Segunda-feira, Janeiro 31, 2011

CABARÉ FASCISTA


Lidas a partir do que aparece nos blogues e outros media, as contradições da direita são insanáveis. Assessores partidários (vários), ex-governantes com perfil académico que ganhavam em resguardar-se do agitprop, colunistas azedos, presuntivos candidatos (dezenas) ao primeiro think tank que garanta trampolim, boys ansiosos, professores obscuros à cata de reconhecimento, arrivistas dispostos a tudo por um lugar à mesa do Estado e outras espécies avulsas, ora pedem menos Estado, ora arrancam as vestes de cada vez que o governo tenta pôr ordem no derrame dos dinheiros públicos. O episódio do ensino privado é eloquente.

Transformar uma questão de equidade (reduzir o financiamento estatal às escolas com contrato de associação que deixaram de dar resposta, no todo ou em parte, aos pressupostos do apoio) no fantasma da liberdade de escolha, releva da demagogia mais grosseira. Até um jovem bem-intencionado como o Henrique Raposo, de quem sou amigo, escreve no Expresso coisas como esta: «A nossa queriducha do PCP deve achar que a Suécia é um cabaré fascista.» A vantagem do Henrique é que, não tendo razão, tem piada. Chamar Betinha do PCP a Isabel Alçada, ministra da Educação, é todo um programa! Por uma noite, o Henrique foi o herói dos jantares trendy.

Conta o Expresso de anteontem que Passos Coelho não tem pressa de chegar ao governo. Para já, anda entretido (e faz bem) com uma equipa de 60 economistas. Sessenta! Liderados por Carlos Moedas, antigo quadro da Goldman Sachs e actual coordenador do Gabinete de Estudos do PSD. Álvaro Santos Pereira, João Moreira Rato e Maria Luís Albuquerque estão no comité. Não obstante o sangue novo, parece que a solução milagreira aponta para Eduardo Catroga, 68 anos, ministro da fase terminal do cavaquismo. Faz sentido?

Se não fosse trágico, que divertido era ter eleições já amanhã! Não acreditam?

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Domingo, Janeiro 30, 2011

O HORIZONTE A ARDER


O Egipto está mergulhado no caos há seis dias. Porém, as manchetes dos jornais portugueses ignoram o melindre da situação. O Público mandou ao Cairo o seu melhor jornalista, mas o facto não mereceu mais que uma chamada de primeira página.

Escreve Paulo Moura: «Hoje não há polícia. Depois da repressão que marcou todo o dia e noite de sexta-feira, a polícia desapareceu de repente. Nem um agente em toda a cidade do Cairo. Algumas esquadras estão queimadas, ainda a fumegar, dos ataques da noite passada. Mas agora não há pretexto algum para assaltar uma esquadra de polícia. A repressão acabou. Magotes de gente desfilam empunhando cartazes contra o novo vice-presidente e contra Mubarak. Ninguém os impede. Fala-se livremente. [...] De facto, o aspecto de auto governo parece ter começado. Há piquetes por todo o lado, grupos de manifestantes cortam o trânsito nalgumas ruas, outros dão informações. Em certas zonas, o sistema funciona. A autoridade superior deixou de existir, e dir-se-ia que Mubarak já não está de facto no poder. Escondido num palácio da estância turística de Sharm-el-Sheikh, teria desistido do país e prepararia ignobilmente a fuga.»

O Egipto não é a Tunísia. A Tunísia tem 10,5 milhões de habitantes, dos quais 3,8% vivem abaixo do limiar da pobreza. O Egipto tem 80,5 milhões de habitantes, dos quais 20% vivem abaixo do limiar da pobreza. Denominadores comuns: alto índice de desemprego, 14% na Tunísia, 10% no Egipto; e população jovem: 29 anos (idade média na Tunísia) e 24 anos (no Egipto). Factores de risco acrescido. Em Tunes, uma cidade com 750 mil habitantes, onde toda a gente fala francês, a revolução pôde ser de jasmim... No Cairo, cuja área metropolitana acolhe 19 milhões de habitantes (oito milhões no centro), quase só se fala árabe. Por último mas não em último, estamos a falar de países com pouco mais de 50 anos de independência: em 1956, a França saiu da Tunísia; em 1959, as tropas britânicas deixaram o Egipto. A independência egípcia (1953) era formal. Os britânicos só abandonaram o país cerca de três anos depois da guerra do Suez de Outubro de 1956. De certo modo, tudo começa agora.

Vendo há pouco imagens de Alexandria banhada de sol, lembrei-me de Kavafis. O grego teria cantado como ninguém os jovens irados da cidade onde nasceu e morreu: «Sacudiam as suas cabeças e as longas crinas moviam, / batiam na terra com as suas patas e carpiam...» Cf. Os Cavalos de Aquiles.

Vá seguindo aqui o desenrolar dos acontecimentos.

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Sábado, Janeiro 29, 2011

PSD DÁ EXEMPLO


Jorge Nuno Sá, 33 anos, presidente da Juventude Social Democrata entre 2002 e 2005, actual conselheiro nacional do PSD, casa hoje com o seu companheiro. Quanto se sabe, é o primeiro político português a casar com uma pessoa do mesmo sexo. Jorge Nuno Fernandes Traila Monteiro de Sá foi deputado (2002-2009) do PSD pelo círculo de Viana do Castelo. Recentemente, distinguiu-se por ter sido o único membro do Conselho Nacional do PSD a votar contra o apoio à recandidatura de Cavaco Silva. Parabéns. À esquerda não há registo de precedente. É pena.

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SERMÕES IMPOSSÍVEIS


O lançamento é hoje, às 18:30h, na Pó dos Livros.
Ferreira Fernandes apresenta a obra.
A Fernanda dispensa apresentações.

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Sexta-feira, Janeiro 28, 2011

QUEM LHE PASSOU PROCURAÇÃO?


Por razões de saúde, António Capucho suspendeu por um ano o exercício do cargo de presidente da Câmara de Cascais. Nada a comentar. Porém, no statement que proferiu esta tarde, acrescentou: «Coloco o meu lugar no Conselho de Estado à disposição do dr. Pedro Passos Coelho.» Mas colocar o seu lugar de conselheiro de Estado à disposição do dr. Pedro Passos Coelho é uma figura de retórica. António Capucho está no Conselho de Estado por decisão da (e na quota da) Assembleia da República. Ele, Almeida Santos, Manuel Alegre, Gomes Canotilho e Pinto Balsemão. Ainda compete à Assembleia da República escolher os seus representantes. Ou já não?

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RICARDO MENÉNDEZ SALMÓN


Hoje no Público:


Entre os autores espanhóis com menos de 40 anos, Ricardo Menéndez Salmón (n. 1971) é seguramente um dos mais interessantes. Publicou romances (oito), ensaio, poesia, teatro e crónica. O livro mais recente, La luz es más antigua que el amor (2010), faz um travelling entre a Peste Negra de 1350 e o 11 de Setembro de 2001, tarefa impossível sem o domínio perfeito dos recursos narrativos. Salmón atingiu o patamar da consagração com a denominada Trilogia do Mal: A Ofensa, várias vezes premiado e unânimemente considerado o melhor romance espanhol de 2007; Derrocada (2008) e O Revisor (2009). O terceiro acaba de ser traduzido.

A trilogia que O Revisor encerra é uma reflexão sobre as raízes do Mal: massacre de inocentes e outros episódios aviltantes da Segunda Grande Guerra (A Ofensa); condição humana e bestialidade na cidade imaginária de Promenadia, que é como quem diz, Gijón (Derrocada) e, a fechar, estupor, mentira e sequelas dos atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid: «Quando o primeiro comboio foi pelos ares, derramando sobre as nossas pequenas e esforçadas vidas um aluvião de sangue, cólera e medo, eu [...] corrigia umas provas de Demónios de Fiódor Dostoiévski.» Vladimir, o narrador, é revisor literário, ou seja, alguém que sabe que a linguagem cria e modifica a realidade: «Perverter a realidade através da linguagem [...] é uma das maiores conquistas do poder.»

Escrito a partir das Astúrias como se de uma crónica se tratasse (o narrador arruma os acontecimentos de que foi testemunha um ano antes), nem por isso este romance perde tensão dialéctica. Truques de metalinguagem, elipses, envios (Platão, Nabokov, DeLillo, etc.), i.e., material atinente à profissão de Vladimir, não iludem o essencial: «Ninguém, desde que existem ágoras, mentiu tanto como os políticos.» Salmón está zangado. Porém, se por vezes a moral turva o juízo (estamos de volta à literatura comprometida), a secura da prosa resiste a boa altura. Palavras suas: «a literatura, por definição, é a fraternidade do detalhe.»

