Se ainda não comprou a edição
hardcover de
Cidade Proibida, o romance que publiquei em 2007, pode obtê-lo hoje, grátis, adquirindo o
Diário de Notícias. O livro faz parte da Biblioteca de Verão do jornal — facto que terá incomodado alguns —, e saiu hoje em edição de bolso. Entretanto, veja o que disse a crítica:
Ana Cristina Leonardo,
Expresso, 2007
«Seria Bovary uma personagem mais interessante se Flaubert não fosse,
lui-même, Madame?
[...] O assunto tem a complexidade que lhe quisermos atribuir. Neste caso, vem a propósito da recente ficção de Eduardo Pitta,
Cidade Proibida, um livro ao qual anda por aí colado o epíteto de romance gay.
[...] Cidade Proibida é muito mais do que uma história de amor sem final feliz entre dois homens, mesmo sendo verdade que
the novel tells a story. Retrato de um meio social solipsista, cheio de gente enfatuada e cautelosa, o livro é uma assumida crítica de costumes
[...] No conjunto, é um texto rápido e nervoso, onde os desvios históricos (acompanhados de notas) reforçam uma filiação contemporânea, mas que peca por não levar mais longe o cinismo. Linguístico e filosófico. Teríamos um livro à medida do seu óptimo epílogo.»
Edgard Pereira,
Colóquio-Letras, 2008
«Em foco, o romance
Cidade Proibida, estreia produtiva de Eduardo Pitta na ficção de longo fôlego, decisiva contribuição à consolidação do relato de contorno gay em Portugal. A adesão à temática, de forte presença e espessura na produção poética do autor, vem na vertente ficcional desde a admirável trilogia de contos, intitulada
Persona [...] Sem incorrer em juízos morais, ao apresentar uma sucessão de burlas, hipocrisia, orgias e desrespeito a princípios éticos de liberdade, o narrador, contudo, não ignora os efeitos devastadores de pequenos sintomas de decadência a solapar os alicerces da sociedade ocidental.
[...] Ainda que seja ampliado o estatuto do narrador-editor, o congelamento dos dados históricos, culturais e psicológicos das personagens se, de um lado, aponta para uma abertura estrutural, convocando componente do texto dramático, por outro, trai a abertura ficcional, condicionando o leitor a aceitar um dado, cuja coerência, urdidura e pertinência verosímil caberia ao texto apenas desenvolver e demonstrar.
[...]»
Fernando Pinto do Amaral,
Jornal de Letras, 2007
«A publicação do primeiro romance de Eduardo Pitta representa uma novidade nos dois contextos em que se insere — o da ficção portuguesa contemporânea e o da própria obra do autor.
[...] Olhemos, então, para esta
Cidade Proibida e assinalemos desde logo um estilo pessoal, assente numa escrita ora muito directa e incisiva, por vezes mesmo abrupta, ora subtilmente irónica e com alguma tendência para o
understatement, mas sempre pronta a desferir os seus golpes a propósito da realidade portuguesa — uma realidade que o autor conhece bem, embora abordada muitas vezes a partir de um ângulo exterior ou “estrangeirado”
[...] o que transforma este livro numa obra relevante também no domínio da crítica social. Para assentarmos ideias, diria que talvez o maior mérito de
Cidade Proibida resida na articulação sempre fluida entre dois grandes propósitos nem sequer contraditórios: por um lado, o de analisar as características, os hábitos ou os vícios disso que, à falta de melhor nome, podemos designar por comunidade gay; por outro lado, o desejo de proceder a uma crítica, por vezes muito acutilante, de uma certa sociedade portuguesa tradicional e conservadora, ainda com traços fortemente elitistas, e cuja hipocrisia surge denunciada através da desconstrução de muitos comportamentos dos seus protagonistas.
[...] É todo este quadro mental que o romance de Eduardo Pitta vai dissecando com um bisturi cuja lâmina parece aguçada pelo olhar quase científico de um entomologista que nos estudasse como insectos, como se os nossos comportamentos sociais obedecessem a leis antigas, também elas quase biológicas, que no caso português levaram séculos a estabelecer-se e não se desfazem por decreto.
[...] Outros motivos poderia haver para lermos este romance diferente, que de certo modo só poderia ter sido escrito por alguém como Eduardo Pitta nesta fase da sua vida, transmitindo-nos as lições de uma experiência acumulada ao longo dos anos.»
