuro». Iam ser vendidos como escravos. Se não tivessem sido deportados, Lina teria ido para uma escola de Arte. Mais de uma vez os seus desenhos (simbólicos ou literais) foram fonte de preocupação do pai e dos professores, sobretudo um, figurando Estaline num corpo de palhaço. Agora não. Os desenhos vão ser a sua arma: pode, com eles, enviar ao pai mensagens codificadas.

O tom narrativo isenta-se de harmónicas, a prosa martelada como numa peça dodecafónica. Lina não descreve uma viagem de recreio entre o Báltico e os Urais. Fala dos pais, do irmão, do amigo do irmão (e seu futuro marido), do velho delator, das mulheres com quem sobreviveu 42 dias no vagão de gado. Pessoas desapossadas das suas vidas, no limiar da indignidade.

O intervalo da unidade colectiva de produção de Altai dura 10 meses. A seguir é pior: em Trofimovsk, no Círculo Polar Ártico, a noite tem 180 dias. No horizonte, o mar de Laptev. Andrius, o amigo do irmão, ficou em Altai. Lina e Andrius estão apaixonados. Antes da morte da mãe tem notícia de que o pai morreu em Krasnoyarsk. Jonas sobrevive por milagre. O horror (violência, fome, frio, miasmas, doença) devém lugar-comum. A liberdade chega em 1953.

A edição portuguesa é a única que não respeita o título original da obra (algo como A vida em tons de cinza), traduzida em vários países, Brasil incluído.

Pesadelo dodecafónico, in Ípsilon, 21-10-2011, pp. 32-33. Quatro estrelas.

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REALPOLITIK


A imagem mostra Paulo Portas na companhia de Mustafa Abdeljalil,  presidente do Conselho Nacional de Transição da Líbia. Quanto tempo vai ser preciso esperar até que este retrato do ministro dos Negócios Estrangeiros seja usado como arma de arremesso?

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RATAZANA, DIZ O CNT


O famoso buraco onde Kadhafi foi encontrado. Os grafitos dizem ratazana. A foto é de David Sperry para a Associated Press. Clique para ver melhor.

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Quinta-feira, Outubro 20, 2011

MUAMMAR KADHAFI 1942-2011


Parece confirmada a morte de Kadhafi. Este é o buraco onde o líder líbio estaria no momento da detenção. A sua morte poupa-nos à fantochada de um julgamento para tv ver. Agora os líbios vão ser muito felizes. A iconografia camp é que ficou mais pobre.

[Imagem: Philippe Desmazes, Guardian.]

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OS DIAS DO FIM


Atenas continua a ferro e fogo. O espaço aéreo grego foi encerrado. A polícia de choque ataca com gás lacrimogéneo os manifestantes da Praça Syntagma, onde duzentas mil pessoas estão dispostas a tudo. E nós por cá? Nós por cá brincamos aos postites.

[Imagem: Panagiotis Tzamaros, Guardian.]

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TITUS MÜLLER


Hoje na Sábado escrevo sobre A Jesuíta de Lisboa, oitavo romance histórico do alemão Titus Müller (n. 1977), várias vezes premiado. O livro pretende ser uma reflexão sobre a influência da Companhia de Jesus na vida portuguesa do século XVIII. Como não li o original, não posso garantir que o emperramento da estrutura sintáctica seja consequência da tradução. Em todo o caso, faz-me confusão que o tradutor escreva escuma na terceira linha do 1.º parágrafo e espuma na oitava. (São sinónimos, mas um romance não é um prontuário ortográfico.) Também desconsola ver o verbo vicejar aplicado indiscriminadamente a jardins e a... “fileiras de casas”.

Escrevo ainda sobre A Curva do Rio, de V.S. Naipaul (n. 1932), escritor britânico descendente de uma família indiana emigrada em Trinidad and Tobago. A primeira vez que o livro foi publicado em Portugal (1981) ainda Naipaul não tinha ganho o Nobel da Literatura, o que só aconteceu em 2001. Muito resumidamente, podemos dizer que A Curva do Rio subsume uma visão sarcástica da africanidade. O Grande Chefe citado no livro é um decalque de Julius Nyerere, primeiro presidente da Tanzânia e fundador do campus universitário onde os tanzanianos confrontam a sua cultura com os dogmas do marxismo. Notável!

