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Público:
Este livro são três homens: Leon Trótski, Ramón Mercader e Leonardo Padura. Trótski (1879-1940), o poderoso comissário da Guerra que Estaline expulsou do Partido em Outubro de 1927. Mercader (1914-1978), o catalão que assassinou Trótski a soldo da polícia secreta soviética. Padura (n. 1955), o cubano que escreveu este épico de recorte contemporâneo.
Padura é conhecido em todo o mundo como criador do detective Mário Conde, protagonista de novelas policiais de grande sucesso. Em Portugal estão traduzidas todas: a tetralogia
Cuatro estaciones (1991-1998) e duas posteriores. Mas é também o autor de uma extraordinária biografia do poeta José María Heredia,
Romance da Minha Vida (2005). Agora, com
O Homem que Gostava de Cães, título que foi buscar a um conto de Chandler, refaz a história de um dos crimes mais hediondos do século XX. Nada menos que uma viagem ao fundo da perversão da grande utopia comunista. Nem sequer é o primeiro a interessar-se pelas circunstâncias da morte do fundador do Exército Vermelho e, em particular, pela enigmática figura do seu assassino. Um bom precedente é
A Segunda Morte de Ramón Mercader, que o espanhol Jorge Semprún publicou (em francês) em 1969. Pela mão de Losey, o cinema também pegou no tema.
Sem perder de vista a realidade, Padura manipula a ficção de modo a unir as pontas soltas da narrativa histórica, oficial ou oficiosa, do assassinato. Para tanto, intercala o tempo discursivo: prisão, desterro, fuga e exílio do dissidente bolchevique (Cazaquistão, Turquia, França, Noruega e México); o plano da NKVD, a poderosa polícia de Estaline, para o eliminar; bem como o
work in progress do manuscrito de Iván Cárdenas Maturell (o narrador), síntese das confidências que Jaime López (o homem que gostava de cães) lhe fez durante catorze anos. Resultado: uma «
história revulsiva de ódio, engano e morte», tendo como balizas Alma-Ata e Coyoacán.
É esse livro-a-haver (o manuscrito de Iván dado a conhecer por Daniel, «
mais de quinhentas folhas dactilografadas, repletas de riscos e de acrescentos...») que permite estabelecer o fio da intriga. Ao mesmo tempo que dá espessura à personalidade de Mercader, faz luz sobre a biografia do próprio Padura: «
Lembro-me de que saí daquele gabinete com uma mistura imprecisa e pastosa de sentimentos (confusão, desassossego e muito medo) mas, sobretudo [...] o que aconteceu na realidade foi que me lixaram para o resto da minha vida, porque, além de agradecido e cheio de medo, saí dali profundamente convencido de que o meu conto nunca devia ter sido escrito, que é o pior que podem levar um escritor a pensar.»
Contrariamente a Trótski, objecto de centenas de estudos, a vida do seu assassino continua marcada por zonas de sombra. Para aceder a uma parte da verdade,
O Homem que Gostava de Cães exigiu muitos anos de «
reflexão, leitura, investigação, discussão e, sobretudo, de assombro e horror». Marxistas ortodoxos e anticastristas credenciados uniram-se na geral condenação desta saga de amor, loucura e morte. Não é difícil perceber o incómodo. O livro é um permanente jogo de espelhos entre a URSS dos anos 1920-30 e a falência do modelo cubano, ilustrada de forma eloquente pelo fracasso da Apanha da Cana de 1970. A quota autobiográfica irrita sobremaneira os detractores de Padura.
E Trótski com isto? O rival de Estaline, o renegado dos catecismos, não viveu em Cuba, mas no México, onde desembarcou em Janeiro de 1937, mesmo sabendo que «
o perigo que a sua vida correria nesse país seria tão grande como o de dormir nu na costa do fiorde gelado de Hurum.» Ali fez amizade com Diego Rivera, amou Frida Kahlo e criou os fundamentos da IV Internacional. Quem de facto viveu em Cuba foi Mercader. Após 20 anos de prisão na Cidade do México, foi a Moscovo (1961) receber a medalha de Herói da União Soviética, radicando-se no ano seguinte em Havana.
Terá sido para evitar querela historiográfica que Padura meteu a biografia de Trótski (e, por extensão, a de Mercader; ou, se preferirmos, de Jacques Mornard, a identidade que assumia perante conhecidos e autoridades) num romance sobre a revolução cubana? Facto é que o extenso inventário de peripécias biográficas em torno de Trótski e Mercader obnubila a ficção: «
López falava da perturbação que o polémico pacto Molotov-Ribbentrop tinha provocado no seu amigo Ramón e na mãe, Caridad del Río.» O mesmo se diga do perfil da mãe do assassino: drogas, prostituição, militância política, etc. Na estrutura narrativa, Caridad é a pista dos avanços e recuos dos antifranquistas (e, em consequência, de como Estaline, mais preocupado com o colapso da Checoslováquia, deixou cair a República espanhola).
Sob a crosta da História, numa hábil «
acumulação de lembranças e de culpas», Padura escreve o guião de uma vingança pessoal. Rindo do veredicto da Comissão Dewey, que considerou fraudulentos os processos de Moscovo (assim absolvendo Trótski), Estaline, que não tinha pressa, esperou pelo dia em que Mercader fizesse o que o mandaram fazer. Em Coyoacán, no dia 21 de Agosto de 1940, a picareta do filho de Caridad abriu o crânio de Trótski em dois.
A história do renegado, in
Ípsilon, 29-4-2011, pp. 48-49. Quatro estrelas.