Terça-feira, Novembro 30, 2010

MARIO MONICELLI 1915-2010


Mario Monicelli atirou-se do 5.º andar da clínica de San Giovanni de Roma, onde fora internado há oito dias. Desse modo, o pai da comédia italiana desistiu de lutar contra um cancro na próstata.

Etiquetas:

LEYA VAZIO


Concorreram 325 originais, quatro conseguiram chegar à short-list, mas a fragilidade estilística e as limitações narrativas levaram o júri do Prémio LeYa  —  Manuel Alegre, Nuno Júdice, José Carlos Seabra Pereira, Carlos Heitor Cony, Rita Chaves, Lourenço do Rosário e Pepetela  —  a não atribuir o prémio este ano. No valor de cem mil euros, o Prémio LeYa distinguiu O Rastro do Jaguar, do brasileiro Murilo Carvalho, em 2008; e O Olho de Hertzog, do moçambicano João Paulo Borges Coelho, em 2009. Este ano não há nada para ninguém. Os finalistas, três portugueses e um brasileiro, vão ter de ir bater a outra porta.


[Ao alto, Darkbrown and grey de Mark Rothko, 1969.]

Etiquetas:

Segunda-feira, Novembro 29, 2010

DUAS BOMBAS EM TEERÃO


O braço do Mossad? Majid Shahriari, cientista nuclear e professor da Universidade Shahid Beheshti de Teerão, foi assassinado hoje de manhã no centro da capital iraniana. Fereidoun Abbasi, físico especialista em laser e professor da mesma universidade, teve mais sorte: embora ferido, escapou. As bombas foram colocadas nos carros de Shahriari e Abbasi. As mulheres de ambos sobreviveram.

Etiquetas: ,

QUEM TRAMA QUEM


Já imaginaram uma coisa destas em Portugal? Por exemplo: as escutas do Verão de 2009. O Belémgate continua por esclarecer e o discurso do Presidente (29-Set-09) adensou o imbróglio. Infelizmente, os 722 cables da embaixada americana em Lisboa aos costumes dizem nada.

Etiquetas: ,

CITAÇÃO, 310


Bernardo Pires de Lima, Uma carreira de sucesso.


«Jovem, se tens mais de 18 anos, um cérebro pouco maior que uma ervilha e queres ser conhecido pelos teus compatriotas, faz o seguinte: começa a blogar insultando uns quantos pais do regime, alterna umas linhas de filosofia política com umas caralhadas de altíssimo nível e alguém reparará em ti. Se conseguires manter este nível num jornal tens pelo menos um bando de loucos a ler-te. E há por aí bastantes, como sabes. Deve ser o princípio de uma enorme felicidade para ti.»

Etiquetas:

Domingo, Novembro 28, 2010

AS TROPELIAS DA WIKILEAKS


As edições online de vários jornais americanos e europeus estão a difundir o conteúdo de 250 mil cables trocados nos últimos dois anos entre a Casa Branca, governos estrangeiros e 297 representações diplomáticas americanas espalhadas pelo mundo. Ponto forte: a insistência de alguns países árabes, em especial o Reino da Arábia Saudita, em neutralizar por todos os meios o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Hillary Clinton também não sai bem no retrato: mandou espiar Ban Ki-moon e outros altos dirigentes da ONU.

Nada disto é novidade para os visados. Mas não é de uso terem as provas na mão. Merkel, Sarkozy, Putin, Berlusconi e Erdogan, entre outros, vêem as suas vidas passadas a pente fino: política, família, dívidas, sexo, álcool, etc. Clique na imagem.

Siga os relatos do NYT, Guardian, Der SpiegelEl País e O Estado de São Paulo. Obama não queria transparência?

Etiquetas:

O SÉCULO DE PESSOA


Pede o manuel a. domingos uma proposta de antologia pessoal da poesia portuguesa do século XX. Aqui vai:


Camilo Pessanha (1867-1926), Ângelo de Lima (1872-1921), Afonso Duarte (1884-1958), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), António Botto (1897-1959), José Régio (1901-1969), Vitorino Nemésio (1901-1978), António Gedeão (1906-1997), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Raul de Carvalho (1920-1984), Carlos de Oliveira (1921-1981), Eugénio de Andrade (1923-2005), Mário Cesariny (1923-2006), Natália Correia (1923-1993), Alexandre O'Neill (1924-1986), António Ramos Rosa (1924), David Mourão-Ferreira (1927-1996), Alberto de Lacerda (1928-2007), Fernando Echevarría (1929), Herberto Helder (1930), António José Forte (1931-1988), Rui Knopfli (1932-1997), António Osório (1933), João Pedro Grabato Dias (1933-1994), Ruy Belo (1933-1978), M. S. Lourenço (1936-2009), Pedro Tamen (1934), Manuel Alegre (1936), Alberto Pimenta (1937), Fernando Assis Pacheco (1937-1995), José Carlos Ary dos Santos (1937-1984), Maria Teresa Horta (1937), Armando Silva Carvalho (1938), Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1989), Gastão Cruz (1941), Vasco Graça Moura (1942), João Miguel Fernandes Jorge (1943), Manuel António Pina (1943), António Franco Alexandre (1944), Joaquim Manuel Magalhães (1945), Al Berto (1948-1997), José Emílio-Nelson (1948), Helder Moura Pereira (1949), Nuno Júdice (1949), Fernando Guerreiro (1950), Helga Moreira (1950), Luís Filipe Castro Mendes (1950), Ana Luísa Amaral (1956), Luís Miguel Nava (1957-1995), Maria do Rosário Pedreira (1959), Adília Lopes (1960), Fernando Pinto do Amaral (1960).

Nascidos em Oitocentos, Pessanha, Lima, Duarte, Pessoa, Sá-Carneiro e Botto só começaram a publicar em Novecentos.

Etiquetas:

Sábado, Novembro 27, 2010

ANDA TUDO LIGADO


Com a situação da dívida espanhola perto do turning point, o risco de implosão do euro deixa de ser uma hipótese académica. Sozinha, a Espanha representa 12% do PIB da zona euro, mais do que a soma da Irlanda, Grécia e Portugal. A coisa deixa de ser a feijões. Merkel vai ter de pensar duas vezes antes de dar o próximo passo. Zapatero está reunido desde manhã com 37 dos 39 maiores patrões de Espanha (a Mercadona e a Cepsa declinaram). E nós por cá? Nós por cá temos dificuldade em acompanhar a realidade: a entrevista de Passos Coelho ao Expresso ilustra o tempo jurássico em que vivemos.

Ocasião adequada para ler Zizek. Da Tragédia à Farsa, traduzido por Miguel Serras Pereira, vem mesmo a calhar. O livro ocupa-se «dos dois acontecimentos que marcam o começo e o fim da primeira década do século XXI: os ataques de 11 de Setembro e a  derrocada financeira de 2008.» O próximo é capaz de ser sobre a volatilização da moeda única.

Etiquetas: ,

IDENTIDADE DE GÉNERO


O Parlamento aprovou ontem a lei que permite às pessoas transexuais mudarem o seu registo civil, pondo fim ao atrito legal entre a identidade de género e o registo de nome e sexo nos documentos oficiais.

O diploma foi aprovado pelo PS, BE, PCP, Verdes e doze deputados do PSD: António Leitão Amaro, Carina João, Celeste Amaro, Emídio Guerreiro, José Eduardo Martins, Luís Campos Ferreira, Luísa Roseira, Paulo Cardoso, Paulo Mota Pinto, Pedro Rodrigues, Sérgio Vieira e Vânia de Jesus. Abstiveram-se outros nove deputados do PSD.

Votaram contra: duas deputadas independentes do PS (Rosário Carneiro e Teresa Venda), o CDS-PP e o resto da bancada do PSD.

