Domingo, Outubro 31, 2010

AS FÉRIAS DO SENHOR HULOT


Agora que o n.º 96 [Novembro] da LER já está na rua, deixo aqui a crónica As férias do Senhor Hulot, publicada no n.º 95 na minha coluna Heterodoxias:

Para quem como eu viveu em Moçambique até aos 26 anos, o ritual das férias em Agosto não é fácil de assimilar. Ver o país parar porque é Verão, continua a ser um mistério.

Em Moçambique, Julho e Agosto são meses de Inverno. Mas em Janeiro e Fevereiro, os mais quentes, nenhuma porta se fechava. As férias eram gozadas ao longo do ano. Sim, o clima ajuda: oito meses de temperaturas muito altas, dois mais moderados (Junho e Setembro), dois frios, porém secos. Chove quando é mais quente. Fazer pesca no Bazaruto, praia em Durban ou ver teatro em Joanesburgo, determinava como e quando. Quem vinha a Portugal procurava chegar na Primavera.

Ir à Metrópole, como então se dizia, fazia parte dos costumes. De cinco em cinco anos (os funcionários públicos) ou de quatro em quatro (os bancários e outros assalariados), os portugueses tinham direito a “licença graciosa”. Para os funcionários do Estado, essa licença tinha a duração mínima de 180 dias, podendo ir até 360. Conhecer as pessoas certas ou estar disposto a uma gorjeta de 500 escudos (muito dinheiro nos anos 1960), e a dilação era uma formalidade muitas vezes resolvida por telefone. Em regra, as pessoas ficavam oito meses, quase sempre entre Março e Novembro. Também conheci Portugal assim, entre Julho de 1964 e Fevereiro de 1965. Vim cá fazer 15 anos e ver de perto o Portugal de Salazar.

A “licença graciosa” não era acumulável com férias. Gozada no território, via-se reduzida a 120 dias, improrrogáveis. Quem ia à Metrópole tinha passagens pagas (filhos incluídos) pela entidade empregadora. Chegados à Metrópole, os funcionários públicos eram remunerados de acordo com os vencimentos portugueses, inferiores aos do funcionalismo moçambicano. Como a vida em Portugal era mais cara, em especial os produtos importados, as famílias numerosas eram obrigadas a dispor de economias para suportar a “graciosa”. Os bancários e os trabalhadores de empresas privadas auferiam em Portugal o mesmo que auferiam em Moçambique. (Isso mudou em 1973, quando o choque petrolífero provocou uma crise cambial que desvalorizou de forma radical o escudo moçambicano.) Muitos aproveitavam a vinda a Portugal para um salto a Londres ou Paris.

De um modo geral, os ricos vinham pouco a Lisboa. Apanhavam o avião para Joanesburgo e dali seguiam para Londres, ponto de partida para outros circuitos. A Metrópole exigia uma razão forte. As festas Patiño e Schlumberger (Setembro de 1968), por exemplo. Mas isso era uma minoria.

Em Maio de 1976, tinha eu seis meses de Portugal, já todos queriam saber onde ia fazer férias. Em lado nenhum. Fiquei em Cascais, onde vivia, sem a obrigação de vir trabalhar a Lisboa. Ninguém acreditou.

A pouco e pouco fui vendo. Os ricos iam para a Costa Amalfitana e para o Lago Como. A classe média para Londres e Nova Iorque, por essa ordem. Hoje inverteram a ordem. A pequena burguesia para o Funchal e Torremolinos. E depois havia aquelas famílias entaladas pelos solavancos da História, mas que conservavam casa em São Martinho (as de Lisboa) ou na Granja (as do Porto), a quem não passava pela cabeça fazer férias noutro sítio. Nesses anos, os gays iam para Mykonos, as lésbicas para a Foz do Arelho, os “alternativos” para Vila Nova de Mil Fontes e os pré-punks para Salir. O Algarve ainda não estava na moda. E poucos sonhavam com Cuba ou com o Brasil.

O povo unido jamais será vencido descobriu a América. A pequena burguesia trocou o Benelux pela República Dominicana. A classe média colunável não faz a coisa por menos que o Dubai ou a ilha Likoma (no Lago Niassa). Os ricos acantonam-se entre Ravello e a Austrália.

Como é que o homem do quiosque, o empregado do café e o meu cabeleireiro hão-de acreditar que não faço férias em Agosto?


[Na imagem, Jackie Kennedy no iate de Agnelli ao largo de Ravello, no Verão de 1962.]

Etiquetas: ,

LER 96


A LER n.º 96 [Novembro] foi ontem lançada durante um almoço no Bistrô 100 Maneiras. Distribuídos por seis mesas, 36 comensais deram boa conta da ementa de Ljubomir Stanisic. Leitores (anónimos) juntaram-se à equipa da revista para umas horas de boa disposição. Tive pena de não encontrar o Pedro Vieira e o Filipe mas, em contrapartida, Onésimo Teotónio Almeida atravessou o Atlântico para vir ao Chiado comer bochechas de porco preto. Outros cronistas à mesa: Francisco Belard, Inês Pedrosa, José Mário Silva, Pedro Mexia e eu próprio. Paulo Ferreira, Paulo Moreiras, Sara Figueiredo Costa e Teresa Martins Marques também estiveram lá. Retido pela tromba de água, Rogério Casanova não pôde atravessar o vale que separa os Remédios do Chiado. Pedro Loureiro fotografou quase tudo. O Francisco e o João Pombeiro foram os anfitriões do ágape.

Neste número há um notável ensaio de Tony Judt; pré-publicações de John Le Carré e Mario Vargas Llosa; entrevistas com António Damásio (Carlos Vaz Marques) e John Irving (Filipa Melo); textos sobre Benjamin Moser (o biógrafo de Lispector), Daniel Defoe, Eugénio Lisboa, Giorgio Bassani  —  lembram-se do filme que De Sica fez em 1970 a partir de Il giardino dei Finzi-Contini...?  —, Halldór Laxness, Tom Wolfe e outros; recensões críticas, notas de leitura, colunas e secções do costume. Para não destoar da overdose do centenário, a minha crónica é sobre A Literatura da República.

Etiquetas:

Sábado, Outubro 30, 2010

OE PS/PSD


É hoje assinado, parece que daqui a pouco, o acordo a que chegaram governo e PSD. Passos Coelho aceita a subida do IVA para 23%, aceita o valor proposto pelo governo para a taxa social única, e faz de conta que acredita no fim das parcerias público-privadas. Por seu turno, o governo aceita que o corte das deduções fiscais (na educação, saúde, habitação) se faça nos 7.º e 8.º escalão do IRS. Uma cedência e tanto: a medida, que era suposto afectar 1,6 milhões de agregados familiares, apenas afectará cerca de 50 mil. Cinquenta mil... Na parte que me toca (4.º esc.), agradeço. A ver vamos quanto tempo dura a doce ilusão.

Tudo isto mudará antes do próximo Verão. Seja por imposição de Bruxelas, seja porque eleições antecipadas dêem origem a novo governo. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

Uma coisa o país não entende. Teixeira dos Santos, em nome do governo, e Eduardo Catroga, em nome do PSD, vão assinar um acordo para que o PSD se abstenha na próxima quarta-feira? O PSD andou um mês a instabilizar mercados e credores, a bramar contra a subida de impostos, a negociar frioleiras, a exigir tudo e o seu contrário, por causa de uma abstenção que lhe seria imposta fosse qual fosse a sua vontade? Acaso julga o PSD que o eleitorado o exonera de responsabilidade? Para o bem e para o mal, mais mal que bem, o OE 2011 é o OE do PS e do PSD. Como diz (e bem) o Filipe Nunes Vicente, Passos Coelho ganhou a co-autoria do documento.

