Desiluda-se quem pretenda ver no primeiro romance de Pedro Vieira (n. 1975) uma espécie de diário do Ruca (alter-ego a que o autor deu vida própria no blogue
irmaolucia) ou, como sucede com outros, um
patchwork de variações em torno da escrita do impronunciável. Nada disso.
Última paragem, Massamá é um romance de aprendizagem na linha de
Nome de Guerra (1938), de Almada Negreiros, ou
Os Três Seios de Novélia (1968), de Manuel da Silva Ramos. Dito de outro modo, narrativa pulverizada da cidade mítica. Não isenta de ironia, a epígrafe de abertura e os separadores reportam à derrota das legiões de Públio Quintílio Varo em Teutoburgo, no 11 de Setembro do ano 9 dC (não há coincidências). Romances de estreia os três: Almada, Ramos e Vieira.
Almada escreveu o seu em 1925, mas só o publicou em 1938, por insistência de João Gaspar Simões, desse modo fundando o romance moderno português. À Lisboa do primeiro modernismo (
twenties) e da guerra colonial (
sixties), Vieira contrapõe a geração dos diplomados de
call-center: «
A esta hora já os camaradas da margem sul chegaram [...] quem não está, estivesse.» Respiração sincopada, jargão conforme.
Como ninguém nasce de geração espontânea, nem (ou sobretudo) personagens de romance, Vieira faz
flashback à semana de 1980 que viu despedaçar em Camarate «
o avião do nosso descontentamento». Por esses dias abriu portas o Trumps, que mudou a noite bicha: «
enquanto o Cessna fumegava dezenas de homens eram atraídos às cercanias da escola politécnica, a tentar enlaçar pela cintura um novo mundo, um ambiente mais amniótico, mais protegido.» É aqui que entra João, oleiro à espera de ser moldado à sombra dos holofotes que então incidiam num «
barbeiro da Rua das Pretas» apostado em transformar o rock. Lucas entrará mais tarde (e, com ele, Vanessa), apanhado já pelo VIH, febres, suores e náuseas. Vieira dribla. Pedro Homem de Mello faz
match point e encerra o parágrafo: «
no momento em que sentiste uma picadela entre as pernas pela primeira vez à vista de um macho [...] talhaste com o teu machado...» O
Bildungsroman pede Törless (Musil), Vieira dá-lhe
Povo que Lavas no Rio.
Com este livro, Vieira trouxe a CRIL e o IC19 à ficção portuguesa. Consequência: visto de Massamá-Barcarena ao som dos Vampire Weekend, o século XXI não cabe no perfil amável da
Architectural Digest. Por maioria de razão, Edson, Luana, Silas, Patrícia e os outros não se confundem com personagens de Waugh. Talvez Rubens Figueiredo («
Aquela é a cidade que interessa, é onde as coisas acontecem, o futuro fugiu para lá.») ou Carlos Sussekind. Afinal, o link brazuca não é figura de retórica: «
o que tu precisa é de um patrão maneiro, sério, tu tem de te promover, cara.»
Encharcado em literatura, nem por isso
Última paragem, Massamá menoriza o quotidiano da CPIS, ou Convénio Para a Infelicidade Suburbana: calimeros, evangelistas marados, redes sociais («
o que raio quer dizer um lol»), conexão heroinómana no «
coração do núcleo duro Algueirão-Mem Martins», shoppings, centros de emprego, nepotismo, maralha cabo-verdiana, stresse pós-traumático («
magalas que ficaram longe de África por intervenção de... capelões que engraçavam com cabos e se o vice-versa não se verificava fingia-se o que era necessário para não esticar o pernil...»), a tropa fandanga dos seguranças «
que falam em código [e]
gostam de molhar a sopa nos amigos do gadanho», paneleiros bem-posicionados e outros nem tanto, a utopia de «
pôr o capital de joelhos», mamadas, tudo como num
reality freakshow bem esgalhado.
E o
plot, cadê? Lucas, Vanessa e João são vértices de um triângulo impossível. De João já se falou. Lucas gosta de pau preto. Desfasada da realidade (Lucas não é Vronsky), Vanessa repete às 07:26h da manhã o gesto de Ana Karenina, apanhando de surpresa «
os utilizadores da passagem superior pedonal da estação de Massamá-Barcarena.»
Parece-me supérfluo acrescentar que a prosa está bem calibrada.
Vanessa Karenina, in
Ípsilon, 25-2-2011, p. 36. Três estrelas e meia.