AS FÉRIAS DO SENHOR HULOT
Para quem como eu viveu em Moçambique até aos 26 anos, o ritual das férias em Agosto não é fácil de assimilar. Ver o país parar porque é Verão, continua a ser um mistério.
Em Moçambique, Julho e Agosto são meses de Inverno. Mas em Janeiro e Fevereiro, os mais quentes, nenhuma porta se fechava. As férias eram gozadas ao longo do ano. Sim, o clima ajuda: oito meses de temperaturas muito altas, dois mais moderados (Junho e Setembro), dois frios, porém secos. Chove quando é mais quente. Fazer pesca no Bazaruto, praia em Durban ou ver teatro em Joanesburgo, determinava como e quando. Quem vinha a Portugal procurava chegar na Primavera.
Ir à Metrópole, como então se dizia, fazia parte dos costumes. De cinco em cinco anos (os funcionários públicos) ou de quatro em quatro (os bancários e outros assalariados), os portugueses tinham direito a “licença graciosa”. Para os funcionários do Estado, essa licença tinha a duração mínima de 180 dias, podendo ir até 360. Conhecer as pessoas certas ou estar disposto a uma gorjeta de 500 escudos (muito dinheiro nos anos 1960), e a dilação era uma formalidade muitas vezes resolvida por telefone. Em regra, as pessoas ficavam oito meses, quase sempre entre Março e Novembro. Também conheci Portugal assim, entre Julho de 1964 e Fevereiro de 1965. Vim cá fazer 15 anos e ver de perto o Portugal de Salazar.
A “licença graciosa” não era acumulável com férias. Gozada no território, via-se reduzida a 120 dias, improrrogáveis. Quem ia à Metrópole tinha passagens pagas (filhos incluídos) pela entidade empregadora. Chegados à Metrópole, os funcionários públicos eram remunerados de acordo com os vencimentos portugueses, inferiores aos do funcionalismo moçambicano. Como a vida em Portugal era mais cara, em especial os produtos importados, as famílias numerosas eram obrigadas a dispor de economias para suportar a “graciosa”. Os bancários e os trabalhadores de empresas privadas auferiam em Portugal o mesmo que auferiam em Moçambique. (Isso mudou em 1973, quando o choque petrolífero provocou uma crise cambial que desvalorizou de forma radical o escudo moçambicano.) Muitos aproveitavam a vinda a Portugal para um salto a Londres ou Paris.
De um modo geral, os ricos vinham pouco a Lisboa. Apanhavam o avião para Joanesburgo e dali seguiam para Londres, ponto de partida para outros circuitos. A Metrópole exigia uma razão forte. As festas Patiño e Schlumberger (Setembro de 1968), por exemplo. Mas isso era uma minoria.
Em Maio de 1976, tinha eu seis meses de Portugal, já todos queriam saber onde ia fazer férias. Em lado nenhum. Fiquei em Cascais, onde vivia, sem a obrigação de vir trabalhar a Lisboa. Ninguém acreditou.
A pouco e pouco fui vendo. Os ricos iam para a Costa Amalfitana e para o Lago Como. A classe média para Londres e Nova Iorque, por essa ordem. Hoje inverteram a ordem. A pequena burguesia para o Funchal e Torremolinos. E depois havia aquelas famílias entaladas pelos solavancos da História, mas que conservavam casa em São Martinho (as de Lisboa) ou na Granja (as do Porto), a quem não passava pela cabeça fazer férias noutro sítio. Nesses anos, os gays iam para Mykonos, as lésbicas para a Foz do Arelho, os “alternativos” para Vila Nova de Mil Fontes e os pré-punks para Salir. O Algarve ainda não estava na moda. E poucos sonhavam com Cuba ou com o Brasil.
O povo unido jamais será vencido descobriu a América. A pequena burguesia trocou o Benelux pela República Dominicana. A classe média colunável não faz a coisa por menos que o Dubai ou a ilha Likoma (no Lago Niassa). Os ricos acantonam-se entre Ravello e a Austrália.
Como é que o homem do quiosque, o empregado do café e o meu cabeleireiro hão-de acreditar que não faço férias em Agosto?
[Na imagem, Jackie Kennedy no iate de Agnelli ao largo de Ravello, no Verão de 1962.]


















































