Sexta-feira, Abril 30, 2010

BRAINSTORMING


Pedro Passos Coelho almoça hoje com um conjunto de personalidades ligadas à vida económica do país. Entre outros, António Nogueira Leite, António de Sousa, Eduardo Catroga, Ernâni Lopes, João Salgueiro, Medina Carreira e Mira Amaral. O brainstorming visa ajudar o líder do PSD a encontrar medidas de resposta à crise. O perfume do poder é irresistível.

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EFEITO PASSOS COELHO


Segundo o barómetro da Marktest para o Diário Económico e a TSF, hoje divulgado:


PSD / 39,8%
PS / 34,0%
BE / 8,0%
CDU / 7,2%
CDS-PP / 4,5%

Eleições antecipadas

SIM / 27,9%
NÃO / 60,6

O PSD obtém a mais alta indicação de voto desde Janeiro de 2005.

A soma do PSD com o CDS-PP (44,3%), se obtida em coligação, daria a maioria absoluta à direita.

Os comentadores de direita que até ontem consideravam as sondagens manipuladas, vão dizer em coro que este estudo da Marktest é sério como a Virgem.

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Quinta-feira, Abril 29, 2010

DEPENAR O VIZINHO


Toda a gente, excepto os deputados, propõe soluções para vencer a crise. Ontem, Nicolau Santos, director-adjunto do Expresso, apresentou Cinco medidas. Uma delas visa substituir (este ano) o 13.º mês dos funcionários públicos por títulos do Tesouro não transaccionáveis antes de três ou cinco anos. Ponto um: quando fala em 13.º mês, refere-se ao subsídio de Natal ou ao de férias? Não me recordo qual surgiu primeiro. Ponto dois: está a pensar em funcionários públicos tout court (grupo que inclui professores, diplomatas, médicos, enfermeiros, inspectores, militares, polícias, magistrados, etc.) ou só no regime geral? Faz toda a diferença uma coisa e outra.

A ideia de depenar o vizinho é a mais fácil. Difícil, porque impopular, seria propor a abolição do crédito bonificado à habitação. O crédito bonificado é uma aberração. Toda a classe média tem segunda casa à conta do crédito bonificado: assim que a Rita ou o Martim fazem 18 anos, os Salcêdes compram casa de férias na Foz do Arelho. (Estou a falar de classe média; não confundir com pretendentes.) Afinal, os meus impostos deviam servir para dotar o Serviço Nacional de Saúde de meios adequados; não para futilidades de apoio à juventude, de que o crédito bonificado à habitação é o epítome. Hoje, antes de arranjar emprego, os jovens compram casa. (Os da classe média e os da baixa.) O bonificado permite. Quem quer luxos deve suportar as extravagâncias do seu bolso, sem a bengala do Estado. Mas nisto ninguém fala. Porque isto toca a muitos decisores (políticos) e comentadores. É sempre mais fácil cortar o 13.º mês ao escriturário da repartição da esquina...

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CITAÇÃO, 266


João Pinto e Castro, Os loucos gregos e os disciplinados alemães. Excerto:


«Pacóvios que bebem por uma palhinha tudo o que ouvem dizer concordam que os alemães não têm nada que pagar os desmandos dos gregos.

Embora não receba nada dos gregos pelo serviço (coisa que o Barroso, por exemplo, não pode afirmar em relação aos alemães), sempre quero lembrar que poucos países têm violado de forma tão sistemática as regras da UE como a Alemanha.
[...]»


[Na imagem, Angela Merkel no dia em que completou um ano. Tadita!]

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Quarta-feira, Abril 28, 2010

PINA MARTINS 1920-2010


Vítima de doença prolongada, morreu esta tarde José Vitorino de Pina Martins, humanista português de renome internacional. Catedrático jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, leitor em Roma e Poitiers, antigo director do Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, presidente da Academia das Ciências de Lisboa durante vários mandatos, especialista em Sá de Miranda, Erasmo e Thomas More, autor de vastíssima bibliografia (mais de trezentos títulos), a cultura portuguesa deve-lhe a descoberta e identificação do Tratado de Confissom, o mais antigo livro impresso em língua portuguesa. Completara 90 anos em Janeiro último.

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O SPEECH


Os portugueses assistiram há minutos (em directo) a uma cena nunca repetida depois dos idos de 1983-85, ao tempo do IX Governo Constitucional, presidido por Mário Soares, tendo Mota Pinto como seu vice. Sócrates e Pedro Passos Coelho falaram ao país a partir da residência do primeiro-ministro. Nada de muito substantivo, valha a verdade. Importa o simbolismo do acto e a mensagem que imprime: PS e PSD vão trabalhar juntos para fazer frente à especulação dos mercados contra a nossa dívida pública. É um bom começo. O PSD caceteiro pode arrumar as botas.

Para desagrado dos jornalistas especializados, ainda não foi desta que o governo congelou a construção da linha do TGV entre Lisboa e Madrid. Para desagrado do PCP e do BE, vai apertar o controlo (e, em certos casos, mudar as regras de atribuição) do subsídio de desemprego e outras prestações sociais.


[Imagem: vista aérea da residência do primeiro-ministro, vendo-se à direita as escadas de acesso aos jardins da Assembleia da República.]

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Terça-feira, Abril 27, 2010

NAS MÃOS DA S&P?


A Standard & Poor’s baixou hoje o rating português em dois níveis, atirando o juro da dívida pública do país para uma taxa de 5,5% (a da Grécia é de 9,7%). Ainda não se sabe se estamos em presença de um movimento especulativo ou de manipulação deliberada dos mercados. Certo é que toda a zona euro está sob forte ebulição. Hoje mesmo foi decidido que os ministros das Finanças dos 27 vão reunir-se no próximo 10 de Maio para avaliar a situação.

Teixeira dos Santos foi rápido a reagir: «É tempo de o Governo e os partidos, em especial o PSD, se entenderem quanto a isto: há que executar as medidas necessárias.» Isso passa por avançar já «com um conjunto de medidas que dêem um sinal claro que Portugal está firmemente comprometido na solução mais rápida possível do seu défice

Entretanto, Pedro Passos Coelho fez o que se espera do líder da oposição: telefonou ao primeiro-ministro. José Sócrates agendou um encontro entre os dois, para amanhã, às 11h. À tarde, Sócrates vai a Belém, antecipando em 24 horas a audiência das quintas-feiras.

Pode ser que me engane, mas temo que venha aí chuva grossa.

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ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA


A Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio, regula as uniões de facto. Todas as uniões de facto. Uniões hetero (a larga maioria) e gay. Centenas de milhares de homens e mulheres têm o seu quotidiano amarrado aos preceitos desse diploma.

Em Julho do ano passado, o Parlamento aprovou o Decreto da AR n.º 349/X, o qual foi vetado por Cavaco, com o argumento de que o diploma aproximava o regime das uniões de facto ao casamento. Com o fim da legislatura, não foi possível impor (em nova votação) a sua entrada em vigor.

Agora, PS e BE recuperam esse projecto de lei, que será discutido em plenário no próximo 7 de Maio, com alterações relativamente à primeira versão. Alterações no sentido de o tornar mais justo. Ou seja: assegurar a protecção de casa de morada de família em caso de ruptura do casal ou morte de um dos cônjuges; regular as relações patrimoniais e o direito sucessório; consagrar o acesso a prestações por morte; alargar o regime de férias e licenças; etc. A vida, portanto.

Isto não tem nada a ver com casamento. Os homens e mulheres heterossexuais que escolheram viver em união de facto têm o direito a proteger o seu futuro. O mesmo se diga relativamente aos homens e mulheres homossexuais que, por enquanto, não podem casar. Sejamos claros: os heteros têm direito a uniões de facto a sério. Os gays têm o mesmíssimo direito e, se o desejarem, têm ainda o direito a casar.

