Segunda-feira, Fevereiro 28, 2011

OF COURSE


Colin Firth, The King. Além do óscar de Firth (melhor actor), O Discurso do Rei obteve mais três: melhor filme, melhor realizador (Tom Hooper) e melhor argumento original (David Seidler). Outros vencedores: Natalie Portman, melhor actriz, Christian Bale, melhor actor secundário, Melissa Leo, melhor actriz secundária, Inside Job, melhor documentário de longa-metragem. A Rede Social de David Fincher obteve três óscares: melhor argumento adaptado, melhor montagem e melhor banda-sonora original. Era bom que o óscar de Inside Job trouxesse o filme de volta às salas e, se possível, à televisão.

Etiquetas:

Domingo, Fevereiro 27, 2011

OUT AO FIM DE 90 ANOS


O Fianna Fail, partido republicano que governa a Irlanda desde 1921, perdeu as eleições de anteontem. Segundo dados oficiais hoje divulgados, obteve 17,4% dos votos expressos e 13 lugares no Parlamento.

A vitória coube ao Fine Gael, com 36,1% dos votos expressos e 59 lugares no Parlamento. O Fine Gael é um partido unionista de centro-esquerda. O seu líder, Enda Kenny, 49 anos, futuro taoiseach, i.e., primeiro-ministro da Irlanda, tenciona coligar-se com o Labour (19,4% e 32 lugares) para poder governar em maioria.

Os independentes obtiveram 14 lugares (15,4%). Em último ficou o Sinn Féin, partido nacionalista e antigo braço político do IRA, cujo score de 9,9% lhe garantiu 13 lugares, número igual ao obtido pelo Fianna Fail. Os Verdes obtiveram 1,8% (nenhum lugar). A abstenção foi de 30%.

Etiquetas:

Sábado, Fevereiro 26, 2011

É CONNOSCO


O Parlamento aprovou ontem, por unanimidade, o projecto de resolução do Bloco de Esquerda para uma nova política de controlo das populações de animais errantes. O diploma prevê o fim do abate de animais (cães e gatos), a fiscalização activa de canis e gatis, a esterilização de animais órfãos e a introdução do conceito de «cão ou gato comunitário», responsabilizando a sociedade pela sua protecção legal e as comunidades de moradores pelas condições da sua sobrevivência.

Inexplicavelmente, não consigo ler a notícia nas edições online de nenhum jornal. Pareceu-lhes fútil?

Etiquetas: , ,

IDENTIDADE GAY & CANDOMBLÉ


Hoje à tarde (15:00h), na Casa do Brasil em Lisboa, colóquio sobre Homossexualidade e Religião: tensões e inclusão, o case-study do Candomblé. Entre os oradores, Miguel Vale de Almeida, António Fernando Cascais, João Ferreira Dias (organizador) e Lady Selma Albernaz. A Casa do Brasil fica no Bairro Alto, rua Luz Soriano, 42. Clique na imagem para ler o convite.

Etiquetas: ,

A INFORMAÇÃO A QUE TEMOS DIREITO


A pretexto da onda de contestação que varre o Magreb, a Rádio Renascença entrevistou alguém que se fez passar por Mohamed Benaïssa, ministro dos Negócios Estrangeiros de Marrocos entre Abril de 1999 e Outubro de 2007. E difundiu a entrevista.

Afinal, foi um fake. A embaixada de Marrocos em Lisboa alertou para o embuste, e a emissora Lament[a] profundamente o erro. Mohamed Benaïssa não falou com o jornalista da Renascença. Não consta que o director de informação da RR tenha sido demitido.

Etiquetas: , ,

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2011

GALLIANO SUSPENSO


O estilista britânico John Galliano, responsável pelas colecções da Casa Dior desde 1996, foi hoje suspenso por tempo indeterminado das suas funções.

Presumivelmente embriagado, Galliano terá insultado um casal com provocações anti-semitas. Tudo se passou na noite pasada, em Paris, no bairro do Marais. O estilista foi preso e libertado ao fim de algumas horas, por ausência de queixa. Sidney Toledano, CEO da Dior, afirmou: «Dior affirms with the utmost conviction its policy of zero tolerance towards any antisemitic or racist words or behaviour. Pending the results of the inquiry Christian Dior has suspended John Galliano from his responsibilities.» Os mentideros da couture estão em transe.

Etiquetas: ,

PEDRO VIEIRA


Hoje no Público:

Desiluda-se quem pretenda ver no primeiro romance de Pedro Vieira (n. 1975) uma espécie de diário do Ruca (alter-ego a que o autor deu vida própria no blogue irmaolucia) ou, como sucede com outros, um patchwork de variações em torno da escrita do impronunciável. Nada disso. Última paragem, Massamá é um romance de aprendizagem na linha de Nome de Guerra (1938), de Almada Negreiros, ou Os Três Seios de Novélia (1968), de Manuel da Silva Ramos. Dito de outro modo, narrativa pulverizada da cidade mítica. Não isenta de ironia, a epígrafe de abertura e os separadores reportam à derrota das legiões de Públio Quintílio Varo em Teutoburgo, no 11 de Setembro do ano 9 dC (não há coincidências). Romances de estreia os três: Almada, Ramos e Vieira.

Almada escreveu o seu em 1925, mas só o publicou em 1938, por insistência de João Gaspar Simões, desse modo fundando o romance moderno português. À Lisboa do primeiro modernismo (twenties) e da guerra colonial (sixties), Vieira contrapõe a geração dos diplomados de call-center: «A esta hora já os camaradas da margem sul chegaram [...] quem não está, estivesse.» Respiração sincopada, jargão conforme.

Como ninguém nasce de geração espontânea, nem (ou sobretudo) personagens de romance, Vieira faz flashback à semana de 1980 que viu despedaçar em Camarate «o avião do nosso descontentamento». Por esses dias abriu portas o Trumps, que mudou a noite bicha: «enquanto o Cessna fumegava dezenas de homens eram atraídos às cercanias da escola politécnica, a tentar enlaçar pela cintura um novo mundo, um ambiente mais amniótico, mais protegido.» É aqui que entra João, oleiro à espera de ser moldado à sombra dos holofotes que então incidiam num «barbeiro da Rua das Pretas» apostado em transformar o rock. Lucas entrará mais tarde (e, com ele, Vanessa), apanhado já pelo VIH, febres, suores e náuseas. Vieira dribla. Pedro Homem de Mello faz match point e encerra o parágrafo: «no momento em que sentiste uma picadela entre as pernas pela primeira vez à vista de um macho [...] talhaste com o teu machado...» O Bildungsroman pede Törless (Musil), Vieira dá-lhe Povo que Lavas no Rio.

