Sexta-feira, Dezembro 31, 2010

CITAÇÃO, 318


Jansenista, Devo ter nascido três vezes. Excertos, sublinhado meu:


É preciso nascerem duas vezes para serem mais honestos do que eu, diz aquele prognata que quer enganar o país como outrora enganou a academia (o puro acaso da morte prematura de Alfredo de Sousa não permitiu que se soubesse mais sobre o caso).

A sua honestidade dita
[...] que rosne contra a retirada do bolo-rei orçamental ao ensino privado, quando houve uma dependência directa perante esse mesmo sector parasitário da úbere teta das Finanças.

O tiro sai errado quando se fala do BPN, porque aí as provas são escassas (embora se saiba das suas visitas diárias, por longos anos, ali a Palhavã). Por mim, dispenso provas de desonestidade pessoal e basta-me a pública e notória desonestidade política, se me é permitida a redundância; e a impressão, há muito firmada, de que uma conduz à outra.

Como costuma dizer-se, isto não está para gente séria.
[...]

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MENINO DE OURO?


Agora que o n.º 98 [Janeiro 2011] da LER está na rua, deixo aqui a crónica Menino de ouro?, publicada no n.º 97 na minha coluna Heterodoxias:


Estava escrito nas estrelas: morreria de maneira sensacional. Eram 20:17h de quinta-feira, 4 de Dezembro de 1980, quando o bimotor Cessna, modelo 421-A, com a matrícula YV-314P, descolou: «Ao atingir 23 metros de altitude, deu-se uma explosão. A pressão na cabina subiu repentinamente. Houve uma elevação momentânea da temperatura da ordem dos 560 graus. Monóxido de carbono e vários outros gases encheram o interior do avião.» Fatal, a troca do voo da TAP pela avioneta do ministro da Defesa. Começava em Camarate o primeiro reality show português.

Adelino Amaro da Costa queria tirar a limpo o «desvio de dinheiro do Fundo de Defesa Militar do Ultramar» (mais de oito milhões de contos, o equivalente a mais de 40 milhões de euros), bem como a venda de armamento ao Irão e ao Iraque. Oito comissões parlamentares de inquérito, num continuum de 1982 a 2004, nada esclareceram. A última em data concluiu que o ministro da Defesa «conhecia coisas que não devia».

Francisco Sá Carneiro sabia: Soares Carneiro, general, improvável candidato da Aliança Democrática, ia perder. No almoço derradeiro, entre a canja de perdiz e o charuto por fumar, disse: «com o presidente Eanes não serei mais primeiro-ministro [...] alguém do meu partido vai aceitar ser primeiro-ministro com o Eanes. Nessa altura, eu abandonarei o PSD e ficarei uns tempos fora da política, a deixá-los espetarem-se. [...] Quando isso se tornar patente, fundarei um novo partido, e estou certo de que as bases do PSD virão comigo.» Até lá, tencionava criar vacas na companhia de Snu. Na noite desse dia embarcou no avião errado.

Miguel Pinheiro, jornalista, director da revista Sábado, escreveu a biografia do fundador do PPD. Não é um trabalho “académico”, nem uma sebenta hagiográfica. É uma biografia como deve ser: narrativa sedutora, informada, escorreita, objectiva, não isenta de petite histoire. Para fazer o retrato do homem que deu a primeira vitória à direita, Miguel Pinheiro investigou durante cinco anos, filtrando documentação, entrevistando familiares, amigos, correligionários e adversários, sem perder de vista a dimensão humana de Sá Carneiro. O essencial cabe em 770 páginas, das quais 126 reportam a notas sobre testemunhos, diálogos e fontes. Termo de comparação: Hitler, de Ian Kershaw.

Nada fica de fora: antecedentes familiares, formação, Ala Liberal, Marcelo Caetano, Spínola, presidenciais de 1972, PPD, cisões, doença, Snu, tentativa de divórcio, AD, anti-sovietismo, querela com Eanes, presidenciais de 1980, atentado e morte. Datas, nomes, diálogos, correspondência, etc. Catalisadora da fase heróica, Snu Abecassis.

Radicada em Portugal desde o início dos anos 1960, Ebba Merete Seidenfaden, Snu para os amigos, fundou a Dom Quixote com Vasco Abecassis, seu marido. No dia em que trouxe (1967) Ievgueni Ievtuchenko a Portugal, tornou-se, com apenas 26 anos, uma lenda do milieu cultural e político. Instalou o poeta russo no Ritz, levando-o ao futebol e aos fados antes de lançar Autobiografia Prematura numa sessão que juntou toda a Lisboa na Livraria Divulgação e, a seguir, no Teatro Capitólio. A Pide andou num virote. Vivendo no Porto, Sá Carneiro não conhecia a “esfinge” dinamarquesa. Iriam passar 9 anos até que isso acontecesse. O encontro mudou a vida de ambos.

As legislativas de 1976 estavam à porta: a revelação de uma relação extraconjugal teria consequências demolidoras. Afinal, ele era o chefe de um partido conservador. Toda a cautela foi pouca, mas não impediu que, «menos de um mês depois de se conhecerem, Sá Carneiro já ia ao apartamento onde Snu vivia com o marido e os filhos.» Isabel, a mulher, não deu o divórcio. A esquerda farisaica (Eanes incluído) aproveitou, usando Snu como arma de arremesso.

Miguel Pinheiro explica tudo com grande soma de detalhes.

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LER 98


A LER n.º 98, de Janeiro 2011, está nas bancas. Denominador comum, a crise. Livros para encarar o abismo: Judt, Steiner, Zizek, Savater, Lipovetsky, Sloterdijk, Fisk e Eduardo Lourenço. Um dicionário para quem quiser sair da crise. Villaverde Cabral entrevistado por Carlos Vaz Marques: Se não há revolta é porque os papás estão a aguentar. Os livros de 2010 escolhidos pelos leitores da revista. As secções do costume. As crónicas dos malandros do costume: a minha, Pompas fúnebres, faz a ponte entre a crise de 1982-83 e a presente, dos linguados do João Padeiro à fortaleza do Byrne. Brevíssimo highlight:

[...] Inês está cercada. A escola do filho come dois terços do salário do marido. Aguenta porque o imobiliário classe AA+ passa incólume à derrocada geral. Cinco milhões de euros? Seis? Who cares? Os que vêm de Angola trazem o dinheiro em sacos tartan-cíclame do Roque Santeiro. Os de Sampetersburgo e Novgorod tomam cautelas de offshore. Inês jurou que não voltava às punhetas de bacalhau. Venham mais ovimbundus e capos da Orekhovskaya pois com Braganças é pura perda de tempo. E não é que um Chipenda lhe comprou um duplex para uma manicure ruiva da Quinta do Bau-Bau? A mulher transferiu-se da Sobreda para o Parque das Nações rodeada de tanta coreografia que provocou uma reunião urgente da comissão de condóminos. [...] Suportou tudo. A candonga de Mrs Gardiner. As punhetas de bacalhau da mãe. O suicídio do pai. A absolvição do yuppie. O tédio do casamento. A perda dos activos do BPP. Agora tratava-se do filho. Um miúdo de 17 anos. O Zé Maria anda a vender mefedrona a outros alunos. [...]

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Quinta-feira, Dezembro 30, 2010

HISTÓRIA DA TRETA


O edifício projectado por Manuel Aires Mateus e Frederico Valsassina para o gaveto das ruas Alexandre Herculano e do Salitre, que vemos ao alto, foi aprovado pela Câmara de Lisboa em 2005, durante o mandato de Santana Lopes. Eduarda Napoleão, do PSD, era vereadora da Habitação e Urbanismo. Em 2008, apesar dos votos desfavoráveis dos vereadores do PS, a Câmara deu o dito por não dito e revogou a aprovação. Os promotores da obra protestaram. Os tontos do costume fizeram petições: estava em causa a Lisboa “romântica” (i.e., a cair aos bocados) e até ia ser “demolido” o Chafariz do Rato... Fatais, Helena Roseta, Ruben de Carvalho e o Zé que não-faz-falta deram o corpo à indignação popular.

De revogação em revogação, a coisa arrastou-se cinco anos, até que no passado dia 22 a Câmara de Lisboa deliberou (e bem) dar luz verde à obra, aprovando a emissão da licença de construção. Ontem, o Conselho Directivo Regional Sul da Ordem dos Arquitectos aprovou (e bem) o licenciamento, aplaudindo a decisão. Helena Roseta, Ruben de Carvalho e o Zé que não-faz-falta voltaram a arrancar os cabelos.

