Domingo, Fevereiro 28, 2010

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Nunca é demais insistir na alegria com que Urbano Tavares Rodrigues (n. 1923) mantém de pé uma obra iniciada em 1950 com um ensaio dedicado a Manuel Teixeira-Gomes. Assim se esvai a vida, publicado já este ano, junta três livros num único volume: a novela que dá o título ao conjunto; a sequência diarística O Cornetim Encarnado, que mistura prosa (reflexiva e de ficção) com poesia; e os 42 contos da terceira parte. Embora as recordações não sejam ou pareçam lineares, é pena que O Cornetim Encarnado omita datas. Para um leitor da minha geração, é relativamente fácil seguir o fio dos acontecimentos, mas os mais novos perdem-se com certeza. Ilustrando os reais interesses do autor (mulheres, sexo e inscrição política), os contos que fecham o volume correspondem a um amplo fresco da vida portuguesa da segunda metade do século XX. Felizmente, a ficção ainda é o que era.


Pordata. Base de Dados Portugal Contemporâneo. António Barreto pensou. A Fundação Francisco Manuel dos Santos (Pingo Doce) criou as condições materiais. Maria João Valente Rosa dirige. Portugal avançou um bom bocado. Por razões óbvias, a coluna do blogroll tem ligação directa.


Luís Januário: «Uma das nossas piores características é a arrogância perante a Natureza. Nascidos em cidades, locomovidos com energia fóssil, alimentados com os cadáveres embalados das espécies sequestradas, os humanos acham que a Terra é um Parque Temático, um temporal uma contrariedade, uma enxurrada um erro de urbanismo. [...] Cavaco de sapatos de camurça na visita de Estado à última colónia ilustra o que quero dizer. Um homem quase descalço, entre as ravinas. Um homem na Natureza.»

Pedro Teixeira Neves: «Quatro da manhã. Lá em baixo ainda anda gente... [...] São os resistentes das Correntes. É a última noite, a já famosa noite de sábado. Aurelino vai a casa buscar a guitarra. Falta-lhe um espanhol para o quadro ficar completo, assim à Picasso. Venha um argentino, e tenha-se o Pablo Ramos, venha uma outra porteña, e tenha-se Cristina Norton. E tenham-se canções e poemas e tangos. Mesmo que ele seja Peronista, mesmo que ela seja anti-Peronista. A música a uni-los, intervalada com as canções portuguesas nas vozes insuspeitas de Manuel Alberto Valente, Onésimo ou até Milton Fornaro. Maria Teresa Horta cerra os olhos, deixa-se ir. Manuel da Silva Ramos pede uma outra canção; milonga? Tiago Gomes vai distribuindo a Bíblia entre o bar e a ampla sala de estar do hotel. João Paulo Sousa liberta-se um pouco de si mesmo, mais uns dias e talvez se revelasse. Kellerman diz adeus, mais tarde Onésimo, de partida para os Estados Unidos, para poucos dias depois voltar à Europa. É certamente o campeão das milhas. [...] A Manuela não resiste às emoções de nos ver partir. Chora. E não vejo porque dizê-lo seja um problema. Para o ano há mais.»

Valupi: «A Sábado publicou aquele que pode ser um casus foederis para, finalmente, se abanar o sistema de Justiça para além da sua capacidade de reequilíbrio. A notícia expõe a interpretação de Aveiro acerca dos acontecimentos que levaram às decisões de Pinto Monteiro. E diz isto: o Procurador-Geral é cúmplice de uma conspiração criminosa destinada a proteger o Primeiro-Ministro, sendo este também responsável por outra conspiração criminosa. [...] Aveiro, ao lançar estas suspeições, declara guerra aos fundamentos do Estado de direito. Seja por manobra política de alta escala ou peçonha vaidosa de uns quantos, está posta em causa a legitimidade do edifício da Justiça e sua hierarquia. Presidente da República e partidos têm de tomar posição. Este não é tempo para limpar armas, embora seja sempre bom conselho que se faça pontaria com calma.»

Etiquetas: ,

CITAÇÃO, 254


António Barreto, ontem no Expresso:


«Não é possível viver com um sistema em que algumas pessoas na Procuradoria ou na magistratura judicial condicionam a vida nacional de uma maneira insidiosa, sub-reptícia, clandestina e eu acho que paga. Acho que há pessoas que estão a ganhar fortunas para vender informações em segredo de justiça. Não há outra explicação. [...] E a nossa vida há meses que está condicionada por estes processos. É um estado de degradação da vida judicial e parece que não há solução.»

Etiquetas: ,

Sábado, Fevereiro 27, 2010

A TERRA TREME EM SANTIAGO


Santiago do Chile. O mundo está perigoso.
Foto de Sebastian Martinez/AP

Etiquetas:

PRÉMIO LER/BOOKTAILORS


Recebi com surpresa e satisfação a notícia da atribuição, ontem à noite, do Prémio de Edição LER/Booktailors, na categoria Prémio Especial Imprensa de Edição, pela minha actividade de crítico literário. Tenho pena de não ter estado lá. A todos muito obrigado.

Etiquetas: ,

DIÁRIO DAS CORRENTES, 3


Quinta, 25-Fev, 10-16h. Infelizmente, é o último dia em que estou nas Correntes. Logo à noite terei de estar em Coimbra, na Comunidade de Leitores Almedina, a convite da professora Ana Paula Arnaut, que organiza estas conversas com escritores, patrocinadas pelo Centro de Literatura Portuguesa da FLUC, as Ideias Concertadas e a Livraria Almedina.

Passo a manhã no hotel, em luta com os caprichos do wireless. Isabel Coutinho consegue desatar o nó cego, permitindo que escreva e ponha em linha o primeiro capítulo deste diário. Ao pequeno almoço, José Carlos de Vasconcelos, em resposta a dúvidas de Leonor Xavier, faz o historial do comércio do ouro na Póvoa.

Nessa manhã, Dulce Maria Cardoso, João Tordo e Maria do Rosário Pedreira, entre outros, andaram por escolas da cidade. Entretanto, vai chegando gente que não pôde vir mais cedo: A. M. Pires Cabral, João Pombeiro, João Paulo Sousa, etc. Ao almoço, a sala do restaurante abarrota. Mesmo à minha frente, o Pedro comete com afinco os rabiscos Vieira. Às 15h, um membro do secretariado arranca-me ao gossip porque o motorista espera por mim. Gilda Nunes Barata vai comigo pois regressa a Lisboa.

A partida intempestiva faz com que não tenha podido estar com Malangatana, que não vejo desde 1975; com Onésimo Teotónio de Almeida, idem, desde um seminário na Arrábida (2000); com Luís Carmelo e Vítor Coelho da Silva, amigos e companheiros do PNET Literatura; com o Rui Zink, o José Mário Silva e... sabe Deus com quem mais. Em contrapartida, conheci na Póvoa a Cristina Ovídio, simpática editora da Planeta; o Luís Naves, do Albergue; o Pedro Justino Alves, do Diário Digital; o Luís Ricardo Duarte, do JL; a Tânia Ganho e a Inês Botelho, novíssimas autoras da Asa (só conhecia as excelentes traduções da Tânia); o incontornável Zuenir Ventura, que salvou a 1.ª mesa do flop total..., etc. [A propósito: quando é que em Portugal as mesas, ditas redondas, deixam de ser sinónimo de leitura de comunicações?] Se me esqueci de alguém, I’m very sorry! Nunca tomo notas, assumo o risco de escrever de memória.

Não quero terminar este diário sem testemunhar publicamente a minha admiração pela equipa liderada por Manuela Ribeiro e Francisco Guedes. O gosto, profissionalismo e empatia com que todos nos acolhem, zelando para que nada falhe, é digno de realce. Seria injusto não acrescentar os nomes de Luís Diamantino Carvalho Batista, vereador da Cultura, e Francisco Casanova, do gabinete de Relações Publicas, cuja atenção aos convidados excede o exigido pelo protocolo.

Por último mas não em último, recomendar a leitura da excelente cobertura que o Pedro Teixeira Neves tem feito no PNET Literatura; os rabiscos do Pedro Vieira; bem como os textos da Sara Figueiredo Costa e dos Booktailors. Claro que há mais gente a escrever sobre as Correntes, eu é que não tenho tempo para tudo...

Etiquetas: ,

ANNA M. KLOBUCKA


Ontem no Público:


A emergência da autoria feminina na poesia portuguesa é o tema da tese de doutoramento que Anna M. Klobucka apresentou à Universidade de Harvard em 1993. Revisto e ampliado, o ensaio chegou agora às livrarias com o sugestivo título O Formato Mulher. Professora de português da Universidade de Massaschusetts Dartmouth, a autora, de origem polaca, parte de 1972 (ano de publicação de Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa) para desenvolver a sua análise da produção literária portuguesa “protagonizada” por mulheres. Esse ano entre todos mítico, momento de «viragem simbólica e ideológica, cujas repercussões a longo prazo ainda estão muito longe de se esgotar», é o ponto de partida do exigente tour d’horizon às obras de Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Teresa Horta, Luiza Neto Jorge, Adília Lopes e Ana Luísa Amaral. Seis «exemplos de dramatização [...] da autoria feminina» que não excluem outras possibilidades — Irene Lisboa, Natália Correia, etc. —, e cujo traço distintivo é o da «sexualidade marcada pela diferença e a textualidade marcada pelo sexo». O modelo interpretativo segue a ginocrítica — termo cunhado por Elaine Showalter para designar «a mulher enquanto produtora de significado textual» —, sem perder de vista os pressupostos clássicos da crítica literária e cultural feminista.