Com este livro, Vieira trouxe a CRIL e o IC19 à ficção portuguesa. Consequência: visto de Massamá-Barcarena ao som dos Vampire Weekend, o século XXI não cabe no perfil amável da Architectural Digest. Por maioria de razão, Edson, Luana, Silas, Patrícia e os outros não se confundem com personagens de Waugh. Talvez Rubens Figueiredo («Aquela é a cidade que interessa, é onde as coisas acontecem, o futuro fugiu para lá.») ou Carlos Sussekind. Afinal, o link brazuca não é figura de retórica: «o que tu precisa é de um patrão maneiro, sério, tu tem de te promover, cara

Encharcado em literatura, nem por isso Última paragem, Massamá menoriza o quotidiano da CPIS, ou Convénio Para a Infelicidade Suburbana: calimeros, evangelistas marados, redes sociais («o que raio quer dizer um lol»), conexão heroinómana no «coração do núcleo duro Algueirão-Mem Martins», shoppings, centros de emprego, nepotismo, maralha cabo-verdiana, stresse pós-traumático («magalas que ficaram longe de África por intervenção de... capelões que engraçavam com cabos e se o vice-versa não se verificava fingia-se o que era necessário para não esticar o pernil...»), a tropa fandanga dos seguranças «que falam em código [e] gostam de molhar a sopa nos amigos do gadanho», paneleiros bem-posicionados e outros nem tanto, a utopia de «pôr o capital de joelhos», mamadas, tudo como num reality freakshow bem esgalhado.

E o plot, cadê? Lucas, Vanessa e João são vértices de um triângulo impossível. De João já se falou. Lucas gosta de pau preto. Desfasada da realidade (Lucas não é Vronsky), Vanessa repete às 07:26h da manhã o gesto de Ana Karenina, apanhando de surpresa «os utilizadores da passagem superior pedonal da estação de Massamá-Barcarena

Parece-me supérfluo acrescentar que a prosa está bem calibrada.


Vanessa Karenina, in Ípsilon, 25-2-2011, p. 36. Três estrelas e meia.

Etiquetas:

Quinta-feira, Fevereiro 24, 2011

O SUBMARINO


O que faz correr Marques Mendes, o delfim de Eurico de Melo que com a tenra idade de 19 anos chegou a vice-presidente da Câmara Municipal de Fafe, e depois foi deputado, líder parlamentar, duas vezes secretário de Estado, duas vezes ministro, gestor público e privado, docente da Universidade Moderna e presidente do PSD?

Desde a derrota frente a Menezes, em 2007, o homem jurou cem vezes que estava fora da política. Mas, nas últimas semanas, não falha um telejornal, um talk show, uma entrevista, um artigo em que não venha dar sentenças sobre o que deve ser a conduta do PSD (o manto diáfano do interesse nacional... deixa de fora o rabo dos recados intra-muros), que por acaso tem uma direcção de que ele não faz parte. Espíritos maliciosos insinuam que Mendes é o submarino de Cavaco. Se não é, imita bem.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Fevereiro 23, 2011

É A VIDA?


Se um colunista de direita vê cessar a sua colaboração num jornal, dezenas de comentadores e bloggers arrancam as vestes. Porém, no último fim-de-semana, Inês Pedrosa e José Manuel dos Santos, dois cronistas (mal ou bem) conotados com o PS, cessaram as respectivas colaborações no Expresso por decisão da nova direcção do semanário. Não é o fim do mundo. Mas ainda não ouvi gritar pelo ataque à liberdade de expressão. A Inês, que vemos ao alto, escreve agora no Sol.

Veja aqui o novo cast.

Etiquetas:

GRANDE PRÉMIO CORRENTES D'ESCRITAS


Pedro Tamen foi há pouco anunciado como vencedor do Prémio Casino da Póvoa, v.g., Grande Prémio Correntes d’Escritas, no valor de vinte mil euros. Este ano referente a obras de poesia (alterna com ficção), a lista de dez finalistas incluía, além de Tamen, quatro concorrentes de peso: A. M. Pires Cabral, Armando Silva Carvalho, Jaime Rocha e Nuno Júdice. A decisão do júri (Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Fernando Pinto do Amaral, Patrícia Reis e Valter Hugo Mãe) foi tomada por maioria. Parabéns, Pedro!

Etiquetas: ,

É UM ARTISTA LÍBIO


Basta ler meia dúzia de jornais estrangeiros (o Guardian, o El País, o NYT, o Estadão, o Haaretz ou o Monde) para perceber que pouco ou nada se sabe de concreto da situação em Tripoli. Khadafi ameaçou este mundo e o outro, presume-se que os mortos sejam às centenas, os países vizinhos reportam evacuações em massa, fontes diplomáticas referem uma cintura de mercenários africanos em torno dos poços de petróleo. Vamos ter um remake do Kuwait a arder?

O Conselho de Segurança das Nações Unidas (quinze membros, Portugal incluído) condenou a Líbia por unanimidade, declarando que o regime de Khadafi tem de agir com contenção e respeitar os direitos humanos e as leis internacionais... Tocante. Do mesmo passo, a Liga Árabe suspendeu a Líbia.

E os primeiros portugueses regressados de Tripoli fizeram um esforço enorme para recordar certa agitação e uns vagos tiros numa situação, a bem dizer, calma... (Cf os telejornais das 20h de ontem) Fica por esclarecer o motivo do regresso.

Entretanto, vale a pena ler o excelente artigo de Juan Goytisolo (não confundir com o poeta José Agustín Goytisolo, seu irmão) sobre Khadafi, El Estado soy yo.

Etiquetas: ,

Terça-feira, Fevereiro 22, 2011

CORRENTES TAKE 12


Começa amanhã a 12.ª edição das Correntes d’Escritas, mas é já hoje que uma parte do milieu chega à Póvoa, para o jantar de recepção e os primeiros lançamentos, entre eles o do penúltimo romance de Ricardo Menéndez Salmón. Ainda hoje, lugar aos poetas convidados.

A abertura oficial é amanhã de manhã: discursos, anúncio do Prémio Casino da Póvoa (este ano para obras de poesia), idem dos outros quatro prémios (conto infantil, etc.) e lançamento da revista dedicada a Luísa Dacosta. A festa termina no sábado, com a entrega dos prémios e homenagens póstumas a Carlos Pinto Coelho e Malangatana.

Corrigindo a percepção de que as Correntes privilegiam o déjà vu... são lançados no próximo dia 24 dois magníficos livros de estreia: Onde a Vida se Perde, de Paulo Ferreira, e Última paragem, Massamá, de Pedro Vieira, ambos com chancela da Quetzal. Sou amigo do Paulo e do Pedro, mas assobiava para o lado se não merecessem uma chamada de atenção. Merecem. E como!