O diploma aprovado faz a síntese de um projecto do BE com a proposta do governo. Aos poucos, o país vai ficando mais justo.


[Na imagem, de 1953, o antigo fuzileiro americano George William Jorgensen, já na fase Christine. Christine Jorgensen foi operada na Dinamarca em 1952, tornando-se uma das primeiras pessoas a mudar de sexo.]

Etiquetas: ,

REELEITO


Com 9532 votos (menos 125 que a soma dos seus dois adversários), António Marinho Pinto foi reeleito Bastonário da Ordem dos Advogados. Uma excelente notícia! Parabéns.

Etiquetas:

Sexta-feira, Novembro 26, 2010

ESTRELAS MICHELIN EM PORTUGAL


Havia onze restaurantes portugueses com estrela no Guia Michelin. Agora só há dez: o Eleven perdeu a sua. Ficaram estes:

Com duas estrelas:

Vila Joya (na imagem), em Albufeira, no Algarve.
Chef: Dieter Koschina.

Com uma estrela, os restantes:

Amadeus, em Almancil, no Algarve.
Chef: Siegfried Danler-Heinemann.
Arcadas da Capela, Hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra.
Chef: Joachim Koerper.
Fortaleza do Guincho, em Cascais.
Chef: Vincent Farges.
Henrique Leis, em Almancil, no Algarve.
Chef: Henrique Leis.
Il Gallo d'Oro, Hotel The Cliff Bay, no Funchal (Madeira).
Chef: Benoît Sinthon.
Largo do Paço, Hotel Casa da Calçada, em Amarante.
Chef: Ricardo Costa.
Ocean, Hotel Vila Vita Parc, em Alporchinhos, no Algarve.
Chef: Hans Neuner.
Tavares, em Lisboa.
Chef: José Avillez.
Willie's, em Vilamoura, no Algarve.
Chef: Willie.

Etiquetas:

QUE FAZER COM ESTE EURO?


Não é preciso ser economista para perceber que a turbulência dos mercados esconde o não-dito: a luta pela sobrevivência do euro. O conceito de país “periférico”  —  mas em que é que Portugal e Espanha são mais periféricos que o Chipre ou a Eslovénia?  —  tenta disfarçar o indisfarçável: as regras do jogo estão viciadas. Em 1999, o BCE passou a chamar euro ao marco alemão, manobra aceite (com júbilo) por quinze parceiros da Alemanha. Decerto não por acaso, Reino Unido, Suécia e Dinamarca ficaram de fora. Agora é tarde para virmos dizer que fomos “enganados”. Pensando bem, talvez fosse inevitável o que está a acontecer. Os Estados Unidos e a China não iam ficar sentados a ver o euro a engordar. A senhora Merkel bem pode espernear: a queda dos países “periféricos” arrastará consigo, a prazo (curto), o regresso do euro à sua matriz, i.e., ao marco alemão. Questão de tempo, portanto.

Já vi escrito, não me recordo onde, que o hipotético regresso ao escudo (o Novo Escudo
) acarretaria uma depreciação de 30%. OK. Mas se a depreciação da moeda resolve o imbróglio, o BCE não pode depreciar o euro ele-mesmo? A palavra aos especialistas.

Uma coisa parece certa: se a Europa não reagir a tempo, o próximo governo português, seja ele qual for, venha ele quando vier (em Junho de 2011 ou em Outubro de 2013), terá de lidar com opções dramáticas. Tentar iludir o problema com malabarismo indígena não leva a lado nenhum. 

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Novembro 25, 2010

O 25 DE NOVEMBRO


Com a derrota dos radicais do MFA, do PCP, das Brigadas Revolucionárias e outros grupos de extrema-esquerda, faz hoje 35 anos a democracia portuguesa começou a entrar nos eixos. (Só entraria definitivamente com a extinção do Conselho de Revolução a 30 de Setembro de 1982.) Na memória de todos, o cerco da Constituinte (a 12 de Novembro) por operários da construção civil afectos à Intersindical. Nessa semana, com a conivência do Sindicato dos Bancários, controlado pelo MRPP, transferência para o Porto das reservas de ouro do Banco de Portugal. Na madrugada do dia 25, pára-quedistas insurrectos ocupam Tancos e outras bases aéreas a Sul. Porém, aviões, pilotos e Estado-Maior da Força Aérea (Morais e Silva) desde a véspera na região Norte, em prontidão nas bases da Cortegaça e Monte Real. James Callaghan, primeiro-ministro britânico, garante a Soares o envio de armamento e combustível para aviões. Possibilidade séria de guerra civil. Um terço das famílias do eixo Lapa-Cascais põe-se a recato em Londres, outro terço em Madrid, outro terço no Rio. Soares e Freitas do Amaral deixam Lisboa. Sá-Carneiro está em Londres. Costa Gomes decreta o Estado de Sítio. Brejnev apressa-se a tranquilizar a NATO: a URSS não intervirá em Portugal. No Porto, Pires Veloso cria condições para a transferência rápida dos centros de decisão militar, governo, Parlamento, directórios do PS, PPD e CDS, embaixadas, RTP, etc. Costa Gomes deixa cair Otelo, que foi preso. Jaime Neves quer prender Cunhal, mas Costa Gomes não autoriza. Em Lisboa, os comandos da Amadora desmantelam a Polícia Militar. Imposto o recolher obrigatório. Ao fim da tarde, na RTP, Danny Kaye substitui Duran Clemente. A maioria silenciosa respira de alívio. Eanes surge como homem providencial. Melo Antunes impede a ilegalização do PCP. Os jornais nacionalizados (três matutinos e três vespertinos) ficam suspensos durante um mês. Victor Cunha Rego, que fora chefe de gabinete de Soares (e seria, mais tarde, embaixador em Madrid), é nomeado director do Diário de Notícias, de onde Saramago foi expulso.

Perguntaria Baptista-Bastos: Onde estava no 25 de Novembro? Estava no Estoril, tendo almoçado no English Bar depois de fazer footing no Tamariz. À noite viemos a Lisboa ver O Exorcista de William Friedkin, com Max von Sydow e Linda Blair. No cinema, três pessoas: um velho, o Jorge e eu. Ainda conseguimos apanhar táxi para o Cais do Sodré e o último comboio (23:50h) para Cascais. Irresponsabilidade? Talvez. Só estava em Portugal há quinze dias...


[Na imagem, da esquerda para a direita: Morais e Silva, Vasco Lourenço, Pinheiro de Azevedo, Costa Gomes e Eanes.]

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Novembro 24, 2010

PÉSSIMOS SINAIS


O 29 de Setembro era para todos? Era. Pretérito imperfeito. Ontem, na discussão da especialidade do OE 2011, PS e PSD (o partido de Passos com o rabo entre as pernas) aprovaram uma norma de excepção: «Os trabalhadores das empresas públicas de capital exclusiva ou maioritariamente público, das entidades públicas empresariais e das entidades que integram o sector empresarial regional ou municipal...», vão ter os cortes salariais adaptados à sua natureza empresarial. O beneplácito de Passos Coelho é claro: Todas as empresas que estão numa área de competição, de concorrência, que vivem no mercado com outras empresas, têm de obedecer, não às mesmas regras dos institutos públicos ou da Administração Central, mas às regras do mercado. Confirma-se: a Caixa é um Estado dentro do Estado.

Também ontem, o ministro da Justiça deu a conhecer as alterações ao Estatuto dos Magistrados Judiciais e do Ministério Público. De acordo com as novas normas, «os magistrados com 60 anos e uma carreira contributiva de 36 podem jubilar-se sem penalização salarial.» Andam a brincar connosco?

Mas que quadros são esses que a Caixa Geral de Depósitos tanto teme perder? E qual é o problema de haver dezenas de conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça a pedir jubilação antecipada? O país não tem 600 mil desempregados? Comentadores iluminados não dizem todos os dias que um em cada dez licenciados emigra? Está na altura de dar emprego a essa gente.

Etiquetas:

Terça-feira, Novembro 23, 2010

ALHOS & BUGALHOS


Uma das medidas contidas no pacote de consolidação de contas que a Irlanda apresentou à UE e ao FMI diz respeito ao salário mínimo. Brian Cowen, o taoiseach irlandês, propôs reduzir o salário mínimo em 25%. Passará dos actuais 1500 euros para 1125 euros. Longe vão os dias em que a Irlanda fazia negaças à UE, votando contra o Tratado de Lisboa. O mea culpa não impediu que a Irlanda tenha hoje os bancos falidos e um défice público de 32%. Nós, por cá, temos os bancos a empacotar lucros obscenos e ainda só vamos em 8,3% de défice das contas públicas.

Em Portugal, onde o salário mínimo é de 475 euros (no continente), 484 euros (na Madeira) ou 498,75 euros (nos Açores), qualquer redução teria consequências demolidoras. Há um ano, quando o governo irlandês reduziu em 10% os salários dos funcionários públicos, o salário médio anual desses funcionários era de 48 mil euros, por oposição aos 15 mil euros da média anual dos funcionários portugueses, que vão, a partir de Janeiro próximo, sofrer reduções de 3,5% a 10% (a medida não afecta remunerações inferiores a 1550 euros mensais). Estamos mesmo a falar de coisas diferentes, embora dê muito jeito a muita gente pôr tudo ao molho.

Etiquetas:

ROMAN D'IDÉES


O prémio do melhor livro estrangeiro em França foi este ano atribuído ao roman d’idées ambigu et singulièrement riche (segundo Bernard Quiriny, do Magazine littéraire) de Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica (2007, quarto da série O Reino), traduzido por Dominique Nedellec para Viviane Hamy, editora fundada em 1990 que tinha já no seu catálogo David Mourão-Ferreira.

Criado em 1948 por Robert Carlier e André Bay, o Prix du Meilleur Livre Étranger é patrocinado pelo Hyatt Regency Paris-Madeleine. Entre outros, distinguiu Patrolini (1952), Carpentier (1956), Updike (1965), Tolkien (1972), Sabato (1976), Burgess (1981), Rushdie (1984), Lobo Antunes (1997), Roth (2000) e Tóibín (2005). Entre 1948 e 2007, os sete membros do júri reuniam-se na Brasserie Lipp. A partir de 2008 fazem-no no hotel de charme do Boulevard Malesherbes.

Em 2008, ano em que o livro de Tavares podia ter sido premiado no nosso país, os laureados foram Filomena Marona Beja, Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, por A Cova do Lagarto (Sextante), e Jaime Rocha, Prémio de Ficção do PEN Clube, por Anotação do Mal (Sextante). A caução francesa deve ajudar a corrigir pontaria futura.

Etiquetas:

Segunda-feira, Novembro 22, 2010

PRONTOS!


Grande parte dos comentadores com lugar cativo nos media andou meses a defender a redução de salários e prestações sociais, a exemplo do que fora feito na Irlanda, Grécia, Espanha e Reino Unido. O 29 de Setembro apanhou-os de surpresa. Os que dependem do Estado (universidades, magistratura, Parlamento, gabinetes, RTP, institutos, etc.), e são muitos, estão visivelmente irritados. Compreende-se: a maioria sofre talhada de 10%. Uns disfarçam melhor do que outros, mas foi a partir desse dia que Teixeira dos Santos passou a incompetente. Pudera! Proibir a acumulação de pensões a partir de cinco mil euros é prova de ter ensandecido...

Hoje mesmo, a propósito da ajuda da UE e do FMI à Irlanda, a SIC foi ouvir João Duque pela enésima vez. A irritação do reitor do ISEG chega a ser preocupante: Este governo não vai conseguir / Este governo não vai executar / Este governo não tem condições / etc. Prontos!

João Duque quer outro governo. Como isso não é possível antes de Junho do próximo ano, quer mudar o ministro das Finanças. Mas quem esperou tanto tempo, aguenta mais seis meses. Economistas como ele, e outros do mesmo género, concordam em que é preciso reduzir salários aos trabalhadores, digamos, indiferenciados... Reduzir remunerações, cortar prestações sociais, sobrecarregar a carga fiscal, encarecer o acesso ao crédito, à educação e ao SNS. Isso, eles toleram. Mas as elites têm de ficar de fora do pacote. É isso que a irritação deles (contra Teixeira dos Santos) traduz.


[Na imagem, parte dos sapatos de Bernard Madoff que a polícia de Nova Iorque leiloou no passado dia 10.]

Etiquetas: ,

FOIE GRAS, ET POUR CAUSE


Com tanto ziguezague, perdi o norte às negociações do OE 2011. Em que ficaram os patamares do IVA nos produtos alimentares? O famoso leite achocolatado, que tanto delíquio provocou, mantém-se nos 6% ou passa para 23%? Pode ser que se saiba na próxima sexta-feira, quando o diploma for votado na especialidade.

Com isto, passei a dar atenção às facturas de mercearia. Surpreendo-me sempre. O choque mais recente foi com o foie gras de ganso, taxado a 6%. Não, não estou a falar de pâtés industriais ou terrines para impressionar patos-bravos. Estou a falar de foie gras de ganso autêntico.

Etiquetas: ,

CITAÇÃO, 309


Carlos Reis, Porque não voto no professor Cavaco Silva, hoje no Público. Excerto, sublinhado meu:


«[...] A vulgaridade de quem sacrificou o PSD à sua carreira política pessoal não deveria nunca ser esquecida pelos militantes do meu partido, tanto nos episódios de deslealdade que ajudaram a cavar a derrota do dr. Fernando Nogueira em 1995, como no ataque da má moeda que legitimou o golpe palaciano contra o Governo do dr. Pedro Santana Lopes em Dezembro de 2004 (aí temos agora a boa moeda!) ou por fim, no inenarrável caso das escutas que ajudaram a que a dra. Manuela Ferreira Leite começasse a perder as eleições legislativas logo em Agosto de 2009. [...]»


[Na imagem, Nixon abandona a Casa Branca a 9 de Agosto de 1974. Parece-me supérfluo lembrar a razão.]

Etiquetas: ,

Domingo, Novembro 21, 2010

ACABOU A GUERRA FRIA?


Como lhes competia, o PCP e o BE fizeram manifestações anti-NATO. Como lhe compete, o SEF barrou a entrada no país a uma ou duas dezenas de hooligans (e, num excesso de zelo, também a um grupo de catraios finlandeses). Como lhe compete, mas nem sempre acontece, a PSP portou-se à altura das circunstâncias. Obama, Medvedev e Karzai devem ter achado que Lisboa é sinónimo de Camelot.

Durante três dias, as televisões mostraram imagens irrepetíveis. Os ombros ao léu de Mrs. Rasmussen, em violento contraste com touca de fazenda de Hayrünnisa Gül, a primeira-dama turca. / A lavagem da besta no Pátio dos Bichos, enquanto Obama comia garoupa com Cavaco e Sócrates. / O ar desamparado e chuvoso de António Mendonça, professor catedrático do ISEG e ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, nas inesperadas funções de valet aeroportuário. [Em Figo Maduro, só Obama teve direito a ser recebido por José Bouza Serrano, ministro plenipotenciário e chefe do protocolo de Estado.] / O indisfarçável tédio de Luís Amado. / Etc.

