HISTÓRIA DA TRETA
O edifício projectado por Manuel Aires Mateus e Frederico Valsassina para o gaveto das ruas Alexandre Herculano e do Salitre, que vemos ao alto, foi aprovado pela Câmara de Lisboa em 2005, durante o mandato de Santana Lopes. Eduarda Napoleão, do PSD, era vereadora da Habitação e Urbanismo. Em 2008, apesar dos votos desfavoráveis dos vereadores do PS, a Câmara deu o dito por não dito e revogou a aprovação. Os promotores da obra protestaram. Os tontos do costume fizeram petições: estava em causa a Lisboa “romântica” (i.e., a cair aos bocados) e até ia ser “demolido” o Chafariz do Rato... Fatais, Helena Roseta, Ruben de Carvalho e o Zé que não-faz-falta deram o corpo à indignação popular.
De revogação em revogação, a coisa arrastou-se cinco anos, até que no passado dia 22 a Câmara de Lisboa deliberou (e bem) dar luz verde à obra, aprovando a emissão da licença de construção. Ontem, o Conselho Directivo Regional Sul da Ordem dos Arquitectos aprovou (e bem) o licenciamento, aplaudindo a decisão. Helena Roseta, Ruben de Carvalho e o Zé que não-faz-falta voltaram a arrancar os cabelos.
Defender a Lisboa “romântica” é não permitir a degradação do espaço público, como acontece, por exemplo, na Avenida Duque de Loulé, onde existem (até quando?) edifícios de reconhecido valor patrimonial, alguns Arte Nova, três Haussmannianos (n.ºs 86-96), vários classificados, todos em risco. No Estado Novo, ali mesmo e sem escândalo público, os prémios Valmor de 1907, 1909 e 1919 foram demolidos: o de António de Couto Abreu em 1954, o de Álvaro Augusto Machado em 1961 e o de Adolfo Marques da Silva em 1965. Transformada em via rápida, a Duque de Loulé tem buracos de extremo a extremo, árvores mortas, passeios laterais com menos de um metro de largura e a placa central atulhada de carros. O palacete do n.º 35 ainda lá está ou também foi demolido como o do n.º 126?
Descaracterizado como está, o Largo do Rato até aguentava uma mini-Défense. Deixem-se de tretas. O projecto de Manuel Aires Mateus e Frederico Valsassina é perfeitamente enquadrável naquele espaço.
Etiquetas: Lisboa, Património


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