Não posso citar todos os convidados porque: a) são muitos; b) sendo amigo de quatro quintos deles [autores, críticos, editores, jornalistas e assessores de comunicação] não há necessidade de melindrar os outros; c) estou com dor de dentes.

Como é timbre, vão todos divertir-se à fartazana sob o olhar atento da troika responsável: Manuela Ribeiro, Francisco Guedes e Luís Diamantino, o vereador da Cultura.

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011

TRIPOLI A ARDER


O filho de Khadafi mandou calar os protestos com fogo aéreo: aviões e helicópteros estão há várias horas a metralhar os manifestantes de Tripoli, Benghazi, Musratha e outras cidades líbias. Dois pilotos da força aérea não obedeceram às ordens e voaram para Malta onde pediram asilo político. Assim que soube do que se passava, o embaixador líbio nas Nações Unidas acusou o reime de genocídio. Segundo a Aljazeera, que cita William Hague, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Khadafi terá hoje mesmo deixado o país, encontrando-se em Caracas, informação que o governo venezuelano desmente. O ministro líbio da Justiça solidarizou-se com os manifestantes. Os embaixadores da Líbia na China, Índia, Indonésia e Polónia demitiram-se. O embaixador líbio em Londres substituiu a bandeira nacional pela dos revoltosos. De acordo com El País, há centenas de mortos. Siga aqui o evoluir dos acontecimentos. A imagem (clique nela) é do El País.


Adenda. Decididamente, o MI6 já não é o que era. O episódio da fuga de Khadafi para Caracas deve ter embaraçado William Hague, a menos que tudo isto não passe de um jogo de sombras. Facto é que a televisão líbia mostrou o homem a sair do carro, de guarda-chuva na mão, aparentemente no centro da cidade, para dizer: «Estou em Tripoli e não na Venezuela. Não acreditem no que dizem os cães.» A cena durou menos de meio minuto e ocorreu por volta das 21:20h.

Etiquetas: ,

RUBY & IL CALCIATORE


Segundo La Repubblica, Cristiano Ronaldo fez parte da lista de clientes de Ruby, a marroquina por causa de quem Berlusconi terá de responder em tribunal.

Ascoltiamo ancora la ragazza: «Non ho mai accettato rapporti sessuali a pagamento. L’ho fatto solo con i ragazzi che mi piacevano. L’unica volta che sono stata pagata per un rapporto sessuale è stato quando ho incontrato il calciatore Cristiano Ronaldo. Era la sera del 29 dicembre 2009 e dopo essere stata nell’hotel e prima che la mia amica Simona mi mettesse le valigie fuori dalla porta, sono andata all’Hollywood e là sono stata fermata da Ronaldo, il quale aveva un tavolo nel privè. [...] Casualmente ho rivisto Ronaldo due settimane dopo nella discoteca The Club, dove ero andata per ballare. Era in un privè con altre persone, ho preso un bicchiere di champagne e gliel’ho tirato in faccia

Ronaldo desmente. Não terá ido a Milão entre Dezembro de 2009 e Junho de 2010.

Etiquetas:

Domingo, Fevereiro 20, 2011

E SE TUDO, DE REPENTE?


Do lado de lá da fronteira as livrarias já têm Y si Todo, de Repente?, antologia espanhola da minha poesia que Antonio Sáez Delgado organizou, traduziu e prefaciou. A colecção Letras Portuguesas (ensaio e poesia) inclui, entre outros, títulos de António Cândido Franco, António Ramos Rosa, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Fernando Pinto do Amaral, Gonçalo M. Tavares, José Gil, Manuel de Freitas e Ruy Ventura.

Sábado, Fevereiro 19, 2011

DEOLINDA À BRÁS


O Bloco de Esquerda divulgou o texto da moção de censura que, em princípio, será discutida no Parlamento no próximo 10 de Março, ou seja, no dia a seguir à inauguração de Cavaco II. Como vai reagir a direita agora que se sabe que a Moção Louçã é uma versão desconstruída da Deolinda ou, como se diz nos cafés da outra margem, uma espécie de Deolinda à Brás?

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Fevereiro 18, 2011

JAN VS JAMES


Há menos de três meses (26-11-2010) o Parlamento aprovou a lei que permite às pessoas transexuais mudarem o seu registo civil, pondo fim ao atrito legal entre identidade de género e o registo de nome e sexo nos documentos oficiais. O diploma foi aprovado pelo PS, BE, PCP, Verdes e doze deputados do PSD.

Usando os transexuais como arma de arremesso, Cavaco vetou a lei durante o período da campanha eleitoral. Como lembra este comunicado da ILGA, o vazio legal provocado pela sua não-aprovação configurava «um convite à exclusão social das pessoas transexuais, que se vêem impedidas de ter acesso à sua cidadania nos mais diversos âmbitos: do emprego à educação, passando pelo acesso a bens e serviços e chegando ao próprio exercício do direito ao voto.»

Ontem, com os votos do PS, BE, PCP, Verdes e sete deputados do PSD, o Parlamento voltou a aprovar o diploma.


[Ao alto, a escritora inglesa Jan Morris, que nasceu James Humphrey Morris (em 1926). James frequentou a Academia Militar de Sandhurst, combateu na Segunda Guerra Mundial como oficial dos Lanceiros da Rainha, tornou-se autor de viagens, casou e teve cinco filhos. Em 1972, com 46 anos e uma sólida reputação de escritor, mudou de sexo, passando a assinar Jan. As suas obras mais conhecidas são Conundrum (1974), sobre a dualidade identitária, e a trilogia Pax Britannica (1978), sobre as luzes e sombras do Império. Em Portugal está traduzido o excepcional Veneza, que teve quatro versões: 1960, 1974, 1983 e 1993. Lá em cima, os retratos mostram as duas faces de Morris.]

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Fevereiro 16, 2011

REVOLUÇÃO EM LISBOA


Com a progressiva fuga de residentes para os concelhos da periferia, muito acentuada nos últimos 30 anos, Lisboa tem hoje a população que tinha em 1930: cerca de 600 mil residentes. (Não confundir com a área metropolitana, onde vivem perto de 2,8 milhões de pessoas, dois terços das quais passam grande parte do dia na cidade.) Actualmente, esses 600 mil residentes distribuem-se por 53 freguesias.

António Costa decidiu alterar a realidade, propondo a substituição dessas 53 freguesias por 24. Com os votos de vereadores do PS e do PSD, a proposta foi ontem aprovada na Assembleia Municipal, ficando aberta a discussão pública até 22 de Março. A etapa final será a consagração do novo mapa de freguesias no Parlamento.

