Quinta-feira, Março 31, 2011

ATÉ QUE ENFIM


O Presidente da República marcou eleições para 5 de Junho. Pena que não tenha escolhido o 29 de Maio. Mais depressa nos víamos livres do mandarinato que dá sentenças mas não vai a votos.

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SEMIÓTICA IN THE GRASS


Em aliança com o CDS-PP, BE, PCP e PEV, o PSD impôs a revogação do modelo de avaliação de professores. Pacheco Pereira, honra lhe seja, votou contra. Enquanto o Tribunal Constitucional não fiscaliza o acto, o partido de Passos Coelho propõe os princípios orientadores do que pretende em tal matéria.

Coisas assim: O quadro legal que venha a ser definido deve tratar autonomamente a avaliação do desempenho e a classificação do desempenho. / O modelo de avaliação e de classificação do desempenho não deve ser universal, isto é, não deve ser o mesmo para contextos científicos e pedagógicos diferentes. / A avaliação do desempenho deve visar a gestão do desempenho. / A avaliação e a classificação do desempenho devem ser consequentes, num quadro de correspondência bem definida entre autonomia e responsabilidade. Etc. Conferir aqui.

Não percebe? Não se preocupe. Eu também não. Por intermediação da Fenprof, Julia Kristeva virá à Universidade de Verão do PSD desconstruir a semiótica da São Caetano.

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Quarta-feira, Março 30, 2011

O CARRO E OS BOIS


A formalidade é a essência da democracia, não se cansa a direita de repetir desde o desastrado anúncio do PEC IV. Mal de nós se a democracia for só isso, mas, em termos absolutos, subscrevo. Sucede que o Presidente da República ainda não aceitou a demissão do primeiro-ministro. Ainda não disse ao país o que pensa do actual momento político. Ainda não disse ao país se efectuou diligências (e quais) para minorar a crise. Nem sequer revelou se pretende marcar eleições antecipadas. Ainda não reuniu o Conselho de Estado (só o fará amanhã). Porém, a sessão comemorativa do 25 de Abril foi cancelada porque... vai haver eleições! É mesmo?

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À REALIDADE DIZEM NADA


Já toda a gente verificou que o PSD fala a várias vozes. Conforme os destinatários, ora avançam os trauliteiros ora o chefe. Passos Coelho, como diz a minha empregada, é mais em estrangeiro. Cá dentro há um limite para exigir sacrifícios aos portugueses, e só podemos estar de acordo, mas, para americano ler... However, since the beginning of the financial crisis we have continued to witness the Government's unwillingness or inability to implement the necessary measures... Pois!

Isto faz lembrar o papelucho  —  a expressão é de Medeiros Ferreira  —  que o Presidente da República entregou à Reuters, para Bloomberg ver, garantindo o compromisso do PS, PSD e CDS-PP no cumprimento das metas do défice. Como lembrou, e bem, Medeiros Ferreira, o Estado não manda recados. O Estado tem órgãos próprios, o primeiro dos quais o Parlamento, para garantir que é uma pessoa de bem. O papelucho faz do mediador um moço de fretes (continuo a citar o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros). Não admira o coice das agências de notação.

Para tornar as coisas mais caricatas, as decisões do Conselho Nacional do PSD ontem reunido omitem a posição do partido face ao controlo do défice público. Devem achar que o papelucho basta. Também nada dizem sobre Justiça, Educação e Saúde, temas naturalmente irrelevantes. Urgente, dizem eles, é recentrar o Estado «nas suas funções nucleares e de garante da coesão social.» Sobre política fiscal, silêncio absoluto. Tudo visto, o PSD prepara-se para pedir um cheque em branco aos portugueses.

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CAFÉ COM LETRAS


Hoje, na Biblioteca Municipal de Carnaxide, a partir das 21:30h, em conversa com Carlos Vaz Marques e todos os que quiserem aparecer. Entrada livre.

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Terça-feira, Março 29, 2011

ÂNGELO DE SOUSA 1938-2011



Ao cabo de doença prolongada, morreu hoje Ângelo de Sousa, pintor, escultor e catedrático jubilado da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Natural de Lourenço Marques, Ângelo veio para Portugal em 1955. Uma das suas obras mais recentes é a escultura em ferro que sinaliza um edifício de Souto Moura na Avenida da Boavista, no Porto. (Em 2008, ambos representaram Portugal na 11.ª Mostra Internacional de Arquitectura de Veneza.) O ano passado, Jorge Silva Melo fez com ele o filme Ângelo de Sousa. Tudo o que sou capaz. Tinha 73 anos e uma relação especial com poetas: ilustrou livros de Eugénio de Andrade, Fiama Hasse Paes Brandão, Mário Cláudio, Helga Moreira e outros.

Ler aqui a entrevista que Anabela Mota Ribeiro lhe fez em Janeiro de 2009.

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SISSI


Estátua de Elisabeth Amalie Eugenie von Österreich-Ungarn, vulgo Sissi, imperatriz da Áustria, no Funchal.

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FESTIVAL LITERÁRIO DA MADEIRA


Daqui a três dias o Funchal acolhe a primeira edição do Festival Literário da Madeira. A partir da próxima sexta-feira, dia 1, Afonso Cruz, Ana Margarida Falcão, António Fournier, Antonio Scurati, David Machado, Diana Pimentel, Eduardo Pitta, Francesco Valentini, Francisco Faria Paulino, Graça Alves, Inês Pedrosa, Isabela Figueiredo, José Mário Silva, Mário Zambujal, Miguel Albuquerque, Miguel Vale de Almeida, Patrícia Portela, Paulo Sérgio Beju, Pedro Vieira, Raquel Ochoa, Rogério Sousa, Rui Nepomuceno, Rui Zink, Sandro William Junqueira, Valter Hugo Mãe, Viale Moutinho e Violante Saramago propõem-se desatinar a ilha de João Jardim. À margem do programa oficial, prevê-se uma invocação do fantasma de Elisabeth Amalie Eugenie von Österreich-Ungarn, vulgo Sissi, uma vez que o Meliã Madeira Mare, teatro de operações e morada da comitiva, foi construído no local onde a malograda imperatriz tinha os seus delíquios barrocos.

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PRITZKER


Soube-se ontem que Eduardo Souto Moura recebeu o prémio Pritzker 2011, juntando-se assim à plêiade de arquitectos que têm sido distinguidos desde 1979. Entre outros, o japonês I.M. Pei, o alemão Gottfried Böhm, o brasileiro Oscar Niemeyer, o italiano Aldo Rossi, o americano Robert Venturi, o inglês Norman Foster, o neerlandês Rem Koolhaas, a iraquiana Zaha Hadid, primeira das duas únicas mulheres galardoadas, o francês Jean Nouvel e o suíço Peter Zumthor. Como é sabido, Siza Vieira integra a lista desde 1992. O brasileiro Paulo Mendes da Rocha, autor do projecto do novo Museu dos Coches, também.