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Segunda-feira, Abril 26, 2010

FAIR PLAY


Funcionários do Foreign Office destacados para o grupo de trabalho que prepara a visita de Bento XVI a Londres, prevista para Setembro, redigiram um memorando e enviaram-no a todos os departamentos governamentais. A divulgação (deliberada?) do paper, destinado a circulação classificada, embaraçou a diplomacia britânica. Porquê? Porque, entre outras medidas, propõe o lançamento de uma marca de preservativos com o nome do Papa; a abertura de uma linha SOS para crianças violentadas por padres; a celebração pública de um casamento gay e... a inauguração de uma clínica de aborto. David Miliband já pediu desculpas formais à Santa Sé.

Se a visita vier a concretizar-se, será a primeira vez que um Papa visita o Reino Unido na qualidade de chefe de Estado. (A visita de João Paulo II, em 1982, teve carácter estritamente pastoral.)

O episódio não passa de um faits divers irrelevante. Admira-me muito a actual indignação dos estrénuos defensores dos cartoons dinamarqueses sobre Maomé, desta vez tão sensíveis à provocação. A liberdade de expressão, pelos vistos, não é sem limites.

Nisto tudo, interessa-me comparar as reacções da opinião pública inglesa com a portuguesa. Por lá, a maioria acha o incidente um “disparte”, uma “palermice”, uma “brincadeira de rapazolas”, etc. Nós por cá fazemos questão na grunhice. Os promotores da distribuição de preservativos em todos os actos públicos da visita de Bento XVI a Lisboa, Fátima e ao Porto, andam a ser ameaçados, por diversas vias, blogues conspícuos incluídos, de medidas drásticas. Decididamente, o fair play não é uma prioridade da nossa sociedade civil.

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Domingo, Abril 25, 2010

OBVIAMENTE


Informam os media que Manuela Moura Guedes foi notificada pelo Ministério Público para apresentar provas das acusações que fez sobre um alegado plano do governo para controlar a comunicação social. Dizem que a senhora está indignada. Só pode ser engano!, terá dito. É à polícia que cabe investigar... Com efeito. Mas a partir de provas minimamente sustentáveis apresentadas pelo(s) denunciante(s). Caso contrário, qualquer um pode tramar o vizinho.

Manuela Moura Guedes andou meses a fio a dizer que sabia isto e mais aquilo. Tentou habilitar-se como assistente do processo Face Oculta. O MP indeferiu. Foi ouvida numa Comissão de Ética onde a deixaram dizer tudo o que lhe veio à cabeça. Até meteu o rei de Espanha na história, lembram-se? Dito de outro modo, apostou forte. Agora, a quem tem tantas certezas, o MP exige os indícios credíveis que permitam dar início à investigação.

Se não fosse assim, qualquer um escrevia uma carta ao DIAP a dizer que fulano distribui cocaína pelos convidados lá de casa ou que beltrano traça crianças ao pequeno-almoço. A profissão de jornalista não isenta ninguém de assumir a responsabilidade dos seus actos.

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36 ANOS DEPOIS


A II República completa hoje 36 anos. Portugal tornou-se um país muito diferente. E não só por causa da liberdade. (Os bloggers que andam sempre com o Salazar na boca, pelas piores razões, ou nasceram depois da sua morte, ou eram crianças quando Caetano o substituiu. Escrevendo o que escrevem na web, se o tentassem no antigamente, estavam há muito na cadeia; e, naturalmente, demitidos dos lugares que ocupam no Estado.) Vasco Pulido Valente lembra na sua crónica do Público: «De qualquer maneira, agora existe um Estado providência (imperfeito, evidentemente) e, quer queiram quer não, existe liberdade bastante. Para mim, já não é mau

E António Barreto, entrevistado pelo Diário de Notícias, vai no mesmo sentido: «Há poucas oportunidades em Portugal, mas mais do que há 40 anos, sim. Os cidadãos, no estatuto, são mais iguais. Talvez social e economicamente haja aí que dizer, porque há algumas desigualdades a aumentar. Mas no estatuto fundamental de dignidade humana e de cidadão há igualdade. E isso é uma vitória destes 30 anos. Acho que a saúde, o estado de protecção social que foi criado em tão pouco tempo, é um grande feito do País, da Nação, do Estado, da população — terem feito um serviço conforme existe. Com milhares de defeitos, com milhares de contos de desperdício, com incorrecções de todo o tipo, mas existe e protege. E os sistemas educativo universal e de segurança social, creio que são vantagens.»

Não gostar de manifestações celebratórias, solenes ou populares (eu não gosto de nenhum tipo), é uma coisa. A retórica abrilista é um bocejo. Mas invocar o “mérito” do Estado Novo releva da ignorância. E, sobretudo, uma enorme falta de respeito por quem foi escutado, perseguido, preso, torturado, demitido do emprego, expulso da Função Pública, da docência e da magistratura, degredado, forçado ao exílio, etc., apenas por ter opiniões contrárias às do Regime.

Se a data os enjoa, têm bom remédio. Conforme as posses, encomendem um bolo 24 de Abril ou passem a tarde a ser vergastados num spa S/M.

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Sábado, Abril 24, 2010

ESTADO VS PRIVADO


Meu caro João, não é verdade que Rui Pedro Soares seja um «alto administrador do Estado». Não é, nunca foi. Até serem conhecidas as suas ligações ao caso Face Oculta, foi um dos dezasseis administradores não-executivos da PT. Afastado, nessa altura, das funções que desempenhava, regressou ao lugar de origem, no quadro da empresa. (Salvo prova em contrário, transitada em julgado, não há razão para despedimento.) A PT é uma empresa privada, onde o Estado, por imperativo estratégico, mantém uma participação residual, de carácter simbólico. Tanto assim é que, face à decisão dos accionistas privados, o Estado não conseguiu impor, como pretendia, a suspensão dos prémios dos gestores e um corte de cinco por cento nos respectivos salários. Os altos administradores do Estado não ganham 3,5 milhões de euros por ano. Nem um quinto desse valor auferem.

Já agora, de que falamos quando falamos de altos administradores do Estado? Do governador do Banco de Portugal? Do presidente da Caixa Geral de Depósitos? Do presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários? Do presidente do Conselho Económico e Social? Do presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal? Ou de yuppies que a imprensa tablóide tornou famosos?

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CITAÇÃO, 265


Francisco José Viegas, Uma barulheira por causa do silêncio. Excerto, sublinhado meu:


«[...] Mas determinar, assim de repente, o fim do direito ao silêncio, é de uma indignidade só admitida num país de pequenos regedores

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Sexta-feira, Abril 23, 2010

CITAÇÃO, 264


José Medeiros Ferreira, O Fidelíssimo Cavaco Silva, hoje no Correio da Manhã. Excertos, sublinhado meu:


«D. João V empatou capital para o então Papa Bento XIV lhe conceder o tratamento de Sua Majestade Fidelíssima. O século XVIII dava para isso e para o seu contrário. Neste século, o PR Cavaco Silva resolveu acompanhar o Papa Bento XVI em todos os actos, públicos e pastorais, durante a visita deste a Portugal. É uma atitude exagerada a mais de um título. Mesmo do de Fidelíssimo.

Em primeiro lugar, a República Portuguesa é laica e nela vigora a separação entre a Igreja e o Estado.
[...] Em segundo lugar, o constante acompanhamento do Papa, sobretudo nas três missas, peca pela desmedida. Todo o cortês é comedido, reza o preceito. Bento XVI tem todo o direito de se encontrar com os seus fiéis sem a presença do Estado.

