Quarta-feira, Junho 30, 2010

O REGRESSO DA POLÍTICA


Agora que a Selecção está de volta, regressa a política. Pretexto fatal: portagens nas Scut. O governo queria três, todas a Norte, onde só 21% do tráfego é portajado (contra 57% em Lisboa). O PSD exige sete. No P&C, autarcas dos municípios pobres ensaiam a dança do ventre em directo. O governo anuiu nas sete, adiou a cobrança para 1 de Agosto e isentou 46 municípios com poder de compra inferior ao índice 100 da tabela IPCC (Poder de Compra Concelhio). O PSD diz que não: «o Governo está a enveredar por uma linha de demagogia perigosa e, se é esse o caminho que o Governo quer prosseguir, então eu tenho de dizer de forma muito clara que não pode contar com o PSD para esse campeonato de demagogia barata para onde nos querem empurrar.» O PSD aposta forte e feio na crise. Cavaco não vai achar graça. Mas os Marcos Antónios da vida não desistem. Dois mesitos, dois mesitos para dissolver enquanto é possível. A ver vamos. Eu acho que sim. Era dar-lhes tudo, já.

Etiquetas: ,

Terça-feira, Junho 29, 2010

VERSO E ANVERSO


Ler no PNET Literatura a minha crónica Verso e anverso. Excertos:


Com intervalo de dez dias morreram António Manuel Couto Viana e José Saramago. Salvo a idade na hora da morte (87 anos), tudo os distinguia. Couto Viana era um poeta consagrado quando a Revolução chegou. Saramago era um literato que se fez escritor a partir da Revolução. Ambos foram autores no sentido amplo do termo.

[...] Couto Viana surgiu quando o neo-realismo impunha o diktat. Solipsismo, crença no devir messiânico da Pátria e carácter nacionalista exacerbado deram azo a ostracismo geral. [...]

Com Saramago foi tudo ao contrário. Em 1974, qualquer veleidade da sua parte seria motivo de riso. Os nomes que então “contavam” eram os de José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Vergílio Ferreira (muitos engulhos do PCP), Óscar Lopes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Eduardo Lourenço, Urbano Tavares Rodrigues, António Ramos Rosa, José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta e Almeida Faria. Entre a Nomenklatura e Saramago, uma barreira de notáveis: Vitorino Nemésio, Agustina Bessa-Luís, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Mário Cesariny (então ainda de Vasconcelos), Alexandre O’Neill, Sttau Monteiro, António Alçada Baptista, David Mourão-Ferreira, Nuno Bragança, Herberto Helder, Ruy Belo, Pedro Tamen, Fiama Hasse Pais Brandão, Maria Velho da Costa e Gastão Cruz. (Jorge de Sena, do outro lado do mundo, não entrava nestes arranjos.) Saramago porfiou. [...]

Quando em 1993 a Associação Portuguesa de Escritores lhe outorga o Prémio Vida Literária, Saramago era o cânone.


[Na imagem, Saramago na sua casa de Lisboa em Fevereiro de 1991.]

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Junho 28, 2010

TOUR DE FORCE


Foi hoje divulgado o resultado de uma sondagem da Universidade Católica para o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, a RTP e a Antena Um. Como tem sucedido desde que foi derrotada a direcção trapalhona de Manuela Ferreira Leite, o PSD lidera (embora por pequena margem) as intenções de voto. Mérito de Passos Coelho? Resultado do fim da crispação? Consequência das medidas de austeridade? Os números mais recentes dão 37% ao PSD, 34% ao PS, 10% ao PCP, 6% ao BE e outros 6% ao CDS-PP. Significa que a esquerda, no seu conjunto, detém 50% das intenções de voto, ficando a direita (PSD+CDS) à beira de conseguir a maioria absoluta de deputados.

Não admira que os radicais da direita apostem num tour de force. A introdução de portagens nas Scut, a partir da próxima quinta-feira (não será o chumbo dos chips que impedirá a sua cobrança: quem tem Via Verde fica com o assunto resolvido, quem não tem é fotografado), é o momento ideal para os falcões da Invicta darem ao Presidente da República um pretexto para dissolver o Parlamento. Como Cavaco só o poderá fazer até 9 de Setembro, convém apressar a tranquibérnia... Lembrar que Rui Rio enfatizou a possibilidade de um levantamento popular a Norte. Uma insurreição organizada das comissões de utentes, de molde a provocar resposta dos GOE, daria azo a uma crise política de consequências imprevisíveis. Há quem aposte nessa solução, sobretudo agora que as sondagens parecem estender o tapete vermelho ao PSD.

Naturalmente, os mais avisados dentro do PSD sabem que ainda não é chegado o momento. Lá para Outubro ou Novembro de 2011, talvez. Antes é preciso obrigar o PS a acabar o trabalho sujo. E só depois [Não temos nada com isso. Foram decisões do eng. Sócrates.] então dividir o bolo. Ah!, como seria instrutivo vê-los a tomar hoje mesmo as rédeas do poder.

Etiquetas: , ,

PUB


Hoje, na Fundação Mário Soares, apresentação da colecção
Alberto de Lacerda.

Etiquetas:

Domingo, Junho 27, 2010

O GRUPO


Ainda não tinha 17 anos quando vi The Group / O Grupo (1966) de Sidney Lumet. Nunca mais esqueci Candice Bergen, um pouco mais velha do que eu e, de longe, a personagem mais consistente do filme. Foi a própria Mary McCarthy que adaptou o romance ao cinema. A intriga centra-se nos anos 1930, girando em torno de oito amigas de Vassar (a universidade ultra-elitista onde a autora se formou) que acabam o curso no auge do crash económico de 1929 e, por essa razão, são obrigadas a viver a vida das pessoas comuns. O livro é de 1963 — foi escrito e publicado quando Mary McCarthy já não era casada com Edmund Wilson —, mas só o li em 67 ou 68. Agora, a Dom Quixote fez-nos o favor de o reeditar. Esta edição inclui prefácio (2009) de Candace Bushnell, autora de O Sexo e a Cidade. (Nunca li. Acho a série divertidíssima.) Mas a escolha não faz sentido. É como dizer a alguém: Olhe, acabou-se-me o Chambertin Grand Cru 2007, mas tenho ali um Borba Reserva 2005. Enquanto houver livros como este de Mary McCarthy, os domingos nunca são chatos.

Etiquetas:

CITAÇÃO, 280


Vasco Pulido Valente, Saramago, hoje no Público. Excertos:


«O prémio Nobel não garante a importância literária de ninguém. [...] Que Saramago fosse o único escritor de língua portuguesa a receber essa mais do que duvidosa distinção não o acrescenta em nada, nem acrescenta em nada a língua portuguesa. [...] Sousa Lara, com a ignorância contumaz da nossa direita, acabou por lhe dar uma grande ajuda. O Evangelho segundo Jesus Cristo, qualquer que seja o seu mérito literário (e, para mim, é pouco), não passa de um repositório de lugares-comuns sobre o Cristianismo (alguns dos quais do século III), que não revela sombra de pensamento original e só pode perturbar um analfabeto. Para defender a sua fé, ao que parece acrisolada, Sousa Lara teria feito melhor em proibir A Relíquia e O Mandarim, dois livros de facto subversivos, que justamente não incomodaram a burguesia de uma época em que o Catolicismo era a religião de Estado. [...] Instalada na Casa dos Bicos, mesmo no centro da Lisboa antiga, a Fundação Saramago é homenagem bastante

Etiquetas:

Sábado, Junho 26, 2010

TODOS AO TERREIRO


É hoje, no Terreiro do Paço, das duas da tarde às quatro da manhã: catorze horas consecutivas de alegria. No período da tarde a programação privilegia as crianças, todas as crianças, e não só as que têm pais e mães LGBT. No palco principal, às 23:00h, será feito um brinde à igualdade. Não tenha medo do saracoteio. Nem se esqueça do que a Lufthansa reservou para os nubentes mais ousados! A 14.ª edição do Arraial Pride espera por si.

Etiquetas:

Sexta-feira, Junho 25, 2010

NÃO TEM CHIP, TEM RETRATO


Sobre o pagamento de portagens nas Scut, a partir do próximo 1 de Julho, disse aqui o que penso. Sou favorável ao pagamento, em todo o país. Sobre chips de matrícula, escrevi que «mais valia tornar o uso da Via Verde uma imposição legal

Ontem, o Parlamento inviabilizou (na generalidade; a ver vamos o que sucede na especialidade) o diploma que daria suporte legal aos referidos chips.

Significa isto que os detentores de Via Verde não têm problemas. Mas os outros, em especial os que têm preocupações de privacidade, vão tê-la (agora sim) devassada. O chip daria notícia da passagem da matrícula A pela estrada X. Ao contrário, a ausência de chip aciona uma fotografia do veículo — como acontece neste momento nas pontes de Lisboa e em todas as auto-estradas do país —, com os dados inerentes, incluindo a(s) nuca(s) do(s) ocupante(s). Isto acontece todos os dias, de Norte a Sul, e nunca incomodou ninguém.