Além de casas particulares espalhadas entre Moledo e Almancil, Souto Moura é o autor da elegante Ponte dell’Accademia (em Veneza), do Estádio de Braga, de um hotel em Salzburgo, da estação de metro da Trindade (no Porto), do Museu Paula Rego (em Cascais), da marginal de Matosinhos, do edifício onde está instalado o departamento de geociências da Universidade de Aveiro, bem como de inúmeros planos de pormenor (em Portugal e no estrangeiro), reconversões de edifícios históricos, equipamentos culturais, etc.

Estamos todos de parabéns.

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Segunda-feira, Março 28, 2011

DISPOSTOS A TUDO


Entalado entre Dilma, Lula, o príncipe Carlos e a duquesa da Cornualha, só lá para o fim-de-semana o Presidente da República convocará o Conselho de Estado. Antes presumo que dê posse a Bagão Félix, o novo conselheiro presidencial. A aceitação do pedido de demissão do primeiro-ministro deve coincidir com a reunião. Entretanto, à medida que o tempo passa, torna-se cada vez mais pungente o discurso do PSD, partido que deve arranjar depressa um porta-voz que substitua Relvas. Digamos: alguém que tenha noções básicas de gramática.

A falta de vergonha do partido que se propõe governar o país é proporcional ao juízo que o PSD faz do eleitorado. Parvos, dizem eles. Basta ouvir o que Paula Teixeira da Cruz tem dito sobre o Dec-Lei n.º 40/2011, de 22 de Março. Como se o diploma em causa não fosse consequência de uma autorização legislativa constante do OE para 2010, viabilizado pelo PSD no Parlamento, a qual (autorização legislativa) permite ao governo aumentar os montantes até ao dobro do anteriormente previsto. É claro que estas subtilezas são trituradas pela máquina do agitprop. Nunca como neste momento foi tão eficaz a balcanização (PSD-BE) das redacções.

À margem do pessoal menor, Passos também não acerta uma. A ideia peregrina de abrir o capital da CGD a pequenos aforradores, no momento em que os pequenos (e grandes) aforradores a última coisa que querem é ver a Caixa em operações de risco, mostra até que ponto o PSD está disposto a ir por um prato de lentilhas.

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Domingo, Março 27, 2011

CRISE?


Parece que o país atravessa uma grave crise financeira. A avaliar pela irritação de Merkel no Bundestag, [Quero lá saber se o partido que chumbou o PEC português pertence ao Europäische Volkspartei ou não...] onde zurziu o PSD sem dó, a coisa é séria. Mas ninguém diria. Afinal, as filas de gente que desde anteontem entopem o Chiado e o Colombo para comprar o iPad 2, esse filofax dos pós-modernos, e quem diz o iPad 2 diz a novíssima Nintendo 3DS, esse Prozac dos kindergarten, julgaria estar na Noruega ou na Suécia e não em Lisboa. Todos à rasca, todos update. A FNAC esgotou o stock, mas vem outra remessa a caminho. É aproveitar enquanto Berlim autoriza.

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Sexta-feira, Março 25, 2011

DEEP THROAT


A gente lê e não acredita: A oposição parlamentar aprovou hoje a revogação do actual sistema de avaliação dos professores, com os votos favoráveis do PSD, CDS-PP, PCP, BE e PEV. Votaram contra o PS e o deputado social-democrata Pacheco Pereira. Comentários para quê?

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MILAN KUNDERA


Hoje no Público:


Gosto de escritores que dialogam com outras artes e, em particular, dos que se medem com os seus pares. Um dos meus atritos com Torga releva do facto de só se medir com Camões. Milan Kundera (n. 1929) publicou em 2009 uma recolha de ensaios a que chamou Une Rencontre. O livro foi agora traduzido, chegando às livrarias acompanhado da reedição do último romance que publicou: A Ignorância (2000).

Exilado em França desde 1975, cidadão francês desde 1980, Kundera tornou-se mundialmente conhecido com A Insustentável Leveza do Ser (1984). Em Portugal estão traduzidos todos os seus romances, uma peça de teatro e dois volumes de ensaio. Na poesia deste expatriado ainda ninguém pegou. É pena. Os poemas que publicou entre 1953 e 1957 foram, naqueles anos de chumbo, a resposta possível ao realismo socialista.

Um Encontro junta reflexões sobre Bacon, Dostoievski, Schönberg, Roth e outros. À medida que avanço na sua leitura penso nos ensaios sobre Machado de Assis, Danilo Kis e outros que Susan Sontag juntou em Where the Stress Falls (2001). Em ambos, a judia de Manhattan e o checo que deveio francês, o «gesto brutal» da admiração.

É desse modo que Kundera define a pintura de Bacon: «há em cada um de nós o gesto brutal, o movimento da mão que ultraja o rosto do outro...» O que parece uma frase de efeito releva da deriva totalitária. Após o malogro da Primavera de Praga (1968), os intelectuais reformistas voltaram a ser perseguidos pela polícia política. Num dia de 1972, Kundera tem rendez-vous marcado com uma rapariga que fora interrogada a seu respeito e, de repente, ela aparece à sua frente, «dilacerada, como o corpo fendido de uma vitela suspensa de um gancho num talho.» Bacon obriga-o a recuar a esse dia em que quis «possuí-la por inteiro [...] o vestido impecável e as tripas em revolta, a razão e o medo, o orgulho e o infortúnio

Os textos mais estimulantes são os que partem do particular para o universal. Como quando, a pretexto de Philip Roth («o grande historiador do erotismo americano... o poeta da estranha solidão do homem abandonado ao seu corpo...»), chama a atenção para a velocidade da História, quebrando «a continuidade e a identidade de uma vida». Ao meditar sobre Tchekov ou Kafka, o escritor, Roth ou outro qualquer, mais do que honrar predecessores, preserva o «tempo passado».

O de Brno (Morávia), por exemplo. Vera Linhartová, «poetisa de uma prosa meditativa, hermética, inclassificável», mede cada palavra: «Escolhi, pois, o país onde queria viver mas escolhi igualmente a língua que queria falar. [...] O escritor não é prisioneiro de uma única língua.» Tendo deixado de ser uma escritora checa, nem por isso passou a ser uma escritora francesa. Ficou alhures, «como outrora Chopin [...] como mais tarde, cada um à sua maneira, Nabokov, Beckett, Stravinsky, Gombrowicz [...] cada um vive o exílio à sua maneira inimitável...» Vera Linhartová será um caso limite. Entra aqui porque, melhor do que ninguém, ilustra Kundera.

Um dos textos mais divertidos respeita às «listas negras», norma francesa ainda em vigor (lá como cá) e «grande paixão das vanguardas» há mais de cem anos. Quem as inventou? Os salões: «Em nenhuma parte do mundo desempenham um papel tão importante como em França.» Por oposição a elas, Barthes figura à cabeça de todas as «listas de ouro». Para perceber o fenómeno, Kundera lê o Anatole France de Les diex ont soif (1912), obra-prima sobre o Terror. A posteridade não lhe perdoa a imagem dos «peraltas estúpidos e fanatizados» que queimam Robespierre (o manequim que o representa) enquanto «enforcam a efígie de Marat...» Paradigma: «Qual o seu compositor preferido?» / «Saint-Saëns, não com certeza!» É só adaptar à realidade portuguesa.

