Agora que o n.º 98 [Janeiro 2011] da
LER está na rua, deixo aqui a crónica
Menino de ouro?, publicada no n.º 97 na minha coluna Heterodoxias:
Estava escrito nas estrelas: morreria de maneira sensacional. Eram 20:17h de quinta-feira, 4 de Dezembro de 1980, quando o bimotor Cessna, modelo 421-A, com a matrícula YV-314P, descolou: «
Ao atingir 23 metros de altitude, deu-se uma explosão. A pressão na cabina subiu repentinamente. Houve uma elevação momentânea da temperatura da ordem dos 560 graus. Monóxido de carbono e vários outros gases encheram o interior do avião.» Fatal, a troca do voo da TAP pela avioneta do ministro da Defesa. Começava em Camarate o primeiro
reality show português.
Adelino Amaro da Costa queria tirar a limpo o «
desvio de dinheiro do Fundo de Defesa Militar do Ultramar» (mais de oito milhões de contos, o equivalente a mais de 40 milhões de euros), bem como a venda de armamento ao Irão e ao Iraque. Oito comissões parlamentares de inquérito, num
continuum de 1982 a 2004, nada esclareceram. A última em data concluiu que o ministro da Defesa «
conhecia coisas que não devia».
Francisco Sá Carneiro sabia: Soares Carneiro, general, improvável candidato da Aliança Democrática, ia perder. No almoço derradeiro, entre a canja de perdiz e o charuto por fumar, disse: «
com o presidente Eanes não serei mais primeiro-ministro [...] alguém do meu partido vai aceitar ser primeiro-ministro com o Eanes. Nessa altura, eu abandonarei o PSD e ficarei uns tempos fora da política, a deixá-los espetarem-se. [...] Quando isso se tornar patente, fundarei um novo partido, e estou certo de que as bases do PSD virão comigo.» Até lá, tencionava criar vacas na companhia de Snu. Na noite desse dia embarcou no avião errado.
Miguel Pinheiro, jornalista, director da revista
Sábado, escreveu a biografia do fundador do PPD.
Não é um trabalho “académico”, nem uma sebenta hagiográfica. É uma biografia como deve ser: narrativa sedutora, informada, escorreita, objectiva, não isenta de
petite histoire. Para fazer o retrato do homem que deu a primeira vitória à direita, Miguel Pinheiro investigou durante cinco anos, filtrando documentação, entrevistando familiares, amigos, correligionários e adversários, sem perder de vista a dimensão humana de Sá Carneiro. O essencial cabe em 770 páginas, das quais 126 reportam a notas sobre testemunhos, diálogos e fontes. Termo de comparação:
Hitler, de Ian Kershaw.
Nada fica de fora: antecedentes familiares, formação, Ala Liberal, Marcelo Caetano, Spínola, presidenciais de 1972, PPD, cisões, doença, Snu, tentativa de divórcio, AD, anti-sovietismo, querela com Eanes, presidenciais de 1980, atentado e morte. Datas, nomes, diálogos, correspondência, etc. Catalisadora da fase heróica, Snu Abecassis.
Radicada em Portugal desde o início dos anos 1960, Ebba Merete Seidenfaden, Snu para os amigos, fundou a Dom Quixote com Vasco Abecassis, seu marido. No dia em que trouxe (1967) Ievgueni Ievtuchenko a Portugal, tornou-se, com apenas 26 anos, uma lenda do
milieu cultural e político. Instalou o poeta russo no Ritz, levando-o ao futebol e aos fados antes de lançar
Autobiografia Prematura numa sessão que juntou toda a Lisboa na Livraria Divulgação e, a seguir, no Teatro Capitólio. A Pide andou num virote. Vivendo no Porto, Sá Carneiro não conhecia a “esfinge” dinamarquesa. Iriam passar 9 anos até que isso acontecesse. O encontro mudou a vida de ambos.
As legislativas de 1976 estavam à porta: a revelação de uma relação extraconjugal teria consequências demolidoras. Afinal, ele era o chefe de um partido conservador. Toda a cautela foi pouca, mas não impediu que, «
menos de um mês depois de se conhecerem, Sá Carneiro já ia ao apartamento onde Snu vivia com o marido e os filhos.» Isabel, a mulher, não deu o divórcio. A esquerda farisaica (Eanes incluído) aproveitou, usando Snu como arma de arremesso.
Miguel Pinheiro explica tudo com grande soma de detalhes.