No essencial, Anna M. Klobucka analisa as várias modelizações da identidade sexual, a polarização de géneros, a estruturação do “eu” feminino, bem como as «manifestações sexualmente marcadas dos processos de relacionamento intertextual e o seu papel na integração do discurso poético». Sem cedência ao jargão académico, a autora sinaliza com precisão os momentos de ruptura dos discursos em pauta.

Se pensarmos que O Formato Mulher teve como primeiro alvo leitores estrangeiros, a escolha de Florbela arrasta consigo uma mais-valia pedagógica que se mantém operante junto do público português. Com efeito, se há obra da nossa literatura atolada em equívocos, essa obra é a de Florbela, logo seguida da de António Botto (o qual, apesar de tudo, goza de maior fortuna crítica). Anna M. Klobucka explica bem o processo de mitificação de Florbela e, em particular, os efeitos perversos da sua conivência com o «processo de destilação gradual» que a obra sofreu. Afinal, a decantada feminilidade foi (e continua sendo) um pau de dois bicos. Dito de outro modo, «mulher antes de mais nada», por oposição a Sophia, Fiama e Luiza Neto Jorge, «poetas antes de mais nada». Nessa medida, a recepção crítica tende à desvalorização, quando não à omissão. Conclusão pertinente: «uma Florbela (ou linhagem florbeliana) queer não deve ser construída independentemente da construção contínua de uma Florbela (ou linhagem florbeliana) feminista». Digamos que Anna M. Klobucka dá início ao processo de revisão histórico-literária que Joaquim Manuel Magalhães reivindicou para Florbela.

Não por acaso, a sequência e terminologia do índice é clara: «A Poetisa: Florbela Espanca» / «A Poeta: Sophia de Mello Breyner Andresen» / «Poeta, Feminino Plural», sobre Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge / «E vários os caminhos», sobre Adília Lopes e Ana Luísa Amaral», glosando um título da segunda.

A leitura de Sophia esclarece a contradição entre investimento hermenêutico e descaso identitário. Algo parecido com a inócua «sopa andrógina» que subsume o discurso crítico em torno de algumas poetas.

Nos anos 1960, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta mudam o panorama. A primeira fez «rebentar uma insurreição violenta de linguagem [tornando] a matéria humana numa eroticamente incendiada terra de ninguém». A segunda fez do corpo feminino «o território semiótico que melhor acomoda o impulso poético de anarquização da linguagem». Maria Teresa Horta tem ainda o mérito de sustentar a obra numa relação intertextual com «o legado da dominação masculina». Não admira que Maria de Lourdes Belchior tenha então chamado a atenção para a emergência das mulheres enquanto “autoras”.

Na realidade, todas desautorizam a abadessa de Heidenheim, que assumia a «falta de discernimento [própria do seu] frágil sexo feminino». Embora em 2005 Ana Luísa Amaral ainda considerasse a sua poesia como «não feminista», facto é que a obra a contradiz com ênfase.

Em paralelo, Adília Lopes tem elaborado (com consequências) o «projecto da construção da personagem de mulher autora de poesia, isto é, da poetisa», sem que tal atitude traduza conformismo passadista. Anna M. Klobucka faz notar, com propriedade, ser esse um dos «gestos anacrónicos que orientam» a produção literária de Adília.

Muito mais haveria a dizer deste longo e estimulante ensaio, que com tanta desenvoltura recentra o lugar dos poetas-fêmea na literatura portuguesa.


Formatação fêmea, in Ípsilon, 26-2-2010, p. 45. Quatro estrelas.

Etiquetas:

Sexta-feira, Fevereiro 26, 2010

DIÁRIO DAS CORRENTES, 2


Quarta, 24-Fev, 10-24h. Depois de um pequeno-almoço animado, na companhia da equipa júnior, a sessão oficial de abertura do encontro tem lugar no Casino da Póvoa. O momento serve para lançar a revista dedicada a Agustina Bessa-Luís, sobre a qual falaram Inês Pedrosa e Mónica Baldaque, filha da escritora; bem como para o representante do júri (Carlos Vaz Marques) anunciar o nome da vencedora da 7.ª edição do Prémio Correntes d’Escritas: Maria Velho da Costa, por Myra.

Do Casino partimos para o Marinheiro, restaurante onde nos servem o almoço. Divido a mesa com, entre outros, Isabel Coutinho, Bernardo Carvalho, Gilda Nunes Barata, o caboverdiano Germano Almeida, Zeferino Coelho e Rui Lagartinho. A refeição vai a meio quando vejo chegar Catherine Dumas e Ana Luísa Amaral. Não via Catherine, professora na Sorbonne, há mais de sete anos. É também nesse almoço que reencontro Sara Figueiredo Costa.

O período da tarde abre com uma conferência de Isabel Alçada, ministra da Educação. Como tinha uma intervenção às 17h (imagem ao alto), fui descansar para o hotel, aproveitanto uma pausa na chuva para fazer, a pé e na companhia de Bernardo Carvalho, o trajecto. Mas acabo por ter de ir para o Auditório Municipal mais cedo que o previsto porque é lá que uma equipa da RTP-N espera por mim.

A mesa em que participo, a 1.ª deste ano, tem por mote um aforismo de Agustina: Escrevo para desiludir com mérito. Catherine Dumas modera o impossível. Comigo, na mesa, Ana Luísa Amaral, o brasileiro Zuenir Ventura, Gilda Nunes Barata, Fernando J. B. Martinho e Francisco Moita Flores. No período de diálogo com a assistência, um espectador enlouquece em directo (ao fim de 10 minutos, os stewards recuperam o microfone). Estou à espera dos desenhos do Pedro Vieira, que chegou nessa manhã à Póvoa e assistiu ao derrame.

Jantar no Zé das Letras, onde nos serviram um cabrito superlativo. Somos oito na mesa: Sofia e Paulo Ferreira, Maria do Rosário Pedreira, Manuel Alberto Valente, Vítor Quelhas, Margarida Ferra, Francisco José Viegas and myself. À sobremesa é distribuído um número especial da B:MAG dedicado às Correntes.

De regresso ao hotel, lançamentos de, entre outros, Três Vidas ao Espelho de Manuel da Silva Ramos, Inversos de Ana Luísa Amaral, A Ordem do Tigre do espanhol J. J. Armas Marcelo, e A Lucidez do Amor de Tânia Ganho. No lobby, indiferente à sessão de poesia que começa perto da meia-noite, a equipa júnior prepara uma noite longa...

Continua.


[Na imagem, da esquerda para a direita, eu próprio, Ana Luísa Amaral, Zuenir Ventura, Catherine Dumas, Gilda Nunes Barata, Fernando J. B. Martinho e Francisco Moita Flores.]

Etiquetas: ,

Quinta-feira, Fevereiro 25, 2010

DIÁRIO DAS CORRENTES, 1


Terça, 23-Fev, 14-24h. Um comboio cheio de escritores, editores, tradutores e jornalistas é meio caminho andado para o caos. Lisboa perde-se na chuva, o Porto recebe-nos sob forte ventania. Logo em Campanhã, o staff das Correntes d'Escritas dá as boas-vindas aos convidados. Vencido o rush do fim da tarde, entramos no Axis Vermar da Póvoa às seis da tarde. Há 30 anos, este hotel, então dirigido por José Costa Duarte (hoje no Ritz de Lisboa), era uma morada de culto. Muita água passou sob as pontes. É um anoitecer melancólico, animado apenas pela agitação dos mais novos.

Às oito, já toda a gente tomou de assalto o bar. Caras desconhecidas (os estrangeiros, alguns portugueses mais jovens) e muitos amigos: Leonor Xavier, Maria do Rosário Pedreira, Manuel Alberto Valente, Cristina Norton, valter hugo mãe, Isabel Coutinho, Nuno Seabra Lopes, Paulo Ferreira, Maria Teresa Horta, Pedro Teixeira Neves, Carlos Vaz Marques, Patrícia Reis, Tiago Gomes, Paulo Gonçalves, Fernando J. B. Martinho, Inês Pedrosa, Francisco Belard, Cecília Andrade, Manuel da Silva Ramos, Carlos Veiga Ferreira, Jorge Melícias, João Rodrigues, Vítor Quelhas, Rui Breda, etc. Servido no hotel, o jantar é lauto e divertidíssimo. Divido a mesa com a Leonor, a Maria do Rosário, a Cristina, a Patrícia, a Inês, o Rui Lagartinho, o Paulo Moreiras, o Mário Zambujal e o brasileiro Bernardo Carvalho (ao alto). A noite é uma criança...

Continua.

Etiquetas: ,

Terça-feira, Fevereiro 23, 2010

CORRENTES D'ESCRITAS


Parto daqui a pouco para a 11.ª edição das Correntes d’Escritas, onde me vou juntar a outros 65 autores, portugueses, moçambicanos, brasileiros, espanhóis, caboverdianos, franceses, colombianos, uruguaios, angolanos, argentinos e mexicanos. Não fico a semana toda porque na noite da próxima quinta-feira, dia 25, terei de estar em Coimbra a convite da comunidade de leitores da Livraria Almedina. Fico, porém, o tempo suficiente para rever amigos, alguns dos quais não vejo há muito. Enfim, não se pode ter tudo! Tentarei dar notícias do front.

