Quarta-feira, Agosto 31, 2011

CIDADÃOS


Agora que o n.º 105 / Setembro chegou aos quiosques e livrarias, deixo aqui a crónica Cidadãos, publicada no n.º 104 na minha coluna da LER, Heterodoxias:


Tenho lido bastante sobre a Revolução Francesa, período que sempre me fascinou. O essencial: Philippe Sagnac, George Lefebvre e Eric Hobsbawm. Agora estou rendido a Simon Schama (n. 1945), historiador britânico que a BBC popularizou em todo o mundo por causa da sua History of Britain em quinze partes. Autor de vasta bibliografia, Schama escreve para televisão (séries históricas) e é crítico de arte da New Yorker. Em Portugal foram traduzidos e publicados pela Civilização dois dos seus livros mais conhecidos: Cidadãos (1989) e O Futuro da América (2008).

Falemos do primeiro.

Um erudito dirá: se leu Sagnac, Fefebvre e Hobsbawm, leu quase tudo o que havia para ler sobre a Revolução. Para quê Schama? Ora bem, porque Schama faz a síntese de Mounier e Talleyrand. Cidadãos foi publicado no ano do bicentenário da Revolução, com manifesto desagrado dos historiadores marxistas (um deles Hobsbawm) que não lhe perdoam ter iluminado as “coisas erradas”. Defendendo o ponto de vista de que a violência é intrínseca à Revolução, Schama viu-se rotulado de direita e acusado de pertencer «ao ninho de víboras que tinha gerado as efusões reaccionárias de Burke, Taine e Carlyle.» Mais: «Amigos que tinham sido próximos deixaram de me falar.» Sempre na vanguarda, a crítica francesa chamou-lhe reaganista, ignorando decerto as conclusões do Catéchisme Révolutionnaire de Furet.

Schama não esquece a experiência de um seminário sobre a Revolução Francesa conduzido por Richard Cobb no Balliol College de Oxford: o autor de Terreur et subsistances, 1783-1795 nutria um profundo desprezo pelas convenções académicas. Não por acaso, Cidadãos tem como subtítulo Uma Crónica da Revolução Francesa. Mas lá onde Cobb carrega a realidade social (raiva, dor e fome) a traço grosso, Schama diz com ênfase que a Revolução foi «movida pela linguagem». Do mesmo passo, contrapõe o conservadorismo da «fúria revolucionária» dos sans-culottes a certos aspectos inovadores do Antigo Regime, a despeito da «indiferença brutal» que votava aos desfavorecidos. O exemplo do Irão de 1979 é sintomático... Frase fatal: «A violência foi a Revolução.» Os deterministas não gostaram. Slavoj Zizek também não. Qual dos dois, Shama ou Zizek, subiria primeiro para «a carroça destinada à guilhotina moderna»?

A violência no centro do poder revolucionário deveio interdito: «há vinte anos, colocar a raiva física, o castigo exemplar e a crueldade enlouquecida no âmago da acção revolucionária como se faria sem hesitar no caso da Rússia Soviética ou da China Comunista, era impensável, uma profanação do cânone. Porque o cânone dizia que o Terror jacobino fora uma deformação lamentável... de 1789, o ano a celebrar.» O estado da justiça durante o Terror (eram cada vez mais os que ficavam de fora da classificação de cidadãos) é o tropo da obra. Em suma, Schama quer «proximidade e não distanciamento; espectáculo e não ciência social; queria plantar nas páginas uma espécie de incerteza rodopiante...» A coreografia dialéctica dos grupos sociais dá lugar a pessoas concretas.

O leitor português encontra semelhanças entre o Verão francês de 1788 e o Verão português de 2011: «No dia 16 de Agosto de 1788, em Paris, o Crédito morreu e a sua morte instalou o pânico no gigantesco mercado do papel governamental.» A subida em flecha do preço do pão incendeia Paris. Falta menos de um ano para 14 de Julho de 1789 mas, como deixou escrito Madame de La Tour du Pin, «rimos e bebemos até à beira do precipício.» Nada voltou a ser como dantes.

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LER 105


A LER  n.º 105 chega amanhã às bancas e livrarias. João Pombeiro, anterior editor-executivo, assume a partir deste número a direcção da revista. O Acordo Ortográfico chegou com ela. Num longo ensaio, Fernando Venâncio desmonta com método a grande falácia. A minha crónica deste mês, A exaustão do Tesouro, respeita essa norma. Aqui no blogue continuarei, não sei por quanto tempo, a escrever em antigo. Logo se vê.

Sobre este número de Setembro. Carlos Vaz Marques entrevista Mário Cláudio: uma trapalhada enorme à volta de quem é ou deixa de ser o sujeito do livro mais recente, Tiago Veiga. Diz Cláudio: «Acho que é um livro realmente grande, em vários sentidos. [...] Acho que o adjetivo adequado para este livro é avassalador.» Fiquei impressionado. Não li o livro. Telefonei a sete escritores, sete (seis de Lisboa e um do Porto), e ninguém sabia do que eu estava a falar. OK. A entrevista está cheia de recados, todos sem nome, «Porque isso se paga muito caro, normalmente.» E eu a pensar que um homem de 70 anos, com o Prémio Pessoa no bolso, tinha a liberdade de dizer o que pensa. Ainda por cima em assunto de pouco melindre: os novos. OK. A parte que realmente me encanitou foi esta: em Lisboa, «andam muito acavalados uns nos outros. Mas a verdade é que o clima que se respira entre eles é pouco saudável. O ar é muito poluído.» Engraçado nunca ter dado pelo encavalitanço. Se calhar estas coisas passam-se no Licorista, onde debutarei daqui a dias. Se for, conto.