Etiquetas:

CITAÇÃO, 305


Vasco Pulido Valente, Duas sondagens, hoje no Público. Excertos:


«Parece que dentro de pouco tempo a incompetência e a corrupção do PSD vai substituir a incompetência e a corrupção do PS. Mas, nem com a maior boa vontade, se consegue ver qualquer vantagem nisso. [...] O PSD não passa de um recurso (de um mau recurso) para preencher o vácuo que o PS deixou (ou vai deixar). [...] Do dr. Cavaco não vale a pena falar. Mas do PSD, que anda por aí a fingir que é ordeiro e doce, vale a pena dizer que por baixo dessa mansidão continua a guerra civil do costume. Se o longo exílio da oposição impôs finalmente algum bom senso aos patrões do partido, não os regenerou; e, se ganharem em 2011, tratarão o Estado como trataram o PSD, isto é, como coisa sua. O regime, tal como existe, chegou ao fim

Etiquetas:

Sexta-feira, Outubro 29, 2010

UM EDIFÍCIO DO SEC XVI


Entretido a inventar espaço para livros (um drama cíclico), não dei pela violência da tromba de água que se abateu hoje de manhã sobre Lisboa. Vi agora na tv as imagens do downtown e de Sacavém. Patético! Trânsito cortado entre o Marquês de Pombal e o Rossio, Terreiro do Paço inundado, Campo das Cebolas submerso, esplanadas da rua das Portas de St Antão arrasadas, linhas de metropolitano encerradas, etc.

Mas o que deveras me encanita é o sucedido na Assembleia da República, que meteu água por vários sítios, sala do plenário incluída. Sucede que o edifício do Parlamento sofreu obras recentes, no valor de muitos milhões de euros. A clarabóia da sala do plenário é nova. Quem diria? Um dos painéis da clarabóia cedeu, atirando com uma bátega de água para cima de Louçã! Também as antigas cavalariças e o acesso aos Passos Perdidos metem água. Admite-se?

A secretária-geral da AR terá dito qualquer coisa como... Isto é um edifício do século XVI! E nós com isso? O Panteão de Roma foi feito ontem?

Etiquetas:

JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS


Hoje no Público:


Traduzido em dezassete idiomas, José Rodrigues dos Santos (n. 1964) vendeu mais de um milhão de exemplares dos seus livros. O último em data, O Anjo Branco, é sobre a vida dos portugueses em Moçambique, tendo como epicentro o massacre de Wiriyamu, ocorrido a 16 de Dezembro de 1972. Assunto familiar: foi o pai, médico e presidente da Cruz Vermelha de Tete, quem denunciou as atrocidades do Exército português. Epítome da bestialidade, Wiriyamu horrorizou a opinião pública internacional, alertada pelos missionários combonianos e pelo padre Hastings, que o pôs na primeira página do Times de Londres. Este romance é a história do combate solitário do homem que fundou o Serviço Médico Aéreo de Tete e foi o primeiro civil a encontrar os corpos calcinados, decapitados e mutilados (mais de quatrocentos) de homens, mulheres e crianças das aldeias de Wiriyamu, Chawola e Juwau.

Não é a primeira vez que a ficção portuguesa se ocupa de Wiriyamu, «o maior embaraço público de Portugal na guerra em África». José Rodrigues dos Santos afiança nunca ter lido o relatório dos acontecimentos feito pelo pai (o qual, em consequência, foi levado sob prisão de Tete para Nampula e mantido incomunicável durante meses), mas, como tratamos de literatura, o detalhe é irrelevante.

A narrativa tem uma clareza exemplar. Estabelece de forma inequívoca o nível de intervenção da DGS, facto que não exonera (mas matiza) a intervenção da 6.ª Companhia de Comandos de Moçambique, de ordinário citada como responsável única do massacre. Contudo, o relato das execuções peca por esquematismo: «O interrogador [da DGS] pôs um pé sobre o corpo inerte e depois o outro e, para espanto geral, começou a saltitar em cima do cadáver. Os comandos riram com o inusitado da situação; só mesmo da mente daquele homem poderiam vir ideias assim.» Mais interessante é a descrição das sequelas: o espanto do médico face à extensão da barbárie; a perplexidade da população branca; o complexo equilíbrio de fidelidades: «Não lhe peço que negue. Peço-lhe apenas que se cale. A bem da Nação.» Sob custódia da polícia política, José Branco não cede: «O que embaraça Portugal não é o meu relatório, mas o comportamento dos nossos soldados.» O inspector-chefe da DGS não entende. Assim que se sabe que foi à aldeia, vendo o que viu, o director do hospital torna-se inimigo da comunidade. Mimicas, a mulher, é ostracizada pelo bispo, o governador e vizinhos: «Estou farta de ligar a toda a gente e ninguém quer falar comigo. Pessoas que eram minhas amigas...» Acento tónico no desconcerto: Mimicas não percebe.

Mas o livro não se esgota nesse trágico episódio. O pano de fundo é a emigração portuguesa para África e, em concreto, a vida dos colonos em Moçambique, nos anos 1960-70. Tudo começa em Penafiel, em 1936. Portugal é um país pobre e atrasado. O nacional-socialismo alemão está em alta. Lisboa começa a encher-se de refugiados em trânsito para o outro lado do Atlântico. Para assombro da família, José Branco, que tem Moçambique no horizonte, torna-se médico e especializa-se em medicina tropical.

O casal Branco faz parte dos que podem emigrar para Moçambique. O capítulo dedicado à viagem a bordo do «Infante D. Henrique, a jóia dos paquetes da carreira de África», permite reflexões sobre a política colonial. Nesse microcosmo, José Branco e a mulher conhecem e confraternizam com Domingos Rouco, advogado negro, e Aniceto Silva, o pide. (Domingos Rouco, ou seja, Domingos Arouca, conhecido oposicionista moçambicano: tenho ideia que estaria preso à data em que o autor o coloca no navio, mas o pormenor não belisca a intriga.) O racismo confunde José Branco, em particular o estatuto dos “assimilados”. Domingos Rouco esclarece: «Qualquer negro pode ter os mesmos direitos de um branco desde que faça prova de que é civilizado. Chamam-nos assimilados. Um negro tem de provar que goza de estabilidade económica e de um nível acima da média portuguesa. Tem de viver como um europeu, pagar impostos, cumprir o serviço militar e ler e escrever correctamente o português. Se fizer tudo isto, será classificado como assimilado e terá os mesmos direitos que um branco.» José Branco não pode deixar de pensar no elevado índice de analfabetismo da “Metrópole”. A chegada do casal Branco a Moçambique coincide com o início da guerra em Angola.

Em nenhuma circunstância o narrador profere juízos de valor. Podemos apenas intuir que a lembrança do massacre do Quanza Norte (Angola), onde centenas de colonos portugueses foram chacinados (em Março de 1961) por guerrilheiros da UPA, sirva de contraponto ao massacre de Wiriyamu. São conjecturas.

Num livro de 670 páginas, onde, em situação-limite (a guerra), coexiste todo o tipo de gente, as cenas de sexo são naturais. O contrário é que seria estranho. Verdade que a primeira frase é sobre o «pénis enorme» de uma criança acabada de nascer (a primeira frase e as nove páginas seguintes). Mas não o devemos atrelar ao anedotário da “mingalhinha” do bebé. Afinal, O Anjo Branco é muito mais e melhor do que isso. Mesmo porque, doravante, tem lugar cativo na bibliografia essencial da guerra em África.

A bem da Nação, in Ípsilon, 29-10-2010, pp. 41-42. Quatro estrelas.

Etiquetas:

Quinta-feira, Outubro 28, 2010

CITAÇÃO, 304


João Galamba, Errata.


