sexta-feira, Setembro 09, 2011

SAUL BELLOW


Hoje no Público:


A imprensa cultural não deve andar a reboque das novidades. Sobretudo quando, como é o caso, a reedição de obras de referência sobreleva a espuma da cena literária.

Vem isto a pretexto de Ravelstein, último romance de Saul Bellow (1915-2005), de regresso às livrarias, em nova edição, dez anos após um lançamento que passou despercebido.

Como muita gente saberá, Ravelstein entra na categoria do roman à clef. Abe Ravelstein, o protagonista, é decalcado do filósofo Allan Bloom, judeu, homossexual, confidente de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Bellow e Bloom foram amigos. A diferença de idades (Bloom tinha menos quinze anos que Bellow) nunca constituiu óbice. Conheceram-se na Universidade de Chicago, onde ambos davam aulas. Mesmo nas suas indiscrições, o romance é uma homenagem sentida ao autor de Love and Friendship (1993). Antes que Bellow o tivesse dito em letra de forma, era tabu referir a sida como causa da morte precoce de Bloom: «Ele era seropositivo, e estava a morrer de complicações afins.»

Lugar-comum: não foi preciso esperar por Ravelstein para confirmar a mordacidade de Bellow. Logo a abrir, Chick (o narrador) afirma: «Quem quiser governar o país tem também de o entreter.» Passou o tempo em que as anedotas de Lincoln se viravam contra ele. No caso de Bellow, a mordacidade convive bem com o sentido de humor.

Depressa saltamos para o coração de Paris, mais exactamente para o Hotel Crillon, onde naquele momento se hospedam Ravelstein, Michael Jackson (cuja comitiva ocupa um andar inteiro), o narrador e a mulher. Digamos que o Crillon estabelece o paradigma. Após a publicação de um livro «difícil, mas popular [...] em ambos os hemisférios e em ambos os lados do Equador» (é provável que Bellow esteja a referir-se a Closing of the American Mind, que Bloom publicou em 1987), Ravelstein tornara-se rico, a espécie rara de professor que pode ir com o amante para uma suite do Crillon.

Sob o pano de fundo do intervalo pré-mortal de Ravelstein («Estou cheio de tusa... Nunca esperei que a morte fosse um tão estranho afrodisíaco»), o romance reflecte sobre as exigências da biografia enquanto género literário, segundo as experiências de Boswell e do dr. Johnson.

Ao pequeno-almoço, entre morangos, brioches e uma bateria de compotas made in Crillon, o amante ainda na cama, Ravelstein discreteia com Chick sobre os equívocos do Keynesianismo. A forma como conduz o diálogo não ilude Chick: «Ele queria que eu lhe fizesse a biografia...»

Cáustico sempre que alude aos Bloomsberries, que considera «incapazes de pensar» (estamos a falar de, entre outros, Virginia Woolf, Lytton Strachey, E. M. Forster e John Maynard Keynes), Ravelstein criou e alimentou o seu próprio grupo-de-mão: «Os seus membros... ocupavam agora posições de importância em jornais nacionais. [...] Um número considerável trabalhava para o Departamento de Estado. Alguns davam aulas na Academia Militar ou faziam parte da equipa de conselheiros da Segurança Nacional. [...] Ravelstein recebia deles relatórios frequentes.» Paul Wolfowitz, um dos seus alunos, é citado como Paul Nitze. Para o melhor e para o pior, Ravelstein preparou a «quarta vaga da modernidade». Allan Bloom não se pode queixar da nitidez do retrato...

A memorabilia não poupa Alexandra Ionescu Tulcea (citada no livro como Vela), a matemática romena que foi casada com Bellow. Sobre esta mulher dada às grandes abstrações, indiferente às nogueiras seculares da casa de New Hampshire, abominando Bloom com método, Ravelstein e Chick têm diálogos vitriólicos. Vela acusa o marido de estar enrolado com o outro. Chick ri com gosto: «Disse-lhe que nem sequer sabia como se praticava o ato, e que, na minha idade, não estava com disposição de aprender

Bellow tem uma escrita seca, isenta de adjectivação e parafernália retórica. A descrição dos últimos dias de Ravelstein é pungente. Faria sentido «lutar tão arduamente pela existência»? Nikki, o rapaz de Singapura que era havia muitos anos seu amante, zelou pela dignidade dos dias do fim. Mas Ravelstein não desarma com facilidade. À beira da morte continua a preocupar-se com a forma como a empregada polaca lava os copos de vinho: «É impossível deixar de pensar que estas mulheres devem ser igualmente brutas com os pénis dos homens...»

Talvez não seja excessivo dizer que Ravelstein é uma história de príncipes da Renascença, à qual a desembaraçada tradução de Rui Zink acrescenta o tom adequado.


Abe, aliás Bloom, in Ípsilon, 9-9-2011, pp. 36-37. Cinco estrelas.

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