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PAGA QUEM PODE OBEDECE QUEM DEVE


O ministro das Finanças anunciou esta tarde: a) Uma taxa adicional de 2,5% para os contribuintes com rendimentos mais elevados; b) Uma taxa de 3% para empresas com lucros superiores a 1,5 milhões de euros; c) Subida das mais-valias mobiliárias de 20 para 21%; d) Os contribuintes com rendimentos de valor igual ou superior a 66 mil euros anuais deixarão de poder fazer deduções com despesas de saúde, educação e prestação da casa. Uma das razões para o chumbo do  PEC IV. Então ficamos assim.

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A TRETA


Este gráfico do Público não podia ser mais oportuno.
Clique e pense nisso.

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Terça-feira, Agosto 30, 2011

RECUO, OF COURSE


Crato recuou. Entre o Círculo Eça de Queiroz e a praia dos Tomates correm várias hipóteses: a) Mário Nogueira ameaçou fazer-se explodir no Starbucks do Rossio; b) Maria Filomena Mónica ameaçou com uma tesoura de jardinagem; c) Medina Carreira fez constar que daria uma entrevista em directo na Al Jazeera. Clique na imagem para ler melhor a manchete do Público.

Isabela, podes partir descansada para Notre Dame.

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ÁLVARO ATENTO AOS POBREZINHOS


A partir de quinta-feira, 1 de Setembro, começam a ser vendidos passes sociais de valor reduzido. Em Lisboa, a bonificação máxima corresponde a 18,35 euros (no L123). No Porto, o Z8 tem uma redução de 19,45 euros, e o Z9 de 21,50. Em famílias de 4 e 5 pessoas torna-se significativo. As bonificações ficam limitadas a quem aufira um rendimento anual bruto de valor igual ou inferior a 7630 euros, ou seja, 545 euros vezes 14 meses. As bonificações desaparecem nos passes intermodais de utilização múltipla.

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Segunda-feira, Agosto 29, 2011

O TRIVIAL


O Diário de Notícias traz hoje na primeira página o retrato de dezasseis homens que se dizem escutados. Ninguém quer saber de conversa de mulheres. Escutados: três deputados (Seguro e outros dois), o inevitável Capucho, um escritor do Porto, dois jornalistas, um consultor de comunicação, o Bastonário dos advogados, um juiz, um empresário, etc. O trivial.

Não percebo o escândalo. Desde o famoso caso das escutas do processo Casa Pia que toda a gente sabe que todos escutam todos. Lembram-se com certeza das cassetes roubadas em 2004 a Octávio Lopes, repórter do Correio da Manhã. Adelino Salvado, desembargador, foi alvo de processo disciplinar mandado instaurar pelo Conselho Superior da Magistratura. As conclusões levaram à sua saída da Direcção Nacional da Polícia Judiciária. Sara Pina, assessora de imprensa de José Souto Moura, então Procurador-Geral da República, também foi exonerada. À época, os jornais diziam (e os comentadores arrancavam as vestes) que havia cinco mil pessoas sob escuta. Ninguém desmentiu. Depois chegou Sócrates, o malandro, e o Mal transferiu-se para o palacete que Joaquim Machado Cayres mandou construir para sua residência em 1877.

Agora, o DN ressuscita o fantasma das escutas. Ser escutado é uma espécie de garantia de acesso ao Who’s Who doméstico. Única certeza: a cada dia que passa torna-se mais evidente o peso das recentes contratações para o balneário da Gomes Teixeira.

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PELA BOCA MORRE O PEIXE


Durante seis anos, dezenas de bloggers, da direita à esquerda, viveram à custa do mito dos assessores. Pacheco Pereira deu o mote e eles foram atrás de rabo alçado. Pacheco, que domina bem a psicologia comportamental, gozou à brava. Agora que o passismo tomou as rédeas do poder, netos de Maurras e de Beria assessoram de mãos dadas. À custa dos nossos impostos, como eles diziam. Não tem mal, nem tem bem. É-me completamente indiferente o sucesso (ou insucesso) profissional de tais criaturas. Em todo o caso, não deixa de ser sintomático que o Câmara Corporativa  —  será financiado pelo SIED?  —  continue de boa saúde e que o Albergue Espanhol tenha declarado insolvência.

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Domingo, Agosto 28, 2011

WEST WING


Lembram-se do coro dos Tonton Macoute? Do emagrecimento do Estado? Em dois meses, o governo contratou 500 pessoas para os gabinetes ministeriais. E o Crespo não convida Medina Carreira para comentar?

Entre assessores, especialistas, arrastadeiras, secretárias e motoristas, veja alguns exemplos:

Pedro Passos Coelho / 40 contratações
José Pedro Aguiar-Branco, Defesa / 24
Pedro Afonso de Paulo / sec Ambiente e Ordenamento / 19
Francisco José Viegas / sec Cultura / 19
Paulo Macedo, Saúde / 18
Miguel Macedo, Polícias / 16
Miguel Relvas, Propaganda / 15
Álvaro Santos Pereira, Economia / 15
Assunção Cristas, Agricultura / 14
Paulo Portas, Negócios Estrangeiros / 13
Fernando Leal da Costa / sec Adjunto do ministro da Saúde / 13
Vítor Gaspar, Finanças / 12
Nuno Crato, Educação / 12
Carlos Moedas / sec Adjunto do primeiro-ministro / 12
Manuel Teixeira / sec Saúde / 11
Pedro Mota Soares, Solidariedade / 10
Luís Marques Guedes / sec PCM / 8
Paula Teixeira da Cruz, Justiça / 7

Passos Coelho contratou 11 motoristas.