«Diz-se por aí que o PSD propôs um corte adicional na despesa. Errado. O PSD não propôs nada; limitou-se a dizer que gostava que o Governo, apesar de já ter incluído cortes na despesa superiores a 4 mil milhões de euros  —  os maiores cortes de sempre  —, cortasse mais 400 milhões. Só não disse como. Apesar de milhares de portugueses terem sugerido medidas para cortar na despesa (onde estão?), apesar de nos assegurarem que o PSD é composto por gente séria e competente que percebe de finanças públicas e que tinha estudado a matéria  —  o melhor que o PSD conseguiu foi avançar com um número. Isto pode ser muita coisa, mas não é certamente uma proposta.»

Etiquetas: ,

PORTUGAL


Entrevistado por João Pereira Coutinho para o número de Julho de 2009 da revista GQ, Vasco Pulido Valente disse: «Eu tinha um amigo em Oxford, que dirigiu a minha tese de doutoramento, e que quando se deu o 25 de Abril ofereceu-me a possibilidade de eu ficar lá. E eu disse que não, que preferia ir para Portugal, escrever história portuguesa. E ele disse-me: Você não está a perceber que isso é história regional? Você vai passar o resto da sua vida a escrever a história de Alicante? [...]»

Felizmente, há quem se ocupe de história regional. A. R. Disney escreveu uma História de Portugal e do Império Português (2009) em dois volumes. O primeiro chegou agora às livrarias pela mão da Guerra & Paz. Trata da história portuguesa até 1807. O segundo, cuja edição espero seja breve, tem como objecto o Império ultramarino.

Como é que um académico (Oxford, Harvard, La Trobe) residente na Austrália se interessa por Portugal? Discurso directo: «Em criança vivi numa quinta no Quénia Ocidental. Por vezes, quando o preço do milho era favorável ou quando havia uma boa safra de café, o meu pai oferecia à minha mãe, à minha irmã e a mim umas férias na costa. De todas as vezes ali encontrava o Forte: um monumento, silencioso e pensativo, ao turbulento passado de Mombaça e ao misterioso papel que os Portugueses aí tinham desempenhado

Nota 20 para o excelente formato (19x11cm) do livro. Este 1.º volume tem 535 páginas. Desligue a novela do OE e tente perceber como chegamos aqui.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Outubro 27, 2010

SHOW-OFF


Deram em nada as negociações entre o governo e o PSD com vista a viabilizar o OE 2011. O mercado já reagiu. Ao contrário de muitos que acreditaram ou fingiram acreditar num acordo, estas negociações pareceram-me extravagantes. Ainda se fossem para aprovar o OE! Mas para que o PSD pudesse abster-se? Não faz sentido. Para o bem e para o mal, o PSD ficaria amarrado às consequências do OE: sobrecarga fiscal, cortes salariais, mais desemprego, estagnação da economia, etc. Coisa diferente de abster-se sem discutir o documento, como sugeriram Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Medina Carreira, Bagão Félix e outros.

Eduardo Catroga, que era tido como homem sério, insinuou hoje de manhã que um acordo de princípio teria sido vetado pelo primeiro-ministro. Foi categoricamente desmentido pelo ministro das Finanças. Teixeira dos Santos fez (com ênfase) a cronologia das reuniões, minutas, propostas e contra-propostas das partes.

Um detalhe: na proposta de OE 2011, as deduções fiscais com educação, saúde e habitação afectam um milhão e seiscentos mil agregados familiares. O PSD contrapôs cinquenta mil agregados familiares. Em resposta, o governo aceitou isentar um milhão de agregados familiares, ficando apenas seiscentos mil agregados familiares com cortes nas referidas deduções. O PSD não aceitou.

O Presidente da República convocou o Conselho de Estado para a próxima sexta-feira. Hoje, ao fim da tarde, o PSD reúne a Comissão Política. Passos Coelho fala ao país às 20h. A ver vamos. 

Etiquetas:

Terça-feira, Outubro 26, 2010

SÓ NOS SAEM DUQUES


Luís Duque, vereador (CDS-PP) da Câmara de Sintra, foi hoje detido no âmbito de uma mega-operação de polícia relacionada com o caso BPN. O antigo presidente da SAD do Sporting é acusado de ter obtido créditos bancários de valor superior a 80 milhões de euros, por meio de garantias fictícias.

Acusado de falsificação de documentos, aquisição ilícita de acções, infidelidade, branqueamento de capitais, abuso de confiança agravado, burla qualificada e fraude fiscal, Oliveira e Costa, o patrão do BPN, foi preso em 21 de Novembro de 2008, aguardando julgamento. Hoje calhou a vez ao seu testa-de-ferro.

Há informações contraditórias sobre a detenção de mais dois advogados.

Etiquetas:

ESTRELAS, PARA QUE VOS QUERO


Pergunta um leitor: Como é isso das estrelas na crítica de livros? Só lhe posso responder por mim. Tentarei ser claro. Ponto prévio: não podemos seguir o manual das ideias feitas. Qualquer coisa como: bola preta = Margarida Rebelo Pinto; uma estrela = Francisco Moita Flores; uma e meia = José Rodrigues dos Santos; duas = Isabel Allende; duas e meia = Jacqueline Susann; três = Mário de Carvalho; três e meia = Michel Houellebecq; quatro = Joyce Carol Oates; quatro e meia = Robert Walser; cinco = Thomas Mann.

A bitola de Margarida Rebelo Pinto não pode ser a de Mann; quando muito, a de Odette de Saint-Maurice. E assim sucessivamente: Rui Cardoso Martins não é Manuel Puig, Mafalda Ivo Cruz não é Djuna Barnes. Dou exemplos de ficcionistas, mas o raciocínio serve para poetas e ensaístas.

Portanto, é assim: ignorar o manual das ideias feitas, ler os autores à luz da obra precedente. Se lemos um romance de valter hugo mãe, por exemplo, devemos ter em vista os de José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares (etc.), não os de Urbano Tavares Rodrigues ou Susan Sontag. Com livros de estreia é mais complicado: temos de intuir o nicho do autor.

Existem autores absolutamente cinco estrelas? Existem. Entre outros, Agustina Bessa Luís, Alejo Carpentier, Carson McCullers, Clarice Lispector, Eça de Queiroz, Érico Verissimo, Flannery O’Connor, Gore Vidal, Graham Greene, Henry James, J.M. Coetzee, John Banville, John Cheever, John Le Carré, John Updike, Jorge de Sena, Machado de Assis, Philip Roth, Rubem Fonseca, Salman Rushdie, Toni Morrison, Truman Capote, Virginia Woolf e Vladimir Nabokov.

E depois os autores que, em cada época, estão na moda, condicionando leitores e (alguns) críticos: Amis, Bolaño, Franzen, Littell, Pynchon, Yourcenar. Tudo relativiza as estrelas hebdomadárias.

Etiquetas:

Segunda-feira, Outubro 25, 2010

SE CORRER O BICHO PEGA...


Os sociopatas de serviço (mas também gente sensata) querem ver Sócrates pelas costas. Para tanto, apostam no chumbo do OE 2011. Não percebo a lógica. Cavaco não mexerá um dedo para lhes facilitar a vida. Se este OE for chumbado, vão ser obrigados a gramar Sócrates mais nove meses, se tudo for muito rápido. O próximo OE será aprovado (se for) daqui a um ano. Entretanto, os grandes bancos nacionais entram em ruptura (estão a ver a CGD e o Millennium BCP em versão BPP?); o Estado cessa pagamentos (ou parte deles) já em Novembro; os sindicatos tomam conta da rua; o FMI imporá medidas draconianas. Eleições legislativas? Com certeza. Mas alguém acredita num resultado que permita uma solução de governo estável? Não com certeza enquanto o PSD hipotecar a sua estratégia à sede de poder dos Marcos & Relvas que tomaram conta da São Caetano.

Se dúvidas houvesse, o affaire Branquinho é um sintoma eloquente. Quem é que vai votar num partido que rasgou as vestes nas comissões parlamentares de inquérito que tinham a  Ongoing sob mira, para, ao fim de poucos meses, irem acolitar-se nela, obtendo grossas sinecuras? Foi isso que fez José Agostinho Branquinho, o qual acaba de renunciar ao mandato de deputado para ir juntar-se aos... (como é mesmo que ele lhes chamou na CPI?). Enfim, fica bem acompanhado. Do PSD já lá estão Rita Marques Guedes (antiga chefe de gabinete de Morais Sarmento), José Luís Arnaut e Vasco Rato. Et pour cause.

Digamos que os portugueses estão como na peça de Gullar, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come...

Etiquetas:

GULLAR SOBRE DILMA


Ferreira Gullar, entrevistado por Alexandra Lucas Coelho (no Público), sobre Dilma Rousseff, a candidata de Lula.


Excerto: «Queria só que ela me explicasse se ela é de esquerda. Porque, veja bem, o Lula é aliado do Collor. Ele é de esquerda? Por acaso a campanha deles é de esquerda? Aliado com Collor, aliado com o bispo Crivella, que é um safado, braço direito do bispo Macedo, que enriqueceu com o dinheiro das empregadas domésticas, criando a Igreja Universal do Reino de Deus. Acha que isso é esquerda? [...] afirmar que o Serra é de direita supõe que a Dilma é de esquerda. Então eu estou dizendo quais são os aliados da Dilma


Ferreira Gullar (n. 1930) não é qualquer um: poeta, contista, dramaturgo, ensaísta, crítico de arte, cronista, biógrafo e memorialista. Fundador do neoconcretismo brasileiro (1956). Entre outros, Prémio Machado de Assis 2005, Jabuti 2007 e Camões 2010. Preso pela ditadura militar em 1968, parte para o exílio em 1971. A partir do estrangeiro colabora assiduamente, com o pseudónimo Frederico Marques, nos jornais Opinião e O Pasquim. Em 1976 publica Poema Sujo, traduzido em todo o mundo. Regressa ao Brasil em 1977, sendo preso no dia seguinte. Se o Brasil vier a ter um Nobel da Literatura, será ele. Gullar apoia José Serra.

Etiquetas:

Sábado, Outubro 23, 2010

LEITE ACHOCOLATADO


As delegações do governo e do PSD começaram esta tarde a tratar do candente problema do leite achocolatado, subitamente erigido a Beluga dos proletários. Isto tem a ver com o interesse das Res publica ou com a estratégia da Sumol+Compal, que ameaça despedir trabalhadores e deslocalizar a produção de leite achocolatado se for avante a subida do IVA (nessa bebida) de 6% para 23%?

[A foto é de Alberto Frias, Expresso.]

Etiquetas: ,

CITAÇÃO, 303


Vasco Pulido Valente, Uma questão política, hoje no Público. Excertos, sublinhado meu:


«Pedro Passos Coelho recuou. [...] Várias semanas de uma conversa que alternava entre um tom vagamente conciliatório e uma absoluta intransigência verbal também não o ajudaram. Muitos milhões de portugueses ficaram em sobressalto. Os “notáveis” do PSD não hesitaram em o condenar. [...] O pequeno drama de Passos Coelho só serviu, em última análise, para o desacreditar. A confiança é um bem particularmente frágil. Os peritos (como, de resto, a televisão e a imprensa) parecem agora confortados com a equipa que vai negociar com o governo. Para começar, porque não incluiu Ângelo Correia e Nogueira Leite. E, a seguir, porque é chefiada por Eduardo Catroga, um amigo de Cavaco e, ao que parece, uma criatura responsável. Mas, no fundo, a questão é política. Passos Coelho e a sua gente do PSD têm de resolver de uma vez para sempre se querem ou não querem estabelecer a mais completa confusão em Portugal inteiro e, principalmente, se esse benemérito exercício os levará a ganhar a maioria em Maio de 2011. Qualquer pessoa no pleno uso das suas faculdades não duvida de que uma estratégia de aventura os liquidaria. Resta apurar se Passos Coelho é capaz de perceber esta evidência.»

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Outubro 22, 2010

ISTO NÃO PODIA ACABAR BEM


Por ter difamado Pinto da Costa, alegando ter sido ele o mandante da agressão (em 2005) a Ricardo Bexiga, Carolina Salgado foi hoje condenada por um tribunal do Porto a prestar 300 horas de trabalho comunitário, remíveis em 10 meses de prisão efectiva. Não foi possível confirmar se o trabalho comunitário consistirá em descaroçar as uvas e cerejas da Carolina Patrocínio.

Etiquetas:

INVOCAR SOPHIA EM VÃO


Luís Botelho Ribeiro, [who?] proto-candidato presidencial do Partido Portugal Pró-Vida, com sede em Guimarães, tenciona invocar o nome de Sophia de Mello Breyner Andresen no tempo de antena que o partido apresenta hoje na RTP.

De acordo com o Público, os filhos de Sophia estão indignados. Um deles, Maria Andresen, é peremptória: «Uma coisa era a minha mãe ser pessoalmente contra o aborto e outra estar contra a sua legalização. Conversámos imensas vezes sobre isso e sei que a minha mãe sempre recusou militar em qualquer movimento anti-aborto, precisamente por respeitar a liberdade de consciência de cada um.»

Não obstante, o PPV mantém a disposição de citar uma frase alegadamente proferida por Sophia num jantar de amigos: «Uma vez mostraram-me fotografias de fetos abortados. O que mais me impressionou foi o seu ar de humilhação (ou de humilhados). Espalhem imagens dessas com a frase: ‘Aqueles que ninguém quis amar’.»

PPV é contra a interrupção voluntária da gravidez, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra as uniões de facto, contra o divórcio, contra a morte clinicamente assistida, contra a educação sexual nas escolas, etc. Concorreu às legislativas de 2009, obtendo 8533 votos (0,15%). Tal como fez na campanha do referendo de 2007, voltará hoje a invocar o nome de Sophia. Simplesmente lamentável!

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Outubro 21, 2010

ACABOU O RECREIO


A escolha de Eduardo Catroga, ministro das Finanças (1993-95) do XII Governo Constitucional, para chefiar a delegação do PSD às negociações do OE 2011, revela três coisas:

1. Acabou o recreio.
2. O Presidente da República meteu a mão na massa.
3. Como era sabido, o apregoado governo-sombra do PSD tem competência restrita à bloga.

Do mal o menos.

Etiquetas:

ANTHERO


Anthero, Areia e Água de Armando Silva Carvalho é lançado amanhã (18:30h) na Assírio & Alvim do Chiado. O padre José Tolentino Mendonça apresenta. Sobre o livro, escreveu José Mário Silva: «Uma entrega tão radical a Antero [...] implicava um risco enorme. Porque estes não são meros poemas sobre Antero, escritos por alguém que veio depois; são poemas em que Antero é o sujeito poético, é a voz que fala [...]» O acesso ao Pátio do Siza, onde fica a nova Assírio, faz-se pela rua Garrett (n.º 10) e pela rua do Carmo (n.º 29). Será servido um pequeno cocktail.

Etiquetas: ,

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS


George Osborne, o chanceler britânico, anunciou ontem o plano de austeridade do governo conservador de David Cameron. Em linhas gerais: meio milhão de despedimentos na Função Pública até 2013; cortes na despesa no valor de 83 mil milhões de libras, ou seja, 95 mil milhões de euros; 30 mil milhões de libras de aumento de impostos; reduções drásticas (24%) no orçamento de vários ministérios, entre eles os da Justiça, Interior e Negócios Estrangeiros; congelamento de projectos das Forças Armadas; despedimento de 17 mil militares; corte de 16% no orçamento da BBC; redução de 14% no orçamento da Família Real, etc. O Reino Unido está com um défice de 11,1% e o custo diário dos juros da dívida pública britânica ascende a 120 milhões de libras, ou seja, 137 milhões de euros. As medidas são para vigorar até 2015. Ler o comentário de Johann Hari, A colder, crueller country — for no gain.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Outubro 20, 2010

IMPORTA-SE DE REPETIR?


Fernando Nobre, hoje, no Instituto Politécnico de Santarém:

«Espero que na Presidência da República, ganhe quem ganhar, venha a estar um ser humano que não veja apenas números e que não tenha apenas retórica.»

Já chamaram muita coisa a Cavaco Silva. Alien julgo que é a primeira vez.

Etiquetas:

QUATRO, SEIS, SETE


Depois de muitas cambalhotas, Passos Coelho fez aprovar ontem um pacote de condições a apresentar ao governo para viabilizar o OE 2011. Paula Teixeira da Cruz prefere chamar-lhes sugestões. Diz a vice-presidente do PSD: «São sugestões para minimizar danos colaterais». Só não sabemos exactamente quantas são. O Público diz que são quatro. O Económico diz que são seis. E o Negócios diz que são sete. O céu é o limite?

Se essas condições, perdão, sugestões, não forem aceites, o PSD chumba o OE. Passos peremptório: «Se o Governo desertar... o PSD não deixará o país sem Governo.» Não é tocante!? É por estas e por outras que o terrível Ângelo bateu com a porta.

Etiquetas:

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR


Soube-se ontem que a Câmara de Lisboa gastou perto de 270 mil euros com a missa de Bento XVI no Terreiro do Paço. Assim distribuídos:

Altar: 82.460 euros
Altifalantes e ecrãs: 68.000
Aluguer da tenda: 35.000
Meios técnicos e audiovisuais: 23.700
Honorários de pessoal: 59.000
Total: 268 mil, 160 euros

Isto, apesar de D. José Policarpo ter dito, antes da visita do Papa, que «as cerimónias litúrgicas não devem ser financiadas pelo poder autárquico ou político.» (cf. Público) Olha se fossem... Enfim, teria sido mais barato fretar aviões para levar a Roma os interessados.

Se mal pergunto: e os apregoados donativos individuais das famílias e das empresas?

Etiquetas: ,

Terça-feira, Outubro 19, 2010

CITAÇÃO, 302


Filipe Nunes Vicente, Yeats.


«Quando falta o dinheiro, falta o discernimento e o comportamento de horda aparece. De repente, toda a gente quer cortar. Tem de se cortar, mas esquecemos que esses cortes não são limpos nem brancos. [...] De onde julgam que vem o dinheiro para os transplantes delicados, para as polícias, para os bombeiros, para as pensões mínimas, para os professores que ensinam os vossos petizes?

A obrigação do governo, e julgo que nesse aspecto tem cumprido, é a de tentar manter o centro.»

Etiquetas: ,

A EMENDA


É provável que, neste momento, Paulo Mota Pinto e outros constitucionalistas do PSD estejam com vontade de fugir para Ushuaia. Então não é que um deputado do PSD, José Matos Correia, propôs formalmente a votação de uma emenda constitucional à revelia do processo legislativo de revisão?

O antigo chefe de gabinete de Durão Barroso propõe que o Presidente da República tenha o poder de dissolução do Parlamento em qualquer circunstância, ou seja, mesmo em período eleitoral, de modo a que as próximas eleições legislativas possam realizar-se o mais tardar em Janeiro de 2011. Não é impactante!? Como é que ninguém se tinha lembrado disto?

Etiquetas: ,

CITAÇÃO, 301


Valupi, A mãe de todas as crises.


«Só há duas interpretações para a bacorada: ou que o Governo, com a conivência do PS, não é uma entidade que actue na legalidade, ou que os juízes, com a conivência dos restantes partidos, não são entidades que actuem na legalidade. Em ambos os casos, o representante sindical dos juízes acaba de anunciar ao País que não estamos num Estado de direito. / Ser capaz de publicitar a imagem de juízes castigados pelas autoridades governativas por terem tentado combater a corrupção é uma daquelas situações, dada a responsabilidade da figura em causa, que nem merecem explicação, devemos partir logo para as consequências. / Mas esta declaração não levará à expulsão de António Martins da magistratura judicial. A raiz da crise, de qualquer crise que se encontre no cardápio, começa aqui: a disfunção da Justiça.»

Etiquetas:

Segunda-feira, Outubro 18, 2010

POR QUÉ NO TE CALLAS?


A cada 12 minutos, Passos Coelho pronuncia-se sobre o OE 2011. Agora calhou a vez do Frankfurter Allgemeine: Portugal braucht mehr Wettbewerb. Por qué no te callas?

Etiquetas:

FUI FELIZ ALI


Na foto de cima vemos parte dos jardins e piscina do Hotel Polana, em Lourenço Marques, [Maputo] tal como era no meu tempo. Na de baixo, da autoria da minha amiga Niza Paiva, vemos a perspectiva actual. Espreguiçadeiras lilases? O que é que aconteceu às palmeiras? Já me tinham dito que a decoração de interiores, tipicamente colonial (o hotel foi inaugurado em 1922), fora substituída pelo padrão uniforme das grandes cadeias internacionais. Mas o jardim... Francamente! Clique nas imagens para ver a extensão do crime.

Etiquetas:

Domingo, Outubro 17, 2010

FOI V. QUE PEDIU SOCIAL-DEMOCRACIA?


Alguém comenta a passividade da sociedade portuguesa por comparação com o que se passou na Grécia. São realidades diferentes. Em Portugal, o salário médio andará algures entre 700 e 800 euros. Para já, os cortes salariais incidem sobre funcionários públicos e trabalhadores do sector empresarial do Estado: CGD, CP, RTP, TAP, etc. Esses cortes não afectam rendimentos inferiores a 1550 euros mensais. As pensões ficam intocadas, excepto as de valor superior a 5000 euros mensais. Verdade que os funcionários públicos (todos) vão passar a descontar mais 1% para a CGA. Verdade que as pensões da CGA de valor superior a 1600 euros vão descontar para o IRS o mesmo que descontam as da Segurança Social. Num país em que tanta gente, parece que 35% da população activa, aufere o salário mínimo; num país em que professores do ensino básico e outros profissionais qualificados auferem salários inferiores a 700 euros mensais; em que centenas de milhares de pensionistas têm pensões inferiores a 400 euros, o plano de austeridade que aí vem afecta sobretudo as profissões liberais, gestores públicos, pilotos da TAP, magistrados e quadros superiores do Estado, chefias militares, diplomatas, professores universitários, docentes do ensino secundário dos escalões mais altos, apresentadores de televisão e pouco mais. A irritação da direita começa aí.

A realidade é esta: hoje, um fabiano como eu tem direito às mesmas deduções fiscais (na saúde, educação, compra de casa, etc.) que os Srs. Ricardo Salgado (BES), António Mexia (EDP), Henrique Granadeiro (PT), Fernando Pinto (TAP), Carlos Costa (BdP) ou Faria de Oliveira (CGD). Todos por igual: deduções fiscais, taxas moderadoras, etc. Faz sentido? Não faz. A partir de certo limite (digamos: 100 mil euros de rendimento bruto anual do agregado familiar), nenhuma dedução devia ser permitida. Mal ou bem, se for aprovado, o OE 2011 vai ao bolso da alta classe média. Como dizia o outro, é a vida!