Aimé Césaire, quem se lembra dele? Césaire lutou contra a ocupação colonial francesa, escreveu Cahier d'un retour au pays natal (1939), que Breton considerou o maior monumento lírico do século XX, inventou a noção de negritude, fundou a revista Tropiques (1941-45), moldou a identidade cultural da Martinica... Kundera dedica-lhe páginas justas. O mesmo se diga das que, a partir do point de vue francês, reportam ao desconcerto das relações da Europa com a literatura, a filosofia e a arte em geral: «é com alívio que preferimos Coco Chanel e a inocência dos seus vestidos a esses corifeus culturais [Eliot, Heidegger, Larkin, Brecht, etc.] comprometidos com o mal do século, a sua perversidade, os seus crimes

E mais, muito mais.

Decididamente, prefiro o Kundera ensaísta ao ficcionista várias vezes laureado.


Alhures, in Ípsilon, 25-3-2011, p. 36. Quatro estrelas.

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IVA, OF COURSE


Há menos de um ano, Pedro Passos Coelho lançou o livro que a imagem mostra. Quem o leu reteve o seu ponto de honra: os impostos indirectos são imorais. Entretanto chegou a líder do PSD. Passou um ano a barafustar contra o aumento de impostos que o seu partido aprovava no Parlamento. Deu entrevistas em que mostrou abertura (diria mesmo: desejo) de governar ao colo do FMI. Nas duas últimas semanas, repetiu vezes sem conta: O FMI já está cá dentro! Ontem, coligado com a extrema-esquerda, fez cair o governo. Aumento de impostos, nunca! Hoje foi a Bruxelas participar na reunião do Partido Popular Europeu que coincidiu com a cimeira de chefes de Estado e de governo da UE. À hora do jantar, disse: «Eu espero sinceramente que Portugal não precise de recorrer à ajuda externa. Se alguma circunstância mais drástica obrigar a alguma intervenção isso terá de ser analisado com muita atenção.» Damos então por adquirido que Portugal não vive em situação de circunstância drástica. Ainda bem. Não há nada que um valente puxão de orelhas (como aquele que levou) não resolva. De caminho ficamos a saber que propõe aumentar o IVA. Sim, esse imposto socialmente regressivo. Tanta sabatina com iluminados deu nisto?

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Quinta-feira, Março 24, 2011

CITAÇÃO, 335


Miguel Esteves Cardoso, Então adeus e até já, hoje no Público. Excertos finais, sublinhados meus:


«[...] Entretanto, José Sócrates demitiu-se mas continua vivo e há-de aproveitar o descanso que aí vem, muito bem-vindo, para recuperar a liberdade pessoal e política que perdeu. Com a demissão dele (de quem eu gosto e sempre gostei), posso eu bem. Ninguém pode é acusá-lo de querer baldar-se quando o exercício do poder, seja quem for que o exerça, não convém.

Sócrates tem absorvido e concentrado o ódio e o desvio nominalista que acha que a política é, tal como nas revistas cor-de-rosa, uma questão de nomes e de caras. Foi um primeiro-ministro corajoso e inteligente. Achar que Sócrates é culpado e que removê-lo chega para nos poupar é uma estupidez de todos os tempos

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WAUGH & FUNÈS


Quem foi que disse que a direita não tem humor? Esta Plataforma 2020 é um híbrido de Evelyn Waugh com Louis de Funès. Já sabemos que «um governo estritamente de direita que faça aquilo que deve ser feito, provavelmente não sobreviverá perante a aguda situação social e económica do país...», mas daí a entregar a polícia ao Tozé vai um passo e tanto... Ah!, as brumas de Oxford são fatais. 

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Quarta-feira, Março 23, 2011

PEC SUSPENSO ATÉ JULHO


Exactamente duas semanas após a inauguração de Cavaco II, o governo caiu pela conjugação de cinco resoluções contra o PEC IV. Sócrates apresentou a demissão ao Presidente da República. Amanhã há Conselho Europeu. Na sexta os partidos vão a Belém. Se o decreto de dissolução do Parlamento for assinado até 4 de Abril, pode haver eleições a 29 de Maio. Oxalá. Em Julho apanhamos com o PEC IV, em dose reforçada, seja qual for o governo que sair das eleições. Mas essa parte já toda a gente sabia.

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ELIZABETH TAYLOR 1932-2011



Dame Elizabeth Rosemond Taylor, mais conhecida por Elizabeth Taylor, morreu hoje em Los Angeles. Com ela desaparece o star system, conceito que dirá pouco a quem nasceu depois de 1960. Liz era a última representante de uma galáxia extinta. Tinha 10 anos quando entrou no primeiro filme, There's One Born Every Minute (1942), e 25 quando pela primeira vez foi nomeada para o óscar de melhor actriz, pelo desempenho em Raintree County (1957). Filmes como Cat on a Hot Tin Roof  (1958), Suddenly, Last Summer (1959), Butterfield 8 (1960, óscar de melhor actriz), Who's Afraid of Virginia Woolf? (1966, óscar de melhor actriz), Reflections in a Golden Eye (1967) e Boom! (1968), para só citar os indiscutíveis, fazem dela uma das maiores actrizes do século XX. Tendo-se tornado um case study, Cleopatra (1963) não entra nestas considerações. Nos últimos vinte anos trabalhou muito em televisão, aparecendo em séries tão diferentes como North and South (na temporada de 1985) e The Simpsons, dando voz a Maggie Simpson e representando-se a si mesma.

Não era mulher de ligações. Casou oito vezes com sete homens: Conrad Hilton (1950-51), Michael Wilding (1952-57), Michael Todd (1957-58, de quem enviuvou; morreu a pilotar o avião que lhe oferecera como prenda de casamento), Eddie Fisher (1959-64), Richard Burton (1964-74 e de novo 1975-76), o senador republicano John Warner (1976-82) e Larry Fortensky (1991-96). Teve quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas, uma delas adoptada em 1964. O único amante que a boa sociedade conheceu foi Ardeshir Zahedi, embaixador iraniano em Washington entre 1973-79, que o Xá da Pérsia dissuadiu de casar com Liz. Os dois foram (entre 1976-77) the hottest couple da capital americana.

Activista dos direitos das minorias, foi uma das fundadoras, em 1985 (doando 50 milhões de dólares) da amfAR, fundação que investiga o tratamento da sida. A foto de baixo mostra-a em 1992 a depor sobre o assunto no Senado americano

Devido a insuficiência cardíaca, estava internada desde Fevereiro no Cedars-Sinai Medical Center. Tinha 79 anos. Os diamantes nunca mais vão ser os mesmos.

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BARRETO, DIZ ELE


Num dos talk shows que Constança Cunha e Sá modera na TVI, Medeiros Ferreira e Santana Lopes defenderam ontem, sob o olhar contemporizador de Fernando Rosas, a necessidade de um governo de iniciativa presidencial para completar a legislatura. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros explicou a engenharia financeira que estaria negociada entre Sócrates e a UE (desviar os fundos afectos ao TGV, novo aeroporto de Lisboa e ponte Chelas-Barreiro para sectores produtivos da economia), trunfo que não deve ser negligenciado. Santana foi mais longe: o mítico governo de coesão nacional devia ser chefiado por... António Barreto! Rosas sorriu, sibilino.