Num tempo em que os conceitos de justiça, democracia e liberdade perdem o sentido, o demónio são os outros. Os políticos foram aperfeiçoando a arte da mentira, de modo que «os bons tempos já estão a chegar ao fim há umas quantas primaveras». Corolário: «há-de ir tudo para a merda.» Não admira que Heraclito seja chamado à colação.

Para Salmón não há inocentes. Os massacres de Atocha (três bombas), El Pozo del Tío Raimundo (duas), Santa Eugenia (uma) e calle de Téllez (quatro), com o seu cortejo de horror, mortos (191) e feridos (dois mil), interpelam directamente o poder: Aznar, chefe do governo, mentiu. Otegi, líder do Batasuna e «vigário da ETA na arena política», não convenceu ninguém. Naquele dia, centenas de satélites focavam «os seus olhos de silício sobre o coração de Madrid», porque o mundo «tinha parado sobre a sucata dos quatro comboios.»

Escrito a dois tempos, o da indignação (Madrid) e o do tédio (algures nas Astúrias), o discurso perde fôlego quando o narrador se perde numa horta, «entre cenouras, morangos e urtigas.» O primeiro tem dificuldade em descobrir «o pathos do Mal ao deambular entre os [seus] vizinhos como um deus homérico diante das muralhas de Tróia.» O segundo discreteia sobre a profissão de revisor... Verdade que nada disto impede momentos fortes, como sejam as reflexões sobre a orientação cognitiva (a Weltanschauung) do líder do Batasuna, um homem que «teria dançado o Deutschland über alles ou o raio da dança da chuva em cima das nossas tumbas.» Diria que a dimensão heróica convive mal com a crónica literata deste tempo de impostores.

A título de curiosidade refira-se que, além de Salmón, outros escritores espanhóis utilizaram os atentados de Madrid como tema literário: Luis Mateo Díez, La piedra en el corazón (2006), Blanca Riestra, Madrid blues (2008), Adolfo García Ortega, El mapa de la vida (2009) e Manuel Gutiérrez Aragón, La vida antes de marzo (2009). Quanto sei, o de Salmón é o único publicado em Portugal.


Um tempo de impostores, in Ípsilon, 28-1-2011, pp. 36-37. Três estrelas e meia.

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CITAÇÃO, 326


Vasco Pulido Valente, O Presidente perdido, hoje no Público. Breve excerto, sublinhados meus:


«Temos de voltar ao essencial. O dr. Cavaco perdeu. E fez mais do que perder uma eleição. Comprometeu gravemente o regime, que daqui em diante já não pode funcionar com qualquer espécie de “regularidade”. Com 54 por cento de abstenção, um Presidente, este ou outro, não tem a força e o prestígio para dissolver a Assembleia ou sequer para exercer uma influência pesada sobre o Governo. Está sempre numa posição de claríssima fraqueza, porque nada lhe garante que os poucos votos de 23 de Janeiro (menos de um quarto dos portugueses) lhe cheguem para sancionar ou impor uma decisão [...] obrigado a negociar a todo o momento cada passo e cada palavra.

E assim o homem, que devia assegurar a estabilidade da República, acabou em cinco anos por a comprometer.
[...] Andou por aí, como um fantasma, sem uma palavra pertinente, um gesto de afirmação, uma vontade clara. E ficou, como era de esperar, sozinho. O que não importaria muito, se Portugal não precisasse, como precisa, de um Presidente.»

[Imagem roubada aqui.]

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Quinta-feira, Janeiro 27, 2011

CHULICE, 2


Por causa da chulice recebi dezenas de mensagens, quase todas discordando do meu ponto de vista. A maioria fez vista grossa ao carácter irónico do termo madrassa, tomando-o à letra. Não vou chover no molhado. Mas aproveito para chamar a atenção para dois posts que resumem bem a situação do ensino a que chamam privado.

Anteontem, João José Cardoso expôs com clareza a situação em Coimbra: recibos de vencimento que exibem valores superiores ao que é pago / devolução em dinheiro do montante correspondente ao subsídio de refeição / horários manipulados / trabalho gratuito / professoras que estiveram de licença de maternidade e entregaram ao patrão o cheque da Segurança Social que receberam quando regressaram ao serviço / registos biográficos que contradizem a assiduidade dos docentes / verbas do ME que nunca chegam às mãos dos docentes / etc. Sinistro é um adjectivo muito forte? Conclusão: «Foi a passividade de vários governos que permitiu chegar ao ponto a que se chegou. Durante quantos anos o poder político fechou os olhos e arquivou processos disciplinares instaurados a colégios? Talvez por isso se sinta hoje refém da sua própria apatia.»

Hoje, Ricardo Santos Pinto dá nova achega, tomando como exemplo o Colégio Paulo VI, de Gondomar, o qual «não cumpre o principal requisito das escolas com contrato de associação  —  oferecer educação gratuita a uma região que não dispõe de oferta pública.» É dever das escolas com contrato de associação receberem os alunos da sua área de implantação sem restrições. Isso não acontece no referido colégio, onde todos os alunos são seleccionados por aproveitamento prévio. Numa zona atolada de oferta pública como é Gondomar (quarenta e sete escolas do 1.º ciclo, sete do 2.º-3.º, mais quatro secundárias), o Colégio Paulo VI dá-se ao luxo de brincar com o dinheiro dos contribuintes.

Vai sendo tempo de dizer basta.

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Quarta-feira, Janeiro 26, 2011

SUROESTE


Depois do luxuoso catálogo em dois volumes da exposição que não atravessou a fronteira, acaba de sair o primeiro número de Suroeste, revista literária ibérica de cujo conselho editorial faço parte. Dirigida por Antonio Sáez Delgado, ensaísta, professor da Universidade de Évora e investigador do Modernismo português, a revista é publicada pela Editora Regional de Extremadura, que tem no seu catálogo autores portugueses como José Gil, Fernando Pinto do Amaral, Gonçalo M. Tavares e outros.

Este primeiro número inclui poesia, ficção, ensaio, crítica, desenho e fotografia, de autores tão diferentes como Antonio Gamoneda, Teolinda Gersão, Mário de Carvalho, Pablo Javier Pérez Lopez, Jose Luis García Martín, António Apolinário Lourenço, Pedro Serra, Martín López-Vega, Perfecto E. Cuadrado, Fernando Pinto do Amaral, Eloísa Alvarez, Miguel Ángel Lama, Gonçalo M. Tavares, Ruy Ventura, Possidónio Cachapa, Luis Manuel Gaspar, António Cândido Franco, Steffen Dix e outros. Félix Romeo assina um dicionário de escritores assassinos... e Joana Morais Varela escreve sobre David Mourão-Ferreira. A secção de recensões contempla inúmeras obras portuguesas. Seria pleonástico sublinhar o apuro gráfico da edição. Grande formato (30x24cm) e 190 páginas.

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CHULICE


As madrassas sairam à rua. Não tem nada que perceber: os arautos do menos Estado melhor Estado, do arbítrio da sociedade civil e da livre iniciativa (bons princípios), não largam a teta do... Estado! A manif dos caixões, induzida por Cavaco e dinamizada pelo Movimento SOS Educação, raiou o porno hardcore. No Saldanha, interrogada sobre se os filhos tinham ensino alternativo ao privado, uma manifestante argumentou: Claro que têm! Mas não quero misturas. OK.

Parece que hoje fecharam 20 escolas ligadas ao Movimento. Fizeram muito bem: está um bonito dia de sol. Amanhã fecham mais. Como em tudo, este é um lado do problema. Facto é que outras 57 escolas privadas já assinaram adendas aos contratos de associação. Ponto assente: a maioria dos contribuintes não está disposta a continuar a suportar a mama.

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EM QUE FICAMOS?


Estão lembrados do Affaire d’Outreau que em Dezembro de 2000 mergulhou a França num vórtice? Em resumo: sob a acusação de abuso de menores, foram presas 260 pessoas; dessas duzentas e sessenta, dezassete foram levadas a julgamento; quatro foram condenadas; um dos acusados suicidou-se na prisão. Em Novembro de 2005, Myriam Badaoui, principal testemunha de acusação, confessou ter mentido: «Les six appelants n’avaient strictement rien fait.» Quando a cabala foi desfeita, havia inocentes presos há três anos. Em defesa da honra perdida, os juizes reconheceram ter cedido à pressão social e mediática do caso. O Estado francês foi obrigado a indemnizar os acusados por erro grosseiro da justiça, [faute lourde] prejuízo material e prisão preventiva ilegal. O valor da indemnização foi mantido secreto. Fabrice Burgaud, o juiz de instrução, foi sancionado em Abril de 2009 com une réprimande avec inscription au dossier. Sobre o caso foram publicados dezenas de livros e realizados dois filmes para a televisão francesa.