A proposta aprovada prevê manter inalteradas 11 freguesias: Ajuda, Alcântara, Beato, Benfica, Campolide, Carnide, Lumiar, Marvila, Olivais, Oriente, São Domingos. As restantes 42 serão fundidas em 13. Só posso aplaudir. E ainda são muitas! Barcelona tem 6.

Vereadores do CDS-PP preferiam 9 freguesias. Os do BE, 12. E Pedro Santana Lopes, 26. Só o PCP quer manter tudo na mesma: «Juntar assim ao molho as freguesias existentes é uma grave ofensiva contra o poder local

E que tal reduzir as 4050 freguesias do Continente (sobre os Açores e a Madeira não me pronuncio) a metade?

Etiquetas: ,

DANOS COLATERAIS


Lara Logan, jornalista da CBS que se deslocou ao Cairo para cobrir a queda de Mubarak para o programa 60 Minutos, foi brutalizada sexualmente na praça Tahrir no passado dia 11. (Suffered a brutal and sustained sexual assault...) O facto foi agora revelado neste comunicado da CBS. Lara Logan, que vemos na imagem minutos antes do ataque, encontra-se a recuperar num hospital americano.

Etiquetas: ,

PUB


Logo ao fim da tarde (18:30h) apresento na Bertrand das Amoreiras o mais recente romance de Maria Teresa Loureiro, Encontro no teu olhar, edição Clube do Autor.

Etiquetas:

Terça-feira, Fevereiro 15, 2011

IMPORTA-SE DE REPETIR?


Não sei se ria se chore: «Portugal vai ter um gabinete dedicado exclusivamente a apoiar, dinamizar e criar redes que permitam exportar a música portuguesa. Colocar a música portuguesa nas feiras, editoras, tournées internacionais e nos principais festivais.» Garantiu ontem Gabriela Canavilhas, ministra da Cultura.

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2011

ENCOMENDA?


Os cães de Pavlov não param de salivar. Uma fulana que não conheço de lado nenhum, descrita por amigos como espécie de freira laica do RALIS, escreveu: Eu evito este blogue, mas hoje fui lá para por acaso. E o que fez estrebuchar a criatura? Este parágrafo do  post de sábado: As tutelas militares não dão bom resultado. A experiência portuguesa é eloquente: entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975, dezanove meses de tranquibérnia absoluta; entre 25 de Novembro de 1975 e 30 de Setembro de 1982, subalternização da sociedade civil ao farisaísmo dos militares moderados: Eanes, Melo Antunes, Vítor Alves, etc. Foi preciso extinguir o Conselho da Revolução para sermos uma democracia plena. A Lei Constitucional 1/82 (a 1.ª revisão), aprovada por Soares e Balsemão, pôs fim a oito anos de tutela militar.

Seguiu-se o habitual cortejo de indignações. O dirigente comunista Vítor Dias obrigou-a a pôr aspas em democratas (uma curiosa ironia), achando repugnante que eu pudesse comparar o MFA com o exército egípcio. Do mesmo passo, os oligofrénicos do costume despejaram no brumoso blogue e no FB a linguagem de latrina que têm à mão. A ver se a gente se entende: eu não obrigo ninguém a concordar comigo. Mas tenho o direito a pensar pela minha cabeça. E não me comovo com a náusea mal resolvida do esquerdismo tardo adolescente.

Nem de propósito, ontem, Vasco Pulido Valente escreveu: «Não percebo por que razão os políticos divagam e os jornais se entusiasmam. [...] Nem sequer chegou o exemplo português de que um pequeno partido, com influência ideológica e bem organizado, [o PCP] pode facilmente corromper os militares e tomar conta do Estado [...] Por muito que doa ao idealismo adolescente em moda, civis sem armas não derrubam ditaduras.» Isto, que é o óbvio, não os perturbou. Presumo que nenhum leia o Público.

Irra que ao fim de 37 anos de liberdade de expressão ainda há gente a ver o mundo pelo olho da NKVD! Por último mas não em último: evita, porquê? E desta vez não evitou?

Etiquetas: ,

Sábado, Fevereiro 12, 2011

E AGORA?


Mubarak caiu e o Cairo vive o seu 25 de Abril. As filhas de Sontag e os bisnetos de Marcuse mergulham em transe no olho do furacão. Uma festa! Para deitar água na fervura, quem agora detém o poder é Mohamed Hussein Tantawi, ministro da Defesa (desde 1991) e chefe do Conselho Superior das Forças Armadas, homem de confiança de Washington, Israel e Arábia Saudita. Omar Suleiman, o pragmático chefe dos serviços secretos (desde 1993) e vice-presidente durante duas semanas (entre 29 de Janeiro e ontem), também saiu de cena. Posso enganar-me, mas ElBaradei não tem lugar no plot. Mubarak passou as últimas 48 horas numa base militar. A mulher e os filhos estão em Sharm el-Sheikh, uma estância de férias no Mar Vermelho. A Suíça anunciou ter congelado as contas do ditador.

As tutelas militares não dão bom resultado. A experiência portuguesa é eloquente: entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975, dezanove meses de tranquibérnia absoluta; entre 25 de Novembro de 1975 e 30 de Setembro de 1982, subalternização da sociedade civil ao farisaísmo dos militares moderados: Eanes, Melo Antunes, Vítor Alves, etc. Foi preciso extinguir o Conselho da Revolução para sermos uma democracia plena. A Lei Constitucional 1/82 (a 1.ª revisão), aprovada por Soares e Balsemão, pôs fim a oito anos de tutela militar.

E no Egipto, como vai ser? O Egipto tem 80,5 milhões de habitantes, dos quais cerca de 4% vivem com menos de um euro por dia. A população é jovem: a idade média ronda os 24 anos. O índice oficial de desemprego é de 10% (mas observadores internacionais garantem que é o dobro). Na área metropolitana do Cairo vivem 19 milhões de pessoas. Nas últimas três semanas, um terço da classe média pôs-se a recato em Istambul, Riad, Atenas e Londres.

Agora é aguardar para ver. Era bom que Tahrir fosse uma nova Queda do Muro. Gostava muito de acreditar.

Etiquetas:

CITAÇÃO, 328


Vasco Pulido Valente, Um espectáculo triste, hoje no Público. Sublinhados meus:


«Custa a compreender como qualquer pessoa com QI acima de 50 pode votar ou apoiar o Bloco de Esquerda. O Bloco foi um produto da televisão. Tinha quatro ou cinco caras bem falantes e não tinha mais nada. Era suposto ser uma aliança do radicalismo que ficava para além (ou para aquém?) do PC ou, por outras palavras, de trotskistas e de leninistas. Mas Trotsky, o único verdadeiro intelectual e o único verdadeiro escritor do bolchevismo (basta ler A Revolução Russa e A Minha Vida) com certeza que os desprezaria. E Lenine, um primitivo e um terrorista, se não os matasse logo, também não os levaria a sério. Aquelas criaturas que por ali andavam traziam por toda a bagagem ideológica e programática a sua raiva ao PC, que não os queria, e ao PS, que não precisava deles.