Do gabinete de Miguel Relvas, o Portal do Governo só revela a identidade e remuneração de 12. É assim tão embaraçoso revelar a identidade dos outros 3 camaradas?

Mais detalhes (salários, etc.) aqui.

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NY, NY






Eram 4 da madrugada em Portugal quando o furacão Irene chegou a Nova Iorque, debilitado na sua força inicial: a velocidade dos ventos baixou de 170 para 154Km por hora. Até ao fim da tarde de sábado tinham sido evacuadas 370 mil pessoas de Nova Iorque e um milhão do Estado de New Jersey. Mas em Manhattan, no Lillie’s Victorian (ao alto), um bar e restaurante da rua 17, entre a Quinta Avenida e Union Square, uma centena de boémios desafiou a natureza com muita animação e imprecações de vária índole. Veja o vídeo no sítio do NYT.

As outras imagens eram impensáveis: o Bloomingdale’s entaipado e a Grand Central vazia!

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Sábado, Agosto 27, 2011

TRADICIONAIS & FALIDOS


O Expresso traz hoje uma boa reportagem sobre o estado de insolvência de grande parte do comércio tradicional de Lisboa e do Porto. O trabalho de Abílio Ferreira é esclarecedor. Os jornais existem para isto: dar e contextualizar notícias. Andamos fartos do spin das células reanimadas da Stasi ou da DINA.

Ponto: ninguém acerta nos números. O Instituto Informador Comercial diz que entre 1 de Janeiro e 22 de Agosto de 2011 houve 1066 falências. Estamos a falar de pequeno comércio. Uma média de 6 por dia. Mas o Informa D&B Portugal diz que foram mais de 4000 até 31 de Julho. Ou seja, 28 por dia. E a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, que tem a obrigação de saber do que fala, avança: Estão a fechar mais de cem por dia. Por seu turno, um estudo do ministério da Justiça (sim, da Justiça), afiança que até 31 de Março fecharam 1250 lojas, 720 imobiliárias e 423 restaurantes. Mais 23% que no 1.º trimestre de 2010. Só na rua dos Fanqueiros, que vemos na imagem, estão fechadas 20 lojas. Na zona da Almirante Reis e adjacências, metade das lojas de mobiliário fechou. O cenário não é mais desolador porque lojas chinesas e paquistanesas têm ocupado os espaços devolutos.

Manuel de Sousa Lopes, presidente da Associação de Dinamização da Baixa Pombalina, diz o óbvio:

«Os empresários têm obrigatoriamente de renovar os estabelecimentos, mudar os horários e estar atentos às novas tendências dos consumidores...» À atenção dos patuscos.

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Sexta-feira, Agosto 26, 2011

IRENE


O furacão Irene atinge a Costa Leste dos Estados Unidos amanhã, tendo sido declarado o estado de emergência em sete estados: Carolina do Norte, Maryland, Virgínia, Delaware, New Jersey, Nova Iorque e Connecticut. Michael Bloomberg, mayor de NY, decretou a evacuação de Brooklyn, Queens, Staten Island, Battery Park City e da zona de Wall Street. Por ordem de Andrew Cuomo, governador do Estado, os transportes públicos, rodoviários e ferroviários, deixam de funcionar ao meio-dia de sábado. (Amanhã, quando forem 5 da tarde em Lisboa.) O furacão tem um diâmetro de 820 quilómetros, podendo afectar directamente 65 milhões de pessoas. Além de Nova Iorque, serão atingidas cidades como Baltimore, Filadélfia, Boston e Washington.

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Quinta-feira, Agosto 25, 2011

OS IMPOSTOS DOS RICOS


Vai por aí uma grande confusão sobre os impostos dos ricos. As televisões confundem impostos sobre o rendimento com impostos sobre o património. O próprio primeiro-ministro, ouvido há pouco pela TVI24, falou de «rendimentos» quando a lógica da pergunta/resposta era «património». Como toda a gente cita o exemplo francês, deixo aqui dois quadros sobre a carga fiscal patrimonial. Para quem se tenha esquecido, património inclui o dinheiro parado nos bancos (os depósitos). Clique nas imagens para ler melhor.

Américo Amorim disse ontem, sem se rir, que era um trabalhador. Tendo Ricardo Salgado declarado (em 2010) 1,5 milhões de euros de rendimento, e Belmiro de Azevedo 1,1 milhões, é natural que o homem mais rico de Portugal (Amorim) se considere um trabalhador. Afinal, só declarou 240 mil euros de rendimento do trabalho. Convenhamos que um imposto sobre o património era de elementar justiça social.

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O AJUSTE


A direita anda há décadas a bramar contra o que considera o excesso de funcionários públicos. Estudos fiáveis dão conta do contributo cavaquista para a engorda do Monstro. Números redondos, entre funcionários e agentes, das administrações Central, Local e Regional, apontam para 700 mil efectivos. Não inclui o sector empresarial do Estado, mas inclui professores, médicos, magistrados, diplomatas, polícias, militares e outras classes profissionais menos diferenciáveis.

