Sexta-feira, Julho 30, 2010

DONE!


Tornar público um acto privado é a melhor forma de agradecer a todos os que lutaram para que isto fosse possível. Bem hajam.

[Ao alto, intervenção plástica de Ana Vidigal sobre foto de 1975. Clique para ver melhor.]

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DINO BUZZATI


Hoje no Público:


A editora Cavalo de Ferro prossegue a divulgação do italiano Dino Buzzati (1906-1972), autor de uma obra muito vasta, que inclui poesia, romance, conto — género em que atinge maior conseguimento —, teatro, ensaio de arte, crónica e libretos de ópera. Em Portugal ainda vamos na ficção, estando publicados cinco títulos, entre eles os emblemáticos O Deserto dos Tártaros (1940) e A Derrocada da Baliverna (1957).

A ideia de uma máquina consciente, isto é, de um corpo artificial servindo de hospedeiro a uma mente humana, parece saída de Isaac Asimov, que acumulava literatura com a docência de bioquímica. Porém, num homem com a formação humanística de Buzzati, surpreende. E, no entanto, é esse o tema de O Grande Retrato, romance de 1960 que começou por ser publicado (sob pseudónimo) em fascículos semanais, na revista Oggi, em 1959.

Tem-se dito que O Grande Retrato sinaliza a chegada de Buzzati ao universo feminino. Dando de barato a misoginia do autor, tenho dificuldade em subscrever a tese. O facto de Un Amore (1963) ser posterior à proclamada inflexão, não autoriza tamanha ênfase. Mesmo porque uma história com epicentro numa investigação científica, reportando directamente a Silvio Ceccato (o filósofo e linguísta italiano que projectou um protótipo de inteligência artificial), tem o ponto de vista correlato. Suponho que os críticos se impressionaram com a descrição de Olga Strobele, que «rondava os vinte e oito anos, era esbelta, ruiva, pele branca pontilhada de sardas, olhos talhados em amêndoa, lábios salientes numa expressão ao mesmo tempo de oferta e de desdém, rosto atrevido, alegre e provocante, cintura delgada, pernas fortes e teimosas.» Com efeito, um retrato e tanto!

A máquina que pensa pode, no limite, devolver à vida a mulher do enigmático professor Endriade, essa espécie de replicante do Dr. Jekyll (cf. Stevenson) que Buzzati constrói, por intereposta Laura, em homenagem da mulher amada. Daí à focalização de género...

O receio de que um autómato possa esquivar-se às ordens do criador, pensando pela sua própria ‘cabeça’, inscreve-se com naturalidade no pensamento existencialista que marca a obra de Buzzati. Neste particular, o aspecto mais curioso é que O Grande Retrato antecipa em oito anos o Arthur C. Clarke de 2001: A Space Odyssey (1968). Isso sim, merece ser assinalado. Buzzati escreveu em 1959 sobre uma realidade a haver: «Em Abril de 1972, o professor Ermanno Ismani...». Afinal, nem todo o futuro começou do outro lado do Atlântico.

Contudo, aquilo que podia ser a originalidade discursiva dilui-se na retórica filosofante de quem pretende ilustrar a corrupção da alma: «Nessa altura irradiará da máquina uma potência espiritual que o mundo nunca conheceu, um fluxo irresistível e benéfico. A máquina lerá os nossos pensamentos, criará obras-primas, revelará os mistérios mais escondidos.» O quotidiano da «zona militar 36» (estamos no centro de uma operação militar de carácter secreto) pauta-se pela inverossimilhança. A lentidão narrativa e as convenções da linguagem obliteram qualquer hipótese de imprevisto. Mesmo quando supomos que as regras do thriller vão levar a melhor, uma sobrecarga de mise en scène faz desabar a arquitectura da cena. Sirva de exemplo o momento em que Endriade chama por Laura, há muito morta: «Alguém, ou algo, lhe responde. É uma espécie de estertor, que sai às golfadas de ignotos canais por toda a parte. Ondula, sobe, torna-se grito, resvala, dissolve-se em gemido, cala-se, regressa linear, explode, gorgoleja, tossica, esganiça...», etc. Não havia necessidade.


Laura e a máquina, in Ípsilon, 30-7-2010, p. 36. Duas estrelas e meia.

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ANTÓNIO FEIO 1954-2010


Morreu na noite passada um grande actor português.

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Quinta-feira, Julho 29, 2010

FAZ FALTA?


José Sá Fernandes, vereador do Espaço Público e Espaços Verdes da Câmara de Lisboa, quer abrir, até Março de 2011, seis quiosques com esplanada na Avenida da Liberdade: dois junto à Alexandre Herculano (chocolates, gelados, crepes, chás, cafés, saladas, frutas e sumos naturais), dois na zona da Rua das Pretas (vinhos, queijos, enchidos, cervejas e petiscos), e outros dois no topo dos Restauradores (tapas). Ou seja, quer transformar a Avenida da Liberdade numa tasca a céu aberto. O delírio vai no terceiro concurso público. Et pour cause.

Argumentar com Madrid, Paris, Roma, Veneza, etc., não leva a lado nenhum. Em qualquer das esplanadas da Praça de São Marcos, de Veneza (local onde, das dez da manhã às oito da tarde, nunca estão menos de cinquenta mil pessoas), uma bica custa 9 euros, um prosecco 10 e um gelado 12. Tudo onerado com um suplemento final, por conta do fundo musical (de Gershwin a Vivaldi) assegurado por pequenas “orquestras” de coreto. E nós por cá? Com a bica a 80 cêntimos, presumo que Sá Fernandes tenha em vista o esplendor de Ágata: «[...] Podes ficar com as jóias, o carro e a casa / Mas não fiques com ele. / E até as contas do banco, e a casa de campo, / Mas não fiques com ele. / Podes ficar com o resto e dizer que eu não presto, / Mas não fiques com ele. / Tira-me tudo na vida, e o mais que consigas, / Mas não fiques com ele. [...]»

Para não ir tão longe, fiquemos por Madrid. No Paseo de Recoletos, um bom equivalente da Avenida da Liberdade, existem, se não erro, três quiosques (sendo o mais bonito o El Espejo, que se pode ver ao alto) que devem ter inspirado o vereador que fazia falta. Mas Madrid tem o triplo da população de Lisboa e um poder de compra sem comparação com o nosso. Ninguém pestaneja quando lhe pedem 4 euros por uma bica.

Ou muito me engano, ou a CML prepara-se para substituir a tralha de Abecasis por tralha igual.

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Quarta-feira, Julho 28, 2010

SILLY SEASON


Por 7,5 mil milhões de euros, a PT vendeu hoje à Telefónica (espanhola) a posição que detinha na Vivo (brasileira). Boatos não confirmados garantem que a Golden Share foi passear ao jardim da Celeste. Entretanto, de acordo com um comunicado da CMVM, o pagamento será efectuado em três tranches: 4,5 mil milhões até ao fim de Setembro, mil milhões até ao fim de Dezembro, e os dois mil milhões remanescentes até 31 de Outubro de 2011. Em simultâneo, a PT celebrou uma parceria com a Oi, propondo-se adquirir (por 3,7 mil milhões de euros) 22,38% do capital da operadora brasileira.

A leitura do acórdão do processo Casa Pia foi novamente adiada, desta vez para 3 de Setembro. De facto, o 5 de Agosto apanhava todos os interessados a banhos.

Os jornais reportam a conclusão do Freeportgate (uma decisão que exclui acusações de corrupção activa ou passiva) com o tom nonchalant que dedicam aos roubos por esticão na Buraca.

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Terça-feira, Julho 27, 2010

ALTA FINANÇA EM TRIBUNAL


Soube-se hoje que Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal, Christopher de Beck e António Rodrigues vão mesmo a julgamento, acusados dos crimes de manipulação de mercado e falsificação de documentos. A acusação de burla qualificada não vingou.

Jardim Gonçalves, fundador e presidente do BCP, que está inibido de exercer cargos na área financeira durante nove anos, já havia sido condenado (em Maio) pelo Banco de Portugal a pagar uma coima de um milhão de euros por prestação de informação falsa relativa a dezassete offshores geridos pelo Millennium BCP.

A ver vamos.

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FREEPORTGATE


Ao fim de oito anos, o Departamento Central de Investigação e Acção Penal concluiu a investigação ao licenciamento do Freeport. Dos sete arguidos, dois (Charles Smith e Manuel Pedro) vão a julgamento, acusados de extorsão na forma tentada.