Cavaco Silva pode até mostrar as suas convicções religiosas em algum acto particular. Mas deve acautelar-se dos prosélitos constantinos,
para que não pareça que o PR português é de ‘obediência’ católica. Bento XVI não lhe pede tanto

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MURIEL SPARK


Hoje no Público:


Faço minhas as palavras de James Wood, o crítico da New Yorker e professor de Harvard: «Tal como muitas pessoas [...] antes de ler a novela já eu vira o velho e simpático filme». Foi Maggie Smith que me levou a ter curiosidade em descobrir Muriel Spark (1918-2006), autora de uma obra muito vasta, de ficção, poesia e ensaio, com uma novela e três romances editados em Portugal. The Prime of Miss Jean Brodie (1961), traduzido em 1988 por Wanda Ramos, com o título Miss Jean Brodie na Flor da Idade, regressa agora à edição portuguesa em tradução de Margarida Periquito: O Apogeu de Miss Jean Brodie.

É o romance mais famoso de Muriel Spark. Adaptado ao cinema em 1969, tornou mundialmente conhecida esta amiga de Graham Greene que viveu alguns anos na Rodésia do Sul (actual Zimbabwe) e colaborou com o Intelligence britânico durante a Segunda Grande Guerra.

A última frase do livro é a chave da intriga: «Havia uma tal Miss Jean Brodie no seu apogeu.» Proferida por Sandy, que passou a usar o nome de Irmã Helena da Transfiguração no dia em que professou, responde à pergunta de um repórter que quer saber quais foram «as principais influências no seu tempo de estudante». Sandy, aliás Irmã Helena, tinha escrito um livro de psicologia, A Transfiguração da Banalidade. Creditando ao “apogeu” da antiga professora a influência de uma vida, Sandy liberta-se do peso da traição.

Com efeito, fora Sandy a responsável pelo despedimento de Miss Brodie. À luz dos rígidos padrões da escola, a professora está sempre a um passo da transgressão. Chegam a sugerir-lhe que concorra a uma escola “progressista”, mas ela recusa com determinação: «não concorrerei a uma escola de excêntricos. Permanecerei nesta fábrica de educação. [...] Dêem-me uma menina em idade influenciável e ela será minha para toda a vida.» As raparigas ouvem. E sorriem «com um conhecimento de causa de vários géneros.» Contudo, notará Sandy mais tarde, não será pelo sexo que conseguirão «encostá-la à parede». O que a tramou foi a política. Estamos nos anos 1930. Miss Brodie não escondia a admiração que nutria pelo fascismo, a ponto de convencer Mary a acompanhar o irmão a Espanha para lutar ao lado de Franco.

A Escola Marcia Blaine é o externato onde Sandy, Rose, Mary, Jenny, Monica e Eunice fazem amizade à sombra tutelar de Miss Brodie, a professora que mantém um peculiar triângulo amoroso com dois colegas. Ao mesmo tempo, Miss Brodie cuida das “meninas” como uma leoa as suas crias: «e todas as minhas alunas são a nata da nata.» (Margarida Periquito devia ter mantido a expressão original, crème de la crème.) Usando de parcimónia no relato dos factos, Muriel Spark mantém a ambiguidade em suspenso, pontuada, aqui e ali, de sublinhados alusivos. É o caso de Jenny, interrogada por «uma mulher-polícia maravilhosa» após o encontro com um exibicionista. A concisão, atributo maior da obra, muito nítida neste livro, não inibe a ironia e o episódico sarcasmo. A acção é decalcada do tempo em que a autora estudou na James Gillespie’s High School for Girls, de Edimburgo.

O recurso ao flash-forward permite que a autora antecipe o destino das suas personagens. Com a Grã-Bretanha atolada numa crise económica sem precedentes, e três milhões de desempregados, Miss Brodie é um produto desse tempo sombrio em que as teses racistas de Oswald Mosley, o fundador da União Fascista, gozavam de extravagante popularidade.

Muriel Spark radicou-se na Itália em 1967. Em 1968, conheceu Penelope Jardine, então uma estudante de arte, com quem viveu até morrer. A obra não afirma nem elide a questão identitária que subjaz à trama ficcional. O Apogeu de Miss Jean Brodie é o exemplo acabado da sua capacidade de Nunca justificar, Nunca explicar. Perfeito.


O apogeu dela, in Ípsilon, 23-4-2010, p. 49. Cinco estrelas.

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AS MALHAS DO IMPÉRIO


Ler no PNET Literatura a minha crónica Luanda / Portimão. Excerto:


Interessa-me a história privada desses homens e mulheres que, em Abril de 1974, eram à volta de meio milhão. Quantos escolheram regressar a Portugal? 70%? Mais? Menos? Quantos deles, depois da “fuga”, voltaram a partir para África? (Está por estudar o desinteresse dos expatriados de Angola e Moçambique pelo Brasil.) Interessa-me saber em que medida teceram as malhas do Império.

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Quinta-feira, Abril 22, 2010

NÃO DÁ PARA O PEDITÓRIO


Rui Pedro Soares, o ex-administrador não executivo da PT que engasgou a opinião pública quando se soube que ganhava 3,5 milhões de euros por ano (como ele há pelo menos mais meia centena, mas o país das castas acha que uns podem e os outros não), foi chamado à Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o malogrado negócio PT/TVI.

Entrou e disse três coisas: 1. a CPI é a versão moderna do Circo de Roma; 2. «Se alguma vez invoquei em conversas privadas [o nome de José Sócrates] se o fiz, fi-lo abusivamente e tenho que assumir as responsabilidades, aceitar todas as consequências e pedir as devidas desculpas ao primeiro-ministro»; 3. «Não respondo a perguntas.» E saiu.

Invocando que, no âmbito das CPI, não existe “o direito ao silêncio”... os deputados pediram a Jaime Gama que informe a Procuradoria-Geral da República de que a pessoa em causa «incorre no crime de desobediência qualificada.» Ui, que medo!


Adenda. Os zelotes querem sangue. CRIME, dizem eles. Sintomaticamente, há menos de um ano, quando Oliveira Costa entrou mudo e saiu calado da CPI que investigou o BPN, nenhum piou, nem sequer aquele rapaz de Joane cheio de testosterona que está agora no Parlamento Europeu. Ninguém falou de desobediência. Ninguém se queixou ao PGR. Nessa altura, o silêncio foi bem-vindo. Porquê?

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O NOVO GOVERNADOR DO BdP


O economista Carlos Costa, actual vice-presidente do Banco Europeu de Investimento (Luxemburgo), em representação de Portugal e Espanha, vai ocupar o cargo governador do Banco de Portugal quando Constâncio partir para o Banco Central Europeu (Frankfurt). Antigo administrador da Caixa Geral de Depósitos, Carlos Costa está no BEI desde 2006, sendo membro da direcção da Euro Banking Association. Não se lhe conhecem ligações partidárias.

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BESTIALIDADE


Transcrevendo uma carta enviada para o Jugular por uma aluna da Faculdade de Direito de Lisboa, a Maria João deu eco, e muito bem, a um episódio escabroso.

Em poucas palavras: num teste de Direito Constitucional II, o regente da cadeira, prof. Paulo Otero, obrigou os alunos a estabelecer um paralelo entre homossexualidade e poligamia/bestialidade, como complemento à lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

É impressão minha, ou existe no quadro jurídico português uma lei contra crimes de ódio? Como qualquer outro, o referido docente é obrigado a respeitar a orientação sexual dos seus alunos. Era bom saber se algum se queixou. (Em 1960, ainda havia professores do secundário que não se coibiam de chamar maricas a alunos de 12 anos, “crianças”, como agora se diz; e não era em sentido figurado, era mesmo insulto. Mas entretanto passaram 50 anos.) O conselho científico da Faculdade tomou conhecimento da provocação?

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Quarta-feira, Abril 21, 2010

DOROTHY HEIGHT 1912-2010


Dorothy Irene Height morreu hoje, aos 98 anos. Activista negra dos direitos civis, Dorothy era presidente do National Council of Negro Women. Formada em psicologia educacional, tornou-se, a partir dos anos 1960, uma das vozes mais respeitadas da vida política americana.