Ao princípio, o Bloco ainda trouxe ao Parlamento algumas causas, as “questões fracturantes”, que, embora por si não chegassem para fazer um partido, eram meritórias e profícuas. Principalmente, porque, nesse capítulo, o catolicismo militante de Guterres deixara o PS paralisado e mudo. Só que Sócrates, para quem a Igreja não contava, tornou desnecessária a retórica de Louçã, resolvendo ele o que havia para resolver. E o Bloco, de repente vazio e sem destino, sem organização e sem dinheiro, resolveu concorrer com o PC, como autêntico representante dos “trabalhadores”. Não percebeu, porque pouco percebe, que existe em Portugal uma velha e forte cultura comunista, em que ele não podia penetrar e que, de facto, não penetrou. Subsiste agora num limbo de irrelevância e de frustração.

Mas, por isso mesmo, se começou a agitar como um desesperado, ou como um louco. Primeiro veio a campanha de Alegre, uma jornada sentimental absurda, que previsivelmente acabou num vexame. E, depois, quinta-feira, foi o melodrama da moção de censura, que a direita, se não endoideceu (o que não é garantido), rejeitará; e que o próprio Louçã declarara na véspera
“sem utilidade prática”. Não vale a pena discutir os meandros tácticos desta fantochada. Vale a pena constatar que o Bloco de Esquerda não hesita em comprometer a vida ao país, com o fim faccioso e estúpido de embaraçar o PC, até quando o exercício manifestamente beneficia e fortalece Sócrates. Raras vezes se viu na política portuguesa um espectáculo tão triste.»


[Na imagem, activistas do Pumpkin Run junto à estátua de Lenine em Seattle. A estátua foi trazida em 1996 de um ferro-velho da cidade eslovaca de Poprad e colocada numa praceta ajardinada do distrito financeiro de Seattle. Foto de Marcus Donner, 2010. Clique para ver detalhes.]

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Fevereiro 11, 2011

OS ARTUROS DA IV INTERNACIONAL


Francisco Louçã teve o seu momento Carmelinda Pereira: anunciou uma moção de censura ao governo para o próximo 10 de Março, ou seja, para o dia a seguir à inauguração de Cavaco e véspera de um conselho europeu decisivo para a consolidação do euro. Já se sabia que nada distingue o trotskismo spa do BE da variante lambertista do POUS. É irrelevante saber se Louçã diz uma coisa no dia 6  —  No dia em que estamos a discutir não tem qualquer utilidade prática a apresentação de uma moção de censura...  —  e o contrário no dia 10  —  Desafiamos toda a Assembleia da República... O BE está reduzido a um grupo serôdio, sem implantação na sociedade (autarquias, sindicatos, Ordens profissionais, etc), desfasado da realidade, com necessidade de tempo de antena como de pão para a boca. O resto é conversa de porteira.

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Fevereiro 10, 2011

O THRILLER DA DGI


Augusta Duarte Martinho tinha 88 anos quando foi vista pela última vez no Verão de 2002. Teria hoje 96. Anteontem, o seu cadáver (e o do cão com quem vivia) foi encontrado em casa, num prédio da Rinchoa onde vivem quinze famílias. A Rinchoa tem cerca de trinta mil habitantes. Não estamos a falar da aldeia de Cova de Lua e outras parecidas, sem ofensa para esses lugares semi-desertos.

Durante mais de oito anos, Augusta Duarte Martinho não foi vista por ninguém (incluindo cinco sobrinhos e o primo que a levava ao médico), não levantou os vales da pensão da Segurança Social, não pagou as despesas de condomínio, não cumpriu as obrigações ficais. Dívida: 1475 euros. Por não ter cumprido, a Direcção-Geral dos Impostos penhorou a casa, vendendo-a em leilão por 30 mil euros. A nova proprietária recebeu a casa e o cadáver de Augusta, que jazia na cozinha (mais o do cão na varanda).

Estranho país o nosso. O primo que a levava ao médico presumiu que Augusta emigrara para o Dubai? A comissão de moradores não pestaneja durante perto de nove anos de ausência e omissão? A Segurança Social não investiga a não-liquidação dos vales? Ninguém estranhou que a luz da cozinha tivesse estado acesa durante oito meses? A Direcção-Geral dos Impostos põe casas a leilão sem contacto prévio com o contribuinte? Antes de leiloar uma casa, a DGI não faz um esforço para verificar se o contribuinte é detentor de bens adequados à liquidação de uma dívida de 1475 euros? Um carro, uns quadros, dinheiro debaixo do colchão... Anda tudo em piloto automático?

Nisto tudo, uma vizinha preocupou-se. Aida Martins foi à polícia participar a ausência. Foi lá 13 vezes. Treze. Ninguém ligou. Sem ordem do tribunal ninguém podia entrar em casa. Inconformada, foi também à GNR. A participação ficou registada: Processo n.º 2274/2002. NUIPC 1086/07.2 TQSNT. Mero pro forma.

Não aconteceu na Somália. Foi mesmo aqui ao lado. Lembram-se do morto do metro de LA em Collateral (2004) de Michael Mann? Não é muito diferente. A presunção de morte natural é um dado adquirido?


Adenda. Ao contrário do que se escreve em cima (com base em informação contraditória de jornais e televisões), não foi só a vizinha Aida Martins a participar a ausência à polícia. O primo também o fez. Terá sido ele, aliás, quem se dirigiu treze vezes ao tribunal para obter autorização para entrar em casa da prima.

Etiquetas: , ,

Quarta-feira, Fevereiro 09, 2011

BIRRA, 1


Desde que tomou posse em Março de 2006, Cavaco nunca vetara nenhum diploma do governo (só o fez relativamente a diplomas do Parlamento). Ontem, porém: O Presidente da República devolveu ao Governo, sem promulgação, o diploma sobre prescrição de medicamentos que prevê a obrigatoriedade de indicação do nome genérico e, também, a obrigatoriedade da prescrição electrónica.

Se isto não é uma birra, o que é uma birra? Cavaco ainda não digeriu o incómodo do BPN e da casa da Coelha. Tinha bom remédio: mandava a política às urtigas e ia gozar a reforma para Cabo Verde. Como prefere reincidir e a maioria dos que votaram concorda, deve pôr a razão de Estado acima dos humores.