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Terça-feira, Março 22, 2011

TENTAR PERCEBER


Crise. Seiscentos mil desempregados? SIM. Economia estagnada? SIM. Redução de salários? SIM. Aumento de impostos? SIM. Justiça tribalizada? SIM. Cortes no Serviço Nacional de Saúde? SIM. Educação em roda livre? SIM. Obras públicas paradas? SIM. Dívida pública? SIM. Sobreendividamento das famílias? SIM. Crédito mais caro? SIM. Combustíveis a subir diariamente? SIM. Criminalidade a abrir? SIM. Greves? SIM. Corrupção às escâncaras? SIM. Tudo isto é verdade. Mas é com isto que temos vivido sem um pio.

Então porquê o coro grego? Soares invectiva Cavaco: Não sacuda a água do capote! O PSD propõe a broad coalition. Vera Jardim, habitualmente discreto, dirigindo-se a Cavaco, cita Montherlant: O seu silêncio faz muito barulho... Assis acredita em bruxas: Um acordo é possível. Jerónimo dissocia o chumbo do PEC IV do futuro do governo. Maria João Rodrigues, conselheira da UE, pede um governo de coligação antes das eleições. Hoje mesmo, falando dos Emirados Árabes Unidos (onde se encontra), Sampaio espera que a queda do governo não precipite o país numa situação de total imprevisibilidade...

E assim sucessivamente.

Gente conspícua sugere que a situação é muito pior do que podemos supor. Como ninguém explica, devemos concluir que estamos a um passo da ruptura de tesouraria. Ou seja: no fim de Abril, não haver dinheiro para pagar aos pensionistas, os da Segurança Social mais os da CGA; aos 700 mil funcionários públicos (os propriamente ditos, mais médicos, professores, diplomatas, militares, polícias, etc.), aos trabalhadores do sector empresarial do Estado (Caixa Geral de Depósitos, TAP, RTP, etc.), aos beneficiários do subsídio de desemprego e do rendimento social de inserção, a autarquias, etc. Alguém tem de vir dizer se isto é real ou não. Caso contrário, ninguém os pode levar (e ao Presidente da República em particular) a sério.

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ARTUR AGOSTINHO 1920-2011


Artur Agostinho morreu esta manhã. Locutor, radialista, jornalista desportivo, publicitário e actor, era uma lenda viva dos media em Portugal. Foi director do jornal Record entre 1963 e 1974. Pelo seu 90.º aniversário, Cavaco Silva agraciou-o com a Comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.


[Foto: Record.]

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Segunda-feira, Março 21, 2011

SLASH


O PSD foge das eleições como o diabo da cruz. Talvez daqui a um ano. Agora, não. Na tentativa canhestra de as evitar, tudo fará. No imediato, propõe (em inglês) a broad coalition for change would improve the political legitimacy of such a program as well as current market perceptions of Portugal’s risk. Patético.

Irá Cavaco tentar reeditar o episódio Nobre da Costa, primeiro-ministro durante 56 dias? A broad coalition é para aí que aponta: um executivo com o beneplácito de Belém, chefiado por um independente... Há vários em bicos de pés. Sempre dava tempo ao PSD de pôr os clãs na ordem antes de apresentar-se a eleições. O mais tardar na próxima sexta-feira o saberemos.

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FINAL CUT

CITAÇÃO, 334


José Pacheco Pereira, Considerações impopulares...

«[...] Algumas dessas personagens estão já muito contentes à espera do seu lugar de ministro e de secretário de estado, e os favores que prestam às lideranças que eles próprios fabricam, serão certamente pagos. E o mais provável é que lá cheguem mesmo, empurrados também, pelas ambiguidades do 12 de Março. A gente séria que quer mudar, essa não tem votos nem dentro dos partidos, nem fora, se falar verdade.»

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Domingo, Março 20, 2011

GUERRA LONGA, DIZ ELE



O petróleo pode muito. Pode tanto, que o Eixo do Bem passou num ápice da valsa à tarantela. O que era para ser uma intervenção franco-britânica transformou-se numa frente alargada: Estados Unidos, Canadá e Itália também participam no ataque à Líbia. Ontem mesmo, uma chuva de mísseis tomahawk abateu-se sobre o país de Kadhafi. Chávez e Lula deram pinotes (o brasileiro até faltou ao almoço com que Dilma obsequiou Obama no Planalto; afinal, na ONU o Brasil absteve-se). Se tinha férias marcadas para o Mediterrâneo, esqueça. Kadhafi promete guerra longa

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Sábado, Março 19, 2011

OS CINCO


Este friso domina hoje a primeira página do Público. Alguém anda a confundir a crise nacional com as eleições para a presidência do Sporting.

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LENÔTRE ASSEGURA O CATERING


Anteontem, com dez votos a favor, um deles o de Portugal, e cinco abstenções, uma delas a da Alemanha, o Conselho de Segurança da ONU impôs uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, autorizando franceses e britânicos a recorrerem a ataques aéreos. Seis países, entre eles a Espanha, têm bases aéreas de prevenção.

Mas só hoje, em Paris, o Eixo do Bem decide quando e como. Com sorte, pode ser que depois do jantar Sarkozy, Cameron, Zapatero, Merkel (vai a Paris fazer o quê?), Hillary Clinton, Anders Fogh Rasmussen, Ban Ki-moon, a UE, a Liga Árabe e a União Africana tenham chegado a consenso.

Entretanto, Bengazi continua debaixo de fogo da força aérea líbia. Os poços de petróleo vêm a seguir.

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Sexta-feira, Março 18, 2011

ANDREW SULLIVAN


Hoje no Público:


Faz sentido que o primeiro livro de Andrew Sullivan (n. 1963) a ser traduzido em Portugal seja A Alma Conservadora (2006). Para a geração de intelectuais de direita que nasceu imediatamente antes ou depois de 25 de Abril de 1974, Sullivan é uma referência incontornável. Publicado no momento em que a revelação dos abusos cometidos por militares americanos e britânicos na prisão iraquiana de Abu Ghraib gerava uma onda de indignação em todo o mundo, A Alma Conservadora fez com que a esquerda perdesse o monopólio da boa consciência. Ponto de viragem, portanto.

Andrew Sullivan é um inglês que pouco antes de completar 22 anos trocou a Inglaterra de Thatcher pela América de Reagan. Homossexual, católico devoto, aluno de Magdalen (Oxford), político conservador, activista gay, editor da New Republic entre 1991 e 1996, autor daquele que é considerado o texto mais influente na defesa dos direitos da minoria homossexual (The Politics of Homosexuality, 1993), fundador do Daily Dish, colaborador regular da New York Times Book Review, editor sénior da revista Atlantic, comentador e conferencista respeitado, usa de parcimónia no auto-retrato: «Cresci na Inglaterra dos anos setenta e oitenta. Eu era um adolescente thatcherista [...] Nunca fui militante, quer conservador ou republicano, porque por natureza não sou um aderente.» Acontece a muito boa gente.