Etiquetas:

CULTURA POPULAR


Vai com toda a probabilidade passar despercebido sob a torrente de bestsellers que entopem o circuito livreiro. Razão acrescida para falar do livro que o historiador Daniel Melo (n. 1970), investigador do Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa, acaba de publicar:  A Cultura Popular no Estado Novo. Inserido na Biblioteca Mínima da editora Angelus Novus, o livro aborda «a política cultural do Estado Novo para o povo.» Trata-se de uma síntese breve  —  é esse o perfil da colecção dirigida por Rui Bebiano  —  sobre itens tão diversos como, entre outros, o nacional-ruralismo de Salazar; folclore e corporativismo nos campos; a “fábrica do espírito” de António Ferro; a FNAT; a literatura popular; Casas do Povo; a estetização do regime, do SPN ao SNI; animação cultural, do fado ao cinema; o Plano de Educação Popular; a Acção Católica Portuguesa; as bibliotecas da Gulbenkian; bem como as propostas alternativas dos sectores da sociedade que resistiram ao “cerco oficial”.

Brevíssimo excerto: «O circuito de reprodução ideológica incluía não só os folcloristas amadores como os agentes corporativos (Coelho do Vale, Manuel Couto Viana, etc.), os especialistas de disciplinas diversas, como a história (António G. Mattoso), a geografia (Amorim Girão), a arquitectura (Raul Lino), a linguística (Manuel de Paiva Boléo), entre outras. Ademais, as origens socioprofissionais eram diversas, abarcando padres, militares, aristocratas, políticos, etc. A maioria dos seus colaboradores tinha uma formação superior, destacando-se os professores, sobretudo os universitários. Uma elite intelectual preocupada com a dimensão da cultura popular devia instruir a elite local, isto é, os dirigentes corporativos das casas do povo, na perspectiva etnográfica oficial, de modo a que esta, por sua vez, estivesse em condições de realizar conscienciosamente a sua obra nacionalista no mundo rural.» (pp. 58-9)

Autor de obras como Salazarismo e cultura popular (2001) e A leitura pública no Portugal contemporâneo (2004), Daniel Melo tem no prelo A leitura pública na I República

Etiquetas:

Sábado, Outubro 16, 2010

50 VÃO À VIDA


O OE 2011 prevê a extinção de 50 organismos públicos. Entre eles, conta-se a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, cujas atribuições passam para a Biblioteca Nacional; o Instituto de Informática do ministério das Finanças e da Administração Pública, cujas atribuições ficam cometidas à secretaria-geral do ministério; o Observatório do Emprego; o Conselho Nacional de Higiene e Segurança no Trabalho; a Comissão de Gestão do Programa de Apoio Integrado a Idosos; a Caixa de Previdência dos Trabalhadores da EPAL; a Caixa de Previdência e Abono de Família dos Jornalistas; a Caixa de Reformas e Aposentações do Banco Nacional Ultramarino; o Gabinete do Metro Sul do Tejo; as empresas públicas que gerem o Teatro Nacional D. Maria II e o Teatro Nacional de S. João, os quais passam a integrar a OPART; as Direcções Regionais de Economia;  o Secretariado Técnico da Comissão das Alterações Climáticas; a Inspecção-Geral dos Jogos; a Fundação INA; os Serviços Sociais do Ministério da Justiça; a Estrutura de Missão Lojas do Cidadão, etc. Uma pequena revolução.

Etiquetas:

INTOLERÁVEL


Faz sentido entregar o OE perto da meia-noite? Não faz. Faz sentido entregar o OE desacompanhado dos quadros macroeconómicos? Não faz. A situação de pré-calamidade orçamental talvez justifique o atraso, mas não justifica as dilações: 19:00h / 22:30h / 23:25h. Uma fantochada! Era preferível ter adiado para segunda-feira, dia 18, às 10 da manhã. Os legalistas que se fossem catar. Tudo era preferível ao desrespeito pelo Parlamento, i.e., a todos nós.

Em circunstâncias normais, e com a máquina do Estado bem oleada, um documento como o OE leva três meses a elaborar. Sucede que não vivemos em circunstâncias normais. Provavelmente, o ministério das Finanças tinha pronto o OE desejado. Porém, algures entre os dias 26 e 28 de Setembro, Bruxelas (que é como quem diz, a Alemanha) impôs o OE necessário. E, a 29 de Setembro, Sócrates e Teixeira dos Santos foram obrigados a anunciar ao país a dura realidade. Só nesse dia fatídico o actual OE deve ter começado a ser montado. O governo devia ter dito logo que não era possível cumprir o prazo constitucional. Ninguém morria com um adiamento de três dias. O que se passou ontem e ameaça voltar a passar-se hoje (a conferência de imprensa já foi adiada das dez da manhã para as três da tarde) é intolerável. O 29 de Setembro justifica muita coisa. Mas o desleixo é inadmissível em todas as circunstâncias.

[A foto é do Público.]

Etiquetas: ,

BIRTHDAY



O segundo aniversário do Jugular foi comemorado com vista para o rio, muita alegria, gossip e um minuto de silêncio pelo OE. Dispenso-me de citar o menu para não atiçar a escola do ressentimento. Mais uma vez, Ana Vidigal foi uma hostess generosa. O rapaz da imprensa marrom pode começar a investigar o número de deputados, chefes de gabinete e assessores que se deslocaram aos Remédios. 

Etiquetas:

Sexta-feira, Outubro 15, 2010

LIBERDADE DE ESCOLHA


Foi hoje publicado o diploma que permite a abertura das grandes superfícies todos os dias até à meia-noite a partir do próximo dia 24. Até aqui, com excepção dos meses de Novembro e Dezembro, as grandes superfícies (estabelecimentos comerciais com área igual ou superior a dois mil metros quadrados) só podiam estar abertas aos domingos e feriados até às 13 horas.

Etiquetas:

A FACTURA


Chegou o dia. Scuts portajadas desde as zero horas, OE no Parlamento daqui a pouco. Talhada brutal nos rendimentos do trabalho, por via de impostos agravados e cortes nas deduções fiscais. Embora as projecções de IRS das manchetes estejam manipuladas ou erradas. Lendo alguns jornais, percebemos que alguém chutou na veia.

Qual é a surpresa? Chegou a factura da Expo 98, do Porto Capital da Cultura 2001, dos estádios do Euro 2004, dos estudos e expropriações da OTA, da maquinação para mudar a OTA para Alcochete, do metro do Porto, do metro de Almada, do bodo aos pobres para (em ano de eleições) obviar às ondas de choque do subprime, da nacionalização do BPN, do acordo Alçada & Fenprof...

Etiquetas:

CITAÇÃO, 300


Vasco Pulido Valente, Cumplicidade e oportunismo, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:


«Já toda a gente pediu a Pedro Passos Coelho que desista da ideia perigosa e aberrante de rejeitar o Orçamento. [...] Mas no meio deste espectáculo o Presidente da República brilha pela sua ausência. [...] o Presidente da República não está a cumprir a sua obrigação mais básica: prevenir solenemente o país de que a atitude de Passos Coelho (e a correspondente fita, que já dura há mais de seis semanas) prejudica o futuro dos portugueses. O silêncio de Cavaco é um acto grave de cumplicidade e de oportunismo.

É um acto de cumplicidade, porque manifestamente encoraja um desvario, que nos vai trazer mais miséria e pobreza; e também porque ajuda Passos Coelho a conseguir que o partido aceite sem tugir nem mugir a sua extravagância e a sua inacreditável estupidez. Nunca o Presidente deveria dar o seu consentimento tácito a um exercício de irresponsabilidade, que põe em risco a vida já difícil da maioria da população e o próprio prestígio da República. E, em segundo lugar, o silêncio de Cavaco é um acto de puro oportunismo, porque se destina antes de mais nada a não hostilizar o eleitorado do PSD de que ele precisa para a eleição presidencial. O homem não quer entrar em guerra aberta com Passos Coelho, mesmo para evitar uma catástrofe, para não perder um voto do seu putativo eleitorado, um alto objectivo que a Pátria com certeza lhe agradecerá.

