Domingo, Janeiro 31, 2010

IMPERATIVO CATEGÓRICO


Age como se a burka devesse tornar-se, por tua vontade, no personal trainer que há em ti. *


* Dedicado aos meus amigos fabianos Ana M.P., Ana V., Cilinha M.L., Fernanda C., Irene P., João G., Laura A.C., Maria J.P. e Pedro M.L.

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Sábado, Janeiro 30, 2010

ELE ANDA POR AÍ


Loureiro vende offshore à SLN. Negócio de 1,5 milhões de euros. É a notícia que hoje faz a manchete do Correio da Manhã. A conta gotas, o CM lá vai lembrando que Dias Loureiro, antigo ministro e conselheiro de Estado, anda por aí. Mas a opinião encartada, com tribuna nos jornais e nos blogues, sempre tão afoita com Armando Vara e outros que vivem fora do perímetro Lapa-Cascais, permanece indiferente à sorte de Loureiros & Rendeiros. Afinal, se Oliveira Costa está preso, e calado, o establishment pode dormir descansado.


[A imagem foi roubada ao Pedro Vieira.]

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Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

ANTHONY DE SÁ


Hoje no Público:


Natural de Toronto, filho de pais portugueses, Anthony de Sá (n. 1966) é um escritor canadiano de origem açoriana. O seu primeiro livro, Barnacle Love, publicado em 2008, finalista do Scotiabank Giller Prize, acaba de ser traduzido como Terra Nova. Sem que se perceba porquê, a edição portuguesa não faz menção ao título original. Colm Tóibín, que fez parte do júri do prémio, realçou a destreza e mordacidade do autor, bem como o tom simultaneamente «contido e elegíaco» da sua escrita. É curioso que Anthony de Sá tenha escolhido a mnemónica da saga familiar para tema do primeiro livro. Professor de inglês em Etobicoke, o autor aproveitou o ano sabático de 2004 para frequentar o curso de escrita criativa da Humber School for Writers. Este livro é o resultado dessa decisão.

O romance encontra-se dividido em duas partes, cada uma delas com cinco capítulos. Denominador comum, a diáspora açoriana: «Os Açores não tinham nada para lhe dar. A minúscula ilha de São Miguel era sufocante, perdida no meio do Atlântico. Percebera desde muito cedo que o mundo que a mãe criara para ele era demasiado pequeno, demasiado previsível.» Tão previsível como as solas esburacadas dos sapatos terem de ser forradas com «barbas de milho». É contra esse destino que o texto se ergue. Anthony Sá cerziu os vários episódios num macrotexto de grande precisão.

Logo a abrir, Acerca de Deus e do bacalhau introduz o leitor no mundo de escassez dos pescadores pobres. Prolongando o intróito, se assim lhe podemos chamar, Motivo de queixa confirma o desembaraço do autor no manejo dos recursos narrativos, descrevendo o universo masculino da pesca do arrastão, nos seus momentos de pânico, euforia, compaixão e crueldade.

É extraordinária a empatia com que Anthony de Sá nos dá a conhecer os costumes, de certo modo “tribais”, de Lomba da Maia, nos idos de 1950. Lomba da Maia é uma freguesia rural da Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, onde nasceu e viveu a sua família. Não se trata de emprestar “cor local” à intriga. O discurso flui com naturalidade, como se toda a vida o autor ali tivesse vivido, cumprindo os rituais pouco menos que medievais que eram de uso, num equilíbrio sempre instável entre rudeza e ternura.

Por contraponto, a segunda parte do livro tem acção centrada em Toronto, mais precisamente em Little Portugal, o bairro dos imigrantes açorianos da maior cidade do Canadá. A deslocação geográfica não inibe a matança anual do porco, descrita com rigor escatológico.

A história do Pequeno Engraxador serve de pano de fundo ao drama da pedofilia: «Uma fotografia do rapaz de enormes olhos encheu o ecrã. Era a única coisa que se via desde há uns dias. Tinha um rosto redondo e exibia um sorriso sincero, entre os largos caracóis que lhe emolduravam o rosto.» Nesse dia, António lembrou-se dos gloryholes recortados nas traseiras do salão de bilhar do Sr. Jerome, e de Ricky, o amigo que andava com os bolsos cheios de notas de cinco dólares. O capítulo é decalcado do brutal assassinato, em 1977, de Emanuel Jaques (citado pelo seu próprio nome), criança portuguesa de 12 anos encontrada desmembrada no terraço de um prédio de Yonge Street. Anthony de Sá está a trabalhar no seu desenvolvimento, passando o capítulo a romance, com lançamento previsto para 2011, sendo Carnival of Desire o título anunciado.

A desenvoltura narrativa é exemplar em todos os registos: na descrição dos atávicos ritos pré-nupciais de Lomba da Maia, quando Manuel troca Sílvia por Georgina; na proscrição de Cândida, a rapariga do batom; na coreografia da morte de Maria Teresa; no relato da violência doméstica; até ao gran finale nas cataratas do Niagara, em plena noite de Natal: «Toda a canção tem em si um fogo».


Salto no escuro, in Ípsilon, 29-1-2010, p. 41. Quatro estrelas e meia.

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ONDE PÁRA A WEST WING?


Ajuda internacional ao Haiti. Via João Pinto e Castro.
Conclusão: relativizar os media. Sempre.
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Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

J. D. SALINGER 1919-2010


Com 91 anos, feitos este mês, morreu J. D. Salinger. Mesmo que não tivesse passado do primeiro livro, The catcher in the rye (1951), traduzido por João Palma-Ferreira por Uma Agulha no Palheiro (1962), continuaria sendo um dos maiores escritores do século XX, em qualquer língua.

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A VIDA COMO ELA É


Via José Adelino Maltez. Sem comentários.
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POUCA AMBIÇÃO


Quatro quintos dos trezentos analistas que se têm pronunciado sobre o OGE para 2010 são unânimes: trata-se de um documento pouco ambicioso. Alguns estão só a citar jornais franceses, mas isso não importa. Facto é que, de Henrique Neto (o patrão da Iberomoldes, deputado de Guterres, que não perdoa a Sócrates não o ter feito ministro) às luminárias da economia de mercado, ninguém tem poupado a pouca ambição de Teixeira dos Santos.

Verdade que o OGE para 2010 congela os vencimentos dos funcionários públicos (ou seja, de cerca de 700 mil portugueses, médicos, enfermeiros, militares, polícias e professores incluídos). Mas os nossos analistas prefeririam, na esteira das teses de Medina Carreira, Miguel Cadilhe e Bagão Félix, ver-se livres de, no mínimo, 40% dos funcionários públicos, cujas funções ao serviço da administração central e local seriam asseguradas por empresas privadas de outsourcing. Como de resto já sucede com algumas funções menores (mas indispensáveis). É fácil fazer contas: trocar cerca de 300 mil funcionários, com vencimento médio de 900 euros, e 40 e muitos anos de idade, por igual número de trabalhadores, eventualmente mais escolarizados, na casa dos 20 e poucos anos, a remunerar pelo salário mínimo... é tentador! Em linguagem vernacular, uma mama! No fundo, a pouca ambição de que acusam o governo resume-se à obsessão com o peso do Estado. Não aprenderam nada com o crash de 2008.

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EM QUE FICAMOS?


Na sua crónica de hoje, no Público, Em defesa do discurso público, Pedro Lomba escreve:


«[...] Um cidadão anónimo colocou no YouTube oito escutas a Pinto da Costa no caso Apito Dourado. Essas escutas dão conta da perversão do nosso mundo futebolístico, de tal maneira que um cidadão comum ouve e pergunta como é possível tanta impunidade. Ficámos esclarecidos sobre o futebol, mas ficámos com dúvidas sobre a eficácia da nossa justiça.

Segredo de justiça, gritaram uns. Privacidade, disseram outros. Escândalo, avisaram todos. Mas por que não dizer: liberdade de expressão? Liberdade de expressão de um desconhecido que entendeu dever trazer para o discurso público factos que nos interessam a todos.

As fugas de informação judicial são uma chaga, admito.
[...] No entanto, em casos como o Apito Dourado acabam por ser um problema menos grave daquilo que ficamos a conhecer por essas fugas. As fugas até podem lesar algumas pessoas, mas o que elas nos mostram lesa todo o Estado de direito. E é inaceitável que se queira fingir que não se viu ou ouviu aquilo que é divulgado, porque todos ouvimos e vimos a sua gravidade.

Três palavras: liberdade de expressão.
[...]»


Os pressupostos são correctos. Contudo, é impressão minha ou não fica claro de que lado se coloca Pedro Lomba?

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Quarta-feira, Janeiro 27, 2010

BRINCAR AO HAITI


As televisões andam há quinze dias a mostrar as mesmas imagens do Haiti. Repetem-se umas às outras sem sentido crítico ou um mínimo de pudor. Para quê? Daqui a cinco anos nada terá mudado. Num país sem estrutura dirigente no terreno, a ajuda estrangeira (como os socorristas franceses da imagem) está entregue a si mesma. Parte significativa dos três milhões de habitantes da área metropolitana de Port-au-Prince, um terço dos quais vivia no centro da cidade, terá provavelmente que emigrar para a República Dominicana ou para outras ilhas do Caribe. Port-au-Prince acabou. Quando os media internacionais descobrirem outro filão, e retirarem, Port-au-Prince ficará por conta dos gangs, da fome e da doença. Na melhor das hipóteses, os americanos instalam lá uma base militar. Daqui a cinco anos falamos.

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Terça-feira, Janeiro 26, 2010

O BAILINHO DA MADEIRA


A Lei das Finanças Regionais, proposta pela Assembleia Legislativa Regional da Madeira, será votada amanhã se, até lá, não houver acordo para o seu adiamento. Isto põe em causa todo o esforço de contenção do OGE para 2010. Manuela Ferreira Leite já veio dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Assim a modos que uma família sobreendividada ir passar um mês num resort de luxo da Nova Zelândia porque dívidas são dívidas e férias são férias. OK.

Isto das autonomias regionais é muito engraçado. Ser autónomo à custa dos outros é cómodo e barato. Que assim tivesse sido na fase inicial (digamos, nos dez primeiros anos), compreendia-se. Que assim continue a ser ao fim de quase 34 anos — a autonomia entrou em vigor a 30 de Abril de 1976 —, é um absurdo. O álibi de região ultraperiférica do território da União Europeia sai-nos muito caro.

A Região Autónoma da Madeira exigiu bandeira própria (outro absurdo), o seu vice-rei todos os dias invectiva o poder colonial do contenente, mas, quando se trata de pilim, os continentais que paguem a factura.

Entretanto, parece que o ministro das Finanças descobriu a quadratura do círculo, propondo uma fórmula (vazada na letra do OGE) que permitirá à Madeira aumentar a sua capacidade de endividamento, ao mesmo tempo que o Estado assume a dinamização, naquela Região, de novas obras públicas. Ou muito me engano, ou Teixeira dos Santos está a um passo do turning point.

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OUT


Sinal dos tempos: The Advocate vai acabar. A mais antiga e prestigiada revista gay dos Estados Unidos, cujo link esteve sempre ao alto da barra da direita, passa a encarte da Out mas, antes do fim do ano, sai definitivamente de cena (as assinaturas obrigam ao ralenti). Lembrar que The Advocate é editada desde 1967, portanto desde antes de Stonewall. É o triunfo do mainstream, que subsumiu a cultura homossexual? Ou será outra coisa?

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Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

O PALACETE


Aqui temos o interessante palacete romântico (sic) que ocupava os n.ºs 66-68 da Rua Saraiva de Carvalho, em Campo de Ourique. Clique na imagem para ver melhor. Esclarecer os incautos que, por trás da fachada, não havia nada senão vestígios de ruínas. Hoje existe lá um prédio projectado por Manuel Tainha, encomendado por Manuel Pinho.

Sobre a Casa de Garrett escrevi várias vezes. Entre outras, a 19 de Maio de 2005; a 5 e 7 de Janeiro de 2006. [cf. Intriga em Família, Quasi, 2007; pp 71-2, pp. 179-80 e pp. 181-2.] Não me vou repetir. Nem sequer explicar o sentido de pardieiro no contexto do post de sábado passado. Lembrar apenas que Almeida Garrett ali viveu, consoante as fontes, entre um período mínimo de 19 meses e máximo de 22, no fim da vida.

O resto é coisa de bocó.

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Domingo, Janeiro 24, 2010

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. O professor e ensaísta Vítor Aguiar e Silva (n. 1939) dispensa apresentações. Mais não seja por ser o autor de Teoria da Literatura (1981). Entretanto, acaba de chegar às livrarias Jorge de Sena e Camões, obra que evoca os estudos de Sena sobre esse «símbolo maior da língua e literatura nacionais», ao mesmo tempo que reexamina «alguns problemas fundamentais da poesia camoniana, quer no plano filológico e hermenêutico, quer no plano dos valores religiosos e morais e da sua expressão poética.» Estes Trinta Anos de Amor e Melancolia estão divididos em seis partes, abrangendo temas tão diversos como os ciclos brasileiro e norte-americano de Sena, a consagração académica, as linhas teóricas e metodológicas da investigação, a empatia, scholarship e erudição, a crítica textual, etc. O volume inclui o fac-simile de uma carta (1994) de Mécia de Sena. A foto da capa, obtida durante a visita de Sena (1972) à ilha de Moçambique, é de Rui Knopfli.


Três novas moradas: o homem-garnisé..., do Rogério da Costa Pereira; Era uma vez na América, de José Gomes André e Nuno Gouveia; e Coração Duplo, da Filipa Melo.

Isabela Figueiredo: «[...] Eu gosto que me contem essas coisas, e nunca me tinha apercebido muito bem da distinção entre brancos de um lado e brancos do outro. [...]»

Pedro Vieira: «aqui ficam as minhas notas sobre o lançamento do livro Caderno de Memórias Coloniais que tanta celeuma vai levantando, afinal que é lá isso de termos uma mulher a desdizer os álbuns fotográficos bafejadinhos de nostalgia, mais aqueles romances de cordel com os pretinhos em fundo que tanto têm preenchido os escaparates das livrarias, e pior, uma mulher que fala como um catrapila, como eu dizia em miúdo acerca dos caterpillars, e ainda o digo hoje, que a sofisticação anda sempre comigo de candeias às avessas. digamos então que foi mais ou menos assim»

Porfírio Silva: «[...] não é aos criados que se deve pedir contas; é aos titulares. É uma vergonha quando os eleitos se escondem atrás de biombos.»

Rui Bebiano: «É impressão minha ou os ecos da catástrofe no Haiti, a candidatura do Manuel Alegre e os murros do Sá Pinto acabaram de vez com a pandemia da gripe A?»

Tomás Vasques: «Escutas a Pinto da Costa foram colocadas no Youtube. Há gente no Ministério Público que já há muito tempo entrou em rota de colisão com o Estado de Direito (recuso ouvir estas escutas, como recuso piratear filmes na internet).»

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RESPOSTA A PEDRO LOMBA


Pedro Lomba: «[...] Não estou a falar disto para responder ao terrorismo pessoal que vem das corporações assessoras, mas porque leio este post de uma pessoa que eu julgava respeitável como o Eduardo Pitta e fico incomodado.»

A presunção de respeitabilidade é recíproca, caro Pedro, e não uso o pretérito imperfeito. Isto dito, manifestar a minha perplexidade pelo seu incómodo. Nenhuma das minhas afirmações [assessorar membros do governo é um emprego como qualquer outro; todos temos tendência a ver o argueiro no olho do vizinho] merece tanto.

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Sábado, Janeiro 23, 2010

UM MIMO


Os portugueses, ou uma grande parte deles, sonham com museus e casas de cultura. De cada vez que um pardieiro vem abaixo, alguém se lembra que morou lá o escritor A ou a pintora B. Sirva de exemplo a polémica à volta da casa de Garrett, em Campo de Ourique, em cima da qual Manuel Pinho construiu um prédio novo. Agora voltou à baila a demolição do Cinema Europa, também em Campo de Ourique. A população do bairro exige um centro cultural. As pessoas querem cultura. De borla. O custo de tais equipamentos não os preocupa.

Vem isto a propósito do Museu da Imagem e Movimento de Leiria. O MIMO abriu há três meses mas continua vazio. Não tem nada para mostrar. Falta até instalar o posto de transformação de electricidade. Depois logo se vê. Talvez daqui a oito ou dez meses.

Se tivesse espólio, o MIMO serviria para mostrar equipamentos antigos usados no cinema (originais e réplicas). E estaria equipado com laboratórios de fotografia e restauro, arquivo de fitas e fotografia, biblioteca e cafetaria. Um dia. Para já é só um edifício.

Isto é uma anedota? Infelizmente não.

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Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

DO OUTRO LADO DA VIDA

Roubado ao Rui Bebiano. Não me considero um laurentino nostálgico, mas, desta vez, confesso que senti um arrepio... Por momentos receei surgir na imagem, nesse tão distante 1962.

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CITAÇÃO, 241


Fernanda Câncio, A verdade de quem?, hoje no Diário de Notícias. Na íntegra, para que tudo fique claro. Sublinhados meus:



«Fernando Lima, actual assessor político de Cavaco, deu à estampa no Expresso passado um texto intitulado A minha verdade e apresentado pelo próprio como um esclarecimento do caso das “escutas de Belém”. Ninguém percebeu por que raio Lima, insistentemente procurado pelos media para responder a perguntas sobre o caso que qualifica de “intriga para envolver o Presidente na luta eleitoral” mal este surgiu como resultado de uma manchete do Público de 18 de Agosto de 2009, resolveu agora — quando o assunto parecia “morto” — relembrá-lo. Diz ele que é para que “a mentira não passe incólume à história”.

Que mentiras denuncia Lima? A manchete do Público sobre as “vigilâncias” citava uma fonte da Casa Civil de Cavaco. Lima, então assessor para a comunicação do PR, admite que alguém falou ao Público, mas que o jornal “transformou uma resposta irada, ditada pelo absurdo das questões, em suspeitas gravíssimas, veiculadas por fonte oficial.” Ou seja: confirma o que o provedor do Público disse e que foi negado quer pelo anterior director do jornal quer pelos jornalistas responsáveis pela notícia: só teria havido uma “fonte”. Mais: Lima diz que a capa foi “inesperada”. O que desdiz também a afirmação do director do Público de que a notícia só tinha sido publicada depois de “uma fonte autorizada autorizar o jornal a fazê-lo”.

Uma semana sobre o texto de Lima, nenhum dos que ele chama mentirosos reagiu. Devemos pois crer nele? Não necessariamente. Afinal, a notícia cuja origem Lima admite, cinco meses depois, ter sido uma espécie de graçola nunca foi desmentida pela Presidência. Nunca. Como é que a inocência protestada por Lima, e na qual ele inclui toda a Presidência, resiste a isso? Mal. E pior ainda quando se constata que Lima esquece a existência da notícia de 19 de Agosto em que o Público veio consubstanciar a tese das vigilâncias. Aquela sobre um assessor do primeiro-ministro que acompanhou a viagem de Cavaco à Madeira em Abril de 2008. É como se esta “notícia” não existisse: Lima passa ao ataque ao DN e à manchete de Setembro de 2009 que revela, através da publicação de um mail de um jornalista do Público para um colega, uma conversa com Lima em que este lhe passou um dossier sobre o assessor. Ora não só Lima garante que o mail “não tem correspondência com a realidade” (depois de o Público ter reconhecido a autenticidade do mesmo ao anunciar uma investigação sobre a forma como chegou ao DN) como diz que “nunca houve qualquer desenvolvimento de notícias decorrentes da suposta conversa referida no e-mail”, quando toda a gente sabe que essa “suposta” conversa coincide em tudo com a notícia do Público a 19 de Agosto. Não contente com negar o inegável, Lima escusa-se a confirmar ou infirmar a existência da conversa: “Nunca revelei a ocorrência ou o teor de conversas com os jornalistas e não se espere de mim que alguma vez o venha a fazer”, diz. Isto no mesmo texto em que “explica” a primeira manchete do Público com a narração de uma conversa com jornalistas.

“Entendamo-nos. Eu sei que esta trama raia o incrível e que é um daqueles casos em que a realidade ultrapassa a ficção”, diz Lima. De facto. Só falta entender para quê mais esta peça do romance.»

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VALTER HUGO MÃE


Hoje no Público:


A década que findou viu surgir e confirmar novos autores de ficção. Até ver, Rui Cardoso Martins, Alexandre Andrade, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto e valter hugo mãe são os nomes mais consistentes, não tanto pela regularidade de publicação como pela singularidade da voz “autoral”.

valter hugo mãe (n. 1971) passou com naturalidade da poesia — uma dúzia de títulos reunidos em folclore íntimo, 2008 — à narrativa ficcional. Quatro romances num período inferior a seis anos dão a medida da ambição. a máquina de fazer espanhóis, o título mais recente, traz o selo da Alfaguara, a chancela de ficção literária da Editora Objectiva, do grupo espanhol Santillana. O livro é uma reflexão sobre a velhice: «abracei o corpo da minha mulher [...] morta que se demitia de continuar a justificar-me a vida e que, abraçando-me como podia, entregava-me tudo de uma só vez.» Com 84 anos, o protagonista conhece bem a família que tem: «a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias.» Não é pequeno mérito que o autor consiga ilustrar a realidade na sua forma mais exacta, impondo um halo de pesadelo à representação do determinismo da assepsia social.

A rotina diária de antónio jorge da silva, no equilíbrio instável dos pequenos rancores, do jogo das aparências e da lenta intuição do processo degenerativo, serve de pano de fundo a um quadro de maior amplitude: como sobreviver ao excesso de vida. Nenhuma lamechice ou deriva metonímica perturba a crueza do relato. Mesmo o tom efabulatório de certas passagens (como acontece, por exemplo, com a minuciosa descrição dos sonhos do protagonista) encaixa com precisão na estrutura discursiva.

Senhor da sua vontade, antónio jorge da silva precisa de tempo para esquecer a perda da mulher. E abomina o modo funcionário com que a filha cumpre os deveres filiais: «elisa tentava arranjar assuntos pertinentes, ia dizendo coisas e mais coisas que aborreciam os miúdos e que não precisavam de respostas.» Ao menos o filho estava longe, desinteressado das leis do parentesco (nem sequer veio ao funeral da mãe). Tudo pesado, companhia por companhia, antónio jorge da silva prefere a do esteves, igualzinho ao «esteves sem metafísica da tabacaria do fernando pessoa». Averiguar como o outro pudera meter-se dentro de um poema entretém-no ao sol.

Cada um dos vinte e dois capítulos do livro faz avançar o que resta dos dias de antónio jorge da silva, um tempo cada vez mais opressor, mergulhado em desumanidade, ignomínia, odores nauseabundos, dois dedos no cu por causa da próstata («já todos nós fomos a esse médico»), a morte da dona marta, a companhia do anísio e os cuidados do américo, «habilitado por escola nenhuma senão pela do coração».

Subitamente, tudo regressa a 1971. Ao dia em que «os pides entraram na barbearia às onze horas da manhã e levaram o rapaz, que já era um homem nos seus pequenos trintas. levaram-no sem perguntas, sem confusão.» Sempre selectiva, a memória escarafuncha os idos de 1974, num arremedo de identidade nacional: «tínhamos estado a comentar que porcaria era a cidadania portuguesa, mesmo depois da revolução e como poderia ser melhor a espanhola.» Decerto não por acaso, «as mulheres portuguesas é que faziam os espanhóis. abriam as pernas e pariam-nos a todos, esses espanhóis enjeitados, arrependidos, com vontade de voltar a casa...» Digamos que, com este livro, valter hugo mãe se aproxima a passos largos (e seguros) da maturidade plena.

As minúsculas respeitam a grafia do autor, que também assina desse modo, por vontade expressa, contrariamente ao que durante quase trinta anos sucedeu com o ensaísta e poeta americano E. E. Cummings. (Em 1964, dois anos depois da morte de Cummings, Harry T. Moore convenceu toda a gente de que ele tinha, «legalmente, mudado o seu nome para minúsculas». Mas, em 1992, Norman Friedman repôs a verdade.) Desconheço se valter hugo mãe se inspirou neste episódio mítico.

Uma nota final dá conta de que a máquina de fazer espanhóis foi escrito na Herdade dos Salgados, no Algarve, em Março de 2009, mês em que o autor ali permaneceu como escritor residente.


Sobreviver à vida, in Ípsilon, 22-1-2010, pp. 47-48. Três estrelas e meia.

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CITAÇÃO, 240


Valupi, Blogosfera - Posologia. Excertos, com sublinhado meu:


«Os blogues comuns, individuais ou colectivos, são espaços privados de expressão pessoal. O facto de serem também públicos, permitindo leitura e comentários, não anula o seu estatuto pessoal e, antes e acima de tudo, privado. Repetindo pela terceira vez: os blogues são privados e pessoais. [...]

A blogosfera não tem carência de oferta, nem nós temos pachorra para 99,99999% do que existe. Há de tudo para todos e ainda sobra. Mas ela não pode dar o que não existe fora dela. Talvez por isso haja tanta volatilidade, numa intensificação dos processos de ilusão e desilusão inerentes à vida social. Os gostos mudam, os conflitos nascem, as relações alteram-se, as ligações quebram-se. As pessoas cansam-se das outras, cansam-se de si próprias. [...]

Contudo, sem o acrescento de inteligência que resulta de ler, dialogar, debater, discutir, brincar e escrever na blogosfera, sem o convívio com a inteligência dos outros, da tua tão maior e melhor inteligência do que a minha por ser tua, ficaria privado de nutrientes essenciais para a liberdade que me rege.

Não temos de concordar uns com os outros. Basta que discordemos com inteligência.
»

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Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

COPIAR A PRIMEIRA REPÚBLICA


Tem sido instrutivo seguir a crescente irritação da opinião publicada e televisionada sobre as negociações do OGE. Decepcionada com o curso das coisas, gente conspícua fala de fantochada.

Obrigados por Cavaco a pôr em banho maria a política da terra queimada, PSD e CDS-PP vão fazendo o que podem, que é nada no caso do primeiro (o maior partido da oposição continua em estado catatónico), e arrivismo no caso do segundo. Não obstante, Portas tem o mérito de apresentar agenda própria. À esquerda, BE e PCP repetem a cartilha da praxe.

No fundo, a generalidade dos colunistas e comentadores pretende a queda do governo. Não se sabe muito bem para quê, atento o quadro constitucional. Toda esta conversa sobre as agências de rating (as quais, diz Louçã, não merecem o mínimo crédito; e os leigos concordam, tendo em vista a surpresa do subprime americano, o que se passou na Islândia, na Irlanda e no Dubai, etc.) não passa de agit prop. No dia em que Cavaco tomasse a iniciativa de um governo presidencial, a avaliação dessas agências atingiria mínimos históricos. O mercado não gosta de fantasias de recorte peronista.

O problema é que o país não pode manter em stand by o maior partido da oposição. Na melhor das hipóteses, só depois de 11 de Fevereiro (data em que o OGE será votado na generalidade) é que Manuela Ferreira Leite decide se avança para o congresso de Santana ou para as directas reclamadas (sem congresso prévio) pelas maiores distritais do partido, entre elas Lisboa, Porto, Setúbal, Aveiro, Braga e Faro. Isto sim, é insustentável. Antes de passar pela actuação do ministério das Finanças, a imagem da República é seriamente afectada nos mercados financeiros pela tranquibérnia social-democrata. Para quem tanto execra a I República, não se percebe o esforço a copiar o modelo. A menos que seja uma forma de celebrar o centenário...

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Quarta-feira, Janeiro 20, 2010

ROHMER


Ler aqui a minha crónica sobre Rohmer. Excertos:


[...] Este homem de índole aristocrática, que tanto irritou os jacobinos, refractário ao tumulto, sarcástico, impôs um estilo ático. Quem hoje se lembra que ele “foi” a Nouvelle Vague? No limite, quem hoje se lembra que ele é francês?

Há muito que o seu mundo se volatilizara, embora ele persistisse em no-lo recordar, mesmo nos filmes
“falhados”, como é o caso de Triple Agent (2004). A pouco e pouco vão desaparecendo todas as referências familiares. Rohmer sai de cena tão discretamente que talvez muito poucos dêem por isso. Não tarda, o século XX não tem uma única luz acesa.

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ASSESSORES


O admirável mundo dos assessores. Aqui. Não tem mal nenhum, as pessoas têm de ganhar a vida. Ser assessor é um emprego como outro qualquer. Conviria apenas não ver só o argueiro no olho do vizinho.

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Terça-feira, Janeiro 19, 2010

HAITI, AGAIN


Não é preciso grande presciência para admitir que a reconstrução do Haiti vai ser como a do Afeganistão e do Iraque. A única diferença é que na Era Bush já toda a imprensa europeia teria verificado a evidência. Agora, com Obama, todos fingem acreditar na ajuda humanitária. O Haiti fica ali ao virar da esquina, não tem uma classe média digna do nome (como tinha o Iraque), nem clãs tribais com poder efectivo (como tem o Afeganistão) e, nessa medida, tudo é mais fácil. Bem vistas as coisas, nem governo tem. O caos é o primeiro passo. Quando a situação estiver no ponto, os Estados Unidos varrem tudo, incluindo a equívoca influência francesa no país. As grandes corporações (indústria, banca, defesa, etc.) agradecem. Bill Clinton será vice-rei.

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CITAÇÃO, 239


Pedro Lomba, As quatro dinastias, hoje no Público. Excerto:


«[...] Em cem anos Portugal tem mostrado queda para os professores que fazem política. [...] O peso dos professores-políticos é directamente proporcional à fraqueza da sociedade civil.»


[Na imagem, Sidónio Pais, catedrático de Cálculo Diferencial e Integral na Universidade de Coimbra antes de ser Presidente-Rei.]

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Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

ELITES VS POVO


Apesar da propagada asfixia democrática, Sócrates tem contra ele quase toda a opinião qualificada. É só ler ou ouvir Vasco Pulido Valente, Marcelo Rebelo de Sousa, José Pacheco Pereira, Luís Campos e Cunha, António Barreto, Rui Ramos, Constança Cunha e Sá, José Adelino Maltez, Vasco Graça Moura, Baptista-Bastos, João Pereira Coutinho, Pedro Lomba, Henrique Raposo, João Miguel Tavares, Manuel Villaverde Cabral, Helena Matos, Medina Carreira, Vasco Lobo Xavier e Mário Crespo (o pessoal menor não conta). Todos dizem do primeiro-ministro o que Mafoma não disse do toucinho.

O povo é que não vai em cantigas. Uma sondagem da Aximage, encomendada pelo Correio da Manhã — jornal que se tem destacado pela marcação cerrada ao governo —, divulgada hoje, esclarece as preferências dos portugueses.

Perguntados sobre qual o líder partidário melhor preparado para conduzir o país:

Sócrates — 31,6%
Portas — 14,8%
Louçã — 9,9%
Manuela — 5,6%
Jerónimo — 3%

Perguntados sobre qual o político português melhor preparado para conduzir o país:

Sócrates — 21,2%
Manuela — 15,3%
Louçã — 6,4%
Cavaco — 5,7%
Marcelo — 4,6%
Passos Coelho — 2,5%
Rui Rio — 1,7%

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Na próxima quinta-feira, dia 21, pelas 18:30h, a Angelus Novus lança em Lisboa um dos seus títulos mais recentes, Caderno de Memórias Coloniais, o polémico livro de Isabela Figueiredo que em poucas semanas chegou à 2.ª edição. A apresentação será feita por mim, na Livraria Pó dos Livros.

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Domingo, Janeiro 17, 2010

NOTAS HAITIANAS


Tenho-me abstido de escrever sobre a tragédia do Haiti por uma razão muito simples: a escala do horror não se compadece com lugares-comuns ou piedosas declarações de intenção. Isto dito, um breve comentário ao voyeurismo universal.

Ao fim de cinco dias, nenhuma televisão mostrou ainda qualquer iniciativa de ajuda concreta às populações afectadas. Estou a falar de seis canais portugueses (todos, excepto a TVI24) e outros tantos estrangeiros. Só se vê propaganda, tão inócua como a imagem ao alto.

Os jornalistas fazem despachos a partir do aeroporto, vingando a honra perdida de um famoso jornalista, hoje em parte incerta, que fez directos da Guerra do Golfo (1991) a mais de mil quilómetros de distância. E o que aí vem promete ser mais indigente.

No dia 13, falava-se em meio milhão de mortos. Mas a OMS declara que o seu número andará entre 40 e 50 mil.

Um futebolista obscuro dá uma conferência de imprensa para manifestar estados de alma. Não consta que tenham entrevistado putas do Intendente para comentarem a situação das colegas oxalés (i.e., caribenhas).

Uma portuguesa no local: «Estava a trabalhar na minha tese de mestrado quando a terra tremeu.» Só não disse se a tese é sobre os Tonton Macoutes.

O avião da Força Aérea regressa ao Montijo ao fim de poucas horas. Dando de barato a leviandade dos procedimentos, para quê a visita (com direito a cobertura televisiva) do ministro da Administração Interna, depois do acto falhado? Para acentuar ainda mais o ridículo?

Os Estados Unidos têm milhares de homens no terreno. Mas a alimentação e a água são distribuídos a conta gotas porque... não estão garantidas condições mínimas de segurança!

Obama convida Bush, o tal, para angariar fundos para o Haiti. Bush, talvez esquecido do Katrina, faz um speech nos jardins da Casa Branca.

Excitada, a RTP anuncia uma reportagem da TV Globo. A reportagem é uma jornalista brasileira a realçar a valentia de um soldado brasileiro de cócoras no chão. Esgotado o plano do rapaz, a reportagem acaba. Afinal, o Brasil não é menos que os outros: defende o seu prime time.

Passaram cinco dias. Pode ser distração minha, mas ainda não vi hospitais de campanha, acampamentos para desalojados, nem equipas de limpeza dos destroços. Coisas de somenos, naturalmente.

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Sábado, Janeiro 16, 2010

FUNDAÇÃO EXTINTA


Dezasseis anos depois de ter sido criada, foi decidida a extinção da Fundação Eugénio de Andrade. Essa proposta foi apoiada por cinco dos seis membros da sua direcção. Miguel Moura, afilhado e legatário do poeta, além de usufrutuário das instalações, votou contra. Atenta a escassez dos direitos de autor, a direcção alegou incapacidade de subsistência, não obstante os apoios da Câmara do Porto e da direcção-geral do Livro e das Bibliotecas. O pedido de extinção foi solicitado ao governo em 19 de Dezembro último, embora só agora tenha sido tornado público.

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CITAÇÃO, 238


Carla Hilário de Almeida Quevedo, Adopção por casais homossexuais. Excerto final:


«[...] Reflictamos, então, sobre o tão badalado “superior interesse da criança”. Se a educação de uma criança depende de situações ditas ideais, os primeiros responsáveis pelo colapso da família são os casais heterossexuais. Quem não tem pai nem mãe merece ser condenado a uma vida numa instituição social? Qual é exactamente o problema de uma criança ser adoptada por dois homens ou duas mulheres? Como sabemos que um casal gay é menos competente na educação de uma criança que um casal heterossexual?»

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Sexta-feira, Janeiro 15, 2010

WILKIE COLLINS


Hoje no Público:


A literatura policial tem uma longa tradição no mundo de língua inglesa. De Arthur Conan Doyle a James Hadley Chase, sem esquecer Horace Mac Coy e Dashiell Hammett, dezenas de autores clássicos fazem sonhar gerações. O inglês Wilkie Collins (1824-1889) é um deles. Uma das suas obras mais apreciadas é justamente A Pedra da Lua (1868). A crítica especializada tem sido unânime a considerar que foi aqui que começou o romance policial moderno. E qualquer leitor do género verifica que o essencial da sua arquitectura se mantém. À época, o êxito foi estrondoso. Um dos que não hesitou no juízo foi T. S. Eliot: «Este é o melhor e maior romance policial escrito até hoje.»

Escrito sob a forma de diário colectivo, relata as peripécias associadas ao roubo de um diamante amarelo, «uma gema famosa nos anais nativos da Índia», conhecida por Pedra da Lua. O próprio Collins se encarrega de elucidar: «No que respeita à história do diamante, tal como é aqui narrada, [baseia-se] nas histórias de dois diamantes europeus.» O desaparecimento da pedra é analisado sob o ponto de vista de várias testemunhas: Miss Clack, Mathew Bruff, Franklin Blake, Ezra Jennings, o sargento Cuff, o senhor Candy, Daniel Betteredge e outros. Depois de um primeiro roubo, durante o assalto ao palácio de Seringapatam (na Índia), desapareceu de casa de Rachel Verinder, no Yorkshire, durante a festa do seu aniversário. Na confusão subsequente, Franklin Blake, primo de Rachel, colige os testemunhos. É ele o garante dos acontecimentos: «Seja quais forem as opiniões que os escritores expressem, sejam quais forem as peculiaridades de tratamento que marcarem, e talvez, num sentido literário, desfigurarem as narrativas que estou agora a reunir, nem uma linha será modificada...».

Como outras obras de Collins, A Pedra da Lua começou por ser um folhetim, publicado durante oito meses na revista All the Year Round, dirigida por Charles Dickens. Dickens e Collins eram amigos, foram colegas na escola de Direito e escreveram juntos alguns livros.

Um dos personagens mais curiosos do romance é o sargento Cuff — Jorge Luis Borges disse dele que é «o primeiro detective da literatura britânica» —, figura inspirada em Jonathan Whicher, o inspector da Yard que em 1860 investigou o sequestro de Road Hill. No livro, o testemunho de Cuff corresponde à sexta narrativa.

Collins pretende «estabelecer a influência das circunstâncias sobre o carácter.» Para tanto, utiliza a polifonia narrativa. O tiro de partida, se assim lhe podemos chamar, é dado por Gabriel Betteredge, o mordomo de Lady Verinder que tem Robinson Crusoe como guia: «Agora vejo, ainda que demasiado tarde, como é estúpido começar um trabalho antes de calcularmos o seu custo, e antes de avaliarmos com precisão a nossa própria força para o levarmos a bom termo.» Tendemos a concordar com este homem delicado, leitor compulsivo de Defoe, do mesmo passo que perdemos a paciência com o puritanismo de Miss Clack, uma beata com especial atração por cuecas de homem, sobrinha do falecido Sir John Verinder.

A intriga flui num registo seco não isento de ironia. Collins domina com precisão todos os recursos estilísticos, dando o registo adequado à modulação de cada uma das várias vozes. Sem se dar conta, o leitor é parte litigante do descaminho do diamante de Rachel.

No fim do volume, cinco páginas de notas explicativas, sem autoria creditada (David Blair? Sandra Kemp? outro especialista de Collins?), situam o espírito da época, as remissões literárias, bem como a vida e obra de Collins no contexto de factura do romance.

Quase em simultâneo, a Relógio d’Água publicou outra obra-prima de Collins: A Mulher de Branco.


Aqui começou o policial, in Ípsilon, 15-1-2010, p. 48. Cinco estrelas.

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Quinta-feira, Janeiro 14, 2010

NOVO LIVRO


A 22 de Janeiro nas livrarias.
Lançamento a anunciar oportunamente.

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Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

QUEM AMEAÇA QUEM?


«Carlos Santos decidiu corajosamente desvincular-se do apoio que algumas figuras [...] têm dado ao(s) Miguel Abrantes. [...] É óbvio que até pode existir alguém com esse nome — não é o que me garantem, mas isso não tem impedido que o seu username seja usado por outros. Como um dia, mais cedo ou mais tarde, terá de ser revelado

A frase sublinhada a azul foi escrita por quem?


Adolf Hitler
António de Oliveira Salazar
Augusto Pinochet
Benito Mussolini
Fidel Castro
Francisco Franco
François Duvalier
Hassan Nasrallah
Hugo Chávez
Jiang Quing
Josef Stalin
Joseph Goebbels
Mahmoud Ahmadinejad
Robert Mugabe
Um pateta

Resultado aqui.

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TODAS AO PARQUE


Há 35 anos foram insultadas de puta para cima, agredidas por homens e mulheres, ridicularizadas pela imprensa de direita e ainda por grande parte da opinião pública. Obrigadas a fugir, tiveram de refugiar-se em casa de Madalena Barbosa (1942-2008), fundadora do Movimento de Libertação das Mulheres. Passaram 35 anos. Muita coisa mudou. Mas nenhuma esqueceu esse dia. Do núcleo fundador, estiveram hoje no Parque Eduardo VII várias personalidades, entre elas Maria Teresa Horta, que discursou. Entre os presentes, sob forte chuvada, Ana Matos Pires, Ana Vidigal, Irene Pimentel, Maria João Guardão, Maria João Pires e Miguel Vale de Almeida, para só citar happy few.


[A imagem foi roubada daqui.]

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HORROR


Haiti. O horror na sua forma mais exacta.

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Terça-feira, Janeiro 12, 2010

À ATENÇÃO DE ANA JORGE


Portugal tem 600 mil desempregados. Em termos percentuais, há quem esteja muito pior do que nós, dentro e fora da Europa. Para não ir mais longe, a Espanha. Mas isso não pode servir de consolo. 600 mil desempregados é muita gente. E, até agora, do CDS-PP ao BE só ouvi sugestões de natureza fiscal a favor do empregador. Se contratar não paga isto, se não despedir não paga aquilo, e assim sucessivamente. Moral da história: pagamos todos.

E que tal triar uns milhares de desempregados, em princípio os mais jovens, pondo-os ao serviço dos hospitais civis? Provocação? Nem por sombras. Falo muito a sério. O SNS atingiu o ponto de ruptura em matéria de recursos humanos. O número de auxiliares de enfermagem é extremamente reduzido para as necessidades dos grandes hospitais. Quem nunca passou seis horas seguidas em Santa Maria ou São José, fosse das 7 da manhã à uma da tarde, fosse das 9 da noite às 3 da madrugada, não sabe do que falo.

As urgências dos hospitais permitem a entrada de acompanhantes (um por doente) porque são os acompanhantes quem guia a maca pelo labirinto dos corredores, tendo de perguntar a quem encontram de calças azul-turquesa em que direcção fica a sala A ou a sala B. Sem acompanhante, os doentes ficam esquecidos, encostados a uma parede. Um doente transportado pelo INEM é depositado na entrada da triagem, em zona de correntes de ar, e ali fica até que chegue o acompanhante. Fica 20, 40 ou 60 minutos. Fica o que for preciso, em função do trânsito caótico ou qualquer outro imprevisto. E não, não estou a falar de cor. Nem sequer de pessoas que se vão queixar de uma dor difusa no dedo mindinho do pé esquerdo.

Antes de meter o doente na ambulância, o INEM — cuja eficiência é de realçar — presta os primeiros cuidados, sujeitando o doente ou a família a um rigoroso inquérito, que põe por escrito. Inútil. Os funcionários da triagem (médicos? enfermeiros?) perguntam tudo outra vez, sem disfarçar o tédio, quando não a má-educação. Se não houver acompanhante, o doente espera. A ficha do INEM volatilizou-se no sistema.

O busílis não está no guiar a maca. O busílis está em gerir a situação de um doente de 90 anos, diabético, em maca, que saiu de casa numa ambulância, sem tempo para a dose de insulina, sem ter comido, e ao fim de três ou quatro horas ao frio está alucinado de sede e fome, ou de vontade de urinar, ou tudo ao mesmo tempo, mais as dores excruciantes, e o acompanhante não tem como resolver a situação, e não há auxiliares de enfermagem para acudir ao problema. E ao fim de seis ou sete horas sai do hospital a gritar, com sede, fome e vontade de urinar, tendo o acompanhante de telefonar aos bombeiros voluntários [«O mais que posso fazer é dar-lhe o número do telefone»] da sua área de residência, para que tragam uma ambulância que cobra 30 euros para levar o doente de Santa Maria para Entrecampos.

Estando os desempregados a receber subsídio, essa verba seria canalizada para os remunerar enquanto voluntários do SNS. (E quem diz no SNS diz noutra actividade qualquer, numa lógica de serviço à comunidade. Nestes casos, o subsídio de desemprego seria por prazo nunca inferior a 60 meses.) Cinco dias úteis de formação profissional chegavam e bastavam para os tornar aptos no apoio básico, fosse nos hospitais ou na assistência domiciliária aos doentes abrangidos pelos cuidados continuados integrados de saúde.

Custa assim tanto?

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ÉRIC ROHMER 1920-2010


Morreu Éric Rohmer, clássico entre os clássicos. Quem não se lembra de Ma nuit chez Maud (1969), Le Genou de Claire (1970) — o terceiro e o quinto dos seis contos morais; La Marquise d’O (1976) ou L’Anglaise et le Duc (2001)? Um oásis de subtileza na retórica do cinema francês. Agora acabou. Em Abril faria 90 anos.


[O retrato é de Julho de 1972.]

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Segunda-feira, Janeiro 11, 2010

UM PASSO EM FRENTE


A um ano das eleições presidenciais, uma única certeza: Manuel Alegre vai concorrer, com o apoio do BE e o previsível beneplácito do PCP. Continua por esclarecer a posição do PS. Sobre Cavaco, corre há muito a tese de que não tenciona recandidatar-se (e, não avançando, avançaria Marcelo). No entretanto, os caudilhistas com tempo de antena não abriram o jogo. Está na altura de o fazerem.

Cavaco, como a larga maioria dos seus apoiantes já verificou, não é homem de rupturas. Por inábil e desastrado que seja (o discurso de 29 de Setembro do ano passado atingiu o zénite do nonsense), não é homem para propor uma Constituição plebiscitada nem, sequer, um governo de iniciativa presidencial. Por muito que nos desagradem os statements avulsos, façamos a justiça de reconhecer que exerce o cargo by the book.

Mas não é Cavaco que me interessa. Interessa-me saber o que pensa o PS fazer. E estou naturalmente à espera de ver se os caudilhistas dão um passo em frente.

Há, neste momento, fora dos principais partidos, várias figuras com provas dadas no passado e grande impacto mediático no presente. Sirva de exemplo entre todas o fiscalista Medina Carreira. Mas estou também a pensar em António Barreto, Luís Campos e Cunha, Ernâni Lopes e Artur Santos Silva. O diagnóstico que fazem é coincidente em muitos aspectos. Mas não chega perorar nos jornais e nas televisões. Se, de facto, consideram o país atado num nó górdio, é tempo de deixarem o conforto da advocacia, da vida académica, da finança e das fundações. Dizer que os outros fazem mal, sem se proporem fazer melhor (e como), não serve de nada. Ou só lhes interessa contribuir para remover Sócrates? As eleições presidenciais são o momento ideal para se apresentarem como alternativa ao establishment. A dúzia de comentadores que os incensa diariamente tem de perceber que estas coisas têm de ter consequências. Falta um ano. Tempo de sobra para apresentarem soluções. E depois ir a votos. Se continuarem na posição de oráculos vitalícios perdem o respeito da opinião pública. Clareza com clareza se paga.

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Domingo, Janeiro 10, 2010

LER OS OUTROS


Hoje não há livro da semana. Só a capa de uma obra de 2002 (Gallimard) que diz muito do espírito da semana que agora finda.


Duas novas moradas: o Albergue Espanhol, onde escreve uma data de gente, da qual destaco José Adelino Maltez, José Fialho Gouveia, João Villalobos, Luís Naves e Pedro Correia; e o Professor José Cid, da firma Pedro & Samuel.

Ana Matos Pires: «Desonestidade pura e dura? Embirração? Ou dor de corno, Eduardo Cintra Torres? Percebo, o João é inteligente e giro, mas bastaria não estar de má fé [...] para não fazer figuras tristes.

José Fialho Gouveia: «[...] Por que razão o referendo não faz sentido? Façamos um exercício muito simples. Recuemos até 1955 nos EUA e imaginemos um referendo com a seguinte pergunta: “Nos transportes públicos, pode um negro recusar-se a ceder o seu lugar a um branco?”. Também não faria sentido, pois não? [...]»

Pedro Sales: «Não escrevemos nada no Arrastão quando Carlos Peixoto, deputado do PSD eleito pelo distrito da Guarda, se tornou conhecido ao declarar que, “se estamos a admitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, então também podemos admitir, pelo mesmo princípio, casamentos entre pais e filhos, entre primos direitos e irmãos”. / O mesmo aconteceu quando, na quarta-feira, Carlos Peixoto disse na comissão parlamentar que verificava a admissibilidade da petição a propor um referendo que, ao não especificar que o casamento de pessoas do mesmo sexo era entre duas pessoas, a questão proposta era ambígua porque podia ficar a impressão de que se está a permitir o casamento de 4, 5 ou 6 homossexuais [...]»

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DE VOLTA AO CAMPO PEQUENO?


Extracto de mensagem de um leitor:


«O Eduardo tem a noção que esse seu alinhamento institucional, é muito pouco digno de qualquer humanista e homem de cultura que se preze, e que um dia isso se vai se vai virar tudo contra si? O seu poder de crítica está completamente toldado pela baba que tece em função das suas ligações e paixões para com o poder instituído [dando] lugar a uma espécie de Riefenstahl do PS. Como é possível achar que se pode ser uma pessoa com preocupações filosóficas, humanistas e culturais, e ao mesmo tempo andar a reboque de um governo e de todo um poder instituído, que nunca deixará de ser um verdadeiro poço de contradições e de atropelos à condição humana? [...] Não me daria ao trabalho de escrever estas linhas, se achasse que o Eduardo tivesse sido sempre assim. Nesse caso, nunca o teria seguido desde o início.»

Isto quer dizer que 48 anos de partido único, censura e polícia política, mais 19 meses de PREC & COPCON, interiorizaram o espírito totalitário. Desde quando é crime apoiar um governo sufragado nas urnas? Desde quando é crime manifestar admiração pelo trabalho de Maria de Lourdes Rodrigues, móbil da reação do leitor? Desde quando, em democracia, a opinião de alguém é alvo de penalização?

No Estado Novo, como ainda hoje no Irão, no Zimbabwe, em Cuba, na Coreia do Norte, na Venezuela, na China e numa série de outros países, é que isso tudo [a opinião livre] se vira contra quem diz o que pensa e assina por baixo. Era o que faltava que não pudesse manifestar o meu apoio ao governo! Tal como seria inadmissível que as dezenas de bloggers anti-Sócrates (antes de serem anti-PS) não pudessem manifestar, nos termos em que o fazem, o seu descontentamento, não obstante serem, na sua larga maioria, funcionários públicos. E assim é que tem de ser.

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Sábado, Janeiro 09, 2010

NA FLAD


Maria de Lourdes Rodrigues, ministra da Educação do anterior governo, é a nova presidente da Fundação Luso-Americana. Criada em 1985, a FLAD foi dirigida nos últimos 25 anos pelo social-democrata Rui Machete, que agora cessa funções.

Dotada de capital próprio (cerca de 140 milhões de euros), e membro activo das principais redes internacionais de fundações, a FLAD é uma instituição de direito privado vocacionada para promover as relações entre Portugal e os Estados Unidos, nos domínios económicos, sociais e culturais. Entre 1985 e 2007 investiu 116 milhões de euros nos 12.806 projectos que apoiou. É membro do Council on Foundations (USA), pertencendo ao Conselho de Administração do Centro Europeu de Fundações, com sede em Bruxelas.

Nunca me regozijei tanto com uma nomeação. Imaginar a cara do sr. Nogueira e caterva associada é todo um programa!

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A DÉCADA EM VINTE TÍTULOS


Sete críticos do Público (Gustavo Rubim, Helena Vasconcelos, Isabel Coutinho, José Riço Direitinho, Maria da Conceição Caleiro, Pedro Mexia e eu próprio), além do antigo director do jornal (José Manuel Fernandes), escolheram os livros da década. A minha lista é como segue: *



A Torre do Desassossego, 2006, Lawrence Wright

Hitler, 2008, Ian Kershaw

Lisboa. História Física e Moral, 2008, José-Augusto França

Jóia de Família, 2001-03, Agustina Bessa Luís / Trilogia

As Benevolentes, 2006, Jonathan Littell

Amigos até ao fim, 2003, John Le Carré

Carnaval no Fogo, 2003, Ruy Castro

A Grande Guerra Pela Civilização, 2005, Robert Fisk

Pós-Guerra, 2005, Tony Judt

Shalimar o Palhaço, 2005, Salman Rushdie

Todo-o-Mundo, 2006, Philip Roth

A Paciente Misteriosa, 2008, P. D. James

Estado de Negação, 2006, Bob Woodward

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, 2007, Junot Díaz

Hooking Up. Um Mundo Americano, 2000, Tom Wolfe

Tempos Interessantes, 2002, Eric Hobsbawm

Onde Está a Sabedoria?, 2004, Harold Bloom

Shakespeare. A Biografia, 2005, Peter Ackroyd

Uma Vida Inacabada. John F. Kennedy, 2003, Robert Dallek

Brando Mas Pouco, 2006, Darwin Porter


As datas são as das edições originais. Os títulos correspondem às respectivas traduções.

* Esta lista diverge ligeiramente desta por ter decidido, agora, não incluir títulos ainda não publicados em Portugal.

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Sexta-feira, Janeiro 08, 2010

PARA MAIS TARDE RECORDAR

ACERTAR O PASSO


O Parlamento aprovou hoje, com os votos do PS, BE, PCP e Verdes, o projecto de lei do governo que permitirá o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As propostas do BE e dos Verdes, ambas prevendo a possibilidade de adopção por parte de casais homossexuais, foram chumbadas. Também chumbada foi a proposta do PSD de instituir uniões civis registadas. A petição popular, da PCC, visando um referendo, foi rejeitada.

Sócrates abriu o debate com um discurso forte. Silva Pereira fechou. A pior intervenção de todas foi a de Ribeiro e Castro, do CDS-PP. O speech que fez seria reaccionário mesmo na Assembleia Nacional de 1973. Hoje envergonhou muita gente. Miguel Vale de Almeida esteve à altura das suas responsabilidades. Louçã lembrou que as votações de hoje, as primeiras de 2010, ocorrem no ano do centenário da República. Coube ao líder do BE a frase da sessão: «Felicito-o [disse, dirigindo-se ao primeiro-ministro] por ter vindo aqui defender a lei e escusa de fazer caretas.»

Aqui chegados, é altura de parabenizar os movimentos associativos LGBT que se empenharam nesta luta, em particular a ILGA, bem como os deputados do Partido Socialista que há cerca de dez anos se vêm distinguindo na defesa dos direitos dos homossexuais: Ana Catarina Mendes e Sérgio Sousa Pinto.

Na galeria dos convidados, os laptops não paravam. Ao pé de mim, os mais activos eram Paulo Côrte-Real, Ana Matos Pires, Fernanda Câncio, Isabel Moreira e Maria João Pires. As galerias do público estavam cheias. A varanda do Salão Nobre era território de fumadores e mulheres decotadas ao sol.

Decididamente, Portugal começa a acertar o passo.

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É HOJE


O Parlamento português discute e vota hoje três projectos de lei que tornam possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo: o projecto do governo, que exclui a adopção; e os projectos do BE e dos Verdes, que permitem a adopção. É esperado que o primeiro-ministro José Sócrates faça a defesa pública da proposta do governo.

Na mesma sessão, o plenário discutirá e votará o projecto de lei do PSD que visa instituir as uniões civis registadas de homossexuais.

A título excepcional (os prazos regimentais foram encurtados e as assinaturas não foram verificadas), também será discutida a petição da Plataforma Cidadania e Casamento, visando um referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

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Quinta-feira, Janeiro 07, 2010

PONTO DA SITUAÇÃO


Conforme explicado aqui, a tramitação das petições populares em sede parlamentar é um processo moroso. Contudo, dando como adquirido o chumbo da petição da PCC (Isilda & Bacelar) pelo voto unânime do PS, BE, PCP e Verdes, mais alguns deputados do PSD, o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, em sintonia com a Comissão de Assuntos Constitucionais, decidiu encurtar os prazos do regimento (nem sequer vão verificar a conformidade das assinaturas, o que me parece um precedente leviano), fazendo em 48 horas o que, em princípio, levaria 5 ou 6 semanas. Desse modo, a petição da PCC será discutida também amanhã.

Neste momento, o ponto da situação é este: tendo imposto disciplina de voto contra a adopção prevista nos projectos do BE e dos Verdes, o PS libertou sete deputados dessa obrigação: Miguel Vale de Almeida, João Galamba, Inês de Medeiros, Duarte Cordeiro (líder da JS), Sérgio Sousa Pinto, além de Maria do Rosário Carneiro e Teresa Venda, ambas do Movimento Humanismo e Democracia. É provável que até amanhã sejam acrescentados dois ou três nomes a esta lista.

Referir, entretanto, que José Eduardo Martins, deputado do PSD, vai votar a favor dos projectos do BE e dos Verdes, contra o projecto do PS, e abster-se no projecto do PSD sobre a união civil registada.

Amanhã é o primeiro dia do resto das nossas vidas?

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VIOLÊNCIA POST MORTEM


António Bastos (1950-2007) e Raul Pires viveram em união de facto até à morte do primeiro. Quando António morreu, Raul requereu e obteve autorização da Câmara de Cascais para colocar uma lápide na campa do companheiro: «À memória de António Horta Tavares de Bastos, Toy, N1950 - F2007». Em Setembro de 2009 a lápide foi retirada, a pedido do irmão de António, José Horta Tavares de Bastos.

Face à reclamação de José Bastos, a Câmara de Cascais pediu um parecer jurídico e satisfez a sua vontade, retirando a lápide. Tudo isto se passa num país da União Europeia, onde vigora a Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio. Tudo isto se passa em Cascais, concelho onde o Regulamento dos Cemitérios reconhece legitimidade «[...] à pessoa que vivia com o falecido em condições análogas às dos cônjuges». Não obstante, a responsável pelos serviços jurídicos da Câmara de Cascais entende que, sendo a legislação que regula as uniões de facto omissa em matéria sucessória, o requerimento do irmão prevalece sobre o do cônjuge sobrevivo.

No seu artigo no DN, Fernanda Câncio conta tudo.

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MEMÓRIA, BUFARIA


Agora que o n.º 87 [Janeiro] da LER já está na rua, deixo aqui a crónica Memória, Bufaria, publicada no n.º 86 na minha coluna Heterodoxias:



Vinte anos passaram sobre a queda do muro de Berlim e a implosão da República Democrática Alemã. Nesse 9 de Novembro eu estava em Madrid. O Paseo de Recoletos era uma festa, o pessoal do Café Gijón ofereceu uma rodada de Cava aos clientes, desconhecidos abraçavam-se. A euforia foi o prelúdio do pesadelo.

O pesadelo chegou com a revelação do longo braço da STASI, a polícia política da RDA que logo nesse dia começou a destruir os arquivos. A tarefa abortou porque centenas de alemães dispostos a recuperar a memória invadiram as instalações da polícia a 15 de Janeiro de 1990. As revelações foram brutais. Cito Irene Pimentel:

«Entre 1950 e 1989, essa polícia empregou um total de 274.000 pessoas. Quando foi extinta, tinha 91.015 funcionários, além de 173.081 colaboradores não-oficiais (inoffizielle Mitarbeiter), dos quais 1.553 informadores identificados actuavam na República Federal Alemã. Dada a destruição dos arquivos da STASI em Berlim, é difícil saber ao certo quantos informadores tinha essa polícia, embora se pense que possam ter chegado ao meio milhão (1950-1989). Ou seja, informadores incluídos, a STASI terá tido um espião por cada 66 cidadãos da RDA.»

A que vem isto? À necessidade de não perder de vista o passado.

Em Portugal, perder de vista o passado é um hábito arreigado. Pensando bem, se o fascismo nunca existiu, como poderia a PIDE ter existido? Muitos não estiveram pelos ajustes. Por exemplo, a historiadora Irene Pimentel. Todos lhe devemos A História da PIDE (2007), seiscentas páginas que recuperam 30 anos (1945-1974) de informação, vigilância e repressão. Decisões, crimes, circunstâncias, operações, alvos privilegiados, nomes. Vinte páginas de índice onomástico. Retratos, organogramas, mapas, bibliografia, fichas biográficas dos principais inspectores. Não se pode apagar. Grande parte da direita, mesmo a cosmopolita, talvez preferisse o descaso. Afinal, não é de uso as pessoas respeitáveis tomarem nota de pormenores sórdidos.

Parte da história do Partido Comunista passa por aqui. Católicos, advocacia liberal, tentativas de golpe militar, extrema-esquerda, escutas telefónicas, intercepção postal, arquivos, infiltração clandestina, censura, perseguição, tortura, quotidiano das prisões. A marca de Silva Pais, Barbieri Cardoso (representante de Portugal no comité especial da NATO) e Álvaro Pereira de Carvalho. Assalto ao Santa Maria. Golpe de Beja. Furacão Delgado. Tribunais Plenários. A informatização que não veio a tempo.

Naturalmente, a legião de informadores. Em 1974, em Portugal, eram vinte mil (não inclui as Colónias). Nem todos eram lumpen. Havia intelectuais avençados. Bem como deputados, padres, médicos, advogados, directores de escolas secundárias e até um governador-civil de Santarém. Um grupo mais especializado ocupava-se da Causa Monárquica. Informação oficial registada dá conta de que «um em cada quatro mil portugueses» recebeu dinheiro da PIDE/DGS por informações prestadas. A bufaria não tem razões políticas: «o fenómeno da denúncia e da delação é um factor típico dos regimes totalitários, autoritários e de partido único.» Ontem como hoje, a delação radica em «paixões mesquinhas, rivalidades subterrâneas, sonhos de grandeza e vontade de afogar rancores privados». Simples como a água. Não admira que o universo das delações tenha carácter horizontal: «entre operários, comerciantes ou empregados». É só adaptar às novas ocupações.

Comparemos com o exemplo nazi: a partir de 1938, o volume de denúncias era tal que a Gestapo «apenas utilizou 20% das cartas anónimas». Embora dois terços do total das denúncias fossem assinadas. E nós por cá? Nós por cá fazíamos (e fazemos) denúncias anónimas.

Em 25 de Abril de 1974, a PIDE/DGS conseguiu destruir o ficheiro que indexava a identidade dos informadores aos pseudónimos usados. Tudo está bem quando acaba bem? Já podemos brincar aos dominós coloridos? Isto anda tudo ligado?

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Quarta-feira, Janeiro 06, 2010

LER 87


A LER de Janeiro já está na rua. Rui Ramos é o entrevistado de Carlos Vaz Marques deste mês. Sobre as comemorações do centenário da República, diz, entre outras coisas: «A actual democracia não tem nada a ver com a República. Os Republicanos não se reconheceriam neste regime democrático. [...] Estamos a comemorar um regime que foi odioso para uma grande parte da população portuguesa: que ofendeu, magoou, espezinhou. E vamos comemorar isso como se ele fosse um antecessor da nossa Republica. Aquilo que nós vamos ter é uma comemoração de um dos regimes mais intolerantes e mais perseguidores na História de Portugal.» Tomando como ponto de partida o Liberalismo Kung Fu, Henrique Raposo contradiz Fukuyama num ensaio de seis páginas. Filipe Nunes Vicente discreteia sobre blogues, e não são os que estão a pensar. O resto é o trivial, o que significa muito para ler, entre crónicas, recensões críticas, artigos de vária índole, uma conversa de Maria Filomena Molder com José do Carmo Francisco, William Blake, etc. Bora ao quiosque!

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GAYS CONSERVADORES


Na sua coluna Cozido à Portuguesa, no Correio da Manhã, Domingos Amaral, a pretexto do casamento entre pessoas do mesmo sexo, faz hoje uma espécie de roteiro da evolução histórica do movimento LGBT. Dando de barato algumas imprecisões, o ponto é interessante: por que é que os gays conservadores portugueses, anti-casamento, não se fazem ouvir. Conclui Amaral: «Nesta, como noutras questões, estamos ainda na idade da pedra.» Pois estamos.

Já agora, Domingos Amaral podia começar por perguntar a razão pela qual os deputados gays portugueses, com uma excepção [Miguel Vale de Almeida] em dezenas, não dão a cara. Já não digo os que são casados com mulheres, ao menos os outros. Afinal, a glaciação de Günz não é desculpa para tudo...


[Na imagem, o senador americano McCarthy, homossexual enrustido e perseguidor contumaz de homossexuais, fotografado em 1954.]

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A VONTADE POPULAR


Em Janeiro de 2004, o Movimento para um Novo Referendo à descriminalização da interrupção voluntária da gravidez (v.g. aborto), apoiado pelos partidos de esquerda e por inúmeras personalidades de todos os quadrantes ideológicos, tinha praticamente reunidas as 75 mil assinaturas necessárias para desencadear uma petição popular. Quando o processo chegou ao Parlamento, levava 123 mil assinaturas. Nessa altura, a direita deu pinotes. E fez um movimento contra o referendo.

Adivinham quem dinamizou a fronda contra o referendo à IVG? Precisamente. A senhora D. Maria Isilda Viscata Lourenço de Oliveira Pegado, advogada e antiga deputada do PSD.

Estamos conversados em matéria de respeito pela vontade popular.

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Terça-feira, Janeiro 05, 2010

REFERENDO STEP BY STEP


O Público traz hoje uma cábula útil sobre referendos. Breve resumo, adaptado, a partir do texto de Nuno Simas, na parte respeitante às petições populares.

1. Uma vez obtidas as 75 mil assinaturas, a petição é entregue na Assembleia da República. [É o que, em princípio, será feito hoje pela PCC.]
2. O Presidente da Assembleia da República tem dois dias para emitir parecer «sobre se [a petição] está em condições de ser admitida para discussão».
3. A entrega da petição não tem efeito suspensivo sobre o processo legislativo.
4. Se Jaime Gama aceitar a petição, a mesma será enviada à Comissão de Assuntos Constitucionais, que ouvirá os proponentes e outras personalidades interessadas no tema. Este processo pode arrastar-se por várias semanas.
5. Terminadas as audições, a Comissão elabora um parecer.
6. Depois de receber e analisar esse parecer, Jaime Gama leva o assunto à conferência de líderes parlamentares.
7. Obtido consenso, o projecto de resolução é agendado para discussão em plenário.
8. Quem decide o destino da petição são os deputados.
9. O PS, o BE, o PCP e os Verdes (além de vários deputados do PSD) já se manifestaram contra o referendo.

Se uma maioria de deputados votasse a favor da resolução, o Tribunal Constitucional seria chamado a verificar e corroborar a legalidade do processo. Ultrapassados esses trâmites, cabe ao Presidente da República a decisão final.

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