Quantos motoristas em 700 mil? Não faço ideia. Alguns milhares, com toda a probabilidade.

Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República, podia requisitar quem quisesse. Mas preferiu fazer um ajuste directo com um chauffeur de táxi de sua confiança, o senhor António Leitão (não consta que seja blogger), que aufere 1563 euros mensais ilíquidos.

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O FOLHETIM LÍBIO


Os media ocidentais andam há três dias a dizer que Trípoli caiu. Os rebeldes levaram mais de 24 horas a arrombar um dos portões do compound de Kadhafi e continuam sem encontrar o ditador. Túneis, dizem todos em coro. O mito dos túneis é inescapável. Entretanto, Kadhafi vai falando aos seus através de canais de televisão não controlados pelos insurrectos (aparentemente, os comandos especiais ingleses e franceses que estão no terreno não foram capazes de inutilizar as antenas). Os jornais começam a esgotar as hipóteses: de bairro em bairro, rua a rua, casa a casa, quarto em quarto, etc. Os da imagem que vemos à porta do Hotel Corínthia parecem estar a ensaiar uma coreografia para quando Brega for Capital da Cultura do Magrebe.

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LIUDMILA ULÍTSKAIA


Hoje na Sábado escrevo sobre Caso Kukótski, de Liudmila Ulítskaia (n. 1943), traduzido directamente do russo por Nina Guerra e Filipe Guerra. Ulítskaia faz a ponte com a grande literatura russa da era pré-soviética: Pushkin, Gogol, Turgueniev, Dostoiévski, Tolstoi, Tchekhov e outros. O essencial da acção desenrola-se entre 1916, durante a participação russa na Primeira Grande Guerra, e 1966, primórdios da era Brejnev. Também escrevo sobre Com o Corpo Todo, novela de Paulo José Miranda (n. 1965), editada pela Ulisseia. Miranda é aquele rapaz que em 1999 venceu a primeira edição do Prémio José Saramago e desde então tem escrito novelas, micro-textos “americanos”, livros de versos, etc. Este mais recente é um desastre.

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CITAÇÃO, 370


Pedro Lomba, Uma revolução guiada, hoje no Público. Excertos:

«[...] Mas não pode deixar de ser dito que há algo de essencialmente farsante no modo como esta primavera líbia, bem como o fim próximo de Khadafi , têm sido apresentados. A imprensa carrega como pode nas cores da “autolibertação”. Dizer, no entanto, que na Líbia está em curso uma revolução espontânea e análoga ao Egipto é ignorar o papel cirúrgico dos aviões da NATO em evitar que as forças rebeldes acabassem cruelmente chacinados pelas tropas de Khadafi. Desde o começo da coligação internacional que os rebeldes locais têm recebido, além de protecção correspondente à zona de exclusão aérea, treino militar e apoio logístico de vários países europeus, como a França e o Reino Unido. (Para não falar do apoio da Liga Árabe, que viabilizou a operação porque abomina Khadafi.) E também desde o começo que esses mesmos rebeldes escolheram como alvo derrubar Khadafi e provocar, com a cumplicidade da NATO, a mudança de regime.

De resto, nos últimos dias a imprensa inglesa tem publicado informações sobre o papel secreto e decisivo de militares ingleses na abertura dos acessos que permitiram aos rebeldes a conquista de Trípoli. Não sei se David Cameron e as chefias militares inglesas continuarão a insistir que a operação da NATO não é contra Khadafi, porque a resolução das Nações Unidas que a autorizou em nenhum ponto prevê a mudança de regime e a deposição de Khadafi, mas só a protecção de civis.

Esta guerra da Líbia arrisca-se, por isso, a revelar-se o último exemplo de duplo critério e hipocrisia da consciência política ocidental. [...]»

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Quarta-feira, Agosto 24, 2011

INTRANQUILIDADE


A companhia de seguros Tranquilidade gere o Espaço Arte, onde três galerias de Lisboa expõem regularmente trabalhos de artistas seus. Para o próximo 2 de Setembro estava prevista a inauguração de P-Town, mostra de João Pedro Vale baseada «na recolha de factos históricos ocorridos na cidade norte-americana de Provincetown», onde Vale e o seu parceiro Nuno Alexandre Ferreira estiveram em residência artística.

A exposição foi cancelada: podia «ferir a sensibilidade dos stakeholders da Tranquilidade.» Os stakeholders são fodidos. Luís Toscano Rico, director de marketing da Tranquilidade, não comenta. Segundo o Público, a exposição «poderia suscitar polémica e não era compatível com os valores da empresa.» OK. Na nossa casa mandamos nós. Mas só descobriram isso a oito dias da abertura? João Pedro Vale, 34 anos, é representado pela Galeria Filomena Soares, cujo director, Manuel Santos, aos costumes disse nada. Uma tiazona afecta aos corredores da Maioria foi peremptória: Não há caralhos pra ninguém!