Defender a Lisboa “romântica” é não permitir a degradação do espaço público, como acontece, por exemplo, na Avenida Duque de Loulé, onde existem (até quando?) edifícios de reconhecido valor patrimonial, alguns Arte Nova, três Haussmannianos (n.ºs 86-96), vários classificados, todos em risco. No Estado Novo, ali mesmo e sem escândalo público, os prémios Valmor de 1907, 1909 e 1919 foram demolidos: o de António de Couto Abreu em 1954, o de Álvaro Augusto Machado em 1961 e o de Adolfo Marques da Silva em 1965. Transformada em via rápida, a Duque de Loulé tem buracos de extremo a extremo, árvores mortas, passeios laterais com menos de um metro de largura e a placa central atulhada de carros. O palacete do n.º 35 ainda lá está ou também foi demolido como o do n.º 126?

Descaracterizado como está, o Largo do Rato até aguentava uma mini-Défense. Deixem-se de tretas. O projecto de Manuel Aires Mateus e Frederico Valsassina é perfeitamente enquadrável naquele espaço.

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Quarta-feira, Dezembro 29, 2010

AJUSTE DIRECTO


Por razões que não vêm ao caso, vou muito a Viana do Castelo. Porém, nunca tinha ouvido falar de Defensor de Moura. Dei pela sua existência há coisa de dois ou três meses, por causa das Presidenciais. Vi de passagem algumas suas intervenções nas charlas da televisão, o suficiente para perceber que, do bando dos cinco, é o que denota maior fair play. Boa imagem, boa preparação, discurso assertivo, isento de rodriguinhos piegas ou ênfase heróica. Um ano de campanha a sério e o apoio explícito e interessado do PS, e Defensor de Moura teria condições para bater-se de igual para igual com Cavaco Silva. No ponto em que as coisas estão tornou-se uma espécie de compère involuntário. Estou à-vontade para o dizer porque não vou votar a 23 de Janeiro.

Defensor de Moura tem dado informações relevantes do seu mandato de autarca. Uma delas diz respeito à realização das cerimónias do Dia de Portugal de 2008, em Viana do Castelo. Nesse ano, a Presidência da República queria dois concertos: um para o corpo diplomático, outro para o povo. Belém fez exigências de logística, impondo Kátia Guerreiro, fadista e mandatária da juventude de Cavaco em 2006, como artista principal. Mas a Câmara (então presidida por Defensor de Moura) não aceitou o cachet e as condições da fadista, tendo sido a Presidência da República a suportar todas as despesas da actuação de Kátia Guerreiro. Nada disto seria relevante não se desse o caso de a contratação ter sido feita por ajuste directo entre Belém e o agente da artista, sem que tal conste, como manda a lei, da base de contratos públicos.

Evidentemente, nada disto perturba o colunismo filet mignon sempre tão zeloso a pedir esclarecimentos a este mundo e o outro.


[Na imagem, Kátia Guerreiro e Eduardo Lourenço.]

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PODE LÁ SER...


A direita andou um ano a bramar contra os privilégios dos funcionários públicos. É preciso baixar os salários da cáfila e acabar com a ADSE, disseram à vez deputados do reviralho, comentadores avençados, publicistas de hebdomadário, bloggers jihadistas, facebookers irados e papagaios avulsos. A 29 de Setembro, o governo fez-lhes a vontade. A partir de 1 de Janeiro próximo, funcionários públicos e trabalhadores do sector empresarial do Estado, com remuneração mensal (soma do salário com abonos e outros extras) de valor igual ou superior a 1550 euros, vão sofrer reduções entre 3,5% e 10%. Ver aqui a tabela. A medida não afecta aposentados e pensionistas, que vêem as suas pensões congeladas.

Os juizes recorreram aos tribunais. Inconstitucional, dizem eles. O que dizer então do abono de renda de casa (setecentos euros por mês) a que têm direito? E os casados entre si recebem em dobro...

Em Dezembro, a imprensa descobriu a iniquidade da medida. Ontem, Crespo e o diácono Cantigas oficiaram contra Satã. Percebe-se. Se a situação piorar no 1.º trimestre de 2011, a maioria dos privados fará o mesmo a partir de Abril. Isso explica que muita gente (sobretudo a que bebe do fino) considere, agora, os cortes inconstitucionais.

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Terça-feira, Dezembro 28, 2010

FAZ HOJE 115 ANOS


Já poucos devem saber quem foi o Gungunhana, i.e., Mdungazwe Ngungunyane Nxumalo (1850-1906), último imperador do Império de Gaza, capturado por Mouzinho de Albuquerque, em Chaimite, precisamente a 28 de Dezembro de 1895. Faz hoje 115 anos. Transportado (e à sua corte) para Lisboa, onde foi exibido como troféu de caça, D. Carlos desterrou-o em 1896 para os Açores, onde viveu dez anos até morrer. Com a sua prisão, Mouzinho garantiu o controlo de Moçambique nos termos da Conferência de Berlim.

Publicado em Moçambique em 1896, pela Tipografia Sampaio & Carvalho, de Lourenço Marques, o relatório dessa prisão foi agora recuperado pela Angelus Novus na colecção Experimente no Sofá  —  livrinhos de 15x10,5cm de autores tão diferentes como o marquês de Sade, Nuno Júdice, Alexis de Tocqueville, Henry David Thoreau e, às voltas com Sherlock Holmes, O. Henry, Bret Harte e John Kendrick Bangs  —, tão heterodoxa que até tem um volume sobre relatos das aparições de Fátima.

Sobre Mouzinho de Albuquerque (1855-1902), o herói de Moçambique, o volume inclui uma breve cronologia: o suicídio é atribuído ao «clima de intriga [e] decadência da monarquia». O livro não diz, mas digo eu, que a intriga estava associada a rumores de homossexualidade.

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Segunda-feira, Dezembro 27, 2010

PUDERA


O economista João Salgueiro, subsecretário de Estado do Planeamento num governo de Marcelo Caetano (1969-71) e ministro de Estado e das Finanças no governo Balsemão (1981-83), descobriu a roda: Pedro Passos Coelho tem a «preocupação genuína de não facilitar para chegar ao poder...» É mesmo?

Sejamos claros. O actual líder do PSD não facilita porque não pode. O PSD dos Relvas e dos Marcos não tem condições para governar Portugal. Imagino o susto em Bruxelas ao ver chegar tais criaturas: o equivalente a ver entrar o rei da sucata no Club Portuense...

O dilema de Passos é outro. Ou faz o governo dos Marretas (aquilo de que dispõe hoje), ou cede aos iluminados do Tremendismo: Manuela Ferreira Leite, Medina Carreira, Eduardo Catroga, Daniel Bessa, Vítor Bento, Luís Campos e Cunha, António Capucho, Rui Rio, Bagão Félix, António Nogueira Leite, Nuno Crato, Miguel Anacoreta Correia, etc. A direita tem gente. Mas não frequenta a São Caetano. Nem está disposta a discutir de igual para igual com os Marcos e os Relvas da intendência. Desatar esse nó  —  sobretudo se, em novas eleições, o PSD não obtiver maioria absoluta  —  não é fácil. O PSD corporativo seria ignorado com desdém em Bruxelas. O PSD alargado (solução que agradaria a Cavaco) daria o tiro de partida da Jihad pê-ésse-dê.

Por isso, Passos vai ter toda a paciência do mundo. Na actual conjuntura política, Massamá é uma espécie de off-Broadway... O pior que lhe podia acontecer era ter de dar um passo em frente.

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Domingo, Dezembro 26, 2010

CITAÇÃO, 317


Luís M. Jorge, Um natal supé feliz. Excertos:


«[...] o país foi consumido por uma orgia salazarenga de caridade e devoção. Os sem-abrigo casaram-se em barda, as mães de Cascais fizeram soufflés aos entrevados, a Júlia e o Goucha entrevistaram manetas, tuberculosos e débeis mentais. Os alcoólicos sorveram sopa com cheirinho, muito boa, muito quentinha. Um patego da Guarda trajou de pai natal e deu chocolates do Lidl à terceira idade. [...] Portugal está em júbilo, porque bastou um ano de crise para reencontrar os seus pobrezinhos no adro da igreja, os seus velhos de pés em chaga, os meninos escalavrados a lamber o ranho e a estender as mãos. E já tinhamos todos tantas saudades. Na televisão, uma dondoca serve bacalhau aos desempregados e deseja-me um Natal supé feliz. Para si também, tia. Vemo-nos no reveillon — ou no céu, se Deus quiser


[Na imagem, de 1972, Robert Kennedy Jr. num almoço de caridade para os pobrezinhos de Cape Cod. Ah!, que saudades da gataria dos seventies.]

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Sexta-feira, Dezembro 24, 2010

ÍPSILON. LIVROS DO ANO


A escolha do Ípsilon, na qual participei. Como verificável aqui, seis destes títulos (assinalados com link) coincidem com a minha escolha pessoal.