Lembrar os factos: tudo começou em 2002, mas o processo ficou na gaveta até às eleições legislativas de 2005. Nessa altura, o Independente tentou incriminar Sócrates. A documentação divulgada pelo jornal era apócrifa. (O inspector da PJ que a fez chegar ao jornal foi levado a tribunal, condenado e expulso da polícia. O Indy foi processado.) Gente ligada aos gabinetes de Santana Lopes e Paulo Portas envolveu-se em trambiques com o mesmo fim. Foram desmascarados. O Partido Socialista ganhou as eleições com maioria absoluta. Sócrates tornou-se primeiro-ministro. O Ministério Público deu o caso por encerrado. Em 2009, a TVI faz profissão de fé no assassínio de carácter de Sócrates. Gente ligada ao Sindicato dos Magistrados do Ministério Público desenterrou a investigação. E o caso voltou às primeiras páginas. Meses de folhetim, empolado pelo aproveitamento mediático das diligências da polícia inglesa, o juiz-presidente do Eurojust demitido (a ver vamos o resultado do recurso), reuniões em Haia e Londres, 666 alertas de Cândida Almeida sobre o fim do processo, buscas em escritórios de advogados, um speech do primeiro-ministro. O PS perdeu a maioria absoluta mas voltou a ser o partido mais votado e Sócrates formou o seu segundo governo.

Ainda não foi desta que a direita varreu Sócrates.

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COISAS QUE NOS FAZEM FELIZES


Contra a barbárie do calor.

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BOA CONSCIÊNCIA WIKI


O dossiê afegão divulgado anteontem pela Wikileaks mostra a guerra sem subterfúgios. Como de costume, o coro ocidental ulula de cólera com a revelação de ataques a civis, o perfil dos grupos especiais (TF 373 e outros), a duplicidade dos serviços secretos paquistaneses, etc. Como se a guerra do Afeganistão fosse a do Solnado: de um lado os bons (carpaccio no Zeno, filmezito na Cinemateca, o sono dos justos), do outro os maus da fita (violência indiscriminada, estupro incluído, até contra crianças). Pois, a guerra não é essa ficção bem comportada. Varsóvia, Londres, Coventry, Estalinegrado, Hamburgo, Berlim, Dresden, Hiroshima, Kigali, Srebrenica, Grozni, Nova Iorque, para só citar o óbvio, aí estão para nos lembrar o horror.

O horror não tem nacionalidade: ingleses, russos, ugandeses, tchechenos, alemães, portugueses, todos iguais. Apascentadas num oásis de paz (a Europa que vai do Atlântico a Viena), as gerações com menos de 50 anos compensam o sentimento de culpa — num mundo de facto em guerra, da Palestina ao Zimbabwe, da Somália a Caxemira — com a indignação Prêt-à-porter que distingue os netos de Marcuse. Quando Julian Assange diz que adora «esmagar patifes», está só a fazer o número Paris Hilton da boa consciência pequeno-burguesa.

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Segunda-feira, Julho 26, 2010

TUDO ISTO É FADO


Se Carlos Queiroz insultou os técnicos da brigada da Autoridade Antidopagem que há sete ou oito semanas se deslocaram à Covilhã para testar jogadores da selecção nacional, facto que deu origem à instauração de um inquérito prontamente remetido à Federação Portuguesa de Futebol, por que carga de água só agora, sete ou oito semanas passadas sobre o milando, o assunto chega à opinião pública?

A resposta é triste. Tivesse sido outro o resultado na África do Sul, e toda a gente engolia a irascibilidade do treinador. Tendo sido o que foi, não há cão nem gato que não dê pinotes por ter descoberto, tarde e a más horas, que Queiroz não é propriamente um eunuco.

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Domingo, Julho 25, 2010

ELES COMEM TUDO?


Morreram 19 pessoas e 340 estão feridas com gravidade na sequência da Love Parade (o mais famoso festival de música tecno do mundo) da cidade alemã de Duisburg. Concebida em Berlim, em 1989, para celebrar o espírito da queda do Muro, a Love Parade juntava todos os anos, na capital alemã, cerca de dois milhões de participantes. Verdade: sexo à fartazana, quiçá à canzana.

Ontem, em Duisburg, estava um milhão e meio de pessoas. O que terá levado alguns jornais, como o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias, a rotular como gay um festival predominantemente heterossexual? Com certeza que há gays entre os participantes da Love Parade! Como provavelmente há no CM, no JN, nos balneários, nas missas, nas feiras, nas universidades, nos quartéis, nos hospitais, nos ministérios, nos túneis, etc. E daí? A imprensa tablóide é gay? A tropa é gay? O futebol é gay? O Estado é gay? A Academia é gay? Anda tudo parvo?


[A imagem é do Bild.]

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Sábado, Julho 24, 2010

ORGIAS DE BATINA


A sociedade italiana e o Vaticano estão ao rubro com a revelação, feita ontem pela revista Panorama, de que dezenas de padres são assíduos frequentadores da noite romana, em especial das orgias selvagens organizadas na discoteca Gay Village, de Roma. Francamente, não vejo onde esteja a surpresa. Não se passa em Roma nada que não se passe em Lisboa ou Madrid. Ao pé do famoso calendário com membros da guarda suíça, as revelações da Panorama (revista conservadora fundada em 1939) reproduzidas na imprensa internacional e em sites católicos, são amendoins. Afinal, os padres também são filhos de Deus.

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Sexta-feira, Julho 23, 2010

LUÍS CARLOS PATRAQUIM


Hoje no Público:


Sforza é o nome da família que durante cem anos dominou Milão. Por que carga de água se lembraria Luís Carlos Patraquim (n. 1953) de chamar Sforza ao Zefanias? Remissão histórica enviesada? Pode ser. Afinal, as famílias “assimiladas” mais influentes de Lourenço Marques foram os Albasini e os Fornazini, originários de Itália, radicados em Delagoa Bay a partir dos anos 1890. (Delagoa Bay é o primitivo nome de Lourenço Marques, actual Maputo. A miscigenação desses imigrantes deu origem aos clãs laurentinos.) A conjectura faz sentido.

Luís Carlos Patraquim, poeta (sete títulos entre 1980 e 2009) e autor de textos para teatro, aceitou o repto da Porto Editora para escrever sobre os 35 anos de independência de Moçambique. Assim nasceu A Canção de Zefanias Sforza. A estória, como ele lhe chama, mistura narrativa em prosa com poesia (um dos capítulos é mesmo um poema) e alguns inserts de dramaturgia. O leitor moçambicano identificará os envios: no modo das falas como nas reminiscências culturais. Zefanias, o narrador, parece ser o alter-ego de Patraquim: «O problema da teoria do romance é o de haver muitas e não me parecer que Zefanias Plubius Sforza caiba em nenhuma delas. Em linguagem chã, não foi a pensar nisso, na complexidade do romance, que me resolvi a escrevinhar sobre ele

Para celebrar ou simplesmente registar os 35 anos de independência de Moçambique, Patraquim podia ter usado a história da família. Ou, em alternativa, esmiuçado os sobressaltos da luta independentista, sem a qual Moçambique não seria um país soberano. Melhor ainda, atento o ano do seu nascimento, dado testemunho do papel dos estudantes nessa luta: dogmatismo, aceitação da FRELIMO como partido único, reacção face à tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974, conivência com o Thermidor (a década do terror que teve expressão eloquente nos campos de reeducação ideológica, em especial o de Nachingwea), satisfação com o êxodo dos portugueses, os anos da fome, a guerra civil (1976-92), o processo de paz alcançado em Roma, o aburguesamento da sociedade moçambicana a partir dos anos 1990, etc. A tudo isto Patraquim diz quase nada, ou só nos interstícios para iniciados. A História, como disciplina, esvai-se no nonólogo dramático. Verdade que todo o autor tem direito às suas próprias idiossincrasias. Mas a vinheta vem impressa na capa: «Um olhar apaixonado sobre os 35 anos de independência de Moçambique». Um busílis.

Contudo (a ressalva é importante), a descrição dos tiques da classe dirigente tem a nitidez das evidências: «talheres de prata, cristais, vidas aplaudidas, reverenciadas. [...] Querem casas com torneiras de oiro, dez quartos [...] roupas de Paris, amante na flat, catorzinhas ocasionais...» Sintaxe local bem esgalhada, sem vénia ao cânone da língua.

Dando voz a Zefanias, Patraquim faz a ponte com o antigamente: «Morava no que fora um chalet, na Avenida 24 de Julho, quando os tramways subiam a D. Carlos, depois Manuel de Arriaga, agora Karl Marx, dobrando a Central Eléctrica e subindo, chiando, extenuando-se. [...] O dito chalet, verdade seja, tinha mais de evocação do que de estatuto, relíquia de uma certa belle époque cujos perfumes cruzaram os oceanos...» O osso da intriga é essa mnemónica tensa.