Sullivan descobriu cedo que «a política podia fazer a diferença no mundo.» Apoiou Clinton em 1992, Bush em 2000 e Kerry em 2004. A Alma Conservadora explica por que razão se afastou do Partido Republicano: a tradição conservadora anglo-americana é o exacto oposto da filosofia e da política actual do partido. Não ter de lidar com políticas a retalho permite-lhe bater-se por princípios. Ponto de partida: «Todo o conservadorismo parte de uma perda.» O tópico é de Burke, mas Sullivan faz bom uso dele num tempo em que a rapidez da mudança social tudo nivela. Não deixa de ser irónico que a pulverização da “verdade” tenha expressão na cacofonia dos bloggers.

Lembrar o óbvio: «Os seres humanos vivem graças à narrativa; e ficamos tristes quando um actor conhecido desaparece de uma telenovela ou quando um nosso conhecido muda de casa [...] resistimos contra a interrupção, e quando resistimos somos conservadores.» Num mundo sem «autoridades culturais estáveis», a volatilidade faz a regra. O lado negro das mudanças tecnológicas e económicas tornou-se o motor da vaga conservadora? Por que é que Keynes e Galbraith, que anunciaram o fim do desemprego (o primeiro) e da pobreza (o segundo), foram tão categoricamente desmentidos?

A querela dos fundamentalismos cristão e muçulmano é um ponto forte. Sullivan expõe com clareza o elenco de simetrias entre Jerry Falwell (cultura judaica e Anticristo) e Ahmadinejad, ou James Dobson (casamento entre pessoas do mesmo sexo e destruição da terra) e Osama Bin Laden. Mais: atento o contexto, a linguagem de William Kristol não se distingue dos pressupostos da Sharia. Linha recta: «Desde o assassínio de Anwar Sadat à fatwa contra Salman Rushdie, à campanha já com a duração de uma década de Bin Laden, à destruição das antigas estátuas budistas pelos Talibãs até ao massacre do World Trade Center e o assassínio do realizador holandês Theo van Gogh há só uma linha. Essa linha é fundamentalista e religiosa.» Os números não mentem: das Cruzadas à Inquisição, «o cristianismo tem piores registos [...] a Europa viu mais sangue derramado do que o mundo muçulmano.» Sullivan, católico devoto e conservador militante, vive num país onde os cristãos reconstrucionistas e os Promise-Keepers fazem valer a sua condição de soldados do «exército de Deus». A religião não é figura de retórica. Contudo, e o ponto merece realce, os pais fundadores (de Madison a Jefferson) não estavam interessados em impor uma doutrina. Pelo contrário, demonstraram estar mais preocupados «em pensar no que teria levado à falência da democracia grega e romana do que nas subtilezas de Tomás de Aquino

Presumo que a análise da Era Bush cause engulhos aos liberais indígenas. A explosão da despesa do Estado, a maior desde Roosevelt, e da dívida pública, fala por si: financimento para «a educação do carácter [e] saber distinguir o bem do mal...»; contratação de «mentores para mais de um milhão de estudantes universitários de meios carenciados e de filhos de reclusos...»; subsídios a fundo perdido para «escolas que queiram utilizar testes de droga...»; idem para programas de abstinência...

Muitas das melhores páginas são dedicadas à guerra do Iraque. Sullivan foi dos que apoiou a invasão (em 2003), mas perturba-o que o poder executivo tenha agido «livre de qualquer controlo legislativo, judicial ou internacional» (os Estados Unidos ignoraram as Convenções de Genebra), tendo a administração Bush admitido a prática de tortura em Guantánamo, bem como em prisões iraquianas, afegãs e de outros países. Corolário: «A América deixou de ser uma república constitucional, respeitadora da lei, para ser o império de um só homem...»

Enfim, muito mais haveria a dizer de um livro que não se esgota numa breve resenha.

Personalidade polémica, Andrew Sullivan deve ser lido e discutido fora dos círculos de happy few. Obras como Virtually Normal: An Argument About Homosexuality (1995), Love Undetectable: Notes on Friendship, Sex and Sur (1998) e Same-Sex Marriage Pro & Con: A Reader (2004), para só citar algumas, deviam ser rapidamente traduzidas.


Tory mas pouco, in Ípsilon, 18-3-2011, p. 42. Quatro estrelas e meia.

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Quinta-feira, Março 17, 2011

ÊXODO


Alguma coisa não bate certo. Para evitar o pânico generalizado, o governo japonês deixa sair informação a conta-gotas, logo contrariada pelas autoridades ocidentais e russas de segurança nuclear. Várias companhias de aviação preparam-se para excluir Tóquio das suas rotas. Com uma área metropolitana onde vivem 36 milhões de pessoas (um terço das quais nos bairros do centro), Tóquio está à beira do blackout. Os Estados Unidos ordenaram a saída de todo o seu pessoal: diplomatas e familiares de militares. Reino Unido, França, Espanha, Índia, México e Colômbia enviaram aviões para repatriar os nacionais. A Alemanha aconselha a saída de todos os seus cidadãos, turistas e residentes, mas, para já, têm de fazê-lo pelos seus meios. Osaka, no sul do país, e Hong Kong, são os destinos mais procurados. Decididamente, o perímetro de 30km em redor de Fukushima não convence ninguém.

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BELÉM EMBALA O BERÇO


Passos Coelho é uma invenção bem sucedida de Ângelo Correia. Uma vez instalado na São Caetano, matou o pai. Durante um tempo, Nogueira Leite (antigo secretário de Estado de Guterres) pareceu ser o homem das Finanças de um futuro governo PSD. Também foi trucidado. Aos poucos, a gerontocracia do cavaquismo reloaded vai capturando o que resta do partido fundado por Sá-Carneiro. Problema deles? Problema nosso, que temos de ter alternativas credíveis.

Salvo a presunção de liberalizar o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social e os despedimentos, bem como privatizar a Caixa Geral de Depósitos, a RTP e a TAP, o que é que o PSD propõe ao país? Extinguir a ADSE? Emagrecer o Estado, i.e., dispensar 25% dos funcionários públicos? A introdução do cheque-ensino, forma encapotada de subsidiar o ensino privado católico? Acabar com o rendimento social de inserção? Ninguém sabe.

Este vazio é trágico. À beira de precipitar a queda do governo, ambição legítima de qualquer partido da oposição, o PSD não consegue apresentar um rosto que credibilize a mudança. Não o faz para as Finanças como não o faz para a Economia, a Justiça, a Educação e a Saúde, áreas que decidem (ou deviam decidir) o sentido de voto. E não o faz por uma razão muito simples: a possibilidade de ver Miguel Relvas como ministro da Presidência e Marco António (o de Gaia) como super-ministro dos Transportes, Obras Públicas e Ordenamento do Território, provocaria no país um espasmo de grau inimaginável. Cada vez mais a imagem do partido se degrada. Assim, à cautela, deixa que Belém embale o berço.

Cavaco tudo fará para evitar eleições antecipadas. Conhece o seu custo imediato (entrada do FMI) e não acredita num quadro parlamentar diferente do actual. Se o previsível chumbo do PEC IV levar Sócrates a bater com a porta, Cavaco tentará um governo de intervalo para completar a legislatura. Para isso anda a posicionar Catroga. Os próximos dias vão ser patéticos.

