CIDADÃOS
Agora que o n.º 105 / Setembro chegou aos quiosques e livrarias, deixo aqui a crónica Cidadãos, publicada no n.º 104 na minha coluna da LER, Heterodoxias:
Tenho lido bastante sobre a Revolução Francesa, período que sempre me fascinou. O essencial: Philippe Sagnac, George Lefebvre e Eric Hobsbawm. Agora estou rendido a Simon Schama (n. 1945), historiador britânico que a BBC popularizou em todo o mundo por causa da sua History of Britain em quinze partes. Autor de vasta bibliografia, Schama escreve para televisão (séries históricas) e é crítico de arte da New Yorker. Em Portugal foram traduzidos e publicados pela Civilização dois dos seus livros mais conhecidos: Cidadãos (1989) e O Futuro da América (2008).
Falemos do primeiro.
Um erudito dirá: se leu Sagnac, Fefebvre e Hobsbawm, leu quase tudo o que havia para ler sobre a Revolução. Para quê Schama? Ora bem, porque Schama faz a síntese de Mounier e Talleyrand. Cidadãos foi publicado no ano do bicentenário da Revolução, com manifesto desagrado dos historiadores marxistas (um deles Hobsbawm) que não lhe perdoam ter iluminado as “coisas erradas”. Defendendo o ponto de vista de que a violência é intrínseca à Revolução, Schama viu-se rotulado de direita e acusado de pertencer «ao ninho de víboras que tinha gerado as efusões reaccionárias de Burke, Taine e Carlyle.» Mais: «Amigos que tinham sido próximos deixaram de me falar.» Sempre na vanguarda, a crítica francesa chamou-lhe reaganista, ignorando decerto as conclusões do Catéchisme Révolutionnaire de Furet.
Schama não esquece a experiência de um seminário sobre a Revolução Francesa conduzido por Richard Cobb no Balliol College de Oxford: o autor de Terreur et subsistances, 1783-1795 nutria um profundo desprezo pelas convenções académicas. Não por acaso, Cidadãos tem como subtítulo Uma Crónica da Revolução Francesa. Mas lá onde Cobb carrega a realidade social (raiva, dor e fome) a traço grosso, Schama diz com ênfase que a Revolução foi «movida pela linguagem». Do mesmo passo, contrapõe o conservadorismo da «fúria revolucionária» dos sans-culottes a certos aspectos inovadores do Antigo Regime, a despeito da «indiferença brutal» que votava aos desfavorecidos. O exemplo do Irão de 1979 é sintomático... Frase fatal: «A violência foi a Revolução.» Os deterministas não gostaram. Slavoj Zizek também não. Qual dos dois, Shama ou Zizek, subiria primeiro para «a carroça destinada à guilhotina moderna»?
A violência no centro do poder revolucionário deveio interdito: «há vinte anos, colocar a raiva física, o castigo exemplar e a crueldade enlouquecida no âmago da acção revolucionária como se faria sem hesitar no caso da Rússia Soviética ou da China Comunista, era impensável, uma profanação do cânone. Porque o cânone dizia que o Terror jacobino fora uma deformação lamentável... de 1789, o ano a celebrar.» O estado da justiça durante o Terror (eram cada vez mais os que ficavam de fora da classificação de cidadãos) é o tropo da obra. Em suma, Schama quer «proximidade e não distanciamento; espectáculo e não ciência social; queria plantar nas páginas uma espécie de incerteza rodopiante...» A coreografia dialéctica dos grupos sociais dá lugar a pessoas concretas.
O leitor português encontra semelhanças entre o Verão francês de 1788 e o Verão português de 2011: «No dia 16 de Agosto de 1788, em Paris, o Crédito morreu e a sua morte instalou o pânico no gigantesco mercado do papel governamental.» A subida em flecha do preço do pão incendeia Paris. Falta menos de um ano para 14 de Julho de 1789 mas, como deixou escrito Madame de La Tour du Pin, «rimos e bebemos até à beira do precipício.» Nada voltou a ser como dantes.

















