Por vezes, o registo elíptico cede: «e mandaram ela pilar o filho. Nunca mais vou esquecer os gritos. O marido já estava morto. [...] estava quase nua, nem era muito velha, gemia, parecia estátua, a olhar o seu bebé no pilão, um massanga a bater-lhe...» (um exemplo, entre outros, da crueza de alguns relatos).

Não gosto de “prosa poética”. Nem farei ao autor a desconsideração de dizer que ele a pratica. Não obstante, A Canção de Zefanias Sforza é o livro de um poeta que “cultua” a linguagem.

Não vinha mal ao mundo, e o leitor comum agradecia, notas de rodapé para belekar, estruturas (sinónimo de directório partidário), maka, maningue, massanga, matapa, patchiças, suca e vocábulos gentílicos afins.


Sforza, Laurentina & CocaCola, in Ípsilon, 23-7-2010, pp. 45-46. Três estrelas.

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Quinta-feira, Julho 22, 2010

ATÉ QUE ENFIM


Foi hoje aprovado em Conselho de Ministros o diploma que permitirá a abertura dos hipermercados aos domingos e feriados, sem restrições de horário. Até aqui, em nome da defesa do comércio “tradicional”, os hipers (estabelecimentos com área igual ou superior a dois mil metros quadrados; se tiverem 1999 não entram na classificação) eram obrigados a encerrar às 13h, aos domingos e feriados de Janeiro a Outubro. A bizarria prejudica toda a gente: consumidores e trabalhadores. Prevaleceu o bom senso, e o horário de funcionamento do comércio deixa de ser aplicado em função do tamanho das lojas. Quem quiser, pode abrir às 6 da manhã e fechar à meia-noite, de segunda a domingo. O comércio “tradicional” já o pode fazer. (A legislação portuguesa é das mais liberais da Europa.) Mas não faz. Pelo contrário. Grande parte do comércio “tradicional” de Lisboa fecha ao sábado à tarde, encerra aos domingos e feriados, faz férias em Agosto e pontes no Carnaval, na Páscoa e no Natal. Durante o Mundial, muitas lojas de Alvalade adaptaram os horários às horas de transmissão dos jogos da selecção portuguesa. O diploma hoje aprovado apenas peca por tardio.

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ELEMENTAR, CARO WATSON

BAIXA NA BARATA SALGUEIRO


Pedro Mexia demitiu-se hoje do cargo de subdirector da Cinemateca Portuguesa. Não quero acrescentar mais nada, disse ao Público.

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MENINA LIMPA MENINA SUJA


Abre hoje (21:30h) no CAM da Fundação Calouste Gulbenkian, onde fica até 26 de Setembro, a retrospectiva da obra plástica de Ana Vidigal. A curadoria é de Isabel Carlos. Clique na imagem para ler melhor.

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WORK IN PROGRESS

Menina Limpa Menina Suja
Video de Cristina Ferreira Gomes

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Quarta-feira, Julho 21, 2010

NÓ DESATADO


O despacho n.º 87/2010, de 19 de Julho, que pode ler na íntegra aqui, desatou o nó do casamento entre pessoas do mesmo sexo em que um dos nubentes é cidadão estrangeiro. Suscitei a questão há dez dias, por ter conhecimento de dezenas de estrangeiros (sobretudo ingleses, americanos e brasileiros), residentes em Portugal, que estavam impedidos de casar nos termos da Lei n.º 9/2010, de 31 de Maio. A situação foi clarificada e as conservatórias de Lisboa e Cascais andam num virote.

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MOTIVOS ATENDÍVEIS


No seu editorial de hoje, o Público lembra com grande oportunidade o teor da alínea d) do n.º 1 do artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 372-A/75, de 16 de Julho: «o despedimento [pode ser] promovido pela entidade patronal ou gestor público com base em motivo atendível.» Quem assinou o diploma? Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, na época em que a Comuna de Lisboa fazia capas na Time. Mais tarde, Soares revogou.

Por aqui se vê que Pedro Passos Coelho não descobriu a pólvora.

O projecto de revisão constitucional do PSD consegue o pleno das críticas, de Alberto João Jardim a Bagão Félix, passando por Santana, Marcelo, Capucho, Portas, Jerónimo e Louçã. E Paulo Rangel, que é constitucionalista — mas não foi tido nem achado na matéria —, sublinha as contradições do projecto: «Ao contrário do que tem sido dito, o articulado não reforça os poderes do Presidente da República, até os diminui [...] por um lado, limita o poder de dissolução do Parlamento, por outro impõe ao Presidente um primeiro-ministro escolhido na Assembleia em resultado de uma moção de censura construtiva. Acresce ainda que cria uma espécie de autodissolução do Parlamento, sem intervenção do Presidente

Se o PSD quer mesmo promover, antes das presidenciais, uma alteração constitucional com a amplitude da que propõe, devia escolher um candidato que fosse a eleições disposto a plebiscitar a mudança. Ninguém está a ver Cavaco ir a votos prometendo despedimentos arbitrários, educação e saúde sem suporte do Estado, etc. Também não faz sentido discutir uma nova arquitectura constitucional durante o período da pré-campanha. (Um pouco como quem discute à mesa na presença dos criados.) A ideia é embaraçar Cavaco? Ou eleger Alegre à 1.ª volta?

A pirueta é inconsequente.

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Terça-feira, Julho 20, 2010

PUB EM CAUSA PRÓPRIA


Se ainda não comprou a edição hardcover de Cidade Proibida, o romance que publiquei em 2007, pode obtê-lo hoje, grátis, adquirindo o Diário de Notícias. O livro faz parte da Biblioteca de Verão do jornal — facto que terá incomodado alguns —, e saiu hoje em edição de bolso. Entretanto, veja o que disse a crítica:


Ana Cristina Leonardo, Expresso, 2007

«Seria Bovary uma personagem mais interessante se Flaubert não fosse, lui-même, Madame? [...] O assunto tem a complexidade que lhe quisermos atribuir. Neste caso, vem a propósito da recente ficção de Eduardo Pitta, Cidade Proibida, um livro ao qual anda por aí colado o epíteto de romance gay. [...] Cidade Proibida é muito mais do que uma história de amor sem final feliz entre dois homens, mesmo sendo verdade que the novel tells a story. Retrato de um meio social solipsista, cheio de gente enfatuada e cautelosa, o livro é uma assumida crítica de costumes [...] No conjunto, é um texto rápido e nervoso, onde os desvios históricos (acompanhados de notas) reforçam uma filiação contemporânea, mas que peca por não levar mais longe o cinismo. Linguístico e filosófico. Teríamos um livro à medida do seu óptimo epílogo.»


Edgard Pereira, Colóquio-Letras, 2008

«Em foco, o romance Cidade Proibida, estreia produtiva de Eduardo Pitta na ficção de longo fôlego, decisiva contribuição à consolidação do relato de contorno gay em Portugal. A adesão à temática, de forte presença e espessura na produção poética do autor, vem na vertente ficcional desde a admirável trilogia de contos, intitulada Persona [...] Sem incorrer em juízos morais, ao apresentar uma sucessão de burlas, hipocrisia, orgias e desrespeito a princípios éticos de liberdade, o narrador, contudo, não ignora os efeitos devastadores de pequenos sintomas de decadência a solapar os alicerces da sociedade ocidental. [...] Ainda que seja ampliado o estatuto do narrador-editor, o congelamento dos dados históricos, culturais e psicológicos das personagens se, de um lado, aponta para uma abertura estrutural, convocando componente do texto dramático, por outro, trai a abertura ficcional, condicionando o leitor a aceitar um dado, cuja coerência, urdidura e pertinência verosímil caberia ao texto apenas desenvolver e demonstrar. [...]»


Fernando Pinto do Amaral, Jornal de Letras, 2007

«A publicação do primeiro romance de Eduardo Pitta representa uma novidade nos dois contextos em que se insere — o da ficção portuguesa contemporânea e o da própria obra do autor. [...] Olhemos, então, para esta Cidade Proibida e assinalemos desde logo um estilo pessoal, assente numa escrita ora muito directa e incisiva, por vezes mesmo abrupta, ora subtilmente irónica e com alguma tendência para o understatement, mas sempre pronta a desferir os seus golpes a propósito da realidade portuguesa — uma realidade que o autor conhece bem, embora abordada muitas vezes a partir de um ângulo exterior ou “estrangeirado” [...] o que transforma este livro numa obra relevante também no domínio da crítica social. Para assentarmos ideias, diria que talvez o maior mérito de Cidade Proibida resida na articulação sempre fluida entre dois grandes propósitos nem sequer contraditórios: por um lado, o de analisar as características, os hábitos ou os vícios disso que, à falta de melhor nome, podemos designar por comunidade gay; por outro lado, o desejo de proceder a uma crítica, por vezes muito acutilante, de uma certa sociedade portuguesa tradicional e conservadora, ainda com traços fortemente elitistas, e cuja hipocrisia surge denunciada através da desconstrução de muitos comportamentos dos seus protagonistas. [...] É todo este quadro mental que o romance de Eduardo Pitta vai dissecando com um bisturi cuja lâmina parece aguçada pelo olhar quase científico de um entomologista que nos estudasse como insectos, como se os nossos comportamentos sociais obedecessem a leis antigas, também elas quase biológicas, que no caso português levaram séculos a estabelecer-se e não se desfazem por decreto. [...] Outros motivos poderia haver para lermos este romance diferente, que de certo modo só poderia ter sido escrito por alguém como Eduardo Pitta nesta fase da sua vida, transmitindo-nos as lições de uma experiência acumulada ao longo dos anos.»