Etiquetas:

CITAÇÃO, 253


Constança Cunha e Sá, A histeria de novo, hoje no Correio da Manhã. Excertos, sublinhados meus:


«As audições promovidas pela Comissão de Ética transformaram-se no que seria de esperar: um espectáculo penoso, recheado de heróis improváveis e de malandros impenitentes que se digladiam entre si, a reboque dos mais diversos interesses partidários.

Para começar, convém dizer que as intenções da Comissão eram, já de si, insondáveis.
[...]

Esta mistela, como é bom de ver, não augurava nada de particularmente bom. Infelizmente, o que se seguiu ultrapassou as piores expectativas. E se os políticos, para variar, se têm saído mal de todo este imbróglio — basta ver a incompetência da generalidade dos deputados a quem está entregue esta Comissão — não se pode dizer que os jornalistas tenham primado pela elevação.

O que se assistiu nesta primeira semana de audições é apenas um sinal do que nos espera nos próximos tempos: uma série de egos desorbitados, várias acusações fúteis e os previsíveis ajustes de contas de que ninguém sai a ganhar.
[...] Ora, eu não estou, nem nunca estive “vendida” aos interesses do eng.º Sócrates, mas considero que a actuação de Mário Crespo na Comissão de Ética foi um exercício deplorável que enxovalha o jornalismo e a Assembleia da República. Um exemplo, como já disse, da histeria que hoje em dia reina em Portugal.»

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Fevereiro 22, 2010

TAGUSGATE


A avaliar pelo que o Diário de Notícias hoje divulga, a negociata do Taguspark com Figo é simplesmente obscena. De acordo com o jornal, João Carlos Silva, administrador executivo do Taguspark, tinha «um plano para enganar Luís Figo». O gestor pretende explicar esse plano aos accionistas, justificando (?) desse modo o teor das escutas do DIAP. Anedótico? Sinistro?

Supostos factos: Figo teria começado por exigir 1,250 milhões de euros (250 mil x 5 anos), mas acabou por aceitar 750 mil (350 mil+200+200). João Carlos Silva, esse, pretenderia denunciar o contrato após pagamento da primeira tranche. Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras, principal accionista do Taguspark, terá tido conhecimento de tudo, embora os valores que lhe apresentaram fossem «bem mais baixos».

A mim não me incomoda nada que o Taguspark faça contratos com Figo ou com a rainha do Sabá, seja a que pretexto for. Hoje foi para apoiar Sócrates? Amanhã será para apoiar Passos ou Rangel ou qualquer outro. Sempre assim foi, sempre assim será. De resto, a estrutura accionista do Taguspark inclui, além da Câmara de Oeiras, o Instituto Superior Técnico, o BPI, a Caixa Geral de Depósitos, o Millennium BCP, o INESC, a Portugal Telecom, a EDP, a SIBS, a Universidade Técnica de Lisboa, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o IAPMEI, a Câmara de Cascais, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), a Associação Industrial Portuguesa, o Grupo Edifer e o Instituto de Soldadura e Qualidade. Esta gente anda toda a dormir na forma? As vestais do menos Estado/melhor Estado escusam de apontar baterias a São Bento. Porque esta negociata é um bom exemplo do laissez faire da nossa sociedade civil.

Etiquetas:

CADA MACACO NO SEU GALHO


SIMplex. Um esclarecimento. Hoje no Público:


Em artigo publicado, [no sábado, dia 20 de Fevereiro] o historiador José Pacheco Pereira afirma que o blogue SIMplex utilizou «informação com origem no Governo [...] preparada por assessores e usando os recursos em bases de dados e outros disponíveis na Rede Informática do Governo». Na qualidade de colaborador desse blogue, afirmo categoricamente: não sou militante do Partido Socialista, tendo aceitado colaborar no SIMplex por opção pessoal; não contactei nem fui contactado directa ou indirectamente por qualquer assessor ou dirigente do PS ou do governo; não solicitei nem me foi facultado qualquer tipo de informação e/ou apoio técnico; não tive acesso, em nenhuma circunstância, à Rede Informática do Governo; não utilizei recursos do Estado ou do PS, durante e após a campanha eleitoral; por último, mas não em último, os textos que escrevi foram cedidos pro bono. Acredito que a generalidade dos 40 autores do SIMplex possa dizer o mesmo. Mas não me cabe responder por eles.


[A partir de cima e da esquerda para a direita: Rui Herbon, João Pinto e Castro, Ana Vidigal, Sofia Loureiro dos Santos, Bruno Reis, Porfírio Silva, João Galamba, Paulo Ferreira, Tiago Julião Neves, André Couto, Eduardo Pitta, Mariana Vieira da Silva, José Sócrates, Palmira F. Silva, Irene Pimentel, Tomás Vasques, José Reis Santos, Gonçalo Pires e João Constâncio. Lisboa, Cervejaria Trindade, 25 de Setembro de 2009. A foto é de Maria João Pires. Clique na imagem para ver melhor.]

Etiquetas: ,

Domingo, Fevereiro 21, 2010

CAÇAR GAMBOZINOS


O PSD ainda se vai arrepender do fervor com que patrocinou as audições parlamentares a pretexto da liberdade de expressão. A inanidade e tristeza do espectáculo envergonham o Parlamento. Grande parte dos deputados revela pouca preparação para o tema: alguns não fizeram o trabalho de casa, outros usam cábulas de terceiros, sem ter a exacta noção do terreno que pisam. Realmente confrangedor.

A propósito de telefonemas de assessores do governo para directores de jornais, parece que toda a gente se esqueceu do que se passou em Fevereiro de 2004, quando determinado jornal de referência deu destaque à decisão de Manuela Ferreira Leite (então ministra de Estado e das Finanças) em prescindir da opção de compra das instalações da Direcção Distrital de Finanças de Lisboa, contra o parecer da Direcção-Geral do Património. E quem é que telefonou para o jornal a reclamar, quem foi? E qual foi a reacção do director desse jornal? Infelizmente, histórias destas há muitas. Não vale a pena procurar o argueiro no olho do vizinho.

Sobre o tema, há duas boas sínteses. Uma é do Francisco: «Mas, pior do que isso, é transformar epifenómenos políticos em tramóias criminais e juntar tudo na Bimby.» Outra é de Luís Filipe Menezes: «foi com um sorriso de alguma repulsa que vi há dias um companheiro de partido, [Marques Mendes] que tinha uma particular propensão para conduzir o Telejornal das 20 horas directamente de S. Bento, sair a terreiro como o grande libertador da comunicação social oprimida

Estamos conversados?

Etiquetas: ,

DESASTRE


Sem palavras. Clique para aumentar.
A foto é da BBC.

Etiquetas:

PUB


Hoje, às 10:00h, na ANTENA DOIS (RDP), o programa que Luís Caetano põe no ar aos domingos de manhã, Um Certo Olhar, desta vez comigo como convidado, ao lado dos comentadores residentes, Maria João Seixas e Miguel Real. Vamos falar da actualidade política, em particular das possíveis consequências da candidatura de Fernando Nobre; da intenção de Gabriela Canavilhas tornar possível a gratuitidade dos museus nacionais, com recurso a «financiamento paralelo»; de blogues e de redes sociais, como o Facebook e o Twitter; do meu livro mais recente, etc. No âmbito das sugestões, destaque para Rei Édipo, a partir de Sófocles, versão e encenação de Jorge Silva Melo, com, entre outros, Diogo Infante e Lia Gama. Uma hora de boa conversa, passe a imodéstia.

Etiquetas: ,

Sábado, Fevereiro 20, 2010

A LIÇÃO DE TROIA


Foram ontem dados os primeiros passos para a reeleição de Cavaco Silva. Depois não se queixem.

Etiquetas:

Sexta-feira, Fevereiro 19, 2010

ABRANTES BY CÂNCIO


Fernanda Câncio, só um bocadinho, não esperava mais. Excertos, sublinhados meus:


«[...] o daniel funcionava exactamente no mesmo pressuposto. por esse motivo convidou o miguel abrantes, do câmara corporativa. e a mim, que nunca o tinha visto a não ser na tv e que ele decerto nunca vira a não ser em foto (no dn). na verdade, no sim no referendo, quando arrancou, eu só conhecia pessoalmente um membro, a helena matos: a maioria dos participantes eram completos desconhecidos.

viemos a conhecer-nos, todos. todos mesmo. por mail, por telefone (tinhamos todos os telefones uns dos outros), pelos nomes de bi. viemos até a conhecer-nos pessoalmente: primeiro no primeiro prós e contras, depois em jantares. fiquei amiga de algumas dessas pessoas — de algumas muito amiga mesmo.

[...] há imensos blogues que leio cujos autores não conheço nem nunca conhecerei. [...]

quanto ao miguel abrantes, sei quem é. como se chama, e o que faz; tenho o número de telefone dele e encontro-o de vez em quando. conheci-o, como já disse, no sim no referendo e por causa do sim no referendo. através do convite do daniel oliveira, portanto — pode-se dizer que conheci o miguel abrantes através do daniel oliveira. sim, o daniel oliveira, como muitas outras pessoas que hoje escrevem coisas indignas sobre o miguel abrantes, já viu o miguel abrantes. esqueceu-se da cara dele, talvez tenha até esquecido o que ele faz e o telemóvel dele. o daniel, como tanta gente que devia ter vergonha do que escreve e diz, embarcou alegremente na teoria pachequiana dos ‘assessores anónimos’ e das ‘informações privilegiadas’ e das ‘ameaças’ e dos blogues ‘do governo’. gostava imenso que toda esta gente, a começar pelos jornalistas que assinaram as desonrosas peças do correio da manhã, especificasse o que é ‘informação privilegiada’ e exemplificasse onde é que ela está nos blogues que citam.

