Domingo, Janeiro 30, 2011

O HORIZONTE A ARDER


O Egipto está mergulhado no caos há seis dias. Porém, as manchetes dos jornais portugueses ignoram o melindre da situação. O Público mandou ao Cairo o seu melhor jornalista, mas o facto não mereceu mais que uma chamada de primeira página.

Escreve Paulo Moura: «Hoje não há polícia. Depois da repressão que marcou todo o dia e noite de sexta-feira, a polícia desapareceu de repente. Nem um agente em toda a cidade do Cairo. Algumas esquadras estão queimadas, ainda a fumegar, dos ataques da noite passada. Mas agora não há pretexto algum para assaltar uma esquadra de polícia. A repressão acabou. Magotes de gente desfilam empunhando cartazes contra o novo vice-presidente e contra Mubarak. Ninguém os impede. Fala-se livremente. [...] De facto, o aspecto de auto governo parece ter começado. Há piquetes por todo o lado, grupos de manifestantes cortam o trânsito nalgumas ruas, outros dão informações. Em certas zonas, o sistema funciona. A autoridade superior deixou de existir, e dir-se-ia que Mubarak já não está de facto no poder. Escondido num palácio da estância turística de Sharm-el-Sheikh, teria desistido do país e prepararia ignobilmente a fuga.»

O Egipto não é a Tunísia. A Tunísia tem 10,5 milhões de habitantes, dos quais 3,8% vivem abaixo do limiar da pobreza. O Egipto tem 80,5 milhões de habitantes, dos quais 20% vivem abaixo do limiar da pobreza. Denominadores comuns: alto índice de desemprego, 14% na Tunísia, 10% no Egipto; e população jovem: 29 anos (idade média na Tunísia) e 24 anos (no Egipto). Factores de risco acrescido. Em Tunes, uma cidade com 750 mil habitantes, onde toda a gente fala francês, a revolução pôde ser de jasmim... No Cairo, cuja área metropolitana acolhe 19 milhões de habitantes (oito milhões no centro), quase só se fala árabe. Por último mas não em último, estamos a falar de países com pouco mais de 50 anos de independência: em 1956, a França saiu da Tunísia; em 1959, as tropas britânicas deixaram o Egipto. A independência egípcia (1953) era formal. Os britânicos só abandonaram o país cerca de três anos depois da guerra do Suez de Outubro de 1956. De certo modo, tudo começa agora.

Vendo há pouco imagens de Alexandria banhada de sol, lembrei-me de Kavafis. O grego teria cantado como ninguém os jovens irados da cidade onde nasceu e morreu: «Sacudiam as suas cabeças e as longas crinas moviam, / batiam na terra com as suas patas e carpiam...» Cf. Os Cavalos de Aquiles.

Vá seguindo aqui o desenrolar dos acontecimentos.

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