Fernando Venâncio, Aspirina B, 2007

«O primeiro grande romance gay da nossa literatura, acabou por escrevê-lo Eduardo Pitta. [...] Haveria de ser Eduardo Pitta, com esta Cidade Proibida, acabada de sair na QuidNovi. Do contista de Persona poderia já esperar-se a façanha. Mas as grandes obras são sempre uma surpresa. O livro é um must. E não só pela temática [...] como sobretudo pela valente respiração de que o relato se toma. Os lugares, as épocas, os ambientes, tudo rodopia com nitidez, com embalo, com vertigem (só aqui e ali excessiva para a concentração comum, como a deste leitor), criando sabiamente expectativas, conferindo colorido a personagens e brilho a episódios. Assinale-se a crua limpidez do vocabulário erótico. Assinale-se, também, a abrupta e bem gerida inclusão, em existências queque, do elemento bas fonds. [...] De momento, basta esta Cidade Proibida para encher as medidas.»


Henrique Raposo, Expresso, 2008

«Acabei de reler o primeiro romance de Eduardo Pitta: Cidade Proibida (Ed. QuidNovi). A impressão inicial mantém-se: do ponto de vista formal, este livro é uma raridade em Portugal. Pitta sabe contar uma história (neste caso, a relação atribulada entre Rupert e Martim). A fluidez narrativa — dominante em Cidade Proibida — é a técnica literária mais difícil de encontrar na prosa portuguesa, ainda e sempre marcada por obscuras divagações metafísicas. Pitta tem outra característica invulgar entre nós: as suas frases são enxutas e limadas até ao limite. Pitta é um grande poeta, mas é na prosa que poderá marcar a diferença. Cidade Proibida é um bom romance de alguém que revela potencial para escrever grandes romances.»


Helena Vasconcelos, Público, 2007

«[...] Será necessário falar da temática gay na obra de Eduardo Pitta? Podemos colocá-lo a par dos escritores canónicos que são analisados à luz desses estudos: Oscar Wilde, Thomas Mann, E. M. Forster, André Gide, Jean Genet, Christopher Isherwood, William Burroughs, Gore Vidal, Carson McCullers, James Baldwin, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, que se juntam aos contemporâneos David Leavitt, Jeanette Winterson, Sarah Waters, Jim Grimsley, entre muitos outros. Pitta aproxima-se do celebrado Allan Hollinghurst que ganhou o Booker Prize com A Linha da Beleza, um clássico do género, onde se cruzam as tensões sociais, familiares, políticas, sentimentais e físicas (com o eclodir da Sida). De acordo com Richard Hall, autor de antologias de textos gay, este género mudou desde o fim da 2.ª Grande Guerra, passando de «uma literatura da culpa e da desculpa para uma de desafio político e de celebração da diferença sexual». Pitta segue, decididamente, esta segunda tendência e tem, a seu favor, vastos conhecimentos de Literatura que entrelaça com habilidade na sua própria ficção. Mas enquanto que, basicamente, a trama de Cidade Proibida, tanto poderia ser construída entre dois homens, duas mulheres ou uma mulher e um homem, a dos contos em Persona é vincadamente e triunfantemente gay, muito mais excitante, vigorosa e reveladora. A obra de Eduardo Pitta é corajosa, desassombrada, inteligente, clara e escrita com paixão e sabedoria. É difícil, na Literatura Contemporânea, ler um bom livro em que se fala livre e fulgurantemente de sexo, do prazer erótico e da transgressão. E, também, da perda. Eduardo Pitta fá-lo com a mestria de um grande narrador.»


João Villalobos, Blitz, 2007

«Com a homossexualidade como pano de fundo, Eduardo Pitta retrata neste romance singular uma Lisboa de privilegiados, onde o amor ocupa um lugar sempre periclitante. [...] Com uma tessitura que atravessa mais de 40 personagens, Cidade Proibida é uma história com muitas histórias lá dentro. Cada uma das figuras carrega com ela um passado, um meio, uma educação que as agrupa em famílias de sangue ou de afinidade, núcleos irredutíveis e protegidos por densas muralhas. [...] Com um peso exagerado dos estrangeirismos compensado por um conhecimento profundo dos hábitos e costumes do meio que retrata, Eduardo Pitta não condescende com sentimentalismos ou redondilhas. O sexo é apresentado a cru, os tiques mostrados sem contemplação, a História portuguesa recente mencionada sem pruridos ou filtros de boa consciência. Por tudo isto, obra de “género” ou não, Cidade Proibida é um romance igual a poucos.»


José Mário Silva, Diário de Notícias, 2007

«[...] Eduardo Pitta é uma das vozes mais ácidas e contundentes do panorama cultural português dos nossos dias. Erudito e blasé, polémico e sem papas na língua, atento à actualidade e rápido a reagir [...] com um desassombro que lhe causa não poucos engulhos num meio habituado a mesuras, verniz e salamaleques. Embora a sua obra remonte a 1974 [...] estreou-se na ficção apenas em 2000, com Persona [...] Uma coincidência que faz todo o sentido e não foi certamente fruto do acaso. Porque o que Persona deixava antever é o que Cidade Proibida confirma: a emergência de um narrador sólido, sem debilidades de principiante nem tiques de consagrado, capaz de contar uma história com precisão e lhaneza — coisa raríssima em Portugal. Além disso, há evidentes pontos de contacto entre as duas obras. Se Persona era o retrato nítido, em três etapas bem marcadas no tempo, da formação da identidade homossexual de Afonso Cordes Sacadura, com a decadência do império colonial em Moçambique como pano de fundo e uma crítica explícita a dois universos repressivos (a escola e o exército), em Cidade Proibida deparamos com um fresco ao mesmo tempo minucioso, cruel e desencantado da sociedade portuguesa contemporânea. Ou, para sermos mais exactos, de uma certa faixa da sociedade portuguesa: a upper-class que vive fechada numa redoma [...] É neste cenário etéreo que arquitecta a sua história de desagregação amorosa [...] O que mais impressiona no romance de estreia de Pitta é a admirável desenvoltura da prosa (que se lê numa vertigem), a elegância estilística e o domínio das técnicas narrativas. Há um fio de acontecimentos que se sucedem na Lisboa do início do séc. XXI, subtilmente marcados pela História (dos traumas coloniais ao 11 de Setembro), e uma série de flahsbacks que se encaixam no puzzle com uma justeza próxima da perfeição. O resto — e não é pouco — tem a ver com a coragem de escrever sobre sexo da forma mais gráfica possível, sem eufemismos, abrindo de vez o caminho para a afirmação de uma literatura homossexual à la page com o que de melhor se publica lá fora, nomeadamente no Reino Unido (cf. Alan Hollinghurst). Não tenho dúvidas aliás de que Cidade Proibida, se Pitta fosse inglês, seria facilmente candidato ao Booker. Mas será que teria (ou terá) hipóteses, em Portugal, de ganhar um merecido prémio da APE? Duvido muito.»


Lauro António, Lauro António Apresenta..., 2007

«[...] Mas haverá literatura gay? Oscar Wilde e E. M. Forster são literatura gay? E Somerset Maugham? E Jean Cocteau? Ou serão simplesmente literatura? Para mim basta-me que seja boa literatura, muito boa mesmo. Ora Eduardo Pitta surpreendeu-me em toda a linha. Li Cidade Proibida de um fôlego, e não por ser gay, e não também pela história que conta, mas sobretudo pelo estilo, pela vertigem da narrativa, imparável, pelo toque blasé, mesmo um pouco snobe que impõe e mantém com uma frescura notável ao longo de toda a obra, e que relembra o magnífico dandismo de Oscar Wilde, aqui retocado por um look muito pós-moderno. Óbvio que também se pode chamar à conversa o Maurice, de E. M. Forster, mas curiosamente a escrita lembrou-me mais a de alguns escritores americanos da década de 90 [...] Há um gosto pelo rigor matemático na escrita que poderia ser fastidioso, mas funciona precisamente ao contrário, é exaltante. Não há muitos pormenores, a escrita corre ágil, mas há uma precisão insuspeitada. [...] É evidente que temos de fazer uma referência ao teor homossexual do livro. Obras “maricas” é o que há cada vez mais. Escritas amaricadas, “poéticas”, como que a desculpar “a coisa” com o sentimentalismo balofo das “emoções em êxtase.” Aqui não há nada disso, esta é uma história de amor e sexo igual a qualquer outra, o realismo de certas situações quase faz esquecer que os amantes são do mesmo sexo. São pessoas que fazem sexo. Assumidamente. Sem má consciência. De resto as descrições deste tipo são as que são, as precisas, as indispensáveis, não se especula com o facto. Um excelente romance [...]»

