Quinta-feira, Setembro 30, 2010

TONY CURTIS 1925-2010


Tony Curtis morreu hoje. Como prova a imagem ao alto (1949), foi um precursor do camp. Ninguém diria, mas é o pai de Jamie Lee Curtis. Nenhum dos mais de 130 filmes em que entrou é uma obra-prima; não obstante, foi um dos actores mais populares do cinema americano até ao início dos anos 1970.

Adenda. Prova da enorme popularidade de Tony Curtis é o facto de dois leitores deste blogue não estarem de acordo com o meu juízo: Nenhum dos mais de 130 filmes em que entrou é uma obra-prima. Fazendo o contraditório, ambos citam Some Like It Hot (1959) de Billy Wilder. Um deles cita também The Last Tycoon (1976) de Elia Kazan. E o outro cita mais três: Sweet Smell of Success (1957) de Alexander Mackendrick, The Defiant Ones (1958) de Stanley Kramer e Spartacus (1960) de Stanley Kubrick, embora só considere obras-primas os de Wilder e Mackendrick.

E Jorge Silva Melo mandou mais estes: The Midnight Story (1957) de Joseph Pevney, Operation Petticoat (1959) de Blake Edwards e The Rat Race (1960) de Robert Mulligan. Como também cita os que fez com Richard Quine, presumo que esteja a pensar em So This is Paris (1955). Estamos aqui estamos a propor um ciclo na Cinemateca.

E o André Murraças escolhe... The Boston Strangler (1968) de Richard Fleischer. Eu não digo!?

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SEM TAPETE


Sejamos claros: o governo tirou o tapete ao PSD. Propondo reduzir entre 3,5% e 10% a massa salarial de funcionários públicos, trabalhadores de entidades reguladoras, institutos e empresas públicas, governantes, deputados, pessoal dos gabinetes, etc.; congelando pensões; propondo cortes no SNS e na ADSE; cortando 20% ao rendimento social de inserção; diminuindo as transferências para as autarquias; idem para os Açores e a Madeira; proibindo acumulação de pensões; congelando admissões e progressões na função pública; pondo fim ao abono de família extraordinário; aumentando o IVA para 23% e onerando a banca com um imposto especial, entre outras medidas aqui elencadas, qual a margem do PSD? Não foi o que Medinas, Catrogas e Bagões andaram a exigir? Ou não chega? Será preciso cortar 15% a todos, incluindo os que ganham o salário mínimo? Propor de vez o fim do subsídio de desemprego e do rendimento social de inserção? Só se for isso! Ontem foi visível o embaraço do porta-voz da São Caetano, habitualmente tão loquaz.

Verdade que não foi só ao PSD que o governo tirou o tapete. Foi também ao CDS-PP. E, naturalmente, a Manuel Alegre. Estribado no BE  —  que vai, como lhe compete, arrancar as vestes  —, Alegre fica entalado entre o dever de apoiar as medidas patrióticas do partido que ajudou a fundar e a necessidade de não descartar a lógica frentista. Quem é que está a gozar que nem um macaco, quem é?


[Na imagem, Happy Butterfly Day, 1955, de Andy Warhol.]

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ARTHUR PENN 1922-2010


Arthur Penn morreu ontem. Para a minha geração, Bonnie and Clyde (1967) mudou a maneira de ver cinema. Little Big Man / O Pequeno Grande Homem (1970) fez dele um ícone da tradição liberal: supostamente inspirado no massacre de Washita, em 1868, o western adaptado do romance de Thomas Berger é uma parábola de My Lai (Vietname, 1968). Agora que morreu, pode ser que venha a ser conhecida a verdadeira natureza das suas relações com Alger Hiss, o advogado americano que viveu em sua casa e fez espionagem para a URSS. Ao alto, Faye Dunaway (Bonnie) e Warren Beatty (Clyde), dois actores que trabalharam muito com Penn. Vá-se lá saber porquê, em 1967 Bonnie and Clyde foi proibido na África do Sul. Por essa razão, o filme esteve semanas no cartaz do Scala, em Lourenço Marques, pois foram muitos os sul-africanos que atravessaram a fronteira para o ver.

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Quarta-feira, Setembro 29, 2010

ANTES QUE SEJA TARDE


Mesmo em cima do statement do primeiro-ministro e da conferência de imprensa que se lhe seguiu, um apanhado das medidas constantes do OE 2011 e de outras a aplicar de imediato:


Redução de 5% na massa salarial da Administração Pública, dos Institutos Públicos, das Entidades Reguladoras e do sector empresarial do Estado, a partir de deduções progressivas sobre remunerações (vencimentos, subsídios e abonos) de valor igual ou superior a 1500 euros. Mínimo: 3,5% (1500-2000E). Máximo: 10% (a partir de 2000E). A medida inclui deputados, governantes e pessoal dos gabinetes. E afecta sobretudo os Corpos Especiais da função pública: diplomatas, magistrados, médicos, enfermeiros, professores, oficiais das forças armadas e das polícias, etc.

Congelamento das pensões.

Congelamento de admissões na função pública.

Redução nas transferências do Estado para a Madeira e os Açores, para as autarquias, para o Ensino, para os Serviços e Fundos Autónomos.

Redução das despesas com o Serviço Nacional de Saúde.

Interdição de acumulação de salários e pensões públicas.

Congelamento das progressões automáticas na Administração Pública, medida que inclui os professores.

Aplicação de tectos às deduções (em sede de IRS) nas despesas de saúde e educação.

Aumento de 1% nos descontos para a Caixa Geral de Aposentações.

Redução das comparticipações da ADSE.

Fim do abono de família extraordinário.

Redução de 20% na verba destinada ao rendimento social de inserção.

Imposto especial sobre o sector financeiro (banca, etc.).

Transferência para a conta do Estado do fundo de pensões da PT.

Subida do IVA para 23%.

Presumo que a direita do Plano Inclinado esteja deliciada. O meu amigo Henrique Raposo vai com certeza ter sonhos eróticos.

Quem quiser saber tudo ao pormenor, pode ler o Comunicado do Ministério das Finanças.

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WHO'S WHO


Quem ouvir as luminárias do economês que andam há cinco anos a fazer agitprop, julgará tratar-se de um bando de virgens. Afinal, quase todos foram ministros das Finanças e/ou da Economia, e muitos dos que não foram (e agora têm catarro) fizeram uma perninha como ajudantes.

Vejamos como foi a partir de 16 de Maio de 1974:

1.º governo provisório
Palma Carlos (PM), Vasco Vieira de Almeida (Coord. Económica)
2.º governo provisório
Vasco Gonçalves (PM), José da Silva Lopes (Finanças), Rui Vilar (Economia)
3.º governo provisório
Vasco Gonçalves (PM), José da Silva Lopes (Finanças), Rui Vilar (Economia)
4.º governo provisório
Vasco Gonçalves (PM), Mário Murteira (Coord. Económica), José Joaquim Fragoso (Finanças)
5.º governo provisório
Vasco Gonçalves (PM), Mário Murteira (Coord. Económica), José Joaquim Fragoso (Finanças)
6.º governo provisório
Pinheiro de Azevedo (PM), Salgado Zenha (Finanças)

1.º governo constitucional / PS
Mário Soares (PM), Sousa Gomes (Coord. Económica), Medina Carreira (Finanças)
2.º governo constitucional / PS+CDS
Mário Soares (PM), Vítor Constâncio (Finanças e Plano)
3.º governo constitucional / Eanista
Rejeitado no Parlamento
Nobre da Costa (PM), José da Silva Lopes (Finanças e Plano)
4.º governo constitucional / Eanista
Carlos Mota Pinto (PM), Jacinto Nunes (Finanças e Plano)
5.º governo constitucional / Eanista
Lurdes Pintasilgo (PM), Corrêa Gago (Coord. Económica), Sousa Franco (Finanças)
6.º governo constitucional / AD [PSD-CDS+PPM]
Francisco Sá-Carneiro (PM), Cavaco Silva (Finanças e Plano)
7.º governo constitucional / AD [PSD-CDS+PPM]
Pinto Balsemão (PM), Morais Leitão (Finanças e Plano)
8.º governo constitucional / AD [PSD+CDS+PPM]
Pinto Balsemão (PM), João Salgueiro (Finanças e Plano)
9.º governo constitucional / BLOCO CENTRAL [PS+PSD]
Mário Soares (PM), Ernâni Lopes (Finanças e Plano)
10.º governo constitucional / PSD
Cavaco Silva (PM), Miguel Cadilhe (Finanças)
11.º governo constitucional / PSD
Cavaco Silva (PM), Miguel Cadilhe (Finanças), Miguel Beleza (idem)
12.º governo constitucional / PSD
Cavaco Silva (PM), Braga de Macedo (Finanças), Eduardo Catroga (idem)
13.º governo constitucional / PS
António Guterres (PM), Sousa Franco (Finanças), Daniel Bessa (Economia), Augusto Mateus (idem), Pina Moura (idem). Na ponta final, Pina Moura acumulou Finanças e Economia.
14.º governo constitucional / PS
António Guterres (PM), Guilherme d’Oliveira Martins (Finanças), Braga da Cruz (Economia)
15.º governo constitucional / PSD+CDS-PP
Durão Barroso (PM), Manuela Ferreira Leite (Finanças), Carlos Tavares (Economia)
16.º governo constitucional / PSD+CDS-PP
Santana Lopes (PM), Bagão Félix (Finanças), Álvaro Barreto (Act. Económicas)
17.º governo constitucional / PS
José Sócrates (PM), Campos e Cunha (Finanças), Teixeira dos Santos (idem), Manuel Pinho (Economia)
18.º governo constitucional / PS
José Sócrates (PM), Teixeira dos Santos (Finanças), Vieira da Silva (Economia)

Afinal, o que é que os distinguiu? Medina Carreira e Ernâni Lopes tiveram de negociar com o FMI. Cavaco foi-se embora por razões nunca esclarecidas. Silva Lopes e Constâncio foram governadores do Banco de Portugal. Teixeira dos Santos veio da CMVM. Carlos Tavares foi para a CMVM. Dois advogados (Medina Carreira e Salgado Zenha) foram ministros das Finanças.