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NÚMEROS


De acordo com as declarações depositadas no TC, os rendimentos do trabalho, em 2010, dos actuais ministros, foram os seguintes:

Paulo Macedo, Saúde / 846 mil euros
José Pedro Aguiar-Branco, Defesa / 423 mil
Paula Teixeira da Cruz, Justiça / 414 mil
Miguel Relvas, Assuntos Parlamentares / 229 mil
Nuno Crato, Educação / 194 mil
Vítor Gaspar, Finanças / 160 mil
Passos Coelho, primeiro-ministro / 119 mil
Assunção Cristas, Agricultura / 98 mil
Álvaro Santos Pereira, Economia / 95 mil
Pedro Mota Soares, Segurança Social / 67 mil
Miguel Macedo, Administração Interna / 58 mil
Paulo Portas, Negócios Estrangeiros / 51 mil

Miguel Macedo ganhou pouco mas tem dois automóveis BMW e um Jaguar XF.

Já agora, três secretários de Estado:

Francisco José Viegas, Cultura / 189 mil
Carlos Moedas, Adjunto do PM / 119 mil
Marques Guedes, Presidência / 58 mil

Em 2010, o rendimento de Sócrates foi de 104 mil euros.

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E AGORA?


Tudo em aberto nas presidenciais francesas de 2012. Martine Aubry, primeira-secretária do PS francês e candidate de substitution ao Eliseu, François Hollande e outros notáveis unidos pelo pacto de Marrakech, aguardam a chegada de DSK. Só ele pode fazer frente a Sarko.

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Terça-feira, Agosto 23, 2011

DISMISSAL OF CHARGES


O Tribunal Supremo de Nova Iorque retirou hoje todas as acusações contra Dominique Strauss-Kahn. O procurador Cyrus Vance levou 14 semanas a perceber que tinha sido manipulado. Antes tarde que nunca.

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CITAÇÃO, 369


Valupi, Lei da Selva, último parágrafo:

«[...] A aliança entre passarões vermelhos e tubarões cinzentos é natural, pois têm um inimigo comum: a democracia. Enquanto não conseguirem derrotá-la, estarão unidos. Caso a vençam, saltarão imediatamente para as gargantas uns dos outros. É a lei da selva.»

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CITAÇÃO, 368


Vital Moreira, Volte-face, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:

«Supostamente o nosso ministro da Economia (e de várias pastas correlativas) ia a Madrid notificar o Governo espanhol da definitiva decisão do Governo português de suspender sine die o projeto de TGV entre nós, tal como consta do programa do Governo, incluindo a única linha já decidida e em grande parte adjudicada, Lisboa-Caia. Afinal, não só não anunciou nenhuma suspensão, adiando uma decisão para Setembro, como veio de Madrid com a “prioridade” de uma linha adicional à rede de bitola europeia, a ligação ao porto de Sines, com os inerentes custos suplementares. O que é que motivou esta inesperada mudança de rumo? [...]

Portanto, a nova ligação a Sines, agora declarada como prioritária, supõe obrigatoriamente a construção da prevista linha de TGV entre Lisboa em Madrid, pelo menos o troço Caia-Poceirão, e o levantamento da respetiva suspensão. [...] O Governo faz bem em recuar na precipitada decisão de suspender a construção da linha de TGV Lisboa-Caia. Uma coisa foi embarcar irresponsavelmente na demagogia populista contra as “grandes obras públicas” e no vale-tudo na oposição sem escrúpulos aos governos socialistas, outra coisa é a obrigação de, uma vez no Governo, ter em conta os interesses do país. A nova “prioridade a Sines” é um bom “achado” e um bom pretexto para o necessário volte-face. Pior do que cometer um erro é persistir nele.»

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JOGO DE ESPELHOS


Saif al-Islam, o mais influente dos filhos de Kadhafi, porta-voz do regime e sucessor designado do pai, está afinal em liberdade. Consta nos círculos do costume que Cândida Pinto estará a tentar agendar um chá & scones no Hotel Rixos de Tripoli para entrevistar Saif em exclusivo para a SIC.

Não obstante, o espanhol Luis Moreno-Ocampo, procurador do Tribunal Penal Internacional, passou o dia de ontem a anunciar a sua prisão. O frenesim de David Cameron não lhe ficou atrás. Como se viu esta madrugada, a prisão de Saif foi manifestamente exagerada. Esta malta, em vez de ficar sossegada no seu canto até a poeira assentar, entretém-se num remake pífio de Fort Apache de Ford. Veja aqui o vídeo da realidade.

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Segunda-feira, Agosto 22, 2011

O POVO É QUEM MAIS ORDENA


Em Dezembro de 2007, quando passou uns dias em São Julião da Barra, Kadhafi disse a um jornalista da RTP que Na Líbia é o povo que tem o poder. O povo fartou-se. Três filhos do ditador foram presos ontem, os rebeldes tomaram Tripoli ao fim de sete meses de guerra civil e as Potências preparam-se para dividir os despojos. Kadhafi está em parte incerta. Siga aqui o evoluir da situação.

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BATATA SAUTÉ


Nas empresas privadas, mesmo naquelas em que o Estado ainda detém algumas acções (como a EDP, etc.), a avaliação dos trabalhadores obedece a quotas. Isto não é de hoje. Dura há mais de 20 anos. Mas os sindicatos dos professores preparam-se para fazer a vida negra a Nuno Crato, que pretende limitar  —  hoje, amanhã logo se vê  —  a classificação de Excelente a 5% dos professores, e a de Muito Bom a 25%. Isto, estando já isentos de classificação os professores dos escalões 9.º e 10.º, os quais se presumem excelentíssimos; os do 8.º escalão que ao longo da carreira tenham tido, pelo menos, Bom; bem como todos os que reúnam condições de aposentação durante o ciclo avaliativo. Chama-se a isto tapar o sol com a peneira. As negociações entre os sindicatos e o ministério da Educação começam hoje. A ver vamos.