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Segunda-feira, Julho 19, 2010

MORANGOS MOLES


Conta o Jornal de Notícias: «A direcção da TVI decidiu não emitir as cenas de troca de afectos, que incluíam beijos, entre Fábio e Nuno, as duas personagens homossexuais [interpretadas pelos actores Miguel Santiago e Carlos Malvarez] da série de Verão Morangos com Açúcar, que pela primeira vez prometiam romper com os preconceitos na televisão

Aguardo ansioso a constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para averiguar da eventual responsabilidade do PS na manipulação da TVI.

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Domingo, Julho 18, 2010

SIDONISMO PÓS-MODERNO


Na primeira quinzena de Fevereiro meteu-se na cabeça de dezenas de bloggers e alguns colunistas que Cavaco só não demitia Sócrates, pondo outro no lugar dele sem recurso a eleições, por cálculo político. O povo ignaro convive bem com o art.º 195 da Constituição? O n.º 2 desse artigo é de meridiana clareza? Hermeneutas conspícuos discordam.

Passados cinco meses, a proposta de revisão constitucional do PSD prevê que o Presidente da República venha a ter o poder de demitir o primeiro-ministro e substituir o governo sem recurso a eleições. Então porquê? Será que o n.º 2 do referido artigo constitui, de facto, empecilho à tentação caudilhista?

A golpada tem sido desmontada por vários constitucionalistas que não querem ver Portugal nivelado por este padrão. O que ainda ninguém explicou é se o sidonismo pós-moderno continua bom, e necessário ao desenvolvimento do país, caso seja Manuel Alegre o próximo inquilino de Belém...

Entretanto, enquanto o pau vai e vem, a iliteracia política podia (e devia) ilustrar-se aqui. Sempre evitava os disparates.


[Na imagem, Sidónio Pais, o Presidente-Rei, em 1917.]

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MODERNISM & MASS CULTURE


Ruth Rosengarten, The parallel production of Ana Vidigal. Excerto:


«Yet while her work has always straddled oposites — the public and the private, the found and the made — Vidigal’s desire to catalogue and classify her work into two discreet genres wich she calls “painting” and “parallel production” (and wich we might call a homage to modernism on the one hand, and a homage to mass culture on the other) belies the continuity that marks her production. Public and private, legitimate and on-the-side, these impulses are in effect born of a continuous process


Faltam cinco dias para podermos revisitar o trabalho paralelo de Ana Vidigal no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.


[Na imagem: Beija-Me, Idiota, 1995, técnica mista sobre papel, 70x100cm, foto de Paulo Costa para a FCG. Clique para ver melhor.]

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Sábado, Julho 17, 2010

CITAÇÃO, 284


José Pacheco Pereira, Comemorações da República ou comemorações da Primeira República?, hoje no Público. O último parágrafo:


«[...] Na Primeira República havia partidos, liberdade de imprensa, competição eleitoral, tudo muito imperfeito e longe da visão idílica dos republicanos, mas no Estado Novo não só não havia nada disso, como a institucionalização num Estado protofascista nos anos 30, e depois conservador-autocrático, tornou o conformismo pela coacção num pano de fundo que castrou gerações inteiras. Quem desculpa o Estado Novo com os excessos da Primeira República não sabe do que está a falar ou então está a fazer outra coisa. Mas também convém não nos iludirmos que as comemorações deste ano conseguiram ultrapassar de forma significativa a visão do republicanismo maçónico e jacobino, preso à mitificação da Primeira República, e sem perspectiva crítica. Há excepções, mas esta foi a regra. Viva a República!»

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Sexta-feira, Julho 16, 2010

DJUNA BARNES


Hoje no Público:


A literatura está cheia de personagens que fazem a lenda da cena literária. Lou Andreas-Salomé, Karen Blixen, Harold Acton, Paul Bowles, James Merrill e Sam Shepard, para citar meia dúzia de nomes fortes, são exemplos (muito diferentes entre si) dessa constelação fulgurante. A crítica alinha-os na categoria de autores de culto.

Por maioria de razão entra aqui Djuna Barnes (1892-1982), escritora e poeta contra todas as probabilidades. Nascida e criada no seio de uma família disfuncional, teve o privilégio de ver um dos seus primeiros livros prefaciado por T. S. Eliot: «A prosa de Miss Barnes tem o ritmo da prosa que é próprio do estilo da prosa e um modelo musical que não é o da poesia [o qual] eleva à mais alta intensidade a matéria que se comunica.» Eliot descreve O Bosque da Noite (1936), primeiro dos quatro romances de temática homossexual que marcaram a era pré-Stonewall. Os outros são Reflexos nuns Olhos de Oiro (1941), de Carson McCullers; A Cidade e o Pilar (1948), de Gore Vidal; e Outras Vozes, Outros Quartos (1948), de Truman Capote. Sobre todos, o livro de Djuna tem a vantagem de ter antecipado em trinta anos o olhar camp.

As origens suburbanas e uma adolescência pouco convencional não impediram Djuna de atravessar o Atlântico, fixando-se em Paris, onde foi aceite no círculo ultra-elitista de Natalie Barney. Sem grande esforço, a rapariguinha desamparada de Bridgeport passou a integrar a genealogia ilustre dos habitués do n.º 20 da Rue Jacob: Rainer Maria Rilke, Marina Tsvetáeva, André Gide, Olga Rudge, Ezra Pound, Peggy Guggenheim, Scott Fitzgerald, Sylvia Beach, William Carlos Williams, Gertrude Stein, James Joyce, Somerset Maugham e outros expatriados. Djuna chegara envolta num halo de escândalo: The Book of Repulsive Women (1915), a estreia literária, que mais tarde renegará, fizera dela o centro de uma cause célèbre. A época fica marcada pela ligação amorosa que manteve com a escultora Thelma Wood. Ciente da condição de outsider, publicará em 1928 o sulfuroso Ladies Almanack, violenta catilinária contra o lesbianismo-chique. Natalie Barney e todas as suas amantes são personagens do livro.

O Bosque da Noite ficou concluído em 1932, quando Djuna vivia em Londres. É uma reflexão amarga dos anos parisienses (1920-31), bem como dos equívocos, possibilidades e limites da itinerância sexual. Djuna, que teve amantes de ambos os sexos, sabe do que fala. O tom elíptico não diminui a pulsão trágica (Eliot vai ao extremo de citar a tradição isabelina), nem disfarça a relação conflituosa que manteve com Thelma Wood: «No coração de Nora repousava o fóssil de Robin, entalhe da sua identidade, e à sua volta, para que se conservasse, corria o sangue de Nora.» Fica claro que Robin Vote é o alter-ego de Thelma: «Procurei Robin em Marselha, em Tânger, em Nápoles, procurei-a para a compreender, para acabar com o meu terror. Disse a mim própria: farei o que ela fez, hei-de amar o que ela amou e então voltarei a encontrá-la

O desprezo de Djuna pela burguesia com veleidades aristocratizantes é dado logo a abrir, no retrato de Felix, que a si mesmo atribuía o título de barão de Volkbein: «Quando falava de um titular, fazia uma pausa antes e depois de lhe pronunciar o nome. [...] Sentia que o grande passado poderia talvez ser parcialmente refeito se se humilhasse o suficiente, sucumbisse e prestasse homenagem.» Mas o epítome do sarcasmo fica reservado a Jenny Petherbridge, quatro vezes viúva e completamente destituída de harmonia: «Só separada do resto do corpo é que uma qualquer parte dela se poderia considerar certa

Tensa como um arco, a escrita extremamente elaborada de Djuna denota sentido de equilíbrio e acidez bem calibrada. O mais próximo que encontramos da retórica não tem uma palavra a mais: «o amante tem de ir contra a natureza para encontrar o amor.» Não admira que Susan Sontag tenha dito que era assim que queria escrever. Não é pequeno mérito que tudo isso seja feito sem beliscar as regras (e os matizes) do simbolismo-decandentista.