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Junho 24, 2010

CITAÇÃO, 279


Jacinto Bettencourt, Singularidades... Alguma direita preserva os valores da honra. Excerto, com sublinhados meus, de um longo e certeiro post:


«[...] Dito isto, e sem querer retomar os traços da trama alegadamente descoberta pelo senhor Carlos Santos, importa concluir que a mesma não constitui, desde logo, uma trama, que os factos relatados pelo senhor Carlos Santos nada contêm de ilícito (salvo no que se refere a eventuais actos do próprio) e que aquilo que neles conseguimos detectar diz sobretudo respeito à aborrecida e inócua organização interna de um blogue de apoio a um partido e um programa políticos, a comunicações dos seus membros entre si e com terceiros (agentes políticos) e à coordenação geral de quem nele escreve [...] Lamentavelmente (para o denunciante), não vislumbramos, por não existir, qualquer utilização abusiva de meios públicos (computadores; Internet), mas a mera utilização profissional (no caso dos agentes políticos) ou pessoal (no caso dos voluntários e demais filiados) dos mesmos. Consequentemente, as historietas que o senhor Carlos Santos nos tem vindo a impingir diariamente ao longo dos últimos meses nada mais revelam do que uma monumental demonstração de incompetência do próprio para a interpretação de normas e deveres de natureza jurídica ou ética e a compreensão do mundo da vida. Uma maçada.

Convém também acrescentar que o senhor Carlos Santos, o mesmíssimo Carlos Santos que activamente participou no simplex e assim contribuiu para a reeleição do engenheiro José Sócrates, que ao longo dessa participação fez amplo uso da informação que lhe foi transmitida (que não recusou) por pessoas que hoje censura, e que em diversas ocasiões propôs ou aceitou alegremente as agendas e temas que foram sendo sugeridas e debatidas internamente pelos membros do blogue, não era membro de um gabinete ministerial, não desempenhava funções políticas nem foi candidato a cargo algum durante as últimas eleições legislativas, pelo que não se encontrava, à data, cometido de tarefas que vagamente se relacionassem com as eleições legislativas em causa ou abrangido pelas habituais atenuações laborais que a lei estabelece a favor de candidatos. Ou seja: o senhor Carlos Santos, membro do simplex, não passava, à data dos factos relatados pelo próprio, de um singelo professor universitário que, nessa qualidade, fez uso intensivo do computador, do tempo, dos electrões e do contrato de comunicações electrónicas afectos ao serviço que prestava, e presta, à Universidade que o acolhe. E escapando-me em que medida a defesa do Partido Socialista e do programa do engenheiro José Sócrates, através da escrita regular e entusiástica no simplex, se enquadra nas funções académicas do senhor Carlos Santos, creio que o senhor Carlos Santos vai abrangido (e bem) na crítica que antes havia apontado (e mal) a terceiros, e que a respectiva participação no simplex, ao envolver o recurso a meios que não se encontram afectos ao desempenho de funções políticas, constitui a menos legítima e a mais abusiva de todas as participações no referido blogue.

[...] Por certas tenho duas coisas, que julgo partilhar com muitas e boas pessoas e que o senhor Carlos Santos faria bem em recordar (agradecido): que a minha direita despreza delatores, criaturas gelatinosas e pouco masculinas que tudo fazem e penhoram por um momento de fama ou calor humano; e que no mundo da política como eu o vejo e desejo, serão sempre bem vindos adversários políticos como o João Galamba e o Guilherme Oliveira Martins, mas não haverá, junto a mim e aos meus, espaço para entusiastas convertidos da filigrana do senhor Carlos Santos.»

Etiquetas: ,

ISTO VAI LÁ


A minha amiga f. é uma mulher às direitas, sem medo das palavras:

«conheço o joão galamba. conheço o miguel abrantes, o joão magalhães e o afonso mesquita. são quatro pessoas [...] são quatro, e pessoas diferentes

E o Miguel Marujo, que não tenho o prazer de conhecer, também não:

«cara f., o CAA, como ele se assassinava, jantou com o Miguel Abrantes, no Bairro Alto, quando do blogue Sim no Referendo, e sentou-se à mesma mesa que o dito corporativo na Bica a beber um copo, com o Luís M. Jorge... Agora finge que não. Qualquer dia nega que tenha feito campanha pelo sim. Ah, e eu sei isto não porque tenha andado a ler a correspondência do Carlos Santos, mas apenas porque estive nessas duas mesas


Adenda. Conforme se pode ler aqui, João Pinto e Castro esclarece que Miguel Abrantes não esteve no jantar a que alude o Miguel Marujo. Esteve noutros em que esteve o CAA, mas não nesse. Portanto, a noite em que Luís M. Jorge trajou «casaco de linho, calças castanhas, ténis All Star», foi outra. Bem me parecia que eram Bicas diferentes...

Etiquetas:

Quarta-feira, Junho 23, 2010

PUB


Paulo Ferreira teve a ideia, Francisco José Viegas passou a letra de forma, Rui Penedo ilustrou, a Booksmile fez nascer a obra. O lançamento é logo ao fim da tarde (18:30h), na Fábrica dos Pastéis de Belém, em Lisboa. Carla Maia de Almeida apresenta.

Etiquetas:

PUSILANIMIDADE


António Manuel Couto Viana, poeta, contista, dramaturgo, memorialista, fundador (com Alberto de Lacerda e David Mourão-Ferreira) da Távola Redonda, morreu no passado dia 8. No dia 16, o PS agendou um projecto de voto de pesar pela sua morte, subscrito na véspera por doze deputados socialistas. No dia 18, presumo que em reunião dos grupos parlamentares, a intenção de voto foi retirada depois dos protestos apresentados pelo BE e PCP, com o argumento, e vou citar terceiros, de que o Parlamento não podia homenagear quem combatera «ao lado das tropas nacionalistas, na guerra civil de Espanha.» Não imagino qual pudesse ter sido o contributo de um garoto na Falange: Couto Viana tinha 13 anos quando a guerra começou, e 16 quando acabou. Adiante.

O imbróglio surpreende-me a vários títulos. Em primeiro lugar, pela passividade dos doze subscritores, entre os quais se encontra um capitão de Abril (Marques Júnior) e pessoas com responsabilidades na área cultural. Em segundo lugar, pela indiferença da direita, que não foi capaz de pensar pela sua cabeça. Ninguém no PSD e no CDS-PP achou pertinente homenagear Couto Viana. Teria sido preferível um voto chumbado a voto nenhum. Pelos vistos, os gestos solitários, i.e., não conformes ao diktat partidário, estão reservados à aliança policial-parlamentar. A direita, que tanto barafusta com o monopólio literário da esquerda, mostrou-se incapaz de celebrar o mais corajoso dos seus. Têm vergonha de quê? Quanto ao silêncio dos media, estamos conversados. Couto Viana? Quem é esse gajo?

O assunto vem atrasado? Talvez venha. Mas só ontem à noite tive conhecimento dele. E ainda não me refiz do espanto.

Etiquetas:

Terça-feira, Junho 22, 2010

SCUT, CHIPS & INSUBORDINAÇÃO


Primeiro, o chinfrim popular. Agora, o aviso dos poderes fáticos. Rui Rio foi claro na possibilidade de um levantamento popular. Disse ele: «O ministro das Obras públicas não tem a minha experiência política, mas o primeiro-ministro tem, porventura até mais, e deve contar com as consequências deste acto irreflectido.» (Cito de cor.) O acto irreflectido é a introdução de portagens, a partir do próximo 1 de Julho, nas Scut do Grande Porto, Norte Litoral e Costa da Prata. Três das sete que existem no país, sendo as outras as do Norte Interior, Beira Litoral, Beira Interior e a Via do Infante.

Vamos por partes. Eu, quando vou a Cascais, a Óbidos, a Palmela, ao Porto ou a Elvas, pago portagens. Até para ir à Marmeleira se paga portagem. E sempre me fez muita confusão não ter de pagar entre o Porto e Afife (na realidade, entre o Porto e Vila Praia de Âncora, local em que é preciso deixar a A28 para retroceder a Afife), ou entre o Ancão e os Salgados, servindo-me da Via do Infante. Portanto, na minha, as Scut devem ser pagas. Todas. Desconheço a razão de começar por aquelas três. Se é por causa da crise, deviam ser oneradas as sete.

Isto dito, a ameaça ontem proferida por Rui Rio é inqualificável. Está o autarca, na qualidade de Herói do Norte, a posicionar-se à sucessão de Pedro Passos Coelho?

Quanto aos chips, a precipitação parece evidente. Obrigatoriedade por obrigatoriedade, mais valia tornar o uso da Via Verde uma imposição legal. A ver vamos o que decide o Parlamento.

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Junho 21, 2010

TRAMA OUT


Dizem-me que a Trama fechou. Estamos tramados. Não pode ser verdade. A São Filipe Nery (ali ao Rato) não volta a ser a mesma.

Etiquetas: ,

Domingo, Junho 20, 2010

NA MORTE DE UM HOMEM


As televisões não se calam com a “ausência das mais altas figuras do Estado” nas exéquias de Saramago. Mas por que carga de água o funeral de um escritor (actor, cientista, artista plástico, músico, etc.) tem de cumprir o protocolo dos actos oficiais?