[...] gostava de ver um bocadinho mais de honestidade, um bocadinho mais de racionalidade, um bocadinho mais de decência. só um bocadinho já não era mau. mas estou a ficar sem esperança.»


[Ao alto, Assessores, by Ana Vidigal, 2009.]

Etiquetas: ,

TEIA DE EQUÍVOCOS


Luís Rainha: «Aguardo ainda notícias dos que garantiam ter partido pão com o tal Abrantes, que já não sabemos se é gente, assinatura apócrifa, petit nom de assessor ou pseudónimo colectivo de algum ministério.»

Se isto não for comigo, dê de barato a presunção. Se é, aqui tem a notícia. Parti, de facto, pão com o Miguel Abrantes. Eu e pelo menos metade dos colaboradores do SIMplex. E nem V. calcula quem mais... Anda tudo a fazer de conta? Problema deles.

Sobre o Câmara Corporativa, esclareceu o Hugo Mendes, num e-mail privado enviado a Carlos Santos, anteontem divulgado pelo Correio da Manhã, que se trata de um projecto que contaria com o apoio de muitas pessoas: a «real identidade da(s) pessoa(s) é protegida por motivos de segurança e da própria viabilidade do projecto. [...] O Miguel Abrantes é o... Miguel Abrantes. E depois há outras pessoas. Tudo gente de bem.» Se o Hugo o diz, quem sou eu para o desmentir. De passagem, lembro-me de um jantar em que ambos (eu e o Hugo) estivemos com o Miguel.

Não disponho de tanta informação. Quanto sei, o CC tem três colaboradores: o Miguel Abrantes, o João Magalhães e um Afonso. Conheço apenas o primeiro. Os outros, provavelmente, são os tais que o Hugo refere. O que é que eu sei mais? Sei que o Miguel não é assessor do governo. Nunca o vi injuriar ou caluniar adversários políticos. Vejo-o a defender o governo (é verdade que sim), com factos do domínio público. Faz proselitismo socrático? Pois faz. Tal como muitos o fazem em favor de outros partidos e líderes. Também já o vi a recordar episódios incómodos, mas nunca desmentidos, para alguns bloggers de direita e de esquerda.

É importante que estas coisas fiquem ditas. Nos últimos dias, à boleia do CM, vários blogues dão como adquirida uma Central de Propaganda que teria tido no SIMplex e continuaria a ter no CC as suas extensões em rede. É profundamente insultuoso pretender vincular os colaboradores do SIMplex a acções concertadas com assessores do governo ou do PS. Falo por mim e por aqueles que, sendo ou não meus amigos, respeito intelectualmente. E é desgostante ver gente inteligente a chafurdar no vómito do primeiro arrependido.


[Na imagem, Gary Oliver, como Marco António, e Zubin Varla, como Brutus, em Julius Caesar, no Lyric Theatre, de Hammersmith, em 2005.]

Etiquetas: , ,

CHRISTOPHER ISHERWOOD


Hoje no Público:


Quando pela primeira vez o encontrou em St Edmund’s, o internato que ambos frequentaram em Hindhead, no Surrey, Auden descreveu Isherwood da seguinte forma: «a small boy with enormous head and large eyes, carefully copying down the work of the boy at the desk next to his.» A intimidade começou mais tarde. Wystan Hugh Auden continuou os estudos em Oxford, enquanto Christopher William Bradshaw-Isherwood optou pela “esquerdista” Cambridge. A viagem que fizeram juntos à China, coincidindo com a invasão japonesa, deu origem ao livro Journey to a War, publicado em 1939, no seguimento de outras co-autorias, de que são exemplo os dramas em verso The Dog Beneath the Skin (1935), The Ascent of F6 (1936) e On the Frontier (1938). Ambos fazem parte da genealogia de escritores que ingleses e americanos reivindicam como seus: Auden e Isherwood, nascidos ingleses, tornados americanos; Henry James e T. S. Eliot, nascidos americanos, tornados ingleses.

O futuro autor de A Single Man (1964) emigrou para os Estados Unidos em 1939. Durante a guerra, trabalhou para o American Friends Service Committee, obtendo a cidadania americana em 1946. Não queria nada com a Europa. Tinha boas recordações da Alemanha anterior à guerra, em especial do período que ali passou (entre 1926-33), parte do qual na companhia de Auden, Herbert List, E. M. Forster e Stephen Spender, mas isso era um capítulo encerrado. Para os vindouros, ficou a placa em sua memória que existe na casa que habitou em Schöneberg.

Depois da morte dos amigos, Spender publicou The Temple (1988), romance autobiográfico, escrito em 1929, sobre a temporada em que todos, aproveitando as possibilidades da grave crise social e económica da República de Weimar, tiraram proveito da sexualidade instável dos rapazes alemães. No livro, Isherwood é citado por uma fracção do seu próprio nome: William Bradshaw. De acordo com Spender, já nessa altura Auden se referia ao amigo como o «romancista do futuro». Verdade que, sem a experiência alemã, Isherwood não teria podido escrever Mr. Norris Changes Trains (1935) e Goodbye to Berlin (1939), novelas fundidas em 1945 como The Berlin Stories. (Um projecto mais ambicioso, anunciado como The Lost, não viria a concretizar-se.) Foi a partir dessas novelas que Joe Masteroff e John Van Druten se inspiraram para escrever o guião de Cabaret (1972), o filme de Bob Fosse, com Liza Minnelli e Michael York.

Agora, Isherwood e o cinema voltam a encontrar-se: Tom Ford pegou em Colin Firth, Julianne Moore, Matthew Goode e Nicholas Hoult, transformando A Single Man num filme de sucesso. Firth, premiado em Veneza, é ‘George Carlyle Falconer’, o professor que perde o amante num trágico acidente de viação. Com acção centrada em Los Angeles, em Novembro de 1962, logo após a crise dos misséis cubanos, A Single Man distingue-se de Cabaret pela inscrição gay. Nas Berlin Stories, o pano de fundo da ascensão nazi sobreleva a itinerância do sexo. Em A Single Man, a história do triângulo formado por George, Kenny e Jim é de natureza diferente.

Estamos (o livro é de 1964) no paleolítico da cultura gay, então inexistente como conceito. Porém, como nota Edmund White em The Burning Library (1994), a obra de Isherwood, e A Single Man em particular, deram um forte contributo à afirmação do movimento homossexual. Um dos aspectos mais curiosos do livro radica na amarga rejeição do protagonista ao modelo hetero dos subúrbios americanos de classe média (a título de exemplo, ‘George’ não tem amigos homossexuais). Como seria previsível, o filme amplia o enfoque identitário.

Também do ponto de vista político, A Single Man sinaliza um ponto de viragem na obra de Isherwood. À proclamação dos ideais marxistas, nítida nas peças que fez com Auden nos anos 1930, sobrepõe-se, na fase americana, a deriva do Eu: romances como Down There on a Visit (1962) ou A Meeting by the River (1967), que a crítica ortodoxa tem preterido em favor do epifânico The Memorial (1932), de Lions and Shadows (1938) ou mesmo Prater Violet (1945), que estabelece um contraponto entre a sua experiência de guionista (na Gaumont e em Hollywood) e a apatia do povo e dos artistas austríacos face ao Anschluss nazi. Friedrich Bergmann, o cineasta no centro da intriga, não tem respostas para Isherwood: «Por que não te matas? Como suportas isto? O que é que te faz suportar isto tudo?»

Seguidor dos Upanixades e autor de dezenas de textos sobre Sri Ramakrishna Paramahamsa e a filosofia vedanta (que largamente editou), traduziu do sânscrito para inglês o Vivekachudamani de Adi Shankara. Assim se tornou uma espécie de ave rara da intelligentzia americana. Se toda a diferença perturba, a de Isherwood nunca se distinguiu pela parcimónia: oriundo das upper-classes britânicas, causticou sem ambiguidades as suas idiossincrasias; assumiu a homossexualidade sem álibis de “bom comportamento”; abandonou o marxismo quando ele estava em alta; exilou-se na Califórnia por oposição aos sofisticados círculos literários da Costa Leste; fez a defesa dos Vedas na sociedade da abundância; por último mas não em último, feito discípulo de Swami Prabhavananda, ajudou-o a traduzir o Bhagavad Gita.

Sublinhando com ênfase que a sua escrita é um exemplo do «melhor inglês narrativo do período» (anos 1930-40), Jorge de Sena fez a síntese lapidar: «estilo vivo e inteligente, inquietação de espírito, desilusão do mundo, sexualidade perturbada, gosto do fantástico e do grotesco, e uma amargura íntima e profunda que não há ioguismo que dissolva.» (cf. A Literatura Inglesa, 1963) Sexualidade ‘perturbada’ era como, para amolecer censor, se designava a homossexualidade.

Natural de Wyberslegh Hall, no Cheshire, Christopher William Bradshaw-Isherwood nasceu a 20 de Agosto de 1904. Como vimos, conheceu Auden muito cedo. Spender, com quem mais tarde viajou pela Alemanha, e Edward Upward, com quem escreveu The Mortmere Stories (contos apenas publicados em 1994), são amizades coevas. All the Conspirators, o primeiro romance, foi publicado em 1928. Nessa altura já ele havia escrito People One Ought to Know, colectânea de poemas impressa em 1982. De facto, os poemas são de 1925, coincidindo com a temporada que Isherwood passou em casa de André Mangeot. (A edição inclui os desenhos feitos por Sylvain, o filho do violinista.) Não há notícia de reincidência poética. A bibliografia é extensa e diversificada, muito marcada, nos anos europeus, pelas preocupações políticas. É notório o interesse pela ficção, o teatro e o memorialismo. Christopher and His Kind, a autobiografia de 1976, é um testemunho decisivo. Noutro registo, a biografia dos pais, Kathleen and Frank, publicada em 1971, não deixa de ser reveladora.

Edward Morgan Forster foi uma das amizades que fez em Berlim. Apesar da diferença de idades (o autor de A Passage to India, 1924, e Aspects of the Novel, 1927, era 25 anos mais velho do que Isherwood), frequentaram juntos os bordéis masculinos da cidade, divertindo-se na companhia de jovens operários alemães, tendo encontrado André Gide numa dessas surtidas. Para mais detalhes, consultar Der Puppenjunge (1926) de John Henry Mackay. O advento de Hitler pôs termo à movediça Camelot em que se transformara a capital alemã. Isherwood e Auden deixaram a Alemanha em 1933. Em 1939, antes da partida definitiva para os Estados Unidos, passaram uns dias em Sintra.

Pouco depois da chegada à América separaram-se. Auden permaneceu em Nova Iorque, no n.º 7 de Middagh Street, em Brooklyn Heights. No mesmo prédio viviam Carson McCullers e Erika Mann, Benjamin Britten e Peter Pears, Jane e Paul Bowles. Auden e Golo Mann ficaram “pendurados”. Parece que todos se divertiam à brava, mas Isherwood preferiu ir com o fotógrafo William Caskey (com quem passou a viver) conhecer os países do Caribe. O resultado da viagem está documentado em The Condor and the Cows (1949). No regresso, os dois estabeleceram-se em Los Angeles, tendo privado durante vários anos com Aldous Huxley, David Hockney e Igor Stravinsky.

Foi lá que, no dia de São Valentim de 1953, Isherwood conheceu Don Bachardy, então ainda com 18 anos. Bachardy, artista plástico, tornou-se um retratista de sucesso. Os dois viveram juntos até à morte de Isherwood, em 1986. São co-autores de Frankenstein: The True Story (1973) e October (1983). O casal foi imortalizado num quadro de Hockney, Christopher Isherwood and Don Bachardy, [ao alto] bem como num filme que Tina Mascara e Guido Santi estrearam em 2008: Chris & Don: a Love Story.

Ou seja, um decalque do que se passou com Auden depois de Isherwood o ter trocado por Caskey. Vejamos: Chester Kallman também tinha 18 anos quando conheceu Auden, também viveram juntos até à morte deste, e são co-autores dos libretos de várias óperas, entre elas The Rake’s Progress (1951) de Stravinsky e Elegy for Young Lovers (1961) de Henze. Num caso como noutro, a diferença de idades era gritante: Isherwood tinha mais 30 anos que Don Bachardy, e Auden mais catorze que Chester Kallman.

Quando a morte o surpreendeu, a 4 de Janeiro de 1986, Isherwood tinha 81 anos e cancro na próstata. Nessa altura, já ninguém se lembrava da mística (e das tropelias) do Auden Gang, de que ele fora um dos vértices. Neste momento, a obra passa por um processo de reavaliação, à margem dos preconceitos de tribo: os intelectuais que viam nele um hippie; os gays que têm dificuldade em lidar com a heterodoxia; a sociedade heterossexual que o olhava de viés. Em Portugal estão traduzidos O Memorial, Adeus a Berlim, O Mundo no Crepúsculo, Um Homem no Singular e Encontro à beira do rio, o último romance, injustamente subavaliado (o incesto entre irmãos continua a ser um tabu). Jonathan Fryer e Peter Parker são dois dos seus biógrafos. Baudelaire, o primeiro dos modernos, teria gostado de saber que ele traduziu os Journaux Intimes. Tudo visto, Isherwood é um continente por explorar.


Isherwood é um continente por explorar, in Ípsilon, 19-2-2010, pp. 18-19.

Etiquetas:

CITAÇÃO, 252


Vasco Pulido Valente, Quem tem a culpa?, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:


«Não há hoje jornal que não peça a demissão de Sócrates. [...] Mas sobre o principal responsável pela situação do país, nem uma palavra. Falo, como é óbvio, do PSD. O apodrecimento do PSD, desde que o dr. Cavaco o abandonou por conveniência pessoal ou simplesmente por orgulho, não comove ninguém. A história de quase 15 anos em que o PSD se foi pouco a pouco desfazendo não deixou vestígio na memória dos portugueses. E a gente que o dirige, ou dirigiu, se a palavra se aplica, continua por aí a pontificar, como se tivesse o mais vago direito de abrir a boca.

É bom lembrar o que sucedeu desde que se abriu a sucessão do dr. Cavaco
[...]

Não vale a pena insistir nesse homem fatal, a quem devemos Sócrates. Marques Mendes tentou ainda devolver ao partido um módico de equilíbrio. Não conseguiu. Da intriga que zumbia à volta dele, irrompeu de Gaia o famigerado representante das “bases”, Luís Filipe Menezes, que tornou a confusão num modo de vida e que se meteu outra vez na sua toca, sem se perceber porquê. Manuela Ferreira Leite, que já era o recurso do desespero, não podia, em menos de um ano, convencer os portugueses que o PSD mudara. E, como é sabido, não convenceu. Nem o PSD, a julgar pelas candidaturas de Aguiar-Branco, Rangel e Passos Coelho, de facto, mudou. Quem se quiser queixar não se queixe de Sócrates. Foi o PSD que nos condenou, e nos condena, a Sócrates. É ele o culpado.»

Etiquetas:

Quinta-feira, Fevereiro 18, 2010

A SINGLE MAN


Estreou hoje A Single Man / Um Homem Singular de Tom Ford, com Colin Firth, Julianne Moore, Matthew Goode e Nicholas Hoult nos principais papéis. Feito a partir do romance homónimo que Christopher Isherwood publicou em 1964, o filme conta a história de um professor universitário que perde o amante (e os dois cães) num trágico acidente de viação, após uma relação de 16 anos. Colin Firth ganhou o Volpi em Veneza, e vai com certeza arrecadar o Óscar de melhor actor. Nunca um filme tão contido foi tão explícito na enunciação do desejo.

Etiquetas: ,

O ALVO


Já toda a gente percebeu que o alvo da campanha contra os blogues-de-apoio-ao-governo visa a pessoa do João Galamba, deputado independente eleito nas listas do PS pelo círculo de Santarém. Em Portugal, infelizmente, é assim: fala-se em dinheiro e a matilha saliva.

O João, de quem sou amigo, assim que terminou a licenciatura em Economia foi convidado pelo Santander Totta a trabalhar na área de Derivados e Gestão do Risco. Também fez consultoria na DiamondCluster International, participando em projectos desenvolvidos em vários países. Na sequência desse know-how integrou, após concurso público, a Unidade de Missão para os Cuidados Continuados Integrados (Saúde), funções que exerceu como técnico superior, sujeito a hierarquia. O relatório que elaborou consta do OE 2010, estando disponível para consulta na UMCCI. Colaborou ainda na equipa financeira que acompanhou o projecto piloto da RNCCI no âmbito da Orçamentação por Programas. Essas colaborações cessaram na data das eleições.

É isto crime? Ou será que alguém, julgando-se mais habilitado para tais funções, queria uma fatia do bolo?

Ontem, o Correio da Manhã começou a puxar o fio da hipotética meada que envolveria colaboradores do SIMplex. Sucede que a peça mistura insinuações aleivosas com erros factuais. Hoje, outros jornais repetem os erros. Por isso o João resolveu explicar aqui os quandos e os porquês da realidade. O que é espantoso é que no meio disto tudo o João ainda tenha cabeça para dar os últimos retoques no doutoramento em Filosofia Política.

Etiquetas: , ,

CITAÇÃO, 251


Leonel Moura, Vale tudo, hoje no Negócios. Excertos, sublinhados meus:


«O circo voltou a sair à rua. É certo que não tem o brilho de outros tempos. Os malabaristas estão com reumático e os palhaços perderam toda a graça, mas mesmo assim conseguem fazer muita algazarra. Para já ocuparam os media, o parlamento e a nossa paciência. Anda por aí muita gente de megafone a gritar infâmias, cada qual procurando lançar o maior vitupério. Repetem-se números e piruetas. A sensação de déjà vu impera.

Contudo têm razão nalgumas coisas. Há de facto pouca liberdade de expressão no nosso país. Só tem a palavra quem diz mal de Sócrates. Só tem direito de antena quem ofende o primeiro-ministro. Há de facto medo na sociedade portuguesa. Os que apoiam o Governo correm riscos e enfrentam muitos perigos. Hoje destrói-se uma vida por pouco.

Veja-se o desfilar de convidados que, de hora a hora, passam pelas televisões. O contraditório é inexistente. São poucos os que emitem uma opinião contrária. Aqueles que tentam introduzir alguma racionalidade no debate são imediatamente injuriados e muitos, por cobardia, colocam-se logo à defesa. Ao invés, dizer mal de Sócrates e do Governo é garantir um lugar sentado no telejornal. E, quanto pior se disser, mais são as hipóteses de regressar.

A liberdade de expressão está hoje condicionada à estratégia de desgaste do primeiro-ministro. Quem não participa é ostracizado. Por isso são muitos os aderentes. À direita obviamente, e também na extrema-esquerda como se sabe. Até no PS, onde não faltam oportunistas à espreita.

Incapaz de derrubar Sócrates por via democrática, a oposição tem usado todos os meios, lícitos e ilícitos, para o tentar fragilizar e amesquinhar.
[...]»

Etiquetas:

Quarta-feira, Fevereiro 17, 2010

A CENTRAL


Nas últimas legislativas, militantes e independentes próximos de vários partidos dinamizaram blogues de apoio. Fiquemos pelos que foram criados para o efeito, extinguindo-se a seguir às eleições: SIMplex, pró-PS, Jamais, pró PSD, e Rua Direita, pró-CDS/PP. Um propósito legítimo, transparente, que não escandalizou ninguém. Colaborei com muito gosto no primeiro. Os textos estão aí, não mudo uma vírgula do que escrevi.

Isto dito, vamos ao que interessa. Hoje, Eduardo Dâmaso (director-adjunto do jornal, que dedica o editorial ao tema), Tânia Laranjo e Manuela Teixeira assinam no Correio da Manhã duas páginas de insinuações sobre uma hipotética Central do governo, alimentada por assessores de vários ministérios e, nessa medida, «paga com dinheiros públicos». Ou seja, o CM acusa o PS e o governo de fazerem política, actividades, julgava eu, para as quais estão mandatados. De caminho, transcreve o conteúdo de um e-mail privado, trocado entre dois colaboradores do SIMplex. Ao arrepio do que parece, o alvo da catilinária é mais um actual deputado do PS do que um controvertido blogger que tanto inquieta os seus pares de direita.

Como chegamos ao vale tudo, nada disto admira. O inquietante é que o ónus da prova esteja a ser exigido aos acusados e não (como num Estado de direito) aos acusadores.


LER TAMBÉM

O André Couto: «[...] A notícia que vem marcando o dia de hoje é um serviço deplorável. Longe de querer limitar os seus autores acho que estes, no mínimo, deveriam ter encontrado fundamento antes de censurarem condutas tidas ao abrigo de direitos que também assistem a quem não possui carteira profissional de jornalista. O artigo 38.º da Constituição da República Portuguesa, da liberdade de imprensa e meios de comunicação social, é precedido por um não menos importante, o 37.º, com a epígrafe liberdade de expressão e de informação. É giro ver os paladinos do 38.º a quererem limitar o uso do 37.º [...]»

O José Reis Santos: «Portugal já foi um país de gente de bem. [...] Portugal também já foi um país com uma imprensa de respeito. [...] Esta reflexão deriva da análise a uma suposta “notícia” [...] que corre hoje no Correio da Manhã. Viram a notícia? Acusam o SIMplex de ser auxiliado por assessores ligados ao governo. Como? Então acusaram o SIMplex, um blog político de apoio a um projecto político de fazer… política? Onde está a notícia? No facto de os seus colaboradores terem acesso a informação? Não seria estranho que tal não acontecesse? Alguém se lembrou de perguntar ao Pacheco Pereira se, quando escreve, não tem informação para o fazer? Ou aos colectivos Jamais, Arrastão, Rua Direita, 5 Dias ou 31 da Armada (a lista pode continuar facilmente…)? Qual é então a notícia? Nenhuma. Tudo se resume à divulgação ilegal de mails internos da mailing list do SIMplex por parte de um execrável sujeito que tudo vende para conseguir alguma atenção e duas linhas de papel impresso. [...]»

O Luís Novaes Tito: «A primeira característica da ética é a lealdade. [...] Ninguém gosta de traidores. A sua natureza de aleivosos torna-os no escarro da ética.»

O Miguel Abrantes: «[...] Não quero alongar-me sobre uma notícia cujo teor ainda não li. Lá para o fim do dia, quando puder comprar o jornal, verei se vale a pena voltar ao assunto. Mas uma coisa é certa: o país dos Dâmasos [...] não é o meu país.»

O Pedro Adão e Silva: «[...] Pelo meio, fico também com uma certeza: a blogosfera pode revelar-se particularmente útil — representa um meio eficaz para os perturbados mentais fazerem terapia ocupacional e expressarem as suas frustrações. Mesmo se, pelo caminho, violarem correspondência.»

O Porfírio Silva: «[...] o CM diz que o material lhe foi mostrado por um dos membros do SIMplex. Quem será? Talvez algum candidato a notável que pensava que realmente nos iam pagar por escrevermos para o SIMplex, tendo ficado zangado quando os cheques nunca chegaram. Quem diz os cheques diz uma colunazinha num jornal de Lisboa ou qualquer outra tribuna onde mostrar a sua notável inteligência… Enfim, o tipo de fonte com que o CM deve saber lidar… Sempre houve gente a pretender ser sabedora de como lidar com as mudanças de ciclo político na perspectiva da gestão da carreira. Sempre houve “jornalistas” sabedores de como comer parolos ao pequeno-almoço. Com muito molho, claro

O Rogério da Costa Pereira: «[...] Voltando à vaca fria, é igualmente de espantar a forma como se gera uma notícia. Há pois uma mistura de pinguim — por certo um gajo sem qualquer resquício de “ética pessoal”, ao contrário do professor atrás citado — que revela as entranhas de um blogue. Mostra os mails que se trocaram, as estratégias que se montaram. A razão só a figurinha com boca de megafone a poderá dar. Esperava uma gratificação e não lha deram? Queria ser ministro, secretário de estado? Queria ser assessor, tu queres ver? Não andou lá por crença mas à espera de recompensa? [...]»

A Sofia Loureiro dos Santos: «[...] Impõe-se um esclarecimento da minha parte. Fui convidada a participar no SIMplex, o que muito me honrou e de que não estou minimamente arrependida. Sou médica hospitalar, tenho um blogue pessoal desde 2005 onde escrevo sobre vários assuntos, nomeadamente de saúde, em que uso a minha experiência profissional para reflectir sobre a política de saúde, uso a minha experiência pessoal para escrever sobre outros assuntos, uso o que penso, o que os outros pensam, o que outros escrevem e escreveram para fundamentar as minhas opiniões. Ninguém me pagou nem prometeu nada pela participação no SIMplex. [...] Sou uma pessoa livre e é livremente que me exprimo. Repugnam-me estes métodos absolutamente inqualificáveis de insinuações mentirosas e calúnias sobre tudo e todos que apoiam o PS e o seu governo. Não é assim que me intimidam. Se é esta a forma que usam para escrever artigos de jornalismo de investigação sobre a conspiração governativa para controlar a comunicação social, então cada vez acredito mais que a conspiração existe, mas para forçar a demissão do primeiro-ministro por meios ilícitos, subvertendo a democracia. [...]»

O Tiago Barbosa Ribeiro: «A notícia de hoje no Correio da Manhã é mais uma etapa no grau de boçalidade a que chegaram alguns meios de comunicação social, devidamente caucionados por alguns bloggers. [...]»

O Tomás Vasques «[...] Podia dizer que me lembrei da frase os Pides morrem na rua a propósito de uma peça no Correio da Manhã, de hoje, que envolve o SIMplex, blogue em que colaborei. Mas não foi só por isso.»

O Vasco M. Barreto: «[...] Um whistleblower é alguém que revela uma prática errada dentro de um determinado grupo a que geralmente pertence ou pertenceu; ele “faz soar o alarme” ou — em tradução literal — “sopra no apito”. Distinguimos três tipos [...] O terceiro é o whistleblower frustrado: ele resolve tramar o seu antigo grupo por julgar que não lhe deram o devido valor, bastando-lhe como recompensa a satisfação da sua má-fé. Este terceiro grupo divide-se entre aqueles que ostensivamente soam o alarme e os que fazem tudo pela calada. Curiosamente, para estes há um vocábulo em português: “bufos”. [...] Aliás, visto que os blogs vivem sobretudo nos dias úteis, não será isto uma prova de que quase todos os bloggers se aproveitam dos recursos do Estado (ou de empresas privadas) para fins pessoais, mesmo quando não têm interesses partidários? Estarão a abusar do erário público? [...] Mas não andamos todos a rir com uma desculpa baseada em tal esquizofrenia funcional? You can't have it both ways. Qual era mesmo a notícia?»

Etiquetas: , , ,

A VIDA DE UMA REVISTA


Ler aqui a minha crónica A vida de uma revista. Excerto:


[...] O primeiro número de Colóquio-Letras saiu em Março de 1971. Nos últimos 39 anos, foram muitos os que passaram pela sua direcção: Hernâni Cidade, Jacinto do Prado Coelho, David Mourão-Ferreira, Joana Morais Varela, Luís Amaro, Abel Barros Baptista, Nuno Júdice. A todos a revista deve um patamar de exigência inquestionável.

O afastamento de Joana Morais Varela, em Novembro de 2008, criou um impasse ultrapassado com a chegada de Nuno Júdice à direcção. Desse modo, a revista publicou, em Setembro de 2009, os números 170 e 171, dedicados ambos à obra de Eduardo Lourenço. Restabelecida a periodicidade, acaba de chegar às livrarias o n.º 173, relativo a Janeiro/Abril de 2010.

A primeira parte deste número é preenchida com artigos sobre Al Berto (1948-1997), dos quais destacaria os de Mark Sabine,
Cânone literário, identidade e expressão ‘queer’ em Salsugem, e de Mário Lugarinho, Al Berto: poesia e experiência. [...]

Etiquetas: ,

Terça-feira, Fevereiro 16, 2010

O CENTRÃO DOS NEGÓCIOS


O artigo que Pedro Santos Guerreiro ontem publicou no Negócios é muito interessante, sobretudo na parte que omite, qual seja a de que as ramificações do processo Face Oculta são o braço económico do Centrão dos negócios. Convém não esquecer que ainda não há muito tempo, uma jornalista sénior, com os predicados e as responsabilidades de Maria João Avillez, afirmava na Sábado que Henrique Granadeiro podia ser tudo, «até Presidente da República».

Com efeito, não fossem as revelações caprinas, e o chairman da PT continuaria sendo um intocável, posição apenas beliscada pela inusitada utilização do vernáculo.

Se alguma lição há a tirar do imbróglio (o qual se encontra longe de esclarecido), é a da fragilidade da nossa sociedade civil, em particular da que gere a economia. Não vale a pena tapar o sol com a peneira. Por cada boy do PS há dois ou três do Centrão alargado. A paralisia da nossa produtividade é directamente proporcional ao conúbio entre os agentes económicos e o poder político. E não foi o PS que inventou a roda! Ide, ide ler os jornais de 1988-95, sobretudo o Independente de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso.

Etiquetas: , ,

CITAÇÃO, 250


Constança Cunha e Sá, Sem condições, hoje no Correio da Manhã. O último parágrafo:


«[...] A tese, defendida pela Oposição, de que cabe ao PS, a bem dos superiores interesses do país, desembaraçar-se do seu próprio líder, revela, apenas, a impotência dessa mesma Oposição. Dando de barato que o eng.º Sócrates não tem condições para se manter como primeiro-ministro, seria de esperar que Oposição agisse em conformidade e avançasse com uma moção de censura. Em vez disso, a Oposição confessa que a alternativa ao actual primeiro-ministro não passa por ela mas sim pelo PS, que, de acordo com a sua tese, tem a obrigação de desencantar um substituto de última hora já que os outros partidos não têm qualquer alternativa a apresentar. E assim chegamos ao fundo de um poço que parece não ter fundo: o primeiro-ministro não tem condições para governar; a Oposição não tem condições para ir a eleições; o Presidente da República não tem condições para demitir o primeiro-ministro. E o país assiste, estupefacto, à crescente degradação do regime sem que ninguém tenha condições para travar a hecatombe que por aí se avizinha. Talvez seja a altura de se perceber finalmente que não podemos continuar a viver sem condições.»

Etiquetas:

Segunda-feira, Fevereiro 15, 2010

QUEM É O PRÓXIMO?


Chegou a vez de Santana Lopes. Como a seu tempo chegará a de outros. Sempre em nome da “liberdade de imprensa”, esse novíssimo sinónimo do ego de meia dúzia de jornalistas ressabiados a soldo do Ministério Público.

Falo da manchete do Correio da Manhã de hoje. De acordo com o jornal da Cofina, o empresário Manuel José Godinho, vulgo sucateiro, epicentro do caso Face Oculta, terá pago mais de 72 mil euros a Pedro Santana Lopes. O antigo primeiro-ministro desmente: «Não faço a menor ideia sobre a existência desses cheques em meu nome ou para o partido, se é que existem.» O irmão de Santana Lopes, Paulo, que mantinha relações comerciais com Godinho, também teria recebido a sua parte.

Ainda de acordo com o CM, Godinho terá pago 20 mil euros ao CDS-PP, e 27 mil a Narana Coissoró, mas Narana era advogado de Godinho, e alega tratar-se de honorários.

Lembrar que o processo Face Oculta (corrupção e outro tipo de crime económico) tem 18 arguidos, sendo Godinho o único em prisão preventiva.

Quando a opinião pública acordar para o verdadeiro alcance destas manipulações, talvez seja tarde.

Etiquetas: ,

Domingo, Fevereiro 14, 2010

EUGÉNIO LISBOA


A Imprensa Nacional deu à estampa dois volumes dos Indícios de Oiro de Eugénio Lisboa (n. 1930), impressos em Agosto do ano passado, lançados em Novembro, distribuídos agora. Nas suas 774 páginas, [432+342] a obra colige textos sobre autores portugueses, brasileiros, africanos de expressão portuguesa e estrangeiros de outras línguas. Entre outros, Garrett, Camilo, Eça, Pessoa, Casais, Urbano, David, Herberto, Knopfli, Machado de Assis, José Craveirinha, João Pedro Grabato Dias, Luandino Vieira, Montherlant, Tchekhov, Greene, Coetzee, Campbell, Neruda e Edmund Wilson. Grande parte deles fora avulsamente publicada na imprensa e em revistas da especialidade, embora o livro inclua textos de conferências e colóquios. Seria pleonástico insistir nas qualidades do autor: escrita sedutora, vasta erudição, ensaísmo de largo fôlego, informação rigorosa, espírito de provocação e guerra sem quartel ao lugar-comum. Não é de agora. Sempre assim foi com Eugénio Lisboa. Desde Crónica dos Anos da Peste I (1973) e II (1975; em 1996 a INCM publicou uma compilação), passando por Poesia Portuguesa: do Orpheu ao Neo-Realismo (1980), sem esquecer O Objecto Celebrado (1999) ou Portugaliae Monumenta Frivola (2000, Prémio da Crítica), e outros poderiam citar-se, que o autor de Matéria Intensa (1985) nos habituou ao rigor e desembaraço de um raciocínio vivo, quase sempre a contra-corrente do estabelecido. Aprendi muito com ele, de quem sou admirador e amigo há quase 40 anos.

Para quem não sabe, lembrar que Eugénio Lisboa nasceu em Lourenço Marques, tendo abandonado Moçambique em 1976. Engenheiro de formação, foi director-geral dos petróleos em Moçambique, e professor de literatura nas universidades de Lourenço Marques, Joanesburgo, Estocolmo e Aveiro. Entre 1978 e 1995 exerceu o cargo de conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Londres (no mesmo período Rui Knopfli foi conselheiro de imprensa) e, entre 1995-98, foi presidente da Comissão Nacional da UNESCO. Doutor honoris causa por várias universidades, é considerado o maior especialista na obra de José Régio, sobre quem tem escrito largamente desde 1957. O seu José Régio: a Obra e o Homem (1976, ed. revista e aumentada em 1986), continua sendo o mais extenso e substantivo estudo hermenêutico-biográfico sobre o autor de Jogo da Cabra Cega. Como vem sendo hábito, a capa destes Indícios de Oiro é ilustrada com um desenho de Ângelo, outro expatriado.

Etiquetas:

Sábado, Fevereiro 13, 2010

ELEIÇÕES, COM CERTEZA


Sejamos claros: o actual impasse político não leva a lado nenhum. Nem com Fontes Luminosas, sejam elas promovidas por quem forem, nem a assobiar para o lado com o beneplácito do Presidente da República. Sócrates devia apresentar uma moção de confiança ao Parlamento no dia seguinte à aprovação do OE na especialidade. Se a oposição não tem fibra para aprovar uma moção de censura, o governo deve dar um passo em frente. Assim como assim, o mundo não acaba se tivermos eleições entre o fim de Maio e meados de Junho (cumpridos de forma expedita os prazos constitucionais). Chafurdar no lodaçal é pura perda de tempo.

Não penso assim por causa das escutas. Fora 500 pessoas (magistrados, polícias, spin doctors, jornalistas, políticos, intelectuais, colunistas, bloggers, activistas, patetas à boleia), e 500 é um número generoso, ninguém no país quer saber das escutas para nada. A maioria das pessoas não as percebe nem quer perceber. As pessoas estão preocupadas com os juros, a carestia de vida, o emprego, a educação dos filhos, a degradação do SNS, as possíveis consequências do défice externo, etc. Lamento desapontar, e ter de escrever isto, mas as escutas têm provocado no cidadão comum o mesmo bocejo de tédio que o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não devia ser assim, mas a realidade tem muita força.

Sucede que as escutas alimentam a tranquibérnia, impedindo o governo de governar. Há que reagir em conformidade.

Etiquetas:

CITAÇÃO, 249


Vasco Pulido Valente, Candidatos?, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:


«Paulo Rangel anunciou anteontem a sua candidatura à presidência do PSD. Parece que se “antecipou” a José Pedro Aguiar-Branco, com que andava a combinar não se percebe o quê. O gesto foi considerado “deselegante” e não lhe trouxe qualquer vantagem, excepto uma entrevista de minutos em que não disse nada de original ou de consequente. Como Aguiar-Branco se vai declarar, ou já se declarou, e Pedro Passos Coelho já anda por aí em campanha, o PSD tem agora três putativos “chefes”. É mau? Parece que não. Manuela Ferreira Leite, pelo menos, não acha. “Quantos mais melhor”, disse ela, como se estivesse a vender bilhetes para uma sessão de circo e não acreditasse muito no espectáculo. Cá de fora tudo aquilo cheira a improvisação e a desastre.

Porque a verdade é esta: nenhum dos três — ou serão quatro? — artistas que se apresentam entusiasma ninguém. Nunca nenhum fez nada que o recomendasse para inspirar e unificar o partido; ou para, eventualmente (e com muito azar nosso), ser primeiro-ministro. Pedro Passos Coelho é um jovem simpático, produto da JSD, sem peso, prestígio e maturidade, com ideias confusas sobre o mundo e o país. Paulo Rangel passou pela direcção do grupo parlamentar, em que se distinguiu por uma oratória bombástica, à século XIX, e conseguiu depois ganhar uma eleição para o Parlamento Europeu. E Aguiar-Branco, um advogado do Porto, substituiu agora Paulo Rangel em S. Bento, com alguma competência, mas sem grande brilho. Por que razão qualquer deles se imagina destinado a pastorear a Pátria é um puro enigma.
[...]»