A decadência do coração, in Ípsilon, 16-7-2010, pp. 44-45. Quatro estrelas e meia.

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Quinta-feira, Julho 15, 2010

MAIS UM


O Senado argentino aprovou ontem a Lei que altera o Código Civil de modo a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Um dos grandes derrotados é o arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, testa-de-ferro da contestação conservadora. O diploma vai agora ser promulgado por Cristina Kirchner, a Presidente da Argentina, que se congratulou publicamente com o voto histórico do Senado.

A Argentina junta-se assim ao grupo de países que permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo: África do Sul, Bélgica, Canadá, Espanha, Holanda, Islândia, Noruega, Portugal e Suécia. (Nos Estados Unidos é possível fazê-lo em sete Estados: Connecticut, Distrito de Columbia, Iowa, Maine, Massachusetts, New Hampshire e Vermont.) Embora o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja legal na cidade do México, a Argentina é o primeiro país da América Latina em que tal passou a ter força de lei em todo o território.


[Na imagem, habitantes de Buenos Aires celebram a aprovação da Lei.]

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Quarta-feira, Julho 14, 2010

CITAÇÃO, 283


Lourenço Ataíde Cordeiro, O monólogo do umbigo. Excerto:


«[...] Uma coisa é uma companhia de teatro que vai representar Beckett a Aljustrel, outra é o “criador” que nunca saiu do Bairro Alto e que reclama a mensalidade para espalhar cascas de ovo partidas no chão da galeria com uma legenda a dizer A CRIAÇÃO DO MUNDO. A “cultura”, como tudo, não pode ficar refém dos caprichos daqueles que a produzem, tem de existir, em algum momento, um diálogo qualquer com o resto do mundo. A ideia não é acabar de vez com tudo o que não dê lucro, é acabar de vez com tudo o que não agradece a atenção.»

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Terça-feira, Julho 13, 2010

NÚMEROS


Pode ler no PNET Literatura a minha crónica Números. Excerto:


[...] Contra a ladainha das hipotéticas virtudes do “antigamente”, os autores fazem o inventário e a análise de factos concretos da vida colectiva: evolução demográfica, educação, conhecimento, cultura, ensino superior, “revolução feminina”, investigação, ciência, saúde, protecção social, trabalho, rendimentos, justiça, família e costumes. O retrato estabelece o contraponto violento entre o Portugal retrógrado dos anos 1960 e o país (apesar de tudo) europeu dos últimos dez anos.

É frequente ouvir dizer que o 25 de Abril “apenas” trouxe o fim da guerra colonial, da polícia política e da censura. A boutade é desculpável na boca dos muito jovens, mas incompreensível, para não lhe chamar outra coisa, se proferida por quem nasceu antes de 1960. Lembrar que, mesmo em Lisboa ou no Porto, a instalação de telefone em casa implicava longos meses de espera (ainda em 1979). E que mais de metade do país não estava electrificado em 1974. E assim sucessivamente. [...]

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OS ILLUMINATI


As jornadas parlamentares do PSD têm sido o palco privilegiado do tremendismo PIPI — Partido Inverta o Plano Inclinado.

Vejamos. Ernâni Lopes propõe reduzir em 20% (no mínimo) os vencimentos da Função Pública e os dos políticos. Por seu turno, Luís Campos e Cunha concorda, mas só no tocante a funcionários. Os políticos seriam aumentados, numa média de 25% sobre os honorários dos últimos três anos, de forma a permitir o recrutamento dos melhores. Campos e Cunha é coerente. Abandonou o governo em 2005 quando entrou em vigor a lei que impede aos membros do governo a acumulação de salários e a totalidade das pensões.

A originalidade de Campos e Cunha vai mais longe. Pretende a representação do voto em branco: quanto maior fosse o número desses votos, menos deputados seriam eleitos. É impressão minha, ou o MFA propôs uma coisa parecida em 1975? O antigo ministro das Finanças de Sócrates propõe ainda a designação de deputados não-eleitos sempre que os directórios partidários o entendam conveniente. Ninguém queria acreditar no que ouvia.

Ou seja, estes cavalheiros foram às jornadas parlamentares do PSD repetir o que andam a pregar no Plano Inclinado, o programa de Mário Crespo na SICN.

Fica cada vez mais claro (e não vem daí mal ao mundo) que existe um núcleo duro da direita tecnocrata que não se revê na política mole do PSD e naquilo que considera a passividade de Cavaco. Para a opinião pública, as faces visíveis desse núcleo são Medina Carreira, Ernâni Lopes, Luís Campos e Cunha, Bagão Félix, Vítor Bento, Manuel Villaverde Cabral, Eduardo Catroga, Mira Amaral, Nuno Crato, Fernando Ulrich, João Duque e Alexandre Soares dos Santos. Todos sabem que a previsível alternativa a Sócrates não leva a lado nenhum. Ora, como estamos a seis meses das presidenciais, e tudo indica que não haverá eleições legislativas antecipadas antes de Outubro ou Novembro de 2011, nada impede (e tudo recomenda) que os Illuminati se constituam em partido, indo a votos com um programa claro. O resto é agit prop inconsequente.

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A INFORMAÇÃO A QUE TEMOS DIREITO


Sobre a intervenção de Campos e Cunha, ontem, nas jornadas parlamentares do PSD, a jornalista Eva Cabral, do Diário de Notícias, escreve:


«[...] O PSD ouviu ontem durante mais de quatro horas um sociólogo e três economistas que avaliaram a situação política e económica num momento que todos assumem ser de particular dificuldade. [...] Já Campos e Cunha afastou um cenário de saída do euro e disse esperar que um relativo crescimento económico se concretize para que o País possa começar a sair da crise. Deixou sérios alertas sobre a banca e mostrou-se preocupado com o efeito de rumores como os que nos últimos dias afectaram o BCP.

Seria, no entanto, na defesa de um novo sistema político que o ex-ministro de Sócrates mais espantou os deputados laranja. Campos e Cunha defendeu a possibilidade de a direcção dos partidos designarem alguns
“um ou dois” — que assim deixariam de ser eleitos na sua totalidade e poderiam variar quando os partidos mudam de liderança. Defendeu a “representação ao voto em branco” na Assembleia que passaria a ter um número variável consoante a proporção desses votos. [...]»

Percebeu alguma coisa? Não se preocupe. Eu também não.

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Segunda-feira, Julho 12, 2010

CONTA GOTAS


O governo cubano decidiu libertar hoje 52 dos 75 oposicionistas detidos na Primavera de 2003. A Igreja Católica mediou o processo. Espanha vai acolher esse grupo de dissidentes acompanhados das respectivas famílias. Infelizmente, devido ao seu estado de saúde, Guillermo Fariñas (na foto), que esteve em greve de fome durante 135 dias, não vai poder viajar tão depressa. Os que hoje partem para Madrid a ele o devem. Mas e os cento e tal que ficam para trás?

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CITAÇÃO, 282


Francisco José Viegas sobre O estado das Artes. Eu não diria melhor. Excerto:


«[...] Para que serve um teatro nacional (que deve existir) e que repertório deve apresentar? De que forma deve ser gerido e dirigido o teatro de ópera? Que contrapartidas devem oferecer — ao público — as companhias de teatro apoiadas pela Direção-Geral das Artes? Pode o MC confiar em alguém que diz que gostaria de mudar o Museu Nacional de Arte Antiga para um edifício “mais moderno”? Pode alguém confiar em quem anunciou vários museus (o da Língua é um bom exemplo, mas há mais) só porque lhe agradou a existência de um, semelhante, que viu noutro lugar? Tem, ou não, o MC, autoridade para negociar (influenciar, negociar — não impor) um repertório clássico fundamental no teatro e na música? Pode o MC continuar a apoiar o cinema, da forma como tem feito, sem ter acesso ou poder verificar, com rigor, o destino do seu investimento (incluindo, claro está, a avaliação da forma como algumas “empresas associadas” cumprem ou não as suas obrigações)? Podem as câmaras municipais continuar a financiar ilegalmente (e violando os princípios mais básicos da independência das instituições públicas) a “música comercial”? Pode o MC continuar a formular “políticas” sem a colaboração — que lhe devia ser prestada — do Ministério da Educação e do Ministério dos Negócios Estrangeiros? Pode a “política da Língua” definir-se sem a participação, permanente, do Ministério da Educação, da Biblioteca Nacional, da rede de leitura pública, do Ministério dos Estrangeiros, da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas, da rede de leitorados portugueses no estrangeiro? Pode o Estado português continuar a financiar um numeroso grupo de incompetentes, pusilânimes e indigentes herdados das várias formações da CPLP, onde se tem investido o dinheiro que há e, sobretudo, o que não há? Pode o MC subscrever um documento sobre a “política da Língua” onde, nos seus quase 100,000 caracteres, não se encontra a palavra “livro”? Pode um MC, depois disto, permitir-se anunciar a colaboração de empresas de “obras públicas” (como foi feito há mais de um ano) na recuperação do Património edificado — e haver monumentos nacionais em risco enquanto se fala do “Museu da Viagem”?»

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Domingo, Julho 11, 2010

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. O policial está de volta. Alta Tensão, nova colecção da Porto Editora, promete acertar o passo da edição portuguesa com o thriller contemporâneo. O Projecto Janus, do escocês Philip Kerr (n. 1956), colunista da New Statesman e autor de duas séries policiais de sucesso, a Bernhard Gunther (sete títulos, entre 1989 e 2010) e a Standalone (dez títulos, entre 1992 e 2008), foi agora traduzido. É o 4.º título da Bernhard Gunther, o primeiro da fase tardia: entre a trilogia inicial e os outros quatro verifica-se um intervalo de quinze anos. O Projecto Janus começa em Setembro de 1937, em Berlim, embora o essencial da história tenha enfoque no pós-guerra. A intriga apoia-se em factos reais, como, por exemplo, a actuação das brigadas Nakam (responsáveis pelo assassinato de milhares de criminosos de guerra nazis); a visita de Eichmann a Israel; o envenenamento do pão distribuído a membros das SS; a tentativa de envenenar os reservatórios de água de Berlim, Nuremberga, Munique e Frankfurt; a divisão muçulmana das SS, dirigida por Haj Amin, que exterminou centenas de milhares de judeus na Bósnia; experiências médicas, conduzidas por americanos, em território americano, sobre prisioneiros de guerra... etc. O Projecto Janus é um thriller, sim senhor, mas não abdica de pensar o nosso tempo.


Francisco José Viegas: «Se o Ministério da Cultura tinha detectado que o Director-Geral das Artes lhe era infiel, tinha-o demitido na primeira oportunidade porque, lamentamos muito, um Director-Geral tem de executar políticas, criar consensos e resolver problemas. Deixando que ele se demitisse primeiro, só mesmo o silêncio lhe calhava bem. Em vez de controlar os danos, o MC procedeu ao alargamento de danos antes de contratar alguém “do meio” para tentar calar desafectos. É a doutrina do apaziguamento perpétuo.»

João Pedro Henriques: «[...] Tentem, da próxima vez, ter os pés assentes na terra, definir alvos com clareza e não andar a brincar ao experimentalismo editorial. Verão que resulta.»

Valupi: «[...] O recente lançamento do livro A Escola Pública Pode Fazer a Diferença é notável por várias razões, a menor das quais não será este bom exemplo de legar um documento que alia a teoria e a prática de um dado governante. A relevância maior do acontecimento, porém, decorre da área em causa, Educação, e da pessoa que nela deixa obra admirável e polémica. Com esta síntese detalhada dos seus 4 anos à frente do ME, Lurdes Rodrigues remata um ciclo de reformas decisivas que tem a sua assinatura. [...] Foi possível, contudo, mantê-la até ao fim da Legislatura, contra tudo e contra todos, até Alegre. Ao contrário de Correia de Campos, vítima dos reaccionários e oportunistas de esquerda e direita, Lurdes Rodrigues continuou a tentar completar o seu programa, sujeitando-se à fúria soez e demencial de um grupo de profissionais habituados a regalias sem paralelo no Estado e constituído por indivíduos maioritariamente sem espírito de missão — grande parte deles sem qualquer vocação para o ensino, o que também explica os fenómenos de pânico com uma avaliação que os poderia expor como incompetentes. [...]»

Zé Pedro: «[...] A ideia da deputada era interromper a circulação na linha do Norte para captar atenção para a sua causa, mas hoje há greve na CP e ao cabo de quatro horas sem passar nenhum comboio, Cecília Meireles regressou a Lisboa, até porque tinha unhas às sete. [...]»

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CITAÇÃO, 281


Hoje na Pública, longa entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Ana Vidigal, a pretexto da exposição Menina Limpa, Menina Suja, que abre no CAM da Gulbenkian no próximo dia 23. Highlight:


[...] Estou a trazer este assunto e a pensar num trabalho que esteve em Serralves, com frases feministas. Como a da Mae West: Quando sou boa, sou boa, quando sou má, sou muito melhor.


Ana Vidigal: Essas peças têm um conteúdo político. Mas não quero usar a minha forma de expressão como arma política. Aquelas frases são políticas, mas são ao mesmo tempo muitíssimo irónicas. É mais por esse lado que me interessam. Sei que quando me pedem apoio político para alguma coisa é por ter o trabalho que tenho. Mas são campos separados. A parte feminista é política, claro, mas é basicamente porque sou mulher. É como mulher, vinda de um determinado meio, que o faço; como se gozasse comigo própria.

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Sábado, Julho 10, 2010

DESATAR O NÓ


A Lei n.º 9/2010, de 31 de Maio, em vigor desde 5 de Junho último, permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Entre o dia 7 do mês passado e ontem, em todo o país, vinte casais do mesmo sexo regularizaram as suas uniões à luz da nova Lei. Até aqui, nenhuma novidade.

Alguns, porém, ainda não conseguiram fazê-lo. É o caso dos nacionais que vivem em união de facto com cidadãos estrangeiros, tendo a seu tempo registado essas uniões nos países de origem do(a) cônjuge. Por exemplo, o Reino Unido ou a França, para dar dois exemplos comuns. Tanto o Civil Partnership inglês (ó pra eles lá em cima) como o Pacte Civil de Solidarité francês são, na realidade, casamentos com outro nome.

Até ao momento em que escrevo, essas pessoas estão impedidas de casar em Portugal ao abrigo da Lei n.º 9/2010, de 31 de Maio, porque... vivendo em união civil registada, os serviços competentes (ingleses, franceses, etc.) não podem emitir os respectivos certificados de aptidão matrimonial... exigidos aos estrangeiros que queiram casar em Portugal. É a chamada pescadinha de rabo na boca.

Quem casou mesmo (na África do Sul, na Bélgica, no Canadá, em Espanha, na Holanda, na Islândia, na Noruega, na Suécia ou num dos oito Estados americanos em que é possível fazê-lo), não tem problemas: «O casamento dos portugueses que se casaram com pessoas do mesmo sexo no estrangeiro, antes da entrada em vigor da lei sobre uniões homossexuais em Portugal, vai ser reconhecido pelo Estado português, informou ontem o Ministério da Justiça

O busílis coloca-se a quem registou (na Alemanha, Áustria, Dinamarca, Finlândia, França, Luxemburgo, Nova Zelândia, Reino Unido, República Checa, Suíça, etc.) a sua união civil, estando agora, para todos os efeitos, “casado”...

A ver vamos como evolui o quadro legal, e quais os termos de um parecer do conselho técnico do Instituto dos Registos e do Notariado que se anuncia para muito breve.

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Sexta-feira, Julho 09, 2010

A TERRA EM TRANSE


Agora que o n.º 93 [Julho-Agosto] da LER já está na rua, deixo aqui a crónica A terra em transe, publicada no n.º 92 na minha coluna Heterodoxias:


Desde miúdo que vejo a terra em transe por causa do futebol. O assunto nunca me interessou, embora toda a vida tenha conhecido adeptos do Sporting (minha mãe, tios e primos; o pai era só esgrima), do Benfica e do Desportivo. O Desportivo de Lourenço Marques ou, se preferirem, o Desportivo de Maputo, celebrizado pela prática do hóquei — quem não recorda a equipa de Fernando Adrião, campeã do mundo? —, tem pergaminhos na bola desde 1921. Eusébio tentou jogar no Desportivo, mas não passou no exame médico (inscreveu-se no Sporting local). Outro tempo. Os jogadores não usavam bandoletes nem faziam publicidade a cuecas.

Como hoje o conhecemos, o jogo tem regras estabelecidas há perto de 150 anos. Só podia ser uma invenção inglesa. Em todo o caso, isso não parece óbvio no Sul, onde o estilo adamado contrasta com a rudeza dos saxões. É só comparar Rooney com Nuno Gomes. Terá sido com a exploração da imagem de Futre, nos anos 1980, que o futebol português deu um forte contributo ao imaginário homoerótico. Nessa altura, os mais distraídos deram por Fernando Gomes, que andava a coleccionar Botas de Ouro e a comparar golos com orgasmos.

George Best foi, durante muito tempo, o epítome de todos os excessos: bola, sucesso, mulheres, álcool e drogas. A morte prematura, em 2005, fechou um ciclo em declínio. Cristiano Ronaldo, mesmo em underwear, fica a milhas do irlandês. Emular David Beckham (estou a falar de briefs Armani) foi um disparate. A masculinidade de Figo talvez pudesse contribuir para prolongar o paradigma Best, mas falta-lhe em “transgressão” o que lhe sobra em competência. Isto é como no cinema: as estrelas (Elizabeth Taylor, Marlon Brando) foram substituídas por profissionais (Meryl Streep, Tom Hanks). Sem falhas, a linha de montagem deu cabo da magia.

E, sem magia, não vamos longe.

Como disse, a bola interessa-me nada. Notícias estridentes podem ocupar-me por minutos, mas escapa-me a linguagem esotérica (o túnel, o balneário, etc.) e a benevolência de que gozam os hooligans.

Fazendo um esforço de mnemónica para encontrar futebol na literatura, ocorre-me o Eça, que achava o football próprio de gente como os ingleses e, nessa medida, inadequado aos nossos hábitos. Mas isso foi há mais de cem anos. E tinha que ver com práticas de public school, em tudo diferentes da modalidade cotada em bolsa.

Em 1921, Graciliano Ramos achava que os brasileiros não tinham vocação para o futebol: «Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não.» Pelé leu Graciliano?

O futuro desautorizou o autor de Vidas Secas (1938). Ilustres pares, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca e João Ubaldo Ribeiro, entre muitos, trataram o futebol como arte nobre. Drummond não fez a coisa por menos: «Futebol se joga no estádio? / Futebol se joga na praia, / futebol se joga na rua, / futebol se joga na alma.» E não só poemas como este. Afinal de contas, «Não há nada mais triste do que papel picado, no asfalto, depois de um jogo perdido. São esperanças picadas.» O assunto era sério. Dezenas de crónicas ficaram famosas: «Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.» (cf. Mané e o Sonho, 1983) E nós por cá? Onde o equivalente em Herberto Helder?

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LER 93


A LER n.º 93 [Julho-Agosto] está na rua. Mais de metade das páginas são dedicadas a Saramago, que morreu há menos de um mês, precisamente no dia em que a revista estava pronta para impressão. Não fazia sentido avançar como se nada fosse. Francisco José Viegas e João Pombeiro atrasaram (e bem) a saída deste número para poder homenagear o Nobel português. Valeu a pena.

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BLASPHEMOUS


Os estrénuos defensores da liberdade de expressão (sem limites) estão todos a banhos? Logo agora que a edição portuguesa da Playboy corre o risco de fechar, deixando no desemprego a equipa que faz a revista? Violação chocante das normas, diz Theresa Hennessy, vice-presidente da Playboy Enterprises. Ou só se comovem com Maomé? Quiçá com o pai solteiro mais famoso do país?

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Quinta-feira, Julho 08, 2010

EU HOJE ACORDEI ASSIM


Espero que a Carla não cobre copyright.

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Quarta-feira, Julho 07, 2010

EQUÍVOCOS


Num país atrasado como Portugal, a cultura do automóvel subverteu o interesse colectivo. Em 1986, com a entrada na CEE, actual União, centenas de milhares de famílias deram o salto da carroça para o Fiat 127. Não teria mal se, em simultâneo, os sucessivos governos, autarcas de todas as cores e poderes fáticos não tivessem aproveitado o upgrade de motorização para encerrar linhas de caminho de ferro e reduzir drasticamente a rede de carreiras rodoviárias.

Para dar um exemplo que conheço bem, vejamos o caso da linha de Cascais. Até praticamente ao fim dos anos 1990, toda a gente, da mais obscura ajudante de cabeleireiro ao broker com MBA em Stanford, usava o comboio. Ainda em 1997, das 8 da manhã às 8 da noite, partia um comboio (em ambos os sentidos) a cada seis minutos. Hoje, no mesmo período, apesar do acréscimo de população, é de vinte em vinte. Porquê? Porque a procura não justifica a oferta. Em larga medida, os comboios da Linha são agora utilizados por imigrantes, operários não qualificados, empregadas domésticas, estudantes do secundário, ocasionais turistas e um punhado de excêntricos que inclui funcionários públicos e jornalistas. A classe média, mesmo a muito baixa, só anda de popó. Barafusta com o preço dos combustíveis e as portagens, que sempre se pagaram na área da Grande Lisboa, mas não abdica de viatura própria.

Incidentes recentes reportados pelos media são consequência da mudança de paradigma. O que era comum na linha de Sintra está a suceder nos Estoris. Ontem mesmo, em Carcavelos, dezenas de passageiros impediram a entrada no comboio a um grupo de 40 jovens. A circulação esteve interrompida durante três quartos de hora, sendo reposta após a chegada da polícia. Passou-se isto às seis da tarde. Pensar que até 1997 me fartei de apanhar, sem qualquer problema, o comboio das 02:30h da madrugada.

Não faz sentido o desinvestimento na malha de transportes públicos interurbanos. Um habitante de Algés não tem uma camioneta que o leve a Cascais. E assim sucessivamente, um pouco por todo o país. A rede de Expressos cobre as capitais de distrito e mais meia dúzia de destinos, mas é insuficiente para assegurar a mobilidade das populações. Para dar outro exemplo que conheço bem, a faixa litoral de Viana do Castelo a Valença (circuito que inclui localidades como Afife, Vila Praia de Âncora, Moledo, Caminha, Cerveira, etc.) não tem transportes urbanos regulares. Uma camioneta desengonçada, quando o rei faz anos, mas nada que garanta a circulação de quem tem de trabalhar. Porquê? Porque a minhota que vai de Ponte de Lima a Gondomil aparar a relva do jardim do senhor doutor... se desloca de Clio! Foi a cultura do automóvel que gerou o imbróglio.


[Na imagem, Algés em 1973.]

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Terça-feira, Julho 06, 2010

MATILDE ROSA ARAÚJO 1921-2010


Matilde Rosa Araújo morreu hoje. Ficcionista, poetisa, cronista e pedagoga, notabilizou-se com O Livro da Tila (1957), entre todos emblemático de uma vida dedicada à literatura para a infância. Professora durante mais de quarenta anos, colaborou assiduamente na imprensa. Entre 1943 e 2008 publicou meia centena de títulos: romance, contos, poesia, ensaio, textos didácticos. Recebeu em 1980 o Grande Prémio de Literatura para Criança, da Fundação Calouste Gulbenkian. O retrato foi roubado ao Ruy Ventura.

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A LEI GERONTE


O governo quer fazer aprovar uma lei que permita a continuação em funções de magistrados do Ministério Público jubilados. Tudo por causa de Mário Gomes Dias, vice-procurador-geral da República que fez 70 anos no passado 15 de Junho. E continua em funções.

O diploma é votado na próxima sexta-feira, dia 9. PSD, PCP, BE e Verdes vão votar contra. Lei ad hominem, dizem. O CDS-PP ainda não decidiu.

Eu também votaria contra. Mas não deixo de reparar que uma mão-cheia de notáveis que agora protestam rasgou as vestes para manter João Bénard da Costa à frente da Cinemateca até aos 120 anos (ele é que fez a partida de morrer aos 74). Ou será que os prazos são só para alguns?

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Segunda-feira, Julho 05, 2010

PRONTOS


Cristiano Ronaldo escreveu no Facebook: «É com muita alegria e emoção que informo ter sido recentemente pai de um rapaz. Por acordo com a mãe, que prefere manter o anonimato, o meu filho ficará confiado à minha guarda exclusiva. Sobre este assunto não prestarei quaisquer outras informações [...]» Prontos! A criança terá nascido a 17 de Junho e a mãe (aliás, a barriga de aluguer, como foi noticiado) é americana. A falta que faz um Laclos à literatura contemporânea.

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Domingo, Julho 04, 2010

LER OS OUTROS


Francisco José Viegas: «[...] O Estado pode criar os regulamentos e posturas que entender para receber o que acha que lhe faz falta; por isso, atira-se aos rendimentos do trabalho ou à riqueza dos contribuintes e à actividade das empresas. Isso toda a gente entende. Mas alterar as regras “a meio”, e com a deselegância de um rinoceronte, não me parece que se entenda. [...] O Estado é que confunde “uma distinção a um artista” (que tem um valor pecuniário) com “pagamentos a entidades ou indivíduos com dívidas fiscais”. E, portanto, como é de sua natureza, desconfia de toda a gente. [...]»


Luís Januário: «[...] a história do Homem — assim com maiúscula — é a história de como se altera aquilo que a natureza organizou. Alguns exemplos: o controlo das doenças — desde a luta contra microorganismos até às terapêuticas génicas, a agricultura, a construção de barragens, a domesticação de outros animais, o direito, enfim.»

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