Quanto se viu nas reportagens, Saramago teve a seu lado a mulher e a filha, outra família, amigos, camaradas de partido, intelectuais, políticos (o primeiro-ministro, a vice-presidente do governo espanhol, as ministras da Cultura de Portugal e Espanha, o presidente da Câmara de Lisboa, o secretário-geral do PCP, um representante do presidente do PSD, etc.), figuras públicas e milhares de anónimos. Não precisava de mais. Um funeral é um acto privado. Bem andou a família Sousa Tavares quando (vai fazer seis anos daqui a dias) reservou as exéquias de Sophia de Mello Breyner Andresen ao restrito círculo familiar.

Fazer extrapolações é pura demagogia.


[O desenho foi roubado ao Pedro Vieira.]

Etiquetas:

LER OS OUTROS


Conforme ilustra a foto da Ana Vidigal, estamos todos de parabéns. Vivemos num país livre.

Obrigado, Tomás.


Francisco José Viegas: «[...] A consagração de Saramago deve-se à literatura e à sua “intervenção cívica” — mas só a literatura, que está ligada à eternidade, o irá transcrever mais tarde nas palavras da terra, no gigantesco poema do mundo, onde entrará Manual de Pintura e Caligrafia, por exemplo, um livro injustamente esquecido, e essa “trilogia do cânone” onde estão inscritas as linhas de quase toda a sua obra: a atenção aos pequenos personagens (quase anónimos, quase insignificantes), o absurdo da História, a ideia de epopeia, a fragilidade do humano e do humanismo. [...]»

João Pinto e Castro: «Os portugueses são, ainda hoje, educados para serem modestos, humildes, mesquinhos, submissos, subservientes, tacanhos e bem comportados. Numa palavra, para serem invertebrados. / Saramago foi afirmativo, inquisitivo, convicto, ousado, persistente, ambicioso, cosmopolita e intelectualmente generoso. / Fez muitas coisas erradas e algumas altamente condenáveis, mas um país constrói-se inspirando-se nas forças dos seus melhores, não nas suas fraquezas. / Não sou um grande apreciador dos livros que Saramago escreveu, como não o sou dos de várias outras grandes figuras da literatura mundial. O mais provável é que a falha seja minha, não dele.»

Manuel Gusmão: «Saramago é um escritor que se conquistou a si mesmo, que encontrou a sua maneira em pleno percurso. [...] José Saramago morreu. Inicia-se o seu segundo combate ou uma nova fase do seu combate de há muito: a luta pelo reconhecimento pleno da sua obra. A luta pela conquista e fidelização de leitores, pela leitura e releitura dos seus livros. Mas não só dos seus, e sim pela leitura dos grandes do passado ou dos seus contemporâneos: Camões, o padre António Vieira, Almeida Garrett, Camilo e Eça, Jorge de Sena ou Rodrigues Miguéis, numa lista incompleta. Portugal é um país em que historicamente se acumularam atrasos culturais e uma enorme fragilidade das suas instituições culturais. Isso explica em parte que a morte de um escritor seja muitas vezes a sua entrada num limbo da memória, num período de descaso e de esquecimento. O Nobel que ganhou é em relação a esse comportamento do futuro uma protecção simbólica, é certo, mas não suficiente por si só. Um pouco por todo o mundo (não estou a exagerar) foi lido e amado por leitores que, em tempos de derrota e de solidão, reconheceram nele um dos seus, alguém que ocupava o mesmo campo social à escala planetária. Esse facto foi caricaturado por alguns, que atribuíram o seu sucesso a uma “conspiração internacional” de comunistas ou cripto-comunistas. Agora que morreu, nós temos responsabilidades acrescidas nesse combate. E não é preciso “conspiração” nenhuma. Basta cuidar do nosso património literário e artístico. Ele permaneceu fiel à longa e denegada “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin). Nós que nessa tradição temos vindo, sabemos que a memória é uma condição do desejo de futuro; sabemos que o cuidar da memória integra o longo trabalho da emancipação. Eu sei que há quem deteste palavras como estas – memória, futuro, trabalho, emancipação –, mas que hei-de fazer, ó boas almas, é que ele era um dos nossos.»

Pedro Mexia: «As escutas estão em debate. Juridicamente, tenho um entendimento minimalista do uso de escutas judiciais, mas confesso que nesta altura do campeonato já estou mesmo preocupado é com escutas extra-judiciais. [...] E lembrei-me que já sabia isto, que isto vem no The Conversation de Coppola: as escutas revelam conversas, mas o uso de escutas revela a natureza humana

Etiquetas:

Sábado, Junho 19, 2010

A MARCHA


Realiza-se hoje a Marcha do Orgulho LGBT, a 11.ª que tem lugar em Lisboa. Concentração no jardim do Príncipe Real a partir das 16:00h, partida às 17:00h.

O Gay Pride existe desde 1969. Foi nesse ano que a comunidade homossexual de Nova Iorque resistiu ao assédio e chantagem da polícia. No dia do funeral de Judy Garland, a 27 de Junho de 1969, forças policiais invadiram o Stonewall Inn, o bar de Christopher Street que se tornou o símbolo da cultura gay. (A imagem mostra a placa alusiva. Clique nela.) Nessa noite, contra o que era hábito, os clientes reagiram, fazendo frente às forças da ordem durante três dias consecutivos. Os motins de Stonewall fundaram o Gay Pride. Em 1969, a marcha teve lugar no dia 2 de Novembro, mas, a partir de 1970, passou a realizar-se em Junho em mais de 60 países. As cidades onde a sua expressão é mais eloquente são Nova Iorque, São Paulo (dois milhões de participantes), Berlim, São Francisco, Paris e Madrid.

Num mundo em que sete países (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iémen, Irão, Mauritânia, Sudão e algumas províncias da Nigéria) punem a homossexualidade com pena de morte, o Gay Pride é uma obrigação.

Etiquetas:

CITAÇÃO, 278


Filipe Nunes Vicente, SIM, Mas. Excerto, sublinhado meu:


«Não é proibido, obviamente, ser do PS e não constitui blogo-atentado usar pseudónimo. Se há quem o use para única e exclusivamente insultar (não é o caso de todos os assessores do PS) oposicionistas, gays e judeus, e por isso tem vergonha de assinar o que escreve [...] que faça bom proveito. [...]

O osso é outro. Um dissidente resolveu denunciar o anonimato dos seus ex-amigos. Esse dissidente é ele próprio um anónimo: apagou todos os registos (escaparam umas migalhas afixadas em casa alheia) da sua antiga colaboração

Etiquetas:

CITAÇÃO, 277


Valupi, O opróbrio é geral. Excerto, sublinhado meu:


«[...] Para além dos que utilizam o Carlos Santos, canalhas frios e ferozes, muitos mais estão calados a desfrutar do espectáculo. Como não é nada com eles, nem com alguém do seu círculo de interesses, fruem sadicamente da desgraça. Não conseguem entender que a desgraça é a da própria comunidade. E não o conseguem entender porque começam por não entender o que seja a comunidade. [...] A peçonha está entranhada até ao topo desta pseudo-direita que não conhece limites para a pulhice

Etiquetas:

Sexta-feira, Junho 18, 2010

JOSÉ SARAMAGO 1922-2010


José Saramago morreu hoje em Lanzarote, onde residia. Tinha 87 anos. Oriundo do proletariado, conseguiu impor a obra à revelia da tutela universitária. Antes de chegar à literatura exerceu diversas profissões, entre elas as de serralheiro mecânico e jornalista. Foi director-adjunto do Diário de Notícias durante o PREC. Publicou o primeiro romance em 1947, Terra do Pecado, e o segundo em 1977, Manual de Pintura e Caligrafia. Depois desses escreveu mais dezassete, sendo Caim (2009) o último em data. Além de romances, publicou contos, poesia, crónicas, teatro e um diário. A partir de 1980, com Levantado do Chão, tornou-se um autor best-seller. A consagração chegou com Memorial de Convento (1982), embora Harold Bloom só tivesse dado por ele com O Evangelho segundo Jesus Cristo (1992), obra que considera equivalente ao melhor de Joyce, Proust e Kafka. Saramago casou três vezes, a última das quais com Pilar Del Rio, uma antiga freira. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1998 (na imagem). Uma Fundação com o seu nome ocupa a Casa dos Bicos, em Lisboa.

Etiquetas:

O PS FOI ILEGALIZADO?


As minhas amigas Ana Matos Pires e f. puseram o dedo na ferida: a primeira sob a forma de divertissement, a segunda em comentário. Diz a Fernanda: «[...] desde que o ps foi ilegalizado que qualquer pessoa suspeita de ser ‘próxima’ (quanto mais militante, homessa!) é considerada malfeitora [...]» Com efeito.