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Domingo, Agosto 21, 2011

NUNCA MAIS É SETEMBRO


Num raio de 200 metros a partir da minha porta, fecharam para férias seis quiosques de jornais e revistas, cinco restaurantes, três pastelarias, dois mini-mercados, duas tabacarias, uma papelaria, uma frutaria, um talho, uma padaria, uma pet-shop, uma oficina de automóveis e uma loja de sobressalentes de electrodomésticos. Isto começou a 30 de Julho e vai durar pela semana que entra. Chama-se comércio tradicional. E ainda há patuscos a bramar contra os horários das grandes superfícies.

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Sábado, Agosto 20, 2011

DISCURSO DIRECTO


Correia de Campos foi ministro da Saúde durante quase três anos: entre 12 de Março de 2005 e 29 de Janeiro de 2008. Mais do que pretendia:

«Quando aceitei as funções, disse ao primeiro-ministro que devia ficar apenas dois anos, porque iria fazer uma gestão tão dura e tão difícil que ao fim de dois anos estaria completamente queimado.»

Esta e outras afirmações constam da entrevista feita por Liliana Valente, hoje publicada no i.

Considero, e não de é hoje (escrevi-o várias vezes), que Correia de Campos foi o melhor ministro da Era Sócrates. A sua demissão, a reboque da Santa Aliança  —  sindicatos afectos ao PCP, Manuel Alegre, PSD, media, Cavaco: o chamado vodka-laranja  —, foi a primeira derrota de Sócrates.

A entrevista que podemos ler hoje no i é esclarecedora:

«Podia ter feito [mais] se tivesse tido mais apoio de alguns sectores do PS. Não tenho nenhuma queixa genérica sobre o partido, militantes ou autarcas do PS, mas tenho uma imensa mágoa de pessoas com responsabilidade política como o dr. António Arnaut ou Manuel Alegre, por eles terem combatido as políticas de racionalização do SNS, dentro da linha de manter o essencial da solidariedade e de aperfeiçoamento que eu conduzi. Não posso esquecer que essas pessoas são os principais responsáveis por se chegar a um ponto em que há dívidas dificilmente controláveis e de haver tentações da direita para desmantelar o SNS. Se o SNS vier a ser desmantelado, e todas as semanas luto contra isso, essas personalidades  —  não foram os únicos mas foram sempre os mais vocais, com a imprensa sempre atenta a favor deles porque eram vozes contrárias ao pensamento oficial do PS  —  fizeram dos piores erros, dos mais graves que foram cometidos em Portugal em matéria social. Não queriam que se fizesse nada. Queriam que se mantivesse tudo congelado como estava. Não era possível fazer racionalização de urgências, não era possível encerrar SAP, maternidades

Sobre Paulo Macedo, actual ministro da Saúde, diz: «É uma pessoa de uma extrema capacidade, extrema disciplina e capacidade de cumprimento dos objectivos públicos, cívicos. Na sua qualidade de gestor financeiro, pode ser excelente no Ministério da Saúde. Daquilo que conheço das suas características humanas, não me parece que seja uma pessoa apenas com cifrões nos olhos

Acerca do memorando da troika, também é claro: «Conheço muito bem o memorando. Até fui convidado para ter uma conversa com os membros da troika, mas não fui, entendi que não tinha de ir

[Clique na imagem. Os retratos são de António Pedro Santos.]

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Sexta-feira, Agosto 19, 2011

PORTO EDITORA ENGOLE ASSÍRIO


Ao cabo de meses de negociações, o grupo Porto Editora comprou a Assírio & Alvim. Em linguagem politicamente correcta, foi estabelecido «um acordo de parceria estratégica para as áreas de edição e distribuição.» O negócio não difere do que foi efectuado com a Sextante e a Quetzal, impedindo o fecho da editora de Pessoa, Cesariny, O’Neill, Llansol, Herberto, Pina e outros. Manuel Rosa afasta-se da direcção editorial da Assírio, cujo staff se transfere para o edifício de Santa Cruz de Benfica. Neste caso, a mão dos homens foi mais rápida que a de Deus.

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ESVAZIAR O POTE


Assunção Cristas, CDS, ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, pretende fechar a Parque Expo. Uma medida acertada. Ninguém compreende que uma empresa criada para construir, explorar e desmantelar a Expo 98 continue operante com o pretexto de gerir o Oceanário, o Pavilhão Atlântico e a... Gare do Oriente. A ver vamos se tem força para passar do desejo à realidade.

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Quinta-feira, Agosto 18, 2011

MONS KALLENTOFT


Hoje na Sábado escrevo sobre Anjos Perdidos em Terra Queimada, segundo volume da tetratologia que o sueco Mons Kallentoft (n. 1968) dedica às estações do ano. Não tem a espessura de Henning Mankell nem a velocidade de Stieg Larsson, mas cumpre o catálogo multicultural. Também escrevo sobre Amor Livre, da inglesa Ali Smith (n. 1962), uma colectânea de doze contos entre o bom e o muito bom, editada pela Quetzal. O meu preferido é Assustador. A 1.ª frase do 1.º conto (e, portanto, do livro) é de antologia: «A primeira vez na vida que fui para a cama com alguém foi com uma prostituta de Amesterdão.» Quando isso aconteceu, Smith tinha 18 anos.