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Quarta-feira, Março 16, 2011

SÓ TÊM ISTO?


A charla de Eduardo Catroga no Jornal da Noite da SIC dá a medida da desorientação do PSD. O maior partido da oposição não encontra melhor para responder ao primeiro-ministro? Porque foi disso que se tratou: de responder à entrevista que Sócrates deu ontem a Ana Lourenço. Num discurso engasgado, o impedido de Cavaco Silva meteu os pés pelas mãos, manipulou factos, em suma, fez propaganda. Mas para isso têm lá o Relvas e outros parecidos. Não havia necessidade de expor de forma tão crua a impreparação do partido. É com gente desta que pensam galvanizar os portugueses? Absolutamente deprimente!

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LES JEUX SONT FAITS


O primeiro-ministro foi claro: se, no Parlamento, a oposição chumbar o PEC IV, terá de ser ela a assumir as responsabilidades. Assim que a entrevista acabou, a Moodys baixou o rating da dívida de A1 para A3. Olli Rehn, comissário europeu dos Assuntos Económicos, avisou: a disputa política à volta das novas medidas de austeridade põe em causa a solução da crise portuguesa. Passos Coelho reitera que o PSD votará contra. A todas estas, o Presidente da República exalta a saga colonial dos que da morte se foram libertando.

Didáctico, Sócrates explica: neste momento, a redução da massa salarial dos funcionários públicos e dos trabalhadores do sector empresarial do Estado é de 5%, escalonados numa tabela que vai de 3,5% a 10% (só afecta remunerações superiores a 1550 euros mensais). Nada a ver com a provável receita do FMI, a qual, a avaliar por exemplos recentes, nunca será inferior a 25%, salário mínimo incluído. Mas o que é isso para homens de barba rija!

Amanhã, Cavaco recebe o líder do PSD. Tudo indica que, antes do Conselho Europeu dos próximos dias 24 e 25, o governo apresente no Parlamento o PEC IV. Les jeux sont faits...

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Terça-feira, Março 15, 2011

CONTA-ME COMO FOI


Declaração do Presidente da República, hoje de manhã, no Forte do Bom Sucesso, à saída da cerimónia de homenagem aos combatentes:

«Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.»

Entre a divulgação do statement (14:44h) e o momento em que escrevo, a frase citada desapareceu da notícia do Público. Porquê?

Não sei o que pensam os embaixadores de Angola, da Guiné e de Moçambique acreditados em Lisboa. Mas sei o que pensam os milhares de desprendidos que sobreviveram a catorze anos de guerra.


Adenda. Em despacho das 19:39h que vi agora (22:20h), o Público repõe as declarações na íntegra.

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NÃO HÁ A SEGUIR


À medida que as imagens e as notícias se sucedem, aumenta o nosso estupor com a catástrofe que assola o Japão. Seiscentas mil pessoas deslocadas, meio milhão de outras retidas em abrigos, duzentas mil aconselhadas a não sair de casa, dez mil desaparecidas, perto de quatro mil cadáveres identificados. E nem um ai. Tóquio é desde domingo uma cidade-fantasma, com milhões de pessoas impedidas de regressar a suas casas desde sexta-feira, a electricidade racionada, duzentas linhas de metro encerradas, supermercados vazios, comércio de luxo encerrado por tempo indeterminado, turistas em fuga, bolsa em queda livre. Mas o embaixador de Portugal, julgando estar ainda em Maputo, disse sem se rir que a normalidade é completa e os jardins estão cheios de crianças a brincar...

Sendai, cidade com um milhão de habitantes, desapareceu do mapa: sem água desde sexta-feira, o aeroporto inutilizado, comboios parados, estradas esventradas. E nem um ai. Os russos vão evacuar as ilhas Curilas e Sacalina enquanto é tempo. Tentando tapar o sol com a peneira, o governo japonês contradiz os números das autoridades internacionais de segurança nuclear. Voltou o fantasma de Chernobyl.

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CITAÇÃO, 333


Paulo Pinto, Reflexões de um cota mais ou menos enrascado. Último parágrafo de um texto que deve ser lido na íntegra:


«[...] Eu sempre fui céptico em tempos de euforia e moderadamente optimista em tempos de crise. A manifestação de sábado passado significará o que as pessoas quiserem para o seu futuro. Pode ser um sinal de despertar de consciência cívica, de coesão social, de solidariedade e de esperança, num país de gente desconfiada, individualista e deprimida. Ou pode ser uma arma de arremesso ao serviço das querelas partidárias, de irresponsabilidade política, um fogacho para demagogos, líricos, alucinados e tacanhos. Está nas mãos de todos e de cada um, como sempre esteve. Veremos, como diz a canção, si saldré desta aventura o si nela moriré.»

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CITAÇÃO, 332


José Vítor Malheiros, A manifestação do nosso descontentamento, hoje no Público. Breves excertos, sublinhado meu:


«As manifestações de sábado foram enormes. Muito maiores do que se esperava [...] mostraram o descontentamento das pessoas com a situação económica, com o desempenho do Governo, com os políticos em geral, com a precariedade do emprego, com a falta de perspectivas. O descontentamento das pessoas em geral e não apenas dos jovens. [...] Os jovens não estão mais à rasca que os outros. [...] A manifestação também mostrou que, se está toda a gente descontente, ninguém faz a mínima ideia do que fazer com esse descontentamento. Dispensar os políticos foi uma das ideias que pareceu ter mais adesão, mas ninguém tem grandes dúvidas de que a ideia é insuficiente como estratégia de organização social ou como segredo de geração de bem-estar. E, por muito que se grite contra a precariedade, todos sabem que ela não acaba por decreto. [...] Depois, ninguém sabe se o que a maior parte desta gente quer é uma política possível ou apenas uma fantasia. Finalmente, ninguém sabe se o desagrado com a situação é um sentimento mobilizador ou um arrufo que se desvanecerá nas próximas eleições. [...] Aquilo que começou como um movimento de reivindicação de trabalhadores precários começa a parecer-se com um reaccionário Tea Party. Mas há outra coisa chocante: a escassez de ideias que por aí há a circular. O Fórum das Gerações convida todos a lançar ideias para a discussão, como se partisse do zero, e as ideias que estão a aparecer parecem de facto próximas do zero. Não haverá por aí partidos, sindicatos, clubes desportivos, universidades, think tanks, autarquias, investigadores, empresas, que tenham umas ideias na manga? Uma que seja? Ou a única solução será mesmo apostar nas hortas comunitárias?»

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Segunda-feira, Março 14, 2011

REMAKE


Setembro de 1968. Indiferente ao tombo de Salazar no Forte do Estoril, ocorrido a 3 de Agosto, o Who’s Who nacional acotovela-se durante dois dias nas festas Schlumberger e Patiño. A incapacidade do ditador não comove o regime: a festa Patiño coincide com a transferência do velho para o Hospital dos Capuchos. As filhas de Tomás não hesitam: entre conhecerem Rothschilds, Pahlavis e Rockefellers no baile do tycoon boliviano ou fingir que se interessam pelo desfecho da melindrosa operação do Presidente do Conselho, vão para Alcoitão ver de perto Soraya, Yul Brynner, Gina Lollobrigida, Curd Jürgens e outros que tais. Vinte dias depois Caetano substitui Salazar.