O pior é que esta subtileza de saloia nem sequer o levará a parte alguma. [...] Se Cavaco se opusesse a tempo às manobras do PSD, valeria a pena um esforço para o repor em Belém. A neutralidade professoral, inteiramente inútil, que ele adoptou não o recomenda para coisa nenhuma e, muito em particular, para Presidente.»

Etiquetas: ,

LULAS RECHEADAS


Por causa do que escrevi aqui, um leitor sugere:

«Seria muito interessante ler um post seu também, sobre as diversas tentativas do governo Lula  —  felizmente quase todas falhadas  —  para calar as denúncias de corrupção do seu governo. Seria bom ler algo no seu blogue sobre a censura que o Estadão está sujeito desde 2009, impedido de publicar novas provas sobre o esquema de corrupção montado pelo José [aliás Fernando] Sarney, o mais importante aliado de Lula. Seria fantástico constatar que o Eduardo não embarcou na histeria pró-Lula que tomou conta de alguns “opinion makers” portugueses, fechando os olhos a todos os atropelos éticos, morais e legais cometidos pelo partido que actualmente governa o Brasil.»

Dizer três coisas a esse leitor: 1. Não sou sensível ao mito Lula; 2. Não gosto de Dilma (se fosse brasileiro votava Serra); 3. Aqui no blogue ainda sou eu que escolho os temas.

Considero vergonhoso o blackout imposto ao Estadão por ordem judicial. Em Julho de 2009, o jornal começou a levantar o véu da Operação Faktor, também conhecida por Boi Barrica, um trambique de milhões que envolve Fernando Sarney, filho mais velho do presidente do Senado (e ex-PR) José Sarney, acusado de formação de quadrilha, gestão de instituição financeira ilegal e lavagem de dinheiro. O jornal recorreu mas o Supremo Tribunal Federal confirmou a interdição. Sobre o primogénito de Sarney, nem uma linha. Sucede que o meu post não é sobre o Barrica que vemos ao alto. É sobre Maria Rita Kehl. Percebeu agora?

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Outubro 14, 2010

TANTA GENTE, MARIANA


Tanta Gente, Mariana (1959), de Maria Judite de Carvalho, era um dos livros lá de casa. Acaba de ser reeditado. Tanta Gente, Mariana foi o livro de estreia da autora: inclui a novela que dá título ao volume e sete contos. Esta reedição chama-lhe romance. Quem descobriu a pólvora? Maria Judite de Carvalho (1921-1998), que foi casada com Urbano Tavares Rodrigues, escreveu dois romances, oito colectâneas de contos e uma de crónicas. Vá-se lá saber porquê, a desatenção do jornalismo literário foi de regra. O feminismo avant la lettre não colhe? Os mais novos deviam ler Tanta Gente, Mariana. Vale por um seminário de escrita criativa. Entretanto, esperar pela reedição de Os Armários Vazios (1966, romance) e Os Idólatras (1969, contos). A Ulisseia está de parabéns.

Etiquetas:

ALFREDO MARGARIDO 1928-2010


Alfredo Margarido morreu na terça-feira. Aos mais novos e a muitos dos menos novos o seu nome nada dirá. Contudo, foi pintor, ficcionista, poeta, ensaísta, sociólogo da literatura e antropólogo da negritude. Estudou na Escola de Belas-Artes do Porto e na École des Hautes Études de Paris. Radicado em França a partir de 1964, depois de uma passagem por Angola e São Tomé, ensinou antropologia e sociologia na Sorbone e, mais tarde, no Brasil. Desde cedo interessado na emancipação da África Negra, um dos seus ensaios mais conhecidos é Le Colonialisme Portugais et l’Anthropologie (1975). Ao alto podemos ver uma das aguarelas que mostrou em Dezembro do ano passado nos Passos Perdidos. De acordo com Perfecto Cuadrado, historiador do surrealismo português, «dizer Alfredo Margarido é lembrar a obra e o exemplo cívico de um dos pensadores mais lúcidos da nossa realidade [...] Pintor, poeta romancista, ensaísta, tradutor, historiador, jornalista, antropólogo, politólogo, sociólogo, professor universitário: o mais parecido nos tempos modernos com o uomo universale do Renascimento. Lúcido, crítico e livre, e por isso mesmo polémico e indisciplinador de consciências...» Publicou livros de poesia, ficção e ensaio. Traduziu muito, e bem: Pavese, Anouilh, Melville (o Moby Dick, claro), Sarraute, Nietzsche, Asimov e outros. Por último mas não em último, lembrar que foi um dos fundadores, em Paris, dos Cadernos de Circunstância.

Etiquetas:

Quarta-feira, Outubro 13, 2010

PAULICÉIA DESVAIRADA


Maria Rita Kehl, 59 anos, é psicanalista. Mas sempre escreveu. Começou pela mão de Raduan Nassar, em oposição ao regime militar brasileiro. Meia dúzia de livros publicados, alguns sobre ética e psicanálise. No Brasil, Maria Rita virou colunável. Pudera, em 1979 defendeu dissertação de mestrado sobre O Papel da Rede Globo e das Novelas da Globo em Domesticar o Brasil Durante a Ditadura Militar. O doutoramento (1997) foi mais pacífico: Deslocamentos do Feminino. A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade. A que vem isto?

Em Fevereiro, Maria Rita começou a assinar uma coluna no Estadão. O jornal apoia José Serra. Maria Rita não. No passado dia 2, véspera das eleições, o seu texto provocou sururu. E Maria Rita foi dispensada.

Excertos de Dois Pesos...

«Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. [...] Se o povão das chamadas classes D e E  —  os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil  —  tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola. [...] Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? [...] Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. [...] Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos

O Estadão, um dos jornais mais influentes do Brasil, tem 92 colunistas. Maria Rita era um em 92. Queriam que escrevesse sobre psicanálise. Ela resolveu escrever sobre política. Foi dispensada. Não insultou ninguém, não inventou notícias, não avacalhou o discurso. Deu opinião. Contrária à do conservadorismo liberal (ou será do liberalismo conservador?) que distingue o jornal. E foi dispensada. 

Etiquetas: ,

BIPOLARIDADE


Ilustração gráfica da bipolaridade passista. Clique na imagem.

Etiquetas: ,

OS SENHORES QUE SE SEGUEM


Os patrões da Banca vão hoje à São Caetano explicar a Passos Coelho a obrigação de viabilizar o OE 2011. Melhor do que ninguém, Ricardo Salgado (BES, na imagem), Faria de Oliveira (CGD), Carlos Santos Ferreira (Millennium BCP) e Fernando Ulrich (BPI) sabem que o recreio acabou.

Engrossam uma lista que inclui (entre outros) Cavaco Silva, Jean-Claude Trichet, Angel Gurría, Carlos Costa, Mário Soares, Durão Barroso, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Manuela Ferreira Leite, Vasco Pulido Valente, Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares, Pedro Santana Lopes, Medina Carreira, Marques Mendes e Paulo Rangel.

Etiquetas:

Terça-feira, Outubro 12, 2010

TEORIA DOS JOGOS


Com o país à beira do abismo, o PSD entretém-se com a teoria dos jogos. Resultado:


PS — 31,7%
PSD — 30,8%
CDS-PP — 10,2%
BE — 8,6%
CDU [PCP] — 7,6%

Dados da sondagem Aximage hoje divulgados no Jornal de Negócios e no Correio da Manhã. Tudo comme d’habitude. Maioria de esquerda. Situação de pré-ingovernabilidade. Em Julho, o PSD tinha 39,2%. Os passistas estão a fazer ao PSD (e ao país) o que o PRD fez ao país (e ao PS) em 1985. Quem é que está a gozar como um macaco, quem é?

[Título roubado ao Pedro Lomba.]