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CRESPO, DC


Mário Crespo, 64 anos, jornalista da SICN e colunista do Expresso, foi convidado por Miguel Relvas, ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, para o lugar de correspondente da RTP em Washington, vago há seis meses. Deste modo, Crespo voltará a desempenhar as funções que exerceu entre 1992-98. O convite está a gerar forte turbulência na RTP, uma vez que a estação estava a organizar um concurso interno para preenchimento da vaga, de acordo com os critérios estatutários: 1) É dada primazia a jornalistas do quadro da RTP interessados em trabalhar no estrangeiro. 2) A direcção de informação selecciona os candidatos. 3) Um júri avalia. 4) A administração avaliza a escolha final. Crespo nem sequer é do quadro: foi despedido da RTP há doze anos. Chama-se a isto, em linguagem plano inclinado, dar o pote aos boys. Este assessor de Relvas é que os topa.

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ACÉRCATE MÁS


Madrid está a ferro e fogo com a visita do Papa. E os bares da calle Pelayo não têm mãos (e chicotes) a medir.

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Quarta-feira, Agosto 17, 2011

O TERRORISTA DA CALLE VELÁSQUEZ


O terrorista mexicano que a polícia espanhola prendeu ontem em sua casa, na calle Velázquez, é membro do Instituto de Química Orgânica. José Pérez Bautista, 24 anos, blogger católico ultraconservador, preparava-se para fazer abortar a manifestação laica que hoje se realizou em Madrid em protesto contra a visita do Papa. Bautista estava preparado para espalhar ácido sulfúrico, gás pimenta e diversas substâncias químicas asfixiantes.

Como é que num país onde os impostos subiram, os subsídios desapareceram, os desempregados são hoje mais de 4 milhões e a dívida pública se financia a juros de extorsão, como é que num país destes aparece dinheiro para estas raves (a jornada mundial da juventude) é um mistério insolúvel. A pouca-vergonha devia ter limites.

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36 EUROS DE PENSÃO



Hoje deu-me para consultar lista dos aposentados e reformados de Julho, pagos pela Caixa Geral de Aposentações. Como a imprensa anda sempre a falar em pensões milionárias, em especial as dos ministérios da Justiça, Saúde e Educação (aqui, Educação significa Ensino Superior), seleccionei o outro lado da narrativa. Faz sentido atribuir uma pensão de 36,16 euros? Vejam. E espantem-se com o Aviso n.º 12384/2011 da CGA. Entretanto, clique nas imagens para ver melhor.

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Terça-feira, Agosto 16, 2011

ELEMENTAR, CARO WATSON


Contrariando 300 tudólogos, a coisa foi atirada para daqui a 16 ou 20 meses. Também não é por aí que o gato vai às filhós.

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E O DR. PORTAS FICA IMPÁVIDO?


Durante 26 anos consecutivos, entre 1967 e 1993, o poeta Alberto de Lacerda (1928-2007) leccionou em universidades americanas: Austin, Nova Iorque e Boston. Em Boston esteve mais de 20 anos: 1972-93. Um dia, se a memória me não falha no Outono de 1987, o dirigente máximo do organismo que em Portugal garantia a logística dos docentes portugueses no estrangeiro “descobriu” que Alberto de Lacerda não tinha licenciatura. Perante esse crime de lesa-Pátria, não hesitou: mandou rescindir o contrato. As autoridades académicas americanas não queriam acreditar que o “seu” professor de Poética fosse posto de lado por tal motivo. E fizeram o óbvio: contrataram-no directamente.

Vem o intróito a propósito do seguinte: a partir do próximo dia 31, os professores de Português colocados nos Estados Unidos e no Canadá perdem o vínculo ao Estado português. Esses docentes, muitos com 30 anos de serviço à língua portuguesa, fizeram sempre os seus descontos para a Segurança Social. Agora vão dar uma volta ao jardim da Celeste.

No tempo de Lacerda  —  recordar que 1987 era o esplendor do cavaquismo  —, os saneamentos eram selectivos. Um pimpão qualquer, analfabeto porém doutorado, tu-cá-tu-lá com as luminárias do Instituto Camões apetecia-lhe, sei lá, Boston. Afastado o poeta, abria-se vaga ao rapazola, ou raparigo, tanto importa. Mas os bostonianos não foram em cantigas: vaga fechada, fica quem está, pagamos nós.

Agora vai tudo em pacote. Primeiro, António Braga, PS, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas entre 14 de Março de 2005 e 20 de Junho de 2011, afastou Graça Borges Castanho do cargo de coordenadora do ensino do português nos Estados Unidos, bem como Graça Assis Pacheco do cargo de coordenadora do ensino do português no Canadá. Simonetta Luz Afonso não pestanejou. E José Cesário, PSD, mestre escola e actual secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, aos costumes diz nada. A partir do próximo dia 31 o Estado português lava as mãos do ensino do Português nos Estados Unidos e no Canadá, países de destino de centenas de milhares de emigrantes falantes de português.

Entre outros, fica comprometido o projecto de instalar em Toronto o Instituto da Língua Portuguesa que até já tinha espaço assegurado num centro de dia para diminuídos físicos. Assim vai o passismo.

