Portugal jogou hoje com a Costa do Marfim em
Port Elizabeth. As televisões entraram em transe. Como o resultado não foi o desejado, a culpa é das vuvuzelas que
perturbam Ronaldo, da relva que irrita Queiroz, da trepidação do avião que levou os jogadores, da chuva, do vento, do frio, da altitude e,
last but not least, do Toni.
Tendo nascido e vivido até aos 26 anos em Moçambique, ligam-me à África do Sul laços de outros tempos. Hoje com 49 milhões de habitantes, dos quais perto de cinco milhões são brancos (e, desses, 10% portugueses), o país que Mandela arrancou ao
apartheid é a maior economia de África, não obstante as gritantes desigualdades sociais e uma taxa de desemprego superior a 40% da população activa. Johannesburg, Pretoria, Durban, Cape Town e Port Elizabeth são (ou eram) cidades com um elevado padrão de vida.
Nos anos 1950-60, Johannesburg era a Nova Iorque dos laurentinos como eu. Rui Knopfli achava que era Paris: «
O meu Paris é Johannesburg, / um Paris certamente menos luz, / mais barato e provinciano. / [...] À noite janto no Monparnasse
/ de Hilbrow, que é o Quartier Latin / do sítio e olho essas mulheres / excêntricas e belíssimas / de pullover e slacks helanca / e esses beatniks barbudos / excêntricos e feiíssimos, / tudo com o ar sincero / mas pouco convincente do made in USA. / [...] Depois do turkish coffee meto-me / até ao Cul de Sac
e fico-me / a ouvir o sax maravilhado / de Kippie Moeketsi. O jazz, sim, / é genuíno e tem um bite / todo local. O néon e a madrugada / silenciosa, o asfalto molhado, / a luz da aurora e a luz dos reclamos / misturando-se, a minha solidão, / aconteceriam assim em Paris. / Aqui ninguém sabe quem sou, / aqui a minha importância é zero. / Em Paris também.» (cf.
Máquina de Areia, 1964; o poema é de 1962)
Em 1962, Johannesburg tinha um milhão e meio de habitantes. Hoje tem o triplo. Descobrir a cidade aos 15 ou 16 anos era um ritual iniciático: arranha-céus com mais de 40 andares, comércio de luxo, temporadas de teatro, ópera e
ballet, mais de cem cinemas, livrarias abertas 24 horas, vida nocturna
straight & gay, um bairro boémio na parte alta da cidade (o Hilbrow), subúrbios decalcados dos contos de John Cheever e, no
downtown, o Joubert Park. Para os heteros, o Joubert Park era uma espécie de Jardim das Tulherias onde à hora do almoço se podia apanhar ar fresco e comer sanduíches de pepino. A rapaziada homo satisfazia todas as fantasias do Griffith Park de Los Angeles a partir do fim da tarde. É no Joubert Park que fica a Johannesburg Art Gallery, museu inaugurado em 1915. Foi lá que pela primeira vez vi Rodin, Dante Gabriel Rossetti, Monet, Degas, Picasso, Henry Moore e outros. Com um bocado de sorte, em Julho havia neve. A mim nunca calhou.
Os laurentinos iam com frequência a Johannesburg. Pretextos não faltavam: ir ao médico, sempre que uma
doença má era diagnosticada em LM; matricular os filhos num colégio ou na
Witts; saldos do
OK BAZAAR (um Corte Inglés
de facto inglês... fundado em 1880); um grande espectáculo. A distância entre Lourenço Marques [Maputo] e Johannesburg é igual à distância entre Lisboa e Madrid. Ou seja: 50 minutos de avião; sete horas de carro; doze horas de comboio (estamos no início dos anos 1960). O comboio partia da Estação Mac Mahon às seis da tarde e chegava a Johannesburg às 6 da manhã seguinte. A viagem de carro tinha o aliciante de permitir ver a cidade (cercada de minas de ouro) num contraluz de poalha dourada. Hoje, parece que a cidade está transformada numa Lagos ainda mais violenta. Políticos estrangeiros, turistas endinheirados, executivos transnacionais, classes médias altas; cientistas, artistas e desportistas em trânsito, etc., ninguém dá por nada: vão directamente do aeroporto para Sandton, a zona
clean, com avenidas e edifícios desenhados por Helmut Jahn. Sandton tornou-se nos anos 1990 o centro financeiro de Johannesburg, que o mesmo é dizer a capital financeira de África. População: 130 mil pessoas (em 4,5 milhões). Os 130 mil do topo. É lá que estão instalados os
media sul-africanos mais imporantes.
Durban e Cape Town não eram tão acessíveis. A Durban chegava-se ao fim de catorze horas de carro, indo pela fronteira da Swazilândia. A sofisticação da cidade era lendária. (No fim dos anos 1950, quando era o homem mais rico do mundo, Onassis não foi admitido no melhor hotel da cidade porque não tinha
pedigree.) Cape Town tem a seu favor o deslumbrante enquadramento paisagístico, o turismo de qualidade, a tradição vinícola, o clima temperado. É sede do Parlamento sul-africano, suponho que em homenagem a Cecil Rhodes. Os brancos do
antigamente que ainda não emigraram para a Austrália, a Nova Zelândia e a Califórnia; os intelectuais brancos que sobram; os artistas mais dinâmicos, negros e brancos; a comunidade de judeus ricos; todo o
old money e o que resta das famílias
upper-class nascidas na África do Sul, toda essa gente se transferiu de Johannesburg para Cape Town depois de 1994. Grande parte da comunidade gay, também. Como é sabido, a África do Sul permite, desde 2006, o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Lembrei-me de tudo isto no dia em que Portugal esteve suspenso da
explosão do CR7. Para nada.
[Foto: entardecer no Hilbrow, em 1969.]