Hoje, a revista Focus publica uma entrevista (antecipada ontem pela SIC) com Carlos Silvino, vulgo Bibi, principal testemunha de acusação do processo Casa Pia. Diz o antigo motorista da instituição: todas as pessoas que acusei estão inocentes; foi a polícia que me obrigou a fazer as acusações; foi a polícia que me obrigou a mentir em tribunal; tenho suspeitas de ter sido drogado pela polícia; tive pena dos rapazes, que se fartaram de levar porrada; os rapazes foram obrigados a assinar papéis sem os terem lido; conhecia Manuel Abrantes (o Provedor) e Ferreira Diniz (médico da Casa Pia); não conhecia nenhum dos outros arguidos; não conhecia a casa de Elvas, o apartamento da Avenida das Forças Armadas e a barraca da Buraca; nunca levei rapazes para nenhum desses sítios; «a investigação foi sempre orientada segundo objectivos previamente definidos [e] fui silenciado do princípio até ao fim.» Ricardo Sá Fernandes, advogado de Carlos Cruz, disse já que vai requerer ao Tribunal da Relação de Lisboa a junção da entrevista e nova audição de Carlos Silvino.

Como era público, Carlos Silvino dispensou os serviços do seu advogado no passado dia 17. Como se soube hoje, pediu desculpas pessoais a Manuel Abrantes, Ferreira Diniz e Hugo Marçal, não tendo conseguido falar com Carlos Cruz. Foi entretanto recebido em audiência por Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados.

O processo encontra-se na Relação de Lisboa, que avaliará os recursos. Para já, defesa e acusação (Ministério Público) estão de acordo num ponto: o acórdão é nulo na parte relativa à casa de Elvas.


[Ao centro da imagem, o telegénico Fabrice Burgaud, juiz de instrução do caso d’Outreau, em Fevereiro de 2009, no dia em que foi ouvido pelo Conselho Superior da Magistratura.]

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ALMOCREVE DAS PALAVRAS


É já amanhã, quinta-feira, o lançamento de Almocreve das Palavras de Hennrique Segurado. No Grémio Literário, às 18:30h. Apresentação, leitura de poemas, concerto de piano (João Aboim), cocktail. Clique na imagem para ver todos os detalhes.

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Terça-feira, Janeiro 25, 2011

PAGAMOS NÓS


Julgava que os candidatos às presidenciais tinham de financiar as respectivas campanhas? Enganou-se. O Estado paga. Mesmo falido, paga. Isto é: pagamos nós. E não pagamos pouco.

Cavaco vai receber dois milhões de euros de subvenção estatal. Alegre: 835 mil. Nobre: também 835 mil. Lopes: 424 mil. Coelho e Moura não recebem nada. A diferença de verbas tem que ver com as percentagens obtidas: menos de 5% dos votos exclui o direito à subvenção.

BOUTADE?


O que leva um homem como Miguel Sousa Tavares a afirmar em directo no Jornal da Noite da SIC  —  perante uma Clara de Sousa deliciada  —  que o cartão do cidadão omite a filiação do respectivo titular? Podemos supor: nunca viu nenhum. Mas é ele que desfaz qualquer dúvida: tendo tido de fazer uma escritura, viu-se obrigado a obter certidão de nascimento para atestar nome de pai e mãe. Portanto... ‘sinto-me prejudicado com o novo cartão, o antigo tinha tudo’. Ora, como toda a gente sabe, ou devia saber, o cartão de cidadão permite o acesso directo a TODA a informação do titular, embora alguma (o estado civil e o local de residência) não esteja grafada.

Não me move nenhuma má-vontade contra Miguel Sousa Tavares, cuja frontalidade admiro. Pelo contrário! Também não estou a desculpar a trapalhada de domingo, que espero seja explicada no Parlamento por Rui Pereira. Fazendo minhas as palavras do Val, «Nas próximas horas, e dias, ouviremos ataques ao Simplex, ao Cartão de Cidadão, à Internet, aos computadores, à electricidade e à água canalizada, obra maléficas do Governo. Sócrates será acusado, enfim, de ser um dos principais responsáveis pela civilização...» É pena.


[Detalhe recortado de imagem obtida no Facebook.]

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Segunda-feira, Janeiro 24, 2011

CITAÇÃO, 325


Vasco Pulido Valente, E agora?, hoje no Público. Excerto, sublinhado meu:


«O dr. Cavaco, se julgava que ia sair deste sarilho com mais poder e mais legitimidade, deve ter caído de costas. Saiu com os votos (na maior parte relutantes) de um quarto do eleitorado, a título de mal menor e numa posição perfeita para ser o bode expiatório das nossas desgraças: como de resto merece.»

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TRAPALHADA HIGH TECH


Quem ontem ouvisse os protestos dos comentadores de serviço, julgaria que foi a 1.ª vez que os portugueses utilizaram o cartão de cidadão num acto eleitoral. Na realidade, para uma maioria de que faço parte, foi a 4.ª vez: Europeias (2009), Legislativas (2009), Autárquicas (2009), Presidenciais (2011). Porquê o espanto inaugural?

Isto dito, os episódios rocambolescos verificados em muitas mesas de voto são, de facto, inadmissíveis. Do mesmo passo, as declarações do presidente da CNE foram, para dizer o menos, levianas. A direita esquizo pede a cabeça de Rui Pereira, ministro da Administração Interna. Outros, mais moderados, exigem a do juiz conselheiro Fernando Costa Soares. Passada a ressaca da noite passada  —  e que ressaca: foi a primeira vez que vimos um vencedor, ainda por cima Chefe de Estado em exercício, fazer um discurso de tal modo ressabiado que apanhou de surpresa até o inner circle  —, convém voltar à Terra. Quem gere o Portal do Eleitor deve explicações à tutela.

Pessoalmente não tive qualquer problema, e voto desde Junho do ano passado com o cartão de eleitor. Como eu, muita gente. Contudo, ouvi todo o tipo de histórias: quem (como eu) foi votar sem atrito; quem recebesse o número de eleitor, por sms, em três segundos; quem recebesse o número de eleitor, por sms, ao fim de seis horas; quem acedesse ao Portal sem problemas; quem não o conseguisse abrir; quem estivesse em filas para obter o novo número; quem desistisse de votar (a mãe de Maria João Avillez, segundo a jornalista); quem andasse em bolandas de junta de freguesia em junta de freguesia (o cunhado de Maria João Avillez, segundo a jornalista); quem tivesse obtido o novo número na própria mesa de voto; etc. Repito: não vale a pena meter a cabeça (a incompetência da máquina logística) no buraco. Parece que até no referendo (imagem ao alto) do Sudão  —  Maria João Avillez, ela o disse, telefonou ao embaixador António Monteiro  —  foi melhor.


Aqui chegados, lembrar o óbvio: estão inscritos 9.629.630 eleitores. Votaram 4.490.046 (dos quais 191 mil em branco e 86 mil com voto nulo). Um total de 2.230.170 escolheu Cavaco, que perdeu 540 mil votos entre 2006 e 2011. O imbróglio high tech afastou das mesas de voto quantos portugueses? Cem? Trezentos? Um que fosse, alguém tem de explicar porquê.

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Domingo, Janeiro 23, 2011

DONE!


Com 2,2 milhões de votos (52,93%), Cavaco foi reeleito. Derrotou Alegre (19,75%), Nobre (14,11%), Lopes (7,14%), Coelho (4,50%) e Moura (1,57%). A abstenção atingiu 53,47%. No distrito de Lisboa, Cavaco não passou de 48,5%. Entre a eleição (2006) e a reeleição (2011), perdeu mais de meio milhão de votos, facto que ilustra o juízo de muitos portugueses sobre o primeiro mandato. Ontem, conseguiu a proeza de ficar aquém da votação de Sampaio em 2001.

Outras contas. Alegre ficou aquém do milhão de votos de 2006, tendo obtido agora 831 mil. Há apoios que matam. Não obstante a vacuidade do discurso, Nobre obteve 593 mil. Lopes segurou os 300 mil indefectíveis do PCP. Na Madeira, com 38,88% dos votos, Coelho ficou em segundo lugar, o que faz dele (naquela região autónoma) o único opositor real de Jardim. Em Viana do Castelo, a cuja Câmara presidiu durante dezasseis anos consecutivos, Moura obteve 10,71% dos votos. Não vale a pena elaborar mais. Cavaco ganhou, os outros perderam. Ao contrário de Alegre, que proferiu um discurso de derrota digno, Cavaco, no seu, chamou à colação calúnias que estão por provar. Ninguém do staff presidencial o avisou para a desadequação da petite histoire ao discurso de um Chefe de Estado em exercício? Como diz o outro, amanhã é o primeiro dia do resto das nossas vidas.