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ECONOMÊS


A oposição anda em transe com o diagnóstico que o inglês (naturalizado americano) Simon Johnson, o americano Joseph Stiglitz, e o turco (naturalizado americano) Nouriel Roubini, fazem da economia portuguesa. Os três antecipam a falência do país e a provável saída do euro.

Há qualquer coisa mal explicada no súbito interesse de três docentes de universidades americanas pelo caso português. Louçã, que também é professor de economia, já perorou sobre os interesses das agências de rating. Decerto perceberá o que move os ilustres colegas.

Ontem foi a vez do Presidente da República, durante uma visita a Setúbal. Disse Cavaco, em substância: Não podemos comparar Portugal com a Grécia, nem com a Islândia, nem tão pouco com a Irlanda. A nossa situação é mais favorável do que a desses países. Eu não acredito que se chegue a uma situação de bancarrota. Era preciso que cometêssemos muitos erros. E o governo está a fazer o que é preciso fazer para o evitar. (cito de cor) Cavaco Silva, é bom lembrar, também é professor de economia... Muito elogiado, e citado, quando convém.

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A TERRA É REDONDA


Por causa da avaliação de professores, vários sindicatos, com a Fenprof à cabeça, moveram contra Maria de Lourdes Rodrigues uma guerra sem quartel. Sócrates, e muito bem, nunca a deixou cair. (Ao contrário do que fizera, e mal, com Correia de Campos.)

No actual governo, Maria de Lourdes Rodrigues, a dura, foi substituída à frente do ministério da Educação por Isabel Alçada, uma escritora cuja amabilidade parece ter sido suficiente para driblar a referida Fenprof.

A magia acabou. Docentes de vário grau e competência acabam de descobrir, estupefactos, que a avaliação conta (e como não contaria?) para os concursos de contratação.

Consequência: os docentes que, por discordarem do modelo de avaliação, não aceitaram aulas assistidas, ficaram impossibilitados de obter as classificações mais altas (Muito Bom e Excelente). Não as tendo obtido, vêem-se agora prejudicados no confronto com os que, e foram muitos, aceitaram aulas assistidas durante o processo de avaliação. Isto é o óbvio ululante. Porém, a avaliar por declarações aos media, a maioria diz-se surpreendida com os factos e traída pelos sindicatos.

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Terça-feira, Abril 20, 2010

TRINTA ANOS DEPOIS


«FP25 was rumored to be involved in the assassination of Francisco Lumbrales de Sá-Carneiro, Portugal's Prime Minister in 1980, although a Portuguese right-wing terrorist group, the Commandos in Defense of Western Civilization (Codeco), has also been implicated in this attack.» Cf. Global Terrorism Database


Faz hoje 30 anos que nasceram as FP25. De acordo com os princípios vertidos no Manifesto ao Povo Trabalhador, divulgado a 20 de Abril de 1980, dia em que rebentaram várias bombas em todo o país para assinalar o surgimento do grupo, as FP25 tinham como objectivo «o derrube do regime, a instauração da ditadura do proletariado, a criação do Exército Popular e a implantação do socialismo.»

De 1980 a 1987, as FP25 assassinaram 17 pessoas (entre elas Gaspar Castelo-Branco, director-geral dos Serviços Prisionais; e o arrependido José Barradas), feriram dezenas em atentados, assumiram a autoria de 66 atentados à bomba e de 99 assaltos a bancos.

P0r decisão do juiz Martinho de Almeida Cruz, o major Otelo Saraiva de Carvalho (e outros 70 membros da organização) foi preso a 20 de Junho de 1984. Julgado e condenado a 18 anos de prisão, cumpriu cinco. Otelo nunca assumiu a criação do grupo.

Em 1996, a Assembleia da República amnistiou (com o voto favorável de todos os partidos, excepto do CDS) os implicados das FP25. Mário Soares promulgou.

Luís Gobern Lopes, um dos fundadores das FP25, disse ontem que não se arrepende de nada. O fim do «controlo operário e da autogestão das empresas», a liquidação da «reforma agrária», as «duas redes bombistas alicerçadas no PPD e no CDS, responsáveis por mais de 30 mortes» (sem que os responsáveis fossem presos), bem como a reintegração dos agentes da Pide, justificou, diz Lopes, as FP25.

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Segunda-feira, Abril 19, 2010

TODA A GENTE SABE?


Com a audição de Mário Lino, ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações do anterior governo, a Comissão Parlamentar de Inquérito ao negócio PT/TVI entra hoje em velocidade de cruzeiro.

Entretanto, hoje mesmo, o Público transcreve afirmações de João Semedo, médico, deputado do BE e relator da referida CPI. Sobre a participação do governo no aludido negócio, diz Semedo: «A intervenção existiu e toda a gente sabia.» Mas então se já se sabe por antecipação como as coisas se passaram, para quê a CPI? Para arredondar o salário ao fim do mês?

João Semedo tem todo o direito às suas presunções. Até pode acreditar que quadros da PT patrocinavam raves na quinta da Regaleira. Mas não pode, enquanto membro de uma comissão parlamentar de inquérito, dizer publicamente o que disse. É caso para perguntar o que está a fazer lá.

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Domingo, Abril 18, 2010

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


Estão já encerrados catorze aeroportos de Espanha: Barcelona, Girona, Reus, Sabadell, Asturias, Santander, Bilbao, San Sebastián, Vitoria, Pamplona, Logroño, Palma de Mallorca, Menorca e Lleida.

Em Lisboa, a partir das 24:00h, as companhias aéreas cessam o pagamento às unidades hoteleiras onde instalaram passageiros. Quem quiser continuar, paga do seu bolso. Os outros podem ir para o aeroporto, onde vão ser distribuídos burros, sacos-cama, cobertores e bebidas quentes. A Protecção Civil assegura a logística.

Caos em Santa Apolónia.

Ainda não se congelaram os preços dos alugueres de automóvel, porquê?

Uma importante companhia aérea europeia propôs à ANA (esta manhã) desviar para Lisboa os seus voos transatlânticos com origem nos Estados Unidos e Canadá. Os passageiros seguiriam depois de autocarro para os seus destinos. A proposta não pôde ser aceite. O aeroporto de Lisboa não tem capacidade para assegurar a operação.

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QUEM, AFINAL?


Segundo o Diário de Notícias revela hoje, Pacheco Pereira terá afirmado, ontem, durante um debate sobre «o estado da democracia» organizado pela JSD de Leiria: «Ninguém pense que é fácil ganhar as eleições ao PS», pois o PS controla fundações, a comunicação social e os negócios. «O PSD não pode competir com o PS assim.» OK.

A parte dos media é muito curiosa. Sendo público e notório que a opinião assinada por André Macedo, i / António Barreto, Público / António Nogueira Leite, CM / António Ribeiro Ferreira, CM / Constança Cunha e Sá, CM / Daniel Oliveira, Expresso / Eduardo Cintra Torres, Público / Eduardo Dâmaso, CM / Francisco José Viegas, CM / Helena Matos, Público / Henrique Raposo, Expresso / Joana Amaral Dias, CM / João César das Neves, DN / João Miguel Tavares, CM / João Pereira Coutinho, CM / José António Saraiva, Sol / José Eduardo Moniz, CM / José Manuel Fernandes, Público / o próprio José Pacheco Pereira, Público, Sábado, SICN / Luís Campos e Cunha, Público / Manuel António Pina, JN / Maria João Avillez, Sábado / Mário Crespo, SICN / Medina Carreira, SICN / Nuno Rogeiro, Sábado, JN / Paula Teixeira da Cruz, CM / Paulo Pinto de Albuquerque, DN / Paulo Tunhas, i / Pedro Lomba, Público / Rui Moreira, JN / Rui Ramos, Expresso / Vasco Graça Moura, DN / e Vasco Pulido Valente, Público (cito por ordem alfabética os mais relevantes), tem como traço distintivo o ataque cerrado, em maior ou menor grau de corrosão, às políticas do PS e à pessoa de José Sócrates, qual é afinal a parte que o PS controla?