No mundo civilizado (repito: no mundo civilizado) não passa pela cabeça de nenhum médico prescrever Artrolyt, Ben-u-ron, Lyrica, Prozac, etc. Em tais circunstâncias, prescreve diacereína, paracetamol, pregabalina, fluoxetina, etc. A isso chama-se denominação comum internacional (DCI). Cavaco não concorda. Recebeu cartas de médicos e pareceres sabe-se lá de quem. À Ordem dos Farmacêuticos não passou cavaco. Porquê?

Nada impede que na farmácia o cliente possa, a partir do DCI, escolher a marca A em detrimento da marca B. Pagando do seu bolso, nada o deve impedir. Sendo a Segurança Social ou a ADSE a pagar, é natural que tenha de pagar a diferença entre o valor do genérico (quando existe) e a griffe. Em que é que o diploma devolvido belisca?

Quanto à obrigatoriedade de prescrição electrónica a partir do primeiro dia do mês seguinte ao da publicação do diploma, parece-me pouco sensato. Mas isso não podia ter sido resolvido no backstage como aconteceu várias vezes?

Etiquetas: ,

Terça-feira, Fevereiro 08, 2011

OITENTA ANOS


Se fosse vivo, James Dean completaria hoje 80 anos. Três filmes bastaram para fazer dele uma lenda: East of Eden (1955), Rebel Without a Cause (1955) e Giant (1956). Não viveu o suficiente para ver nas salas o segundo e o terceiro: Rebelde sem causa estreou cinco semanas depois da sua morte, e O Gigante no ano seguinte. Morreu na madrugada de 30 de Setembro de 1955, com 24 anos, ao volante de um Porsche 550 Spyder (o «Little bastard»), no regresso de um gang bang gay onde, como era seu hábito, fizera de human ashtray. Era sua intenção participar nas corridas de Salinas, razão que o levou a deixar o gato em casa de Elizabeth Taylor, sua grande amiga. Na adolescência pertenceu a uma fraternidade secreta, a Sigma Nu, onde pouco evoluiu após a iniciação. Morrem jovens os que os deuses amam?

Etiquetas:

Segunda-feira, Fevereiro 07, 2011

BRANDOS COSTUMES


Uma cacha é uma cacha. Mas é pena que a capa do Público de hoje não seja comum a  todos os jornais portugueses, pagos e gratuitos, nacionais e regionais. A ver se entendemos de uma vez por todas a natureza dos nossos brandos costumes.

Etiquetas:

Sábado, Fevereiro 05, 2011

PRETEXTO?


Israel importa do Egipto 40% do gás que consome. O gasoduto de Al Arish (Sinai) foi sabotado na última madrugada, vendo-se as chamas a setenta quilómetros de distância. Anda aqui dedo da Irmandade Muçulmana? Ou dos serviços secretos egípcios? Bibi Netanyahu precisava de pretexto?

Etiquetas:

CITAÇÃO, 327


Vasco Pulido Valente, A prioridade das prioridades, hoje no Público. Excerto:


«[...] Desde Cavaco (Roberto Carneiro) a Guterres (Marçal Grilo) que o ensino foi, como se dizia, “a prioridades das prioridades”. O Governo e o Presidente da República não se calavam. O “capital humano” era o nosso grande capital e bastava “investir na escola” para desenvolver Portugal e o tornar feliz. E, de facto, Roberto Carneiro e Marçal Grilo inundaram com zelo o que eles, no seu calão, costumavam chamar “o sistema de ensino”. Deixemos de parte a questão da qualidade, que põe outros problemas. Basta observar que nenhum destes génios se preocupou com uma pergunta básica: existia ou não existia mercado para os “produtos” do “sistema de ensino” e nomeadamente da Universidade? Não existia, e nem o fanático mais feroz podia imaginar que viesse a existir tão cedo. [...]»

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Fevereiro 04, 2011

4 FEVEREIRO 1961


Faz hoje 50 anos começou a guerra colonial. Luanda estava cheia de jornalistas estrangeiros à espera do paquete Santa Maria, tomado de assalto em mar alto, por Henrique Galvão (na madrugada de 22 de Janeiro), com o propósito de o desviar para a capital de Angola. Tal não aconteceu porque a Marinha americana o impediu, obrigando Galvão a inverter a rota e desembarcar no Recife. Mas, nesse longínquo 4 de Fevereiro de 1961, Luanda era o epicentro dos media internacionais. Concertada com a estratégia de Galvão, a data era perfeita.

Nesse dia, grupos de nacionalistas negros atacaram a Casa de Reclusão Militar, a Cadeia de São Paulo, os Correios, a 7.ª Esquadra da PSP e o Aeroporto. Tudo terá começado às duas da madrugada, na noite de 3 para 4. Presos fora das cadeias, caos, mortos, feridos. Nova onda de ataques (na cidade) no dia 11. Um padre, o cónego Manuel das Neves, passou à história como mentor do putch. Para a memória colectiva ficaram os massacres de 15 de Março, que afectaram as populações de uma área superior à de Portugal: St António do Zaire, São Salvador do Congo, Maquela do Zombo, Ambrizete, Negaje, Mucaba, Sanza-Pombo, Uíge, Cuanza e Baixa do Cassange. Povoações saqueadas e destruídas, viaturas e explorações agrícolas incendiadas, animais domésticos mortos, homens decapitados, mulheres violadas e esventradas, crianças cortadas aos bocados, linhas férreas sabotadas, etc. O número de mortos oscila entre 4000 e 6000 (sendo os brancos cerca de 1200). Daí o célebre Para Angola, rapidamente e em força, de Salazar.

Tudo isto, com detalhe de antecedentes, circunstâncias, datas, mapas, listas de presos, quadros estatísticos, documentos oficiais, fac-símiles, fotografias e bibliografia atinente, é descrito por Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus em Angola 61. Em 280 páginas, estes dois investigadores fazem um tour d’horizon à guerra em África (1961-1975), com enfoque especial em Angola. Nas outras frentes a guerra começou mais tarde: em Janeiro de 1963, na Guiné; em Setembro de 1964, em Moçambique. Um dos aspectos mais interessantes da obra prende-se com as consequências do conflito, ilustrado pela tensão crescentre entre os dirigentes ultramarinos (governadores e chefes militares) e Lisboa (Salazar, Caetano, ministério do Ultramar). Por último mas não em último: percebo a opção gráfica, mas gostaria que as fotografias tivessem sido impressas noutro formato.

Etiquetas: ,

PESOS & MEDIDAS


Manuela Ferreira Leite fez ontem a Quadratura do Círculo no lugar de Pacheco Pereira. Disse, entre outras coisas: os políticos são mal remunerados (estou de acordo); o actual nível de remunerações impede os quadros qualificados de ocuparem cargos de responsabilidade política (uma curiosa noção de serviço público); os cortes salariais não deviam abranger médicos e professores (acto falhado?); os impostos deviam ter descido para beneficiar as PME e salvar o emprego (não discuto); o mérito não é reconhecido (depende do ponto de vista), etc.