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CASAR, EIS A QUESTÃO


A ver se a gente se entende: o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal em Portugal, África do Sul, Argentina, Bélgica, Canadá, Espanha, Holanda, Islândia, Noruega, Suécia (seis são monarquias); nos Estados americanos do Connecticut, Iowa, Massachusetts, New Hampshire, Vermont e Washington DC; na tribo Coquille da Nação Navajo (USA); e também na Cidade do México. Uma vez realizado, é reconhecido, usufruindo os cônjuges dos direitos inerentes, no Estado de Nova Iorque, Israel, Aruba e Antilhas.

Sem casamento, mas com leis de união civil registada, a lista é como segue: Alemanha, Andorra, Áustria, Colômbia, Dinamarca, Equador, Eslovénia, Finlândia, França, Gronelândia, Hungria, Irlanda, Luxemburgo, Nova Caledónia, Nova Zelândia, Reino Unido, República Checa, Suíça, Uruguai, bem como as ilhas Wallis e Futuna da Polinésia francesa.

Aqui chegados, vamos ao que interessa. A lei portuguesa não prevê dois tipos de casamento, sendo o entre pessoas do mesmo sexo um deles. Não. A lei portuguesa consagra o instituto do casamento. Ponto. À luz da lei, alguém explica por que é que o ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu há dias uma directiva suspendendo («até esclarecer a questão no plano do direito internacional») a realização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo nas representações diplomáticas portuguesas? Luís Amado, consta, está preocupado com a Convenção de Viena. Acordou tarde e para o lado errado. Entre Julho e Dezembro do ano passado, realizaram-se dezenas de casamentos entre pessoas do mesmo sexo em representações diplomáticas portuguesas do Brasil aos Estados Unidos e resto do mundo, França incluída.

A lei portuguesa é clara: «É permitida a celebração de casamentos entre pessoas do mesmo sexo em Portugal e perante os agentes diplomáticos e consulares portugueses em país estrangeiro, mesmo que ambos os nubentes ou um deles seja nacional de Estado que não admita este tipo e casamentos

O imbróglio terá começado há poucas semanas com uma birra do cônsul de Portugal em Marselha, que adiou sine die um casamento entre dois homens.

Conclusão: doravante, enquanto a directiva não for revogada, as representações diplomáticas portuguesas ficam impedidas de realizar casamentos. Casamentos. O Manuel com a Maria. A Joana com a Inês. O Filipe com o Martim. Só temos uma bandeira. E um casamento.

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Sábado, Janeiro 22, 2011

SAI UM ESCANDALOZITO?


Regulamentos obsoletos do tempo da tutela militar (1974-82) obrigam à reflexão na véspera do dia das eleições. Os jornais podem fazer manchete com as orgias bunga-bunga de Berlusconi, mas não podem dizer que o Coliseu de Lisboa, malgré Malato & Simone, não conseguiu encher para o comício de fim de campanha de Cavaco, onde ninguém exigiu encore quando Simone pediu... Tome conta deste país, senhor Presidente...

Mas, já que não se pode falar do indizível, falemos dos escândalos que estão a aquecer o weekend do reino de Sua Majestade:

Um. O trabalhista Alan Johnson, 60 anos, ministro-sombra do Tesouro, foi ontem obrigado a demitir-se porque a mulher andava a dormir com Paul Rice, agente da Scotland Yard e guarda-costas de membros do governo. Isto acontecia desde o tempo em que Johnson era ministro do Interior no governo Brown. Consta que Ed Miliband, líder do Labour, tem uma costela puritana.

Dois. Andy Coulson, 43 anos, braço-direito de David Cameron, ideólogo e director de comunicação do governo conservador, também teve de demitir-se. Provou-se ser ele o responsável pelas escutas ilegais (as quais não pouparam sequer o príncipe William) feitas entre 2005 e 2007 pelo News of The World. Antes de ser convidado para o governo de Sua Majestade, Coulson foi director do tablóide do grupo de Murdoch. Como isto anda tudo ligado, o governo de Cameron está a preparar legislação que beneficia o grupo... Murdoch. Para já, Coulson foi à vida, mas não fica descalço. Vão longe os tempos da juventude proletária no Essex.

Convenhamos que tudo isto é muito mais interessante que as presidenciais.

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PARA COMPARAR NO DOMINGO



1976
Eanes foi eleito: 61,59% / Derrotou Otelo: 16,46%

1980
Eanes foi reeleito: 56,44% / Derrotou Soares Carneiro: 40,23%

1986
Soares foi eleito: 51,18% / Derrotou Freitas: 48,82%

1991
Soares foi reeleito: 70,35% / Derrotou Basílio Horta: 14,16%

1996
Sampaio foi eleito: 53,91% / Derrotou Cavaco: 46,09%

2001
Sampaio foi reeleito: 55,55% / Derrotou Ferreira do Amaral: 34,68%

2006
Cavaco foi eleito: 50,54% / Derrotou Alegre: 20,74%

Amanhã como vai ser? A leitura destes números permite verificar que Eanes e Sampaio (o homem que derrotou Cavaco em 1996) perderam votos entre a eleição e a reeleição. Soares obteve em 1991 o mais alto score de sempre. E Cavaco, em 2006, o mais baixo.

Numa reeleição, o mínimo histórico histórico pertence a Sampaio: 2,4 milhões de votos em 2001.

Salvo em 1986, para o duelo Soares/Freitas que obrigou a 2.ª volta, as outras resolveram-se à primeira.

Lembrar um facto esquecido: em 1986, as sondagens davam 8% a Soares, que teve de bater-se com três adversários de peso: Freitas, apoiado pela AD; [PSD+CDS+PPM+Reformadores] Zenha, número dois do PS, que fracturou o partido; Maria de Lourdes Pintasilgo, apoiada por otelistas e pela esquerda-Graal, embrião da futura esquerda radical chic.

Isto para dizer duas coisas: o bom-senso dos eleitores tem sido reiterado; nunca há certezas adquiridas.

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Sexta-feira, Janeiro 21, 2011

PARA CONFERIR NO DOMINGO


Hoje é o dia de todas as sondagens. Em todas, Cavaco vence à primeira volta. Só lhe fazia bem ser obrigado a disputar a segunda, tirando coelhas da cartola. Mas vamos a números:

Cavaco: 51,0% (Metro), 54,6% (Intercampus), 54,7% (Aximage), 56,3% (Eurosondagem), 59,0% (Católica), 61,5% (Marktest).

Alegre: 13,5% (Metro), 15,0% (Marktest), 22,0% (Católica), 22,8% (Intercampus), 25,0% (Eurosondagem), 25,6% (Aximage).

Nobre: 9,1% (Intercampus), 10,0% (Católica), 10,1% (Eurosondagem), 10,7% (Aximage), 12,7%, (Marktest), 21,0% (Metro).


[A imagem é do Diário de Notícias, que encomendou e divulga os resultados da sondagem da Universidade Católica.]

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CHRISTOPHER ISHERWOOD


Hoje no Público:


Quando publicou A Single Man, o seu romance preferido, Christopher Isherwood (1904-1986), radicado nos Estados Unidos desde 1939, estava longe de ser um autor popular. Nem Prater Violet (1945), romance sobre a apatia dos austríacos face ao Anschluss nazi, fez dele um caso de sucesso. Seria preciso esperar pelo filme de Tom Ford, que levou Colin Firth ao Leão de Ouro, para que isso acontecesse.

Publicado em 1964, o livro conta a história de George Falconer, o professor que perde o amante num desastre de carro no Ohio. Público e crítica foram unânimes. Gore Vidal, Stephen Spender e Anthony Burgess roçaram o ditirambo. E trinta anos mais tarde Edmund White escreveu em The Burning Library (1994) que o livro prenuncia o movimento de emancipação gay. Sugiro a leitura atenta do trecho da p. 42 que envolve Russ Dreyer, Tom Kugelman e Finnegans Wake. O mesmo se diga da partida de ténis da p. 45, mas aí estamos no domínio do ululante: «Este jogo é cruel, mas a sua crueldade é sensual e mergulha George numa grande excitação. [...] George agradece do fundo do coração a estes animais jovens a sua beleza.»

Ponto prévio: Um homem singular é um livro anómalo à obra do autor. Trio com piano (como na música de câmara) parece-me uma designação adequada à tessitura narrativa. Tudo o distingue da obra precedente. Do ponto de vista político, Isherwood faz tábua rasa dos ideais marxistas dos anos 1930. Nada a ver com os dramas em verso que compôs em parceria com W.H. Auden, entre eles o celebrado The Dog Beneath the Skin (1935). O mesmo se diga do período berlinense, época de Mr. Norris Changes Trains (1935) e Goodbye to Berlin (1939), novelas que deram origem a Cabaret, o filme de Bob Fosse. Também não era ainda o tempo dos Upanixades, filosofia vedanta e restante tralha hippie, fase iniciada em 1967 com Encontro à beira do rio.

Escrito durante um período crítico da relação com Don Bachardy, seu companheiro até ao fim da vida, Um homem singular expõe com amargura (isenta de auto-complacência) a consciência de Isherwood face à geral discriminação identitária. A tal respeito, a figura de Mrs Strunk, mulher «treinada na nova tolerância, na técnica do aniquilamento pela brandura», é deveras eloquente. Afinal, ela o diz, «os gregos existiram». Parágrafo após parágrafo, a mordacidade atinge assinaláveis níveis de corrosão.

A acção decorre em 1962, ano em que poucos duvidam de que os mísseis russos instalados em Cuba sejam uma ameaça ao «reino do bem-estar sobre a Terra». A extrema-direita americana conspira contra Kennedy na John Birch Society. A maioria silenciosa teme o indizível, i.e., o comunismo. George está sozinho porque Jim morreu. Os vizinhos não sabem, julgam que foi ver a família e decidiu não voltar. Charley é a única que sabe.

Salvo quando se trata de Kenny, os diálogos estão reduzidos ao indispensável. De resto, sem prejuízo da agilidade discursiva, o narrador conduz a intriga por interposto monólogo. O relato do trajecto automóvel entre casa e a universidade, com George sob uma torrente de pensamentos «na base da culpa por associação», é um exemplo de grande literatura. Virtuosismo é a palavra certa: isso é nítido nas apreciações de alunos e vizinhos como na prodigiosa explicação de quem é Titono.

Se pensarmos nos contos de John Cheever ou na poesia de William Carlos Williams, e podia citar outros, verificamos como a ficção e a poesia americana do século XX fazem dos “subúrbios” algo mais que um detalhe geográfico. Na realidade, configuram padrões de sobrevivência associados aos valores morais da classe média. Nos subúrbios todos são co-proprietários da «utopia americana». George Falconer não tem ilusões acerca do arremedo de «aldeia inglesa subtropical» onde vive. Ali, antes da grande Mudança, era possível «pintar um pouco, escrever um pouco e beber muito». Agora não: «procriação e boémia não são para misturar. Para se procriar é necessário um emprego estável, uma hipoteca, crédito, seguros.» Em Comphor Tree Lane, a sua rua, existe mesmo uma zona delimitada para crianças. George vive literalmente cercado pelos rebentos dos vizinhos, contra os quais em vão esbraceja e ruge. Ao contrário, Jim tinha paciência com eles, mas Jim morreu. E Kenny não o pode substituir.

Por último mas não em último, sublinhar os “escrúpulos” especificamente britânicos que pontuam este livro apesar de tudo americano.


Música de câmara, in Ípsilon, 21-1-2011, p. 42. Cinco estrelas.

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A SELVA


Ler para crer. Pedro Magalhães, Uma ideia genial. Excerto:


«Pelo menos desde as 23.00h de ontem [...] o jornal Sol tinha na sua 1.ª página resultados do que parecia à primeira vista ser uma sondagem. [...] Mas espera: os resultados da sondagem da Aximage só foram publicados no Correio da Manhã de hoje. E a sondagem da Católica às duas da manhã de hoje. E a da Eurosondagem à meia-noite. Como é que o Sol e Manuel Magalhães acharam que tinham o direito a fazer e difundir uma 1.ª página na base de informação que estava sob embargo? E como poderá o Sol ter tido acesso a estes resultados para calcular médias e fazer uma 1.ª página às 23 de ontem? Haverá algum sítio onde os resultados de todas as sondagens das várias empresas sejam obrigatoriamente conhecidos antes da sua divulgação pública? Deixa-me pensar... Espera... Será? Não é possível... Uma selva, pura e simples

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Quinta-feira, Janeiro 20, 2011

METRO MONDEGO


Não tenho paciência para manifs. Quase todas servem os interesses dos promotores (sindicatos, etc.), à revelia das expectativas dos manifestantes. Mas, ontem, perto de mil pessoas vieram da região de Coimbra manifestar-se a Lisboa. Em causa o mirífico Metro Mondego, que era para haver e agora parece que já não, o qual ligaria Coimbra à Lousã e a Miranda do Corvo: três linhas, 46 apeadeiros. Para dar lugar ao metro de superfície, as linhas de comboio foram arrancadas. Agora, nem uma coisa nem outra. O país do automóvel deu cabo da camionagem e de grande parte da rede ferroviária. Isto tem de mudar.

Por isso o protesto de ontem, junto ao Parlamento, me parece muito importante. As pessoas ficaram sem o comboio, não têm o prometido metro, e daqui a dois meses até vão ficar sem as camionetas de substituição. Têm todo o direito a pedir contas ao governo. Deviam ter a seu lado o presidente da Câmara de Coimbra, mas o sr. Carlos Encarnação (PSD) demitiu-se há um mês, «farto de aturar o governo». Assim é fácil ser político!

[Ao alto, o metro de Almada, em serviço desde Novembro de 2008.]

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CITAÇÃO, 324


José Pacheco Pereira, A ascensão da demagogia. Excertos, sublinhados meus:


«O Correio da Manhã tem patrocinado uma petição sobre o enriquecimento ilícito, que tem sido assinada por membros do sistema judicial, polícias, magistrados do ministério público, juízes, ou articulistas que têm aparecido publicamente em campanhas contra a corrupção.

Como acontece habitualmente com a demagogia, esta iniciativa aponta um problema real: a corrupção que se manifesta pelo súbito e inexplicável enriquecimento de alguns políticos e que provoca um enorme repúdio social. É igualmente verdade que o sistema de justiça tem sido incapaz de a combater e levar os políticos corruptos à prisão, como é desejo de todas as pessoas decentes. Mas já não é líquido que esta ineficácia se deva necessariamente à inexistência de legislação aplicável, mas sim a outros factores, incompetência da investigação, incúria dos magistrados, ou pura e simplesmente promiscuidade entre os meios corruptos da política e os meios judiciais. A permanente condução política dos processos que envolvem políticos, gera a maior das suspeitas sobre a independência dos dois sectores e sobre se há ou não um jogo de cumplicidades mútuas. [...]

Parece simples, mas não é. Por exemplo, como é que se sabe qual é a manifesta desproporção [com o «rendimento declarado para efeitos de liquidação do imposto» e] como é que se impede que esta fórmula genérica não possa ser utilizada para perseguições, vinganças e abusos? Não se impede. E no actual estado de coisas basta saber-se que há uma investigação deste tipo, mesmo que apenas iniciada e depois arquivada, para manchar uma reputação sem qualquer culpa. Basta ler o texto que a seguir cito, oriundo do VIII Congresso dos Juízes Portugueses, assim como declarações avulsas de vários magistrados do Ministério Público, para se perceber que este seria o instrumento ideal para que a selecção dos políticos em democracia fosse feita pelo sistema judicial.

Acresce o problema ainda mais grave que esta petição inverte claramente o ónus da prova e a discussão que se pode ter  
  mais certeira do que esta petição demagógica  —  é se a luta contra a corrupção justifica que se restrinjam direitos, liberdades e garantias. Então sim, o debate seria em terreno da democracia, e não no da demagogia.

O justicialismo é um dos aspectos mais preocupantes do ascenso da demagogia nos dias de hoje.
[...] Em Portugal, como em Itália, um grupo de agentes da justiça, magistrados e juízes, usam o justicialismo para ganharem poder político à margem dos mecanismos democráticos. Ao mesmo tempo que o sistema judicial se revela particularmente ineficaz para perseguir corruptos, aspira a ganhar poder político em nome dessa luta contra a corrupção. Por tudo isto não espanta que o VIII Congresso dos Juízes Portugueses fosse apresentado por um texto anunciando, sob a forma de perguntas retóricas, um século XXI como o “século do poder judicial” [...]

O texto é curiosamente impregnado por uma retórica esquerdista em que, após
“o eclipse de todas as narrativas históricas grandiosas”, ou seja do comunismo, surgiram “democracias descontentes” (?). Esse descontentamento abre caminho para “uma transferência de legitimidade dos poderes legislativo e executivo para o judicial” [...] Todo o texto é demasiado revelador, talvez até mais revelador do que os seus signatários pretendiam [...] Está tudo dito e o que está dito nada tem a ver com a democracia nem contente, nem descontente.»

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Quarta-feira, Janeiro 19, 2011

O BARÓMETRO


Segundo o Barómetro Marktest para a TSF e o Diário Económico divulgado perto da meia-noite, o resultado do escrutínio do próximo dia 23 seria este: Cavaco (61,5%), Alegre (15%), Nobre (12,7%), Lopes (3,3%), Coelho (2,1%) e Moura (1,2%). A mesma sondagem prevê 35% de abstenção. Já se percebeu que vai ser o dobro, mas enfim.

A soma destes números dá 95,8%. Como, nas eleições presidenciais, os votos brancos e nulos não são contados, a amostra está distorcida.

Vale o que vale. Fica registado para ter à mão na noite do próximo domingo uma cábula de comparação entre a realidade e a patusca mise-en-scène deste barómetro.

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DANTES É QUE ERA?


O Projecto Farol divulgou as conclusões de um inquérito sobre a realidade nacional: As escolhas dos Portugueses e o Projecto Farol. Responderam 1002 pessoas: quase todas desconfiam da classe política (94%), dos governos (90%), dos partidos políticos (89%), do Parlamento (84%) e da máquina do Estado (75%). Até aqui, nada de surpreendente.

Mas 46% dos inquiridos considera as condições de vida, no presente, piores ou mesmo muito piores que antes de Abril de 1974. Num primeiro momento, fiquei perplexo. Pensei mesmo: fizeram o inquérito na Quinta da Marinha e na Foz. Vendo bem, está certo.

Antes de Abril de 1974, a pequena-burguesia vivia em casas arrendadas, não tinha carro, não era titular de cartões de crédito, punha os filhos no ensino público, via cinema do 2.º balcão, bebia galões e capilé, comia bife de quinze em quinze dias, abominava ansiolíticos, ia ao Parque Mayer, fazia férias em Monfortinho, jantava fora quatro vezes por ano e mandava virar os colarinhos das camisas. Os mais afoitos iam a Badajoz comprar caramelos uma vez por ano. Hoje chama-se classe-média à pequena-burguesia. Essa classe-média emergente comprou casas com lareira e jacuzzi, um carro por cabeça (os rebentos compram carro e casa antes de arranjar emprego), não sobrevive sem cartões de crédito, põe os filhos no ensino privado, vê novelas em home cinema, bebe DOC e caipiroska, alimenta-se de cozinhas de fusão, viciou-se em benzodiazepinas e fluoxetinas, é habitué do Pavilhão Atlântico, faz férias no Brasil e na República Dominicana, janta fora todos os fins-de-semana e veste roupa importada. Os mais afoitos frequentam a Serra Nevada durante a semana da entalada. Dito de outra maneira, arranjou uma pipa de problemas. Sendo os salários o que são, não admira que ande (com razão) a ranger os dentes.

Antes de Abril de 1974 o que era a pequena-burguesia? Grosso modo: magistrados de província; engenheiros, médicos e advogados (sem origem dinástica) em início de carreira; tenentes e capitães das Forças Armadas; operários especializados e quadros da CUF; prestamistas, livreiros, antiquários e outros pequenos comerciantes; professores primários e de liceu; jornalistas; bancários e agentes de seguros; funcionários subalternos do Estado; hospedeiras da TAP; pequenos empresários de restauração, etc. A pequena-burguesia não tinha veleidades. Mas isso era dantes. Os portugueses que vemos na imagem não se presumiam cosmopolitas.

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Terça-feira, Janeiro 18, 2011

TEASER


Recebi hoje o 1.º exemplar acabado.
Clique na imagem.
Deverá chegar às livrarias dentro de 30 dias.

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CITAÇÃO, 323


José Vítor Malheiros, Circo e circo, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:


«Depois de um assassinato brutal de uma figura mediática, com sinais de um sadismo pouco habitual, é natural que haja alguma comoção pública e manifestações colectivas de repulsa. Não é de estranhar que se verifique uma cerimónia pública de solidariedade, que haja lágrimas e exaltação, palavras de encorajamento para a família e que se guarde aí um minuto de silêncio. O que é estranho é que tudo isto aconteça para manifestar a solidariedade com o assassino confesso, entretanto detido, e não com a vítima.

[...] Mas não se trata disso. A solidariedade manifestada a Renato Seabra pelos seus conterrâneos [...] manifesta-se na convicção de que ele terá de facto cometido o crime que já confessou, mas de que, se o fez, foi porque “tinha uma razão muito forte”.

Se alguém duvidava da violência do sentimento homofóbico que reina na nossa sociedade, aí tem uma prova. O jovem de 21 anos terá sido assediado-tentado-seduzido-violado (conforme os gostos) pelo velho libidinoso de 65 anos e não terá encontrado outra forma de se defender senão agredir o atacante com um computador, estrangulá-lo, apunhalá-lo durante uma hora, furar-lhe os olhos e castrá-lo. É que o homossexual, como se sabe, é muito insistente, e quando tem os seus acessos lúbricos a sua força fica multiplicada por dez. Às vezes chega a ser preciso apunhalá-los durante duas horas para que se acalmem.

Além de ser muito insistente, o homossexual também é muito traiçoeiro. Daí que o jovem tenha sido surpreendido pelos avanços de Carlos Castro quando, depois de dez dias a dormir juntos no seu quarto de Nova Iorque, este terá tentado um contacto mais íntimo. Como se vê, o assassino tinha não só razão, mas “uma razão muito forte”: Carlos Castro era gay. [...]»

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Segunda-feira, Janeiro 17, 2011

PARABÉNS, CHRIS


Chris Colfer (n. 1990), Globo de Ouro para melhor actor coadjuvante pela performance de Kurt Hummel na série Glee.

Vai dedicado aos controleiros da bloga que até conseguem tolerar homossexuais, desde que eles tenham Ph.D (não vá o diabo tecê-las em júris) e estejam muito quietos no seu canto, sem incomodar o pessoal.

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DE EMBARAÇO EM EMBARAÇO


Antes do Natal, a previsível reeleição de Cavaco parecia ir ser um passeio. Agora não. O tosco endurecimento da linguagem usada pelo homem que não precisa de nascer duas vezes dá a medida da derrapagem. Pode significar duas coisas: necessidade de 2.ª volta ou score inferior a 52% (quem sabe as duas). E desprezo, traduzido numa abstenção superior a 60%. Toda a gente já percebeu que Cavaco é hoje um homem só. O PSD passista faz o frete porque a realidade a isso o obriga. Homens como António Barreto e Medina Carreira demarcaram-se firmemente da candidatura. Vasco PulidoValente tem dito do Presidente da República o que Mafoma não disse do toucinho. Nos blogues de direita, tirando os apparatchiks de serviço, nenhum entusiasmo, muitas reticências, farpas assassinas e silêncios eloquentes. Impiedosa, a televisão mostra o “povo” do cavaquismo remanescente: dir-se-ia terem aberto as portas de todos os lares da terceira idade. As jotas emigraram para as Maldivas?

Daqui para a frente, só percalços. Como lembra o Tomás, tudo indica que, em nome da coerência e da liberdade de expressão, Manuela Moura Guedes vá explorar o filão do BPN, tema que muito embaraça a Presidência da República. Decerto uma tão estrénua defensora da transparência o não deixará cair, agora que comentadores conspícuos (entre outros, Vasco Pulido Valente, Clara Ferreira Alves e Miguel Sousa Tavares) chamaram os nomes aos bois.

Nisto tudo, quem perde é o país. Mais uma vez, Cavaco defraudará a aposta dos crentes. Tudo indica que um Parlamento dissolvido para reproduzir o actual quadro de inoperância seja a última das suas prioridades. A ver vamos.


[Imagem roubada a João Branco.]

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Domingo, Janeiro 16, 2011

COMO ELE QUERIA


Cumprindo o desejo de Carlos Castro, parte das suas cinzas foram esta tarde espalhadas em Manhattan, como se vê na foto, algures entre a rua 44 e a esquina da Broadway. Ontem, realizaram-se duas missas de 7.º dia: uma na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Newark, para a comunidade portuguesa; outra na Basílica da Estrela, em Lisboa, para familiares, amigos e conhecidos do colunista. Na Estrela, Manuela Eanes leu com comoção um texto de homenagem a Carlos Castro, de quem era amiga.


[Foto NYDaily News.]

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HENRIQUE SEGURADO


Pouca gente se lembrará de Henrique Segurado (n. 1930), na medida em que a tradição indígena instaurou a fama hebdomadária. As centenas de candidatos a mestrandos que entopem os cursos de Letras e ciências da comunicação, podiam pegar no filão das glórias efémeras, sempre mais rapazes que raparigas, esses que num fim-de-semana levam o jornalismo cultural ao ditirambo para desaparecer num ápice.

Não é o caso de Henrique Segurado, que assinava Henrique Jorge. No seu tempo não havia génios de primeiro livro. Rimbaud era a excepção.

Agora, Joana Morais Varela, que não é de modas, editou a poesia de Henrique Segurado escrita entre 1969 e 1989, Almocreve das Palavras. Ilustrado por Rui Sanches, o volume deixa de fora os livros publicados entre 1953 e 1970. Asa de Mosca, premiado em 1959 e editado pela Ática em 1960, foi o primeiro que assinou como Henrique Segurado.

Para quem não sabe, Henrique Segurado foi o fundador das livrarias Castil (em Lisboa) e AZ (em Lisboa e no Porto). Colaborador de dezenas de publicações, entre elas as revistas de poesia Távola Redonda (1952) e Graal (1956), encontra-se representado em inúmeras antologias. Entre os anos 1970-90 foi administrador do semanário O Jornal. Entre outros, David Mourão-Ferreira e Fernando J.B. Martinho escreveram sobre a sua poesia.

Almocreve das Palavras é lançado no próximo dia 27, no Grémio Literário, pelas 18:30h. Joana Morais Varela apresentará, Joana Capucho e Diogo Dória lerão poemas, João Aboim tocará peças de piano. Será servido um cocktail. Atento o carácter público do evento, haverá moratória nas regras de vestuário exigidas para entrar no Grémio.

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CITAÇÃO, 322


Clara Ferreira Alves, O Político e os patetas, ontem no Expresso. Excerto, sublinhado meu:


«[...] Nunca foi tão visível o empobrecimento intelectual do jornalismo e da política. O jornalismo tem de fazer as perguntas que ninguém faz e obter as respostas a que o público tem direito. Chegaram à profissão carregamentos de jovens sem preparação, mão de obra barata que exerce a profissão com a leviandade e a ignorância dos maus alunos. Existem colunistas e comentadores de cueiros, ligados a partidos e presumindo de independentes, existem estagiários a cobrir acontecimentos históricos, existem editores que não editam, existem prioridades invertidas. Existem trepadores sociais e velhos do Restelo. [...]»

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Sábado, Janeiro 15, 2011

NASCER DUAS VEZES



Ele há os robalos do sucateiro e as casas da aldeia da Coelha. Descubra as diferenças.

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TORTURA & SESTA?


O relatório de polícia que a procuradora Maxine Rosenthal (assistant district attorney) entregou ontem aos media é aterrador. Renato Seabra, «que não tinha qualquer aversão à homossexualidade», dizem os amigos, confessou ter torturado Carlos Castro durante uma hora, agredindo-o na cabeça com o monitor de televisão, pontapeando, pisando o rosto com os pés calçados, furando os olhos com um saca-rolhas e estrangulando-o de seguida. A castração foi post mortem. Diz o mesmo relatório que tudo se terá passado por volta das 14h de sexta-feira, dia 7, uma vez que, quando a polícia de NY encontrou o corpo, Castro estava morto há cerca de cinco horas. O relatório de John Mongiello não diz, mas é plausível admitir que, entre as duas e as sete da tarde, o homicida terá aproveitado para dormir a sesta. A parte que se sabe é que tomou banho antes de sair do hotel.

Com base no parecer do grand jury, o Tribunal Criminal de NY confirmou a acusação. Dia 1 de Fevereiro, o Tribunal Supremo do Estado de NY decidirá os próximos capítulos.

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Sexta-feira, Janeiro 14, 2011

A NOVA ORDEM


O impensável aconteceu. Ontem, em Cantanhede, cerca de quatrocentas pessoas fizeram um cordão humano para transmitir uma mensagem de solidariedade a Renato Seabra, o filho da terra que torturou e assassinou Carlos Castro no passado dia 7. Parece que os de Cantanhede instauraram uma pequena nova ordem [...] mas Carlos Castro não pode ser o bode expiatório que paga pelo insucesso de todos os aspirantes ao estrelato na cultura pimba. Médica de profissão e presidente da JSD de Cantanhede, a irmã do homicida devia ser a primeira a demarcar-se destes actos.

Decerto a opinião pública aguarda que as associações de defesa dos direitos LGBT tomem posição sobre o assunto.

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Quinta-feira, Janeiro 13, 2011

O ACÓLITO DO SACA-ROLHAS


Para que serve o Ministério Público? Para guerras do Alecrim e Manjerona? Para as baronesas do liberalismo se queixarem das marquesas do absolutismo? Para fazer queixinhas ao Tribunal de Contas a pretexto da indexação salarial do abono de renda de casa dos juizes?

O artigo 240.º do Código Penal Português é letra morta? A lei pune crimes de homofobia. Esses crimes incluem ataques à identidade cultural e ameaças à integridade pessoal. Desde sábado passado que a imprensa e as redes sociais (o Facebook e outras) servem de vazadouro ao ódio contra os homossexuais e, em particular, contra Carlos Castro, torturado e assassinado no passado dia 7.

O reconhecimento do corpo, feito anteontem pelas irmãs e um amigo do colunista, foi quase impossível: Carlos Castro tinha o rosto desfigurado (sem os dois olhos) e os genitais mutilados. A todas estas, centenas de criaturas, sob anonimato, apoiam o acto de Renato Seabra, o acólito do saca-rolhas.

Sob o manto diáfano do blasé, grande parte da bloga assobia para o lado. Com certeza que há excepções, como as de Bruno Vieira Amaral, Henrique Raposo, João Campos, Lauro António, Manuel FerrerMiguel Vale de AlmeidaPaulo Pinto, Pedro Adão e SilvaPedro Vieira, Porfírio SilvaValupi e outros.

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Quarta-feira, Janeiro 12, 2011

DIE VERLORENE EHRE DER KATHARINA BLUM


Carlos Castro será hoje cremado numa funerária do condado de Bergen, estado de New Jersey. Cumprindo um desejo seu, as cinzas serão em seguida lançadas não se sabe ainda se em Manhattan se no rio Hudson. O reconhecimento do corpo foi feito ontem por duas irmãs, na presença de António Pinheiro, chanceler do consulado de Portugal em Nova Iorque.

Hoje, no Público, o escritor e jornalista Guilherme de Melo, que vemos na imagem ao alto, fala da relação de Castro com o modelo que foi acólito da igreja de Cantanhede: «[...] esta era uma relação sexualmente consumada. Ele era ambicioso, mandava mensagens ao Carlos, eu vi algumas... [...] Sei que esta viagem a Nova Iorque foi desastrosa, nos últimos dias as coisas não estavam bem entre eles. Havia discussões. O Renato terá confessado que matou para libertar os demónios, os vírus. Para libertar o pecado. Ele foi acólito durante uma série de anos em Cantanhede. Deveria ter a cabeça cheia de ideias sobre o pecado.»

A imprensa portuguesa continua com o esgoto a céu aberto. Grande parte dos insultos e ameaças publicados nos comentários dos jornais configuram caso de polícia. Não se deve dizer isto? Paciência. Está dito. Se em lugar de Carlos Castro tivesse sido assassinado um homossexual do beau monde (económico, político, literário, académico, científico ou artístico), outro galo cantaria. Isto das classes não é figura de retórica. Quando foi do assassinato de Gisberta, viu-se a vergonha que foi. Com Carlos Castro mudou o patamar. E então se fosse um honourable...

Entretanto, parece que na terra do presumivel assassino a população se prepara para fazer um cordão humano de solidariedade. Anda tudo doido?


[Foto Público/Flash.]

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Terça-feira, Janeiro 11, 2011

ET TU, TEODORA?



[Na imagem, Ralph Fiennes/Marco António faz a oração fúnebre por César/John Shrapnel, no Teatro Barbican de Londres, em Abril de 2005.]

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Segunda-feira, Janeiro 10, 2011

URGENTE TRADUZIR


Ao fim destes anos todos ainda muita gente se espanta que heterossexuais conspícuos e respeitados pais de família levem no cu. Não vale a pena chover no molhado. É urgente traduzir Bisexuality in the Ancient World (1992) de Eva Cantarella, professora no Instituto de Direito Romano da Universidade de Milão e no Trinity College de Dublin. A ver se percebem de uma vez por todas que isso de “gostar de mulheres” não exclui outras possibilidades.

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Domingo, Janeiro 09, 2011

CITAÇÃO, 321


Lauro António, Na morte de Carlos Castro. Excertos, sublinhado meu:


«O Carlos Castro que eu conheci foi sempre uma pessoa extremamente simpática, afável, com quem mantive excelente convívio quase sempre ditado por algumas paixões comuns: o cinema, como é obvio, mas sobretudo duas paixões específicas: o musical, tanto em cinema, como nos palcos dos teatros, e a actriz Romy Schneider, que ambos muito admirávamos. [...] Era intransigente na amizade, protegia com ardor quem admirava, e atacava sem piedade quem não cabia nas suas escalas de valores. Era frontal, não ocultava nada. Criou amizades e inimizades. Vivia intensamente as suas paixões e, pelo que tenho lido, morreu na cidade que amava, por entre idas ao teatro, vendo e revendo musicais, hospedado num requintado quarto de hotel bem no centro de Manhattan e tudo indica que vai ver cumprida uma das suas ambições mais queridas: morrer em N.Y. e ver as suas cinzas lançadas por sobre a cidade. Parece ainda que, segundo testemunhos, vivia em afortunado sobressalto amoroso. Teria sido um final feliz, não fossem as condições trágicas desta sua última viagem. Que encerram duas ou três questões a merecer certamente um olhar mais atento.

Algumas delas prendem-se com o jovem com quem Carlos Castro dividia o quarto do hotel nova-iorquino e que surge agora como principal suspeito do crime. A história desta vida de 21 anos, que se arrisca a prisão perpétua nas celas norte americanas, é sintomática [...] um dia escreve no Facebook a Carlos Castro, pedindo-lhe apoio para a sua carreira. Foi assim que se conheceram. Foi assim que tudo começou e continuou depois com viagens a Paris, Madrid, Londres, agora Nova Iorque. Os colegas da equipa de basquetebol de Cantanhede afirmam que nada nele denunciava outra coisa senão “gostar de mulheres”, “como todos nós”, acrescentam, não vá haver alguma confusão. Mas amigos de Carlos Castro afirmam que este vivia “em plena lua-de-mel, num grande amor”.

A vida de todos nós é uma constante busca da felicidade. Uma verdade insofismável e plenamente justificada. [...] Cronista do cor-de-rosa, mas homem de cultura e gostos sensíveis, Carlos Castro acaba vítima de um “sonho” que se transformou em “pesadelo”, facto que se está a tornar moeda corrente nas sociedades actuais, onde se trituram jovens a uma velocidade insustentável. Eles são apenas a lenha que alimenta a fogueira das audiências. Do cor-de-rosa às cinzas, é um passo. Ou um passe. De magia. Com champanhe. Lantejoulas e plumas. Como num musical de Bob Fosse: Sweet Charity ou Cabaret

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Sábado, Janeiro 08, 2011

CARLOS CASTRO 1945-2011


O colunista Carlos Castro foi assassinado ontem em Nova Iorque, alegadamente pelo modelo Renato Seabra, com quem vivia há seis meses. Seabra tentou suicidar-se e foi entretanto preso pela polícia de NY. Segundo o Daily News, «A well-known journalist from Portugal was brutally beaten and mutilated inside a room of a posh Times Square hotel Friday, police sources said. The naked body of Carlos Castro, 65, was found lying face-up in a pool of blood inside his 34th-floor room at the InterContinental New York Times Square on W. 44th St. about 7p.m., the sources said. The prominent gay activist had been bludgeoned in the head and his scrotum cut off, sources said. Several hours prior to the grisly find, Castro had a heated argument with his companion  —  Renato Seabra, a twentysomething Portuguese male model  —  sources and witnesses said. [...]» Carlos Castro tinha 65 anos e estava em NY desde 29 de Dezembro.

Natural de Moçâmedes, Angola, Carlos Castro veio para Portugal em 1975. Fundador do colunismo social democrático (i.e., pós-Vera Lagoa), verdadeiro mogul da imprensa cor-de-rosa, escrevia actualmente para o Correio da Manhã. Clique na imagem.

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Sexta-feira, Janeiro 07, 2011

CITAÇÃO, 320


Vasco Pulido Valente, Confiança, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:


«[...] sem dúvida nenhuma que as relações do Presidente da República com o pestífero banco vão envenenar o seu próximo mandato. Talvez durante meses, talvez durante anos. Não tardará, por exemplo, que o público e os políticos se apercebam de que personagens centrais do cavaquismo foram também personagens decisivas da tranquibérnia do BPN e que, mesmo dando de barato a sua inocência e virgindade, um homem que mandou no país como primeiro-ministro não os devia deixar à solta e, sobretudo, não devia comprar e vender acções da Sociedade Lusa de Negócios (dona da coisa), com o estapafúrdio lucro de 140 por cento, de que em princípio ele  —  com o seu doutoramento de York e a sua celebrada passagem pelo Terreiro do Paço  —  devia desconfiar.

Verdade que 300 mil euros não são uma fortuna e que a excitação da época levava com naturalidade a excessos lamentáveis. Só que a alegada candura de Cavaco não o recomenda. Quem se envolveu [...] na trapalhada do BPN não é aparentemente a criatura indicada para superintender, com o seu conselho e a sua prudência, a economia de Portugal inteiro. Quem nos garante que do assento etéreo a que tornará a subir não sairão opiniões ruinosas para o país? Quem nos garante que esse primoroso economista que tanto respeitávamos não se deixará enganar por um trafulha qualquer da Venezuela ou da Líbia? O dr. Cavaco pede confiança aos portugueses; e faz muito bem. Mas, com o caso do BPN perdeu ele próprio a confiança dos portugueses

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JONATHAN AMES


Hoje no Público:


Entre nós, Jonathan Ames (n. 1964) é praticamente desconhecido. Autor de Bored to Death, popular série de televisão feita a partir de um dos seus contos, publicou romances, ensaios, uma antologia de memórias transexuais  —  Sexual Metamorphosis, 2005  —  e até uma autobiografia gráfica sobre a dependência do álcool, ilustrada por Dean Haspie. Longe de reunir consenso, Ames tem sido elogiado e execrado com igual fervor desde que publicou I Pass Like Night (1989). Mesmo em Manhattan, esta mistura de Iggy Pop com P.G. Wodehouse soa desconcertante. Decerto não por acaso, define-se a si mesmo como «probably the gayest straight writer in America».

Podemos agora ler a tradução que André Chêdas fez de O Acompanhante, romance sobre as relações de Henry Harrison, dramaturgo falhado que vive de acompanhar mulheres da alta sociedade de Nova Iorque, e Louis Ives, docente de um colégio privado de Princeton que perde o emprego no dia em que é apanhado (na sala de professores) a vestir o sutiã de uma colega. Fica por esclarecer se a punição é devida ao arremedo de travestismo ou à erecção de Louis: «A protuberância conseguiu a proeza de confirmar a culpa dos meus actos, de forma mais contundente do que o próprio olhar, já de si claramente sexual...» Por momentos, julgamos estar a ler Augusten Burroughs. Com o fluir da intriga, a ilusão desfaz-se. Burroughs é literal, lá onde Ames prolonga a respiração da narrativa clássica.

O Acompanhante são duas vidas cruzadas: a de Henry, vergado ao peso das idiossincrasias; e a de Louis, em trânsito permanente entre os dois lados de um espelho. Concluído em 1996, o livro andou em bolandas durante dois anos, de editor em editor, tendo, ao cabo de vinte rejeições, sido publicado em 1998 pela Scribner. Shari Springer Berman adaptou-o ao cinema, com Kevin Kline (Henry) e Paul Dano (Louis) nos protagonistas. Tarefa inglória, na medida em que a estrutura semântica resiste à transposição de suporte. Se, por um lado, o cortejo de reflexões auto-depreciativas do narrador potencia o overacting, a trama dos envios (de Freud a Scott Fitzgerald, sem esquecer Bertie Wooster) apenas é perceptível na escrita precisa de Ames.

A história mistura elementos autobiográficos, deixando adivinhar o futuro interesse de Ames pela problemática transexual: «Ao ver-me vestido de mulher em toda a minha fealdade, tinha aprendido a apreciar e valorizar a beleza destas raparigas e o trabalho a que as obrigava. Só os homens poderiam ter uma presença de espírito tão obstinadamente direccionada para se quererem fazer passar por mulheres.»

Por razões difíceis de explicar, não é comum associar Ames aos grandes nomes da tradição literária judaica, como Asimov, Bellow, Roth e outros. Porém, poucos livros como este descrevem com tanta subtileza o carácter escorregadio e as ambiguidades dessa tradição. Profundamente americano (no sentido em que identificamos Jerry Seinfeld como arquétipo), Ames calibra o discurso com secura e sabedoria: «Voltei à fotografia dele na bicicleta. Era perfeito. [...] Tentei olhar com profundidade para os belos olhos do rapaz da fotografia. A nossa idade não devia ser tão diferente quanto isso. Queria avisá-lo do que aí vinha e comecei a chorar. Chorava porque aquele rapaz não fazia ideia daquilo em que se ia tornar, que cinquenta anos mais tarde estaria a dormir num decrépito sofá no meio de um quarto pouco menos que imundo. Chorei pelo que acontecera à vida daquele jovem e chorei porque o velho em que esse jovem se tornou me tinha abandonado.»

Ames é divertido sem ser pateta, irónico, mordaz, discretamente amargo, neurótico, culto mas não pedante. Parece contraditório, mas consegue ser tudo isto ao mesmo tempo. A dosagem homeopática ajuda. Como alguém disse, o entertainer nato.


Ironia highbrow, in Ípsilon, 7-1-2011, pp. 32-33. Três estrelas.

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