Mas o que realmente surpreendeu foram as cautelas do PCP. Os stewards de serviço à manif foram peremptórios: Não queremos arruaceiros. Queriam um encore 1975 de Maria do Céu Guerra. Quem não se comove? Desse modo, ninguém tocou (e muito bem) nas montras griffé da Avenida da Liberdade: Louis Vuitton, Zegna, Prada, Rosa & Teixeira, Emporio Armani, Dolce e Gabbana, Boss, Fashion Clinic, Carolina Herrera, Montblanc, Burberry, Loewe e outras. Ninguém incomodou (e muito bem) os clientes dos hotéis de luxo, dos restaurantes colunáveis, etc. Anarquistas encartados foram mesmo vistos a comer ostras na Brasserie Flo. Os palhaços curtiram bué.

Etiquetas:

CSI ESTORIL


O BPP deu o estouro em Novembro de 2008. Os clientes ficaram a arder. A sede em Lisboa esteve cercada dias a fio. A filial do Porto foi ocupada por clientes a 29 de Dezembro de 2009. João Rendeiro, o patrão, permanece impávido. Em Abril de 2010, o Banco de Portugal retirou ao BPP a autorização para o exercício de actividade, decretando a sua imediata dissolução e liquidação. Há dois meses, Luís Miguel Henrique e Daniel Lobo Antunes lançaram um livro que faz luz sobre o imbróglio  —  A Face Oculta do BPP.

O presidente da assembleia-geral do BPP era o advogado José Miguel Júdice. Francisco Pinto Balsemão era presidente do conselho consultivo. O socialista João Cravinho (autor do prefácio do livro que Rendeiro lançou no próprio dia em que o banco deu o estouro), bem como os sociais-democratas Álvaro Barreto, Fernando Lima, João de Deus Pinheiro, Jorge Braga de Macedo, Paulo Guichard, Pinto Barbosa e Viana Baptista faziam parte dos órgãos sociais. Stefano Saviotti, Joaquim Coimbra, Diogo Vaz Guedes e Rui Machete, entre outros, eram clientes.

No passado dia 11, a casa de João Rendeiro na Quinta Patiño, Estoril, foi alvo de buscas da polícia. Rendeiro estaria no Brasil, chegou dias depois. A polícia diz que ter feito tudo como manda o protocolo. O advogado de Rendeiro, José Miguel Júdice, diz que não: entrada pelo tecto, ameaças à mulher, à governanta e ao cão de Rendeiro, etc. Carta de Júdice hoje publicada no Diário de Notícias. Conclusão? Cada um tire a que quiser. No mesmo dia foram também efectuadas buscas às casas de diversos amigos de Rendeiro.

Etiquetas: ,

Sábado, Novembro 20, 2010

AH! OS DIVIDENDOS


O que a PT, a Portucel, a Jerónimo Martins e o vasto mundo fazem dos seus dividendos, é assunto que apenas diz respeito aos accionistas. Nada contra. Tudo a favor. Negócios são negócios. A PT assumiu o compromisso de pagar em 2010 os dividendos extraordinários da venda da Vivo. Deve honrar esse compromisso. Menos claro é o pagamento das reservas da Portucel, que devia ocorrer em 2011, mas foi antecipado. E absolutamente extraordinária a decisão de Pedro Soares dos Santos de efectuar no próximo dia 30 o pagamento de dividendos do grupo Jerónimo Martins previstos para o próximo ano. Verdade que Pedro Soares dos Santos está a defender os interesses da família. Porém, tendo em vista os recados morais do pai, Alexandre Soares dos Santos, a decisão parece coisa de pato-bravo... Afinal, se Zeinal Bava é um espertalhão, os outros são o quê?

A austeridade é necessária desde que sejam os pobres a pagar a factura. Tendo em vista as reclamações de juízes e magistrados, que vão ter o subsídio de renda de casa (setecentos euros) indexado ao salário, e a intrepidez do mercado doméstico, é caso para dizer que o OE 2011 anda a fazer cócegas no topo da pirâmide social...

Etiquetas: ,

ARBITRARIEDADES


Por pressão do Mali e de Marrocos... The Third Committee of the United Nations General Assembly to remove a reference to sexual orientation from a resolution on extrajudicial, summary or arbitrary executions. The resolution urges States to protect the right to life of all people, including by calling on states to investigate killings based on discriminatory grounds. For the past 10 years, the resolution has included sexual orientation in the list of discriminatory grounds on which killings are often based. [...] The amendment removing the reference to sexual orientation was sponsored by Benin on behalf of the African Group in the UN General Assembly and was adopted with 79 votes in favor, 70 against, 17 abstentions and 26 absent. Estamos a falar do projecto de resolução A/C.3/65/L.29/Rev.1 relativo às Execuções extrajudiciais, sumárias e arbitrárias, de 12 de Novembro, votado a 17. Clique na imagem.

Fazendo coro com o bloco africano, a Rússia, Angola, África do Sul e Moçambique votaram a favor. Cabo Verde absteve-se. A Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe não compareceram à votação.

Países que votaram contra: Alemanha, Andorra, Argentina, Arménia, Austrália, Áustria, Bélgica, Butão, Bósnia-Herzegovina, Brasil, Bulgária, Canadá, Chile, Costa Rica, Croácia, Chipre, Dinamarca, El Salvador, Equador, Espanha, Estónia, Eslováquia, Eslovénia, Finlândia, França, Geórgia, Grécia, Guatemala, Holanda, Hungria, Islândia, Índia, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Letónia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Macedónia, Malta, México, Micronésia, Moldávia, Mónaco, Montenegro, Nepal, Nova Zelândia, Noruega, Panamá, Paraguai, Peru, Polónia, Portugal, Roménia, Samoa, San Marino, Sérvia, Suécia, Suíça, Timor-Leste, Ucrânia, Reino Unido, República Checa, República da Coreia, República Dominicana, Estados Unidos, Uruguai e Venezuela.

Identidades sexuais no Mali e em Marrocos? Realmente...

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Novembro 19, 2010

MOMENTOS DE PRAZER


Se dúvidas houvesse, ficaram desfeitas: isto nunca aconteceu. Correm duas versões: para os cínicos, significa que a lista não inclui apoiantes de Sócrates; para os cépticos, outra coisa não seria de esperar: o país é um penico e as lojas Mercúrio e Mozart [maçonaria] agiram. OK.

Os media andaram duas semanas a agitar o fantasma da lista de clientes de Carlos Pinota: actuais e antigos deputados, ministros, juízes, gestores, socialites, desportistas, etc. O Público foi mais longe e escreveu que Pinota, gestor do portal Momentos de Prazer, «terá entrado em contacto com quase todos os assessores dos grupos parlamentares com assento na Assembleia da República (a excepção terá sido o Bloco de Esquerda), dizendo-lhes para comunicarem aos deputados que não existia qualquer listagem com os nomes dos frequentadores de prostitutas e homossexuais.» E agora? Agora, o DCIAP quer chamar os clientes a depor e não tem lista. Tudo está bem quando acaba bem?


[Na imagem, de 1958, John Profumo (e Valerie Hobson, sua mulher), ministro inglês da Guerra que se demitiu em 1963 depois de ser tornado público que era cliente de Christine Keeler, acompanhante de luxo e amante de Yevgeny Ivanov, adido militar soviético em Londres.] 

Etiquetas: ,

SÁNDOR MÁRAI


Hoje no Público:


Ninguém melhor do que Sándor Márai (1900-1989) para nos dar em grande angular aquilo em que se transformou o Império Austro-Húngaro. Em síntese, podemos dizer que a obra subsume a implosão do Império (1918), a queda da monarquia (1919), o fim da revolução bolchevique húngara (1920) e a subsequente “regência” de Miklós Horthy, o almirante que impediu o regresso dos Habsburgos, conseguindo manter-se no poder até 1944, ano em que foi expulso pelos nazis. Anti-comunista declarado, Márai partiu para os Estados Unidos em 1948. No exílio, viu a cidade onde nasceu mudar de nome e nacionalidade: a primitiva Kassa é hoje a cidade eslovaca de Kosice.

Em permanente rota de colisão com a História, Márai foi até ao início dos anos 1950 um dos intelectuais mais populares e respeitados da Hungria. Escreveu ficção, poesia, ensaio e dramaturgia. Romances como Rebeldes (1930), A Herança de Eszter (1939) e As velas ardem até ao fim (1942), entre outros, fazem parte da herança cultural europeia.

Traduzido directamente do húngaro, Divórcio em Buda (1935) chegou agora à edição portuguesa. Márai nunca escreveu senão na língua natal, e só depois de dar um tiro na cabeça, semanas antes da queda do muro de Berlim, é que o mundo de língua inglesa descobriu (as primeiras traduções são de 2001) um autor que se mede com Kafka e Musil.

Conceitos como os de patriotismo, honra e lealdade são traves-mestras da obra deste déraciné que escreveu sempre ao arrepio do ar do tempo. Vindo de outro tempo, é desse tempo que faz eco. Associamos com facilidade a sua pessoa à figura austera do juiz Kristóf Komives, alguém «a quem se poderia confiar a tradição [...] os segredos práticos da judicatura, o seu espírito.» As memórias coligidas em Confissões de um Burguês (1934) dão a medida do desacerto de Márai com a evolução social e política da Europa Central. Os romances, e este em particular, acentuam essa linha de fractura.

Sem nunca carregar no traço, o autor faz o retrato subtil dos que sobreviveram ao desmoronamento da Hungria. Homens e mulheres insatisfeitos com as novas fronteiras, hábitos novos, a terra perdida da Transilvânia. A estrutura do livro lembra Vinte e quatro horas na vida de uma mulher (1927), romance de Stefan Zweig, pois, também aqui, o essencial da intriga é decidido no lapso de uma noite.

Com a Europa prestes a desabar, Komives e Hertha sentem-se protegidos pela campânula da respeitabilidade: «Ambos pertenciam à mesma classe social, tinham sido educados nos mesmos preceitos e normas, pegavam na faca e no garfo da mesma maneira...» Ali no bairro do Castelo, «o sumo do requinte», descendentes de famílias nobres sem recursos («funcionários de nome sonante em quartos alugados») cruzam-se com escritores, artistas e os novos-ricos de segunda geração que ocupam as casas da colina. Denominador comum: todos emulam «as excentricidades e o estilo de vida dos inquilinos dos palacetes.»

Um déjà vu ilumina a intriga: lendo a carta em que o advogado a informa dos trâmites do divórcio, uma mulher (Anna) reconhece o nome do juiz (Komives) que ditará a sentença. Lembra-se: viu esse homem uma vez, num baile: «foi como um terramoto, como se terra e céu se abrissem», um encontro para a vida. Passaram dez anos e três meses. Imre Greiner, o médico que foi seu marido durante oito anos, fica a saber que ela não esqueceu. Agora interpela Komives: pensava em Anna quando estava («quero dizer, fisicamente») com Hertha? Komives não responde. Por que carga de água será o juiz o responsável pelo suicídio de Anna?


Déjà vu fatal, in Ípsilon, 19-11-2010, pp. 33-34. Quatro estrelas.

Etiquetas:

Quinta-feira, Novembro 18, 2010

RISE AND FALL


Ando há 36 anos a ouvir dizer que Álvaro Cunhal foi um dos comunistas mais influentes e respeitados da Europa. Não há cão nem gato (e jornalista com glamour), à esquerda e à direita, que não repita o lugar-comum. Para eles, Cunhal teria sido uma espécie de Richelieu do comunismo europeu. Aparentemente, a História não deu por isso.

Agora que Rise and Fall of Communism (2009), de Archie Brown, chegou à edição portuguesa, vamos à procura das façanhas do português mas... Cunhal não existe! Pior: o Partido Comunista Português também não. Há referências aos partidos comunistas da URSS, da Federação Russa, Albânia, Alemanha, Afeganistão, África do Sul, Bulgária, Camboja, Checoslováquia, China, Cuba, Eslováquia, Espanha (dois), Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Hungria, Índia (dois), Indonésia, Itália, Japão, Jugoslávia, Polónia, Roménia e Vietname, mas nenhuma ao PCP.

Archie Brown (n. 1938), historiador e cientista político, professor emérito em Oxford, dirige o Russian and Eurasian Studies Centre (St Anthony’s College). É autor de uma obra muito vasta sobre marxismo, movimento comunista, antiga URSS, Guerra Fria, etc. Entre os seus livros mais conhecidos contam-se The Gorbachev Factor (1996), The Cambridge Encyclopedia of Russia and the Former Soviet Union (1996, em co-autoria com Michael Kaser e Gerald S. Smith) e Seven Years that Changed the World: Perestroika in Perspective (2007). As 771 páginas desta história da Ascensão e Queda do Comunismo são especialmente esclarecedoras. Quem não sabe, aprende o essencial sobre a origem do comunismo, a Revolução Russa e subsequente guerra civil, a tomada de poder na Europa, o efeito dissuasor da doutrina Brezhnev, os casos cubano e chinês, o comunismo africano, a falência do sistema, o papel de Gorbachev, o desmantelamento da URSS, etc. A edição (Dom Quixote) inclui mapas, portfolios fotográficos e índice remissivo.

Etiquetas: ,

CARALHO, MULETA ORATÓRIA


Quartel da GNR, 4 de Agosto de 2009: cabo da Guarda solicita troca de serviço. Superior hierárquico opõe-se. O militar argumenta: Vá pró caralho. Acusado do crime de insubordinação, o cabo escapa a julgamento por decisão do juiz do Tribunal de Instrução Criminal. A hierarquia recorre. O Tribunal da Relação de Lisboa decide:

«[...] A utilização da expressão não é ofensiva, mas sim um modo de verbalizar estados de alma [...] pois tal resulta da experiência comum, que caralho é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo. Por exemplo pró caralho é usado para representar algo excessivo. Seja grande ou pequeno de mais. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas: chove pra caralho..., o Cristiano Ronaldo joga pra caralho... [...] não há nada a que não se possa juntar um caralho, funcionando este como verdadeira muleta oratória.»

O juiz-desembargador Calheiros da Gama e o juiz militar major-general Norberto Bernardes corroboraram a decisão do juiz de instrução de não levar o cabo a julgamento. Virilidade verbal, dizem eles. Mais detalhes no Diário de Notícias.

Etiquetas:

Quarta-feira, Novembro 17, 2010

CUIDADOS CONTINUADOS


O Público dá hoje conta de uma realidade que envergonha a classe médica e nos devia envergonhar a todos: a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados de Saúde está subutilizada porque grande parte dos médicos (em especial os da região Norte) dos hospitais civis não cumpre o disposto no Decreto-Lei n.º 101/2006, de 6 de Junho: «Os cuidados continuados integrados incluem-se no Serviço Nacional de Saúde e no sistema de Segurança Social [...]» De acordo com Inês Guerreiro, coordenadora da Unidade de Missão para os Cuidados Continuados, as taxas de ocupação a Norte são tão baixas que, a continuar assim, «vai ser necessário proceder-se a uma reavaliação das unidades de convalescença». Neste momento, a região Norte dispõe de 251 camas de convalescença, 430 de média duração e 602 de longa duração, estando por ocupar mais de um terço deste total.

Isto é um escândalo a vários títulos. Sendo as vagas estanques por região, os doentes da região de Lisboa e Vale do Tejo esperam 18 a 24 meses (e muitas vezes mais) por vaga numa das quatro unidades de média e longa duração a que têm direito: Algueirão-Mem Martins, Arruda dos Vinhos, Lourinhã e Mafra. Não estamos a falar de um serviço gratuito. Para dar um exemplo concreto: um idoso cujo agregado familiar tenha rendimento anual bruto correspondente ao 4.º escalão de IRS, se tiver necessidade de internamento num lar da RNCCI, é obrigado a pagar 794 euros por mês. Isto, naturalmente, depois de vencida a barreira da burocracia, que inclui relatório de enfermagem, parecer do médico de família,  entrevistas com assistente social e psicólogo, bem como exame da situação fiscal do agregado familiar.

No mundo civilizado, os cuidados continuados começaram há mais de 30 anos. Em Portugal começaram há 4, quando Correia de Campos foi ministro da Saúde. Mas, pelos vistos, há quem continue a ter a Somália como bitola.

Etiquetas:

Terça-feira, Novembro 16, 2010

ARCO-ÍRIS?


É impressão minha ou isto é uma espécie (enviesada) de coming out forçado?

Etiquetas: ,

A SANGRIA


As praças-fortes tremeram. Em Nova Iorque, Londres, Frankfurt, Zurique, Hong Kong e Tóquio ninguém dorme há duas noites. A sangria salarial prevista no OE 2011 terá como consequência exportar para o vasto mundo da finança internacional os quadros, presumo que superiores, da Caixa Geral de Depósitos. E esta? Quem o disse por escrito foi Faria de Oliveira, o CEO. Qualquer coisa como, o Estado é o Estado, a Caixa é a Caixa. Os sindicatos do sector corroboram. Então ficamos assim.

Etiquetas:

Segunda-feira, Novembro 15, 2010

TAU-TAU


A leveza com que muita gente fala da possível intervenção do FMI no nosso país ilustra a futilidade do debate. Os comentadores de direita vêem nessa hipotética intervenção um castigo para Sócrates e Teixeira dos Santos. Os da esquerda radical antecipam o Armagedom. Como se todas as medidas preconizadas pelo FMI não tivessem de ser previamente aprovadas pelo Parlamento! Em regra, o FMI avança quando tem a certeza de ter como interlocutor um governo estável, coisa que não existe em Portugal desde Setembro de 2009. De que é que servia termos aqui o FMI para ver as suas propostas chumbadas ora à esquerda ora à direita?

Vejamos. O OE 2011 prevê reduzir as remunerações brutas dos membros do governo, deputados, juízes, funcionários públicos (médicos e professores incluídos), gestores e trabalhadores do sector empresarial do Estado (RTP, RDP, Lusa, TAP, REFER, Águas de Portugal, etc.), a partir de 1550 euros mensais. Os cortes vão de 3,5% a 10%. Fixa-se nos 10% a partir de 4200 euros mensais. Vamos agora supor que o FMI chega e diz: 1. As reduções têm de começar nos 750 euros; 2. A tabela de reduções deve ir de 4% a 20%, fixando-se em 20% a partir de 7500 euros mensais; 3. Estas reduções têm de incluir os privados; 4. Idem quanto às pensões da CGA e da Segurança Social. Um pacote destes passava no actual Parlamento? Não passava.

Portanto, não vale a pena agitar o fantasma do FMI. O Fundo não existe para dar tau-tau aos governos que se portam mal... Se e quando houver eleições antecipadas, logo se vê quais são as condições objectivas. Aproveitem bem os próximos quatro meses. No estado a que chegamos, é preciso construir pontes entre o Rato e a São Caetano e, de caminho, revogar as normas que impedem que as eleições se façam 15 dias após a dissolução do Parlamento. O resto é língua de pau.

Etiquetas: , ,

Domingo, Novembro 14, 2010

NÃO SEI SE RIA OU CHORE


José Ramos-Horta, presidente de Timor: Não vejo dificuldades em Timor-Leste comprar também dívida pública portuguesa, na medida em que o próprio Governo timorense já tomou a decisão de diversificar a aplicação do Fundo do Petróleo, comprando outras dívidas públicas, incluindo a australiana e de outros países.

O Fundo do Petróleo de Timor é superior a seis mil milhões de dólares, qualquer coisa como 4,4 mil milhões de euros. Assim como assim... Há, nisto tudo, certa dose de nonsense. Mas as carteiras de senhora Birkin que se vendem em Lisboa a 30 (trinta) mil euros cada, esgotam assim que chegam à loja. Pensando bem, não há muita diferença entre uma coisa e outra.


[Na imagem, Timor em 1824.]

Etiquetas: ,

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS



Preâmbulo. Em Maio de 1971, Maria Isabel Barreno (n. 1939), Maria Teresa Horta (n. 1937) e Maria Velho da Costa (n. 1938) pegaram na tradução portuguesa, feita por Eugénio de Andrade, de Lettres Portugaises (1669), compilação de cinco cartas de amor endereçadas por Mariana Alcoforado a um oficial francês, com o intuito de «desmontar e re-montar» os limites da linguagem. Partiam da compilação de Claude Barbin das cinco cartas atribuídas ora à freira de Beja, ora a Gabriel-Joseph de Guilleragues. Dezenas de traduções e reedições em várias línguas, desde 1669, eram motivo bastante. Novas Cartas Portuguesas publicou-se em Abril de 1972, sob chancela dos Estúdios Cor, editora dirigida por Natália Correia. O livro aguentou três dias em livraria. A Pide recolheu e destruiu todos os exemplares disponíveis. Marcelo Caetano mandou instaurar processo judicial às três autoras, que foram levadas a tribunal. Motivo? O «conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública» da obra. Interrogadas na polícia política, enxovalhadas em público, as três Marias foram traduzidas dos dois lados do Atlântico, tornando-se alvo da atenção da imprensa internacional: do New York Times ao Nouvel Observateur, ninguém se calou. Simone de Beauvoir, Stephen Spender, Marguerite Duras e Doris Lessing foram algumas das personalidades que protestaram com ênfase. De certo modo, foi a primeira causa feminista global.

Hoje. Acaba de chegar às livrarias a edição crítica da obra, organizada e anotada por Ana Luísa Amaral (n. 1956), poeta e professora da Faculdade de Letras do Porto. Parece-me pleonástico sublinhar a oportunidade desta edição, pautada por um nível de exigência exemplar. Recupera-se o prefácio que Maria de Lourdes Pintasilgo escreveu para a edição Moraes (1980); corrigem-se imprecisões e erros factuais constantes de algumas reedições; e, sobretudo, enquandra-se o texto no seu período histórico. Cerca de cem páginas de notas intertextuais dão a medida do rigor hermenêutico. Imprescindível.

Etiquetas: , ,

CÁBULA


Não vou comentar as infelizes declarações de Pedro Silva Pereira sobre apadrinhamento civil de crianças por parte de casais homossexuais. Já outros o fizeram melhor do que eu. Não obstante, à laia de cábula para o ministro da Presidência, deixo aqui o teaser da oportuna compilação feita pela Ana Matos Pires. (Sim, é minha amiga, escusam de salivar; mas sobretudo é alguém que, por profissão, sabe do que está a falar.) Quem tiver preguiça de ler tudo, atente no princípio básico: Sexual orientation should not be used as the sole or primary factor in child custody decisions. Estamos conversados.

Etiquetas: ,

Sábado, Novembro 13, 2010

SUU KYI


A líder oposicionista birmanesa Suu Kyi, Nobel da Paz 1991, foi libertada há momentos. Nos últimos 19 anos, passou 13 sob prisão. Hoje é um dia melhor para todos.

Etiquetas:

TRIVIAL PURSUIT


Vamos então jogar o jogo da semana: fazer um governo de salvação nacional. O meu é melhor que o teu?

Ponto prévio: extinguir três ministérios: Agricultura, Ambiente, Cultura. A Agricultura (e, com ela, o Desenvolvimento Rural e as Pescas) passaria a integrar o ministério da Economia. O Ambiente e a Cultura ficariam ao nível de secretarias de Estado na dependência do ministro da Presidência.

Isso feito, ficaria assim:

Primeiro-Ministro
José Sócrates
Ministro dos Negócios Estrangeiros
António Vitorino
Ministro da Presidência
Pedro Silva Pereira
Ministro das Finanças
António de Sousa
Ministro da Defesa Nacional
Augusto Santos Silva
Ministro da Administração Interna
Rui Pereira
Ministro da Justiça
José Gomes Canotilho
Ministro da Economia
António Mexia
Ministro das Obras Públicas
José Luís Arnaut
Ministra do Trabalho e Solidariedade Social
Maria João Rodrigues
Ministro da Saúde
Correia de Campos
Ministro da Educação
Nuno Crato
Ministro da Ciência e Ensino Superior
Mariano Gago
Ministro dos Assuntos Parlamentares
Francisco Assis

Caras novas sublinhadas a azul. Óbvias concessões ao PSD: Finanças, Economia, Obras Públicas, Educação. Lato sensu, escolhas do agrado da esquerda moderada, dos sectores tecnocratas, da opinião dominante, do actual PR, etc. Um governo com este perfil podia descomprimir os mercados. Posse no início de Dezembro. Seis meses de teste. Se funcionasse, tanto melhor. Caso contrário, eleições em Junho de 2011. Afinal de contas, Luís Amado deu hoje o tiro de partida.

Etiquetas:

Sexta-feira, Novembro 12, 2010

DÉJÀ VU


Como vai ser na próxima sexta-feira em Lisboa?

Etiquetas:

Quinta-feira, Novembro 11, 2010

BAILOUT


Bateu no fundo: depois das exigências da LCH.Clearnet, Durão Barroso viu-se obrigado a garantir: A União Europeia está pronta para apoiar a Irlanda. Já se sabia que o tigre celta anda a ser alimentado a souvlaki mas, por este andar, Brian Cowen vai ter de aperfeiçoar o zebékiko.

É com os outros? É com todos. Com a Grécia (11,7%), a Irlanda (9,5%) e Portugal (7,2%) sob extorsão, talvez a Espanha e a Itália não tenham um Natal tranquilo. Mas o que é isso ao pé do tesão preliminar que as eleições antecipadas provocam na São Caetano? 

Etiquetas: ,

CITAÇÃO, 308



Francisco José Viegas, Eu abaixo assinado...


«[...] Ora, vamos a contas: é, ou não é absurdo que Chico Buarque receba o Prémio Jabuti “de ficção”, atribuído pela Câmara Brasileira do Livro [...] depois de ter ficado em segundo lugar em “romance”, de não ter figurado nas categorias de crónica, conto ou biografia? Que superlativa categoria é essa que repesca os segundos lugares das “categorias de ficção” (o romance, a crónica, o conto, a novela) para os eleger como grandes vencedores [...] como aconteceu na semana passada em São Paulo? Garantam-me a sua existência e eu dou-me por vencido. Como é possível que, em 2004, o terceiro lugar (uma menção honrosa) na categoria “romance” tenha sido declarado vencedor absoluto do Prémio Jabuti, ultrapassando escritores como Bernardo Carvalho (primeiro prémio na categoria “romance”), Luiz Antônio Assis Brasil (segundo lugar na categoria “romance”) e Sérgio Sant’Anna (primeiro lugar na categoria “conto e novela”) ou jornalistas como Caco Barcellos (vencedor na categoria “reportagem”), senão para humilhar a lógica, festejar Chico Buarque, e criar um feliz matrimónio político-comercial? Não me fodam. Que Chico Buarque, uma semana depois dessa ignomínia, e seis anos depois de outra, pior, tenha sido premiado pela Portugal Telecom, é-me completamente indiferente. Custa-me a acreditar que Leite Derramado seja considerado melhor do que os livros de Bernardo Carvalho, Bernardo Ajzemberg, Luiz Ruffatto, José Eduardo Agualusa, Rubem Fonseca, Ana Miranda, Dalton Trevisan ou o fantástico romance de Reinaldo Moraes. Mas aceito os critérios do júri. Eu, abaixo assinado, aceito os critérios e as decisões do júri. Não acho aceitáveis os critérios do Jabuti nem o desenho de circunstâncias que rodearam a sua atribuição a Chico Buarque [...]»

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Novembro 10, 2010

DARDOS


O selo ao alto assinala o prémio Dardos, que reconhece e distingue bloggers. Depois da nomeação de José Simões, vejo-me obrigado a nomear outros dez.

Diferentes entre si, ideologicamente contraditórios, une-os o denominador da voz livre. Isso basta. Aqui vão, por ordem alfabética:

Ana Vidigal
Fernanda Câncio
Filipe Nunes Vicente
Francisco José Viegas
Luís Januário
Luís M. Jorge
Miguel Abrantes
Porfírio Silva
Tomás Vasques
Valupi

Etiquetas:

Terça-feira, Novembro 09, 2010

COLECTIVO EM CHEQUE


Com o Processo Casa Pia os portugueses descobriram (em 2002) que, em matéria de justiça, têm as mesmas garantias que cubanos, norte-coreanos, iranianos, etc. Até prova em contrário é assim que penso. Há dois meses, as peripécias da leitura do acórdão, ampliadas pelo patético road show de Carlos Cruz, puseram a justiça portuguesa ao nível das novelas mexicanas. Ponto.

Soube-se agora que o Ministério Público  —  repito: o Ministério Público  —  recorreu, propondo a reabertura do processo para que seja dada possibilidade de defesa a três arguidos (Cruz, Marçal e Silvino). Mais: «O acórdão deve ser declarado nulo.» Naturalmente, os advogados de defesa fizeram o mesmo. Mas essa parte não surpreende.

Isto porquê? Entre outros detalhes porque, tendo a acusação repetidamente sustentado que os crimes de Elvas haviam sido cometidos sempre aos sábados à tarde, o Tribunal, sem ouvir os arguidos, exarou (e condenou com base em) que os crimes haviam sido cometidos em dia indeterminado do último trimestre de 1999. João Aibéo, o Procurador do MP, não gostou do que leu e quer reabrir o processo. Honra lhe seja.


[Na imagem, Jacky Kaisersmertz, “marido e pai exemplar”, professor do colégio Paul Bert de Cosne-sur-Loire (França), acusado em 2001 de abusos cometidos sobre 72 alunos menores, entre 1970-97. O julgamento teve 105 testemunhas e durou duas semanas. Kaisersmertz cumpre pena de 18 anos. A foto é de 1975. Clique para ampliar.]

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Novembro 08, 2010

HOUELLEBECQ VENCE GONCOURT


Como sempre à mesa do Drouant, o Goncourt foi hoje atribuído. Venceu Michel Houellebecq (n. 1956) por La Carte et le Territoire, edição Flammarion. Escritor e cineasta, Houellebecq, natural da Reunião, só aos seis anos trocou a ilha do Índico pela França. Autor de uma obra extensa que inclui ensaio (Lovecraft, etc.), sete livros de poesia e cinco romances: Extension du domaine de la lutte (1994), Les Particules élémentaires (1998), Plateforme (2001), La Possibilité d'une île  (2005), todos traduzidos em Portugal, e o agora laureado. Autor mal comportado das letras francesas, tem sido acusado de tudo e o seu contrário. Apesar da origem pied-noir, os patrulheiros de Hassan Nasrallah não gostam dele.

Etiquetas:

PINOCADAS VIP


A globalização dá nisto: já temos a nossa Heidi Fleiss (em macho). De acordo com o Correio da Manhã, actuais e antigos deputados, ministros, juízes, gestores de topo, figuras da sociedade, etc., estariam entre os clientes de Carlos Pinota, o jornalista da RTP acusado de gerir um site de acompanhantes. Como o jornal não traz nomes na capa, pode-se admitir com razoável grau de probabilidade não haver personalidades do PS na agenda VIP de Pinota. É tudo gente com direito de reserva (e muito bem) de privacidade.