Março de 2011. Indiferente ao tumulto da rua, o Beautiful People acotovela-se durante três dias na Moda Lisboa para ver Salazar, Faísca, Buchinho, Dourado e os outros. No Terreiro do Paço, Manuel Maria Carrilho disputa com Lili Caneças a atenção dos fotógrafos de sociedade. No Rossio, Joana Amaral Dias é vaiada pelo povo à rasca.

É impressão minha ou estamos a assistir a um remake foleiro?

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Domingo, Março 13, 2011

TURNING POINT


Não vale a pena tapar o sol com a peneira. O discurso inapropriado e excessivo (adjectivos de Jorge Miranda) da investidura presidencial; o novo pacote de medidas de austeridade anunciado anteontem em Bruxelas; as manifestações que ontem, de Norte a Sul do país, juntaram dezenas de milhares de pessoas indignadas com o agravamento das condições de vida; a lengalenga mole de Passos Coelho, o qual, como outro Pedro, será obrigado a engolir cada nega (e vão três); a conflitualidade latente no eixo Belém/São Bento; a inação da economia; as indecisões da UE; a corrosão do euro; o galope desenfreado a caminho de um estado contíguo à bancarrota, etc., sem esquecer a paralização dos camionistas que começa daqui a pouco mais de doze horas, tornam a situação insustentável.

Já o disse aqui: o primeiro-ministro devia solicitar à Assembleia da República a aprovação de um voto de confiança. De preferência, amanhã. Se, como tudo indica, esse voto for rejeitado, o Presidente da República tem a obrigação de convocar eleições no prazo mais curto possível. O PSD não está preparado? Paciência! Passos Coelho não tem força para decidir entre clãs rivais? Problema dele. O país não pode ficar à espera que o PSD estabeleça o meridiano entre Gaia e a Lapa, i.e., Marco António vs Eduardo Catroga. Dava jeito a Cavaco que o PSD manelista-mendista tivesse tempo de correr com o homem de Massamá? Tudo isso é óbvio mas o país não tem tempo. Nenhum de nós tem tempo. A margem de manobra de Passos Coelho extinguiu-se. Proferir inanidades em Viana não serve para nada. Ou tem tomates para apresentar imediatamente uma moção de censura ao governo, ou passa a bola a outro.


[Ao alto, foto de José Sérgio, para o semanário Sol.]

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Sábado, Março 12, 2011

OS NÚMEROS DA MANIF



Em Lisboa, a marcha do descontentamento parece ter sido um sucesso. Diz quem por lá passou que o número de manifestantes terá andado entre 30 e 35 mil pessoas. Número aliás muito expressivo. A generalidade da imprensa, incluindo o Expresso, de onde roubei as imagens de Tiago Miranda (ao alto), agita o número fétiche dos 200 mil manifestantes em Lisboa e 80 mil no Porto. Não vale a pena comentar o disparate.

Sejamos claros: trinta mil pessoas na rua a manifestarem-se contra o desemprego e a carestia de vida, numa manifestação inorgânica (ou seja, sem o apoio explícito de qualquer grande partido), é uma demonstração eloquente do descontentamento de grande parte da população. Por isso me parece fútil agitar números que não colam com a realidade. Assim como assim, podiam ter dito são um milhão.


Adenda. Há quatro meses (6-11-2010), a Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública fez uma manif em Lisboa. Cem mil manifestantes, disse a organização. Em contrapartida, uma equipa dirigida por Steve Doig, professor da Universidade do Arizona actualmente a leccionar um mestrado de jornalismo na Universidade Nova de Lisboa, saiu para o terreno para fazer o que nenhum jornal fizera antes: contar os manifestantes. Não mobilizou para isso grandes meios: alguns dos seus alunos fizeram contagens ao longo do percurso da marcha, algumas fotografias foram feitas a partir de um ponto elevado na zona dos Restauradores e foi medido o espaço em que decorreu o comício final. Resultado: uma estimativa de 8.000 a 10.000 participantes no desfile, e cerca de 5.000 concentrados nos Restauradores. Fica como matéria de reflexão.

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QUEM DISTORCE O QUÊ


Cavaco Silva, no Facebook: «Alguns pretenderam realizar uma interpretação abusiva ou distorcida das minhas palavras, pelo que sugiro a todos os cidadãos de boa-fé que façam uma leitura integral do discurso

Estará o Presidente da República a dar o dito por não dito na mãozinha dada à arruada dos deolindos...?

Ou, simplesmente, a dar um remoque a Ramalho Eanes?

É que o general, antigo Presidente da República e um dos principais apoiantes de Cavaco, foi curto e grosso na análise da investidura: «Esqueceu a crise externa e a sua influência na nossa própria crise»  / «Foi excessivo nas críticas ao governo [que] não pode fazer milagres» / «A década perdida não é da responsabilidade deste Governo ou, pelo menos, não é da responsabilidade exclusiva deste Governo.» Pedro Silva Pereira não diria melhor.

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PESADELO: FUKUSHIMA


Um pesadelo a juntar ao de ontem: perto das 7 da manhã, três da tarde no Japão, verificou-se uma explosão num dos reactores da central nuclear de Fukushima, localizada 250km a norte de Tóquio. As populações (mais de 50 mil pessoas) estão a ser evacuadas num raio de vinte quilómetros. Vá seguindo aqui a tragédia.

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Sexta-feira, Março 11, 2011

ROMAIN GARY


Hoje no Público:


Por causa do gaullismo que lhe era imputado, Romain Gary (1914-1980) tem sido negligenciado na edição portuguesa: menos de meia dúzia de traduções em dezenas de títulos. Em Portugal, nem As Raízes do Céu, Prémio Goncourt 1956 traduzido em 1958 à boleia do filme de John Huston (com Errol Flynn, Juliette Gréco e Orson Welles), chegou para impor este judeu lituano naturalizado francês. Aviador, resistente anti-nazi em Londres e no Magreb, várias vezes condecorado, diplomata durante vinte anos (entre 1952-54 representou a França nas Nações Unidas), bon vivant, marido da editora da Vogue inglesa e de uma actriz americana, cineasta bissexto (dirigiu dois filmes de Jean Seberg, mãe do seu filho), suicidado com um tiro na cabeça aos 66 anos, deixou uma obra pontuada de tragédia, humor e cinismo. La Promesse de l’aube (1960), autobiografia traduzida por Augusto Abelaira em 1962, dá a medida do homem que nasceu e cresceu em Vilnius, quando a capital lituana era parte do Império Russo.

Uma vida à sua frente tem antecedentes curiosos: publicado em Setembro de 1975 sob o pseudónimo de Émile Ajar, obteve o Goncourt desse ano. Assim, Gary tornou-se o único autor a bisar o prémio. A verdadeira identidade de Ajar só foi revelada após a morte de Gary. Porém, Didier Van Cauwelaert escreveu em Le Père adopté (2007) que o milieu sabia. Seja como for, o episódio alimenta a lenda. Os primeiros livros, publicados entre 1935 e 1937, foram assinados com o nome de baptismo (Roman Kacew). O fim da guerra trouxe o primeiro que assinou como Romain Gary, Educação Europeia (1945), saga da Resistência que Sartre elogiou com ênfase. Usou os pseudónimos de Fosco Sinibaldi (1958), Shatan Bogat (1974) e Émile Ajar, autor de quatro romances entre 1974-79. Na posse de todos os dados, a posteridade tem reavaliado a obra, corrigindo o tiro inicial (réactionnaire, dizia a margem esquerda), mas o Robert des grands écrivains ainda o deixa de fora.

Os romances de Gary denotam particular estima por escroques, saltimbancos e desapossados de vária índole. Uma vida à sua frente não constitui excepção. A odisseia de Mohammed em casa de madame Rosa, prostituta que sobreviveu a Auschwitz e se retirou das lides, sem ter esquecido que «não é preciso ter razões para ter medo», ilustra bem esse universo subversor de códigos e valores. O jovem Momo, como ela lhe chama — Momo é também o título da edição em língua inglesa —, cresce no infantário para filhos de judias e toleradas que madame Rosa explora na rua Blondel. (Quem viu o filme de Moshé Mizrahi sabe que Simone Signoret lhe emprestou o rosto.) Estamos muito perto do imaginário e da dicção de Genet, sem as atribulações do sexo fora-da-lei e o lado negro do gamin de Mettray. Digamos que Momo doseia a vigarice: «Entrei num salão de chá para senhoras, devorei dois bolos, éclairs de chocolate, são os meus preferidos, perguntei onde se podia mijar e quando voltei fui directo à porta, e adeus. A seguir, roubei umas luvas [...] e fui deitá-las ao lixo. Soube-me bem.» Afinal, Momo tem apenas 12 anos. É ele o narrador da história.

Um narrador apesar de tudo bem articulado: «A primeira coisa que vos posso dizer é que morávamos num sexto andar sem elevador...» [No original: «La première chose que je peux vous dire c’est qu’on habitait au sixième à pied...»] Para um garoto de Bellevile, sem instrução, rodado no convívio quase exclusivo de outros como ele, pode-se dizer que a narrativa segue o cânone, sem a pretensão de encenar a realidade, calão reduzido ao mínimo e ausência de remissões culturalistas. Momo não é um produto textual como outros que chegaram depois dele. É um rapaz à deriva na Paris do pós-guerra: «Os chuis, é o que existe de mais forte no mundo. Um miúdo com um pai chui é como se tivesse duas vezes mais pais do que os outros.» O tipo de aforismo que fez escola entre modernos afinal tão antigos.

É provável que o fio da intriga remonte à Nice anti-semita dos anos 1930, cidade que o acolheu e à mãe quando deixaram a Lituânia. Importa pouco. Momo tem vida própria.

Momo, in Ípsilon, 11-3-2011, pp. 28-29. Três estrelas e meia.

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CITAÇÃO, 331


Vasco Pulido Valente, Exímio demagogo, hoje no Público. Highlights, sublinhado meu:


«O discurso de posse do sr. Cavaco foi a repetição do que a direita, nomeadamente Paulo Portas, tem dito. [...] Cavaco chega tarde. Ou, mais precisamente, depois de sacrificar o primeiro mandato à reeleição, como disse com perfídia e justiça o dr. Jaime Gama.

Falta o resto. O Presidente da República apresentou um programa, mas com certeza se esqueceu que a Constituição não lhe permite executar qualquer espécie de programa. [...] Apesar do tom tonitruante, o discurso de ontem na Assembleia foi uma manifestação de fraqueza. Lisonjeando a direita e hostilizando a esquerda, continua paralisado.

[...] O que pretende Cavaco, episodicamente mascarado de tribuno do povo, incitando Portugal a protestar contra o Governo da República? Pretende popularidade e tanta popularidade que o transforme no autêntico chefe da oposição. Nessa altura, se conseguir, dissolverá a Assembleia a favor de uma maioria que lhe obedeça. E ele é, como se sabe, desde 1985, um exímio demagogo.»

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O primeiro número da revista Suroeste é hoje lançado em Lisboa, às 18:30h, na livraria Assírio & Alvim do Chiado. Pode aceder ao Pátio Siza pela rua Garrett (n.º 10) ou pela rua do Carmo (n.º 29). A apresentação estará a cargo de Antonio Sáez Delgado, João de Melo e eu próprio.

Lembrar que entre os colaboradores deste número inaugural estão autores (de texto, desenho e fotografia) tão diferentes como Antonio Gamoneda, Teolinda Gersão, Juan Antonio González Iglesias, Mário de Carvalho, Pablo Javier Pérez Lopez, Fernando Aramburu, Jose Luis García Martín, António Apolinário Lourenço, Félix Romeo, Pedro Serra, César Antonio Molina, Martín López-Vega, Joana Morais Varela, Perfecto E. Cuadrado, Fernando Pinto do Amaral, Eloísa Alvarez, Miguel Ángel Lama, Gonçalo M. Tavares, Ruy Ventura, João de Melo, Manuela Parreira da Silva, Possidónio Cachapa, Luis Manuel Gaspar, António Cândido Franco, Steffen Dix e outros.

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Quinta-feira, Março 10, 2011

EM QUE FICAMOS?


Seja qual for o resultado do Conselho Europeu de amanhã, o primeiro-ministro devia solicitar à Assembleia da República a aprovação de um voto de confiança (art.º 193.º da Constituição da República) no governo. De preferência, já na próxima segunda-feira.

O país não pode continuar a sustentar a farsa. Apelando à sublevação popular no discurso de tomada de posse, o Presidente da República pôs ontem termo ao regular funcionamento das instituições. Nada como devolver a palavra aos deputados.

A previsível queda do goveno conduziria a novas eleições. (O PS não aceitaria formar novo governo antes delas; e suponho que Cavaco não daria o passo em falso de nomear um governo de iniciativa presidencial, chefiado por Catroga ou outro parecido, sujeitando-se à humilhação do chumbo parlamentar.) E daí?

Há uma solução mais expedita: o PSD aprova já hoje, ao lado do PCP e dos Verdes, a moção de censura do Bloco de Esquerda. Tudo é preferível ao pântano actual.

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CITAÇÃO, 330


Filipe Nunes Vicente, Tiro de partida, excerto, sublinhados meus:

«O discurso de Cavaco Silva marca um novo tempo. A partir de agora, o governo fica definitivamente a prazo: pelo discurso e pela constituição. Pensemos um bocadinho. Sócrates está a fazer o que qualquer outro faria no seu lugar. [...] Não me parece que o discurso do PR tenha servido para alguma coisa. Apelou a um sobressalto cívico, requentando o direito à indignação de Mário Soares, mas espero que não venha a morder a língua se as hordas chegarem aos jardins de Belém. De resto, umas boníssimas preocupações com os mais pobres, coisa que qualquer tipo decente partilha. Como eleitor de Cavaco Silva, o que espero é coragem. Ou apoia o governo nas dificuldades que são comuns a outros países ou demite-o sem temer os resultados eleitorais. Não votei no Rassemblement Pour le Cavaquisme.»

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