Realmente já só falta experimentar o Francisco Louçã.

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NUNCA AOS DOMINGOS


Têm a certeza que há desemprego? Seiscentas mil pessoas nessa situação? Cerca de 11% da população activa? Verdade? É que vi há pouco na tv uma manif de trabalhadores dos hipermercados a protestar pela possibilidade de vir a trabalhar aos domingos à tarde.

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Terça-feira, Setembro 28, 2010

ZAPATA EM LISBOA


Antes de ir amanhã a Belém explicar o que pensa fazer com o OE 2011, Passos Coelho reuniu-se hoje com 20 economistas. Acabada a sabatina, a televisão só conseguiu ouvir (ou só lhe apeteceu mostrar) antigos ministros do PSD: Eduardo Catroga, João Salgueiro e Mira Amaral. Nenhum quer ouvir falar em subida de impostos. Mas era interessante saber a opinião dos que não foram ministros do PSD. Sempre eram a maioria dos que foram hoje ao Sheraton. Nogueira Leite não conta: foi secretário de Estado do Tesouro e das Finanças de Guterres (e ficamos conversados em matéria de despesa pública). Hoje, não se sabe se na qualidade de blogger ou de membro do Conselho Nacional do PSD, Nogueira Leite destratou de forma ríspida o secretário-geral da OCDE. Como a organização aconselhou vivamente o oposto do que o PSD tem vindo a defender, o seu relatório (seu, da OCDE; Angel Gurría apenas deu a cara por ele) é inaceitável. Este tipo de diatribe dava colorido ao PREC. Mas, ao fim de 35 anos, causa um enorme bocejo.

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BRANCO É, GALINHA O PÕE


Manuela Moura Guedes andou anos a dizer de Sócrates o que Mafoma não disse do toucinho. Um dia, numa entrevista em directo, Sócrates desabafou: Aquilo não é jornalismo, é caça ao homem, jornalismo travestido... OK. Estamos num país livre.

A jornalista, de baixa médica há mais de um ano, facto que não a impede de cumprir uma agenda social intensa, resolveu processar o primeiro-ministro por... difamação! OK. Estamos num país livre.

A queixa deu entrada no DIAP de Lisboa, onde, à revelia da hierarquia do Ministério Público, um procurador-adjunto tomou a iniciativa de lhe dar seguimento, solicitando ao Parlamento o levantamento da imunidade parlamentar do primeiro-ministro. Como o primeiro-ministro não é deputado, o Parlamento devolveu o pedido. A queixa foi então remetida para o Supremo Tribunal de Justiça, onde foi arquivada.

Agora, esse procurador-adjunto foi sancionado pela secção disciplinar do Conselho Superior do Ministério Público. Qual é a surpresa?

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Segunda-feira, Setembro 27, 2010

UM ANO


Faz hoje um ano realizaram-se as eleições legislativas. Embora tenha perdido a maioria absoluta, o PS continuou a ser o partido mais votado. Obteve 36,6% dos votos e elegeu 97 deputados. A oposição entrou em estado de negação.

O PSD não percebeu que o resultado dificilmente seria outro. A esquerda moderada e o centro não esqueceram que o PSD tentou impedir a actualização do salário mínimo; propôs a privatização gradual da Segurança Social; instrumentalizou o desemprego; disse tudo e o seu contrário sobre o Serviço Nacional de Saúde; absteve-se na votação do Código do Trabalho; ameaçou revogar a lei da Interrupção Voluntária da Gravidez; opôs-se ao apoio do Estado na procriação medicamente assistida; opôs-se à lei da Paridade; opôs-se às alterações da lei das Uniões de Facto; manifestou-se contra uma futura lei que permitisse o casamento entre pessoas do mesmo sexo; apoiou o bloqueio dos camionistas; andou com Mário Nogueira ao colo; não foi capaz de apresentar um projecto alternativo de avaliação de professores; inverteu o ónus da prova nos cambalachos do BPN e do BPP; deu o dito por não dito sobre o TGV; andou aos ziguezagues no caso do Estatuto dos Açores; elogiou militares e polícias insubordinados; opôs-se às alterações da lei do Divórcio; opôs-se à lei do Pluralismo e da Não Concentração dos Meios de Comunicação Social; teve um comportamento bipolar no tocante à reforma da Administração Pública; alimentou o episódio das escutas a Belém; inventou o conceito bizarro de asfixia democrática; promoveu assassínios de carácter do primeiro-ministro, etc., etc. Tendo, apesar disto, obtido 29,1% dos votos e eleito 81 deputados, o PSD tudo fez para provocar novas eleições.

Apesar da ressurreição do Freeport e das comissões parlamentares de inquérito ao sexo dos anjos (vg. liberdade de expressão, negócio TVI, etc.), Cavaco não lhes fez a vontade. Passou um ano.

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Domingo, Setembro 26, 2010

O EXEMPLO IRLANDÊS


Não sei se estão lembrados: em Dezembro de 2009, a Irlanda subiu os impostos directos e indirectos, acabou com os benefícios fiscais, cortou algumas prestações sociais, reduziu os salários dos governantes e dos funcionários públicos (entre 10% e 15%). Dose de cavalo. Resultado: a economia irlandesa recuou 1,8% e o défice está a caminho de atingir 25% do PIB. Digamos que a economia tem razões que o tremendismo ignora. A pátria de Thomas Moore, W. B. Yeats, Elizabeth Bowen, Oscar Wilde, Bernard Shaw, James Joyce, Bram Stoker, Samuel Beckett, Iris Murdoch, Seamus Heaney, John Banville, Eavan Boland, Colm Tóibín, Sebastian Barry, Neil Jordan (vamos ficar por estes para não maçar os leitores) e tantos outros, está cada vez mais parecida com a imagem.

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Sábado, Setembro 25, 2010

O PAÍS REAL


Amigos meus que escreviam na Atlântico nunca se conformaram com o insucesso da revista. Tanta cachola para tamanho flop. Agora sabemos porquê. O órgão do Compromisso Portugal ignorava «o Portugal real e a violência privada que todos os dias acontece um pouco por todo o país. Um violência insidiosa e brutal... etc.» Como é que o seu preclaro director nunca se lembrou do que verdadeiramente interessa aos portugueses: sexo com animais.


[Fragonard, 1770. Clique para ampliar. Não é preciso explicar, pois não?]

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Sexta-feira, Setembro 24, 2010

LEVAR NAS ORELHAS


Por causa disto, e farto de ver o maior partido da oposição enredado em frioleiras, avanços, recuos, nonsense, intriga política e autofagia, o Presidente da República chamou a Belém os partidos com representação parlamentar. Dava muito nas vistas convocar só o PSD. Vão todos. Até Sócrates regressar das Nações Unidas, têm tempo de ensaiar uma tarantela. Cavaco tem dificuldade em compreender que o maior partido da oposição seja dirigido a partir de um sindicato de blogues controlado por uma rapaziada ao pé da qual Ângelo Correia faz a figura que Richelieu faria se tivesse perdido a rédea dos Estados Gerais. Cavaco percebeu e avançou.

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SALADA DE POLVO


O Tribunal Arbitral do Desporto deu provimento ao recurso apresentado por Carlos Queiroz. Foi portanto levantada a suspensão de seis meses que a ADoP, depois de avocar o processo da FPF, tinha aplicado ao ex-seleccionador Nacional. Isto não vai acabar bem.

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OE & MARRETAS, 2


Filipe Nunes Vicente, Tempos Sombrios.


«Nesta altura, o líder da oposição devia liderar a oposição. Devia dizer claramente o que entende que deve ser feito, O que vai encerrar, quanto vai cortar, o que nos espera. Arriscado? Pois é.

[EM VEZ DISSO] Explica, repete-se, diz que sim e talvez sim, que não e talvez não, provavelmente sim e provavelmente não. Aplicado a Churchill, na altura da invasão da Polónia, seria mais ou menos isto:

A situação é grave, mas pode não ser se fizermos com que ela não seja. Hitler tem de dizer o quer daqui para a frente. Se não disser, ficamos a saber que não quer dizer, o que é grave, porque ficamos sem saber se Hitler sabe o que quer fazer. As nossas forças ainda não estão preparadas, mas podem vir a estar se soubermos prepará-las. É preciso saber preparar as nossas forças para enfrentar o que pode vir a acontecer se as nossas forças não estiverem preparadas.

Mobilizador, não é?»

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OE & MARRETAS, 1


Francisco José Viegas, Vichy.

«Vejo, aqui e ali, festejos sobre uma improvável “entrada do FMI”. A ideia é que, “chegado o FMI”, tudo correria com a disciplina orçamental da ordem e ficaria provada a incompetência do governo. Lamento desiludi-los, mas não iria ser assim [...] Os portugueses, além do mais, apreciam ligeiramente a ideia de um governo em Vichy.»

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PHILIP KERR



Hoje no Público:

Houve um tempo em que as pessoas cultas faziam questão de ler (e de dizer que liam) romances policiais. Dando como adquirido que Wilkie Collins fixou o género quando publicou The Moonstone (1868), muita coisa mudou desde então. Mas a genealogia não engana: Arthur Conan Doyle, G. K. Chesterton, Raymond Chandler, Agatha Christie, Dashiell Hammett, Horace McCoy, Georges Simenon, James Hadley Chase, P. D. James, Patricia Highsmith, Andrea Camilleri, Ed McBain, Ruth Rendell, James Lee Burke, Dan Kavanagh, James Ellroy, etc. Quem não conhece Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Jules Maigret, Adam Dalgliesh, Tom Ripley, Dave Robicheaux e outros heróis que o cinema e a televisão tornaram familiares?

O escocês Philip Kerr (n. 1956), celebrado autor de livros infantis e colunista da New Statesman, criou Bernie Gunther. Bernie Gunther dá o nome a uma série que vai em sete títulos, anunciando-se o oitavo para o ano que vem. Três foram publicados entre 1989 e 1991, os outros quatro entre 2006 e 2010. O Projecto Janus (2006) abre a fase tardia, podendo e devendo ser lido como começo de nova sequência.

Bernie Gunther é o detective privado que conhecemos desde March Violets (1989). O prólogo situa-nos na Berlim de Setembro de 1937, quando Hitler, invocando a necessidade de espaço vital, «exigia colónias estrangeiras para a Alemanha.» Seca mas não isenta de melancolia, a escrita de Kerr ilumina os matizes da sombra que se abateu sobre o Reich. Contudo, o essencial da intriga (apoiada em factos reais) tem enfoque no pós-guerra, quando Bernie, antigo proprietário de um hotel em Dachau, se muda de Berlim para Munique. É lá que Britta Warzok lhe pede que descubra o rasto de Friedrich Warzok, o criminoso de guerra com quem está casada. É uma armadilha, mas Bernie não sabe, e aceita a incumbência (as suas diligências permitem um tour d’horizon às sequelas do Holocausto). À sua volta o terreno está todo minado. As brigadas Nakam, fundadas em 1945 por Abba Kovner, responsáveis pelo assassinato de milhares de criminosos nazis, actuam por conta e risco: «não confiam nos alemães nem nos Aliados para fazerem o trabalho.» E, naqueles anos, a Cruz Vermelha Alemã era conhecida por ser «muito competente a encontrar pessoas desaparecidas [mas também] em conseguir o resultado contrário.» Baralhando tudo, gente conspícua — judeus, Wiesenthal incluído, agentes da CIA, etc. — recorre sem pudor à colaboração de antigos militares SS com responsabilidades na Solução Final. Nada parece o que é no incessante jogo de espelhos do ajuste de contas: ingleses, americanos, russos, alemães e judeus puxando cada qual para seu lado.

Bernie é apanhado na voragem. Logo Bernie, que até tinha trabalhado (em 1937) para o Haganah, espiando Adolf Eichmann e Herbert Hagen quando estes visitaram a Palestina. Mas os judeus queriam fazê-lo passar por Eric Gruen, um criminoso de guerra cujos conhecimentos (na investigação da vacina contra a malária) interessavam aos americanos. Se Bernie fosse executado em seu lugar, as partes ficavam satisfeitas. Bem vistas as coisas, o tempo não estava para pruridos de consciência. Não haviam sido as SS um viveiro de experiências bem sucedidas? Por exemplo, quando organizaram o esquadrão muçulmano de Haj Amin al-Husseini, o Grande Mufti de Jerusalém, responsável pelo extermínio de centenas de milhares de judeus na Bósnia. E outros que tais. A propósito, Kerr lembra que Haj Amin al-Husseini era parente próximo de Yasser Arafat e que, ainda hoje, «muitos partidos políticos árabes, designadamente o Hezbollah, têm-se identificado com os nazis e adoptado símbolos de propaganda nazi

Como diz Eichmann na popa do navio, e Bernie concorda, «Lamentar não adianta nada. Lamentar é inútil. Lamentar é para crianças pequenas.» A ver vamos se o próximo volume explica o que aconteceu a Gruen quando deu com os mosquitos à solta.

O homem que não era ele, in Ípsilon, 24-9-2010, p. 43. Quatro estrelas e meia.

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Quinta-feira, Setembro 23, 2010

QUEM TRAMOU PASSOS?


Na Primavera de 1983, a crise económica e financeira obrigou o PS e o PSD a entenderem-se. Assim nasceu o IX Governo Constitucional, que tomou posse a 9 de Junho. Resultado de um acordo entre os dois partidos, Mário Soares chefiou um executivo com ministros socialistas (Almeida Santos, Jaime Gama e outros), social-democratas (Carlos Mota Pinto, Rui Machete e outros), renovadores (Francisco Sousa Tavares) e independentes (Ernâni Lopes e outros). Durou até 6 de Novembro de 1985. Nesses 29 meses, o governo do Bloco Central pôs as finanças do país em ordem. E pudemos entrar na Europa.

Agora vivemos uma crise parecida. Mas, hoje mesmo, o PSD recusou conversações com o governo sobre o Orçamento de Estado para 2011. De Figueiró dos Vinhos, Cavaco já reagiu.

Nada disto espanta. Os seis meses que Pedro Passos Coelho leva de líder do PSD demonstraram à saciedade que, salvo incidente de natureza imprevisível, a actual direcção laranja não formará o próximo governo. Não é difícil perceber porquê. Se o chumbo do OE 2011 mergulhar o país numa situação explosiva, Cavaco acertará com Sócrates (e não com outro) os detalhes de um governo de emergência que assegurará a legislatura. Se, com chumbo ou sem ele, a situação se aguentar, mais aperto menos aperto, Sócrates leva a legislatura ao fim com uma perna às costas. Não tenham ilusões: em nenhuma destas circunstâncias Cavaco (ou Alegre) facilitará o caminho a Passos Coelho. Entretanto, até 2013, o PSD se encarregará de trazer Rui Rio ao colo para Lisboa.

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QUEIROZ, AGAIN


A Federação Portuguesa de Futebol decidiu hoje retirar a sanção aplicada a Carlos Queiroz, por considerar que a mesma está ferida de nulidade por omissão de pronúncia. Em 16 de Maio, Queiroz terá mandado um médico da ADoP «fazer o controlo à cona da mãe» (dele, médico). Não obstante, Queiroz partiu com a Selecção para a África do Sul. O resultado foi o que a gente sabe. A 23 de Julho, a FPF instaurou-lhe um processo disciplinar. Queiroz recorreu, e muito bem, porque «o direito de exigir responsabilidade disciplinar prescreve ao fim de 30 dias». Agora, a FPF deu-lhe razão: o calão é o dialecto do balneário e a cona das mães «não tem potencial ofensivo». Espero que Paulo Bento se lembre do Frei Luís de Sousa para comentar os últimos desenvolvimentos em clave garrettiana.


[Ao alto, Vagina de Andy Warhol, 1977.]

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Quarta-feira, Setembro 22, 2010

DN, PAIS, SINDICATO & CARALHADAS


Lê-se hoje no Diário de Notícias que algumas escolas do ensino básico estão a recomendar aos alunos a compra de um dicionário com palavrões. Parece que há pais indignados com o facto de os rebentos ficarem a conhecer o significado de cona, caralho e foder, tudo palavras que, em circunstâncias normais, ninguém ouviria até ao momento de ser praxado na universidade.

Não sei o que seja mais extraordinário, se a notícia em si mesma, se a indignação das famílias. Mas há mais: uma autodenominada Associação Sindical dos Professores Licenciados também lamenta o uso do dicionário da Porto Editora. Os sindicalistas licenciados decerto ignoram que tais vocábulos constam de todos os dicionários dignos do nome. Então e se o professor de português os puser a ler A Porra do Soriano de Guerra Junqueiro? Os meninos vão perguntar ao papá o que é um «singular mangalho», um «caralho iracundo», um «caralhão atroz»? Ou vão tirar MBA a Pina Manique?

Por este andar, a exemplo do tabaco e do álcool, que só podem ser vendidos a maiores de 18 anos, ainda vamos ver as livrarias com secções de dicionários para... adultos!

Olha se as criancinhas com aulas de inglês intensivo descobrem o significado de rimming, ou seja, de botão-de-rosa, esse sim, inexplicavelmente ausente dos dicionários portugueses (o broche, graças a Deus, está em todos) não obstante exista há mais de cem anos.

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Terça-feira, Setembro 21, 2010

PRÉMIO VIDA LITERÁRIA


Além do Prémio Máxima de Literatura, no valor de quatro mil euros, atribuído ontem a Leonor Xavier, o júri decidiu, a título excepcional, atribuir a Maria Teresa Horta o Prémio Vida Literária, no valor de três mil euros. O Prémio Máxima distingue, desde 1993, obras escritas por mulheres.

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CITAÇÃO, 295


Pedro Lomba, Sarkozy, hoje no Público. Excerto:


«[...] E, no entanto, Sarkozy não se limitou a promover a evacuação expedita de ilegais, mas quis usar e publicitar uma falsidade irresponsável: a “culpa” colectiva de uma etnia por uma onda de criminalidade que assola a França. Esse perigoso passo em frente não tem defesa.»

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Segunda-feira, Setembro 20, 2010

PARABÉNS, LEONOR


Leonor Xavier venceu hoje o Prémio Máxima de Literatura, atribuído a Casas Contadas (2009). O júri, constituído por António Carvalho, Maria Helena Mira Mateus, valter hugo mãe e a directora da revista, Laura Luzes Torres, tomou a decisão por unanimidade. O ano passado o prémio foi atribuído a Myra de Maria Velho da Costa.

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E AGORA?


Manuel Maria Carrilho acaba de ser demitido das suas funções como Embaixador de Portugal na UNESCO, devido à publicação do livro E Agora? Por uma nova República. — lê-se num comunicado da editora acabado de divulgar.

Editada pela Sextante, a obra faz um tour d’horizon à situação económica, social e política do país, avançando propostas alternativas às do governo. Para debater o tema, Manuel Maria Carrilho, Inês Pedrosa e Luís Campos e Cunha vão estar juntos no próximo dia 8 de Outubro (18:30h), no Restaurante do Corte Inglês de Lisboa.

De acordo com informação do MNE, para o lugar de Carrilho na UNESCO vai o poeta Luís Filipe Castro Mendes, actual embaixador de Portugal em Nova Deli.

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O OVO DA SERPENTE


Nas eleições suecas de ontem, o Sverigedemokraterna, de extrema-direita, obteve 6% dos votos e 20 lugares no Parlamento. Isto apesar de o partido liderado por Jimmie Akesson (ao alto) ter sido excluído dos debates televisivos. O SD é nacionalista, eurocéptico, xenófobo e anti-imigração. Onde é que está a surpresa?

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WESTERWELLE & MRONZ CASARAM


Guido Westerwelle, 48 anos, vice-chanceler e ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, casou na sexta-feira com Michael Mronz, 43 anos, seu companheiro desde 2003. A partir do momento em que revelou publicamente a sua ligação (o que aconteceu em Julho de 2004 na recepção do 50.º aniversário de Angela Merkel), que Westerwelle se faz acompanhar de Mronz em todos os actos oficiais, dentro e fora do país. Número dois do governo alemão, Westerwelle é o líder do FDP desde 2001. Assim vai o mundo. E nós por cá?

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Domingo, Setembro 19, 2010

CITAÇÃO, 294


Vasco Pulido Valente, E os direitos do homem?, ontem no Público. Excertos, sublinhado meu:


«Há ou não há fundamento para comparar a expulsão dos ciganos da Roménia e da Bulgária, ordenada por Sarkozy, com o que os nazis fizerem durante a II Guerra Mundial [...] e com a deportação para a Alemanha de 75.000 judeus [...] de que o regime de Vichy se encarregou por conta do III Reich? [...]

[...] há outra face em que a política de Sarkozy se aproxima e até às vezes se confunde com a política de Hitler. Não é por acaso que a França resolveu escolher os ciganos como objecto do seu rigor e não escolheu, por exemplo, os portugueses. [...] Promover colectivamente um pequeno grupo de “estranhos”, sem protecção, a bode expiatório de uma crise grave e à superfície irresolúvel é uma antiga técnica do populismo, que Sarkozy (como Hitler) não hesitou em usar. Só que, por força, ela estabelece sempre sem exame uma culpa colectiva e aponta ao cidadão comum os “culpados” de um “crime” imaginário.

Qual é o verdadeiro
“crime” dos ciganos? [...] E aqui Viviane Reding não se engana, a II Guerra mostrou a que extremos pode chegar e com que rapidez se pode espalhar o estigma imposto por uma autoridade nacional a uma minoria étnica. Berlusconi já permitiu 315 “intervenções” do Estado em acampamentos de ciganos. Pior ainda, consta que a santificada Angela Merkel se prepara para expulsar 12.000. Onde fica nisto e para onde vai a “Europa” dos direitos do homem?»

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Sábado, Setembro 18, 2010

QUE FAZER COM ESTE FILME?


Era grande a expectativa com o filme de Aluizio Abranches que abriu o Queer 14. Em parte, essa expectativa não foi gorada porque Rafael Cardoso, o Thomas da história, é todo um argumento (conferir ao alto). A partir daí, estamos em registo Tom Ford, mesmo se Do começo ao fim é o exacto oposto de A Single Man. Numa escala de zero a vinte, digamos que o filme merece nove. Os rapazes são bonitos, os nus integrais, a fotografia de Ueli Steiger competente. Não há sexo explícito. O melhor de tudo é a música de André Abujamra. Para dizer o menos, o plot é fraquinho. Uma montagem mais seca teria cortado 20 minutos ao filme: as cenas de praia (os meninos a mergulhar) são excessivas; a primeira parte (o tempo da infância) é muito longa; a transição entre as duas idades não convence; a coreografia era escusada (o momento em que os rapazes se despem pela primeira vez); a intromissão da rapariga da discoteca não faz sentido (faria num hipotético ménage à trois com o DJ...); o comportamento de Alexandre (Fábio Assunção) face à ligação conjugal do filho e do enteado parece saído de um romance de Dennis Cooper, uma extravagância naquele contexto jamesiano. Se ainda não viu, pode ir ver hoje às 17h, ao São Jorge, que voltou a ter ar condicionado!

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Sexta-feira, Setembro 17, 2010

QUEER LISBOA 14




Começa hoje a 14.ª edição do Queer Lisboa, o festival de cinema gay e lésbico que este ano abre um filme do brasileiro Aluizio Abranches, Do começo ao fim. É uma história middle class com dois actores que o público português conhece bem: Fábio Assunção e Julia Lemmertz. Ele é arquitecto, ela médica. Julieta (Lemmertz) tem dois filhos: Francisco, do primeiro casamento, e Thomas, do segundo. Alexandre (Fábio), pai de Thomas, é o actual marido. Conjugalidade cool. Julieta e Alexandre amam os filhos. Na fase infantil, os manos são interpretados por Lucas Cotrim e Gabriel Kaufman. Na fase adulta por João Gabriel Vasconcellos e Rafael Cardoso. Contra todas as expectativas, Fábio Assunção ainda passa a perna a todos. Os rapazes têm seis anos de diferença um do outro. O mais novo é atleta de alta competição. Um dia tinha de acontecer. Sim, estamos a falar de incesto. Na comunidade psi diz-se que o filme é o «fantasma da Isilda». A fotografia é do suíço Ueli Steiger. Quem não tiver convite para hoje à noite pode ver amanhã às 17h, no São Jorge. Entretanto, veja o trailer ao alto.

Do começo ao fim é apenas o primeiro de uma mostra de 118 filmes divididos por 11 secções. A restante programação não é tão soft. Quatro cineastas portugueses vão mostrar o que valem: Marco Leão, André Santos, Vicente Alves do Ó e Márcio Laranjeira. Os quatro na secção de curtas. Lady Gaga também comparece. O israelita Tomer Heymann traz o perturbador I shot my lover. Nas noites hard, predadores sexuais, práticas S/M, etc. Os amantes do potencial semiótico podem entreter-se com If the shoe fits e Believe it, ambos do australiano Chris Scherer. O alemão Luc Notsnad apresenta Wings of Love (amanhã) e Zimmer 427 (dia 24), ambos nas sessões da meia-noite. Um dos filmes mais aguardados é L. A. Zombie: the movie that would not die (dias 19 e 23), do canadiano Bruce LaBruce, com, et pour cause, François Sagat. E muito, muito mais. O filme de encerramento (dia 25) é Plan B, do argentino Marco Berger.

O Queer Lisboa decorre até ao próximo dia 25, sempre no cinema São Jorge. No foyer, abre hoje (20h) uma exposição dedicada a Mário Cesariny. No Espaço Memória estão programadas sessões de homenagem a Lorca (com Luís Miguel Cintra), Marlene Dietrich (exibição de Marrocos de Josef von Sternberg seguida de conversa com Lia Gama), anos 1930 em Berlim (exibição de Cabaret de Bob Fosse seguida de conversa comigo), Cesariny (exibição de Autografia de Miguel Gonçalves Mendes seguida de conversa com o realizador, Carlos Cabral Nunes e Cruzeiro Seixas), etc. Tem muito por onde escolher.

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Quinta-feira, Setembro 16, 2010

O DESEJADO


Ribeiro e Castro anda a reunir apoios para uma putativa candidatura à Presidência da República. Faz muito bem. Se alguém representa sem complexos a direita mais conservadora, esse alguém é ele. No seu todo, a direita portuguesa é um melting pot de desejos inconciliáveis. Não podemos meter no mesmo saco Bagão Félix e Freitas do Amaral, Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa, Jaime Nogueira Pinto e Leonor Beleza, João César das Neves e Pacheco Pereira, Isilda Pegado e Paula Teixeira da Cruz, o fadista proto-monárquico Câmara Pereira e Pedro Lomba. Sem o debate alargado que nunca foi feito, os equívocos multiplicam-se. Em 2006, a direita (como um todo) apostou em Cavaco, ciente de que Cavaco seria um defensor acérrimo dos valores ultramontanos e removeria Sócrates na primeira oportunidade. Cavaco não fez nem uma coisa nem outra. Mais: Cavaco ignorou com desdém o comportamento e as conclusões das comissões parlamentares de inquérito que, sob vários pretextos, tentaram pôr em causa o governo. Cavaco não se comoveu com o Freeport ou a TVI. Metade da direita vota em Cavaco por exclusão de partes. A eventual candidatura de Ribeiro e Castro teria a vantagem de separar as águas.

Mais não fosse, porque a direita não pode ficar refém da agenda de Cavaco, a quem nada impede de só no final de Novembro revelar se tenciona recandidatar-se ou não. Quanto mais tarde Cavaco desfizer o tabu, menor é o espaço de debate. Era bom perceber, de uma vez por todas, quanto vale (em votos) a extrema-direita portuguesa.

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Terça-feira, Setembro 14, 2010

RATZINGER E O REINO UNIDO


Bento XVI inicia depois de amanhã uma visita de Estado ao Reino Unido. É a primeira vez que tal acontece desde o cisma de 1534. Em 1982, a visita de João Paulo II teve carácter pastoral. Mas Gordon Brown quis a todo o transe o voto católico, tornando a visita um facto consumado. A controvérsia está instalada. A opinião pública britânica reage mal ao facto de ter de pagar para assistir às missas: entre 5 a 25 libras (seis a trinta euros). E ainda pior por saber que, em plena crise, o governo de Cameron vai gastar catorze milhões de euros na organização da visita do Papa. Hierática, a igreja anglicana tem preparadas algumas cascas de banana: ordenação de mulheres, direito ao aborto, direitos dos homossexuais, etc. A 48 horas da visita, a imprensa de referência inglesa está praticamente alheada da visita. Ler aqui o ponto de vista de Polly Toynbee: Why invite the pope on a state visit — at a cost of millions in a time of cutbacks — when the vast majority are secular?

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Segunda-feira, Setembro 13, 2010

LEMBRAR NATÁLIA


Se fosse viva, Natália Correia faria hoje 87 anos. Por essa razão, um grupo de amigos e admiradores celebra a data no Botequim, o bar-restaurante do Largo da Graça (Lisboa) que abriu em 1971 a meias com Isabel Meyrelles. Nos anos 1970-80, o Botequim foi ponto de passagem obrigatório de grande parte da intelligentzia nacional. Foi também lá que, no Verão de 1975, os principais estrategas do Grupo dos Nove prepararam o que viria a ser o 25 de Novembro. Melo Antunes, Vera Lagoa, Francisco Sá-Carneiro, Snu Abecasis, Helena Roseta (mais tarde co-proprietária), Ramalho Eanes, Mário Cesariny, José-Augusto França, Vergílio Ferreira, David Mourão-Ferreira, Fernanda de Castro, Ary dos Santos e Fernando Dacosta eram habitués. O Botequim sobreviveu até 1995, dois anos depois da morte de Natália. Uma vez fechado, o espaço foi ocupado pela Associação José Afonso e, entre 2005-07, pela livraria Pequeno Herói, nome de um livro infantil de Natália. Agora voltou a ser o Botequim.

Por razões que a sociologia da literatura explicará, Natália foi uma mal-amada da democracia. Combatente anti-fascista com actividade consequente no MUD e na CEUD, a esquerda literária virou-lhe as costas. (Em 1979 foi eleita deputada independente nas listas do PSD.) Autora de uma obra vastíssima, no domínio da poesia, ficção, teatro, ensaio, narrativa de viagens e crónica; organizadora de antologias de poesia trovadoresca, medieval, barroca, erótica, surrealista e outras; directora do Século e da Vida Mundial, editora da Arcádia — qualidade em que se deslocou aos matos da Guiné para receber das mãos de Spínola o original de Portugal e o Futuro, publicado dois meses antes do 25 de Abril —; apoiante da Frente de Libertação Açoriana e autora do Hino dos Açores; hostess do mais exclusivo salão literário de Lisboa, por onde passou toda a gente que contava, incluindo, para espanto dos indígenas, Ionesco, Michaux, Yourcenar, Claude Roy e Henry Miller (Agustina e Sophia nunca lhe perdoaram esses serões); condenada em Tribunal Plenário por ter organizado a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (1966), Natália foi, de facto, a derradeira personagem da vida cultural portuguesa. Jorge de Sena define como ninguém o seu perfil: alguém que se impôs na vida literária portuguesa «pela forma como soube transformar o escândalo numa espécie de terror sagrado do provincianismo embevecido.»

Conheci Natália tarde (em 1977), mas guardo lembrança de algumas passagens pelo Botequim e, sobretudo, de um serão prodigioso em casa de amigas comuns. Natália era uma força da natureza. Protagonizou acesas polémicas no Parlamento, recebeu prémios e comendas, escreveu obras admiráveis — entre outras, o romance Madona (1968), os livros de poesia As Maçãs de Orestes (1970), A Mosca Iluminada (1972), Sonetos Românticos (1990), e o ensaio Uma Estátua para Herodes (1974) —, e casou quatro vezes, a última das quais com Dórdio Guimarães. Diz quem sabe que foi, nos anos 1940-50, a mulher mais bela de Lisboa. Hoje é um bom dia para ir ao Largo da Graça lembrar tudo isto.

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Domingo, Setembro 12, 2010

CLAUDE CHABROL 1930-2010


Claude Chabrol morreu hoje de manhã. A notícia foi dada por Christophe Girard, assessor de Cultura da mairie de Paris, que caracterizou o autor de La Femme Infidèle (1969) como «un immense cinéaste français, libre, impertinent, politique et prolixe.» Quando o cinema francês começou a provocar um bocejo no vasto mundo, Chabrol foi dos poucos — sendo os outros Rohmer, Bresson, Resnais, Pialat e Truffaut — a lembrar que a França não estava arrumada. Tentarei rever hoje, em sua homenagem, La Cérémonie (1995), com Isabelle Huppert e Jean-Pierre Cassel. A imagem mostra o realizador em 1997, durante a rodagem de Rien Ne Va Plus.

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Sábado, Setembro 11, 2010

NÃO ESQUECEMOS


Faz hoje nove anos o mundo mudou.

Ler O pior dos tempos, o melhor dos tempos
de Fernanda Câncio.

A experiência in loco de Ivo Canelas,
João Luís Barreto Guimarães, João Onofre e Jorge Colombo.

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Sexta-feira, Setembro 10, 2010

O PROBLEMA INFORMÁTICO


O que se está a passar com o Acórdão do processo Casa Pia não tem qualificação possível. Para simplificar, digamos que os episódios dos últimos oito dias até na Somália seriam considerados excêntricos.

Hierarquia. O ministro da Justiça tem competência hierárquica sobre o director-geral da Administração da Justiça e o presidente do Instituto das Tecnologias e Informatização Judiciária. Em vista do que se está a passar (e o que se está a passar inclui a imagem caricata, ontem difundida na televisão, de duas funcionárias empurrando caixas de impressoras que fariam corar de vergonha o mais obscuro blogger de província), algum destes dirigentes foi chamado à pedra?

Factos vs teorias da conspiração. Para todos os gostos. Há quem relacione o «problema informático» com o alarme público que suscitará a revelação da identidade de um antigo presidente do PSD, e passo a citar o jornal i do passado dia 7 — «acusado, a 8 de Abril de 2003, por uma professora, residente na Margem Sul do Tejo [de] abuso de menores [...] A procuradora Paula Soares, uma das titulares do inquérito [...] foi quem recolheu este depoimento [mas] considerou que os factos denunciados eram muito antigos e não estavam relacionados com nenhum dos arguidos, suspeitos ou ofendidos do inquérito da rede de pedofilia, pelo que não ordenou qualquer diligência investigatória, nomeadamente que se procedesse ao interrogatório do pai da suposta vítima a fim de se apurar que casa era aquela e quem era o seu proprietário

Know-how. Se a direcção-geral da Administração da Justiça e o Instituto das Tecnologias e Informatização Judiciária não têm quadros capazes de resolver o «problema informático» — que parece resumir-se ao aparecimento de janelas com comentários de revisão —, então deviam ter contratado alguém capaz de o fazer. Um engenheiro de informática cobra entre 100 a 120 euros por hora. Uma manhã ou uma tarde de trabalho seriam suficientes, mesmo com café e paleio. O que não falta em Lisboa são técnicos de informática qualificados. E se não querem gente de Lisboa, com medo de fugas de informação (estes gajos conhecem-se todos), alternativas não faltam. Caramba: a Critical Software (Coimbra) tem a Nasa entre os seus clientes!

Neste momento, ninguém sabe quando o Acórdão estará disponível. O ministro da Justiça, I presume, anda em parte incerta.

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Quinta-feira, Setembro 09, 2010

DIZ QUE FOI UM OVNI


Acredita nas aparições de Fátima? Eu também não!

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IMPORTA-SE DE REPETIR?


Salazar era um democrata-cristão convicto.

Filipe Ribeiro de Menezes, biógrafo do ditador, em entrevista ao i.

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Quarta-feira, Setembro 08, 2010

É COM CERTEZA UM PROCESSO PORTUGUÊS


Na sexta-feira foram lidas as sentenças do processo Casa Pia. Quanto pude perceber, o tribunal levou entre quatro a cinco horas a ler uma súmula do Acórdão, o qual, diz-se, terá duas mil páginas. Ninguém obrigava o tribunal a lê-lo. Mas exigia o decoro — e o apregoado respeito pela Justiça — que o mesmo tivesse sido depositado na secretaria do tribunal, com cópias disponíveis para os arguidos, assistentes e advogados. Nada disso aconteceu. Ricardo Sá Fernandes, advogado de Carlos Cruz, disse alto e bom som, antes da sessão terminar, que o Acórdão não estava pronto. A juíza ofendeu-se. Não se percebe porquê. Se está pronto, por que carga de água não foi disponibilizado? Eu sei que as pen drives de 16 gigas estão carotas (a última que comprei custou-me 40 euros), mas caramba, o tribunal não tem mil euros disponíveis para comprar duas dúzias?

É assim que as pessoas pensam. O Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, também o disse em directo na televisão.

Na sexta-feira, dia 3, foi dito que o Acórdão estaria disponível hoje, dia 8: na secretaria do tribunal, nas mãos dos advogados e no site do Conselho Superior de Magistratura. Nada disso aconteceu. A secretaria da 8.ª Vara do Campus da Justiça encerrou às 16:00h sem que o Acórdão lá tivesse chegado.

Entretanto, um comunicado do CSM esclarece que não houve adiamento nenhum: «A Exma. Juíza Presidente do Tribunal colectivo, muito embora tivesse já o acórdão pronto para depósito, entendeu fazê-lo apenas amanhã, dia 9 de Setembro, logo pela manhã, pois que só então o Tribunal disporá dos suportes informáticos e em papel para entrega a todos os intervenientes processuais

Comentários para quê?

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Terça-feira, Setembro 07, 2010

GRÃO A GRÃO


Por 19 milhões de euros, a Refer adjudicou ontem à Obrecol a empreitada das obras que vão compatibilizar, em Lisboa, a rede ferroviária convencional com a de alta velocidade. Tendo em vista a terceira travessia do Tejo, as obras incidem no Areeiro, Sacavém e Estação do Oriente. A empreitada inclui a construção, na zona de Braço de Prata, das oficinas de manutenção dos comboios de alta velocidade. Por causa dos trabalhos, a rua Gonçalo Mendes da Maia, a calçada da Picheleira e a azinhaga da Salgada serão interditas ao trânsito.


[Na imagem, perspectiva do atravessamento ferroviário de Braço de Prata. Clique para ver melhor.]

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Segunda-feira, Setembro 06, 2010

INSÂNIA


A Europa está a ficar perigosa. Quando homens como Thilo Sarrazin deixam cair a máscara e, a fazer fé nas sondagens, têm 18% da opinião pública do seu lado, algo apodreceu de vez.

Quem é Sarrazin? É o autor de Deutschland schafft sich ab, livro que chegou às livrarias no passado 30 de Agosto. Nele, Sarrazin defende que a alta taxa de fertilidade dos muçulmanos imigrados na Alemanha fez baixar o coeficiente de inteligência da sociedade alemã. Tanto bastou (e bem) para que na última sexta-feira fosse demitido do conselho executivo do Bundesbank. A decisão foi tomada por unanimidade. O SPD, partido de que é militante, também prepara a sua expulsão. Não admira que Merkel, Wulff, Lammert e Gabriel (a chanceler, o presidente da República, o presidente do Parlamento e o presidente do SPD) tenham reagido energicamente ao destrambelho. Um Estado que se queira dar ao respeito não pode tolerar teses racistas. Isto não tem nada a ver com liberdade de expressão. Ninguém proibiu o livro, ninguém o impede de escrever outros, ou de fazer um blogue e de promover as suas ideias. Não pode é enxovalhar a Alemanha a partir dos cargos que ocupa.

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Domingo, Setembro 05, 2010

O VALOR DA LIBERDADE


A forma enjoada como comentadores de toda a espécie, jornalistas, apresentadores de televisão e, pasme-se!, advogados e magistrados, dizem que no sistema jurídico português vigora o princípio da presunção de inocência, como quem dá a entender ao bom povo que não é assim nos países civilizados, revela uma realidade tão negra que me abstenho de a classificar.

Quando era miúdo ouvi dizer muitas vezes que tinha sido um erro Portugal não ter entrado na Grande Guerra de 1939-45. Quem o dizia pensava no atraso do país, que imputava a Salazar. As sequelas, diziam, teriam tido como consequência a mudança de mentalidades e o previsível fim da ditadura.

De facto, o quotidiano algodoado faz muito mal às cabecinhas. Num país que nunca sofreu devastação (como aconteceu em Espanha, na Polónia, na Rússia, na Alemanha, no Japão, na Bósnia, etc.), o valor da liberdade é coisa nenhuma. Nas últimas 48 horas, a leviandade dos media tem sido eloquente a tal respeito.

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CITAÇÃO, 293


Vasco Pulido Valente, Uma biografia de Salazar, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:



«Saiu finalmente uma biografia de Salazar [...] A biografia é de Filipe Ribeiro de Menezes, doutorado em Dublin e professor de uma universidade irlandesa. O que se nota. O livro, originalmente escrito em inglês, foi traduzido com zelo mas sem fluência. Uma pessoa tropeça quase linha a linha na sintaxe inglesa, na pontuação inglesa, na linguagem convencional da academia inglesa. De qualquer maneira, vale a pena ler esta longa e minuciosa história do homem que governou, sem sombra nem rival, gerações sobre gerações de portugueses e conseguiu criar uma cultura política que hoje ainda pesa — e pesa muito — na democracia que temos. O próprio facto de Ribeiro de Menezes ser um “estrangeirado” ajuda a sentir isso.

Para quem viveu sob Salazar
[...] o que falta nesta biografia é, naturalmente, a atmosfera do regime. Porque não existia uma ditadura, existiam milhares. Cada um de nós sofria sob o seu tirano, ou colecção de tiranos, na maior impotência. [...]

O preço que pagámos pela ditadura desse provinciano mesquinho é incalculável



Nota pessoal. Teresa Casal, a tradutora, oriunda do Departamento de Estudos Anglísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, escreve «secção» (p. 53) onde devia ter escrito facção; «Macondes em largos números» (p. 545) em vez de Macondes em largo número; etc.