Etiquetas:

Segunda-feira, Outubro 11, 2010

JOAN SUTHERLAND 1926-2010


A semanas de completar 84 anos, morreu ontem La Stupenda. Estava em Lisboa quando Joan Sutherland cá veio, em Abril de 1974, fazer a Traviata. Nessa noite do dia 18, Tomaz e Caetano apareceram juntos em público pela última vez. Ler o obituário do NYT.

Etiquetas:

A COISA ESTÁ PRETA


Dando de barato a propensão oracular do i, uma coisa parece certa: cada vez se torna mais improvável que os passistas venham a formar governo nos tempos mais próximos. Se o OE for chumbado, Cavaco será obrigado a medidas extremas. Mas ninguém o vê a entregar o país a um grupo de bloggers. Cavaco tudo fará para conservar em funções o actual governo, pelo menos até à realização de eleições antecipadas, nunca antes de Junho de 2011.

Se a crise atingir um pico insustentável, obrigando o Estado à dilação de pagamentos (e quaisquer dez dias seriam suficientes para tumultos de consequências imprevisíveis; é disto que fala Marcelo quando alude a colapso financeiro) e alguns bancos a uma situação de pré-ruptura; e se, nessas circunstâncias, Sócrates bater com a porta, Cavaco não terá alternativa em formar um governo de sua iniciativa. Não acredito na hipótese Gama, não por causa dele, mas porque o PS não deixará avançar nenhum dos seus. E numa lista de putativos primeiros-ministros, Passos Coelho não tem lugar. Talvez não quisesse tê-lo, admito que sim, mas, para o PSD, o busílis é outro: ele não conta. Mais depressa lá chega Eduardo Catroga, ou mesmo Ernâni Lopes.

E depois, com as eleições (irrelevante saber se é o PSD que fica dois pontos à frente do PS ou o contrário), voltamos à tranquibérnia. A coisa está preta.

Etiquetas: ,

OTRAS LETRAS


Foi em 2007 que surgiu Otras Letras, o equivalente gay & lesbian da Amazon. Agora, a livraria tem morada física no bairro de Palermo, um dos mais elegantes da capital argentina. Ler o poema de Borges Fundación mítica de Buenos Aires —  A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires: La juzgo tan eterna como el agua y como el aire.” É de Palermo que fala. Não admira que Aldo Fernández e Claudio Sartorie, os proprietários de Otras Letras, o tenham escolhido. Os mais de 260 mil residentes do bairro convivem bem com a diferença.

Contrariamente à voz corrente, os estudos queer, gay & lesbian não são um feudo anglo-americano. Em vários países da América Latina (estou a pensar na Argentina, no Chile, no Uruguai, no México e no Brasil) a produção teórica tem a pujança que não tem, por exemplo, em Portugal e na Itália.

No momento em que a extrema-direita sérvia tenta coarctar os direitos da comunidade homossexual de Belgrado, convém lembrar os versos de António Gedeão: “sempre que um homem sonha / O mundo pula e avança / Como bola colorida / Entre as mãos de uma criança.” Por isso me lembrei da livraria de Buenos Aires.

Etiquetas:

Domingo, Outubro 10, 2010

CITAÇÃO, 299


Vasco Pulido Valente, A irresponsabilidade, hoje no Público. Excerto, sublinhados meus:

«[...] De qualquer maneira, a mera teatralidade da atitude de Passos Coelho, que já se reflecte no mercado financeiro internacional e no ambiente doméstico, não passa de um acto de irresponsabilidade.

A irresponsabilidade não chegou ontem ao PSD. Quem durante quase 15 anos contemplou com espanto as cenas que essa tresloucada agremiação oferecia ao país certamente não se espantará. Como ontem tratava a sua vida interna, o PSD trata agora a vida de todos nós. Ou seja, sem pesar as consequências do que por oportunismo ou frivolidade resolve fazer e com a absoluta ligeireza do improviso e da imaturidade, que Passos Coelho hoje representa. [...] nesta altura o que está em causa não é o Orçamento, é o respeito pelo calendário constitucional, a existência de um governo com um mínimo de legitimidade e a conservação de uma sombra de ordem nas contas do Estado.

Se Passos Coelho não aprovar o Orçamento, a recessão que ele teme virá mais depressa e com mais violência e os juros da dívida soberana necessariamente aumentarão. No meio de uma inevitável insegurança política, a eleição presidencial irá dividir o país, ninguém sabe como e por quanto tempo. E Sócrates talvez se consiga aguentar no meio do tumulto. Mesmo Passos Coelho e a sua extravagante direcção ficam em perigo de despejo. É isto que ele sóbria e racionalmente quer? Ou o que ele quer, na sua manifesta inconsciência, é ganhar um voto fácil para 2011 e fingir que segue o inaplicável liberalismo dos bonzos da casa? Não se percebe. O que se percebe é que a história não vai acabar bem.»

Etiquetas: ,

CITAÇÃO, 298


Medina Carreira entrevistado hoje pelo Diário de Notícias. Excerto, sublinhado meu:


«[...] se o Orçamento não passar, estou em condições de garantir a extensão dos males que vêm ou não? Não estou, e creio que ninguém está. Esse risco é que eu acho que deve justificar a abstenção. [...] Porque se lá fora disserem: “Não, com essa reprovação do Orçamento a gente corta o dinheiro ou reduz o dinheiro, raciona o dinheiro”, não sei o que vai acontecer. [...] Se Passos Coelho é capaz de medir as consequências, ele lá sabe, eu não sei.»

Etiquetas: ,

A VIDA COMO ELA É


Resultados das duas últimas sondagens da Intercampus: Outubro e Julho.

LEGISLATIVAS

PSD  —  35,2% Outubro —  39,2% Julho
PS —  32% — 34,4%
PCP —  11,1% — 9,5%
BE —  10,6% — 9%
CDS-PP —  9,1% — 5,9%

Que significado dão os passistas ao trambolhão de 4% do PSD? E à subida de 3,2% do CDS-PP?

PRESIDENCIAIS

Cavaco Silva —  55,5% Outubro59,4% Julho
Manuel Alegre —  30,7% — 26,8%
Francisco Lopes —  5,6% — Não estava na corrida em Julho
Fernando Nobre —  4,9% — 9,1%
Defensor de Moura —  1,2% — 2,9%

Entre Julho e Outubro, Cavaco perdeu 3,9%. Ou seja, exactamente o que Alegre subiu. Com a entrada em cena do PCP, Nobre perde 4,2% e Moura 1,7%.

Etiquetas:

Sábado, Outubro 09, 2010

CITAÇÃO, 297


José Pacheco Pereira, Um protectorado da União Europeia, hoje no Público. Brevíssimos excertos, sublinhados meus:


«[...] É que o Orçamento, por muito mau que seja, como eram os anteriores, é pouco importante face aos riscos da crise política que o seu chumbo trará. E, mesmo sendo muito mau, contém medidas que não são nossa opção, mas exigências dos nossos credores. Se o PSD fosse Governo hoje, não teria remédio senão tomar muitas dessas medidas ou ainda piores. Se for Governo amanhã, fará o mesmo. Essas medidas vão criar uma recessão? Claro que vão, mas a sua recusa abre caminho a uma bancarrota e a uma eventual saída do euro. Estão dispostos à troca? Parece que há quem esteja. [...] Aliás, no PEC2 até se foi mais longe, e, em vez da abstenção, houve um voto a favor e uma co-responsabilização directa e pública. [...] O PSD não pode fazer política ao nível dos comentários dos blogues, para quem tudo é fácil, cristalino e, acima de tudo, possível. Aí tudo é fácil. [...] Tudo se resolve numa penada, numa retórica de ruptura a rondar a pura imbecilidade alimentada pelo prato habitual da ignorância. [...] Neste contexto, há muita gente que anda a brincar com o fogo. [...]»

Etiquetas: ,