As Aventuras de Augie March
Saul Bellow, Quetzal

Adoecer
Hélia Correia, Relógio d’Água

Clarice Lispector. Uma Vida
Benjamin Moser, Civilização

Salazar
Filipe Ribeiro de Meneses, Dom Quixote

Uma Viagem à Índia
Gonçalo M. Tavares, Caminho

O Sonho do Celta
Mario Vargas Llosa, Quetzal

Submundo
Don DeLillo, Sextante

Um Repentino Pensamento Libertador
Kjell Askildsen, Ahab

Obra Poética
Sophia de Mello Breyner Andresen, Caminho

Um Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos
Tony Judt, Edições 70

Um Traidor dos Nossos
John Le Carré, Dom Quixote

Viva México
Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China

A Máquina de Fazer Espanhóis
valter hugo mãe, Objectiva

O Quinto da Discórdia
Roberts Davies, Ahab

A Viúva Grávida
Martin Amis, Quetzal

Verão
J.M. Coetzee, Dom Quixote

História da Vida Privada em Portugal
José Mattoso (org.), Círculo de Leitores / Temas e Debates

A Coluna de Fumo
Denis Johnson, Casa das Letras

O Anjo da História
Walter Benjamin, Assírio & Alvim

Memento Mori
Murial Spark, Relógio d’Água

Morrem mais de Mágoa
Saul Bellow, Quetzal

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Quinta-feira, Dezembro 23, 2010

ESPECIAL CESARINY


Sob direcção de Gastão Cruz e dedicado a Mário Cesariny, acaba de sair o n.º 26 da Relâmpago, relativo a Abril mas impresso em Dezembro. Um excelente número monográfico, a exemplo de outros dedicados a Luís Miguel Nava, patrono da revista, Ruy Belo, Fiama, Sophia, Carlos de Oliveira, O’Neill, Luiza Neto Jorge, Sena, David Mourão-Ferreira, etc. A grelha é a de sempre: inédito de Cesariny, ensaios, iconografia (muito boa), testemunhos variados, uma carta de Eugenio Granell e, por último mas não em último, uma completíssima biobibliografia da autoria de António Martins Soares. A sobriedade e o apuro gráfico provam (se necessário fosse) que o luxo couché é coisa do passado.

Gostaria de destacar os ensaios de Fernando J. B. Martinho, Fernando Cabral Martins e António Carlos Cortez; bem como os testemunhos  —  i.e., ensaios isentos de álibi hermenêutico  —  de Armando Silva Carvalho, Gastão Cruz, Fernando Pinto do Amaral, António Barahona e Perfecto E. Cuadrado (sobram muitos). Retratos magníficos, reproduções de obras de pintura e de capas de livros, fac-símiles, dactiloscritos, etc., completam o voume.

À margem de Cesariny, poemas de Margarida Vale de Gato (muito bons), Rui Cóias (e o próximo livro?) e a revelação do brasileiro Leonardo Gandolfi (n. 1981): «Como muitos de minha geração, / sou um ás em projetos a curtíssimo prazo.»

O retrato da capa que se vê ao alto foi tirado por Cruzeiro Seixas em 1949.

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Quarta-feira, Dezembro 22, 2010

HEATHROW


O que está a suceder em vários aeroportos europeus, com Heathrow a servir de padrão, ilustra bem a tranquibérnia liberal. Como se nunca tivesse nevado em Inglaterra. Um aeroporto com a dimensão de Heathrow, a operar a 30% da sua capacidade, configura uma situação de pré-calamidade. À escala global, Heathrow é o aeroporto com maior volume de tráfego. Está praticamente parado há vários dias. Cameron ofereceu a ajuda do exército para limpar as pistas. A BAA recusou. Cameron fez boquinha mas ficou-se.

A gente sabe que a gestão de um aeroporto custa dinheiro. Nem a BAA (na Inglaterra, no País de Gales e na Escócia) nem a ANA têm por missão fazer filantropia. OK. Mas em situações extremas os governos têm a obrigação de intervir. A colaboração do exército não devia ter sido oferecida como quem sugere scones num velório. Devia ter sido imposta. Imagino que um governo do Labour o tivesse feito.

Isto não tem nada a ver com neve. Tem a ver com custos de manutenção. O Reino Unido está de tanga? A gente sabe que sim. Mas assobiar para o lado não resolve nada. Bruxelas já reagiu. Pudera! O aeroporto da capital belga está paralisado por... falta de líquido descongelante. Siim Kallas, comissário europeu dos Transportes, aconselhou as companhias aéreas a processar os aeroportos. Afinal, disse ele, «a neve na Europa ocidental não é uma circunstância excepcional.» Portanto, se Cameron não sabe como se faz, pergunte a Zapatero. Estado de alarme, já!


[Ao alto: Heathrow, ontem. Foto de Luke MacGregor.]

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Terça-feira, Dezembro 21, 2010

O BPN NÃO EXISTE


Parece que são precisos mais 500 milhões de euros para aguentar o BPN. Mas aguentar o quê? Não seria mais sensato utilizar esses 500 milhões para custear o despedimento dos 1700 trabalhadores do banco? Nacionalizado em Novembro de 2008, o BPN continua a funcionar com capitais negativos (activos tóxicos) no valor de 1,9 mil milhões de euros. Perdeu mais de 60% dos clientes. E os administradores que a Caixa Geral de Depósitos lá pôs (Francisco Bandeira e outros) parece que andam a brincar com o dinheiro dos contribuintes. Há pelo menos vinte quadros, entre ex-administradores e directores do BPN, «que recebem o salário mas não estão a trabalhar desde meados de 2008.» (v. Expresso, 18-12-2010) Terá sido para isso que a CGD lá meteu 4,8 mil milhões de euros?

Mesmo ao desbarato, ou seja, por 180 milhões de euros, ninguém quis comprar o BPN. O Montepio, o BIC e o Barclays franziram o nariz ao caderno de encargos. Talvez por um euro. E mesmo assim...

Ontem, João Semedo voltou a lembrar a peculiar governança do BPN de Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Miguel Cadilhe e outros próceres do cavaquismo. Segundo o deputado do BE, Cavaco Silva e a filha (e, como eles, outros clientes especiais) obtiveram ganhos de 140% nas aplicações feitas. Sobre o assunto, o Presidente da República emitiu este comunicado a 23 de Novembro de 2008.

O que é revelador é que nenhum Cerejo, nenhuma Cabrita, nenhuma Manelona, nenhum Crespo, nenhum justiceiro da bloga, nenhum magistrado de Aveiro, nenhum super-juiz, nenhum colunista das Brigadas Anti-Sócrates (e são 30, os encartados, metade juristas), nenhum Medina, nenhum Duque, nenhum historiador, nenhum jovem turco da República morta, nenhum candidato presidencial, nenhum assessor doublé de repórter na imprensa marron, nenhum representante da Fatah nos media radical-chic, nenhuma das criaturas que formata a opinião... se interesse pelo backstage do banco da Loja P2, perdão, do banco da Sociedade Lusa de Negócios. Decididamente, a fraude do século não comove ninguém.

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Segunda-feira, Dezembro 20, 2010

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A poesia ensina a cair.

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RITO DE PASSAGEM


Já toda a gente percebeu: os portugueses estão tão interessados nas eleições de 23 de Janeiro como no preservativo roto de Assange. A cada nova charla na televisão aumenta o desprezo universal. O presidente da AMI estarreceu o país com o episódio das crianças famintas disputando pão do bico das galinhas, saga Roque Santeiro em versão Rossellini que talvez lhe garanta o 4.º lugar. Manuel Alegre, lui-même, invoca a doutrina social da Igreja. A propósito: que é feito dos cem escritores e intelectuais de fino recorte que andaram com ele ao colo em 2006? E a Cavaco, resta o quê, se 60 ou 70% dos eleitores mandar as eleições às urtigas? Ser o presidente de 30 ou 40% dos eleitores?

Os deputados deviam aproveitar o processo de revisão constitucional em curso para impor o mandato presidencial único, dilatando a vigência do cargo dos actuais cinco para sete anos.


[Na imagem, coroação de Jean-Bédel Bokassa, como imperador, em Dezembro de 1976.]

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Domingo, Dezembro 19, 2010

A IMPROVÁVEL COLIGAÇÃO


Houve um tempo em que o PCP tinha um matutino, o Diário, jornal onde qualquer heterodoxia era um ónus. Baptista-Bastos que o diga. Nunca li, nunca me incomodou. Se O Diabo continua em banca, qual o problema de haver jornais alinhados com o PCP? Mas os comunistas (encartados) desapareceram dos media. E os socialistas não-marxistas têm de piar fininho. Está na memória de todos  —  enfim, dos happy few  —  o que terá acontecido a uma jornalista sénior, de créditos firmados, mãe de um influente dirigente do PS, liminarmente rejeitada para Provedora do Leitor de um jornal de referência por ser... do PS! Hoje, os jornais reflectam o ponto da vista da coligação objectiva dos interesses do PSD com os do Bloco de Esquerda. Os tontinhos de ambos os extremos são muito louvados. Não tem mal, nem tem bem. É o ar do tempo. A mim não me incomoda nada, pelo contrário, que a Opinião cubra todos os matizes. E, se ao patrão do jornal lhe apetecer, que só cubra o seu. Afinal, é ele que paga. Mas, em matéria de notícias (repito: notícias), sou mais esquisito. Enfim, é o que há.

Um dia, quando houver outro governo, e já estive mais convencido que seria no Verão de 2011 (o mais provável é ser mais tarde), vai ser muito divertido seguir o comportamento destes zelotes.

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NÓS E A EUROPA


Entrou ontem ao serviço a linha de TGV entre Madrid e Valência, com escala em Cuenca. A viagem dura 92 minutos. Nos últimos 18 anos, a Renfe ligou Madrid a Sevilha, Valladolid, Huesca, Albacete, Málaga, Barcelona e Valência, servindo mais de vinte municípios com escalas intercalares. Entre outras, é possível chegar em alta velocidade a cidades como Toledo, Segóvia, Córdova, Saragoça e Cádiz. Desde hoje de manhã, Barcelona está ligada a Paris em alta velocidade (sete horas de trajecto). A partir de 2013, a Europa fica ligada a Badajoz. O Magreb começa em Elvas.

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DON'T ASK DON'T TELL FOI


Por 65 votos (oito republicanos incluídos) contra 31, o Senado americano baniu ontem a política seguida nas forças armadas de Don’t Ask Don’t Tell. Dito de outro modo, os militares, homens e mulheres, podiam servir o exército, a marinha, a força aérea, squads e corpos especiais (fuzileiros, páras, etc.), desde que não revelassem a sua condição homossexual. Num país como os Estados Unidos, onde mais de meio milhão de homens e mulheres homossexuais assumidos servem as forças armadas, o Don’t Ask Don’t Tell era uma aberração. Os Estados Unidos alinham assim a sua política militar com a de países que rejeitam o jogo de sombras identitário, casos da Alemanha, Dinamarca, Holanda, Israel, Noruega, Reino Unido, Suécia, etc. E nós por cá? Como diria a rainha Vitória, essas coisas não existem!

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Sábado, Dezembro 18, 2010

CITAÇÃO, 316


Vasco Pulido Valente, Valha-nos Deus, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:


«Qualquer que seja a ética jornalista e a importância política (para mim, muito pouca) do WikiLeaks, a coisa serviu pela menos para que o patego da rua visse ao natural os que mandam nele e soubesse o que eles de facto pensam de si próprios e dos seus patéticos parceiros. [...]

Cavaco, por exemplo, mostra, como de costume, toda a maturidade de um adolescente de 15 anos. Nem o Governo, nem Belém conseguiram reduzir a confrangedora vaidade com que saiu do seu buraco em 1980. O homem que raramente se enganava e nunca tinha dúvidas, o homem que trepava ao coqueiro e ganhava os 110 metros de barreiras, continua exactamente na mesma. O episódio da Sala Oval é uma prova definitiva. Vale a pena contar. Parece que o embaixador americano Hoffman disse num telegrama qualquer que o dr. Cavaco se recusara a fazer uma visita a Bush-pai [...] porque Bush-filho não o recebera na Sala Oval, para um daqueles retratos de autopropaganda que se põem em cima da secretária.

Perante esta afronta à sua figura histórica, e, por implicação, à pátria, o Presidente reagiu com toda a rapidez que o caso, como é óbvio, justificava. O embaixador, disse com dureza, mentia. E mentia, porque ele, Aníbal Cavaco Silva, fora com certeza o político português que estivera mais vezes na Sala Oval. Pensar que um torpe socialista (Soares no seu tempo ou depois Sampaio) o excedera na assídua frequência daquele santuário e que ele, por
“vingança” como insinuava Hoffman, repelira o velho e carinhoso Bush, não passava de uma fantasia ou de uma intriga diplomática. Restabelecida a verdade, o país respirou de alívio. Ninguém mete tantos golos como Ronaldo e ninguém, por estas bandas, vai tanto à Sala Oval como Cavaco.

Valha-nos Deus.»



[Na imagem, de Fevereiro de 1968, Johnson conversa com um grupo de estudantes sobre a guerra do Vietname.]

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Sexta-feira, Dezembro 17, 2010

BEST OF LITERÁRIO 2010


Aqui ficam as minhas escolhas de 2010. Vinte títulos de ficção, poesia, ensaio, diarística e história:


Adoecer
Hélia Correia, Relógio d’Água

Submundo
Don DeLillo, Trad Paulo Faria, Sextante

Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos
Tony Judt, Trad Marcelo Felix, Edições 70

A Alma Conservadora
Andrew Sullivan, Trad Miguel de Castro Henriques, Quetzal

A Mecânica da Ficção
James Wood, Trad Rogério Casanova, Quetzal

ABC da Crítica
Nuno Júdice, Dom Quixote

O Sonho do Celta
Mario Vargas Llosa, Trad Cristina Rodriguez, Quetzal

Um Traidor dos Nossos
John Le Carré, Trad J. Teixeira de Aguilar, Dom Quixote

1822
Laurentino Gomes, Porto Editora

A Viagem dos Inocentes
Mark Twain, Trad Margarida Vale de Gato, Tinta da China

Cem Poemas
Emily Dickinson, Trad Ana Luísa Amaral, Relógio d’Água

As Aventuras de Augie March
Saul bellow, Trad Salvato Telles de Menezes, Quetzal

O Cairo Novo
Naguib Mahfouz, Trad Badr Hassanein, Civilização

Ascensão e Queda do Comunismo
Archie Brown, Trad não indicado, Dom Quixote

Da Tragédia à Farsa
Slavoj Zizek, Trad Miguel Serras Pereira, Relógio d’Água

Renascer
Susan Sontag, Trad Nuno Guerreiro Josué, Quetzal

O Apogeu de Miss Jean Brodie
Muriel Spark, Trad Margarida Periquito, Ahab

A Traição de Rita Hayworth
Manuel Puig, Trad Cláudia Clemente, Ulisseia

Matteo Perdeu o Emprego
Gonçalo M. Tavares, Porto Editora

O Corpo em Pessoa
Anna M. Klobucka e Mark Sabine (eds.), Trad Humberto Brito, Assírio & Alvim

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PRÉMIO PESSOA


Maria Carmo-Fonseca, 51 anos, professora catedrática da Faculdade de Medicina de Lisboa e directora do Instituto de Medicina Molecular, venceu o Prémio Pessoa 2010 pelo seu trabalho «em prol da descodificação da informação genética das células humanas, tendo como objetivo final a melhor compreensão de doenças causadas por erros da natureza.» Sinal do reconhecimento internacional do seu trabalho, a cientista recebeu em anos anteriores os prémios Dupont Ciência, Sala-Trepat e Pfizer.

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UMA HISTÓRIA EXEMPLAR


Nuno Krus Abecassis (1929-1999), do CDS, foi presidente da Câmara de Lisboa durante dez anos consecutivos: de 1979 a 1989. Um dia, decidiu transformar a Musgueira Norte, bairro de barracas contíguo ao Lumiar, numa zona residencial que juntaria famílias middle class com as que esperavam por habitação social. Tudo no melhor espírito democrata-cristão. Assim nasceu a Alta de Lisboa, onde já vivem dez mil dos 65 mil residentes sonhados por Abecassis.

À época (1980), um coronel doou parte de uma quinta de que é proprietário para que na área cedida fosse construída habitação social. Em vez disso, a CML construiu condomínios privados para a alta classe média. O coronel recorreu. A queixa correu todas as instâncias. Agora, o Supremo Tribunal de Justiça deu-lhe razão: a Câmara de Lisboa terá de o indemnizar em 119 milhões de euros (mais juros de mora), valor atribuído para habitação de gama alta de venda livre. A sentença transitou em julgado.

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JUAN MARSÉ


Hoje no Público:


O catalão Juan Marsé (n. 1933) tinha seis anos quando acabou a guerra civil espanhola. Cresceu num dos bairros mais pobres de Barcelona, o de Guinardó, palco de tantos livros seus. Sem educação formal, torna-se escritor aos 25 anos. Recebe em 1958 o primeiro de uma vasta série de prémios: o penúltimo foi o Cervantes, em 2008. Encerrados con un solo juguete (1960), livro de estreia, suscita a atenção da crítica e o respeito de autores como Jaime Gil de Biedma, José Agustín Goytisolo e Manuel Vázquez Montalbán. Em pouco tempo fará parte da denominada Geração de 50, a dos herdeiros da resistência anti-franquista. Se estabelecermos uma linha de continuidade entre Si te dicen que caí (1973) e O Feitiço de Xangai, podemos admitir que a lenda e proezas de Francesc Sabaté Llopart, guerrilheiro anarquista conhecido por El Quico, alimentam o imaginário de Marsé.

Desde criança ouviu falar do maquis catalão, a frente de guerrilheiros que os falangistas perseguem sem trégua. A geração a que pertence não esqueceu a factura da guerra: fome, proibição da língua catalã, meio milhão de exilados, cem mil execuções sumárias, populações deslocadas. O pendor autobiográfico dos textos faz jus a esse caldo de cultura.

Autor de uma obra muito extensa, várias vezes adaptada ao cinema, O Feitiço de Xangai (1993; filme de Fernando Trueba em 2002), agora reeditado, é um dos quatro romances de Marsé traduzidos em Portugal, um dos quais o fabuloso Rabos de Lagartixa (2000). Guinardó está no centro da intriga.

Logo a abrir, sem rodeios: «Os sonhos juvenis corrompem-se na boca dos adultos». Estamos em 1948, Barcelona ferve de inquietação para libertar-se do jugo opressor. Daniel, o protagonista, aprenderá à sua custa que toda a maturidade será castigada. De certo modo, O Feitiço de Xangai é um romance com romance dentro, sendo Daniel e Nandu Forcat os narradores de cada uma das partes da história. Os capítulos (nove, com subsecções numeradas) estão encadeados na primeira e terceira pessoa, modos que correspondem a Daniel e Nandu Forcat. O primeiro cola-se à realidade. O segundo, a partir de Xangai, introduz Kim: «Ao entardecer, quando se acendem as primeiras luzes da cidade, Kim está no seu quarto ajeitando sobre a camisa branca recém-estreada os suspensórios da sovaqueia com a Browning.» Com enfoque no idealismo de Daniel e nas efabulações de Nandu Forcat, o perfil das personagens cobre todas as possibilidades.

Sem prejuízo do domínio narrativo, diria que há desfasamento entre o interesse do plot (medíocre) e a prosa escalorada do autor: «Enquanto avançava pelo pequeno e descuidado jardim, onde os arbustos de cevadilha languesciam à sombra do chorão e os húmidos recantos de lírios apodreciam por falta de sol, interroguei-me como é que estes dois xarnegos mortos de fome tinham podido adquirir aquela estranha autoridade ao falarem da tísica.» Xarnego é como chamam aos imigrantes não adaptados à cultura e língua catalã.

No capítulo cinco surge o famoso poema A Cidade (1910), de Kavafis. Atentos os acidentes biográficos de Marsé e o contexto ficcional, o insert faz todo o sentido. Fica por esclarecer a escolha da versão livre e «inédita» de Ángel González (tão livre que lhe acrescentou um verso), numa altura em que a obra de Kavafis fora vertida (1982) do grego para castelhano por Pedro Bádenas de la Peña. Não obstante, a pulsão nómada encontra nesses versos a epígrafe perfeita: «A cidade seguir-te-á. De volta pelos caminhos errarás / os mesmos. [...] Sempre a esta cidade chegarás.»

Em 1994, O Feitiço de Xangai recebeu o Prémio Europeu de Literatura Aristeion e o prestigiado Prémio da Crítica da Associação Espanhola de Críticos Literários.


Sonho corrompido, in Ípsilon, 17-12-2010, p. 40. Três estrelas.

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Quinta-feira, Dezembro 16, 2010

CITAÇÃO, 315


Val, Obrigado WikiLeaks.

«Os imbecis da esquerda imbecil confiam cegamente em qualquer coisa que a diplomacia norte-americana ponha por escrito. Extraordinária revelação.»

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MADRASSAS


Confesso a minha ingenuidade: acreditava que o ensino privado era... privado. Descobri estupefacto que o Estado  —  ou seja, os contribuintes, nós todos  —  financia o ensino privado à razão de 120 mil euros por turma. O custo do ensino público ronda os 80 mil euros por turma. Ao todo, 93 escolas privadas vivem à custa do Estado, ou seja, dos contribuintes, nós todos. Não é extraordinário?

Bem pode a Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo dar pinotes, ameaçando despedir, a partir de Janeiro, 30 professores e 7 funcionários por escola. Nos termos do OE 2011, o governo aprovou (no mês passado) o diploma que altera o modelo de financiamento do ensino privado. Nem outra coisa seria de esperar.

É-me indiferente que sejam, predominantemente, escolas católicas. Até podiam ser satânicas. Não gosto de nenhuma espécie de madrassa.

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CARLOS PINTO COELHO 1944-2010


Na sequência de uma operação ao coração, realizada no Hospital de Santa Marta (Lisboa), Carlos Pinto Coelho morreu esta noite. Homem de cultura, oficial da Ordem das Artes e das Letras de França, foi autor do programa Acontece (1994-2003) da RTP, mandado extinguir por Nuno Morais Sarmento, à época ministro da propaganda do governo Barroso. Carlos Pinto Coelho nasceu acidentalmente em Lisboa, tendo ido com poucos meses para Moçambique, onde viveu até 1963. Ocupou diversos cargos de direcção na RTP, foi premiado várias vezes como jornalista, e deixa publicados três álbuns de fotografia, a sua grande paixão. Até sempre, Carlos!

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Quarta-feira, Dezembro 15, 2010

O LEHMAN DE PALHAVÃ


Após dois adiamentos, começou hoje de manhã, à porta fechada, o julgamento do caso BPN. Os arguidos em nome individual são quinze: Oliveira e Costa, único que sofreu prisão preventiva, fundador do BPN e antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais nos governos de Cavaco Silva; José Vaz Mascarenhas, patrão do Banco Insular (Cabo Verde), Luís Caprichoso, Francisco Sanches, Leonel Mateus, Luís Reis Almeida, Isabel Cardoso, Telmo Belino Reis, José Monteverde, Ricardo Oliveira, Luís Ferreira Alves, Filipe Baião do Nascimento, António Martins Franco, Rui Guimarães Dias Costa e Hernâni Ferreira. A empresa Labicer também se senta no banco dos réus. São acusados de burla qualificada, fraude fiscal, falsificação de documentos e outros ilícitos.

Para quem não se lembra, o BPN foi nacionalizado a 5 de Novembro de 2008. A descoberta de um buraco de perto de mil milhões de euros e o flop (no Verão desse ano) da transferência de dinheiro de contas a prazo para emissões em papel da SLN Valor, implicando o desaparecimento de 150 milhões de euros de quinhentos clientes, levou o governo, por proposta do Banco de Portugal, a demitir a administração de Miguel Cadilhe. Assim se evitou a ruptura de pagamentos e a salvaguarda de cinco mil postos de trabalho. A decisão, tomada num conselho de ministros extraordinário (reunido três dias antes), inflamou a vida nacional. Cadilhe lançou o termo imparidades. Marco António Costa, do PSD, decretou o enterro do cavaquismo. A todas essas, Dias Loureiro, antigo administrador executivo do BPN e conselheiro de Estado por escolha pessoal de Cavaco, passou incólume. Sibilino, Pedro Passos Coelho pôs o acento tónico nos incómodos do Presidente da República. Em 2009, a comissão parlamentar de inquérito ao BPN iluminou uma vasta teia de interesses. Porém, a opinião publicada bocejou.

À nossa escala, a derrocada da Sociedade Lusa de Negócios e do BPN teve efeito equivalente à falência do Lehman Brothers face à economia global. Até hoje, o Estado viu-se obrigado a injectar no BPN um total de 4,7 mil milhões de euros. Este ano, o governo tentou reprivatizar o banco, pondo-o à venda abaixo do seu valor, mas, apesar da prorrogação do prazo do concurso, não apareceram compradores. Algum dia se fará a história deste imbróglio?

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Terça-feira, Dezembro 14, 2010

MURDERED FOR THEIR KIDNEYS

RENDER DA GUARDA


Carlos da Veiga Ferreira deixou a Teorema, editora que fundou nos anos 1980 e vai passar a ser dirigida por José Oliveira. Em 2007, a Teorema foi integrada no grupo LeYa, conglomerado de dezassete chancelas: ASA, Caminho, Dom Quixote e mais catorze. Figura incontornável da cena literária portuguesa, devemos a Carlos da Veiga Ferreira a publicação persistente e criteriosa de romancistas e historiadores como Martin Amis, Philippe Ariès, Saul Bellow, Roberto Bolaño, Jorge Luís Borges, Fernand Braudel, Italo Calvino, Georges Duby, Brett Easton Ellis, Jim Grimsley, Patricia Highsmith, David Leavitt, Jacques Le Goff, Primo Levi, Vladimir Nabokov, W.G. Sebald, Enrique Vila-Matas e outros. Bem como ocasionais incursões na poesia: o Cancioneiro de D. Dinis, editado por Nuno Júdice; a primeira reunião da obra completa de Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve (1991); o primeiro livro de Luís Quintais, etc. Segundo o Público, o corte de 54% no seu actual salário [«não podia aceitar a redução do meu vencimento para 46 por cento do valor que estava estipulado»] terá sido a razão para a denúncia de um contrato que só expira no fim de Julho de 2012.

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Segunda-feira, Dezembro 13, 2010

CÂNDIDA ASSANGE

LEAKS TUGAS


Começaram a sair leaks sobre Portugal. Neste mapa do El País basta clicar no sítio que atazana a nossa coscuvilhice para sabermos o que está disponível. Seleccionei dois itens. Este onde ficamos a saber que Cavaco amuou por não ter sido recebido na Casa Branca. E este que permite ver como Sócrates pôs cada macaco no seu galho. Nada disto surpreende.

O que deixa os groupies portugueses de Hassan Nasrallah (e são muitos) a salivar é o hipotético papel de Carlos Santos Ferreira, presidente do Millenium BCP, sempre esse banco fatal, no centro de um eixo que ligaria Langley a Teerão.

Para ser franco, o que eu gostava era de ler cables sobre o Belémgate ou sobre quem pagou a jornalistas para manter no ar a novela do Freeport. Estas coisas são mesmo assim: duram enquanto pinga. Exemplos recentes? O assassinato de Rosalina Ribeiro, viúva de Lúcio Tomé Feteira, desapareceu dos media. Algum jornal perdeu tempo a investigar o caso BPN? Algum jornalista-justiceiro se fez assistente do processo que envolve Oliveira e Costa (e outros 15 arguidos) e começa a ser julgado depois de amanhã, se não for outra vez adiado? Não. E é pena.

Porém, comentadores conspícuos acham que o direito à informação é sem reservas. Seja. Falamos no dia em que imprensa marron der à estampa os vícios de alguns.

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CARISMÁTICO & TELEGÉNICO


Cable da embaixada americana em Lisboa, 29-8-2008. Fonte: WikiLeaks. Excerto, sublinhado meu:


«Socrates is a telegenic and charismatic leader, who worked hard to improve his English in advance of the EU presidency. He relies on advice from a small circle of advisors. He is a very moderate Socialist who has been successful at co-opting or marginalizing the leftists in his party. He also aggressively pursued his domestic agenda before assuming the EU presidency, achieving difficult labor and social security reforms and reducing Portugal's budget deficit to near EU-mandated levels. Socrates visited President Bush last September to discuss EU presidency and bilateral issues. He has recently been under pressure in the national press for strengthening ties to Angola, Libya, and Venezuela in order to bolster Portugal's energy sources and export markets.»

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O AMUO DE CAVACO


Cable da embaixada americana em Lisboa, 29-8-2008. Fonte: WikiLeaks. Excerto, sublinhado meu:


«Cavaco Silva is the most popular politician in Portugal, even though his center-right party badly trails Socrates' Socialist Party in polls. Although the Portuguese presidency does not wield the executive power of the US presidency, the position is not ceremonial. Cavaco Silva is commander in chief of the armed forces and must approve military deployments and he chairs the Council of State, which handles all constitutional issues. Cavaco Silva considers former President George H.W. Bush a personal friend. Cavaco Silva was displeased that he did not get an Oval Office meeting with President George W. Bush during his 2007 visit to Washington to open a Smithsonian exhibition of Portuguese art, and he declined the former President Bush's offer to visit Kennebunkport. Portuguese Embassy officials and some of our interlocutors here have suggested that Portugal's delay in recognizing Kosovo and decision to remove troops from Afghanistan was tied to Cavaco Silva's pique over the perceived slight.»

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Domingo, Dezembro 12, 2010

DESEJO & DIFERENÇA


A National Portrait Gallery de Washington abriu a 30 de Outubro uma exposição sobre diferença e desejo no retrato americano. Entre 1898 e os nossos dias, as balizas são Thomas Eakins (1844-1916), que dispensa apresentações, e Félix Gonzalez-Torres (1957-1996), americano de origem cubana que representou os Estados Unidos na Bienal de Veneza de 2007. Entre os dois, uma plêiade de artistas como John Singer Sargent, Berenice Abbott, Romaine Brooks, Carl Van Vechten, Marsden Hartley, Georgia O’Keeffe, Agnes Martin, David Hockney, Jasper Johns, Andy Warhol, Keith Haring, Annie Leibovitz, A. A. Bronson, Jerome Caja e outros. Um filme em super 8 de David Wojnarowicz (1954-1992), com a duração de quatro minutos, foi retirado da mostra, a 30 de Novembro, por pressão da Liga Católica. Segundo Bill Donohue, presidente da referida Liga, a sida é imprópria para ser vista. Pode ver Hide/Seek: Difference and Desire in American Portraiture até 13 de Fevereiro de 2011.


[Na imagem, o coreógrafo Antony Tudor e o bailarino Hugh Laing, fotografados por Carl Van Vechten em 1940.]

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EM QUE FICAMOS?


Os restaurantes praticamente não têm sobras. Quem o diz é o Sindicato de Hotelaria do Norte, vindo ao encontro do que suspeita muita gente, eu incluído. O secretário-geral da AHRESP apressou-se a chamar comunista (veja o vídeo) ao porta-voz do sindicato, acusando-o de tentar denegrir a Presidência da República. E eu a pensar que a AHRESP estava a preocupada com pessoas carenciadas. Afinal, o jantar de gala realizado anteontem no Casino Estoril é parte da agenda eleitoral de Cavaco Silva, no item Indústria da pobreza. Não tem mal nenhum. Mas convinha chamar os nomes aos bois.

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Sábado, Dezembro 11, 2010

PÃO ESCURO


Mais do mesmo. A Padaria Ribeiro, na Foz (Porto), não deita nada ao lixo. Faz muito bem. Até fez uma escala para distribuir «pastéis, outros doces e salgados» por colégios de freiras, instituições de reinserção social ou de apoio a idosos. Também dá pão. Escuro. O branco fica para fazer pão ralado.

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Sexta-feira, Dezembro 10, 2010

NÃO HÁ RESPEITO POR NINGUÉM


O Parlamento britânico aprovou ontem (323 vs 302 votos) a proposta do governo conservador-liberal de David Cameron de triplicar o valor das propinas das universidades públicas, que passam assim para dez mil euros por ano lectivo. A estudantada protestou, como tem feito nas últimas semanas. A novidade foi o ataque ao Rolls Royce do herdeiro do trono, para espanto de Carlos e Camilla. Como faz todos os anos, o casal foi ao London Palladium assistir à Royal Variety Performance, o Natal dos pobrezinhos deles. A foto é de Matt Dunham. Clique para ver as esmeraldas da duquesa de Cornwall.

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A REDE


Vi outro dia num dos canais de televisão uma reportagem bem feita sobre a distribuição de comida a pessoas carenciadas, de Almada ou do Seixal, não me recordo, e para o caso importa nada. A iniciativa é de duas amigas que depois do emprego percorrem as ruas a distribuir alimentos. Tudo com naturalidade e aparente eficácia, sem resquício de caridade beata. Um bom exemplo do que pode fazer a sociedade civil.

Coisa diferente é a rede que a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal lança hoje... «sob o alto patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República e em conjunto com os membros da Comissão de Honra...» Direito à Alimentação, dizem eles e a gente concorda.

Tenho todas as dúvidas e mais algumas sobre o que sejam sobras susceptíveis de encaminhar para o Balcão único empresarial que, por sua vez, as fará chegar aos carenciados. Se eu vivesse na Noruega... Mas não vivo!

Pastelarias e cafés: na Grande Lisboa, às 7 da tarde, a larga maioria tem os balcões praticamente vazios. Isto é notório no Chiado, Avenidas Novas, Alvalade, Campo de Ourique, Avenida de Roma, etc. As excepções não alteram o quadro geral. Restaurantes: sobra o quê? Arroz branco, batatas fritas, puré de batata, esparregado, a sopa do dia...? Nas empresas de catering que fornecem empresas e ministérios (as cantinas) é provável que sim, que haja refeições completas intactas. Nesse caso, o seu reencaminhamento releva do bom senso. O resto, sinceramente, cheira a manobra. Gostava de estar enganado.

Não vale argumentar com o Banco Alimentar, que é uma empresa gerida por rigorosos padrões empresariais, apoiada numa sofisticada estrutura logística.

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OPRAH: LÉSBICA, EU?


Este vídeo é todo um programa...

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Não está confirmada a presença de Lady Gaga.
Clique na imagem.

Quinta-feira, Dezembro 09, 2010

SENA


Duas oportunas reedições de obras de Jorge Fazenda Lourenço: A Poesia de Jorge de Sena. Testemunho, Metamorfose, Peregrinação (Guerra & Paz) e Antologia Poética de Jorge de Sena (Guimarães). O ensaio corresponde à dissertação de doutoramento (1993) do autor, tendo sido publicado em livro em 1998, ano em que passou de raspão pelas livrarias. De acordo com Vasco Graça Moura, «Depois deste livro, de impecável scholarship, passará muito tempo antes de se poder dizer qualquer coisa de inovador quanto ao autor de Sinais de Fogo.» A antologia reproduz, com pequenas alterações, a edição Asa de 1999, há muito esgotada. Na parte relativa a Sequências (1980) desaparecem três poemas, surgindo em seu lugar Ray Charles. O corpus de Sena é de 1600 poemas, esta antologia colige 168. Como diz (e bem) Fazenda Lourenço, «Uma antologia apetece ser breve.» Sobre ela digo o que penso em Comenda de Fogo (2002), pp. 180-185. Ao contrário da edição de 1999, o índice de títulos e primeiros versos inclui... os números das páginas! Já não há desculpa para não ler a poesia de Sena.

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CITAÇÃO, 314


Daniel Bessa, presidente da COTEC, entrevistado por Luísa Pinto e Manuel Carvalho para o Público. Excertos, sublinhados meus:


«Uma intervenção dessas [do BCE] só se fez pelo menos com a concordância do governo alemão. Também já li noticias atribuídas ao governo alemão em que se diz que o euro é indivisível, que o euro é para continuar e que a prosperidade dos alemães depende muito disso. [...] Eu não quero acreditar que uma pessoa diga isto estando a pensar o seu contrário.

Mas se lermos de uma forma um pouco mais ampla, vemos que na imprensa de referência internacional está anunciado com alguns dias de antecedência aquilo que depois nós vamos fazer aqui.

Eu estou contente com a intervenção do BCE porque me permite respirar umas semanas. Mas o défice tem de passar à taxa de crescimento do PIB, porque o BCE não pode continuar a intervir eternamente e eu não vou recuperar a confiança dos credores enquanto continuar a aumentar o peso da divida.

Tem havido uma dificuldade óbvia a executar na área da despesa. A previsão para o crescimento das despesas do Serviço Nacional de Saúde para 2010 era na casa dos dois por cento. Li notícias de que estará a crescer a 12. O governo não pode controlar a despesa. Porque quem prescreve os medicamentos e os meios auxiliares de diagnóstico são os médicos, nos consultórios com os doentes.
[...] As despesas com saúde em Portugal passaram de 2,5 para 10 por cento do PIB em 40 anos. Há países europeus onde o peso é maior, mas ninguém cresceu tão depressa nomo nós. [...] O ministro das Finanças, em matéria de SNS, não pode fazer muito mais do que pagar as facturas que lhe chegam...

Isso de pagar meios auxiliares de diagnóstico sem limite nenhum, numa prescrição que é feita pelos médicos, de acordo com a sua deontologia, que não está em causa, mas também com a pressão dos doentes e dos cidadãos, que estão convictos de que têm um conjunto de direitos... Eu não sei se todos os médicos recomendariam um exame para saber o sexo de um bebé antes do nascimento. Mas não sei se há hoje um português ou portuguesa que prescinda disso. E isso custa dinheiro.

Desde 2000 que as exportações portuguesas crescerem sempre mais do que as importações.

Estou de acordo com as pessoas que dizem que uma economia e uma empresa que não consegue pagar um salário de 500 euros nem sequer merecer existir.

Apesar de tudo acho melhor insistir no salário mínimo do que, por exemplo, no TGV para Vigo, e ainda mais do que nas auto-estradas que querem continuar a fazer.
[...] Apesar de tudo, o TGV para Madrid é uma espécie de despesa de representação. Seria deplorável que se alguém viesse de Barcelona para Lisboa de comboio, tivesse de chegar a Madrid ou Badajoz e mudar de linha. Seria uma vergonha.

Quando me falam de liberalização e flexibilização da lei do trabalho não estou a pensar no despedimento, que isso para mim é uma espécie de bomba atómica. Estou a pensar noutras questões. No problema da rigidez funcional, de categorias profissionais definidas com grande pormenor, nas mudança do local de trabalho. O despedimento é uma última medida. O que esta em causa em Portugal é a dificuldade de fazer rescindir um contrato individual de trabalho e é o custo do despedimento.

Nenhuma economia do nosso grau de desenvolvimento tem entre os seus principais exportadores o têxtil ou o vestuário. O facto de esses sectores terem hoje um peso mais baixo, é sinal que a economia evoluiu
. [...]»

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Quarta-feira, Dezembro 08, 2010

CITAÇÃO, 313


Mario Vargas Llosa, Elegio de la lectura y la ficción. Primeiro parágrafo do discurso de aceitação do prémio Nobel, ontem em Estocolmo:


«Aprendí a leer a los cinco años, en la clase del hermano Justiniano, en el Colegio de la Salle, en Cochabamba (Bolivia). Es la cosa más importante que me ha pasado en la vida. Casi setenta años después recuerdo con nitidez cómo esa magia, traducir las palabras de los libros en imágenes, enriqueció mi vida, rompiendo las barreras del tiempo y del espacio y permitiéndome viajar con el capitán Nemo veinte mil leguas de viaje submarino, luchar junto a d’Artagnan, Athos, Portos y Aramís contra las intrigas que amenazan a la Reina en los tiempos del sinuoso Richelieu, o arrastrarme por las entrañas de París, convertido en Jean Valjean, con el cuerpo inerte de Marius a cuestas. [...]»

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Terça-feira, Dezembro 07, 2010

2011 COMO 1951


Ninguém diria que há eleições presidenciais marcadas para 23 de Janeiro de 2011. Desde 1951 que a opinião pública não se mostrava tão desinteressada do acto. Em 1951, quando Francisco Craveiro Lopes (1894-1964, foto ao alto) substituiu Carmona, nem a oposição fez alarido. Craveiro Lopes era um militar prestigiado, bem relacionado nos círculos liberais, casado com a mulher mais elegante do regime, Berta Arthur, que conheceu em Moçambique. Em 1958, quando deixou Belém, Craveiro Lopes foi feito marechal da Força Aérea, circunstância que o não impediu de manter contactos com a oposição: em 1961 esteve associado ao golpe de Botelho Moniz para derrubar Salazar. Estava em Lisboa e lembro-me da comoção que a sua morte provocou em Setembro de 1964.

Hoje a indiferença é geral. Tudo indica que mais de metade dos portugueses não vá votar. Cavaco, muito provavelmente, será reeleito. Manuel Alegre pagará a factura do apoio do BE e, sobretudo, do que andou a fazer ao PS entre 2005 e 2009. É sintomático que ainda não tenha as assinaturas necessárias para formalizar a candidatura. À sua custa, Defensor de Moura talvez surpreenda. O Lopes comunista não assusta ninguém. Madre Teresa de Calcutá não conta. E assim chegamos ao bocejo universal. A parte engraçada é que grande parte da direita vai votar contrariada.

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Domingo, Dezembro 05, 2010

CITAÇÃO, 312


João Magalhães, Os controladores aéreos. Sublinhado meu:


«Há-de haver um dia em que, por mais democráticas que sejam as sociedades, algumas profissões serão totalmente militarizadas e dirigidas de forma totalitária pelos estados. Esse é o caminho que está ser preparado por algumas corporações que, usando a arma da indispensabilidade para o funcionamento da sociedade, reivindicam um estatuto de excepcionalidade todo ele feito de direitos. Um dia, os cidadãos comuns não vão tolerar a existência dessas castas e muito facilmente aceitarão que o estado retire os direitos de cidadania a esse tipo de profissionais. É isso que resulta do protesto dos controladores aéreos espanhóis. E isto é apenas um exemplo.»