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Sábado, Setembro 04, 2010

MAPUTO, AGAIN


Por causa da guerra do pão, o Público mandou Sofia Lorena a Maputo. Fez bem. Com o estar bem escrito, o artigo da jornalista parece objectivo. Há um porém. Este: «Polana é o nome de um hotel símbolo de Maputo, na Avenida Julius Nyerere, um edifício colonial com 90 anos e vista de mar. Polana Cimento é o nome da zona onde vivem os que já não têm de viver no Polana Caniço

Sucede que o Hotel Polana foi inaugurado em 1922, e o bairro de que ele assimilou o nome existia desde os anos 1890, quando a cidade ainda se chamava Delagoa Bay. A Polana não precisou do hotel para existir. No meu tempo, o bairro da Polana tinha como balizas a avenida Brito Camacho (actual Patrice Lumumba) e a rua de Nevala (actual Kwame Nkrumah). A seguir à Brito Camacho ficava a Ponta Vermelha. A seguir à Nevala começava Sommerschield.

Nunca em tempo algum existiu uma «Polana Caniço». Tenho comigo um mapa da cidade actual, que divide a Polana em duas zonas, Cimento A e Cimento B, cujos limites estendem a Polana até à avenida Amílcar Cabral (a antiga Augusto Castilho), ou seja, até à Maxaquene, a qual, tendo sido arrastada da barreira sobranceira à baía para o interior da cidade, passou, na toponímia actual, a designar a área ocupada pelas antigas Mahotas. Estou a citar os mapas.

Escreve Sofia Lorena: «Percorremos o Polana Caniço e percebe-se o nome.» Alguém lhe disse que estava na «Polana Caniço», e a jornalista tomou como boa a informação.

Muita coisa mudou em 35 anos (deixei a cidade em Novembro de 1975), mas procuro manter-me informado. Isto da «Polana Caniço» é uma novidade absoluta. E, até prova em contrário, uma liberdade poética...

Adenda. Uma leitora residente em Maputo, a quem agradeço, esclarece: «[...] desde 1975 este prolongamento da Julius Nyerere foi pouco a pouco ocupado com casas de caniço, pouco a pouco substituídas por caixotes de blocos de cimento nu mais feios que o caniço e, mais recentemente, também esses, quando situados perto do tal prolongamento da Nyerere, foram derrubados para fazer umas mansões ainda mais feias. O nome Polana-Caniço é falado e escrito todos os dias na imprensa ou nos letreiros do “chapa” como destino de viagem citadina.» Fica portanto esclarecido que se designa por Polana-Caniço a zona que vai do Sommerschield à Costa do Sol.


[Ao alto, pequeno pormenor do mapa da cidade de Maputo, vista a partir da Polana. Clique para ampliar.]

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Sexta-feira, Setembro 03, 2010

O ACÓRDÃO


Foram há pouco conhecidas as sentenças do processo Casa Pia. Com excepção de Gertrudes Nunes, absolvida de todos os crimes, os restantes arguidos foram condenados a penas de prisão efectiva:


Carlos Silvino / 18 anos (cúmulo jurídico)
Carlos Cruz / 7 anos
Ferreira Diniz / 7 anos
Jorge Ritto / 6 anos e 8 meses
Hugo Marçal / 6 anos e 2 meses
Manuel Abrantes / 5 anos e 9 meses

Carlos Silvino foi ainda condenado ao pagamento de 15 mil euros a cada uma das vítimas que o acusaram. Os outros arguidos terão de pagar (cada um deles) 25 mil euros a cada uma das vítimas respectivas.

Saíram todos em liberdade porque os recursos têm efeito suspensivo da pena.

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JOÃO TORDO


Hoje no Público:


A literatura comparada também é isto: com 48 horas de intervalo, dois escritores nos antípodas um do outro, o americano Bret Easton Ellis (n. 1964) e o português João Tordo (n. 1975), repetem as mesmas ideias de forma quase literal. Entrevistado pelo Ípsilon, Ellis afirma: «Não me preocupo com a Literatura.» Põe aspas em literatura. Entevistado pelo i, Tordo diz o que pensa do caso português: «Existe um conjunto de regras das quais não se deve sair se queremos fazer o que cá se chama literatura.» Tal como Ellis, que evita o Panteão americano (James, Faulkner, Bellow, etc.), Tordo faz questão de deixar claro que «o que cá se chama literatura» pode não ser literatura, de facto. É o postulado de quem escreve ao arrepio dos experimentalismos abjeccionistas e metafísicos que fizeram o mito da ‘ficção’ portuguesa dos anos 1960. (Quem a lê hoje?) Não está sozinho: Paulo Castilho, Hélia Correia e Ana Teresa Pereira, para dar exemplos claros, são predecessores bem sucedidos. Mas Tordo é o primeiro da sua geração a demarcar-se sem complexos da aura do escritor. Ainda que possa dizer, como a Llansol disse de si mesma: «escrevo sem romantismo, sem drama e sem consolação». O futuro dirá se valeu a pena.

O Bom Inverno é o quarto (e o melhor) romance do autor, que se estreou na literatura em 2004, depois de ter feito jornalismo literário e escrita criativa. No dia em que decidiu escrever o primeiro romance, O Livro dos Homens Sem Luz, mandou o curso de Nova Iorque às urtigas. Aparentemente, não perdeu nada. A segurança da voz dá a medida do domínio dos recursos estilísticos.

Como em livros anteriores, a acção tem lugar fora de Portugal. O narrador é português e, apesar da pouca idade, coxo. (Coxo à maneira do Dr. House, com pose, bengala Rosewood e consumo imoderado de vicodin.) O expediente ilustra o óbvio: «O ponto de vista é a condição primeira da narrativa e a narrativa a condição primeira da ficção.» Vem a propósito notar que seria temerário confundir o narrador com a pessoa do autor. À laia de companion de narratologia, as extensas notas de rodapé que fecham cada secção (não confundir com capítulos) sinalizam o subtexto com grande minúcia.

O narrador vai de Lisboa a Budapeste participar num ciclo de conferências, e é na capital húngara que conhece as personagens que animam a intriga. Em pouco tempo estamos enredados num thriller contagiante sobre o desejo e as expectativas de um grupo de criadores jovens que tudo fará para «agitar as águas» em Sabaudia: «Os verões na propriedade de Metzger são conhecidos na comunidade artística internacional, e não apenas a do cinema.» A escolha de Sabaudia para cenário da história estabelece um contraponto irónico com as contradições sociais e políticas da contemporaneidade. Sabaudia é uma estância balnear italiana da região do Lácio, frequentada por homens tão diferentes quanto Mussolini e Pasolini, famosa pelo urbanismo de Cancellotti, Montuori, Scalpelli e outros arquitectos fascistas. É lá que Vincenzo e os amigos encontram a prova da sua finitude: «Todos a carregamos connosco de uma maneira ou de outra, porque estamos agora e para sempre predestinados ao fracasso.» Faz parte do jogo paródico que os protagonistas se chamem Vincenzo Gentile e Don Metzger.

O desenlace lembra A História Secreta (1992) de Donna Tartt. De certo modo, a propriedade de Metzger é o equivalente boémio de Hampden; e o narrador podia ser Richard Papen: «Se, por hipótese, nenhum dos presentes fosse culpado do assassinato de Don Metzger, isso só serviria para suscitar ainda mais incógnitas: quem então o fizera?» Apesar das diferenças geracionais, o imaginário de Tordo tem afinidades com o de Tartt.

Com o serem verosímeis, os diálogos são adequados às circunstâncias e personagens. Contrariamente ao que tantas vezes sucede na literatura portuguesa, ninguém se exprime como se estivesse a invocar o senhor Manuel Luís de Sousa Coutinho (cf. Garrett) numa sessão espírita. Essa desenvoltura contribui para sedimentar o plot, mantendo a fluência do ritmo narrativo.


O Verão verdadeiro, in Ípsilon, 3-9-2010, pp. 30-31. Quatro estrelas.

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O INTRUSO


Agora que o n.º 94 (Setembro) da LER já está na rua, deixo aqui a crónica O intruso, publicada no n.º 93 na minha coluna Heterodoxias:


A 15 de Junho de 1963 o jornal brasileiro Estado de São Paulo publicou um artigo de Jorge de Sena em homenagem a Aquilino Ribeiro. Aquilino morrera há poucos dias (a 27 de Maio), e o artigo de Sena, deturpado do lado de cá do Atlântico, pôs a Pátria a ranger os dentes: «É sempre perigoso ligarmos à ideia de grandeza de um escritor a ideia de que ele deve reflectir as angústias, as amarguras, os anseios mais dramáticos da humanidade [...] E faz com que ele seja admirado pelas razões erradas, e considerado muito grande por conta daquilo em que se não distingue da prosificação jornalístico-esteticista que tem sido uma das pragas subliterárias da vida portuguesa, contra a qual, em vão, porque as estruturas sociais não se modificaram ainda (e as próximas modificações apenas levarão ao poder público as camadas que disfarçam a sua pequena burguesia pretensiosa sob a capa de ideias pseudo-socialistas), o Modernismo se ergueu.» Para obviar à maledicência, Sena republicou o texto no suplemento Artes & Letras do Diário de Notícias.

Vem o intróito a propósito da morte recente de José Saramago. Saramago é um grande escritor a quem o Meio nunca perdoou não ter sido um dos seus. Não me refiro à condição comunista, detalhe de somenos numa classe (a dos intelectuais orgânicos) que andou com Nuno Bragança ao colo, mas Nuno Bragança era um Caupers de Bragança, ou seja, um descendente da Casa de Lafões. E as Brigadas Revolucionárias tinham a benção do catolicismo progressista. Com Saramago foi diferente, porque Saramago não passou os Verões adolescentes na Praia Grande nem gozou sinecura em Paris à conta da Gulbenkian. Pelo contrário, fez-se homem, serralheiro, jornalista e escritor à custa do seu esforço. Um dia, em 1966, nos Estúdios Cor, tropeçou em Isabel da Nóbrega. Autora laureada, oriunda das boas famílias do Estoril, Isabel da Nóbrega era a mulher de João Gaspar Simões, então o homem mais influente da vida literária portuguesa. Em pouco tempo troca a casa de Cascais por um andar na freguesia de Santos-o-Velho, em Lisboa, onde viverá vinte anos com Saramago.

O Meio não esqueceu a ousadia do intruso.

No auge da Revolução, Saramago é nomeado director-adjunto do Diário de Notícias, cargo que ocupa até 25 de Novembro de 1975. O período corresponde ao lado “negro” da biografia. Como autor, era ainda irrelevante: um romance (em 1947), três volumes de poesia (em 1966, 1970 e 1975), três colectâneas de crónicas (em 1971, 1973 e 1974). O establishment ignorava. Manuel Gusmão encontrou as palavras exactas quando escreveu que ele foi «um escritor que se conquistou a si mesmo, que encontrou a sua maneira em pleno percurso». Não há melhor forma de o dizer.

Manual de Pintura e Caligrafia (1977), o segundo romance, impõe Saramago ao preconceito do jornalismo cultural. Com Viagem a Portugal (1981), encomenda do Círculo de Leitores que lhe permitiu viver exclusivamente da escrita criativa, torna-se um autor best-seller. A consagração crítica chega com Memorial de Convento (1982), embora lhe fugisse o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, instituído nesse ano (só o receberia em 1991). O resto é história. Os obituários do vasto mundo, do New York Times ao Haaretz, dão a medida do eco planetário.

Estive (é maneira de dizer) com Saramago uma única vez. Foi na Primavera de 1992, no lançamento de um romance do Francisco José Viegas. A festa foi no Targus: centenas de pessoas acotovelavam-se na rua e algumas dezenas no interior do bar do Ernâni. Entalado entre um diplomata louco e uma Kristeva psitacista, fui “salvo” pelo autor de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), que me pôs na mão um Gin Fizz, assim interrompendo o massacre dos dois tontos. Conversa curta e circunstancial. Saramago e Pilar estavam felizes e transmitiam aos outros essa felicidade.

Agora que morreu lembrei-me da afabilidade do seu trato.


[Retrato de Sophie Bassouls, 1991.]

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LER 94



A LER n.º 94 (Setembro) está na rua. O historiador José Mattoso é o entrevistado de Carlos Vaz Marques nesta edição. Diz ele: «As comemorações da República não me interessam muito. Arrepia-me ver aqueles republicanos façanhudos, com aquelas bigodaças.» Ui! Que medo! Habsburgos, Hollenzolerns, Palmelas, Thurn und Taxis, estais vingados. Pré-publicação de Rubem Fonseca. Crónicas, recensões, artigos de vária índole. Eu conto como vivi a independência de Moçambique e as razões da partida. O último parágrafo: «Ao cabo de 35 anos, Moçambique esqueceu o maoísmo (1975-92). É hoje uma sociedade “capitalista”. A 13 de Março de 1976, Lourenço Marques passou a designar-se Maputo. Os meus amigos de direita gostam muito de lá ir.» Nem de propósito, agora que Maputo está na (des)ordem do dia.

Neste número, novidade mesmo é um almoço a realizar em 30 de Outubro, um sábado: pode inscrever-se qualquer pessoa. O ágape terá lugar em cidade e restaurante a definir — isso dependerá do número de inscritos em cada sítio —, podendo os leitores partilhar a refeição com os colunistas da revista.

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Quinta-feira, Setembro 02, 2010

BOCA RATON NO ALTO ALENTEJO


Li um apanhado do speech que António Carrapatoso, presidente não-executivo da Vodafone, foi fazer aos alunos da Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide. Não quero acreditar no que por aí se diz, mas se calhar é mesmo verdade que muito boa gente aposta na derrapagem do PSD passos-coelhista. Primeiro, o projecto de revisão da Constituição. Agora esta sabatina de quem parecia estar a perorar num country club de Boca Raton. Passos Coelho está de facto com um problema: quanto mais tarde for a eleições, menor é a probabilidade de se impor ao país. É que de cada vez que alguém da sua entourage abre a boca, o centro afasta-se do PSD.

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MAPUTO, TAKE 2


Sobre os distúrbios em Maputo, que persistem, dizer duas ou três coisas a benefício de leitores apressados. Este post é o resultado de a) leitura da imprensa portuguesa e sul-africana; b) contacto telefónico com pessoa amiga em Maputo.

Omiti deliberadamente estarem os riots circunscritos às periferias da cidade — daí a dificuldade em aceder ao aeroporto —, deixando incólume a cidade “burguesa”, que podemos situar entre as avenidas Julius Nyerere, Filipe Samuel Magaia, 25 de Setembro e Kenneth Kaunda, bem como, naturalmente o borough governamental ironicamente localizado entre a Mártires de Mueda e Nachingueia. É neste perímetro que ficam as embaixadas, os ministérios, os grandes hotéis, o comércio de qualidade, as escolas e centros culturais estrangeiros, etc. Aqui vivem as classes dirigentes, o corpo diplomático, a maioria dos cooperantes estrangeiros (sendo portugueses cerca de dezoito mil), a classe média e os quadros da Frelimo. Estamos a falar da Baixa, Ponta Vermelha, Polana, Maxaquene, Central, princípio do Sommerschield e da Malhangalene. Quanto me dizem, o bairro da Coop já não escapou. Como sempre, a Matola foi duramente atingida.

O Diário de Notícias transcreve um despacho da Lusa que refere tumultos «na zona da Polana-Caniço, em Maxaquene...» Polana-caniço? Em Maxaquene? Digamos, para evitar comentário queiroziano, que o disparate é deste calibre: Na Lapa-de-lata no Restelo...

Já agora, e porque os media portugueses não têm a mais pequena ideia (nem estão interessados em ter) do que seja a realidade moçambicana — um país com 22 milhões de habitantes —, convém lembrar o óbvio: em Moçambique, o salário mínimo corresponde a 2500 meticais, ou seja, a 55 euros. Não obstante, em Maputo, os bens essenciais são mais caros do que em Lisboa. Falo da cidade de cimento. Nos bairros de Magoanine e Xiquelene (as Covas da Moura e as Buracas de lá) presumo que seja pior.

O ministro moçambicano do Interior, José Pacheco, em resposta aos protestos pelo aumento do preço do pão, sugeriu que o povo coma batata doce. Continuar a seguir, aqui.

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Quarta-feira, Setembro 01, 2010

MAPUTO A FERRO E FOGO


O aumento do preço do pão pôs Maputo a ferro e fogo. Os carros estão a ser apedrejados e as lojas saqueadas. Os armazéns da Sasseka são um alvo privilegiado. Muitas ruas foram cortadas para impedir a circulação. Há pneus incendiados, contentores de lixo, troncos e pedras a bloquear ruas e avenidas. Na marginal, até barcos de pescadores foram atravessados no asfalto para dificultar o acesso da polícia. A comunidade branca e a classe média negra estão trancados em casa. Os turistas fechados nos hotéis. E o avião da TAP retido no aeroporto porque a tripulação e os passageiros não conseguem chegar a Mavalane. A avenida de Moçambique, entrada e saída da cidade, mantém-se cortada. Há notícia de pessoas (crianças incluídas) apanhadas no fogo cruzado. A seguir, no Mail & Guardian.

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O MUNDO EM CIMA DELE


Carlos Queiroz foi ontem à SIC justificar-se. O país esperou que ele desse um murro na mesa (como devia), dizendo, preto no branco, que tinha mandado o outro fazer macramé com os pentelhos da mãe. A opinião que incensou o professor Charrua decerto o apoiaria. Em vez disso, Queiroz reconheceu ter usado uma expressão deselegante (não concordo), repetindo vinte vezes que se sente impotente e frustrado, que o mundo tinha caído em cima dele e que a honra está acima de tudo: Se fosse por dinheiro a questão estava resolvida.

A entrevista foi uma desilusão. Não obstante, Queiroz tem razão num ponto decisivo: ninguém compreende que as decisões da ADoP sejam irrecorríveis. Os deputados que aprovaram a Lei estavam distraídos?

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