Fernando Venâncio,
Aspirina B, 2007
«O primeiro grande romance gay da nossa literatura, acabou por escrevê-lo Eduardo Pitta.
[...] Haveria de ser Eduardo Pitta, com esta
Cidade Proibida, acabada de sair na QuidNovi. Do contista de
Persona poderia já esperar-se a façanha. Mas as grandes obras são sempre uma surpresa. O livro é um
must. E não só pela temática
[...] como sobretudo pela valente respiração de que o relato se toma. Os lugares, as épocas, os ambientes, tudo rodopia com nitidez, com embalo, com vertigem (só aqui e ali excessiva para a concentração comum, como a deste leitor), criando sabiamente expectativas, conferindo colorido a personagens e brilho a episódios. Assinale-se a crua limpidez do vocabulário erótico. Assinale-se, também, a abrupta e bem gerida inclusão, em existências queque, do elemento
bas fonds.
[...] De momento, basta esta
Cidade Proibida para encher as medidas.»
Henrique Raposo,
Expresso, 2008
«Acabei de reler o primeiro romance de Eduardo Pitta:
Cidade Proibida (Ed. QuidNovi). A impressão inicial mantém-se: do ponto de vista formal, este livro é uma raridade em Portugal. Pitta sabe contar uma história (neste caso, a relação atribulada entre Rupert e Martim). A fluidez narrativa — dominante em
Cidade Proibida — é a técnica literária mais difícil de encontrar na prosa portuguesa, ainda e sempre marcada por obscuras divagações metafísicas. Pitta tem outra característica invulgar entre nós: as suas frases são enxutas e limadas até ao limite. Pitta é um grande poeta, mas é na prosa que poderá marcar a diferença.
Cidade Proibida é um bom romance de alguém que revela potencial para escrever grandes romances.»
Helena Vasconcelos,
Público, 2007
«
[...] Será necessário falar da temática gay na obra de Eduardo Pitta? Podemos colocá-lo a par dos escritores canónicos que são analisados à luz desses estudos: Oscar Wilde, Thomas Mann, E. M. Forster, André Gide, Jean Genet, Christopher Isherwood, William Burroughs, Gore Vidal, Carson McCullers, James Baldwin, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, que se juntam aos contemporâneos David Leavitt, Jeanette Winterson, Sarah Waters, Jim Grimsley, entre muitos outros. Pitta aproxima-se do celebrado Allan Hollinghurst que ganhou o Booker Prize com
A Linha da Beleza, um clássico do género, onde se cruzam as tensões sociais, familiares, políticas, sentimentais e físicas (com o eclodir da Sida). De acordo com Richard Hall, autor de antologias de textos gay, este género mudou desde o fim da 2.ª Grande Guerra, passando de «
uma literatura da culpa e da desculpa para uma de desafio político e de celebração da diferença sexual». Pitta segue, decididamente, esta segunda tendência e tem, a seu favor, vastos conhecimentos de Literatura que entrelaça com habilidade na sua própria ficção. Mas enquanto que, basicamente, a trama de
Cidade Proibida, tanto poderia ser construída entre dois homens, duas mulheres ou uma mulher e um homem, a dos contos em
Persona é vincadamente e triunfantemente gay, muito mais excitante, vigorosa e reveladora. A obra de Eduardo Pitta é corajosa, desassombrada, inteligente, clara e escrita com paixão e sabedoria. É difícil, na Literatura Contemporânea, ler um bom livro em que se fala livre e fulgurantemente de sexo, do prazer erótico e da transgressão. E, também, da perda. Eduardo Pitta fá-lo com a mestria de um grande narrador.»
João Villalobos,
Blitz, 2007
«Com a homossexualidade como pano de fundo, Eduardo Pitta retrata neste romance singular uma Lisboa de privilegiados, onde o amor ocupa um lugar sempre periclitante.
[...] Com uma tessitura que atravessa mais de 40 personagens,
Cidade Proibida é uma história com muitas histórias lá dentro. Cada uma das figuras carrega com ela um passado, um meio, uma educação que as agrupa em famílias de sangue ou de afinidade, núcleos irredutíveis e protegidos por densas muralhas.
[...] Com um peso exagerado dos estrangeirismos compensado por um conhecimento profundo dos hábitos e costumes do meio que retrata, Eduardo Pitta não condescende com sentimentalismos ou redondilhas. O sexo é apresentado a cru, os tiques mostrados sem contemplação, a História portuguesa recente mencionada sem pruridos ou filtros de boa consciência. Por tudo isto, obra de “género” ou não, Cidade Proibida é um romance igual a poucos.»