Se bem percebi, no tocante a salários da classe política, Manuela Ferreira Leite defende que os escolhidos devem poder conservar, durante o exercício de funções públicas (ministro, secretário de Estado, deputado, presidente de autoridade reguladora, director-geral, etc.), o salário de origem. Resta saber quem paga a diferença entre, por ex., os 6 mil euros de ministro e os 30 ou 60 mil de uma grande empresa ou banco. Verdade que Ferreira Leite não disse nada que não tivesse feito. Em 2004, era ela ministra das Finanças, nomeou Paulo Macedo, quadro do Millennium BCP, para o lugar de director-geral dos Impostos. Macedo foi ganhar 23 mil euros por mês (o que recebia no banco), em vez dos 5 mil que competem ao lugar. E por lá ficou três anos, apesar da mudança de ministro: Bagão Félix, que substituiu Ferreira Leite, manteve a nomeação. A ideia não me repugna, mas é preciso saber quem paga.

A questão dos cortes salariais é simples: a classe média (a verdadeira: salários líquidos a partir de 2500 euros mensais) considera-se espoliada porque as remunerações inferiores a 1550 euros mensais ficam intocadas. Ainda ontem António Costa lembrou que, dos 11 mil trabalhadores afectos à Câmara de Lisboa, menos de 10% sofreram cortes.

Compreende-se o incómodo de Manuela Ferreira Leite, obrigada a optar entre o salário de deputada e a(s) pensão(ões) de reforma como quadro da Gulbenkian, professora catedrática, quadro superior do Banco de Portugal, directora-geral da Contabilidade Pública, administradora do Santander Totta, etc. Achará a senhora que devem ser os precários a pagar a crise?

Etiquetas:

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2011

AID MONEY


O Commons Select Committee do parlamento britânico tornou público o resultado de uma auditoria às contas do Departamento para o Desenvolvimento Internacional. Pode ler aqui. Entre outras coisas, fica-se a saber que a visita do Papa à Escócia e a Inglaterra, em Setembro do ano passado (imagem), custou 11 milhões de euros aos contribuintes britânicos, fora a fatia suportada em donativos privados. O detalhe picante é que 2,2 milhões de euros foram desviados dos fundos públicos de ajuda a... países pobres! Malcolm Bruce, deputado relator da auditoria, afirma: «Many people will be as surprised as we were to discover that UK aid money was used to fund the pope’s visit last year. [...] Ministers need to explain exactly what this was spent on and how it tallies with our commitments on overseas aid.» Bem vistas as coisas, mais milhão menos milhão, cada macaco no seu galho.

Etiquetas: ,

SEM FUMO


Em nome da saúde pública,  a assembleia municipal (City Council) de Nova Iorque aprovou ontem, por 36 contra 12 votos, a proibição de fumar em jardins, parques, áreas pedonais e praias da área metropolitana. Sobram as ruas abertas ao trânsito automóvel. A partir de 1 de Maio, os fumadores terão de abster-se em Central Park, Gramercy, Bryant, Madison, Union, Washington Square, etc., no Jardim Botânico, em Times Square, na praia de Coney Island e por aí fora. Bloomberg, o mayor da cidade, congratulou-se com a medida.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Fevereiro 02, 2011

TAHRIR, TAKE 2


O recreio acabou. A ver vamos se a praça Tahrir não se transforma numa nova Tiananmen. Muita coisa mudou desde 1989, mas um regime autoritário é um regime autoritário. No momento em que quase todos os estrangeiros residentes no Cairo (americanos, ingleses, alemães, israelitas, turcos, espanhóis, portugueses, etc.) abandonaram o país, Blair define Mubarak como immensely courageous and a force for good... Não terá sido por acaso.

As imagens da Aljazeera são eloquentes. Correspondentes de várias estações dão ênfase a pormenores só na aparência irrelevantes: personalidades públicas que marcavam presença na praça, como intelectuais, professores, artistas e activistas dos direitos humanos, deixaram de ser vistos. O número de mulheres baixou drasticamente. Há sinais de que os serviços secretos (muito poderosos no Egipto) estão a ganhar terreno. Não é de todo extravagante que os apoiantes de Mubarak tenham levado nove dias a acordar... Terão ido buscar os camelos ao deserto de Negev?

Etiquetas:

SUGAR DADDY'S CASTRATION


Renato Seabra, assassino de Carlos Castro, foi ontem ouvido no Tribunal Supremo do Estado de Nova Iorque. Declarou-se not guilty. O juiz manteve a acusação de homicídio de 2.º grau. A audiência durou pouco mais de três minutos. O tribunal facultou à imprensa toda a documentação relacionada com o crime.

Resumo do relatório da polícia, em tradução de Kathleen Gomes para o Público: «[...] Seabra e Castro tiveram uma discussão verbal que se transformou numa altercação física. O arguido disse que agarrou Carlos pela parte de trás do pescoço e arrastou-o para o chão, aplicando pressão na sua traqueia. Seabra confessou ter apunhalado Castro com um saca-rolhas na zona genital e no rosto e ter castrado os testículos da vítima usando o mesmo objecto. Também disse que atingiu Castro na cabeça com o monitor de um computador e pisou-lhe o rosto “enquanto estava calçado”. Seabra declarou que a seguir tirou as roupas que usava, tomou um duche, vestiu um fato e deixou o quarto. Confirmou que encontrou uma amiga de Carlos Castro e a sua filha – Vanda e Mónica Pires, que na véspera tinham estado com os dois homens –, que lhe perguntaram por Castro e por que razão ele não estava a atender o telefone.»


NY DailyNews
Model Renato Seabra, accused killer in castration slay of journalist lover Carlos Castro, in court

New York Post 
Portuguese underwear model pleads ‘Nao Culpado’ in sugar daddy’s Times Square Castration slay


[Foto de Steven Hirsch para o Post. Seabra ouve o tradutor.]

Etiquetas:

Terça-feira, Fevereiro 01, 2011

HOMOSSEXUALIDADE FEMININA EM PORTUGAL


O historiador Paulo Drumond Braga, especialista em história dos descobrimentos e da expansão portuguesa, acaba de publicar Filhas de Safo, uma breve história da homossexualidade feminina em Portugal entre os séculos XIII e XX. Em 147 páginas, o autor sinaliza factos e personagens históricas, desde a anónima Joana Fernandes, morta na fogueira em 1551, aos amores da rainha Dona Amélia por Dona Josefa de Sandoval y Pacheco (mulher de António de Vasconcelos e Sousa), condessa de Figueiró, ama da rainha durante 25 anos, sua acompanhante no exílio. Apoiado em vasta bibliografia, desde documentação do tribunal do Santo Ofício a fontes actuais, o estudo abrange os três conceitos à luz dos quais o lesbianismo foi percebido em Portugal até aos anos 1930: Pecado (séculos XIII-XV), Crime (XVI-XIX) e Doença (XIX-XX). Entre as últimas personalidades analisadas, as mais conhecidas são Judith Teixeira (1880-1959) e Virgínia Vitorino (1895-1967). Abundantes notas contextualizam a narrativa histórica.