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Quarta-feira, Outubro 19, 2011

CITAÇÃO, 385


Pedro Lains, Uma carta fora do baralho, hoje no Negócios. Excertos, sublinhados meus.


«Afinal, Portugal não é a Grécia. É o Chile. De há 30 anos. Não vamos apenas recuar no rendimento per capita, mas também na História, na integração europeia e, seguramente, na qualidade da democracia. Em prol de quê?  —  Em prol de uma fé. E a troco de quê?  —  A troco de uma mão cheia de nada.

[...] Os ministros das Finanças europeus são políticos, não teóricos e sobretudo não teóricos da fasquia dos 5%, brilhantes, é certo, de Vítor Gaspar. Quanto muito chegam a governadores de bancos centrais. Tivemos azar.

E tivemos azar por culpa de muita gente e, em última análise, do actual primeiro-ministro. Ele ouviu à saciedade que era preciso “mudar o rumo”, que vivíamos “acima das possibilidades”, que era preciso um “corte radical com o passado”. E acreditou nisso tudo. Primeiro, acreditou nas “gorduras do Estado”  —  até ver que as havia, mas que eram macroeconomicamente marginais. Ficou sem eira nem beira.

[...] O plano de Vítor Gaspar já chocou muita gente, porque é chocante. E não o fez só à esquerda, pois o PSD também ficou chocado e muito. Mas não se consegue mexer. Nem o PS. A principal razão porque o plano é chocante é que ele assenta numa carta que não estava no baralho: a contracção sem limites de salários  —  e mais aumento de impostos. Assim qualquer um sabe governar.

Passos Coelho não parece ter percebido o que se estava a passar, como revelam duas das suas declarações. A primeira foi quando disse que os funcionários públicos “ganham mais 10 a 15% que trabalhadores privados”. Sim, ganham, mas não todos e porque os de rendimentos mais baixos ganham mais e as mulheres ganham o mesmo que os homens.

[...] A segunda foi quando disse que a medida era para dois anos, o que o ministro das Finanças prontamente desmentiu. Obviamente. Um choque destes para durar tem de durar. Não há milagres.

[...] voltemos ao Chile. Nos anos 1980, um grupo de rapazes de Chicago entrou pela ditadura chilena adentro e “cortou com o passado”, fazendo um “ajustamento profundo”. Os pormenores não cabem aqui, mas quatro questões importantes cabem: o país era então uma ditadura; não estava integrado num espaço económico e monetário alargado; havia uma enorme taxa de inflação; e os mercados internacionais não estavam de rastos. E o desemprego subiu a perto de 25%, sem subsídios, claro, que isso é para os preguiçosos.

A estratégia de Vítor Gaspar, sufragada por Passos Coelho, é profundamente desactualizada e mesmo errada. Ela insere-se num quadro mental em que os gastos do Estado provocam inflação, quando estamos numa fase de baixíssima inflação; pressupõe o financiamento nos mercados internacionais de capitais, quando estes estão retraídos em todo o Mundo.

Há alternativa? Claro que há. A Europa não se gere pelos 5% de ideias económicas que infelizmente foram parar ao Ministério das Finanças. Nem de perto, nem de longe. Passos Coelho tem muito que aprender. Já está é a ficar sem tempo para o fazer. Vítor Gaspar tem um bocado de razão em pensar como pensa. É isso que acontece sempre, entre economistas. Mas deitou essa razão por borda fora, ao ir tão longe, tão fora da realidade do país, do euro e da Europa. Precisamos de recentrar o País, para o que convém começar por reconhecer as causas das coisas.»

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OS DIAS DO FIM


Em Atenas luta-se na rua. Com o país paralisado por nova greve geral, desta vez por 48 horas (os hospitais fecharam as urgências, as farmácias não abriram, os aeroportos e os portos estão encerrados, os transportes públicos apenas transportam pessoas para a Praça Syntagma, os hotéis estão barricados, as embaixadas protegidas pelo exército, etc.), como é que Papandreou ainda não caiu? E os deputados gregos: não têm vergonha na cara? Vão prolongar a fantochada até serem corridos à paulada?

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IMPERDÍVEL


Para atenuar a desgraça, valha-nos Weeds, cuja 7.ª temporada a RTP-2 começou ontem a exibir. Mary-Louise Parker continua imbatível. Terças às 22:55h. Absolutamente para adultos.

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INIQUIDADE FISCAL


Hoje, no fim da sessão de abertura do IV Congresso Nacional dos Economistas, o Presidente da República afirmou:

«A suspensão dos subsídios de férias e de Natal da administração pública e dos pensionistas viola o princípio básico de equidade fiscal. Mudou o Governo, mas eu não mudei de opinião. Já o disse anteriormente e posso dize-lo outra vez: é a violação de um princípio básico de equidade fiscal. Não estou a dizer-vos nada de novo. Era a posição que eu já tinha quando o anterior Governo fez um corte nos vencimentos dos funcionários públicos, os livros ensinam-nos quais são os princípios básicos de equidade fiscal e é sabido por todos que estudam esses livros que a regressão de vencimentos ou de pensões a grupos específicos é um imposto.»

Cavaco Silva disse ainda esperar que a discussão do OE 2012 no Parlamento possa clarificar a situação: «Vamos esperar pelo debate que agora vai ter lugar no sítio certo, que é a Assembleia da República.»

Isto é muito bonito mas devia ser dito em comunicação ao país.

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SEM VASELINA É QUE É BOM


Foi tão bom chumbar o PEC IV e correr com o Sócrates, não foi? Agora sem vaselina dá muito mais gozo! Clique na imagem do i para ler melhor.

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DESFAÇATEZ IN PROGRESS


A possibilidade de trabalhar mais meia hora por dia, inscrita no OE 2012, andou meses a ser preconizada pelos tenores do establishment. E foram tantos que me dispenso de citar nomes, até porque não quero misturar arrivistas com gente séria. Nesse particular, o governo mais não fez do que pôr em letra de forma o choradinho patronal. Não contente com o facto de reduzir os salários a centenas de milhares de trabalhadores (obrigando-os a trabalhar mais três horas por semana com o mesmo salário), eis senão quando o patrão dos patrões, sr. António Saraiva, diz ao Negócios: «A questão da meia hora foi a maneira que o Governo encontrou, sem falar com ninguém. [...] Esquece-se é que a operacionalização é complicada, nomeadamente em empresas com turnos rotativos. Deixemo-nos de fantasias, dispenso a medida se derem três ou quatro feriados e 3 dias de férias.» Por este andar, não tarda, vão propor a instituição da farda no local de trabalho.

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Terça-feira, Outubro 18, 2011

O PREC DA DIREITA


Não foi por acaso que o governo escolheu a fórmula da eliminação dos subsídios de férias e de Natal dos pensionistas, funcionários públicos e trabalhadores do sector empresarial do Estado. Esta fórmula permite duas coisas. Primeiro, deixar de fora quem não aufere esses subsídios. É o caso, entre outros, dos políticos (antigos deputados, etc.) com direito a pensão vitalícia. Um político com pensão vitalícia não é um pensionista tout court, embora a sua renda saia do mesmo saco. Depois, e talvez mais importante, a fórmula permite que daqui a quatro ou cinco meses o governo promova cortes nos vencimentos e salários com o argumento de que ainda não o havia feito.

Se o governo fosse uma pessoa de bem, tinha inscrito a medida como “corte de 14,8% no rendimento anual bruto” dos pensionistas, funcionários públicos e trabalhadores do sector empresarial do Estado que auferem vencimentos e salários de valor igual ou superior a mil euros por mês. Mas ficava com margem de manobra reduzida para efectuar novos cortes.

Outra fórmula esdrúxula: «Os vencimentos situados entre o salário mínimo e os 1000 euros serão sujeitos a uma taxa de redução progressiva, que corresponderá em média a um só destes subsídios.» Mas, nas quase três horas de tempo de antena de que dispôs  —  conferência de imprensa no ministério das Finanças e monólogo na RTP  —, Vítor Gaspar não referiu o coeficiente dessa taxa. A SIC diz que é 0,94175. É só fazer contas.

Voltando ao tempo de antena: o ministro das Finanças disse que o esforço ia durar «vários anos». Só eu é que ouvi? A gravação está disponível em vários suportes, mas a imprensa continua a bater na tecla 2012-13.

Tudo ponderado, espero que cada deputado do Partido Socialista esteja à altura da sua responsabilidade individual, votando contra o OE 2012, mesmo que o seu voto colida com o Diktat partidário.

[Foto de e roubada ao Luis M. Jorge.]

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Segunda-feira, Outubro 17, 2011

CITAÇÃO, 384


André Freire, Guerra aos servidores públicos, aos pensionistas e à economia, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:

«Estas medidas [...] representam um monumental embuste face ao que o PSD sempre defendeu no passado ano e meio. [...] O primeiro-ministro ainda disse que cortou [...] nos salários dos servidores públicos porque a média salarial na FP é 15 por cento superior, em média, à dos salários do privado, e porque o corte na FP ajuda ao défice, no sector privado não. Esta argumentação não é séria. Primeiro, porque para uma comparação rigorosa teria de manter-se constante o nível de qualificações: sabemos que a estrutura qualificações da população activa é muito baixa e que é no sector público que se concentram as maiores qualificações (professores, médicos, juízes, magistrados, investigadores, profissões científicas e técnicas). Ao contrário das carreiras pouco exigentes de certos políticos, que passaram das “jotas” para o Parlamento e depois para a administração de empresas de amigos políticos, é na alta administração que se concentram as carreiras mais exigentes, seja em termos de entrada, seja em termos de progressão. [...] Estas medidas [...] radicam num profundo ódio ideológico aos servidores públicos. [...]»

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POBREZINHOS E AGRADECIDOS


Se não houver uma surpresa de última hora, o Orçamento de Estado para 2012 é hoje entregue na Assembleia da República. Não deixa de ser uma ironia que isso aconteça no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. É bom lembrar que 15% da população portuguesa sobrevive com pensões de invalidez e velhice de valor inferior ao salário mínimo. Estamos a falar de 1,5 milhões de pessoas. Isto são números oficiais referentes à realidade em 2010. Os mesmos números dizem-nos que meio milhão de portugueses recebe o Rendimento Social de Inserção, sendo que 47% desses beneficiários tem menos de 25 anos. Em 2009, Portugal estava em 9.º lugar na lista dos países da UE com a mais alta taxa de risco de pobreza. De acordo com os parâmetros estabelecidos, consideram-se pobres, em Portugal, aqueles que têm um rendimento mensal bruto de 400 euros.

É clara a mensagem do OE 2012: é preciso restaurar o hábito cristão de dar esmola à saída da missa!

O governo prepara-se para cortar cerca de 15% ao rendimento anual bruto dos pensionistas, bem como ao dos funcionários públicos e dos trabalhadores do sector empresarial do Estado.

Quando Passos Coelho refere a «eliminação dos subsídios de férias e de Natal para todos os vencimentos dos funcionários da Administração Pública e das Empresas Públicas acima de 1000 euros por mês...», bem como para «quem tem pensões superiores a 1000 euros por mês...», elide o essencial: subsídios de férias e de Natal é um eufemismo. Pensões, vencimentos e salários de valor igual ou superior a 1000 euros vão sofrer um corte de cerca de 15%. Ponto.

Sabe-se que Vítor Gaspar, o ministro das Finanças, propôs em Conselho de Ministros um corte de 14% em todos os vencimentos de valor igual ou supetior a 485 euros. Aos privados seria aplicada uma sobretaxa de IRS igual à que vigorará para o subsídio de Natal de 2011. Passos optou pela versão “subsídios”. Na cabeça dos direitolas, um “subsídio” é um extra descartável. Por outro lado, começando pelos “subsídios”, nada impede o governo de vir a cortar (será mais depressa do que possa parecer) nos vencimentos e salários. É só o tempo de inventar outro buraco. Não chegaremos ao Carnaval sem um corte nos vencimentos e salários de valor igual ou superior a 700 euros. Vai uma aposta?

Aliás, revela o Expresso de anteontem, membros do governo terão feito notar que a função pública não é a base eleitoral deste governo. Com efeito, a base eleitoral deste governo são aqueles cavalheiros (esta parte não vem no Expresso) que têm sinecura nas empresas do PSI-20, os quais, de cada vez que participam nas respectivas assembleias-gerais, na qualidade de administradores não-executivos, auferem montantes obscenos. A média é de 5 mil euros por reunião, mas há quem receba 16 mil! A maioria salta de televisão em televisão a dizer que vivemos acima das nossas posses.

A partir daqui, é consigo.

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CITAÇÃO, 383


Pedro Adão e Silva, Já somos a Grécia. Excerto:

«Até há dias, a estratégia do governo passava por diferenciar Portugal da Grécia. Paradoxalmente, para evitar sermos vistos como a Grécia, a solução agora proposta é a mesma que levou ao descalabro económico e social que se vive nas ruas de Atenas. [...]»

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HOLLANDE


Este homem é o próximo presidente da República Francesa. François Hollande tem 57 anos, uma longa carreira política (é deputado desde 1988), e quatro filhos de Ségolène Royal, com quem viveu quase 30 anos, entre Novembro de 1978 e Junho de 2007. Ontem, au moment où la France accuse 1600 milliards d'euros de dettes et est menacée à la moindre incartade de perdre son triple A, Hollande ganhou a segunda volta das primárias com 57% dos votos.

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Domingo, Outubro 16, 2011

DOP


Na estrada rente ao Douro que separa a Régua do Pinhão, mais precisamente na Folgosa, o DOC é um lugar de eleição. Mas o concelho de Armamar não fica ali ao virar da esquina. Deve-se por isso fazer notar que o Porto tem  DOP, sob a batuta do mesmo chef Rui Paula. Fica no Palácio das Artes, no Largo de São Domingos. A imagem é do rés-do-chão, onde a interdição de fumo é total. No mezanino pode dar largas ao vício.

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Sábado, Outubro 15, 2011

SARDÃO & PASSARINHA


Fugir ao calor e aos miasmas de Lisboa.

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Sexta-feira, Outubro 14, 2011

TRAPALHADA


Quem conhece o estado das contas públicas ficou boquiaberto ao ouvir ontem Passos Coelho referir um desvio orçamental de 3 mil milhões de euros. Foram vários os economistas que desmontaram a trapalhada. Na Quadratura do Círculo era visível o incómodo de Pacheco Pereira.

Sobre o assunto, Pedro Marques, deputado do PS, fez mesmo uma pequena cábula:

«O PM justificou esta brutalidade à grega com um desvio de 4.000 milhões. Mas a diferença entre o acordado com a Troika e os 7.000 milhões que o INE reportou para o 1.º semestre são 1.600 milhões. E esquece-se que estão lá, nessa diferença, 600 milhões da Madeira, que não se repetem, logo não justificam cortes adicionais para 2012. E faltam no 1.º semestre os 600 milhões de receitas de vendas de concessões de 4G e Barragens, previstas no OE; logo, isto também não é desvio, é para cobrar no 2.º semestre. A haver diferença, ela é de um décimo do que referiu Pedro Passos Coelho, e igual à dotação provisional de despesa, que pode ser usada, e não aumenta o défice. [...]»

O Instituto Nacional de Estatística não confirma o número avançado pelo primeiro-ministro.

Amadeu Altajaf, porta-voz da Comissão Europeia, também não. Ou seja, a natureza do desvio não é da responsabilidade do anterior governo e a Comissão Europeia deixou isso claro.

Aqui, o João Galamba explica.

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MENTIRAS, SUOR & BURACOS


Passos Coelho tem um fétiche com o dia 13. A 13 de Julho afirmou no Conselho Nacional do PSD que o seu Governo tinha encontrado um desvio colossal em relação às metas estabelecidas para as contas públicas. A 13 de Outubro afirmou em statement público: «Quando fui eleito Primeiro-Ministro nunca pensei que tivesse de anunciar ao País medidas tão severas e tão difíceis de aceitar

Sob pena de ter de traduzir o desvio colossal por miúdos, o ministro das Finanças teve a habilidade de afirmar que a frase fora citada fora de contexto: Existem duas palavras: a palavra desvio e a palavra colossal. Entre uma e outra foram pronunciadas mais. Os senhores jornalistas citaram apenas a primeira e a última. Mais vírgula menos vírgula foi isto que Vítor Gaspar disse, abrindo os braços entre desvio e colossal.

Ontem, para justificar o injustificável, Passos Coelho dramatizou a derrapagem do primeiro semestre de 2011 como se essa derrapagem fosse uma novidade. O Documento de Estratégia Orçamental, conhecido há semanas, era claro a tal respeito: a despesa desceu, a receita foi inferior ao previsto.

Por este andar andaremos de revelação em revelação: desvio colossal, buraco da Madeira, buraco das empresas de transportes, derrapagem semestral, etc. Nada garante que, daqui a três meses, o governo não descubra novo buraco. Nessa altura, o tecto de mil euros baixa para 750. Depois, mas ainda a tempo do processamento do próximo subsídio de férias, para 500. E assim sucessivamente.