José Mário Silva,
Diário de Notícias, 2007
«
[...] Eduardo Pitta é uma das vozes mais ácidas e contundentes do panorama cultural português dos nossos dias. Erudito e
blasé, polémico e sem papas na língua, atento à actualidade e rápido a reagir
[...] com um desassombro que lhe causa não poucos engulhos num meio habituado a mesuras, verniz e salamaleques. Embora a sua obra remonte a 1974
[...] estreou-se na ficção apenas em 2000, com
Persona [...] Uma coincidência que faz todo o sentido e não foi certamente fruto do acaso. Porque o que
Persona deixava antever é o que
Cidade Proibida confirma: a emergência de um narrador sólido, sem debilidades de principiante nem tiques de consagrado, capaz de contar uma história com precisão e lhaneza — coisa raríssima em Portugal. Além disso, há evidentes pontos de contacto entre as duas obras. Se
Persona era o retrato nítido, em três etapas bem marcadas no tempo, da formação da identidade homossexual de Afonso Cordes Sacadura, com a decadência do império colonial em Moçambique como pano de fundo e uma crítica explícita a dois universos repressivos (a escola e o exército), em
Cidade Proibida deparamos com um fresco ao mesmo tempo minucioso, cruel e desencantado da sociedade portuguesa contemporânea. Ou, para sermos mais exactos, de uma certa faixa da sociedade portuguesa: a
upper-class que vive fechada numa redoma
[...] É neste cenário etéreo que arquitecta a sua história de desagregação amorosa
[...] O que mais impressiona no romance de estreia de Pitta é a admirável desenvoltura da prosa (que se lê numa vertigem), a elegância estilística e o domínio das técnicas narrativas. Há um fio de acontecimentos que se sucedem na Lisboa do início do séc.
XXI, subtilmente marcados pela História (dos traumas coloniais ao 11 de Setembro), e uma série de
flahsbacks que se encaixam no
puzzle com uma justeza próxima da perfeição. O resto — e não é pouco — tem a ver com a coragem de escrever sobre sexo da forma mais gráfica possível, sem eufemismos, abrindo de vez o caminho para a afirmação de uma literatura homossexual
à la page com o que de melhor se publica lá fora, nomeadamente no Reino Unido (cf. Alan Hollinghurst). Não tenho dúvidas aliás de que
Cidade Proibida, se Pitta fosse inglês, seria facilmente candidato ao Booker. Mas será que teria (ou terá) hipóteses, em Portugal, de ganhar um merecido prémio da APE? Duvido muito.»
Lauro António,
Lauro António Apresenta..., 2007
«
[...] Mas haverá literatura gay? Oscar Wilde e E. M. Forster são literatura gay? E Somerset Maugham? E Jean Cocteau? Ou serão simplesmente literatura? Para mim basta-me que seja boa literatura, muito boa mesmo. Ora Eduardo Pitta surpreendeu-me em toda a linha. Li
Cidade Proibida de um fôlego, e não por ser gay, e não também pela história que conta, mas sobretudo pelo estilo, pela vertigem da narrativa, imparável, pelo toque blasé, mesmo um pouco snobe que impõe e mantém com uma frescura notável ao longo de toda a obra, e que relembra o magnífico dandismo de Oscar Wilde, aqui retocado por um
look muito pós-moderno. Óbvio que também se pode chamar à conversa o
Maurice, de E. M. Forster, mas curiosamente a escrita lembrou-me mais a de alguns escritores americanos da década de 90
[...] Há um gosto pelo rigor matemático na escrita que poderia ser fastidioso, mas funciona precisamente ao contrário, é exaltante. Não há muitos pormenores, a escrita corre ágil, mas há uma precisão insuspeitada.
[...] É evidente que temos de fazer uma referência ao teor homossexual do livro. Obras “maricas” é o que há cada vez mais. Escritas amaricadas, “poéticas”, como que a desculpar “a coisa” com o sentimentalismo balofo das “emoções em êxtase.” Aqui não há nada disso, esta é uma história de amor e sexo igual a qualquer outra, o realismo de certas situações quase faz esquecer que os amantes são do mesmo sexo. São pessoas que fazem sexo. Assumidamente. Sem má consciência. De resto as descrições deste tipo são as que são, as precisas, as indispensáveis, não se especula com o facto. Um excelente romance
[...]»