Em resposta ao desafio de Luis Serpa: Clara Ferreira Alves (tem dias), Emídio Rangel, Fernanda Câncio, Ferreira Fernandes e Miguel Sousa Tavares.


[Na imagem, José Pacheco Pereira e o senhor Evaristo Cardoso, proprietário do Solar dos Presuntos.]

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Sábado, Abril 17, 2010

POIS


Martim Avillez Figueiredo demitiu-se ontem da direcção do i. André Macedo assumiu a direcção interina do jornal. Com um passivo superior a 600 milhões de euros, o Grupo Lena pôs o jornal à venda, mas nem a Impresa (de Balsemão) nem a Ongoing (de Nuno Vasconcelos) se interessaram pelo negócio. Anteontem constou que foi proposta a venda, por um euro, a Martim Avillez Figueiredo, ficando ele com a responsabilidade das dívidas. O director recusou. E bateu com a porta: «Fui aliciado para este projecto pelas enormes expectativas que me foram criadas [...] Fui defraudado, a minha dignidade profissional foi defraudada: sinto que defraudei quase cem pessoas que acreditaram em mim.»

Na realidade, desde o passado 2 de Março, face a isto, ficou claro que o jornal andava em roda livre. Verdade que, desde que chegou às bancas em Maio do ano passado, muita gente desconfiou da viabilidade de um título assente nos personagens e na epistemologia dessa aventura falhada que foi a revista Atlântico. O resultado está à vista.

Muita gente vai chorar lágrimas de crocodilo em nome da pluralidade de opinião: fica mais pobre, etc. Pura retórica. A opinião do i é a que domina a generalidade da imprensa. Era só mais do mesmo. Grave, grave mesmo, é o anunciado desemprego das mais de cem pessoas que lá trabalham e não fazem parte do beautiful people da direita do Beato.


Aqui, a carta de Martim Avillez Figueiredo ao CEO da Lena, SPGS, S. A.


[Na imagem, Martim Avillez Figueiredo e Mário Crespo, em Agosto de 2009. Foto: i.]

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VÁCLAV QUÊ?


Václav Klaus, o presidente checo, é conhecido pelas suas peculiaridades. Não me refiro ao facto de ser um eurocéptico. Tem todo o direito de o ser. Não. O senhor, economista de formação, que já foi primeiro-ministro da República Checa (1992-97), escreveu um livro que põe em causa o aquecimento global. E considera as ONG entidades terroristas. Etc., etc. Daí a, em funções de Estado, ser grosseiro e dar pontapés na diplomacia, vai um passo e tanto.

Refiro-me, naturalmente, aos remoques que dirigiu a Cavaco Silva. Logo à chegada criticou acerbamente o Tratado de Lisboa (ainda está na memória de todos a birra que fez antes da sua ratificação). E ontem, numa reunião com empresários, permitiu-se criticar o défice português, interpelando Cavaco e a assistência deste modo: «Por favor, não digam a ninguém que têm um défice maior que o nosso.» Isto depois de ter feito considerações sobre a «leviandade» portuguesa face à situação económica: «estou surpreendido por Portugal não parecer muito preocupado em ter um défice de 8%.» (O défice checo é de 5%.)

Cavaco Silva, retido em Praga pela nuvem islandesa, reagiu o mais diplomaticamente que soube. Infelizmente, foi curto. É fácil imaginar como teria reagido Soares. Ou mesmo Eanes. O senhor Václav Klaus devia ir dar uma volta ao jardim da Celeste.

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Sexta-feira, Abril 16, 2010

CHUTOS


Centenas de milhares de passageiros estão impedidos de voar, na Europa e no Atlântico Norte, por causa do vulcão islandês. Por essa razão, Cavaco Silva ficou retido em Praga. Pela mesma razão, Angela Merkel vai ficar em Lisboa pelo menos até ao fim de sábado (vinda dos Estados Unidos, a chanceler alemã não pode aterrar na Alemanha).

O Banco de Portugal retirou ao BPP a autorização para o exercício de actividade. A decisão tem como consequência a imediata «dissolução e liquidação do Banco Privado Português». Ainda ontem, o Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários tinha feito, em nome dos trabalhadores do BPP, uma proposta de compra da licença bancária. Não foram a tempo.

Noronha do Nascimento tirou o brinquedo a Ricardo Sá Fernandes, reiterando a ordem de destruição de todas as escutas do processo Face Oculta envolvendo o primeiro-ministro. Paulo Brandão, juiz-presidente da Comarca do Baixo Vouga, confirmou a execução do despacho do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

João Cotrim Figueiredo, antigo administrador da Privado Holding, proprietária do agora extinto Banco Privado Português, é o novo director-geral da TVI.

O que mais irá acontecer?

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PORTAS VOTA FIDEL


A Parpública, que representa o Estado no capital da EDP, votou contra a proposta de remunerações da comissão de vencimentos da empresa. O governo pretendia uma redução de 5% no salário-base dos membros do conselho de gestão, bem como o não pagamento de prémios, mas, por decisão dos accionistas maioritários, a proposta nem sequer vai ser discutida. Afinal, a EDP é uma empresa privada, em que o Estado detém uma quota de 20,49%.

Contudo, Paulo Portas, dirigindo-se hoje ao primeiro-ministro, afirma: «Estão a fazer pouco de si, não como pessoa mas como primeiro-ministro.» Portas é de opinião que Sócrates devia impor a sua vontade. E eu a pensar que o CDS-PP era um partido respeitador da iniciativa privada! Engano meu. O Caldas não passa da Sierra Maestra do líder democrata-cristão. Ainda o vamos ver a defender fardas de caqui para os gestores.

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JOÃO PEDRO MARQUES


Hoje no Público:


Num país com elevados índices de iliteracia, como é o nosso, não admira que a literatura seja sacralizada. Não viria daí grande mal não fosse a persistência de equívocos e preconceitos nocivos. Um deles respeita ao romance histórico. As pessoas do Meio falam do romance histórico como quem fala de peúgas sujas. Se o autor acumular com a actividade de historiador, a heresia é completa. Veja-se como continua a ser referido Glória (2001), de Vasco Pulido Valente. Isso traduz uma sólida ignorância do que se passa no vasto mundo. Contudo, a leviandade não inibirá ninguém de tecer loas a Wolf Hall, o romance de Hilary Mantel sobre a vida de Thomas Cromwell, que recebeu o Man Booker Prize de 2009. E quem diz este diz outros.

Vem isto a propósito do romance de estreia de João Pedro Marques (n. 1949), investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical, docente e especialista em História de África, com obra publicada nessa área. A título de exemplo, Os Sons do Silêncio (1999), sobre a abolição do tráfico de escravos, livro que entrou em 2006 para o catálogo da Berghahn Books de Nova Iorque e Oxford: The Sounds of Silence. Nineteenth-century Portugal and the Abolition of the Slave Trade.

Com Os Dias da Febre, João Pedro Marques arrisca a literatura de ficção. Trata-se de um romance com acção localizada na Lisboa dos anos da Regeneração (1851-68), época em que estavam por extinguir os miasmas da epidemia de febre amarela que tivera o seu apogeu durante a Guerra Peninsular. O Fontismo trouxera progresso, mas Lisboa era ainda uma enxovia.

Descendo a Calçada de Santana, no trajecto de casa para o teatro, Elvira e Carlos atravessam um território de desapossados: «O contacto com o mundo sórdido dos desfavorecidos era, ali, inevitável e desconfortavelmente próximo, apesar de as cortinas da carruagem irem corridas. Os zarolhos, os amputados, as bocas sem dentes, os cabelos sem pentes, as caras engelhadas de rugas ou sulcadas por cicatrizes, desfilavam a dois dedos da sua janela...» O casal cumpre as obrigações sociais à revelia de vida conjugal. Nascido quando Massena acampava nas Linhas de Torres, estudante de leis em Coimbra, Cavaleiro da Casa Real, antigo Governador Civil de Santarém e Leiria, membro da Câmara dos Deputados desde 1848, Carlos Cabral fez de Elvira Sabrosa, filha de uma antiga amante, mais do que sua mulher, um símbolo de afirmação.

É impressivo o modo como o autor ilumina os costumes da sociedade lisboeta de então: o moderado arrivismo de Carlos Cabral, que foi capaz de equilibrar-se nos avanços e recuos da causa liberal; a cultura de usura que fazia as grandes fortunas; os africanistas; os “brasileiros”; o tráfico de escravos; a importância de Jane Austen na educação das “meninas”; o sobressalto da febre amarela, que levou à criação de hospitais especiais; os crimes de honra; os salões da boa sociedade; a vida política no tempo de Rodrigo da Fonseca; as cocottes com casa posta, etc. Sobre tudo isto, João Pedro Marques discorre com apreciável desenvoltura, isentando-se de considerações ideológicas ou juízos de valor.

Mais que o discreto ménage à trois que Elvira e Robert Huntley autorizam, Os Dias da Febre (e febre, aqui, releva menos da infecção viral que da pulsão dos humores) ilustram outro jogo a três: o de Carlos dormindo com Branca Lobo de Sabrosa, de olho posto na filha (Elvira) pré-adolescente.

O discurso nunca é “forçado”, surgindo adequado ao tempo e às personagens, sem malabarismo sintático. Com epicentro no Campo de Santana, a história reparte-se por capítulos com enfoque nos principais protagonistas (Carlos, Elvira, Pedro, Robert Huntley) e em acontecimentos concretos (a citada epidemia, o roubo das jóias, o duelo fatal, o assassinato de Carlos). O recurso ao flashback estabelece o fio condutor da cadeia mnemónica. A narrativa segue o padrão clássico, expondo com clareza as várias fases da intriga. A descrição das “inibições” sexuais de Carlos, homem que tira prazer da violência exercida contra mulheres de condição social inferior, é feita sem qualquer espécie de psicologismo. João Pedro Marques atém-se aos factos, que narra com a naturalidade de um coevo. Breves notas de rodapé situam o tempo histórico da vida de Carlos e Elvira.

Em suma, uma estreia auspiciosa.


A vida de Elvira, in Ípsilon, 16-4-2010, p. 48. Quatro estrelas.

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Quinta-feira, Abril 15, 2010

BLACKOUT


A erupção do vulcão do glaciar Eyjafjallajökull, no sul da Islândia, instalou o blackout nos céus da Europa e do Atlântico Norte. Entre outros, estão encerrados os aeroportos britânicos, belgas, suecos, noruegueses, finlandeses, dinamarqueses, holandeses, irlandeses e alemães. As ligações de Portugal e Espanha com o norte da Europa foram canceladas. O mesmo se diga dos vôos transatlânticos. O aeroporto de Heathrow reflecte bem o caos europeu. Siga passo a passo a situação.

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A LEVIANDADE SAIU CARA


Em 2006, a revista Focus pôs em letra de forma uma atoarda do extinto blogue Freedomtocopy, de acordo com a qual o romance Equador (2003), de Miguel Sousa Tavares, seria um plágio de Cette nuit la liberté (1975), obra conjunta do americano Larry Collins e do francês Dominique Lapierre. Miguel Sousa Tavares interpôs acção judicial.

Ontem, o Tribunal Cível de Lisboa deu razão à queixa do escritor, condenando o proprietário do grupo Impala, a revista Focus, o director da publicação à data dos factos, e o redactor da peça jornalística, a pagarem cem mil euros de indemnização. Frederico Duarte de Carvalho, autor de um blogue que replicou a atoarda do Freedomtocopy, foi condenado a pagar oito mil euros. Não ficou estabelecida a identificação do autor do Freedomtocopy, não obstante Sousa Tavares garantir que sabe quem ele é.

Equador (2003) vendeu até ao momento perto de meio milhão de exemplares, nos dez países em que foi publicado.

Adenda. Tal como chegou à opinião pública, a notícia não explicita que «o redactor da peça jornalística» publicada na revista Focus em 2006, e o autor do blogue Para Mim Tanto Faz, sejam uma e a mesma pessoa, isto é, o jornalista Frederico Duarte Carvalho. Assim sendo, não se percebe a condenação suplementar de que foi alvo FDC. O recurso da decisão decerto a esclarecerá.

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Quarta-feira, Abril 14, 2010

MORT DE SARKOZY PAR GUILLON


Stéphane Guillon, humorista e actor, autor de uma crónica diária na France Inter, lembrou-se de transpor para a realidade francesa o desastre que vitimou o presidente e a nomenklatura polaca. Sonhei, diz ele, que era Sarkozy que ia no avião. Humor negro, afiança o politicamente correcto. Vale a pena ouvir para avaliar.

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ÓCIO PASCAL


Para facilitar a participação das populações na recepção ao Papa, o governo decretou tolerância de ponto da Função Pública, nas seguintes datas e locais:

11 de Maio, terça-feira, em Lisboa, no período da tarde.
13 de Maio, quinta-feira, em todo o país, todo o dia.
14 de Maio, sexta-feira, no Porto, no período da manhã.

Como de regra em matéria de tolerâncias, é de prever que a Banca adopte o mesmo procedimento. E, porventura, as grandes empresas: EDP, PT, GALP, REN, etc.

Cumulativamente à decisão do governo, as Câmaras de Lisboa, Porto, Gaia e Fátima dão bónus:

11 de Maio, terça-feira, a CMLisboa fecha todo o dia.
12 de Maio, quarta-feira, a CMFátima fecha no período da tarde.
14 de Maio, sexta-feira, a CMPorto e a CMGaia fecham no período da manhã.

Ainda não se sabe se as Câmaras da Amadora, Sintra, Cascais, Oeiras, Almada, Barreiro, Loures e Odivelas vão concertar-se com Lisboa.

Quem foi que disse que o país está em crise? Se isto é assim havendo separação entre o Estado e a Igreja, o que seria se não houvesse?

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Terça-feira, Abril 13, 2010

FRUGALIDADES


Durante a visita a Fátima, Bento XVI vai dormir no mesmo quarto que acolheu João Paulo II há dez anos. O séquito papal também fica instalado na Casa de Nossa Senhora do Carmo. Até aqui, nada de surpreendente.

Porém, ontem, num canal de televisão, alguém da diocese explicava que Sua Santidade é muito frugal. Pode ser que sim, mas não resisti ir à cozinha buscar o livro ao alto, Los secretos de la cocina del Vaticano (2006), excelente selecção das receitas do Vaticano, compiladas por Eva Celada, especialista em gastronomia. E não é por nada, mas nas 280 páginas do volume a coisa mais frugal que encontrei foi Bucatini alla Amatriciana, al gusto de Los Cardenales en Invierno. Não estamos a falar de nabo cru com amêndoa pilada.

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WERNER SCHROETER 1945-2010


Werner Schroeter morreu hoje. O cineasta alemão tinha 65 anos. Além de filmes, cerca de trinta desde 1967, dirigiu óperas. A mais recente foi a Tosca (Puccini) que a Ópera da Bastilha exibiu na temporada de 2009. Veneza consagrou-o em 2008.

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FLOP GREGO, PEC & BRUXELAS


Entre 2004 e 2009, a Grécia foi governada pela Nea Demokratia, o partido de direita (criado em 1974) actualmente liderado por Antonis Samaras, cujo ADN oscila entre a democracia-cristã e o conservadorismo liberal. Tal como o PSD e o CDS-PP, a Nea Demokratia integra o grupo do Partido Popular Europeu.

Konstantinos Karamanlis foi primeiro-ministro da Grécia entre 10 de Março de 2004 e 6 de Outubro de 2009. Foram os anos do milagre grego. Todas as semanas a Grécia nos passava a perna num item qualquer. Sabemos hoje como isso foi feito. Como de uso nos botecos chico-espertos, a Grécia tinha um “Caixa dois”. Era esse que mostrava a Bruxelas. A realidade, mascarada pelo conluio do governo com o Banco Central grego, os serviços nacionais de estatística e um sindicato de bancos (americanos) “amigos”, era outra. A ficção durou cinco anos. A mudança de governo, há seis meses, destapou a fraude. George Papandréou, vencedor das eleições, líder do PASOK e actual primeiro-ministro, ficou com o bebé nas mãos.

Com uma dívida pública superior a 300 mil milhões de euros, e um défice que representa 13% do PIB, a Grécia está hoje nas mãos do Fundo Monetário Internacional, uma solução imprevisível, tendo em vista que o país faz parte da zona euro. Talvez não pudesse ser de outro modo: os avanços e recuos do empréstimo europeu (notar que a tranche alemã necessita de prévia aprovação parlamentar) não chegam para acalmar os credores.

Quem como nós sofreu as directivas do FMI — os anos de 1982 a 1985, em Portugal, foram particularmente eloquentes —, sabe como é. Convinha tudo fazer para evitar que a história se repita. Para já, a nossa situação não tem nada a ver com a grega. Mas convém não abusar. As reticências de Bruxelas, hoje conhecidas, ao PEC português (benigno, dizem eles), entram em rota de colisão com o clamor indígena. A ver vamos no que isto dá.

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TAPAR O SOL COM A PENEIRA


De visita ao Chile, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano (ou seja, o número dois da Igreja de Roma), afirmou em conferência de imprensa ser a homossexualidade uma causa da pedofilia. Nada a ver com o celibato dos padres, tudo a ver com homossexualidade. E se o cardeal fosse apanhar onde apanham as galinhas? Uma geral com a guarda suíça, em particular com os da equipa de futebol que ele patrocina, fazia-lhe bem.

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Segunda-feira, Abril 12, 2010

SODOMITA, DIZEM ELES


Os que têm acompanhado a imprensa sul-africana para perceber o que se passa naquele país desde o assassinato de Eugene Terre’Blanche, sabiam que Chris Mahlangu, um dos alegados assassinos do líder do AWB, acusa Terre’Blanche de abusar sexualmente dos empregados. Hoje, a notícia chegou ao Diário de Notícias.

Supostamente, Mahlangu, de 28 anos, teria espancado até à morte o líder do partido da resistência afrikaner, em defesa do menor de 15 anos que estava com ele e também se encontra preso.

Quem viu a imagem do local do crime, que publiquei aqui, terá decerto estranhado as condições de higiene e habitabilidade do quarto. Agora percebe-se melhor a natureza do inóspito boudoir. As sessões no tribunal de Ventersdorp prometem.

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CITAÇÃO, 263


Ferreira Fernandes, Cavaco e Alegre inevitáveis porquê?, hoje no Diário de Notícias. Excerto final, sublinhado meu:


«[...] Passos Coelho só balbucia o apoio a Cavaco e José Sócrates, por enquanto, nem isso faz em relação a Alegre. Mas dá-se de barato que um e outro irão apoiar o que não querem. O mistério é: por que não põem os dois, juntos, a hipótese de uma urgente revisão de candidato presidencial?»


[Na imagem, O Sapato, obra de 2009, de Joana Vasconcelos, feita a partir de 150 tachos de alumínio, e respectivas tampas, durante o tempo em que esteve exposta nos jardins do Palácio de Belém. Clique para ver melhor.]

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Domingo, Abril 11, 2010

PPC, ANO ZERO


Vi hoje as primeiras imagens do congresso que ratificou Pedro Passos Coelho como líder do PSD, o oitavo nos últimos quinze anos. Dei com ele a citar Alice por interposto Lewis Carroll. Esse ponto, prefiro não comentar.

Diogo Leite Campos na equipa dirigente traduz uma aposta de exigência e sensatez. O PSD precisa de ambas como de pão para a boca. A ver vamos como vai ser, agora que Passos arredou o PSD responsável, o tal que ia resgatar o partido do delírio menezista, e o mais que conseguiu foi perder (com estrondo) as eleições.

Passos tem pressa em rever a Constituição. Esperar pelas propostas.

A sugestão de pôr os desempregados, os que auferem subsídio, a executar tarefas de interesse comunitário, parece-me avisada. Já o tinha proposto aqui. Digo eu: E que tal triar uns milhares de desempregados, em princípio os mais jovens, pondo-os ao serviço dos hospitais civis? Simples bom senso. Mas vai cair o Carmo e a Trindade.

Portanto, nada como esperar para ver.


[Na imagem, The Hunting Of The Snark, BBC, 1937.]

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CITAÇÃO, 262


Vasco Pulido Valente, Alegre e a esquerda, hoje no Público. Excertos:



«Em meados de Janeiro, Manuel Alegre anunciou que estava disponível para se candidatar à Presidência da República. [...]

Para começar, há o facto incómodo de que Alegre dividiu e continua a dividir o PS, coisa que nenhum partido aceita facilmente. Alegre representa ou, pelo menos, tenta desesperadamente representar a unidade da esquerda, ou seja, do PC, do Bloco e do PS. [...]

Pior: se Alegre por acaso ganhasse — o que, apesar da enorme vantagem de Cavaco, não se deve liminarmente excluir —, isso iria com certeza dar ao Bloco uma posição na esquerda, prejudicial e perigosa para o PS. Se já hoje o Bloco o limita, como se viu no ano passado e se vê passo a passo na Assembleia, com Alegre em Belém as coisas evidentemente pioravam muito. [...] Nem Soares recusa Alegre por uma questão pessoal (embora ela ajude), nem Sócrates continua neutro para não agitar o partido durante uma crise nacional difícil. O caso é que o candidato Alegre se arrisca a empurrar a esquerda para uma guerra civil sem saída.»


[Imagem: cartoon de André Carrilho.]

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Sábado, Abril 10, 2010

PORTO EDITORA COMPRA DIRECT GROUP


Está desfeito o mistério. Na luta pela compra do Direct Group, a Porto Editora saiu vencedora, derrotando os outros dois candidatos: o grupo LeYa e a editora Civilização. O contrato é assinado esta semana. O Direct Group pertence ao grupo alemão Bertelsmann, que detém em Portugal o Círculo de Leitores, a revista LER, e as editoras Bertrand (com 54 livrarias), Quetzal, Temas & Debates, Pergaminho e Contraponto. Lembrar que a Porto Editora obteve, em 2008, receitas de 91,5 milhões de euros, ou seja, mais 5,5% que em 2007. Vasco Teixeira e Manuel Alberto Valente estão de parabéns.

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A MALDIÇÃO DE KATYN


Lech Kaczynski, o presidente polaco, preparava-se para participar nas cerimónias do 70.º aniversário do massacre de Katyn. Mas o avião em que viajava despenhou-se há poucas horas, no momento da aterragem. Morreram os 96 ocupantes do Tupolev que ligava Varsóvia a Smolensk. Tudo aconteceu às 07:56h GMT. Além de Kaczynski e de sua mulher, morreram: o chefe da Casa Civil do Presidente, o chefe do Serviço Nacional de Segurança, o vice-presidente do Parlamento, o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, os chefes dos três ramos das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aviação), o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, o governador do Banco Central, o director do Instituto da Memória Nacional da Polónia, o último Presidente da Polónia no exílio (Richard Kaczorowski), vários deputados, familiares de vítimas do massacre de Katyn, etc. Bronislaw Komorowski, presidente do Parlamento, assumiu interinamente as funções de Chefe de Estado. Lech Kaczynski não tinha sido convidado pelas autoridades russas, mas mesmo assim foi. Há coincidências?

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Sexta-feira, Abril 09, 2010

DESATAR O NÓ


Em 1923, ainda no tempo da União Sul-Africana (1910-61), predecessora da República da África do Sul como a conhecemos desde Maio de 1961, foram criadas as townships. As townships são áreas localizadas em zonas industriais, nem sempre na periferia das grandes cidades, para onde foi “deportada” a população rural negra. Khayelitsha e Langa, ambas no perímetro metropolitano de Cape Town, são as maiores do país. O que não deixa de ser curioso, porquanto Cape Town, sede do Parlamento sul-africano, não se distingue especialmente pela indústria (ao contrário de Johannesburg, rodeada de minas de ouro a toda a volta). Qual é o problema das townships?

Dando de barato a violência que representou a deslocação maciça de populações rurais, uma consequência da política do desenvolvimento separado prosseguida durante décadas pelo Partido Nacional de Hendrik Verwoerd, Balthazar Vorster e outro pessoal menor, as townships tiveram como consequência o desenraizamento cultural de populações que desse modo perderam todo o contacto com as suas raízes. A única região que ficou a salvo do processo foi Kwazulo-Natal, que faz fronteira com o Lesotho, a Swazilândia e o extremo sul de Moçambique.

Ao contrário dos bantostões, zonas administrativas interditas a brancos, gozando de relativa autonomia (onde, portanto, a população negra podia manter as suas tradições e modo de vida), as townships são reservas de homens, desligados do seu habitat natural, cuja única finalidade é constituir uma força de trabalho a preços de subsistência. Com a queda do apartheid e a chegada de Mandela ao poder, em Abril de 1994, as townships foram progressivamente absorvendo uma percentagem dos brancos pobres. Estima-se que 1,7% da população branca do país viva hoje em townships. Do meio milhão de portugueses que vive na África do Sul, quantos estão nas townships? Não faço ideia. Saberá, acaso, o consulado-geral de Portugal em Pretória?

O que essa população desapossada vê quando sai das townships para ir trabalhar nas pequenas profissões e ocupações do distrito financeiro de Johannesburg, ou como serviçais dos elegantes bairros residenciais de Cape Town (para onde se deslocou o que resta das elites europeias radicadas; a grande maioria emigrou para a Austrália e Nova Zelândia, e continua a emigrar a uma média de 90 pessoas por mês), é exactamente o que via antes de 1994. Ou seja, uma sociedade próspera, sofisticada, alinhada com o primeiro mundo. Já não há brancos a mandar, mas a distribuição de riqueza permanece imutável.

Os negros que em 1994 tinham mais de 40 anos, e estão hoje à beira dos 60, talvez não estejam interessados em grandes solavancos. Mas os miúdos que nasceram e cresceram nas townships, e são aos milhões, e não têm nada a perder, vêem em Julius Malema o Moisés dos amanhãs que cantam.

Como se viu ontem, quando Malema expulsou da conferência de imprensa um jornalista da BBC, ele leva o papel muito a sério.


[Na imagem, a cama, ainda suja de sangue, onde Eugene Terre’Blanche foi assassinado no passado dia 3.]

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CITAÇÃO, 261


José Pacheco Pereira, na Sábado e no Abrupto. Excertos, sublinhados meus:


«O que se vai sabendo sobre as compras de material militar ocorridas durante o governo Barroso-Portas, em sequência do de Guterres e prosseguindo no de Sócrates, mas com epicentro no primeiro, é de total gravidade. É mais grave do que o processo Face Oculta, Freeport, Portucale e do que der a “Operação Furacão”, com quem tem os pontos de contacto de histórias de corrupção. [...] O caso dos submarinos, pelo que já se sabe, é o mais grave caso porque envolve não só um caso de eventual corrupção no âmago do estado e dentro dele em duas áreas particularmente sensíveis, as forças armadas e os agentes políticos, e, fora dele, a primeira linha dos interesses económicos associados ao coração da vida política: grandes contratos, intermediação, financiamento, aconselhamento jurídico e técnico. E as quantias envolvidas são enormes e o prejuízo público gigantesco. Ou seja, se há grande corrupção em Portugal, está aqui tudo. Mas não só. Mesmo que não se prove a corrupção, nos vários processos em curso em Portugal e na Alemanha, há pelo menos grossa negligência e grossa incúria, a exigir total esclarecimento. O que se passou com as contrapartidas, que se percebeu desde o primeiro minuto serem fantasiosas e incumpríveis, revela que, por muito legítimas que tenham sido as compras, caso não se prove a corrupção, pelo menos foram feitas com um enorme desperdício de dinheiros públicos, porque o que se comprou foi-o a preços muito acima do normal, num mercado tão competitivo como é o do armamento. [...]»

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MALCOM McLAREN 1946-2010


Malcom McLaren morreu ontem, aos 64 anos. Ler aqui o obituário do Guardian. Este provocador a quem é creditada a invenção do punk, trabalhava com o mesmo à-vontade com Catherine Deneuve e Quentin Tarantino. Admirador da Internacional Situacionista, foi companheiro de Vivienne Westwood, com quem abriu a boutique Let It Rock, que mais tarde daria origem à SEX, vocacionada para o universo S/M. Quem acompanhou o percurso dos Sex Pistols e o das New York Dolls, sabe bem quem ele foi.

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Hoje à noite, Aula de Poesia é apresentado em Coimbra. A sessão terá lugar na Livraria Bertrand Dolce Vita, com início às 21:00h. Osvaldo Manuel Silvestre, ensaísta e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, fará as honras da casa. Francisco José Viegas, editor da Quetzal, acompanha-me à cidade dos doutores. Clique na imagem.

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Quinta-feira, Abril 08, 2010

TC APROVA CASAMENTO


Rui Moura Ramos, presidente do Tribunal Constitucional, declarou a constitucionalidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Dos 13 juízes, 11 votaram a favor, e dois contra. Ficam esclarecidas as dúvidas do Presidente da República, que no passado dia 13 remetera a Lei para o TC.

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O CORO DOS FILISTEUS


Lembrar o óbvio: «Um país em que os políticos navegam ao sabor dos casos desenvolvidos na imprensa, tratando dos assuntos das empresas cotadas como se fossem os assuntos de repartições públicas, sem se preocupar com os efeitos colaterais na economia, não progride, não avança.» — António Nogueira Leite

Vem isto a propósito dos famosos prémios de produtividade de António Mexia, antigo ministro no governo de Santana Lopes, actual CEO da EDP.

A opinião publicada ainda não parou de salivar com os 3,1 milhões de euros do exercício de 2009. Hoje foi a vez de Manuel Alegre, de quem ainda não ouvimos uma palavra sobre o encerramento dos SAP de Valença. Ou Valença será menos que Anadia? (Não esquecer o papel do MIC no afastamento de Correia de Campos.)

A ver se a gente se entende.

A EDP não é uma empresa pública. É uma empresa privada onde o Estado, através da Parpública, detém 20,49% do capital.

A EDP não está sozinha na comercialização da electricidade em Portugal. Um dos concorrentes é a espanhola Iberdrola. Mas há outros. O famoso monopólio é uma ficção para excitar o pagode. A imprensa tablóide é livre de dizer disparates. Mas os comentadores com responsabilidades deviam informar-se.

O que subjaz ao coro filisteu é que accionistas privados não possam decidir livremente em assembleia-geral.

Ao sabor das conveniências mediáticas, a opinião tanto protesta contra as Golden Shares como exige a intervenção do Estado na política remuneratória de empresas privadas. Em que ficamos?

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