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Sábado, Dezembro 04, 2010

TIRO PELA CULATRA


Foi em Mar del Plata, na Argentina, onde participa na cimeira Ibero-Americana, que o rei Juan Carlos assinou o decreto que transfere para o ministério da Defesa as competências da AENA: «Los documentos han llegado a Mar del Plata a través de un sistema seguro de comunicaciones y, una vez firmados por don Juan Carlos, han sido devueltos al Ministerio de la Presidencia para su publicación en el BOE. Las mismas fuentes indicaron que el Rey, que ha hablado en varias ocasiones con el presidente Zapatero para conocer la situación, ha firmado los documentos de su puño y letra, aunque se utiliza un sistema electrónico de autentificación de firma.»

A sedição dos controladores foi provocada de forma a entalar o governo de Zapatero: segunda-feira, dia 6, celebra-se o feriado da Constituição (e na quarta, dia 8, o da Imaculada Conceição). A Puente começou ontem à tarde. Terão julgado que a coincidência atava aos mãos ao governo. Saiu-lhes o tiro pela culatra. É uma ironia que o Estado de Alarme seja decretado no momento em que se celebra o aniversário da Constituição de 1978.

Juan Carlos regressa esta noite a Espanha, num avião militar que aterrará amanhã de manhã em Torrejón de Ardoz, sendo provável que dê boleia a Cavaco Silva e José Sócrates. Clique na imagem.

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ESTADO DE ALARME


Decretado o estado de alarme em Espanha, facto que ocorre pela primeira vez em democracia. Nos seus termos, os controladores aéreos ficam sob a alçada do Código Penal Militar. Caos completo em Madrid, Barcelona (o regresso de metade dos grevistas não teve consequência prática: o espaço aéreo continua fechado), Maiorca, Sevilha, Bilbao e mais uma dúzia de aeroportos de menor dimensão. Meio milhão de espanhóis à beira de um ataque de nervos em plena Puente de la Constitución. O governo espanhol prepara-se para fechar os acessos a Barajas e El Prat. A mobilização militar não conseguirá normalizar a situação antes de segunda-feira. Clique na imagem.

A partir de Lisboa, Porto e Faro, cancelados todos os vôos para Espanha ou que tenham como destino outros países europeus.

A todas estas, a imprensa portuguesa discute amenidades: pastilhas ilegais, etc.

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MOTIM


Não sei como classificar o aparente desinteresse dos bloggers portugueses pela sedição dos controladores aéreos de Espanha, iniciada ontem às cinco da tarde.

Não é todos os dias que dois mil controladores aéreos decidem, sem aviso prévio, abandonar os seus postos, mantendo fechado o espaço aéreo espanhol há perto de oito horas. Ontem, a decisão afectou cerca de quatrocentos mil passageiros, tendo sido cancelados 4200 vôos. A ver vamos hoje. Estamos no fim-de-semana da Puente de la Constitución. Os principais aeroportos de Espanha estão sob controlo do Exército e da Força Aérea e o ministério da Defesa acionou a requisição militar dos grevistas. Em Barcelona, metade deles voltou ao trabalho às dez da noite. Os de Madrid continuam a resistir. Segundo a Fiscalia de Madrid, que abriu diligências penais, incorrem en un delito de “sedición” castigado con penas de entre ocho y quince años de prisión, si desobedecen la orden militar de volver a sus puestos de trabajo. A Iberia cancelou todos os vôos até ao meio-dia de hoje.

Os controladores estão contra a privatização da AENA, empresa que gere os aeroportos de Espanha. Mas a gota de água foi a aprovação de um diploma (o decreto real entrou em vigor às 20h de ontem) que acaba com o pagamento de horas extraordinárias, impondo uma carga de 1670 horas de trabalho por ano. Clique na imagem.

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Sexta-feira, Dezembro 03, 2010

INSIDE JOB


Só hoje vi Inside Job / A Verdade da Crise (2010), de Charles Ferguson, documentário narrado por Matt Damon que devia ser de exibição obrigatória em todas as escolas a partir do oitavo ano. Já agora: a RTP não arranja uma cópia para o exibir em horário nobre?

Inside Job é uma história de gangsters sobre as origens e sequelas do crash do Outono de 2008: Lehman Brothers, Fannie Mae, AIG, Goldman Sachs, Morgan Stanley, Freddie Mac, Merril Lynch... Lembram-se? O fim da Era Bush. Obama mudou alguma coisa? Timothy Geithner, secretário do Tesouro, não dispensa o conselho de Henry Paulson e outros tenores da Goldman Sachs que cavaram o buraco. Ben Bernanke continua presidente da Reserva Federal. Alan Greenspan goza uma reforma dourada nos Hamptons. Ao pé deles, Madoff é um carteirista do metro.

O filme ilustra o que foi a falência da Islândia, a surpresa dos europeus face à ondas de choque do subprime (Christine Lagarde, ministra francesa da economia, deixa escapar uma interjeição de taberneiro), as sequelas na China e em Singapura, os interesses das agências de rating, pagas para classificar empresas e países: na véspera da falência, o Lehman Brothers era cotado pela Fitch e pela Standard & Poor’s com... AAA! A partir de dezenas de testemunhos (economistas, professores, analistas financeiros, políticos), temos uma noção do que foi o crash de 2008. Corra para um cinema perto de si.

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Quinta-feira, Dezembro 02, 2010

A LITERATURA DA REPÚBLICA


Agora que o n.º 97 [Dezembro] da LER está na rua, deixo aqui a crónica A literatura da República, publicada no n.º 96 na minha coluna Heterodoxias:


Escrevo na véspera do centenário da República. Se algum feriado deixa as pessoas indiferentes, o 5 de Outubro é um deles. Não assim este ano. Por causa do centenário, as trezentas pessoas do costume entraram em órbita. Todas vieram lembrar as malfeitorias da I República (1910-26), metendo no mesmo saco coisas distintas: o período em que a “rua” mandava (1910-21) e a fase conservadora (1922-26). Filho de pai monárquico e mãe republicana, desde cedo ouvi discussões sobre o tema.

À República de Outubro devemos a separação entre a Igreja e o Estado; a criação da Previdência Social (1916); a participação (1917-18) na Primeira Grande Guerra; uma tentativa (1919) de restauração da monarquia; a criação da Faculdade de Letras do Porto (1919) e, por último mas não em último, a fundação do Partido Comunista Português (1921). No curto lapso de 16 anos, Portugal teve 45 governos e oito Presidentes da República. Animação foi o que não faltou.

Literatura também não. Publicando A Confissão de Lúcio (1914), Mário de Sá-Carneiro fazia, sem o saber, o outing da literatura portuguesa. Março de 1915 é o momento em que o grupo do Orpheu alinha o passo do país pelo Modernismo. Nada voltou a ser como dantes. Em 1916, depois do sucesso de Paris, Berlim e Nova Iorque, Amadeo de Souza-Cardoso expõe finalmente em Portugal. Almada Negreiros publica o Manifesto anti-Dantas (1916) e, no ano seguinte, o Portugal Futurista. Em 1918, Fernando Pessoa publica Antinous, poema desabusadamente homossexual, escrito em inglês, com o qual concorrerá ao cargo de bibliotecário do Museu Conde de Castro Guimarães (Cascais). Em 1921, António Botto publica Canções, cuja segunda edição será apreendida em 1923, ano em que a editora Olisipo, de Pessoa, publica Sodoma Divinizada: leves reflexões teometafísicas sobre um artigo, de Raul Leal. Duas obras que os estudantes católicos das escolas superiores de Lisboa consideram «perigosos sintomas de corrupção moral». Mar Alto, peça de António Ferro, e Decadencia, colectênea poética de Judith Teixeira, fazem parte do lote proibido. É então que Pessoa, pela boca de Álvaro de Campos, escreve o famoso Aviso por Causa da Moral: «Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte [...] Tudo o mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.» Isto num tempo em que a homossexualidade (ou, se quiserem, a “pederastia”) encapotada de inúmeros políticos e aristocratas era do domínio público.

Sem o halo de escândalo de Orpheu, duas outras revistas fariam o seu caminho: a partir de 1921, a Seara Nova; a partir de 1922, a Contemporânea. A Seara, cuja figura tutelar foi Raul Proença, começou no n.º 26 da rua António Maria Cardoso, morada fatídica para tantos colaboradores, pois seria ali instalada a Pide. Sob direcção de José Pacheco, a Contemporânea (anunciada no número espécimen de 1915 que antecedeu de poucos dias a queda da ditadura de Pimenta de Castro) pautou-se por princípios mais difusos, servindo de ponte entre o 1.º e o 2.º Modernismo.

Alguns dos romances mais famosos de Aquilino Ribeiro coincidem com os anos da República: Terras do Demo (1919) e Andam Faunos pelos Bosques (1926) são obras típicas do período.

Podia continuar a dar exemplos. O que espanta no meio de tanta agitação pró-centenário é que ninguém se tenha lembrado de um congresso sobre a literatura produzida durante a República.

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