A ver se a gente se entende. Tirando uns rapazes e umas raparigas que criam blogues para serem famosos no liceu ou na paróquia, e os patuscos que fazem pontaria aos tablóides, o grosso dos bloggers é constituído por actuais e antigos militantes de todos os partidos; por personalidades independentes que dão o nome (e a cara) pelo partido A ou pelo partido B; por actuais ou antigos adjuntos e assessores de gabinetes ministeriais; por actuais ou antigos dirigentes da Função pública; por actuais ou antigos deputados e ministros; por actuais ou antigos chefes de gabinete (em ministérios ou partidos); por altos quadros de empresas públicas e privadas; por jornalistas que devem o emprego às ligações partidárias, formais ou informais, que os têm sustentado; (A carapuça só enfia a quem tem de enfiar: há muito jornalista isento a escrever em blogues.) por docentes universitários que gostam de fazer uma perninha ideológica; por magistrados idem, etc. Algumas destas pessoas, sobretudo magistrados, usam pseudónimo. Não vem daí mal ao mundo. É assim à esquerda e à direita.

A expressão personalidades independentes inclui uma vasta gama de profissões: funcionários públicos, publicitários, médicos, arquitectos, sociólogos, historiadores, advogados, economistas, artistas plásticos, cientistas, escritores, humoristas, etc. Who cares?

Nas artes em geral e na literatura em particular, os pseudónimos são respeitados: Miguel Torga [Adolfo Rocha], Eugénio de Andrade [José Fontinhas], Adília Lopes [Maria José Oliveira] e por aí fora. Por que carga de água a Shyznogud, o Valupi, a Zazie, o Maradona, a Vieira do Mar, o José e o Miguel Abrantes — uma pessoa concreta, singular, que privou com este mundo e o outro durante o SIM no referendo —, entre dezenas de outros, não têm os mesmos direitos?

Como diz a Fernanda, a malta reage como se o PS tivesse sido ilegalizado. Só isso explica que gente tida por respeitável dê cobertura à mais infamante devassa de correspondência privada de que tenho memória. O opróbrio é geral. E se fossem catar macacos?

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Junho 17, 2010

O ARREDONDAMENTO


As famosas taxas adicionais ao IRS já se fazem sentir. Nada contra. Mas havia necessidade de arredondar a retenção? No meu caso foram dois cêntimos. Noutros será menos, noutros mais. O arredondamento está previsto? Se sim, porquê?

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Junho 16, 2010

A BOSTA, AGAIN


As mascarenhas do costume continuam patéticas e palavrosas. Repetir pela enésima vez: conheço o Miguel Abrantes desde Agosto do ano passado, estive com o Miguel Abrantes num dos quatro jantares do SIMplex em que participei, voltei a estar com ele no Altis na noite de 27 de Setembro e, depois das eleições, almocei com ele na Versailles. O Miguel Abrantes é um dos três colaboradores do Câmara Corporativa, sendo os outros o Afonso Mesquita e o João Magalhães, os quais não conheço.

O SIMplex teve 40 colaboradores. Três, o João Galamba, o João Paulo Pedrosa e o Miguel Vale de Almeida, foram eleitos deputados. Outros dois, o Hugo Mendes e a Mariana Vieira da Silva, trabalhavam (e continuam a trabalhar) em gabinetes ministeriais. Depois das eleições, o Tiago Julião Neves deixou Londres e veio trabalhar no gabinete de um ministro. O André Couto foi eleito presidente de uma Junta de Freguesia. O Eduardo Graça era (e continua a ser) presidente da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social. O Victor Sancho foi difamado pelo antigo assessor de Paulo Portas. O Miguel Abrantes continua a trabalhar onde sempre trabalhou: nem de perto nem de longe exerce funções relacionadas com o PS ou o governo. Personalidades como Guilherme W. Oliveira Martins, João Constâncio, João Pinto e Castro, Leonel Moura, Luís Novaes Tito, Pedro Adão e Silva e Tomás Vasques nunca esconderam a sua proximidade ao PS. Isto dito, que crime cometeram estas pessoas? Apoiar o PS em período eleitoral num blogue de apoio explícito ao partido? No Jamais só havia bailarinos dos Alunos de Apolo?

Já nem falo dos que eram (e continuaram) independentes: Ana Vidigal, Bruno Reis, eu próprio, Gonçalo Pires, Irene Pimentel, João Coisas, Palmira F. Silva, Porfírio Silva, Rogério da Costa Pereira, Rui Herbon, Sofia Loureiro dos Santos e outros.

Também havia militantes do PS? Pois havia. E daí? O que é que interdita Carlos Manuel Castro, José Reis Santos, Paulo Ferreira e outros de escreverem num blogue de apoio ao partido?


[Na imagem, da esquerda para a direita e de cima para baixo: André Couto, Eduardo Graça, Miguel Vale de Almeida, Bruno Reis, Rui Herbon, Irene Pimentel, Sofia Loureiro dos Santos, João Galamba, João Pinto e Castro, José Reis Santos, Guilherme W. Oliveira Martins, Ana Vidigal, Tiago Julião Neves, Porfírio Silva, eu próprio e Tomás Vasques. Lisboa, Cervejaria Trindade, 25 de Setembro de 2009. Foto: Victor Sancho. Clique para ver melhor.]

Etiquetas: ,

Terça-feira, Junho 15, 2010

O PAÍS DAS VUVUZELAS


Portugal jogou hoje com a Costa do Marfim em Port Elizabeth. As televisões entraram em transe. Como o resultado não foi o desejado, a culpa é das vuvuzelas que perturbam Ronaldo, da relva que irrita Queiroz, da trepidação do avião que levou os jogadores, da chuva, do vento, do frio, da altitude e, last but not least, do Toni.

Tendo nascido e vivido até aos 26 anos em Moçambique, ligam-me à África do Sul laços de outros tempos. Hoje com 49 milhões de habitantes, dos quais perto de cinco milhões são brancos (e, desses, 10% portugueses), o país que Mandela arrancou ao apartheid é a maior economia de África, não obstante as gritantes desigualdades sociais e uma taxa de desemprego superior a 40% da população activa. Johannesburg, Pretoria, Durban, Cape Town e Port Elizabeth são (ou eram) cidades com um elevado padrão de vida.

Nos anos 1950-60, Johannesburg era a Nova Iorque dos laurentinos como eu. Rui Knopfli achava que era Paris: «O meu Paris é Johannesburg, / um Paris certamente menos luz, / mais barato e provinciano. / [...] À noite janto no Monparnasse / de Hilbrow, que é o Quartier Latin / do sítio e olho essas mulheres / excêntricas e belíssimas / de pullover e slacks helanca / e esses beatniks barbudos / excêntricos e feiíssimos, / tudo com o ar sincero / mas pouco convincente do made in USA. / [...] Depois do turkish coffee meto-me / até ao Cul de Sac e fico-me / a ouvir o sax maravilhado / de Kippie Moeketsi. O jazz, sim, / é genuíno e tem um bite / todo local. O néon e a madrugada / silenciosa, o asfalto molhado, / a luz da aurora e a luz dos reclamos / misturando-se, a minha solidão, / aconteceriam assim em Paris. / Aqui ninguém sabe quem sou, / aqui a minha importância é zero. / Em Paris também.» (cf. Máquina de Areia, 1964; o poema é de 1962)

Em 1962, Johannesburg tinha um milhão e meio de habitantes. Hoje tem o triplo. Descobrir a cidade aos 15 ou 16 anos era um ritual iniciático: arranha-céus com mais de 40 andares, comércio de luxo, temporadas de teatro, ópera e ballet, mais de cem cinemas, livrarias abertas 24 horas, vida nocturna straight & gay, um bairro boémio na parte alta da cidade (o Hilbrow), subúrbios decalcados dos contos de John Cheever e, no downtown, o Joubert Park. Para os heteros, o Joubert Park era uma espécie de Jardim das Tulherias onde à hora do almoço se podia apanhar ar fresco e comer sanduíches de pepino. A rapaziada homo satisfazia todas as fantasias do Griffith Park de Los Angeles a partir do fim da tarde. É no Joubert Park que fica a Johannesburg Art Gallery, museu inaugurado em 1915. Foi lá que pela primeira vez vi Rodin, Dante Gabriel Rossetti, Monet, Degas, Picasso, Henry Moore e outros. Com um bocado de sorte, em Julho havia neve. A mim nunca calhou.

Os laurentinos iam com frequência a Johannesburg. Pretextos não faltavam: ir ao médico, sempre que uma doença má era diagnosticada em LM; matricular os filhos num colégio ou na Witts; saldos do OK BAZAAR (um Corte Inglés de facto inglês... fundado em 1880); um grande espectáculo. A distância entre Lourenço Marques [Maputo] e Johannesburg é igual à distância entre Lisboa e Madrid. Ou seja: 50 minutos de avião; sete horas de carro; doze horas de comboio (estamos no início dos anos 1960). O comboio partia da Estação Mac Mahon às seis da tarde e chegava a Johannesburg às 6 da manhã seguinte. A viagem de carro tinha o aliciante de permitir ver a cidade (cercada de minas de ouro) num contraluz de poalha dourada. Hoje, parece que a cidade está transformada numa Lagos ainda mais violenta. Políticos estrangeiros, turistas endinheirados, executivos transnacionais, classes médias altas; cientistas, artistas e desportistas em trânsito, etc., ninguém dá por nada: vão directamente do aeroporto para Sandton, a zona clean, com avenidas e edifícios desenhados por Helmut Jahn. Sandton tornou-se nos anos 1990 o centro financeiro de Johannesburg, que o mesmo é dizer a capital financeira de África. População: 130 mil pessoas (em 4,5 milhões). Os 130 mil do topo. É lá que estão instalados os media sul-africanos mais imporantes.