Etiquetas: ,

POMPAS FÚNEBRES


Agora que o n.º 99 [Fevereiro] da LER está na rua, deixo aqui a crónica Pompas fúnebres, publicada no n.º 98 na minha coluna Heterodoxias:


Inês não esquece o dia em que fez 15 anos. A mãe tinha-lhe dito para pedir o bacalhau à professora de inglês. O filho de Eunice Gardiner estava colocado na base das Lajes. Era de lá que mandava o bacalhau mais o whiskey e o Uncle Ben’s. Inês tinha vergonha. As suas amigas não entravam em esquemas daqueles. E as que iam à Casa do Príncipe vinham de lá com histórias divertidas. Havias de ver a Champas a discutir com a Mizé com um salmão inteiro entalado no sovaco...

Inês escondia os embrulhos do trambique enquanto ria um riso amarelo. Uma manhã em que chegou mais cedo apanhou o gerente do banco no alpendre do colégio a encher a bagageira do carro com embalagens de Marlboro. Corria que a Tabacaria Purvis era da amásia.

A crise tem costas largas. Inês não quer saber dela.

Na tarde do dia em que fez 15 anos o Rui levou-a de mota para as dunas do Abano. Vais gozar muito. Não tenhas medo. Gozou. Pensava que daquele modo só entre rapazes. Afinal as mulheres davam. Ela deu. Confirmou que era verdade o que ouvira dizer acerca dos dedos grossos dos homens. Voltou dorida e feliz.

Sozinha em casa (os pais têm sessão de terapia grupal no Chequers) toma consciência da condição de fêmea. Enche o bidé de argila fresca e senta-se. Repousa até perder a noção do tempo. É muito tarde quando sai do banho para ir ter com o grupo à Choupana.

Inês tem 25 anos no dia em que o pai mete a pistola a boca e dispara. A mioleira deu cabo do Noronha da Costa. Negócios fora-da-lei? O pai? A Sociedade de Corretagem falida? Então a casa já não era deles? Em que parte da história entrava o broker preso pelo FBI num hotel de Atlanta? O tal que foi a Fátima pedir desculpa pelo incómodo.

Hoje tem 43 anos.

Aos domingos vê o Rui na varanda do Albatroz. Ele com a Manecas e uma erecção discreta. Ela com o Abílio e o Abílio com a metafísica do balneário. Dadinha Vacarothko (em solteira Mergulhão) comprou um T5 na fortaleza do Byrne. Cada cêntimo investido é uma paráfrase bíblica. Onde vão os linguados do João Padeiro. Agora não faz a coisa por menos que olhos de boga envolvidos em crème fraiche mergulhados em azoto líquido.

Inês está cercada. A escola do filho come dois terços do salário do marido. Aguenta porque o imobiliário classe AA+ passa incólume à derrocada geral. Cinco milhões de euros? Seis? Who cares? Os que vêm de Angola trazem o dinheiro em sacos tartan-cíclame do Roque Santeiro. Os de São Petersburgo e Novgorod tomam cautelas de offshore. Inês jurou que não voltava às punhetas de bacalhau. Venham mais ovimbundus e capos da Orekhovskaya pois com Braganças é pura perda de tempo. E não é que um Chipenda lhe comprou um duplex para uma manicure ruiva da Quinta do Bau-Bau? A mulher transferiu-se da Sobreda para o Parque das Nações rodeada de tanta coreografia que provocou uma reunião urgente da comissão de condóminos. Isto é um condomínio respeitável!

Suportou tudo. A candonga de Mrs Gardiner. As punhetas de bacalhau da mãe. O suicídio do pai. A absolvição do yuppie. O tédio do casamento. A perda dos activos do BPP. Agora tratava-se do filho. Um miúdo de 17 anos. O Zé Maria anda a vender mefedrona a outros alunos. Não queremos publicidade nem vamos avisar a polícia. Mas ele tem de deixar a escola imediatamente. Mefedrona? Inês sente-se aturdida. É a primeira vez que ouve o palavrão. O advogado diz que se trata de uma droga sintética muito popular. É a prima judia do MDMA. Prima? MDMA? Desiste.

O Abílio desinteressa-se. Pelo menos não é maricas. Zé Maria diz para quem o quer ouvir que o seu melhor cliente é o filho do director da escola. Pudera! Sem fertilizante o gajo não a põe de pé. Inês sente o chão a rodopiar. Então é para isto que trabalha como uma mula.


[O texto contrapõe a crise económica e financeira de 1983 à de 2010. Na imagem, parte do edifício Estoril Sol Residence, do arquitecto Gonçalo Byrne.]

Etiquetas: ,

LER 99


A LER n.º 99 (Fevereiro) chegou com o frio. Desta vez é Pedro Tamen o grande entrevistado de Carlos Vaz Marques. Tamen começou a publicar em 1956 e, ao quinto livro, Daniel na cova dos leões (1970), era já uma das grandes vozes do século XX em língua portuguesa. A rapaziada dá pouco por ele porque Tamen não comenta e aparece pouco na televisão. Traduz muito, e bem: de Proust a Reinaldo Arenas, de Hector Bianciotti a Flaubert, mais umas dezenas com o mesmo grau de exigência. Sem papas na língua, diz: «Os êxitos do ponto de vista da crítica [...] são sobretudo de jornalistas. Os jornalistas deram em escrever.» Também não poupa poetas: «A sobrevalorização de gente como o Manuel de Freitas, por exemplo, é claro que é movida pelos empurrões das amizades.» Obrigatório ler. Já ouviu falar do nanominimicroconto...? Lydia Davis, diz Casanova, é a imperatriz do género. Pela mão de José Mário Silva, saiu agora a tradução portuguesa de Break It Down, 1986 / Demolição, obra que consagrou a ex-mulher de Paul Auster. Entretanto, Richard Zenith revela inéditos de Pessoa. Mas também pode ler uma pré-publicação de Saul Bellow sobre uma viagem a Jerusalém. Por último mas não em último, um ensaio de Alberto Manguel em exclusivo para a revista. E crónicas (a minha sobre Malangatana), recensões, notas de leitura, gossip, novidades, etc. Numa banca ou livraria perto de si.

Etiquetas: