Terça-feira, Agosto 31, 2010

A QUADRATURA


Era bem feito que Cavaco mandasse Belém às urtigas. Esperar pelo fim de Outubro para desmentir o propósito de recandidatura: Mas eu nunca falei desse assunto! Os senhores é que deram por adquirido o pressuposto... Era bem feito, era. Ver o PSD e o CDS sem muleta.

Talvez tivesse o mérito de clarificar a situação. Os apelos ao presidencialismo sem concessões são sinceros? Então, a direita devia candidatar Medina Carreira em vez de encostar-se a Cavaco Silva. O Presidente da República não vetou um único diploma dos governos de Sócrates (os poucos vetos foram para diplomas da Assembleia da República). Mas para candidatar Medina Carreira era preciso ter tomates, coisa que a direita portuguesa manifestamente não tem. A direita não quer medidas, muito menos as de Medina Carreira. A direita borrifa-se para o endividamento externo, o défice, o caos da justiça, o desemprego, etc. A direita quer poleiro, e substituir o pessoal que está pelo pessoal a haver.

O tabu de Cavaco dá a medida da tradição monárquica da nossa Presidência. A menos de cinco meses das eleições, nenhum candidato (nenhum!) discute o país que quer. Dois terços da direita disposta a votar Cavaco vai a jogo contrariada. Cavaco faz tudo ao contrário do que a direita pretende que ele faça. (Derrapou no epidódio das escutas, imbróglio que num país de cultura anglo-saxónica teria levado à sua demissão.) A direita não o quer, mas não arranja outro. Paulo Teixeira Pinto, presidente da Causa Real, seria uma contradição nos termos, porém coerente com o projecto de revisão constitucional do PSD. Santana Lopes provocaria um coro de gargalhadas no país. António Barreto não lhes passa cartão. Bagão Félix, hipótese plausível, hesita. A isto chama-se quadratura do círculo.

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Segunda-feira, Agosto 30, 2010

DIREITO AO RESTO DA VIDA DELES


Foi hoje publicada em Diário da República a Lei n.º 23/2010, de 30 de Agosto, que altera três diplomas: a Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio, vulgo Lei das Uniões de Facto; o Decreto-Lei n.º 322/90, de 18 de Outubro, que regulamenta a protecção por morte dos beneficiários da Segurança Social; e o Decreto-Lei n.º 142/73, de 31 de Março, i.e., o Estatuto das Pensões de Sobrevivência. Também dá nova redacção aos artigos do Código Civil respeitantes a estas matérias.

A opinião publicada vai assobiar para o lado. E os patetas do costume execrar as medidas fracturantes, que de fracturantes não têm nada, antes beneficiam centenas de milhares de portugueses de todas as gerações, na sua maioria heterossexuais. A direita queria que tudo continuasse como no século XIX, deixando ao arbítrio de juízes o direito (ou não) à pensão de alimentos. O mundo mudou. Esse direito é independente «da necessidade de alimentos». Hoje é um dia muito importante para o resto da vida dos homens e mulheres que escolheram não casar.


[Na imagem, Snu Abecasis e Francisco Sá-Carneiro, então primeiro-ministro, o mais célebre casal português unido de facto.]

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Domingo, Agosto 29, 2010

DEPOIS DAS MASQUERADES


A notícia é de anteontem mas ainda vai a tempo de arreliar o pessoal da Isilda. O gabinete de Crispin Blunt, ministro das prisões de Sua Majestade, divulgou uma nota sobre as consequências da sua homossexualidade:

Crispin Blunt wishes to make it known that he has separated from his wife, Victoria. He decided to come to terms with his homosexuality and explained the position to his family. The consequence is this separation. There is no third-party involvement but this is difficult for his immediate and wider family and he hopes for understanding and support for them.

Lembrar que Blunt foi o ministro tory que reintroduziu (eram proibidas pelos trabalhistas) as masquerades nas prisões inglesas.

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CITAÇÃO, 291


Jorge Silva Melo, É Setembro que começa (mas onde?), hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:


«As noites já caem cedo, os letreiros hão-de estar a acender, a estas horas, os cartazes são içados nas fachadas, a temporada começa. E o que resta da crítica ainda não corroeu a alegria do que fazemos. Para quem faz teatro, Setembro é sempre um mês de esperança, o mês feliz das marés vivas e das estreias.

Passei Agosto a olhar para as programações dos teatros desta Europa. E vejo: Patrice Chéreau vai dirigir
Sonho de Outono de Jon Fosse em Paris [...] peça de que fizemos a estreia mundial em 2000 numa cave da Capital [...] Nestes 10 anos (que são os da nossa amizade), Jon Fosse passou do desconhecido que connosco bebia cervejas no Bairro e atravessava o Tejo de cacilheiro, a Prémio Ibsen [...]

Continuamos sem local onde apresentar o trabalho de dramaturgia contemporânea que arrancámos há onze anos, quando ninguém o fazia. Chamou-se A Capital, era no Bairro Alto, no prédio que frequentaram Taborda, Eça, Ramalho — e onde expôs Columbano. E entre 1999 e 2002, foi aí que estivemos no centro da actividade teatral europeia — e alguns anos à frente de capitais mais ricas. Santana Lopes mandou-a fechar a 29 de Agosto de 2002, faz hoje 8 anos tremendos.

Entretanto, na CML, no MC, na DGArtes é um ver passar gente, presidentes, directores, vereadores e urbanistas, secretários e assessores, tanta gente — e ninguém a mandou abrir. De vez em quando chamam-me para reuniões, dizem que me sente no sofá. E o tempo passa.
[...]

E eu aqui em casa a enviar mails de parabéns ao Jon, ao Fausto, ao Juan, ao Spiro, ao Dimitris, sem saber bem que lhes dizer
[...] Nenhum deles acreditará que, oito anos depois da brutal expulsão de A Capital, nada se tenha passado em Lisboa. Nenhum deles acreditará que eu, que estive tão activo na “dramaturgia contemporânea”, seja agora um encenador pré-aposentado, pondo o meu carimbo (de suposto Mestre) em textos mais ou menos clássicos, em teatros mais ou menos institucionais.

Ninguém acreditará que, em Lisboa, ninguém acreditou. E que ninguém quis aproveitar o esforço (enorme e pertinente) que, com saber, oferecíamos.

Eu devia perdoar-lhes, ah, pois era, pois
“não sabem o que fazem”. Mas não, não perdoo.

Pois tinha sido possível, meus senhores, tinha mesmo sido possível.
»


[Ao alto, o escritor, poeta e dramaturgo norueguês Jon Fosse.]

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Sábado, Agosto 28, 2010

DIZ NÃO À LAPIDAÇÃO


Hoje são elas. Amanhã podes ser tu.

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Sexta-feira, Agosto 27, 2010

EMILY DICKINSON


Hoje no Público:


Autora de uma dissertação de doutoramento sobre a obra de Emily Dickinson (1830-1886), não admira que Ana Luísa Amaral tenha resolvido dar à estampa uma selecção da poeta, traduzindo cem poemas do vasto corpus: mil setecentas e setenta e cinco composições segundo Thomas H. Johnson (1955), ou mil setecentas e oitenta e nove de acordo com R. W. Franklin (1981). Obtendo bom resultado, Ana Luísa Amaral apoia-se nas duas, as quais diferem em vários aspectos: numeração, versões, etc. O índice de primeiros versos indexa a fonte respectiva.

Em Portugal, Dickinson tem tido tradutores empenhados: Jorge de Sena (80 poemas, 1978); Maria Gabriela Llansol sob o pseudónimo de Ana Fontes (39 poemas e 47 cartas, 1995); Cecília Rego Pinheiro (26 poemas, 1997) e Nuno Júdice (65 poemas e 9 cartas, 2000). Antes deles todos, já Mário Cesariny, num ensaio de 1954, dissera que a sua poesia era «todo o clímax da poesia europeia [...] contada a partir do simbolismo.» Agora, dez anos passados sobre a tradução que Nuno Júdice fez a partir da selecção de Nuno Vieira de Almeida, chegam estes Cem Poemas que Ana Luísa Amaral traduziu e posfaciou.

Emily Dickinson é uma poeta central à poesia de língua inglesa. Harold Bloom não fez por menos: «Dickinson manifesta mais originalidade cognitiva do que qualquer outro poeta ocidental desde Dante.» Ana Luísa Amaral reforça essa ideia de singularidade recordando a frase de Emerson que serve de dístico à declaração de independência intelectual da América: «Escutámos por demasiado tempo as musas da Europa.» (Em 1922 Mário de Andrade repetiria o gesto, enaltecendo as sonoridades da língua “brasileira”... em detrimento da portuguesa.) Quando Emerson profere a sua palestra, Dickinson ainda não tem 7 anos. Mas vão ser os seus poemas, e os de Whitman, a fundar o cânone americano.

Lendo um dos poemas mais antigos, Seguros nos seus Quartos de Alabastro, vemos como a assinalável condensação discursiva de Dickinson faz a síntese perfeita do timbre místico com a cadência modernista: «[...] Imponentes vão os Anos — no Crescente — que os cobre — / Mundos abrem os Arcos — / E perfilam-se — os Céus — / Os Diademas — tombam — e os Doges — renunciam — Como pontos sem som — sobre um Disco de Neve —» Não por acaso escolheu (e impôs) a pontuação por travessões.

É curioso o facto de Dickinson romper com o paradigma do seu meio. Natural de Amherst, no Massachusetts, oriunda de uma família conservadora (o pai, calvinista ortodoxo, era um advogado e político influente), frequentou o Mount Holyoke Female Seminar durante um ano. Mount Holyoke era uma escola conhecida pelos métodos progressistas de onde rapidamente voltou para casa. Avessa ao espírito religioso da terra («e eu aqui estou, sozinha em rebeldia»), torna-se adepta do transcendentalismo de Emerson, que teve oportunidade de conhecer em Amherst. Tal como a correspondência trocada com Thomas Wentworth Higginson (um crítico menor), a leitura dos Browning, Keats, Ruskin, Shakespeare, Thomas Browne e outros, dizem muito da mulher em construção. Alguém que já nesse tempo era sensível às questões do abolicionismo e do feminismo.

Quando morreu, vítima de problemas renais, Dickinson (então com 55 anos) era desconhecida fora de Amherst. Em vida publicou pouquíssimo: hermeneutas e biógrafos dividem-se entre um mínimo de seis e um máximo de onze poemas, muitos deles em versões que não coincidem com a fixação definitiva do texto. Lavinia, a irmã, ficou atordoada com os mil poemas que encontrou no quarto de Emily; e ainda não sabia que havia mais seiscentos na posse de Susan Gilbert. É então que entram em cena Higginson e Mabel Todd, editores de um florilégio de cento e quinze poemas: Poems by Emily Dickinson (1890). A edição omite versos de vários poemas, acrescenta-lhes títulos, substitui palavras, altera a pontuação, trunca opções métricas e rítmicas, suprime os travessões e as maiúsculas e “regulariza” a sintaxe. Tudo em favor do “gosto dominante” e do que era expectável de uma mulher. Só em 1955, com o apoio da Universidade de Harvard, Thomas H. Johnson começou a publicar os três volumes da edição crítica: The Poems of Emily Dickinson (em 1960 saiu uma edição condensada em volume único). A partir daí, o lugar de Dickinson tornou-se indisputável.

Um dos aspectos mais interessantes da poesia de Dickinson prende-se com o conceito de autoria: «uma pessoa suposta». O episódio da carta (não assinada) que enviou a Higginson em Abril de 1862, acompanhada com um cartão onde escreveu o nome, antecipa de forma veemente o Mallarmé de 1867, o T. S. Eliot de 1922 ou o Pessoa de 1931.

Seria ocioso inventariar os méritos do trabalho de Ana Luísa Amaral, nele incluídos, além da magnífica tradução, o posfácio e o cuidado editorial: cronologia, recepção de Dickinson em Portugal, bibliografia, índices. As bolandas que o espólio sofreu até ser doado em 1950 à Universidade de Harvard, são minuciosamente descritos e fundamentados no posfácio.

Uma antologia exemplar.


Sugar o mundo à janela, in Ípsilon, 27-8-2010, p. 36. Cinco estrelas.

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Quinta-feira, Agosto 26, 2010

OUTING


Ken Mehlman, director das campanhas de Bush, saiu do armário. Sem subterfúgios: It's taken me 43 years to get comfortable with this part of my life. [...] The process has been something that's made me a happier and better person. It's something I wish I had done years ago.

E nós por cá? Nós por cá jogamos aos paus nas dunas do Abano, vamos com a família à missa e dizemos mal dos gays, essa cáfila.

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HOJE OS CIGANOS. E AMANHÃ?


A cada dia que passa o absurdo alastra. Cinco países da União estão a expulsar ciganos romenos dos seus territórios: Alemanha, Dinamarca, França, Itália e Suécia. O caso francês é mais discutido pela ênfase dos números (oito mil pessoas) e pela personalidade mediática de Sarkozy.

A discriminação começou no dia em que a Roménia e a Bulgária foram aceites no Clube dos 27. Para suster a emigração de ciganos, a UE paga por ano, à Roménia, quatro mil milhões de euros. Em acumulação, é exigido (em doze países) aos ciganos contrato de trabalho para poderem circular na Europa limpa. Acontece na Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Malta, Noruega, Reino Unido e Suécia. Como sempre, a desculpa é a ruptura iminente do Estado Social. Isto não augura nada de bom. Hoje são os ciganos. E amanhã?

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Quarta-feira, Agosto 25, 2010

ADOP SOB O SIGNO DE YEZHOV


O Francisco disse o essencial:


«[...] Havia aqui um problema: os objectivos definidos num hipotético contrato entre Queiroz e a FPF tinham sido cumpridos — ultrapassando a fase de grupos, lá está. Podia a FPF despedir Queiroz se “os objectivos” tinham sido cumpridos? Não. [...] Se a selecção tivesse chegado um nadinha mais longe, quem não teria ido (a pé, em pagamento de promessas, arrastando-se pelo calor) à Covilhã para insultar a autoridade anti-doping? Se a selecção tivesse chegado às meias-finais, então — fuzilar-se-iam os cavalheiros do anti-doping, esses antipatriotas que tinham ousado visitar a nossa querida selecção no seu remanso de estágio e sestas com playstation. Se a selecção tivesse chegado à final, não só se fuzilariam os técnicos do anti-doping como, além disso, o seu presidente todo-protegido seria arrastado pela lama e entregue aos espanhóis para ser esquartejado, além de serem distribuídas vitaminas proibidas a todos os jogadores e às suas famílias — e Queiroz seria, mais uma vez, condecorado. Acontece que era preciso despedir Queiroz — provavelmente com a única justa causa que o futebol conhece: o futebol da selecção foi uma merda. Mas, tolhidas legalmente, as autoridades da bola alinharam no inquérito às caralhadas do seleccionador. Não se despedia por causa do futebol, mas despedia-se por causa do dicionário, dando uma lição de cavalheirismo e boa gramática (olha quem) ao país. Portanto, avisavam-se as famílias de que Queiroz, por detrás daquele discurso habitualmente com ditirambos, mas reunido à volta de sujeito, predicado & complemente directo, era (além de vilão) um perigo para a moral, para a etiqueta e para os seus filhos e filhas. Salvo erro, isto é uma canalhice das grandes. [...] as brigadas de anti-doping, pelo poder discricionário que detêm, pela ameaça invisível que constituem e, sobretudo, pela protecção de que dispõem, são tudo menos apreciadas (basta ver como detêm um poder que ultrapassa todas as leis comuns). Além do mais, está já praticamente esclarecido que a brigada anti-doping agiu com arrogância, desrespeito pela condição dos atletas e pelo papel do seleccionador. [...] Em vez disso, medricas, com os cofres controlados e a vontade de fazer asneira como é seu apanágio, cairam na cilada e contribuíram para armar uma sequência de processos, inquéritos, investigações, inquirições e trapalhadas sobre uns “nefandos acontecimentos” de Maio passado (tornados públicos através de uma “fuga de informação” desastradamente ensaiada por um membro do governo), que dão uma bela ideia desta gente que aprecia despudoradamente o poder. Além disso, ensaiam um castigo por delito de opinião, uma vergonha num país civilizado. Mesmo prejudicando (e grandemente) a selecção, ou lá o que é. Transformaram Queiroz no vilão que apetece defender para lá do razoável.»


A partir daqui, tudo o que possa acrescentar é supérfluo.

Mas convém dizer que vamos de surpresa em surpresa. Em 2002, o país descobriu estupefacto que milhares de cidadãos andavam a ser escutados, Presidente da República incluído. (Estão com certeza lembrados do famoso Envelope 9, contendo suporte informático com informações detalhadas do tráfego telefónico de titulares dos principais órgãos de soberania.) Agora, uma denominada Autoridade Antidopagem de Portugal deliberou avocar o processo contra Queiroz. Frustrados com a decisão (um ano de suspensão e mil euros de multa), os membros da ADoP tomaram conta do caso, propondo nova sentença. A partir daqui tudo é possível. Não faltam candidatos ao lugar de Nikolái Yezhov.

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SALÁRIOS


Como anda muita gente preocupada com os salários dos gestores, aqui fica, para comparação, a lista dos apresentadores de televisão mais bem pagos do país, segundo dados oficiais:


40 mil euros mensais

Manuel Luís Goucha / TVI

35 mil euros mensais

Fátima Lopes / TVI

25 mil euros mensais

Catarina Furtado / RTP
Cláudia Vieira / SIC
Cristina Ferreira / TVI
Júlia Pinheiro / TVI

21 mil euros mensais

Fernando Mendes / RTP

20 mil euros mensais

Diana Chaves / SIC
Jorge Gabriel / RTP
José Carlos Malato / RTP

10 mil euros mensais

João Manzarra / SIC


[Ao alto, Goucha e Cicciolina.]

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Terça-feira, Agosto 24, 2010

ACUMULAR PONTOS


A Liga dos Combatentes anda em polvorosa com estas afirmações de António Lobo Antunes:


«No meu batalhão [em Angola] éramos 600 militares e tivemos 150 baixas. Era uma violência indescritível [...] Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. [...] E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava, e como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros.»


Por causa delas, a direcção da Liga escreveu uma carta aberta ao escritor. O melindre peca por tardio. Afinal, Lobo Antunes disse o que disse numa entrevista concedida a João Céu e Silva, publicada em livro em Setembro do ano passado, e aqui recenseada.

Carlos Matos Gomes, tenente-coronel na reserva e autor de alguns dos melhores livros sobre a guerra colonial (entre eles Nó Cego, de 1982, assinado sob pseudónimo de Carlos Vale Ferraz), é uma das vozes que interpela directamente Lobo Antunes sobre a controversa questão dos pontos.

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Segunda-feira, Agosto 23, 2010

OUVIDO NUMA LIVRARIA IN


— Há quanto tempo, dona Camélia! Então e os rapazes?
— O Rolandinho acabou o curso, já exerce; o Artur deixou os estudos, foi trabalhar para Espanha.
— Mas ao menos tem emprego?
— O pai não acredita, mas ele diz que sim. Quando acabar o dinheiro da avó é que vamos ver.
— A sua sogra morreu?
— No Natal! Sufocou com uma noz pecan entalada na garganta. Sabe lá... Estragou-nos a semana.
— Que maçada!
— Graças a Deus o Rolandinho não nos dá preocupações.
— Ele estava em obstetrícia, não estava?
— Urologia.
— É quase a mesma coisa!
— Não é bem, embora o Rolandinho só faça feminino.
— Então porquê?
— O pai deixou-o tirar urologia com a condição de só fazer feminino. Do modo como as coisas estão — está a ver aquele ali de ombros epicenos? —, o pai não o queria a meter o dedo no cu dos chuchas...

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Domingo, Agosto 22, 2010

CITAÇÃO, 290


Filipe Nunes Vicente, Há cerco, mas não há coluna, sublinhado meu:


«No actual PSD. Uma coluna direita, sólida. Talvez feia, talvez pouco sorridente. Bastou uma sondagem desfavorável e voltaram a dedicar-se aos exercícios de ordem unida; entre as tendas e as celhas com roupa são muito bons, tal como nas piadolas dos blogues. A guerra é que não é com eles. Estes improváveis sitiantes dizem aos sitiados: se não abrem as portas, levantamos o cerco. De certa forma compreende-se; ao fim de todo este tempo, alguém lhes ouviu uma ideia sobre política de defesa, de educação ou de ambiente? Claro que não: táctica & ambição desmedida. Solo.»

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Sábado, Agosto 21, 2010

CITAÇÃO, 289


Vasco Pulido Valente, A educação do chefe, hoje no Público. Excertos:


«[...] E quem vê Pedro Passos Coelho com o seu papel, a sua caneta e a sua fatal inexperiência, pergunta logo (e, se não pergunta, devia perguntar): quem o aconselha? [...] Ora, tirando Paulo Teixeira Pinto, em matéria constitucional, não se sabe quem o aconselha.

[...] Não quero acreditar que Ângelo Correia, Luís Filipe Menezes, o extraordinário Vasco Rato e o já citado Teixeira Pinto sejam os cérebros privilegiados com quem ele conta. Até o lamentável António Guterres percebeu a tempo que precisava de uma outra ordem de colaboração e, bem ou mal, lá foi fazendo o congresso a que ele chamou “Estados Gerais” [...]

Se Pedro Passos Coelho juntasse à sua volta duas dezenas de pessoas com prestígio público e provas dadas, para o aconselhar na economia, na justiça, na saúde, na educação ou no que ele entendesse conveniente, definiria melhor a sua orientação geral de governo
[...] e com certeza que inspirava uma confiança mais sólida e justificada. [...] Mas Passos Coelho tem de educar os portugueses (reconheço que é uma tarefa desesperada) e, sobretudo, tem de se educar a si mesmo. E não é Ângelo Correia que, nesse ponto, o irá ajudar.»

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Sexta-feira, Agosto 20, 2010

GONE WITH THE WIND?


O estardalhaço à volta da retirada americana do Iraque é simplesmente ridículo. Desde logo por não haver retirada. O que se passa foi que começou anteontem a desmobilização de alguns efectivos militares, operação que decorrerá até 31 de Dezembro de 2011. Mas nos próximos 16 meses tudo pode acontecer.

A partir do próximo dia 30, a ocupação americana do Iraque deixa de chamar-se Operação Liberdade Iraquiana para passar a chamar-se Operação Nova Madrugada. Muito excitante. Christopher Hill, o antigo embaixador, diz o óbvio: Fica tudo na mesma. Se isto fosse com Bush, andava tudo aos pinotes. Como é com Obama, os media internacionais fingem que acreditam.

A partida dos soldados agora iniciada não significa sair do Iraque. Pelo contrário. Segundo o NYT, sete mil seguranças privados vão treinar (a partir do próximo ano) a polícia iraquiana e garantir a segurança das embaixadas, consulados e outras instalações diplomáticas. Estes seguranças têm carta branca para operar com radares e todo o tipo de armamento, fazer voos de reconhecimento e, em caso de necessidade, apoiar civis. Estamos a falar de um exército informal.

Como disse alguém, isto ainda só agora começou.

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Quinta-feira, Agosto 19, 2010

SOL NA EIRA E CHUVA NO NABAL


Vai por aí uma onda de comoção com a expulsão de 200 militantes do PS (o único conhecido da opinião pública é Narciso Miranda) acusados de, nas eleições autárquicas, terem concorrido em listas contra o PS. Parece óbvio. Por muito menos Helena Roseta foi expulsa do PSD. Ou já se esqueceram?

O assunto não vale um chavo. Sucede que foi ontem publicado em Diário da República um acórdão do Tribunal Constitucional negando provimento ao recurso interposto por José Serrão, Paulo Marques Pereira e Paulo Vilafanha, três militantes do PSD expulsos do partido no passado 9 de Abril, acusados de candidatura adversária das apresentadas ou apoiadas pelo PSD. O que dizem os juízes do TC? Isto: «Compete às organizações políticas a aplicação de sanções disciplinares [desde que esteja em causa] a infracção de normas em matéria de disciplina interna.» Claro como água.

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Quarta-feira, Agosto 18, 2010

BRINCAR COM COISAS SÉRIAS


O desemprego afecta quase 600 mil pessoas em Portugal, metade das quais há mais de um ano (e metade dessa metade há mais de dois). É um flagelo.

A esse respeito, os partidos da oposição foram ontem derramar lágrimas de crocodilo à televisão. Do lado do PCP e do BE a ladainha faz sentido. Na deles, nacionalizavam diversos sectores da economia e empregavam gente à força. OK.

Mas e o PSD, que até quer alterar a Constituição para liberalizar (ainda mais) os despedimentos? Se e quando o PSD for governo, e o sr. Relvas ministro de qualquer coisa, como vai ser? Estão preparados para empregar metade dos desempregados? Um terço que seja?

Pode-se ter políticas diferentes das do actual governo em muitas áreas, da educação à saúde, da justiça às obras públicas, da fiscalidade ao ambiente, etc. Em matéria de emprego, numa sociedade de mercado livre, não vejo como. O sr. Relvas, que ontem deu uma conferência de imprensa com ar compungido, deve saber.

O bom senso aconselha que não se brinque com coisas sérias.

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Terça-feira, Agosto 17, 2010

PINE CLIFFS

Segunda-feira, Agosto 16, 2010

UNIÕES PROMULGADAS


Cavaco Silva promulgou hoje a Lei da Assembleia da República que altera o articulado da Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio, que define o regime jurídico das uniões de facto. O Presidente da República havia vetado a 1.ª versão do diploma, devolvendo-o (24-8-2009) ao Parlamento. Agora, apesar das “reservas”, promulgou-o.

Relativamente ao articulado de 2001, a redacção actual da Lei contempla os unidos de facto com o regime jurídico aplicável aos casados em matéria de férias, feriados, faltas e licenças; arrendamento; fiscalidade e, em caso de morte de um dos cônjuges, ao direito a uma prestação (pensão de sobrevivência) mensal, bem como a protecção social na eventualidade de acidente de trabalho ou doença profissional.

Os direitos sucessórios continuam a ser um exclusivo das pessoas casadas.

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MANTA ROTA


O Pontal (como o Chão da Lagoa) é um rito de passagem. Que um partido como o PSD hipoteque o arranque da sua rentrée à festa algarvia diz muito da síndrome bipolar em que o partido mergulhou depois da morte de Sá-Carneiro.

Anteontem não foi excepção. Passos Coelho descobriu que é difícil, senão impossível, o diálogo com Sócrates. E pediu eleições. Tem bom remédio: apresenta uma moção de censura ao governo. Se conseguir que ela seja aprovada antes de 9 de Setembro, terá de convencer o Presidente da República a dissolver o Parlamento. Não é fácil. O mais provável seria Cavaco Silva convidar o PS (i.e., Sócrates) a formar novo governo. Mas vamos admitir que, num passe de mágica, tudo se resolve nas próximas três semanas a contento do PSD. Alguém no seu perfeito juízo acredita que, depois da iniciativa Mário Moreno, o povo vá trocar o certo pelo incerto? Mais: se as eleições fossem hoje, o PSD obtinha um score inferior ao de 2005. Não significa isso que o PS obtivesse a maioria absoluta. Significa apenas que seria acentuada a balcanização do Parlamento.

Ah! Como seria divertido ver o PSD a governar neste momento. E os bloggers pimpões dispostos a tudo para abocanharem as sinecuras que diabolizam. Um maná!

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Domingo, Agosto 15, 2010

A BOTA E A PERDIGOTA



Esta foto de Tiago Miranda fez ontem a capa do Expresso. Mostra o líder do PSD na casa de férias do Algarve, a ler o que parece ser uma lista telefónica. É sintomático (a vários títulos) que os responsáveis pelo marketing do maior partido da oposição tenham sentido a necessidade de mostrar Pedro Passos Coelho em pose decalcada daquela que o Correio da Manhã mostrou de Sócrates na semana passada: chaise longue, calção de banho, perna arqueada, leitura... Todo um programa! Para aqueles que dizem andar fartos do primeiro-ministro, não bate a bota com a perdigota.

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Sábado, Agosto 14, 2010

O BRIEFING


Com um terço do país a arder e centenas de famílias directamente afectadas pela calamidade (incluindo os relapsos que deviam ser imediatamente expropriados; mas isso são contas de outro rosário), o briefing do Presidente da República e do primeiro-ministro com os responsáveis da Autoridade Nacional de Protecção Civil irritou muita gente. E com razão. Dispenso-me de fazer o desenho.

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Sexta-feira, Agosto 13, 2010

ATÉ VÓS, Ó MAGREBINOS!


Veja o trailer de Le Fil, do tunisino Mehdi Ben Attia, com Antonin Stahly-Vishwanadan, Salim Kéchiouche e... Claudia Cardinale.

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MEMORABILIA ULTRAMARINA


Hoje no Público:


O que define um retornado? Existe uma literatura de retornados? Os franceses chamam pied-noir aos franceses naturais da Argélia, categoria que inclui Althusser, Camus, Derrida e outros. Nós inventamos o termo “retornado” para designar os colonos de Angola e Moçambique. Dos retornados da Guiné ou São Tomé ninguém se lembra. Cabo Verde não encaixa nestes parâmetros.

Realidades diferentes, de facto.

Em Angola, a luta entre os movimentos independentistas (MPLA, UNITA, FNLA) teve expressão urbana na Batalha de Luanda, que a 9 de Julho de 1975 mergulhou a cidade num banho de sangue. Como refere Tiago Rebelo, «Na população branca dissolveu-se de vez a ilusão de que seria possível ter um lugar no futuro de Angola.» (cf. O Último Ano em Luanda, 2008) Em consequência, o governo português organizou uma ponte aérea de proporções homéricas: durante 140 dias, entre 17 de Julho e 3 de Dezembro de 1975 (a independência de Angola, a 11 de Novembro, não estancou o êxodo), centenas de aviões evacuaram para Portugal meio milhão de refugiados. A sociedade portuguesa não voltaria a ser a mesma.

A ponte aérea é o tema do livro de Júlio Magalhães, Os Retornados. Um amor nunca se esquece (2008), inspirado no caso verídico de uma hospedeira da TAP que fez onze voos em duas semanas. Como metáfora, é impressiva a imagem de um país a ser escoado de avião.

Em Moçambique, a tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974, gorada ao fim de quatro dias, provocara a fuga de milhares de secessionistas para a África do Sul e a Rodésia. Quase nenhuns os que vieram para Portugal, onde a política do MFA era objecto da sua ira. Testemunha próxima dos acontecimentos, Ricardo de Saavedra escalpeliza o golpe e respectivas sequelas em duas obras de indiscutível interesse histórico: Aqui Moçambique Livre (1975; o título apropria-se do nome do movimento rebelde) e o romance Os Dias do Fim (1995; edição revista em 2008). Isto para dizer que, ao contrário de Angola, a saída dos portugueses de Moçambique fez-se à revelia das autoridades portuguesas, por iniciativa e risco dos interessados.

Feito o intróito, vejamos de que modo esta literatura do eterno retorno fixou o destino das populações deslocadas.

Ao boom da literatura da guerra colonial, tema a que o ÍPSILON dedicou dossiê (4-4-2008), seguiu-se a publicação de livros que fazem o inventário dos dias de vinho e rosas vividos nas “províncias ultramarinas”, com enfoque em Angola. Sem a pretensão de ser exaustivo, destacaria, além dos citados, os livros de António Trabulo, Retornados — O Adeus a África (2009), e Manuel Acácio, A Balada do Ultramar (2009). Denominador comum, vénia a um mundo desaparecido.

Vista do Índico, a borrasca imperial tem outros matizes. As suas balizas são eloquentes: A Sombra dos Dias (1981), romance autobiográfico de Guilherme de Melo, sobre cinquenta anos da vida de uma família em Moçambique; e o corrosivo Caderno de Memórias Coloniais (2009), de Isabela Figueiredo. Quando A Sombra dos Dias chegou às livrarias, a opinião pública portuguesa não estava, como está hoje, receptiva a memórias coloniais. Muito pelo contrário. A crítica de referência ignorou o livro, o que não impediu fortuna de público, traduzida em sucessivas reedições.

A partir da sua experiência pessoal (círculo familiar, homossexualidade, carreira jornalística, inflexão ideológica, amizades, ligações amorosas) Guilherme de Melo faz um tour d’horizon ao modo de vida moçambicano e à sociedade laurentina em particular. A nostalgia é temperada pela consciência dos factos, sem cedências de natureza “passadista”. O que não é de admirar, se nos lembrarmos do primeiro romance do autor, As Raízes do Ódio (1965), que circulou livremente em Portugal mas foi retirado do mercado em Moçambique, onde a guerra de libertação tinha começado menos de um ano antes.

Ao contrário, Isabela Figueiredo faz o relato de uma menina de 12 anos acossada pela memória dos massacres de Setembro de 1974: «a negralhada perdeu o freio [...] chacinou, cega, tudo o que era branco». Também se lembra de ter visto os restos de um vizinho (desmembrado à catanada) espalhados no milheiral. Sobre a sociedade local, de que guarda recordações de infância, o discurso, mordaz, constrói um patchwork do que terá ouvido ou intuído em casa: «Os brancos iam às pretas. [...] As pretas tinham a cona larga e essa era a explicação para parirem como pariam, de borco, todas viradas para o chão, onde quer que fosse, como os animais. A cona era larga. A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque à cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido, e pouco, e com dificuldade, que elas eram muito estreitas, portanto muito sérias, e convinha que umas soubessem isto das outras.» Pela primeira vez, alguém questiona o mito da “multirracialidade”. Os retornados não gostaram, fazendo de Isabela Figueiredo um alvo a abater.

A falência do modelo de independência com que muitos colonos sonharam para Angola foi o detonador da literatura jubilatória que associamos à “saga” dos retornados. Isso é nítido nos livros de António Trabulo e Manuel Acácio. De certo modo também o é nos de Ricardo de Saavedra, mas o tom difere: lá onde Trabulo e Acácio tecem loas ao “paraíso perdido”, Saavedra regista com secura o atropelo dos dias: «Há pouco mais de uma hora saiu a primeira edição daquele que deve ser caso único na história da imprensa em língua portuguesa. Para explicar um jornal do povo, este Diário será paradigma. Redigido por profissionais que nunca trabalharam juntos, composto por linotipistas que só de vista se conheciam, montado e impresso por quem apareceu [...] sem artigos assinados ou nome de director, está agora a ser distribuído por populares que o anunciam como o jornal da liberdade.»

O traço distintivo destas obras é o de estabelecerem um contraponto entre a sociedade portuguesa, moldada pela política do Estado Novo, e o modo de vida de Angola e Moçambique, menos opressivo que na “Metrópole”. Não cabe aqui desenvolver o tema da colonização dos territórios de África sob administração portuguesa (a qual revestiu características diametralmente opostas em Angola e Moçambique), nem é essa a preocupação dos autores visados. No seu conjunto, são obras de fim de ciclo. Indiferentes ao juízo da História, os autores lamentam a perda de um mundo julgado imutável.

Vastos territórios, Angola e Moçambique designaram-se, sucessivamente, por Colónias (até 1951), Províncias Ultramarinas (1951-72) e Estados (1972-75; por força da revisão marcelista da Constituição que mudou a Lei Orgânica do Ultramar). O desenvolvimento económico (em Angola) e um cosmopolitismo pautado por costumes “anglo-saxónicos” (em Moçambique, país que faz fronteira com seis países de língua inglesa), deram origem a sociedades abertas. Forçados ao cinzentismo do Portugal dos anos 1970, os autores da memorabilia ultramarina tentam resgatar o brilho de um passado sem futuro. Isabela Figueiredo não poupa nos adjectivos: «A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. [...] Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho...»

Afinal, a maioria destes autores deixou África no início da adolescência. Isabela Figueiredo e Júlio Magalhães nasceram ambos em 1963, Manuel Acácio e Tiago Rebelo em 1964. Sem perceberem porquê, todos viram fugir a possibilidade de outro destino. Dos quatro, só Isabela não culpa o devir histórico. (O seu ressentimento é de outra índole.) São diferentes os casos de Guilherme de Melo (n. 1931), Ricardo de Saavedra (n. 1941) e António Trabulo (n. 1943), homens feitos quando o Império enfim ruiu.

Num país onde «tudo demora muito tempo a mudar» (cf. Caderno de Memórias Coloniais, 2009), o desencanto foi de rigueur. Nem outra coisa seria de esperar. Na síntese certeira de Guilherme de Melo, tinha secado «o esplendor da relva.»


Memorabilia ultramarina, in Ípsilon, 13-8-2010, p. 10. Ao alto, perspectiva de Lourenço Marques, i.e., Maputo, vista do mar. Clique na imagem para ver com detalhe.

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Quinta-feira, Agosto 12, 2010

RUY DUARTE DE CARVALHO 1941-2010


Morreu hoje em Swakopmund (Namíbia), onde vivia, o antropólogo e escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho. O autor de Vou lá visitar pastores (1999), narrativa sobre o povo kuvale, nasceu em Santarém, mas viveu quase toda a vida em Angola, tendo adoptado a nacionalidade angolana há mais de vinte anos. Várias vezes premiado, também escreveu poesia e ficção.

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DEDO NO GATILHO


O caso da herança Lúcio Tomé Feteira tem todos os ingredientes para uma boa história: Brasil, milhões, filha descontente com o testamento do pai, assassinato da amante do empresário falecido em 2000. É natural que os jornais explorem o assunto.

Rosalina Ribeiro, 74 anos, viveu com Tomé Feteira durante mais de 30 anos. Em Março de 2010, a justiça portuguesa reconheceu os direitos sucessórios. Entretanto, Rosalina foi assassinada com três tiros (em Dezembro de 2009), depois de ter jantado com Duarte Lima, seu advogado. Olímpia de Menezes, filha de Tomé Feteira, contesta o testamento. Ficou piursa quando soube que 80% da herança se destina à junta de freguesia de Vieira de Leiria, com o objectivo de criar uma Fundação com o nome do empresário. Aproveita para acusar Rosalina de desviar mais de 30 milhões de euros das contas do pai. Parte desse dinheiro (cinco milhões) teria sido transferido para uma conta de Duarte Lima, a título de honorários. Estamos a falar de um processo com dez anos. Aparentemente, estes são os factos.

A parte que eu não percebo é a sanha contra Duarte Lima. Não conheço Duarte Lima de lado nenhum, excepto de o ver na tv. Duarte Lima faz parte da clique cavaquista que, dizem as más-línguas, enriqueceu muito depressa. Nos anos 1980, o Indy foi-lhe às canelas por causa de uma quinta em Sintra, ou coisa parecida. Duarte Lima mandou a política às urtigas e sobreviveu a um cancro. Os media voltaram a ferrar os dentes. Duarte Lima (como Armando Vara, Oliveira Costa, Manuel Godinho, etc.) não tem pedigree. Tem muito dinheiro mas, para o eixo Lapa/Cascais, isso não chega. E os jornalistas “independentes”, sempre cautelosos em se tratando de gente da Quinta da Marinha ou da Quinta Patiño, já não tiram o dedo do gatilho.

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Quarta-feira, Agosto 11, 2010

DAR O BRAÇO A TORCER


Dou o braço a torcer: não temos informação livre! Nenhum jornal, rádio, televisão ou blogue disse o que salta à vista: do Tabuaço ao Bordalhame-de-Baixo os fogos andam a ser ateados por assessores do PS. Alguns até cometem blogues! Ainda agora identifiquei dois, mascarrados de pompiers. (Vai em francês porque um fez seminários com Lacan, dos quais nunca se refez; e o outro mantém um gancho na École Normale Supérieure.) Andamos nós a pagar impostos para isto! Para esta rapaziada andar de tocha acesa entre o Lux e o Andanças. Não pode ser! Que é dos colunistas sem medo do meu país?

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Terça-feira, Agosto 10, 2010

O FOLHETIM


O Público anda a publicar em folhetim o affaire Freeport. A iniciativa não tem sentido. 1) José António Cerejo não é Bob Woodward; 2) o jornal anda a repetir em prosa cinzenta tudo o que a concorrência divulgou (a cores) nos primeiros nove meses do ano passado; 3) excepto vinte bloggers e caterva de comentadores, ninguém quer saber do Freeport para nada. O plot atingiu um patamar de delírio tal em que ninguém sabe quem é quem. E as revelações do jornal não acrescentam nada que não se soubesse. Chicana por chicana, ao menos na TVI era em stereo.

O que me parece extraordinário é o blasé da Comissão de Carteira Profissional de Jornalista. José António Cerejo escreveu no jornal que a sua intervenção como assistente no processo teve como único objectivo obter informação. Fraude, portanto. Atento o comportamento de tanta gente (agentes judiciários incluídos), nada me espanta. Como precedente, não está mal.

Fico sentado à espera de novo(s) caso(s), visando gente do outro lado, em que um jornalista compincha resolva constituir-se assistente com o fito de martelar interditos. Quem sabe se para o julgamento de Oliveira Costa, imolado no altar do BPN. Nessa altura, aposto, colunistas conspícuos vão arrancar as vestes.

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ESBOÇO DA VIDA DE UM POETA


Ler no PNET Literatura a minha crónica Retrato de Alberto de Lacerda. O primeiro e o último parágrafo:


Num país sem tradição de biografias literárias, Luís Amorim de Sousa cometeu a proeza de fazer o retrato do seu amigo Alberto de Lacerda. Verdade que um retrato não é uma biografia, mas Às Sete no Sa Tortuga vai com certeza ser saudado como embrião de uma obra de maior fôlego.

[...] No momento em que a Assírio & Alvim e a Fundação Mário Soares dão à estampa os primeiros volumes da Colecção Alberto de Lacerda, sendo um deles O Pajem Formidável dos Indícios, colectânea inédita de poemas escritos entre Outubro de 1995 e Janeiro de 1997, neste momento, dizia eu, o retrato do poeta feito por Amorim de Sousa tem todas as condições para chamar a atenção para a obra de um poeta que foi sempre estrangeiro na sua própria terra.

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CITAÇÃO, 288


Francisco José Viegas, Vá lá. Excertos, sublinhado meu:


«Vamos lá. Andaram um ano a arranjar coragem mas valeu a pena. Está aí uma onda anti-Bolaño (tão ridícula como a onda absolutamente-Bolaño, concordo). [...]

Conheço-os há muito tempo. Nunca leram
O Nome da Rosa ou O Pêndulo de Foucault porque eram romances impingidos pela máquina infernal do marketing das editoras. Que a máquina infernal os leve a comprar iPhones e iPods, arroz basmati ou tofu banhado de espermicida, isso compreende-se. Mas um livro, foda-se. [...] Dão-lhes um livro de 1062 páginas? Isso não, um tijolo que pode estragar-lhes a digestão (devem ler grandes merdas, devem), puríssima e elevada, cheia de águas fosfatadas. Ficam cansados às primeiras páginas, coitadinhos (é o cérebro — o fosgluten não lhes chega em tempos de ressentimento), não estão para isso, e ainda por cima a máquina infernal dá-lhes forte no discernimento. Mas o problema é Bolaño.

[...] Um ano de ressentimento custa a curar. Ainda a Quetzal não tinha lançado 2666 e algumas das nossas melhores almas já manifestavam a sua preocupação. [...] Que uma pessoa leia um livro e o deteste, eu defendo que se deve levantar da mesa, do sofá, da cama – e condená-lo à poeira. Que um pobre chileno morto seja queimado em efígie só porque um bando de malfeitores ficou entusiasmado com um livro (ou dois, ou três, ou os que hão-de vir), e isso é motivo de desconfiança, só dá uma ideia do ressentimento banal.

Mas o mais penoso é ver como almas simpáticas de repente — à falta do chileno morto — procuram um inimigo a abater, um culpado dos seus livros. Porque tem de haver um culpado, uma mão invisível. Esta mania do Bolaño tem de ter um culpado. A ninguém ocorre, a nenhuma cabecinha, que o chileno — enquanto estava vivo e bebia — apenas escreveu esses livros (não gostar deles, já o disse, é uma coisa; fazer de
virgem literária é outra) e não conspirou para minar a sagrada estabilidade das suas digestões. Bolaño é odioso porque os jornais falaram dos seus livros e porque muitos leitores o leram e se surpreenderam? Não é grande novidade nas nossas províncias. Mas deixem o homem em paz. Guardem o Index para mais tarde


[Ao alto, Jimmy Page emborcando Jack Daniels na companhia de outros Led Zeppelin, banda que Bolaño muito apreciava.]

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Segunda-feira, Agosto 09, 2010

HOJE DEVIA TER ACORDADO ASSIM


Devia mas não foi.

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Domingo, Agosto 08, 2010

TONY JUDT 1948-2010


Vítima de uma variação da esclerose lateral amiotrófica (ELA), ou doença de Lou Gehrig, o historiador Tony Judt morreu anteontem, aos 62 anos. A notícia foi divulgada ontem à noite. Não sei se era o maior historiador do século XX. Sei apenas que era o meu preferido. Ler aqui o obituário do NYT.

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MEMORIES



Ocupado com um trabalho sobre as antigas colónias, dou de caras com estas duas fotografias da Lourenço Marques do tempo dos meus pais e avós. Ao alto, o Teatro Gil Vicente; em baixo, o Teatro Varietá.


[Imagens: João dos Santos Rufino, Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique, vol. III, Lourenço Marques, 1929.]

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Sábado, Agosto 07, 2010

O CAPINZAL


Ouço na televisão uma décoratrice a debitar sobre a reciclagem de um capinzal na charneca da Caparica: «Partimos do elemento piscina para reforçar o elemento água e assim atingir o conceito zen.» Ao pé disto, o Correio da Manhã é Chaucer vertido em português vicentino.

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Sexta-feira, Agosto 06, 2010

ABSOLUT REYKJAVIK


The mayor of Reykjavik has dressed up in drag to mark the opening of the Icelandic capital's gay pride festival. Ler aqui. Clique na imagem.

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GERMANO ALMEIDA


Hoje no Público:


Ponto de partida: as desrazões da prisão de António de Barros Bezerra de Oliveira, acusado de autoria moral do assassinato de João Vieira de Andrade, ouvidor-geral das ilhas de Cabo Verde. Bezerra de Oliveira e nove cúmplices foram presos em Santiago, trazidos para Lisboa, julgados e condenados à morte. Depois de enforcados, as suas cabeças foram cortadas e levadas para Santiago, espetadas em chuços erguidos e exibidas ao povo na vila da Praia, «para mostrar a todos o que tinha sobrado». Estamos em 1764, sob o iluminismo do Marquês de Pombal.

História, portanto. Germano Almeida (n. 1945) prefere chamar-lhe narrativa histórica, assim se defendendo dos historiadores ortodoxos. Diz o autor, logo a abrir, que A Morte do Ouvidor não foi escrito para ser um romance, «ainda que tenha esperança de que seja lido como se o fosse.»

Germano Almeida é o mais notável escritor caboverdiano, juízo consensual desde 1989, ano em que publicou O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo. Os que não ficaram logo convencidos renderam-se em 2001, com a trama desbocada daquele que continuo a considerar o mais conseguido dos seus romances, As Memórias de um Espírito. Isto para dizer aos neófitos que o autor não cabe na prateleira do romance histórico, por muito que A Morte do Ouvidor cumpra vários dos seus protocolos, a começar pelo crédito das fontes canónicas.

Facto é que, sob o pano de fundo da história social e política de Cabo Verde no século XVIII, Germano Almeida compõe um fresco idiossincrático dos costumes das ilhas. O “caso” Bezerra de Oliveira foi um pretexto, sob a forma de homenagem a alguém que «não merece ser humilhado pelo poder dos homens». Tanto assim é que o autor não se inibe (e bem) de adulterar a realidade histórica, a benefício da arquitectura ficcional. Quem leu Viagem pela História das Ilhas (2003) sabe do que falo.

Como de regra, português e crioulo bem calibrados, no estilo pessoalíssimo de quem gosta de discretear sobre si e os outros, deitando mão de todos os recursos narrativos (mesmo o de convocar personagens de outros livros, casos de Eva e Luís Henriques), da desenvoltura coloquial à subtileza do insert para iniciados. Do fim do tempo, nítida como se fora hoje, surge a Cidade Velha, actual Ribeira Grande de Santiago. O narrador falando a partir do tempo presente: «Numa terra onde qualquer gato-pingado tem um Prado, um Touareg, Toyota, ou pelo menos um carro de fazer inveja...»

O despotismo esclarecido de Pombal e o engodo da multiculturalidade de Vieira “explicam” a Companhia do Grão Pará e Maranhão, à qual é «concedido em exclusivo o privilégio de resgatar escravos nas costas de África, introduzi-los nas capitanias que dão nome à empresa, e vendê-los pelos preços que forem ajustados...» Nenhuma novidade em associar o padre António Vieira ao tráfico de escravos, mas é sempre bom lembrar.

Bezerra de Oliveira, executado aos 38 anos, coronel de Infantaria, cavaleiro da Ordem de Cristo, governador de armas, juiz da Câmara da Ribeira Grande, etc., era «apelidado Príncipe de Cabo Verde e também rei da ilha de Santiago.» Não custa admitir que tenha estado na origem da conjura que levou à morte de João Vieira de Andrade, o ouvidor-geral, ou seja, o auditor da Coroa. O que terá reportado de tão grave o desembargador? Traição à Coroa? Afronta à Igreja? Corrupção? Desvios aos costumes? Um pouco de tudo? Dependendo do ponto de vista, herói ou vilão. Seja como for, os poderes fácticos de Cabo Verde sentiram a extensão do braço de Pombal.

Germano Almeida não esconde a simpatia pela figura de António de Barros Bezerra de Oliveira. Assim, quando lhe chegou às mãos uma separata da sentença de condenação do homem que terá estado por trás da execução do ouvidor-geral (cargo que ele próprio ocupou até ser preso), fez o que era esperado que fizesse: pôs tudo em registo ficcional, de forma a alargar o âmbito da estória ao patamar da História. Ainda bem.


Ouvir além da conta, in Ípsilon, 6-8-2010, pp. 43-44. Quatro estrelas.

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Quinta-feira, Agosto 05, 2010

POST SEM MORAL NENHUMA


O que é que leva alguém, que não tem fama de rufia, a escrever um disparate deste calibre? Os blogues estão cheios de gente capaz disto e de pior, mas não tinha o Rodrigo Moita de Deus na conta de alucinado.

Estou a chover no molhado, porque dentro e fora do 31 já o chamaram à razão. Mas gostava de saber onde é que V. foi descobrir que Manuel Teixeira-Gomes, «eleito Presidente da República e em exercício de funções [...] fugiu com um amigo para o norte de África»?

Manuel Teixeira-Gomes, escritor dos mais notáveis do século XX português, ministro plenipotenciário em Londres (1911-18 e 1919-23) e Madrid (dois meses em 1919), Presidente da República (1923-25) forçado a resignar para não trair as normas constitucionais, exilou-se de livre vontade em Dezembro de 1925, mas só em 1931, ao cabo de muitas voltas europeias, fixou residência no norte de África, concretamente em Bougie, na Argélia, onde viveu até morrer.

Mesmo que, como afirma o post de Rodrigo Moita de Deus, Teixeira-Gomes tivesse ido para a Argélia com um amante (o que não corresponde aos factos conhecidos), abandonando mulher e filhas, estava no seu pleníssimo direito, uma vez que resignou ao cargo de Presidente da República a 11 de Dezembro de 1925.

Pode a sua obra literária ser lida à luz da corrente uranista? Pode. Mas em que é que isso belisca a conduta inatacável do diplomata e político que foi?

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EXCLUSÃO IRRACIONAL


Os direitos não se referendam. Por isso, de nada serviu o referendo que em Novembro de 2008 reformulou a Carta Magna da Califórnia, definindo o casamento como a união entre um homem e uma mulher. O juiz Vaughn R. Walker foi claro: «A norma é contrária à Constituição dos Estados Unidos por violar o princípio da igualdade. A exclusão dos casais homossexuais do casamento não tem simplesmente qualquer relação racional com um interesse legítimo do estado.» Claro como água.

As 138 páginas do acórdão podem ser lidas aqui. Em matéria de opinião, este artigo de Linda Hirshman é imprescindível.


[Foto de Carlos Avila Gonzalez para The Chronicle. Gays festejam a decisão do juiz.]

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Quarta-feira, Agosto 04, 2010

O MP


A polémica com o Procurador-Geral da República está para lavar e durar. A direita e o BE não gostam de Pinto Monteiro. Os colunistas, jornalistas e bloggers que não gostam de Sócrates também não gostam de Pinto Monteiro. Os sindicatos de magistrados (uma contradição nos termos) ainda gostam menos.

Por seu turno, Pinto Monteiro não está satisfeito com as funções inerentes ao cargo que ocupa. Cheio de razão. Excepto numa coisa: não o devia ter aceite.

Ao fim de 36 anos já toda a gente percebeu que o Ministério Público, nos moldes em que funciona, apenas serve para criar instabilidade. (Os iluminados do Direito escusam de reivindicar o quintal. Eu não abro a boca quando os vejo debitar sobre Virginia Woolf ou Saul Bellow.) Um pequeno detalhe: a hierarquia do MP é nomeada pelo Conselho Superior, órgão composto pelo PGR e outros dezoito membros: sete cooptados pelos seus pares, cinco em representação da Assembleia da República, dois escolhidos pelo ministro da Justiça, e os quatro procuradores-gerais distritais. Um colégio de 18 eminências, presidido pelo PGR. Isto gera um equilíbrio de compromissos que não agrada a ninguém. Faz sentido? Não faz.

A famosa revisão da Constituição tem aqui terreno para emendar a mão. Por exemplo, passando a proibir a existência de sindicatos dos magistrados do Ministério Público e dos juízes, como defende o constitucionalista Jorge Miranda.

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Terça-feira, Agosto 03, 2010

CITAÇÃO, 287


Pinto Monteiro, Procurador-Geral da República, em entrevista ao Diário de Notícias, hoje. Excertos, sublinhado meu:


«Durante os quase seis anos em que o processo se arrastou, os investigadores ouviram quem quiseram, como quiseram e onde quiseram. Não há nenhuma explicação credível para não ter sido ouvido quem quer que seja [...] Acresce que o prazo limite foi proposto pela senhora directora do DCIAP e podia ter sido prorrogado, bastando para isso que a prorrogação fosse requerida.

[...] é absolutamente necessário que o poder político (seja qual for o governo e sejam quais forem as oposições) decida se pretende um Ministério Público autónomo, mas com uma hierarquia a funcionar, ou se prefere o actual simulacro de hierarquia em que o procurador-geral da República, como já vem sido dito, tem os poderes da Rainha de Inglaterra e os procuradores-gerais distritais são atacados sempre que pretendem impor a hierarquia. É imperioso que se diga que modelo se deseja para o País: se um sistema em que o Sindicato quer substituir as instituições ou um Ministério Público responsável. É preciso que sem hesitações se reconheça que o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público é um mero lobby de interesses pessoais que pretende actuar como um pequeno partido político. É essa a questão que o poder político deve esclarecer de forma inequívoca, não sendo lícito defender uma posição enquanto poder e outra enquanto oposição


[Na imagem, a rainha Isabel fotografada por Annie Leibovitz. Clique porque vale a pena.]

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CITAÇÃO, 286


Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, hoje:


Os procuradores Vítor Magalhães e Paes Faria... «estão a chamar estúpido ao povo português quando alegam falta de tempo para não terem inquirido o primeiro ministro. [...] Encerram o inquérito e têm lá 20 e tal perguntas que dizem que não puderam fazer por falta de tempo. Isso é chamar estúpido ao povo português. [...] O processo Freeport nasceu contra uma pessoa, de uma denúncia que era anónima, mas não era anónima, que foi combinada, e ao fim de seis anos essa pessoa que foi denunciada, acusada de tudo na comunicação social, não foi ouvida por nenhum investigador. Tudo isto só é possível porque os procuradores estão convencidos, aliás têm a certeza, de que podem fazer o que lhes apetece porque sabem que nada lhes acontece. Actuam como se fossem juízes, são totalmente independentes, cada um faz o que quer e não é responsável perante ninguém

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Segunda-feira, Agosto 02, 2010

ABSOLUT SILLY


As televisões andam há oito dias a martelar que os procuradores fulano e beltrano tinham 27 perguntas para fazer ao primeiro-ministro, no âmbito do caso Freeport, e que só não as fizeram por falta de tempo.

O cidadão pacato, que não quer saber do Freeport para nada (como 99,6% dos portugueses), tem a noção de que o processo andou aos trambolhões desde 2002. Pergunta: E ainda não despediram esses gajos? É que nas empresas onde de ordinário trabalham os cidadãos pacatos, não cumprir uma tarefa é motivo de despedimento com justa causa. Ou isso era antigamente?


Ler Ataque à diligência, de Valupi.

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Domingo, Agosto 01, 2010

CITAÇÃO, 285



Fernanda Câncio, Eduardo e Jorge, hoje na Notícias Magazine. O primeiro e o último parágrafo:


«Quando este texto for publicado, o Eduardo e o Jorge estarão casados. O Jorge e o Eduardo vivem juntos há mais de três décadas – mais casados que isso não se arranja – mas só agora, por força da alteração do Código Civil que entrou em vigor no início de Junho, tiveram a possibilidade de formalizar essa união. [...]

De alguma forma, o casamento do Eduardo e do Jorge é o primeiro da minha vida. Tinham razão, afinal, os que diziam que a lei aprovada a 8 de Janeiro no parlamento ia refundar a ideia de casamento: sem deixar de ser uma convenção e um formalismo e uma satisfação prestada à comunidade, reafirmou-se como essência de livre vontade individual e como gesto romântico. Parabéns, Jorge, parabéns, Eduardo, e obrigada – não é todos os dias que se partilha a celebração do amor


[Fotos de Paulo Simões Mendes. Clique para ver melhor.]

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