Naturalmente, ninguém fingiu sequer beliscar a Banca.

Em contrapartida, o governo mandou os desempregados às malvas. Podendo aumentar a carga horária até três horas por semana, para quê novas admissões?

Como é óbvio, o Presidente da República poderá continuar a acumular o vencimento do cargo com três pensões de reforma.

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CITAÇÃO, 382


João Pinto e Castro, Trabalhar mais para quê? Princípio e fim:

«Uma ideia nova com barbas: aumentar os horários de trabalho, como alternativa a baixar os salários, porque isso permitiria aumentar a produtividade e a competitividade das empresas. [...] Em compensação, a decisão cairá bem no goto dos ignorantes que julgam que trabalho produtivo equivale a suor, esquecendo que em Portugal (e, em particular, nas atividades de serviço, onde há menos fiscalização) já se trabalha demasiado tempo

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Quinta-feira, Outubro 13, 2011

O SPEECH


Excertos do discurso do primeiro-ministro:

[...] O Estado depende em absoluto da assistência externa para cumprir as suas funções básicas, desde o pagamento de salários a enfermeiros, professores ou polícias, até à realização das mais variadas prestações sociais.

[...] Para contrariar o risco da deterioração económica, incluindo uma contracção profunda e prolongada do nosso produto e do nosso tecido empresarial, o Governo decidiu permitir a expansão do horário de trabalho no sector privado em meia hora por dia durante os próximos dois anos, e ajustar o calendário dos feriados.

[...] É a pensar na conjugação das necessidades financeiras com a prioridade do emprego que o orçamento para 2012 prevê a eliminação dos subsídios de férias e de Natal para todos os vencimentos dos funcionários da Administração Pública e das Empresas Públicas acima de 1000 euros por mês. Os vencimentos situados entre o salário mínimo e os 1000 euros serão sujeitos a uma taxa de redução progressiva, que corresponderá em média a um só destes subsídios.

[...] No orçamento para 2012 haverá cortes muito substanciais nos sectores da Saúde e da Educação.

[...] Uma vez mais de acordo com o Memorando de Entendimento, serão eliminadas as deduções fiscais em sede de IRS para os dois escalões mais elevados, e os restantes verão reduzidos os limites existentes.

[...] No caso do IVA, teremos de obter mais receitas do que o que estava desenhado no Memorando de Entendimento. Para este efeito, o orçamento para 2012 reduz consideravelmente o âmbito de bens da taxa intermédia do IVA, embora assegure a sua manutenção para um conjunto limitado de bens cruciais para sectores de produção nacional, como a vinicultura, a agricultura e as pescas.

[...] Tal como para os salários da Administração Pública e das Empresas Públicas, teremos de eliminar os subsídios de férias e de Natal para quem tem pensões superiores a 1000 euros por mês. As pensões abaixo deste valor e acima do salário mínimo sofrerão em média a eliminação de um só destes subsídios.

[...] Mas não prescindimos do nosso compromisso de descongelar as pensões mínimas e actualizá-las

O resto é patois.

(A propósito: o que é uma pensão mínima?)

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DULCE MARIA CARDOSO


Hoje na revista Sábado escrevo sobre O Retorno de Dulce Maria Cardoso (n. 1964), romance sobre o êxodo dos portugueses de Angola, construído na forma de monólogo interior de um adolescente que capta os sons da revolta e o medo dos desapossados. O tema não é novo na literatura. No que a Moçambique respeita, A Sombra dos Dias (1981), de Guilherme de Melo, fixou o género. O alto conseguimento literário da autora resgata o romance da sobrecarga ideológica. O Retorno inaugura a colecção de ficção da Tinta da China.

Escrevo ainda sobre Se eu fechar os olhos agora, do brasileiro Edney Silvestre (n. 1950). Com este romance, Silvestre ganhou o Prémio Jabuti 2010, o tal que acabou nas mãos de Chico Buarque, dando origem ao movimento Chico, devolve o Jabuti! (o escândalo levou à mudança das condições da outorga). Editado pela Planeta, Se eu fechar os olhos agora é um thriller que mistura violência, sexo e política em doses homéricas. Prenúncio dos anos de chumbo que estavam a chegar, o romance tem acção centrada em 1961, o ano em que o Brasil teve um presidente comunista.

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