Durban e Cape Town não eram tão acessíveis. A Durban chegava-se ao fim de catorze horas de carro, indo pela fronteira da Swazilândia. A sofisticação da cidade era lendária. (No fim dos anos 1950, quando era o homem mais rico do mundo, Onassis não foi admitido no melhor hotel da cidade porque não tinha pedigree.) Cape Town tem a seu favor o deslumbrante enquadramento paisagístico, o turismo de qualidade, a tradição vinícola, o clima temperado. É sede do Parlamento sul-africano, suponho que em homenagem a Cecil Rhodes. Os brancos do antigamente que ainda não emigraram para a Austrália, a Nova Zelândia e a Califórnia; os intelectuais brancos que sobram; os artistas mais dinâmicos, negros e brancos; a comunidade de judeus ricos; todo o old money e o que resta das famílias upper-class nascidas na África do Sul, toda essa gente se transferiu de Johannesburg para Cape Town depois de 1994. Grande parte da comunidade gay, também. Como é sabido, a África do Sul permite, desde 2006, o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Lembrei-me de tudo isto no dia em que Portugal esteve suspenso da explosão do CR7. Para nada.


[Foto: entardecer no Hilbrow, em 1969.]

Etiquetas: ,

RETRATO DE FAMÍLIA


Ler no PNET Literatura a minha crónica O novo século. Excertos:


Gilles Lipovetsky diz que vivemos numa sociedade pós-moralista [...] O Crepúsculo do Dever foi publicado em 1992. Porém, no momento em que, entre o azedume e a leviandade, a Europa se interroga sobre a sua viabilidade, as palavras de Lipovetsky, corroborando o “retrato de família” dos 27, parecem ter sido escritas ontem.

[...] no momento em que a realidade faz tábua rasa da civilização, é o tempo que muda. A impotência dos 27 face à crise do euro tem um suplemento de ironia: o de ver a Europa afundar a reboque de uma crise cambial. Para a humilhação ser completa, são inomináveis os caminhos da agiotagem.

[...] A Europa era um clube de cavalheiros. Agora, o clube faliu. Porquê camisas de Savile Row, se o preço de cada uma equivale ao recheio de uma casa do outro lado do mundo? A princesa Dragomiroff não estaria mais perplexa. [...]

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Junho 14, 2010

VELHICE DESAMPARADA


O Público traz hoje um dossiê sobre a velhice desamparada, da autoria de Ana Cristina Pereira, Catarina Gomes e Paulo Moura. Infelizmente, sem números que permitam avaliar a extensão do problema. É curto dar como exemplo as dificuldades das famílias desempregadas «que só vivem da reforma do idoso». Dir-se-ia que o mundo dos que têm emprego (e ascendentes idosos para cuidar) é um mar de rosas.

Vamos então falar dos que têm emprego. Um casal com rendimento mensal bruto de quatro mil euros tem condições para colocar um ascendente num lar decente? Não tem. No concelho de Lisboa, um lar decente pratica tarifas a partir de 2500 euros. No concelho do Seixal, lares do mesmo nível oferecem serviço equivalente a partir de 1800 euros. Não estou a falar de lares de luxo, os soi-disant Clubes Sénior, como os que existem no centro de Lisboa e nos concelhos de Oeiras e Cascais. Esses lares “topo de gama” exigem jóia de admissão, não reembolsável, e mensalidades a partir de 3600 euros. Também não estou a falar dos “lares baratos”, fáceis de encontrar nos concelhos da Amadora, Loures, Mafra e Odivelas. O que é um “lar barato”? É um lar que cobra 900 euros por mês para manter os idosos em condições muitas vezes infra-humanas. Sobram as Misericórdias, cuja oferta na Grande Lisboa é residual (e nem toda a gente tem condições para ir pôr um pai ou uma mãe em Viseu ou Bragança), e pouco mais.

De acordo com o Público, «apenas 3,5 por cento das pessoas com mais de 65 anos vivem em instituições», públicas ou privadas. E não é por opção pessoal: «Só nos sócios da Confederação de Instituições Particulares de Solidariedade Social há mais de 50 mil pedidos».

E a famosa Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados? Entre outras coisas, a RNCCI garante o imprescindível apoio domiciliário. Mas esse apoio tem tecto. Um exemplo concreto: um idoso (mais de 90 anos) aposentado do Estado, pensionista da Caixa Geral de Aposentações, descontando todos os meses para a ADSE, fica arredado de qualquer apoio se tiver uma pensão mensal de valor igual ou superior a 536 euros. Se ganhar até 535... tem direito a receber cinco euros por dia, ou seja, 150 por mês. Mas para isso é preciso que viva sozinho, porque o rendimento anual do agregado familiar não pode ultrapassar 7504 euros. Isto põe de lado quantos? 92% ou 95% dos pensionistas da CGA? Não obstante, os pensionistas da CGA descontam para a ADSE catorze duodécimos (ao contrário dos funcionários no activo, que só descontam doze) do seu rendimento anual.

As dificuldades dos mais desfavorecidos são reais, mas não esgotam o problema. Para a classe média não há safa possível. É pena que o dossiê do Público omita esse detalhe. Para mal dos meus pecados, estou a falar de um assunto que conheço bem.

Etiquetas: ,

Domingo, Junho 13, 2010

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. James Wood (n. 1965) está para as gerações mais jovens como George Steiner (n. 1929) e Harold Bloom (n. 1930) para a minha. E depois há aquelas pessoas que dizem com um sorriso de desdém: «Para actor, este gajo não escreve mal de todo.» Estão a confundir os cavalheiros e os nomes, sem dar por nada. James Wood, professor de crítica literária em Harvard, é um dos autores mais influentes do seu tempo. Quem lê a NYRB e a New Yorker, duas das publicações onde escreve com regularidade, sabe do que falo. Agora, a Quetzal publicou a mais recente das suas colectâneas de ensaio, How Fiction Works / A Mecânica da Ficção. Rogério Casanova traduziu. O texto de Wood e os «abundantes excertos» de obras citadas. Discurso directo: «Todos esses excertos foram traduzidos de raiz, não se tendo recorrido a traduções portuguesas já existentes.» Isto significa saltar de Isherwood para Coetzee, de Flaubert para Thomas Mann, etc. Wood coloca questões essenciais: «É o realismo real? Como é que definimos uma metáfora bem-sucedida? O que é uma personagem? Como é que reconhecemos uma utilização brilhante do detalhe ficcional? O que é o ponto de vista, e como é que funciona?» E assim sucessivamente, sem jargão fútil, com a clareza de uma narrativa envolvente. Li o livro numa viagem de comboio mais longa do que desejaria. A agilidade do discurso é viciante. Como sempre, Rui Rodrigues desenhou a capa exacta.


Jansenista: «Depois de termos andado tantos anos a pensar que o ensino obrigatório visava proporcionar às crianças e jovens o convívio com os da sua geração, a partilha de valores, a socialização do conhecimento, descobrimos agora que não, que é uma corrida – que estimula os fugitivos e proporciona até um atalho para os retardatários. [...]»


João Lopes: «Referindo-se à questão da implicação de José Sócrates na compra da TVI pela PT, o deputado João Semedo esclareceu que não foi possível provar a origem do conhecimento informal que o primeiro-ministro teria do assunto.Quer isto dizer que a Comissão de Inquérito ao "caso TVI" produziu um redondo zero. Ou seja: não há implicação política decorrente dos seus trabalhos, a não ser a reiteração daqueles que consideram que o primeiro-ministro mentiu. Têm, desde o princípio, toda a legitimidade para o fazer. O certo é que ocuparam um ano do tempo português para sustentar algo que nem sequer adquiriu pertinência política, ficando-se pelo sanção unilateral do seu discurso moral. [...]»

Luís Novaes Tito: «Se a Alemanha não tivesse implementado a dose de língua de pau aos seus cidadãos que agora vai passar a exigir aos outros países seus subsidiários, continuavam todos a gesticular e a dizer que o que se está a passar no areal lusitano só decorre da aselhice dos actuais detentores do poder. / É verdade que há por aqui alguma aselhice e principalmente muito ouvido-duro mas, em todo o continente europeu, há principalmente uma vontade sub-reptícia de recuar, a todo o vapor, a um tempo anterior àquele a que nos habituámos a chamar de civilização. A qualidade de vida decorrente das lutas que os europeus travaram durante décadas para obterem vida melhor está em retrocesso, em nome de uma coisa qualquer que ninguém sabe muito bem o que é nem a quem serve. [...] Caso para perguntar, como no slogan publicitário, se se podia viver num espaço mais federativo e social para que alguém respondesse que sim, que se podia, mas que não era a mesma coisa.»

Porfírio Silva: «[...] Se a Comissão de Inquérito tivesse, ao fim de semanas (e de outra comissão parlamentar a trabalhar para o mesmo) encontrado algum facto que contradissesse o PM, seria fácil mostrar isso mesmo: seria só juntar 2 e 2. Citar o facto e a afirmação do PM que era desmentida por esse facto. Se, mesmo assim e ao fim de toda esta tourada, João Semedo vem dizer (vi eu na TV) que não escreveu que Sócrates mentiu, mas escreveu que ele disse o contrário do que se tinha passado, só podemos concluir duas coisas. Uma, que já se sabia, outra que se vinha adivinhando. Já se sabia que Semedo queria arranjar palco para uma tese, que já trazia de casa, e que não partiu para isto por amor à verdade e de mente aberta. Vinha-se adivinhando, e agora confirma-se, que Semedo, além do mais, é cobarde: gasta 250 páginas para dizer que não diz mas afinal diz ou se não disse podia ter dito e patati patatá. Que gente!»

Valupi: «[...] Porque foi só isso o que lhe ocorreu perante uma referência cujo contexto era linguístico, abstracto, remetendo para temáticas disciplinares, conceptuais, teóricas, não de relação clínica fulanizada. E foi essa pulhice que resolveu tornar pública para efeitos de ataque pessoal, usando um registo de cagança tão bolorento que lhe deve ter deixado o teclado encardido. [...]»

Vieira do Mar: «Finalmente, vi um ou dois programas da Nigella Lawson, isto depois de ter lido sobre a dita em tanto babado blogue masculino. E percebi finalmente a razão do babanço: a criatura tem um charme irresistível, que mistura a beleza de um anjo de Boticelli com a opulência de uma madonna de Rafael, a par com uma aillure natural e um modo de estar desastrado mas sincero, que desarmam o cínico ou o crítico mais empedernido. É claro que o sucesso de Nigella nada tem a ver com comida, pelo menos na vertente gourmet. Aquilo é sexo puro e duro, é um apelo aos sentidos mais primários, aquelas mamas, as ancas, a lambuzice desastrada, o tom confessional de boudoir, a insinuação do pecadilho, a assunção da gula, do excesso, da entrega ao prazer e ao gozo, da sedução com os convidados. [...]»

Etiquetas: ,

Sábado, Junho 12, 2010

APRENDIZES DE FEITICEIRO


Li o relatório de João Semedo. E, nos jornais, esta frase extraordinária, do juiz de instrução da comarca do Baixo Vouga: «o caso TVI apenas se percebe com a análise das escutas das conversas entre Armando Vara e Paulo Penedos». O relatório da CPI PT/TVI será discutido e votado na próxima semana. Estamos conversados.

A deriva policial que tem dado forma aos trabalhos das comissões parlamentares de inquérito representa a denegação da justiça. Se os deputados querem ser polícias, mudem de profissão. Se querem derrubar o governo, apresentem moções de censura. Se os partidos a que pertencem não o fazem, votem a favor das dos outros. (A semana passada tiveram uma oportunidade.) Se o actual regime constitucional não lhes agrada, proponham outro. Não podem é ter no plenário uma atitude de laissez-faire e, fora dele, persistir na corrosão do funcionamento das instituições com o intuito de excitar o pagode. Bem basta o que basta com a justiça. Só nos faltava agora descobrir que votamos em candidatos à academia de polícia.

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Junho 11, 2010

EM QUE FICAMOS?


Expresso
Relatório não prova mentira de Sócrates

Público
Primeiro-Ministro mentiu ao Parlamento

Correio da Manhã
Governo sabia e interferiu no negócio PT-TVI

Diário de Notícias
Governo e Sócrates “tinham conhecimento”


Títulos das edições online. Como o Expresso é o único que divulga o relatório na íntegra, podemos tirar as nossas próprias conclusões. A foto é do Expresso.

Etiquetas:

ELSA MORANTE


Hoje no Público:


Ao contrário de seu marido, Alberto Moravia, a poeta e escritora italiana Elsa Morante (1912-1985) é uma ilustre ausente da edição portuguesa. Agora, ao fim de 50 anos, A Ilha de Arturo volta às livrarias. Aparentemente, a tradução de 1960 não suscitou o interesse pela obra, nem sequer por Il mondo salvato dai ragazzini, os magníficos poemas que coligiu em 1968.

Elsa Morante escreveu L’Isola di Arturo em 1956. Este romance de iniciação obteve instantâneo sucesso de público e de crítica, valendo-lhe o Prémio Strega. Em 1962, Damiano Damiani adaptou-o ao cinema. Memorie di un fanciullo (subtítulo do livro) tem acção localizada na ilha de Prócida, onde vive Arturo. A casa que serve de cenário à intriga foi durante dois séculos um convento de frades, passando depois a quartel. É nesse território masculino que Arturo cresce, ao lado de Silvestro, um antigo cozinheiro, doublé de ama-seca, que o alimenta com leite de cabra.

No tempo do anterior proprietário, Romeo, o Amalfitano, ficaram famosas as festas onde só eram admitidos rapazes muito jovens, grande parte dos quais, depois da sua morte, apareceram a reclamar presentes. Na Casa dos Guaglioni, assim chamada na terra, não entravam mulheres (em dialecto local, guaglioni é um termo pejorativo para rapazinho). Romeo era o amigo dilecto de Wilhelm Gerace, a quem deixou a propriedade em herança. É ali que Wilhelm instala a mulher e o amante, inibindo a primeira de interferir na sua vida: «E não será a ti, minha menina, que terei de dar conta das minhas fantasias! [...] E se tu pensas, pobre boneca piolhosa, se tu pensas que, lá por sermos casados, tenho de ficar agarrado aos teus farrapos, é melhor que te desenganes desde já.» Fez-lhe um filho, naturalmente.

Arturo, o protagonista, tem catorze anos. Órfão de mãe, mantém com o pai uma relação distante. Vive encerrado no mundo da heroicidade viril das narrativas de cavalaria, tendo por horizonte a baía de Nápoles e o afecto da cadela Immacolatella. Mas Immacolatella morre ao parir cinco cachorrinhos. À ilha, Arturo viu chegar Nunziata, nova mulher do pai, adolescente pouco mais velha do que ele: «Ninguém pensaria que fosse uma noiva [...] Ora, é verdade que uma mulher com quinze ou dezasseis anos [...] já é grande e desenvolvida, ao passo que um rapaz [...] é considerado uma criança.» A pouco e pouco, Arturo desenvolve uma atracção pela madrasta, ao mesmo tempo que o pai se apaixona por Tonino Stella, um recluso da penitenciária local que beneficiou de amnistia. Arturo não gosta desse homem de musculatura ostensiva e «passo elástico e vigoroso de jóquei» que domina o pai. Um dia, abandona Prócida na companhia de Silvestro: «À volta do nosso navio, o mar era todo uniforme, infinito como um oceano. Já não se via a ilha.» A guerra está iminente, e Arturo disposto a oferecer-se como voluntário para escapar ao huis clos em que a casa se transformara.

Filha ‘bastarda’, como então se dizia, Elsa Morante coloca as suas personagens no centro da mais absoluta solidão. Se podemos isolar um traço distintivo, o sentimento de perda será o mais eloquente. Sobre este livro em particular, disse várias vezes (como Flaubert da Bovary) «Arturo sou eu». Nunca saberemos como seria se o tivesse escrito hoje, livre de ambiguidades identitárias e do discurso oblíquo (e oblíquo apesar do realismo das imagens) dos anos 1950. Ou se a dicotomia entre uma tez loura e outra morena — Wilhelm Gerace, filho de mãe alemã, é um louro genuíno; Arturo, como Tonino Stella e os habitantes da ilha, é moreno de olhos escuros — seria expressa do mesmo modo.


Iniciação e castigo, in Ípsilon, 11-6-2010, pp. 44-45. Quatro estrelas.

Etiquetas:

RELATÓRIO & FOLHETIM


Chegam hoje à recta final os trabalhos da CPI PT/TVI. O bloquista João Semedo, relator da comissão, apresenta logo à tarde as conclusões, as quais serão discutidas e votadas pelos seus pares na próxima semana. Entretanto, prossegue a polémica em torno da intenção, manifestada por Pacheco Pereira, de (contra a decisão de Mota Amaral, presidente da CPI; com o desacordo do PS, CDS-PP, BE e PCP; porventura com o desagrado de outros deputados do PSD) divulgar os despachos do procurador Marques Vidal. Porquê o frisson? Por muito avassaladores que sejam esses despachos, não são com certeza mais substantivos que as transcrições das escutas enviadas ao Parlamento por Marques Vidal. Ora, como sabemos, essas escutas andam a ser divulgadas em folhetim no Correio da Manhã.

Etiquetas:

Quinta-feira, Junho 10, 2010

CITAÇÃO, 276


Pedro Correia, A República dos “doutores”.


«Ouço nas comissões parlamentares [...] alguns cidadãos serem tratados por “doutor”. É algo que fere o direito de igualdade entre os portugueses, que mais que ninguém os deputados deviam preservar, estimular e defender.

No Parlamento – casa da democracia – todos os cidadãos deviam receber o mesmo tipo de tratamento. É isso que sucede nas restantes instituições parlamentares europeias. Em Espanha, existe
señor, como forma geral de tratamento; em França, monsieur; no Reino Unido, mister. Esta anacrónica mania portuguesa de fazer substituir os duques, marqueses e viscondes de antanho pelos “doutores” e “engenheiros” de agora, muitos deles aliás sem terem qualificações académicas para merecerem ser tratados desta forma, devia terminar – com a Assembleia da República a dar o exemplo. Seria uma forma muito concreta de assinalar o centenário da proclamação do regime republicano. Espero não voltar a ouvir um presidente de uma comissão parlamentar de inquérito dividir os cidadãos que lá prestam depoimento em “senhores” e “doutores”: não concebo uma atitude menos republicana que esta.

É a reflexão que deixo para o 10 de Junho.
»

Etiquetas:

Quarta-feira, Junho 09, 2010

AZAR


Esta madrugada, quatro jornalistas portugueses e um espanhol, que estão a cobrir os trabalhos da selecção nacional no Mundial da África do Sul, entre eles os enviados do Jogo, Diário de Notícias e Expresso, foram assaltados nos quartos em que dormiam. Ficaram com a roupa no corpo: briefs? boxers? Os assaltantes levaram iphones, telemóveis, equipamento fotográfico, dinheiro, etc. Isto no esplendor do Valley Lodge, [ver adenda] que fica a 15km do centro de Magaliesburg.

Carlos Queiroz, treinador da selecção nacional, nasceu em Moçambique e trabalhou na África do Sul. Conhece bem a realidade sul-africana. Escolheu Magaliesburg para instalar os seus rapazes, sabendo que Magaliesburg (cidadezinha a 96km de Joanesburgo, a grande metrópole do crime, onde ninguém se desloca sem segurança privada) não é Villefranche-sur-Mer. Os jornalistas é que não sabiam. Põe-te a pau, Pedro!

Adenda. Alertado por um leitor, fiquei a saber que no Valley Lodge apenas está hospedada a selecção. Os jornalistas estavam no The Nutbush Boma Lodge, onde foram assaltados.

Etiquetas:

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA 1923-2010


Morreu ontem António Manuel Couto Viana, poeta, contista e dramaturgo, autor de obra vastíssima, parte da qual coligida em dois volumes (e 1090 páginas) organizados por Fernando Pinto do Amaral, publicados em 2004 pela Imprensa Nacional: 60 Anos de Poesia. Conotado com a direita mais conservadora, os seus livros — o mais recente dos quais, a colectânea de poemas autobiográficos Ainda Não, saiu há dois meses — eram, por norma, silenciados pela imprensa cultural. A genealogia entronca em Garrett, Nobre, Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha e Malheiro Dias. Sobre ele escrevi mais de uma vez nas revistas Colóquio-Letras e LER. Há dez anos, a Ática publicou uma antologia sua, Sou Quem Fui (2000), posfaciada por João Bigotte Chorão. Editada para assinalar 50 anos de vida literária, essa antologia colige 120 poemas (entre líricos e épicos) seleccionados a partir dos 27 livros de poesia que publicou entre 1948 e 1998. Escrevi então: «É como se o autor, baralhando poemas da juvenília com os da maturidade, nos devolvesse um livro outro. Um livro desatado ao sabor da memória.» (cf. Comenda de Fogo, Temas & Debates, 2002, pp. 214-5) Morreu ontem um homem que, contra a corrente, foi capaz de compor poemas a partir da «emoção patriótica». Caso único na idade contemporânea portuguesa.

Etiquetas:

A REALIDADE


A realidade vai obrigando o PSD a pôr os pés na terra. No fim-de-semana, a prioridade era um tecto para as pensões de reforma e aposentação. Como esse tecto está em vigor desde Janeiro de 2007, [corresponde a 12 x IAS: 5030,64 euros] querem que o mesmo se aplique à acumulação de pensões. O dr. Eduardo Catroga é um dos que não vai achar graça nenhuma a esta versão pós-moderna do assalto ao Palácio de Inverno...

Entretanto, a propalada flexibilização de contratações e despedimentos... é para aplicar só na parte relativa a contratações. Porque, Miguel Relvas o disse: «o Código do Trabalho não privilegia a facilidade na criação de postos de trabalho [e] permite grande facilidade nos despedimentos.» Cá me parecia!

Bem pode a direita caceteira (e respectivo coro de comentadores) espernear. Um partido “social-democrata”, mesmo com aspas, não tem grande margem de manobra face às políticas de um governo PS. Cavaco percebeu isso há muito tempo.

Etiquetas: , ,

Terça-feira, Junho 08, 2010

TECTOS, ACUMULAÇÕES


Pedro Passos Coelho anda desde sábado a pedir um tecto para as pensões de reforma e aposentação. Distração dele. Esse tecto já existe: corresponde à multiplicação do IAS (Indexante de Apoios Sociais) por doze. O IAS 2010 é de 419,22 euros. O que significa que, por norma, ninguém pode receber pensões acima de 5030,64 euros. Há gente, na área do Estado, a receber pensões de valor superior? Designadamente magistrados, catedráticos, médicos e dirigentes da FP? Investigue-se porquê.

Outra teima do líder do PSD tem a ver com a acumulação de pensões. A medida vai embaraçar o Presidente da República, que acumula três pensões (do Banco de Portugal, da Universidade Nova de Lisboa, e dos anos em que foi primeiro-ministro) com o vencimento de Chefe do Estado. E quem diz Cavaco diz os distintos economistas da Brigada do Reumático — os tais que consideram imprescindível reduzir salários e pensões à maralha —, todos acumulando pensões do tempo em que deram aulas, ou passaram pelo BdP, com as do tempo em que foram ministros, etc.

Não esquecer que, em 2005, uma das primeiras medidas de Sócrates foi impedir a acumulação de pensões e salários aos detentores de cargos políticos, com excepção do PR. Ministros, autarcas, etc., têm que optar pelo salário e um terço da pensão, ou, se lhes for mais favorável, o contrário (a pensão e um terço do salário). Campos e Cunha, então ministro das Finanças, deixou o governo assim que a medida entrou em vigor, pois também ele tinha uma pensão do BdP.

Na parte relativa à acumulação de pensões, as medidas que Passos Coelho preconiza (na linha do que tem sido sugerido internamente por deputados socialistas) parecem sensatas. Resta saber como poderão ser postas em prática.

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Junho 07, 2010

CASAMENTOS


Entrou em vigor no sábado, dia 5, a Lei n.º 9/2010, de 31 de Maio, que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Como era de esperar, a imprensa tablóide começou a explorar o tema na sua vertente folclórica, mimetizando o universo das Mayas e Pimpinhas da vida, i.e., dos ‘famosos’ — fatia da sociedade que inclui apresentadores de televisão, técnicas de nails e actores de novela —, esquecendo que a comunidade homossexual está cheia de gente circunspecta (e, por essa via, insuspeita). Não por acaso, um molho de ‘famosos’ consta da lista de convidados do casamento, a realizar no proximo dia 27, entre um chefe de cozinha e um pedreiro. Qualquer coisa entre o imaginário Corbin Fisher e o quotidiano do Finalmente.

Hoje mesmo realizou-se o casamento de Teresa Pires e Helena Paixão, o casal de lésbicas que a 1 de Fevereiro de 2006 viu negada a sua pretensão.

Sejamos claros: salvo excepções, os casais homossexuais com 30 ou 40 anos de vida em comum (e são muitos; na parte que me toca estou a cinco semanas de perfazer 38 anos) que decidirem casar, vão fazê-lo discretamente. Não vale a pena os media andarem à cata de cachas. Nem irem à Conceição Vasco Costa saber quem lá pôs as listas.


[Na imagem, os actores Dan Butler e Richard Waterhouse, um dos 29 casais entrevistados por Anderson Jones e fotografados por David Fields para Men Together, Running Press: 1997. O índice inclui artistas plásticos, escritores, ícones pop, antiquários, designers, médicos, um congressista americano, etc.]

Etiquetas: ,

Domingo, Junho 06, 2010

LER OS OUTROS


Filipe Nunes Vicente: «A 14 de Fevereiro de 1949, Ezra Pound foi galardoado com o Bollinger Prize de poesia por um júri que incluia Auden, Lowell, Eliot entre outros. Por causa do papel desempenhado por Pound no regime de Mussolini, foi pedida a opinião de alguns escritores — Orwell não se fez rogado e deu-a na Partisan Review de Maio desse ano. Orwell começa por aceitar que a Fundação Bollinger goste da poesia de Pound. Depois recorda uma emissão radiofónica na qual Pound aprovou o massacre de judeus na Polónia (e noutros países de Leste) e avisou os judeus americanos “que podiam esperar pelo mesmo”. Orwell não comprou a tese de um Pound “louco”, tese essa que valeu ao galardoado saltar da prisão para o St. Elizabeth’s Hospital em Washington: aquelas palavras, bem como muitas outras, não eram as de um lunático. A opinião de Orwell foi, portanto, clara: que a Fundação distinguisse a integridade estética e a decência comum, mas que não desculpasse a carreira política de Pound com base na sua carreira literária. [...]»

Francisco José Viegas: «[...] Mas, ao contrário dos heróis de Canudos, os verdadeiros, os de Antônio Conselheiro, que foram viver para os palmares, os nossos limitaram-se a esperar por Cavaco, que deveria redimi-los e pagar a conta pelos votos cedidos pela direita que nunca suportou o homem de Boliqueime. Dada a impossibilidade de entrar na guerra, Cavaco que a fizesse [...] Por outro lado, é aflitivo ver como Santana Lopes revela a figura que nunca deixou de ser: demasiado ocupado a ter pena de si próprio para poder dedicar um instante a pensar no assunto.»

José Medeiros Ferreira: «O tema é recorrente: de vez em quando fala-se dos portugueses convidados para participarem nas reuniões do Clube de Bilderberg. Durante muitos anos os jornais não referiam o meu nome e não vinha mal ao mundo por isso. [...] Nessa última vez, alguém do Steering Committee perguntou-me que nomes eu sugeriria, de outras correntes políticas em Portugal, para futuras reuniões. Lembrei-me de Francisco Balsemão, entre outros, como se escreve na imprensa. Não sei se foi por isso, se por mera coincidência, o certo é que o futuro primeiro-ministro acabou por ser o grande cooptador dos portugueses que participam nas reuniões daquele pacífico clube. Tenho a impressão de que leva poucas negas...»


[A imagem mostra Pound em Veneza, no Inverno de 1964, aos 79 anos.]

Etiquetas:

Sábado, Junho 05, 2010

LIBERALIZAR O QUÊ?


Diz a manchete do Expresso: Passos quer liberalizar despedimentos e contratações. Mais? Todos os meses sei de gente que é despedida com os mais variados pretextos, em diversos sectores de actividade. De resto, não se chega a 10,8% de desemprego numa sociedade que impeça (ou sequer dificulte) o despedimento.

Liberalizar despedimentos significa exactamente o quê? Despedir sem aviso prévio e sem indemnização, porque sim? Mas a realidade já anda lá perto. Salvo nas grandes empregas (casos da PT, EDP, GALP, TAP, REN, REFER, RTP, etc., bancos e seguradoras, SONAE e equivalentes), em que os despedimentos obedecem a todas as tramitações legais, não deixando de ser despedimentos pelo facto de lhes chamarem rescisões por mútuo acordo, salvo nesses casos, toda a gente despede alegremente os assalariados que deixam de ser necessários ou com quem simplesmente embirra. Sobra a Função Pública, onde, de facto, os funcionários com vínculo vitalício não podem ser despedidos (podendo, no entanto, ser expulsos). Mas os contratados a termo cessam funções na data estipulada.

Sobre restrições ao despedimento, só tenho conhecimento de problemas na área do serviço doméstico. Aí sim, não é fácil. Dizer à mulher-a-dias que, a partir do mês seguinte, dispensamos o seu trabalho, dá lugar (com certeza que há excepções) a litígio prolongado. Como a maior parte das pessoas paga o salário das mulheres-a-dias no fim do mês, em vez de o fazerem no dia da prestação do serviço, e a maioria até paga o mês de férias, e todos pagam a dobrar em Dezembro, entendem os Tribunais do Trabalho que, no momento de serem dispensadas, essas trabalhadoras (sem ironia: liberais) devem ser ressarcidas. O caso mais recente de que tive conhecimento envolve uma acção legal, a correr seus trâmites, em que a mulher-a-dias de um casal que morreu num desastre de viação... accionou os herdeiros (nenhum deles partilhando a residência do casal falecido). E o Tribunal deu-lhe razão!

Afinal, Passos Coelho quer o quê?


Adenda para facciosos. Os parágrafos anteriores podem ser substituídos pela frase: Na prática, os despedimentos, não estando liberalizados, processam-se sem dificuldade de maior. Quando determinada empresa (ou banco) chama um dos seus quadros para lhe dizer Você deu muito a esta casa mas está na hora de ir fazer o que quer... e o manda para casa com indemnização, está a fazer o quê senão um despedimento? Ou só os que são feitos à bruta no Vale do Ave é que contam? Daí a minha perplexidade com a pretendida liberalização dos despedimentos...

Etiquetas: , ,

Sexta-feira, Junho 04, 2010

JOÃO AGUIAR 1943-2010


Vítima de cancro, morreu ontem o escritor João Aguiar. Soube da notícia pouco depois, mas, por razões que não vêm ao caso, não tive oportunidade de actualizar o blogue. Natural de Lisboa, João Aguiar viveu dez anos em Moçambique (1945-55). Fez estudos na Beira, em Lisboa e em Bruxelas. Em 1969 tornou-se jornalista, publicando em 1984 o primeiro romance, A Voz dos Deuses, obra sucessivamente reeditada, por muitos considerada o tiro de partida do romance histórico em Portugal. Parte dos vinte romances que publicou estão traduzidos em Espanha, Itália, França, Alemanha e Bulgária. Também escreveu o libreto de uma ópera, bem como guiões para televisão e cinema. Os mais novos lembram-se das séries juvenis O Bando dos Quatro (trinta títulos) e Sebastião e os Mundos Secretos. Deixou inacabado um livro sobre a revolução de 1383.

Etiquetas:

Quarta-feira, Junho 02, 2010

GENEALOGIAS


Agora que o n.º 92 [Junho] da LER já está na rua, deixo aqui a crónica Genealogias, publicada no n.º 91 na minha coluna Heterodoxias:


Muita gente se espanta com a bolañomania. A extrema juventude ou a falta de memória são boas razões. Afinal, todas as épocas tiveram o seu Bolaño. O genuíno, convém lembrar, é uma invenção americana: sem as traduções que Natasha Wimmer fez de Los Detectives Salvajes e de 2666, em 2007 e 2008, o vasto mundo faria pontaria noutra direcção. Não esquecer o impacto da atribuição póstuma do National Book Critics Circle Award à tradução de 2666.

Quando eu era criança, os homens liam e discutiam Les Thibault, saga em oito volumes que fazia a legenda de Roger Martin du Gard. As senhoras preferiam Pearl S. Buck, cujo ecumenismo oriental as fazia sentirem-se “progressistas”.

Ao chegar aos meus quinze anos, Beckett, Ionesco e Pinter estavam no topo. Conheço gente que depois de os ler nunca mais se recompôs. Mesmo ali, no quotidiano algodoado de uma certa Lourenço Marques, o absurdo era a língua franca. Contudo, eu preferia Alan Watts. Nonsense (1967) era uma forma de dissidência como qualquer outra. Naquele tempo ninguém presumia que o arrumador de cinema lesse o mesmo que nós. Agora não. A rapariga do shopping e o sultanato da Fenprof lêem Saramago com igual desvelo.

Pouco depois de vir para Portugal assisti a duas febres. A febre Yourcenar e a febre Borges. Não me lembro qual delas se manifestou primeiro. Terá sido a francesa? Verdade que Mémoires d’Hadrien (1951) teve a seu favor a notável tradução de Maria Lamas. Mas metade dos clientes da Buchholz lera já o original, e a outra metade não tinha força de lóbi. Vinte anos passaram antes que duas revistas, a do Expresso e a do Centro Nacional de Cultura, Raiz & Utopia — que o mesmo é dizer, Maria João Avillez e Helena Vaz da Silva —, impusessem a autora de L’Oeuvre au noir (1968). A conferência na Gulbenkian, com gente sentada no chão e nas escadas para ouvir as duas sibilas (Marguerite e Agustina), seguida de serão em casa de Amália, com David, Maluda e tantos mais, sinalizou o cume do reconhecimento indígena. O mesmo se diga do argentino. Em 1971, quando Ruy Belo traduziu uma selecção dos seus poemas, pouca gente se entusiasmou. Só nos anos 1980, creio que à boleia de Ficciones (1944), Fernando Assis Pacheco fez do mestre dos labirintos e dos espelhos uma obrigação. Desse modo, em Portugal, Marguerite Yourcenar e Jorge Luis Borges tornaram-se nomes de referência das gerações nascidas até, digamos, 1965.

A fase de salão acabou nessa altura. Agora é mais benzodiazepinas, blogues & twitter.

Livros como Les Particules Élémentaires (1998), de Michel Houellebecq, ou Les Bienveillantes (2006), de Jonathan Littell, tinham todas as condições para excitar o pagode e arrancar a França da letargia. Não aconteceu nem uma coisa nem outra, porque dá menos trabalho e incomoda menos ler o Philip Roth dos últimos doze anos. Desde American Pastoral (1997), Roth tornou-se o ai Jesus de gente que nunca meteu o dente na obra que o autor publicou nos anos 1960-70. E, sem o ter feito, é difícil perceber o que veio a seguir.

Não confundir humores com literatura é um bom princípio. O que em cada momento detona o clique releva de puro arbítrio. Os bolañomaníacos leram Tom Wolfe ou Irvine Welsh? Hooking Up (2000) ou Porno (2002), por exemplo? Ou, se preferirem não trair o universo semântico, os cubanos Alejo Carpentier e José Lezama Lima? Tanto El reino de este mundo (1949) como Paradiso (1966) são livros que tornam plausíveis os de Bolaño. Carpentier, para contar a história do Haiti, fundou o realismo fantástico. Lezama Lima pôs em clave barroca o idioma da transgressão. Por pleonástico, abstenho-me de citar Gabriel García Márquez.

Há, nisto, uma curiosa ironia. Como poucos, Bolaño farta-se de piscar o olho à Academia. Fez ele muito bem, porque deixou dois filhos para criar.

Etiquetas: ,