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Segunda-feira, Agosto 15, 2011

OS INTOCÁVEIS


O novo modelo de avaliação dos professores do ensino básico, preparatório e secundário, decalcado das teses de Ramiro Marques e assumido por Nuno Crato, deixa de fora os docentes de topo, desse modo neutralizando o foco do conflito. OK. Não percebo o escândalo. A direita borrifa-se para a avaliação de docentes. A direita não quer chatices com a Fenprof e sobretudo não quer a rua encapelada. O resto são cantigas.

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ISTO VAI ACABAR MAL


O i faz hoje o inventário do desdém do primeiro-ministro pelo CDS-PP. Por exemplo. Santana Lopes foi convidado para provedor da Santa Casa da Misericórdia sem que Paulo Portas fosse consultado. Pior: a tutela da Santa Casa compete ao membro do governo que superintende a área da Segurança Social, mas o ministro Pedro Mota Soares não foi «tido nem achado» no assunto. O PSD manda, põe e dispõe.

Entretanto, Jorge Braga de Macedo foi nomeado para presidir ao instituto que resultará da fusão da Agência Portuguesa de Investimento (AICEP) com o Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e da Inovação (IAPMEI). Passando a tutelar a diplomacia económica, Braga de Macedo será um MNE paralelo, reduzindo Portas à função de gestor da diplomacia do croquete. Para agravar o clima, Portas e Braga de Macedo não se falam. Tudo isto acontece ao mesmo tempo que Portas é deixado fora do Conselho de Estado.

Ah!, a discussão do OE para 2012 vai ser muito, mas mesmo muito interessante. Ainda vamos ver o CDS-PP a abster-se e os deputados da quota-Seguro a servirem de muleta ao governo.

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Domingo, Agosto 14, 2011

CITAÇÃO, 367


Vasco Pulido Valente, O criador e a criatura, hoje no Público, excertos:

«[...] Nem sequer o facto despiciendo de Passos Coelho e (acessoriamente) Paulo Portas faltarem agora ao que prometeram na campanha consegue indignar um país por enquanto resignado e dormente. Só que a troika, com a sua brutalidade luterana, não se deixou convencer. Jürgen Klöger, o chefe da “missão europeia” e Paul Thomsen, o chefe da “missão FMI”, observaram os dois a triste inexistência de “cortes substanciais” na despesa, ou seja, na administração local, regional ou central. [...]

A monarquia absoluta criou a pequena fidalguia, o liberalismo, a burguesia
“moderna” (iletrada e pelintra como era) e o “25 de Abril” a classe média democrática, que por definição este regime jamais conseguirá repor no lugar que lhe compete ou devolver às suas verdadeiras proporções. [...]

O Governo mais reformista ou
“neoliberal” está assim condenado a fundir e refundir os “serviços” que por aí brotaram com nomes grotescos, mas sem nunca tocar na segurança, no estatuto e grosso dos rendimentos das pessoas. No momento em que se atrevesse a uma barbaridade dessas, mesmo com carácter simbólico, a classe média correria rapidamente com ele. Os cortes na despesa, quando não se aplicam à velha miséria do país, são uma simples figura de retórica

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IMPACTANTE


Na quarta-feira, dia 10, em Faro, uma mulher idosa atravessava uma passadeira. Duas viaturas pararam, esperando que ela chegasse ao outro lado da rua. Uma terceira viatura embateu nas que estavam paradas. Do impacto resultou que a viatura da frente atropelasse a idosa, a qual teve de ser levada com ferimentos graves para o hospital. Adivinhe quem conduzia a terceira viatura.

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Sábado, Agosto 13, 2011

BURACO, DIZEM ELES


Tentar perceber. Clique na imagem. Fonte: Público.

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LAMENTÁVEL


Queria ver o vídeo? Eu também.
Mas o vídeo desapareceu da edição online do Expresso.

Adenda às 11:55h. Uma amiga da vida real e um amigo do Facebook dizem que estão a ver o vídeo. Aqui em casa e na casa de mais três amigos da vida real ninguém consegue.
Adenda às 18:35h. Nos três computadores aqui de casa (um deles Mac), e no de várias pessoas amigas, o vídeo continua a não abrir. Acabei por ver no Galaxy II da Samsung.

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Sexta-feira, Agosto 12, 2011

E O DR. PORTAS FICA IMPÁVIDO?


Vítor Gaspar, ministro das Finanças, anunciou há pouco que, a partir de 1 de Outubro, a taxa do IVA do gás e da electricidade sobe dos actuais 6% para 23%. As televisões andaram ontem todo o dia a massacrar-nos com o anúncio, previsto para hoje, de cortes na despesa. Dramático, o Diário de Notícias, que tem metade da redacção destacada na Gomes Teixeira, compara o conselho de ministros de ontem ao massacre de Tombuctu. Ministros houve que rasgaram as vestes. Afinal, em vez de cortes na despesa, o governo anunciou ao vivo e a cores novos aumentos de receita.

[Imagem: foto de Nelson d'Aires para o i.]

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MAIS 297


E vão mais 297. Sendo 132 no Norte, 85 no Centro, 68 em Lisboa e Vale do Tejo, 7 no Algarve e 5 no Alentejo. A Confederação Nacional das Associações de Pais aplaude: «escolas que nem alunos têm para fazer um jogo de futebol entre as crianças. Este ano fecham estas 297 e para o próximo serão encerradas outras tantas.» Ah!, mas a Maria de Lourdes Rodrigues é que era a bruxa má!

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LATHE BIOSAS


O Filipe Nunes Vicente deixou o Mar Salgado, fechou o Mau-Mau e abriu o Lathe Biosas. Sucesso!

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