Etiquetas: ,

Domingo, Novembro 07, 2010

CITAÇÃO, 307


Nuno Morais Sarmento, entrevistado por Adelino Cunha para o Jornal de Notícias. Excertos:


«[...] Passos Coelho ainda é um ovo Kinder [...] dificilmente reúne condições pessoais e políticas [...] É preciso um percurso pessoal de  aprendizagem, de experiência e, principalmente, de obra feita. Passos Coelho manifestamente não tem provas dadas. [...] Estamos a falar de ser primeiro-ministro. É difícil acreditar que aos 46 anos Passos Coelho não tenha nenhuma obra para mostrar. Aos 46 anos, as pessoas devem ser avaliadas pelo que fizeram e não pelas suas potencialidades. Passos Coelho não tem o caminho feito necessário para nos dar a confiança de poder exercer com preparação e capacidade suficientes as funções de primeiro-ministro.»

Etiquetas:

BIGGER THAN LIFE


Uma palavra: notável. Uma obra como não se julgava possível em Portugal. Miguel Pinheiro, director da revista Sábado, resume em 770 páginas a vida do fundador do PPD, vítima de atentado a 4 de Dezembro de 1980. Não é um trabalho “académico” (adjectivo de uso para monografias maçudas em que a narrativa não levanta voo) nem um digest sensacionalista. É uma investigação séria que nada deixa de fora: família, amigos, convicções, formação, amores, equívocos da Ala Liberal, Spínola, presidenciais de 1972, criação do PPD, cisões, gossip, património, dívidas, doença, Snu, farisaísmo de esquerda, tentativa de divórcio, Soares, génese da AD, maioria absoluta de 1979, anti-sovietismo militante, escutas no Conselho da Revolução, querela com Eanes, presidenciais de 1980, morte em Camarate. Imprescindível.

Etiquetas: ,

Sábado, Novembro 06, 2010

CITAÇÃO, 306


Vasco Pulido Valente, Acreditar em Portugal, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:


«O dr. Cavaco Silva inaugurou anteontem a sua sede nacional de campanha, que fica no princípio da Av. da Liberdade em Lisboa. Um enorme outdoor deste inimigo jurado de outdoors pede ao transeunte incauto que “Acredite em Portugal”. Neste momento, a operação é naturalmente difícil. Mas Cavaco ama a dificuldade. Rodeado pelos fiéis defuntos da política portuguesa, nada lhe parece impossível. Estavam lá Diogo Freitas do Amaral, que o ama em segredo há cinco anos, Manuela Ferreira Leite, que o serve muito publicamente há quatro, e fantasmas sortidos como Bagão Félix, Braga de Macedo, Moreira da Silva, Filipe La Féria e até um antiquíssimo ministro do eng. Sócrates que sobre o tarde se descobriu uma irresistível “coragem cívica” para “servir o país”. Com esta companhia uma pessoa consegue acreditar em tudo. Mesmo em Portugal.


[...] De qualquer maneira, ele fica bem, empertigado e sisudo, ao lado dos Jerónimos, lembrando ao povo e aos turistas que Portugal não desapareceu e continua a cozer pacificamente a sua miséria à beira do rio. E a actividade excursionista, que o levará com certeza a cada aldeia do nosso querido berço não deixará de alegrar os rústicos que não frequentam a Europa e, principalmente, de espalhar a esperança e promover o patriotismo indígena. Fora isso, o dr. Cavaco não serve para nada, excepto para substituir um grupo de políticos por outro grupo de políticos precisamente igual ao primeiro, e às vezes para observar de um palanque a Guarda Republicana em uniforme de gala. O que chega e sobra para os portugueses votarem nele

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Novembro 05, 2010

AGIT-PROP


É verdade, Henrique: «Os juros da dívida não estão a subir por causa dos estados de alma dos deputados do PSD ou do PS.» Diria mais: nem sequer por causa da azia do PCP, do Bloco e dos Verdes. Como V. tem a obrigação de saber (colunismo oblige), os juros começaram a subir assim que a chanceler alemã propôs um mecanismo permanente de resgate financeiro. Default, dizem eles. Foi no fim da semana passada, durante o Conselho Europeu, e estamos a um passo da decisão anunciada para Dezembro. Na perspectiva de, a breve prazo, terem de negociar dívidas de milhares de milhões com países tão diferentes como a Irlanda, a Grécia, a Espanha e Portugal, é natural que os credores se acautelem por antecipação, aumentando o preço do dinheiro. Por isso a Irlanda chegou ontem aos 7,3% e nós aos 6,7%. Não se trata de confiar ou deixar de confiar neste governo. Em matéria de calotes, receio que, se e quando o PSD chegar (com a muleta do CDS-PP) a São Bento, continuarei a ouvi-lo bramar. 

Etiquetas:

Quinta-feira, Novembro 04, 2010

FEMINA ÉTRANGER


A finlandesa Sofi Oksanen (n. 1977) venceu o Femina étranger com a tradução de Puhdistus / Purga (2008), romance com enfoque na ocupação soviética da Estónia (a escritora é filha de mãe estoniana) que começou por ser uma peça de teatro representada no Teatro Nacional Finlandês em 2006. Ao contrário do que vem escrito no Público, Sofi Oksanen não é uma estreante, tendo já publicado duas peças de teatro, bem como os romances Stalinin lehmät (2003) e Baby Jane (2005), este último sobre violência doméstica no milieu lésbico. Nos dois últimos anos recebeu uma dúzia de prémios. A sua militância em favor das minorias sexuais na Finlândia, nos Países Bálticos e na Rússia é reconhecida internacionalmente.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Novembro 03, 2010

O GÁUDIO DOS DEPUTADOS


Uma palavra para classificar o primeiro dia de debate do OE 2011: deprimente. Mais do que a bizarra troca de insultos entre bancadas (PS e PSD) vinculadas a um acordo, o gáudio geral é um insulto ao país. De que riem eles? É assim tão divertido subir impostos, cortar salários e reduzir prestações sociais? Com as sessões a serem transmitidas em directo, os deputados têm a obrigação de reservar a chocarrice para as mesas do Gemelli e do Gambrinus. Face ao que vimos ontem, as intervenções de Manuela Ferreira Leite (cheia de razão quando disse que o ministro das Finanças é a última pessoa que pode anunciar uma crise política para daqui a seis meses) e Francisco Assis, hoje, foram momentos dignos daquilo que esperamos de um Parlamento.

Etiquetas:

O IMPÉRIO VOTOU


Ontem, nas eleições americanas, mesmo tendo perdido seis lugares, os Democratas mantiveram a maioria no Senado. Contudo, perderam a da Câmara dos Representantes, onde sessenta lugares passaram para os Republicanos. Em conformidade, o novo speaker é John A. Boehner. Não se confirmaram as previsões da vaga Tea Party. Entre outros, a extrema-direita conseguiu eleger o cubano Marco Rubio (na Flórida) e Rand Paul (no Kentucky). Em contrapartida, o democrata Harry Reid, líder do Senado, derrotou Sharron “Crazy” Angle, apoiada pelos radicais de Dale Robertson: «From our founding, the Tea Party is the voice of the true owners of the United States, WE THE PEOPLE.» Como disse Boehner no discurso de vitória, Obama vai ter de corrigir a pontaria. Do lado dos governadores, destaque para o regresso do democrata Jerry Brown, governador da Califórnia entre 1975 e 1983, que derrotou Meg Whitman e volta a ocupar o lugar em substituição do republicano Arnold Schwarzenegger. Ao alto, o novo speaker.

Etiquetas: ,