Etiquetas:

Sexta-feira, Fevereiro 12, 2010

SÃO VALENTIM


Se ainda não tem, aproveite. Dois pelo preço de um.
Clique na imagem.
Encomende aqui: comercial@angelus-novus.com

Etiquetas:

INTOLERÂNCIA


Ponto prévio: sou amigo da Fernanda Câncio, sou leitor do Pedro Lomba, não tenho por hábito imiscuir-me em conversas de terceiros. O ponto é outro.

Julgava eu que vivia numa sociedade livre, em que o apoio declarado a um governo sufragado em eleições, ou às suas possíveis alternativas, não constituísse estigma para nenhum dos lados. Vejo que me enganei. Os sinais de intolerância acumulam-se, vindo até de onde menos esperava.

Nos últimos tempos, bloggers anti-Sócrates, de direita e de esquerda, ameaçam com as consequências do pós-PS. Atavismo? Subconsciente totalitário?

Vejamos esta inquietante conclusão: «Arriscou a reputação na cobertura de um primeiro-ministro sinistro e desespera com a desonra e ostracismo que se aproxima.» Desonra? Ostracismo? Com despedimento prévio, presumo! Tudo isso por defender pontos de vista contrários aos do articulista? Daqui aos «fascistas para o Campo Pequeno» (Otelo) é um passo! Infelizmente, este tipo de recado vai fazendo o seu caminho.

Etiquetas: ,

CADÊ A HISTÓRIA?


Fui comprar o Sol. O editorial a invectivar António Vitorino e seis páginas a repetir o já dito sobre a alegada intenção de controlo da TVI pela PT. É isto o escândalo? É isto jornalismo? É por isto que vinte bloggers arrancam as vestes? Então em que categoria entra Il Divo e coisas realmente sérias?

Rui Pedro Soares, administrador executivo da PT, interpôs uma providência cautelar contra o jornal. Não serviu de nada. (Ou por outra: serviu para as televisões massacrarem quem as via com um folhetim inenarrável.) Num país em que grande parte da magistratura não se dá ao respeito, passou pela cabeça de alguém que uma providência cautelar fosse para cumprir? Alguém deve ter feito crer a Rui Pedro Soares que o jornal trazia histórias escabrosas a seu respeito. Caso contrário não se percebe o incómodo. Nada do que o jornal hoje publica acrescenta um átomo de interesse ao plot. Ah!, que saudades do Indy...

Etiquetas: ,

AULA DE POESIA


Pedro Mexia, hoje no Público:


Visitação (1983), de António Franco Alexandre, O Corpo de Atena (1984), de Rui Knopfli, Segredos, sebes, aluviões (1985), de Joaquim Manuel Magalhães, A Jornada de Cristóvão de Távora (1986-1990), de João Miguel Fernandes Jorge, Variações em Sousa (1987), de Fernando Assis Pacheco, O Virgem Negra (1989), de Mário Cesariny, O Céu sob as Entranhas (1990), de Luís Miguel Nava, Sonetos Românticos (1990), de Natália Correia, Do Mundo (1994), de Herberto Helder, Meditação sobre Ruínas (1994), de Nuno Júdice, Uma Carta no Inverno (1997), de Vasco Graça Moura, O Monhé das Cobras (1997), de Rui Knopfli, Lisboas (2000), de Armando Silva Carvalho, Cenas Vivas (2000), de Fiama Hasse Pais Brandão, Alta Noite em Alta Fraga (2001), de Joaquim Manuel Magalhães.

Eis uma (sólida) proposta de cânone poético das últimas décadas portuguesas. E faz todo o sentido, tendo em conta que Eduardo Pitta tem como preocupação recorrente a definição do cânone e das margens. Aula de Poesia segue-se a Comenda de Fogo (2002) e Metal Fundente (2004), compilações de textos que o crítico foi publicando desde 1994 na revista LER e nos suplementos culturais do jornal PÚBLICO, acrescidos de conferências e obituários.

Este conjunto de recensões abrange um arco temporal que vai de Cesário Verde a autores nascidos em 1972. Acerca dos poetas mortos canónicos (Cesário, Pessanha, Régio, Carlos de Oliveira, Sophia), Pitta é respeitoso, e bom, como sempre, na síntese biográfica e estilística, como numa passagem sobre Sophia em que elogia «a nitidez da dicção, o paganismo visionário, um ímpeto de ética radical, o sentido trágico da existência (não isento de religiosidade), um genuíno empenho nas causas sociais e o espontâneo convívio das coisas e dos seres.» (p. 139) Ou isto, sobre Herberto: «[...] trânsitos de Holanda a Angola, destinos fatais, repatriamento, meteorologia insular, negaças à universidade, Emissora Nacional, publicidade, bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, mais viagens, Café Gelo, operário free lance, Caixa Geral de Depósitos, [...] experimentalismos vários, direcção editorial.» (p. 171)

Mas há excepções: Sena é justamente verberado pelas suas intragáveis Dedicácias e Eugénio de Andrade leva uma reprimenda pela ambiguidade e elisão biográficas, que segundo Pitta revelam uma certa falta de coragem. E depois há a ideia, veemente, de que Cesariny não tem o destaque que merece por causa da homossexualidade assumida, «sem o álibi da cal e o gorjeio da passarada». A tese é discutível: Cesariny faz de facto parte do cânone e hoje em dia a homossexualidade não prejudica a recepção crítica de nenhum poeta (até porque, digamos, não é caso incomum).

Empenhada e especialmente interessante é a defesa de autores mais marginais, injustamente esquecidos ou menosprezados. O elenco vai de poetas ditos menores a dissidentes sexuais: Judith Teixeira, o Helder Moura Pereira da segunda fase, José Emílio-Nelson, Helga Moreira e, claro, António Botto, cuja obra completa Pitta tem vindo a editar. Regressando a um famoso texto de Álvaro de Campos, Aviso por causa da moral, Pitta escreve que a moral de agora ainda é substancialmente a mesma de há oito décadas, ainda precisa de ser “avisada” e, claro, agitada, sobretudo no que diz respeito aos autores homossexuais. A militância é conhecida, o diagnóstico fica ao cuidado de cada um.

Pitta lembra também com especial cuidado alguns autores exilados, esquecidos porque “desaparecidos”, como é o caso de Alberto Lacerda e sobretudo Rui Knopfli, poeta realista, culto, empático e tristemente irónico, que o crítico tem tentado resgatar de um escandaloso olvido. O mesmo se diga da agilidade sintáctica e pícara de Fernando Assis Pacheco, que esse esteve muito por cá mas nunca se pôs em bicos dos pés.

Aula de Poesia trata igualmente de várias antologias publicadas nos últimos anos, de Rosa do Mundo e Século de Ouro às geracionais. Mas aqui, salvo alguns remoques, Eduardo Pitta está pacificado com o cânone dos vivos: António Osório, Vasco Graça Moura, Manuel Gusmão, Nuno Júdice ou João Miguel Fernandes Jorge são tratados com a devida deferência. E a Joaquim Manuel Magalhães é reconhecida uma espécie de tutela sobre a geração mais nova.

A geração mais nova, precisamente, não é bem tratada nestes textos. Pitta não aprecia o chamado “regresso ao real” e acumula designações pouco abonatórias para novos e novíssimos: fala de um «excesso de legibilidade», da «vulgata do quotidiano», do «diktat corporativo da melancolia». Em substância, o juízo coincide com a argumentação de Gastão Cruz nos ensaios de A Vida da Poesia (2008). A tese é conhecida: os novos tresleram Ruy Belo, perderam o lado convulso e radical de Magalhães, e caíram numa estagnação prosaica. Pitta define dois continentes: os “poetas sem qualidades”, de feição neo-expressionista (Ana Paula Inácio, Carlos Bessa, Rui Pires, Manuel de Freitas e outros), e aqueles a quem chama acidamente “urbanóides” (José Ricardo Nunes, João Luís Barreto Guimarães, Luís Quintais e eu próprio, entre outros). Isto sem prejuízo de certos nomes que escapam a estas tribos, poetas do sagrado (Tolentino), viscerais (valter hugo mãe), iconoclastas (Adília) ou neo-dada (Tiago Gomes). A sentença é inapelável: «O establishment prefere o curto relato do dia. Os poetas laureados renderam-se definitivamente ao prosaísmo isento de acrimónia e sobressalto, fazendo regredir a poesia a um presencismo envergonhado (p. 130). Pitta, como Gastão, faz pairar a dúvida: porquê esta acrimónia geracional?

A última nota vai para esse hábito essencial ao sarcasmo de Eduardo Pitta: a referência constante ao mainstream, à «crítica estabelecida», ao mandarinato cultural. Pena não haver nomes. Além disso, fica a sensação de que para Pitta escrever na LER e no PÚBLICO não é fazer parte do mainstream. Essa não é a mais pequena das ironias desta breve viagem pela poesia portuguesa. Uma viagem rigorosa nos factos, exigente nos critérios editoriais, atenta no close reading, concisa no estilo e cortante nos apartes. A polémica, especialmente a polémica elegante, é essencial a um clima crítico saudável.

Etiquetas: