Hoje no
Público:
O que define um retornado? Existe uma literatura de retornados? Os franceses chamam
pied-noir aos franceses naturais da Argélia, categoria que inclui Althusser, Camus, Derrida e outros. Nós inventamos o termo “retornado” para designar os colonos de Angola e Moçambique. Dos retornados da Guiné ou São Tomé ninguém se lembra. Cabo Verde não encaixa nestes parâmetros.
Realidades diferentes, de facto.
Em Angola, a luta entre os movimentos independentistas (
MPLA, UNITA, FNLA) teve expressão urbana na Batalha de Luanda, que a 9 de Julho de 1975 mergulhou a cidade num banho de sangue. Como refere Tiago Rebelo, «
Na população branca dissolveu-se de vez a ilusão de que seria possível ter um lugar no futuro de Angola.» (cf.
O Último Ano em Luanda, 2008) Em consequência, o governo português organizou uma ponte aérea de proporções homéricas: durante 140 dias, entre 17 de Julho e 3 de Dezembro de 1975 (a independência de Angola, a 11 de Novembro, não estancou o êxodo), centenas de aviões evacuaram para Portugal meio milhão de refugiados. A sociedade portuguesa não voltaria a ser a mesma.
A ponte aérea é o tema do livro de Júlio Magalhães,
Os Retornados. Um amor nunca se esquece (2008), inspirado no caso verídico de uma hospedeira da
TAP que fez onze voos em duas semanas. Como metáfora, é impressiva a imagem de um país a ser escoado de avião.
Em Moçambique, a tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974, gorada ao fim de quatro dias, provocara a fuga de milhares de secessionistas para a África do Sul e a Rodésia. Quase nenhuns os que vieram para Portugal, onde a política do
MFA era objecto da sua ira. Testemunha próxima dos acontecimentos, Ricardo de Saavedra escalpeliza o golpe e respectivas sequelas em duas obras de indiscutível interesse histórico:
Aqui Moçambique Livre (1975; o título apropria-se do nome do movimento rebelde) e o romance
Os Dias do Fim (1995; edição revista em 2008). Isto para dizer que, ao contrário de Angola, a saída dos portugueses de Moçambique fez-se à revelia das autoridades portuguesas, por iniciativa e risco dos interessados.
Feito o intróito, vejamos de que modo esta literatura do eterno retorno fixou o destino das populações deslocadas.
Ao
boom da literatura da guerra colonial, tema a que o
ÍPSILON dedicou
dossiê (4-4-2008), seguiu-se a publicação de livros que fazem o inventário dos dias de vinho e rosas vividos nas “províncias ultramarinas”, com enfoque em Angola. Sem a pretensão de ser exaustivo, destacaria, além dos citados, os livros de António Trabulo,
Retornados — O Adeus a África (2009), e Manuel Acácio,
A Balada do Ultramar (2009). Denominador comum, vénia a um mundo desaparecido.
Vista do Índico, a borrasca imperial tem outros matizes. As suas balizas são eloquentes:
A Sombra dos Dias (1981), romance autobiográfico de Guilherme de Melo, sobre cinquenta anos da vida de uma família em Moçambique; e o corrosivo
Caderno de Memórias Coloniais (2009), de Isabela Figueiredo. Quando
A Sombra dos Dias chegou às livrarias, a opinião pública portuguesa não estava, como está hoje, receptiva a memórias coloniais. Muito pelo contrário. A crítica de referência ignorou o livro, o que não impediu fortuna de público, traduzida em sucessivas reedições.
A partir da sua experiência pessoal (círculo familiar, homossexualidade, carreira jornalística, inflexão ideológica, amizades, ligações amorosas) Guilherme de Melo faz um
tour d’horizon ao modo de vida moçambicano e à sociedade laurentina em particular. A nostalgia é temperada pela consciência dos factos, sem cedências de natureza “passadista”. O que não é de admirar, se nos lembrarmos do primeiro romance do autor,
As Raízes do Ódio (1965), que circulou livremente em Portugal mas foi retirado do mercado em Moçambique, onde a guerra de libertação tinha começado menos de um ano antes.
Ao contrário, Isabela Figueiredo faz o relato de uma menina de 12 anos acossada pela memória dos massacres de Setembro de 1974: «
a negralhada perdeu o freio [...] chacinou, cega, tudo o que era branco». Também se lembra de ter visto os restos de um vizinho (desmembrado à catanada) espalhados no milheiral. Sobre a sociedade local, de que guarda recordações de infância, o discurso, mordaz, constrói um
patchwork do que terá ouvido ou intuído em casa: «
Os brancos iam às pretas. [...] As pretas tinham a cona larga e essa era a explicação para parirem como pariam, de borco, todas viradas para o chão, onde quer que fosse, como os animais. A cona era larga. A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque à cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido, e pouco, e com dificuldade, que elas eram muito estreitas, portanto muito sérias, e convinha que umas soubessem isto das outras.» Pela primeira vez, alguém questiona o mito da “multirracialidade”. Os retornados não gostaram, fazendo de Isabela Figueiredo um alvo a abater.
A falência do modelo de independência com que muitos colonos sonharam para Angola foi o detonador da literatura jubilatória que associamos à “saga” dos retornados. Isso é nítido nos livros de António Trabulo e Manuel Acácio. De certo modo também o é nos de Ricardo de Saavedra, mas o tom difere: lá onde Trabulo e Acácio tecem loas ao “paraíso perdido”, Saavedra regista com secura o atropelo dos dias: «
Há pouco mais de uma hora saiu a primeira edição daquele que deve ser caso único na história da imprensa em língua portuguesa. Para explicar um jornal do povo, este Diário
será paradigma. Redigido por profissionais que nunca trabalharam juntos, composto por linotipistas que só de vista se conheciam, montado e impresso por quem apareceu [...] sem artigos assinados ou nome de director, está agora a ser distribuído por populares que o anunciam como o jornal da liberdade.»
O traço distintivo destas obras é o de estabelecerem um contraponto entre a sociedade portuguesa, moldada pela política do Estado Novo, e o modo de vida de Angola e Moçambique, menos opressivo que na “Metrópole”. Não cabe aqui desenvolver o tema da colonização dos territórios de África sob administração portuguesa (a qual revestiu características diametralmente opostas em Angola e Moçambique), nem é essa a preocupação dos autores visados. No seu conjunto, são obras de fim de ciclo. Indiferentes ao juízo da História, os autores lamentam a perda de um mundo julgado imutável.
Vastos territórios, Angola e Moçambique designaram-se, sucessivamente, por Colónias (até 1951), Províncias Ultramarinas (1951-72) e Estados (1972-75; por força da revisão marcelista da Constituição que mudou a Lei Orgânica do Ultramar). O desenvolvimento económico (em Angola) e um cosmopolitismo pautado por costumes “anglo-saxónicos” (em Moçambique, país que faz fronteira com seis países de língua inglesa), deram origem a sociedades abertas. Forçados ao cinzentismo do Portugal dos anos 1970, os autores da
memorabilia ultramarina tentam resgatar o brilho de um passado sem futuro. Isabela Figueiredo não poupa nos adjectivos: «
A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. [...] Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho...»
Afinal, a maioria destes autores deixou África no início da adolescência. Isabela Figueiredo e Júlio Magalhães nasceram ambos em 1963, Manuel Acácio e Tiago Rebelo em 1964. Sem perceberem porquê, todos viram fugir a possibilidade de outro destino. Dos quatro, só Isabela não culpa o devir histórico. (O seu ressentimento é de outra índole.) São diferentes os casos de Guilherme de Melo (n. 1931), Ricardo de Saavedra (n. 1941) e António Trabulo (n. 1943), homens feitos quando o Império enfim ruiu.
Num país onde «
tudo demora muito tempo a mudar» (cf.
Caderno de Memórias Coloniais, 2009), o desencanto foi
de rigueur. Nem outra coisa seria de esperar. Na síntese certeira de Guilherme de Melo, tinha secado «
o esplendor da relva.»
Memorabilia ultramarina, in
Ípsilon, 13-8-2010, p. 10. Ao alto, perspectiva de Lourenço Marques,
i.e., Maputo, vista do mar. Clique na imagem para ver com detalhe.